POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL
AUTORA/ORGANIZADORA

Poesia medieval no Brasil

AROTIDE AHLI AD AROGÁ

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

Ficha catalográfica
MALEVAL. Maria do Amparo Tavares / Poesia medieval no Brasil 304 páginas – Rio de Janeiro, junho de 2002. Editora Ágora da Ilha Ensaio em português Poesia em português Poesia galega ISBN 7576 CDD 869.4 CDD 869.1 CDD 869.91

A Editora Ágora da Ilha é filiada ao Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) Copyright: Maria do Amparo Tavares Maleval (autora / organizadora) UERJ - RJ- Tel./Fax (0xx21) 25877701 Esta obra não pode ser copiada ou republicada, no todo ou em parte, sem o consentimento prévio e por escrito da organizadora. Apoio: Dirección Xeral de Política Lingüística, Consellería de Educación e Ordenación Universitária da Xunta de Galicia. CRÉDITOS: Agir Editora Ltda. (por José Martins Fontes); Antonio Manuel Bandeira R. Cardoso, José Cláudio Bandeira R. Cardoso, Carlos Alberto Bandeira R. Cardoso, Maria Helena C. de Sousa Bandeira e Marcos Cordeiro de Sousa Bandeira (por Manuel Bandeira, Poesia completa e prosa, da Editora Nova Aguilar); Celso Dantas da Silveira (por Myriam Coeli); Condomínio indivisível dos proprietários dos direitos de Cecília Meireles – direitos cedidos por Solombra Books (Obra completa e Romanceiro da Inconfidência, da Editora Nova Fronteira S.A.); Edison Moreira (herdeiros); Francisca Nóbrega; Hilda Hilst; José Rodrigues de Paiva; Maria Isabel de Almeida (por Guilherme de Almeida); Marly Vasconcelos; Onestaldo de Pennafort (herdeiros), Paulo Lebéis Bonfim (herdeiros) e Stella Leonardos. PESQUISADORES-COLABORADORES (Alunos-bolsistas de Iniciação Cientifica da UERJ): Caroline Moreira Reis, Daniele R. Laurindo, Denise Nascimento, Geórgia Barbosa Morgado, Giuliano Francesco P. da Rocha e Tatiana Monteiro. REVISÃO: Ana Maria Esteves, Maria do Amparo Tavares Maleval e Simone de Souza Braga. CAPA: Gino Christiam Rodrigues. EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.FAX: 0 XX 21 - 3393-4212 E-mail editoraagoradailha@terra.com.br

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Nossos agradecimentos à Dirección Xeral de Política Lingüística, Consellería de Educación e Ordenación Universitária da Xunta de Galicia, pelo apoio à publicação deste livro, através do Programa de Estudos Galegos, da UERJ (PROEG).

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Sumário
Maria do Amparo Tavares Maleval A tradição poética medieval no Brasil.................................9 1
1.1 1.2 1.3 1.4

Do Trovadorismo medieval galaico-português........13
Cantigas de amigo........................................................14 Cantigas de amor .........................................................15 Cantigas de escárnio e maldizer ...................................17 Cantigas de Santa Maria.......... ...................................18

2 3
3.1

Do Romanceiro hispânico........................................19 Atualizações da poesia medieval..............................22
O Neotrovadorismo .....................................................22

4
4.1 4.2

O Modernismo brasileiro e a tradição medieval........27
Mário de Andrade ........................................................28 Augusto Meyer..............................................................34

5
5.1 5.2 5.3 5.4 5.5 5.6 5.7 5.8 5.9 5.10 5.11 5.12 5.13

O Neomedievalismo no Brasil.....................................37
Onestaldo de Pennafort...................................................37 Martins Fontes.............................................................39 Guilherme de Almeida...................................................42 Manuel Bandeira..........................................................45 Cecília Meireles...........................................................48 Paulo Bonfim...............................................................54 Edison Moreira..............................................................55 Hilda Hilst...................................................................57 Stella Leonardos..........................................................59 Myriam Coeli...............................................................64 Francisca Nóbrega.......................................................67 Marly Vasconcelos.......................................................68 José Rodrigues de Paiva...............................................69

6

Conclusão...................................................................71

6

MARIA DO ARIA DO AMPARO TMALEVAL (ORG.) M AMPARO TAVARES AVARES MALEVAL

Antologia
1
1.1

Poesia medieval
Cantigas......................................................................83

Afonso Sanches...............................................................85 Airas Carpancho .............................................................87 Airas Nunez.....................................................................89 Alfonso X, o Sábio..........................................................93 Bernal de Bonaval............................................................99 D.Dinis...........................................................................101 Estevan Coelho ..............................................................107 Fernan Froiaz.................................................................109 Fernan Garcia Esgaravunha............................................111 Fernand’ Esquio................................................................113 Fernão Rodrigues de Calheiros........................................115 Johan Airas de Santiago.................................................117 Johan [de Leon]..............................................................123 Johan Garcia de Guilhade...............................................125 Johan Lobeira.................................................................127 Johan Lopes Ulhoa.........................................................129 Johan Zorro ...................................................................131 Juião Bolseiro.................................................................135 Lourenço [Jogral]...........................................................137 Martin Codax.................................................................139 Martin de Caldas............................................................143 Martin Soares................................................................145 Mendinho ......................................................................147 Nuno Fernandez [Torneol].............................................149 Pai Gomez Charinho .....................................................151 Pai Soares de Taveirós ..................................................153 Pedr’Eanes Solaz...........................................................155 Pero da Ponte.................................................................157 Pero Gonçalves de Porto Carreiro ...................................159 Pero Meogo....................................................................161 Pero Viviaez...................................................................163 Roi Fernandiz de Santiago ............................................165 Sancho I ........................................................................167

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1.2 Romances............................................................169 Romance de Gerineldo y la Infanta...............................171 La amiga de Bernal Francés..........................................173 Romance de la linda Alba..............................................175 2 Poesia brasileira neomedievalista
Onestaldo de Pennafort ..........................................................179 Martins Fontes .....................................................................191 Guilherme de Almeida ..........................................................195 Manuel Bandeira ..................................................................205 Cecília Meireles ...................................................................211 Paulo Lebéis Bonfim ...........................................................229 Édison Moreira ....................................................................233 Hilda Hilst ...........................................................................241 Stella Leonardos .................................................................247 Myriam Coeli ......................................................................271 Francisca Nóbrega ..............................................................279 Marly Vasconcelos ...............................................................285 José Rodrigues de Paiva .......................................................291

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Glossário...............................................................297 Bibliografia..............................................................301

o fizemos por vários motivos. onde poderá ser mote a ser glosado ou tema ou conclusão ou até mesmo adorno. da poetisa paulista Neide Archanjo (ARCHANJO. (Neide Archanjo) Uma epígrafe pode funcionar como ponto de chegada ou de partida em um texto. Diniz planta pinhais E em plantando escreve versos. 1984. para iniciarmos as presentes reflexões. Isto seria impossível se não fossem as duas navegações a que se refere . 53). na poesia brasileira do século XX. Ao escolhermos os versos acima. etc. pela magnífica síntese poética do que tínhamos em mente ao pretendermos mostrar a presença da poesia medieval ibérica.. Sua tarefa De rei e de poeta Só se completa Haveis de concordar Quando do tronco Brota a nau E outra navegação Então começa. notadamente galaico-portuguesa.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 9 A tradição poética medieval no Brasil Maria do Amparo Tavares Maleval (UERJ) Se vistes o meu amado Que me pôs neste cuidado Dizei-me: voltará cedo? Cercando os litorais De verdes vocábulos e gestas D. Primeiramente. p.

Fernando Pessoa. ao invés do original medievo: “Se vistes meu amado. marulho obscuro. só lamentamos que o faça utilizando-se da tradução para o português moderno feita por Natália Correia (CORREIA. p. E a fala dos pinhais. Busca o oceano por achar. O poema remete-nos para a época do rei-trovador. dotadas de cor sugestiva de riqueza (“como um trigo de Império”). Dinis pelos versos do jogral galego Martim Codax. p.) a epígrafe: a dos trovadores ancestrais. E ouve um silêncio múrmuro consigo: É o rumor dos pinhais que. Dinis. D. DINIS Na noite escreve um seu Cantar de Amigo O plantador de naus a haver. 1978. como sabemos. que no século XIII imortalizara em suas cantigas as oraculares “ondas do mar de Vigo”. acentuando-lhe os presságios do futuro Império ultramarino em belíssimas imagens (dos pinhais). através de verdes vocábulos iniciando a nossa tradição lírica. É o som presente desse mar futuro. já fora por muitos apresentado em poesia. esse cantar. 1999. Por exemplo. ao qual já pertenceram terras portuguesas. e a das caravelas portuguesas. mas este legado magnífico de uma língua e uma cultura nascidas no antigo reino de Galicia. ondulam sem se poder ver. O rei-poeta. Arroio. 40). p. ao fazer anteceder a estrofe em que exalta D. é o maior poeta português ao lado de Camões. como a Gallaecia Bracarense onde hoje se situa Braga e arredores. 1936. como um trigo De Império. Neide Archanjo não deixa de apontar-nos esta nossa origem galaica. também o representa como “plantador de naus a haver” (PESSOA. 73). movimento (“ondulam”) . É a voz da terra ansiando pelo mar. / por que ey gran coydado? / E ay Deus. que trouxeram para o Brasil não apenas sede de riquezas e de poder. 77). que. 1972. no seguinte poema: D. se verrá cedo!” (CUNHA.LA T ORAP DO OD AIRA T 10VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. jovem e puro.

que se confundem com o seu cantar de “arroio”. Portanto. como o Foro Real e as Sete Partidas. na busca do oceano desconhecido. da primeira Universidade portuguesa. demonstrara intuir a vocação marítima de Portugal e a necessidade de madeira para a construção de embarcações futuras. o que fora favorecido pelo fato de seu pai. como. Essa concepção. como vimos. Alfonso X fora também autor de cantigas profanas. ao aterrar pântanos e neles plantar pinhais. em substituição ao latim. o aprimoramento da veia poética herdada do avô. tem respaldo na História de Portugal: D. Abrimos aqui um parêntese para lembrar que este avô materno de D. voltando aos versos de Neide Archanjo. Mais que nenhum outro soberano português da primeira Dinastia portuguesa. Afonso III. documentadas à época com pauta musical e ricas miniaturas. Dinis. ficando relegada à oralidade.. retomada por Neide Archanjo. dignificou como poucos a língua-romance. traria para o interior do palácio real a escola trovadoresca do noroeste peninsular. após ter sido a língua da poesia usada por todos os poetas ibéricos (e não só). de Leão e Castela. representam o teor das cantigas e documentam usos da época. isto é. A corte do Rei Sábio teria proporcionado ao neto. cognominado o Sábio. Muito mais que isso. Dinis. D. como um mecenas. e a valorização das iniciativas em prol do desenvolvimento cultural em terras portuguesas. principalmente praticada por rudes campesinos. por exemplo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 11 e som (“rumor”. uma profusão de artistas e sábios. e ordenar o uso do galego-português em documentos. que se fixaria em Coimbra. a modo das histórias em quadrinhos de hoje. a aquisição de conhecimentos para tal. Enfim. Dinis. “marulho”). que na Galicia cairia em progressivo desprestígio. Afonsina ou de Borgonha chamada. fora um dos mais fecundos trovadores dos Cancioneiros medievos. e tendo por . além de ter sido responsável pela produção das mais de 400 cantigas de Santa Maria. os concernentes ao vestuário e aos instrumentos musicais. contribuíra de modo fundamental para a firmação da cultura que nos legaram: além de ter sido o criador dos Estudos Gerais em Lisboa. ter como sogro Alfonso X. reunira na sua corte toledana. afora textos codificadores e outros. “fala”. etc. que. compondo cantigas nos vários gêneros aí presentes.

não apenas por cantadores nordestinos. Das idas às terras magas. Dinis. enquanto poetisa. pela voz. “houve cantos.”. 1974. com “vocábulos e gestas”. mas por poetas “cultos”. D. como veremos adiante.. que.. após uma longa tradição oral. houve ritmos tons das vagas.) base tal formação do rei-poeta. 1974): Antes que o de mim errasse Nas vogais vogando vagas E consoantes azuleantes Do litoral que me indaga. outrora. uma das grandes cultivadoras do gênero no Brasil. teria ele o que exportar para a nossa terra: uma língua que ajudou a firmar e uma tradição lírica. . já que. p. ibérica.LA T ARIA DO OMPARO T 12VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. épico-lírica: os romances.. da mesma forma que o rei-poeta. Meus ontens marejam no hoje Sobrevivências de saga. das caravelas.. refundidos e recriados. Para terminar com poesia esta introdução com poesia iniciada. Mas as caravelas trouxeram. 3-4).. pelo canto dos colonizadores pioneiros. Dos idos mares-magia. foram documentados pela escrita. coletiva. que serve de introdução ao seu Romançário (LEONARDOS. (LEONARDOS. e a cultural. precedendo-a. Antes que eu – ai! – naufragasse Nas contas – como nas fragas De desgostos incontáveis – Houve ritmos tons das vagas. um tipo de composição anônima. por elas tornada possível. invocaremos versos do poema “Alumbrado vaguear”. Houve cantos me contando De maravilhosas plagas. Comprova a perenidade das duas navegações a que se referiu Neide Archanjo: a material.. e “no hoje / sobrevivências de saga”. nos séculos XV-XVI. primeiramente. de Stella Leonardos. Stella se inscreve na tradição do Romanceiro hispânico. Dessa forma. trabalhando. da qual foi um dos mais fecundos construtores. E o são ainda hoje.

“falar” (MACHADO. Do Trovadorismo medieval galaico-português Iniciaremos lembrando que por Trovadorismo é nomeada. de versos curtos. daí. correspondendo ao francês trouver. fazer comparações. primeiro trovador em langue d’oc. como o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. do latim vulgar tropare. 5. do greco-latino trorus. cantigas de vilão (de origem não fidalga). regida por normas rígidas coligidas nas Artes de trovar. Do final deste século XII datariam os primeiros poemas escritos em galaico-português que se conhece. Pedro. denominou-se “cansó” nos territórios localizados ao sul da hoje França e “cantigas” na Península Ibérica. donde “inventar” e. embora também praticados por nobres. geralmente redondilhos. em tudo diversa do que hoje se entende por “trova”. A escola trovadoresca ibérica foi certamente favorecida pelas peregrinações a Santiago de Compostela. com a acepção de falar figuradamente.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 13 1. 1989. deduzido de contropare. embora incompleta. Tais composições apareciam ao lado dos vilancetes. p. Sua origem procede. inclusive Guilherme IX da Aquitânia. contendo. filho bastardo de D. a produção dos fidalgos trovadores. por sua vez. Delas participaram muitos dos poderosos da época. Dela divergiam também. ao italiano trovare. que tiveram o seu apogeu no século XII. Mas infelizmente só muito posteriormente seria feita a recolha da maior parte da produção trovadoresca. com a morte do conde de Barcelos D. por volta do século XV. Ambos são cópias italianas do . as “trovas” e “cantigas” que foram documentadas nos cancioneiros ibéricos tardomedievos. por ser a escrita uma prerrogativa das classes altas. composição de cunho popular. Essa produção medieva. publicado em Portugal em 1516. O termo trovar derivou do provençal trobar. compor versos. na Idade Média central. figura de retórica. Dinis. 346). ao que tudo indica. ao catalão trobar. terminando a sua documentação por volta de 1350. nos Cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional de Lisboa (antigo ColocciBrancuti) – este. ou até dançada. proporcionando interações culturais várias. uma Arte de trovar. o mais completo de todos. em fins da Idade Média. v. derivado. feita para ser musicada e cantada.

ricamente iluminados e com pautas musicais. ou pelos jograis que. por Harvey Sharrer. Dinis com as pautas musicais. e outras muitas o tema da morte por amor. sendo que o trovador Johan Garcia de Guilhade acrescentaria a esses dados o dos “olhos verdes”. inaugurando uma longa tradição que até os nossos dias perdura. a poesia em langue d’oc sofreria a perseguição da Igreja. Algumas poucas vezes. e algumas miniaturas. os trovadores expressarão a sua alegria (a joi provençal) por amar. somente se encontram praticamente intactas no Pergaminho Vindel. As notações musicais.1. Compostas pelos nobres trovadores. junto com os menestréis. do século XIII. esbelta (“delgada”) e clara (“alva”). Dinis.M ORA MA OD AIRA T LA 14VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. cortes senhoriais diversas. as de amigo e as de escárnio e maldizer. a sua coita. praticado no sul da hoje França. estas reunidas em seu Cancioneiro específico. 1. contendo este apenas cantigas de amor. Nelas se fazem nítidas as influências do Trovadorismo occitano ou provençal. masculinas. romarias. como ficou mais conhecido. anteriores a D. notadamente a dos cátaros ou . as apresentavam em feiras. o trovador expressa via de regra a sua renúncia ou sua dor.) início do século XVI. Da época do Trovadorismo são apenas os códices das Cantigas de Santa Maria alfonsinas. e o Cancioneiro da Ajuda. Cantigas de amor Nas cantigas de amor. provocada pela sintomatologia amorosa e pela indiferença. pela falta de mercê da dama. Após o apogeu alcançado no século XII. em seis das sete cantigas de amigo de Martim Codax.. Apenas recentemente. como já lembramos. desta louva as virtudes e a beleza sem par. mas sem particularizar-lhe o físico: sabemos que é jovem. em 1990. no que concerne à música profana. etc. na Torre do Tombo de Lisboa. foram descobertas sete fragmentadas e mal conservadas cantigas de amor de D. feitas por iniciativa de Angelo Colocci. tinham como gêneros predominantes as cantigas de amor. da senhor inalcançável. além de outros gêneros ou sub-gêneros menos explorados e das cantigas de louvor e milagres da Virgem. que à época combatia a heresia sob todas as suas formas.

a saudade provocada pela sua ausência. Mas o amor profano continuaria a ser cantado na cantiga de amor galaico-portuguesa que. em poder de concentração”. de um a quatro versos). p. exprimiam anseios amorosos. também pelos mesmos autores dos demais gêneros. a serem objeto do respeitoso culto prestado à mulher incorpórea das cantigas de amor. tinham por interlocutores a mãe ou as irmãs ou o próprio amigo ou algum elemento da natureza ou da religião. Antes. daí o culto à dame sans merci da cansó ter sido canalizado para o culto à Virgem. etc. muito embora escritos. o amor como um serviço militar. 54). ou sob as avelaneiras frolidas. amigo chamado. principalmente nas paralelísticas. o desejo de encontrar ou reencontrar o namorado. definidos na Arte de trovar. p. o dobre (repetição paralela de uma palavra na estrofe). A maestria dos provençais serviu de paradigma para os compositores ibéricos. Exercendo um papel ativo no processo de sedução. como a fiinda (remate da cantiga. 1999. não-palaciana.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 15 albigenses. delgadas. alvas. onde. essas técnicas “ganham. 47-61. o mordobre (repetição de vocábulos através de formas derivadas) e a palavra perduda (verso que não rima com outros na estrofe). segundo as regras da fin’amors.. As marcas occitanas se fazem presentes em muitos recursos. como ressalta Yara Fratescchi Vieira (VIEIRA. propugnava a vassalagem amorosa. típico da poesia popular. 97-98) . Cantigas de amigo As cantigas de amigo se filiam aos cânticos femininos de extração autóctone. mãe de Jesus. as jovens solteiras. 1. nos seus adros. todas igualmente belas. Em estudos anteriores (MALEVAL. Nelas. dirigiam-se às fontes e ermidas. Se “menos variadas do que as provençais”. bailavam para atrair os jovens com a sua beleza e desenvoltura. que muitas vezes conseguiram furtar-se ao uso do refrão.2. alguns deles decorrentes do contágio com a poesia feminina autóctone. por outro lado. não se limitavam. 1992. e apresentando por vezes uma clara influência da cantiga de amor. que hoje conhecemos sob a denominação de amor cortês. embora com matizes ibéricos. ainda que documentando a tradição.

LA T ARIA DO OMPARO T 16VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. as ondas do mar são não apenas oráculos consultados pela jovem desejosa de novas do amigo ausente. literal ou de palavras. Esses antigos cantos de mulher foram. afora esta e outras imagens evocadoras de uma sensualidade que persistira a par da ação coercitiva da Igreja.. Assim. se não foram os únicos praticados na Europa medieval. cantigas de fonte. sua pouca variação interestrófica aproximam a poesia das formas ritualísticas da magia. A estrutura paralelística dos dísticos (geralmente seis a oito estrofes. também. estrutural ou sintática e rítmica. relacionada com o culto ao deus com chifres de veado. a fonte deixa de ser exclusivamente lugar que propicia o abastecimento de água doméstico. e apontam as suas origens imemoriais. Esta imagem do cervo é típica do paganismo hispânico e. a magia. facilitadoras da memorização – como o leixa-pren e o refrão –. Portanto. barcarolas. isto é.. fora. representada na Bíblia como termo comparante do enamorado. de significação ou conceito. por sua vez representado na imagem do cervo nas cantigas de Pero Meogo (AZEVEDO FILHO. que se reduzem à metade. 1995). e mental ou semântica. apresentam características que os distinguem dos demais – dentre elas. por ser necessária à reprodução e manutenção do grupo.) já destacáramos a antigüidade desses cantos de mulher. ou onde as roupas são lavadas. não são estranhos à sua composição o céltico alálá e as técnicas do paralelismo. onde cântaros são enchidos. Assim. se levada em conta a unidade de sentido de cada par) seguidos de refrão. e principalmente. buscada pelo amante sedento. também a música e os aspectos formais dessas cantigas dão provas da sua ancianidade.. Enfim. a natureza. os quais. bem como outras formas de repetição. as imagens através das quais se insinua um sensualismo desconhecedor das noções de pecado ou culpa trazidas pela Igreja cristã. fomes e guerras. bailadas. de romaria. para se transformar em ponto de namoro e símbolo da sexualidade e fecundidade femininas. o Cernuno dos celtas. marinhas.. de acordo com os locais ou circunstâncias que representam. constantemente ameaçado por peste. também chamados. de . a religião e a sexualidade se congregam nesses cânticos. acrescentamos. mas elementos evocadores/incitadores da libido ou locais do banho de amor preparador do encontro amoroso.

em ‘cantigas moçárabes’. e não rural. por exemplo. além de apresentarem situações e emoções mais variadas que as da cantiga de amigo. gênero nobre utilizado para a crítica social. já que considerados de caráter licencioso. os que se dedicavam a cantar/servir mulheres indignas de culto pela sua posição social. feitas por poetas aristocráticos. Também eram cânticos amorosos expressos em voz de mulher. Através de grande . pessoas. atacavam. as prostitutas. Ressalta ainda a especialista o caráter reelaborado de muitas cantigas de amigo. a sua ambientação é urbana. p. como as amas de meninos (uma vez que as regras do amor cortês determinavam que a mulher teria de ser hierarquicamente superior ao homem para ser por ele servida). as cantigas de amigo diferem essencialmente das carjas moçárabes. usadas como remate de poemas (muuaxahas) por poetas hispano-árabes ou hispano-judeus dos séculos XI a XIII. Algumas poucas se aproximavam do sirventês provençal.3. Justamente na sua especificidade simbólica. mas. esta ter-se-ia “diversificado segundo os contextos sócio-culturais: em ‘cantigas de amigo’ no Noroeste. 1992. As carjas eram pequenas composições de caráter popular em língua romance arabizada. condenados pela Igreja em vários documentos eclesiásticos. Mas a maioria apresenta um modo bastante rude ou burlesco de caricaturizar ou atacar. 48-49). os cavaleiros covardes e desleais. do duplo sentido). ainda que baseados na tradição popular (VIEIRA. moral ou política. que muitos julgavam as suas ancestrais. Cantigas de escárnio e maldizer As cantigas de escarnho e maldizer. Serviam-lhes de alvo. Já Yara Frateschi Vieira opta por “supor como provável a existência na Península Ibérica de uma poesia feminina prétrovadoresca”. Scudieri-Ruggieri (1962. p. principalmente através da aequivocatio. também compostas pelos mesmos autores dos demais gêneros. 7-33) defende a ancianidade dos cantos de mulher galaicos. tipos sociais e instituições.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 17 resto. direta (as de maldizer) ou indiretamente (as de escarnho. na Espanha muçulmana”. que teriam sido levados para a Andaluzia por escravos galegos. muitas vezes sob forma de tenção (desafio ou debate poético). 1.

e cantiga-prólogo em que este se assume como seu “trobador”. por ela abandonando o “trobar” por qualquer outra dona. por exemplo. é conservadora em relação às fontes. muito embora por vezes rivalizem com os “miragres” de Santiago. mostra-se confiante na sua mercê.NITHKAB( ”ralupop .ARIEIV . Via de regra.levárimda lacixel azeuqir amu ed e samrof e samet ed edadeirav -num od osrever o maicnuned . apresentado como o cantor devoto de Maria. mesmo que nela tivessem colaborado numerosos poetas que lhe freqüentavam a corte.p . Cantigas de Santa Maria As Cantigas de Santa Maria foram documentadas em quatro pergaminhos de finais do século XIII. Na “Pitiçon”. se considerarmos também as cantigas de festas não exclusivamente marianas). De qualquer forma. a narração dos milagres.ocserielavac e sêtroc od -ep adartlif“ euq omsem . cantiga que só não aparece na edição mais suntuosa.)7891 . embora incompleta. senão na composição integral das cantigas. A autoria das cantigas vem gerando especulações que ora tendem para o reconhecimento de Alfonso X apenas como autor das cantigas autobiográficas.4. no galardão que ela “dá aos que ama”. estes aparecendo de dez a dez cantigas.2991 . inclusive. ora para a aceitação do seu papel fundamental. a modo de epílogo é retomado o objetivo do(s) compositor(es): a recompensa celestial. compostas por narrativas de milagres e louvores à Virgem. desiguais quanto ao número de composições. especialmente as latinas. como talvez Airas Nunez. Os “loores” apresentam uma rica variedade de formulas métricas. foi o Rei Sábio responsável pela maior coletânea medieval de poesias dedicadas à Virgem. na seleção do tema.M ORA MA OD AIRA T LA 18VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. Tornado cantor exclusivamente da Virgem.)45 .) . aparece não apenas como sujeito . Alfonso X. feita de forma breve e respeitosa. que aparece mencionado em uma nota marginal do códice. atividade à qual é imprescindível “entendimento” e gosto.ARIEIV( ”sacitárcotsira seõçnevnoc sal 1. e os “miragres” seguem o esquema do zejel ou do virelai. no modo de o tratar e na revisão do texto. A coletânea é antecedida por cantiga biográfica de Alfonso X. São 420 cantigas (ou 427.edadinecsbo à odnecsed orar oãn acimôc arutluc“ a moc es-odnanoicaler .

a partir dos séculos XIV (raros) e XV até à segunda metade do século XVII. 1989. como. quando passam a ser depreciados pela estética neoclássica e relegados à oralidade. derivado de romanicu-) fora de início usado para designar a língua vulgar. Do Romanceiro hispânico Um Romanceiro é. 5.oãçavlas aus à odnasiv . documentados na Península Ibérica.sêugutrop-ogelag me osserpxe .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 19 . oposta à língua culta que era o latim.)4821( otnem siam sotnemucod sod mu é onairaM orienoicnaC o .sarutainim od aeruá acopé ad larutluc-oicós otxetnoc od sotelpmoc . A matéria coligida nos Romanceiros são poemas épico-líricos breves. a língua vernácula. II. Composições tipicamente espanholas. que não devem ser confundidos com o gênero literário. tendo por base a tradição oral. também narrativo.soãs -atset ed sévarta .aossep aus à sergalim snugla odnanoicaler avitatroxe ahlocer a anitsed . na França. p. finalmente. e.odatlupes áres euq me ajergi à onairam otluc od saus sad e siacisum seõçaton saus sad sévartA . 1966. sendo que o termo romance (do adv. muitos deles em versos. no século XVII. o termo tomou o sentido de “conto”.sociríl sotxet me -etroc e serailimaf a . depois.mif roP . resultando o termo sinônimo rimance. em Portugal. de “romance de aventuras”.sovitarran sameop me meganosrep omoc sam . não foram originariamente exclusivas da Espanha. o Romanceiro de Almeida Garrett (GARRETT. a língua derivada da latina. também aí. ressurgem no século XIX em coletâneas. uma vez que podem ser considera- . e. romântico-burguês-nacionalista. assumiria o sentido moderno (MACHADO. embora mais extenso e em prosa. para só citarmos um exemplo. 113).ocirébi omsirodavort 2. v. Também não se trata das línguas regionais surgidas na Europa romanizada. 677-1094). p. latino romanice. v. promovendo a contaminação dessa palavra com rima. Sob os ímpetos democrático-nacionalistas do Romantismo. que representou como nenhum outro o século XIX. No século XV. obviamente. como muitas narrativas eram na Idade Média escritas em romance. uma coleção de romances. designaria as narrativas de cavalaria em prosa. Mas.

eram cantados “al son de un instrumento. versos de dezesseis sílabas com assonância monórrima. usam os dísticos. Isto porque. Isto porque os romances hispânicos não apenas se constituíam de fragmentos de canções de gesta. afastando-se das formas estróficas dos velhos poemas germânicos. as baladas e viser apresentam estrofes de dois a quatro versos geralmente. Este fato. la versificación épica”. sérvios. alemães. Originalmente. pelo uso do fragmentarismo como procedimento literário (MENÉNDEZ PIDAL. finlandeses. No entanto. p. dos franceses. por exemplo. 1946. ou ainda de serranilhas. ainda. 18). a sua especificidade se observa por “usar exclusivamente. Evidentemente que hoje esses poemas não mais se subordinam necessariamente à música.. E. más tradicionalista en mantener en actualidad un viejo género literário” (1946. na escrita ou na boca de poetas de diversa formação. sea en danzas corales. etc. etc. 10). Também o caráter ético e tolerante para com o inimigo (judeu. mas caracterizavamse pelo corte brusco. preferentemente à ausência de divisão em estrofes. pelo menos em suas versões ditas “cultas”.LAVELAM SERAVAT ORAPMA AD AIRAM AVARES MALEVAL MARIA DO O MPARO T 20 (ORG. na apreciação do erudito especialista que vimos citando. isto é. e as canções épicolíricas francesas. 1946. Os romances. incitador da imaginação do receptor.. mouro.. italianos. o poco menos.) distingue-o de outros. más ilustres que los de la canción épico-lírica de los otros pueblos” (MENÉNDEZ PIDAL.) das suas congêneres as viser suecas e dinamarquesas. Mas nas versões “populares”. 26-29). “revela una vez más las condiciones especiales de sus orígenes. certos cantos franceses. nenhum país foi “más tenaz. como é o caso das que serão aqui coligidas. lembra ele. ou de crônicas. 1946. p. gregos. o acompanhamento musical ainda se perpetua. sea en reuniones tenidas para recreo simplemente o para el trabajo en común” (MENÉNDEZ PIDAL. provençais ou piemontesas. etc. tercetos. 9). p. as baladas inglesas e escocesas. p. revivem hoje inclusive no Brasil. embora também empreguem as monórrimas das gestas. segundo a competente argumentação de Ramón Menéndez Pidal. . etc. e se prestavam à divulgação dos acontecimentos histórico-políticos (e outros) da época. nem mais original. documentados também em Portugal e nos países de colonização ibérica. por exemplo as dos cantadores nordestinos.

às lutas cavalheirescas do Voto do Pavão e aos sonhos do domínio cristão nas terras onde Cristo nascera (CASCUDO. passou ao plano popular. em relação aos temas bélicos. como para toda a América espanhola. e não “poesia democrática e vulgar. já que no Brasil fecunda foi a herança de Carlos Magno no cordel nordestino. alheios aos motivos fidalgos. 133). pela memória do colonizador. cantadas e trazidas para o Brasil. mas não da memória colonial. foram originalmente “feitos para o canto nas cortes e salões aristocráticos”. E hoje documentam-se em inúmeras publicações. anônima e coletiva. . feita para o povo”. buscando os efeitos da emoção do lirismo do amor. e neste caráter o romance teve voga extraordinária. de luta e de conquista. o Romanceiro ibérico na Bahia (ALBÁN. temas sempre sensíveis e poderosos no espírito popular. com Walter Scott. etc. A gesta militar de outrora. Na segunda metade do século seguinte. ALCOFORADO. para só citarmos um exemplo de herói guerreiro perpetuado na nossa literatura de cordel. época também da conquista do Brasil. ou na Inglaterra. versificados ao sabor do gosto popular. Cremos que o folclorista quis acentuar a hegemonia. dentro dos metros e modelos passados. mas fiéis aos tipos antigos. 1974. número e heterogêneo. e o foram até o século XVIII. 1996) – aos poetas ditos “cultos”. no Romanceiro popular. p. É importante assinalar que a voga do Romanceiro ocorreu em Portugal no século XVI. Passaram as assonâncias e tonâncias às rimas simples. que vão desde a literatura de cordel ou ao registro de pesquisadores com base na oralidade – por exemplo. quando saíram do uso. epopéia nacional.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 21 Segundo a conclusão do mestre folclorista Câmara Cascudo. não a exclusividade dos temas amorosos. Os romances vieram para aqui cantados. a exemplo do que ocorria em Portugal através de Almeida Garrett. como os que adiante registraremos. Mas no século XVI a recriação foi um processo de acomodoção ao gênio popular e muitos motivos surgiram. começam a ser registrados no norte. LEONARDOS. o poema nacional ao gosto de Laveleye..

reunidos em sua maioria na presen- . p. 163-203). 2000. Onestaldo de Pennafort compôs um pequeno Romanceiro. uma vez que cada par de versos forma sintaticamente uma só frase. muito embora em romances mais recentes ocorra a rima consoante. 1954. estabelece-se de forma alternada. publicaria o seu Romançário. geralmente duas duplas de versos formam um bloco quaternário. 259-287). na verdade blocos de tamanho aleatório geralmente compostos por versos de mesma rima. nos anos setenta.) Quanto à forma. ou setessílabos pela nossa (com uma oitava átona facultativa). delimitado por ponto ou ponto-e-vírgula. Atualizações da poesia medieval Deixaremos de lado maiores cogitações sobre a fortuna do Romanceiro no Brasil. tendo já focalizado aspectos das mesmas em estudo anterior (MALEVAL. e as estrofes são de tamanho variável. renovaria o gênero com o Romanceiro da Inconfidência (1989). em 1923-1931. Destacamos que. Deixando de lado por ora o gênero e seus outros cultores. somente nos versos pares (xaxaxa). também chamados de redondilha maior. p. os romances se compõem predominantemente de versos octossílabos pela contagem castelhana. 1980.MARIA DO OD AIRAM LAVELAM SERAVAT ORAPMA AMPARO TAVARES MALEVAL 22 (ORG. como tal denominado (PENNAFORT. Stella Leonardos. irregulares. referindo-se a poemas do galego Bouza-Brey (BOUZA BREY.1. O Neotrovadorismo Antes de passarmos aos poetas brasileiros que podem ser incluídos no Neotrovadorismo. líder do Modernismo brasileiro. p. 3. O tipo de rima mais típico é a toante. O nosso objetivo é lembrar apenas algumas das recriações de romances por poetas eruditos no século XX. mas ocorrem também blocos de dois ou mais versos. Cecília Meireles. incluído o próprio Mário de Andrade. 3. Este modo de realização rímico reforça a estruturação binária do verso. na década de 50. 47). vamos nos ater à tendência que Manuel Rodrigues Lapa denominou Neotrovadorismo. Além do mais. documentada em numerosas recolhas da tradição oral. Muito raramente apresentam refrão.

já se referia a esse prestígio lingüístico como coisa do passado (LÓPEZ DE MENDONZA. pondo em evidência o cantar das origens. dos áureos tempos da hegemonia cultural galega na Península Ibérica. em 1745 (ALONSO MONTERO. 1980. tornando-o um fenômeno também original. p. a referência feita pelo marquês de Santillana ao apogeu trovadoresco. unificada pelos Reis Católicos em fins do século XV. e o da Ajuda em edição crítica de Carolina Michaëlis de Vasconcellos (1904). 1992. cujo Estatuto de Autonomía para Galicia. Tomando Franco o poder. Surgira estreitamente ligado ao Partido Galeguista. surgiria a par das vanguardas literárias acontecidas no pré-Guerra Civil Espanhola do século XX. uma vez que sem manifestos ou outro tipo de doutrinamento – não fora meramente saudosista do esplendor passado. quando o galego fora língua literária de prestígio. Embora heterogêneo. de 1936. Condestável de Portugal. refrán. 30). pode ser definido como. Apesar da sua importância. além de autóctone. a ponto de causar espanto ao erudito Padre Sarmiento. Pedro. dirigida a D. ligado a questões de identidade. Tal movimento neotrovadoresco – se é que podemos assim caracterizá-lo. p. o Trovadorismo galaico-português ficara por séculos envolto em densas trevas. Aí. leixa-pren. em carta-poêmio de meados do século XV. achamos conveniente observar as peculiaridades do mesmo na Galicia ancestral. antes de a Galiza ser submetida a séculos de silenciamento ditado pela centralização do poder na Espanha. p.) co espírito do século XX” (BOUZA BREY. O marquês. na síntese de Xosé Manuel Enríquez... extremamente propício ao sentimento de nacionalidade. 1995. a sua política centralizadora sufocou com mãos de ferro as manifestações do . o de ColocciBrancuti em edição paleográfica de Molteni (1880) e crítica de Braga (1878). E os Cancioneiros medievos somente a partir de fins do século XIX seriam publicados – o da Vaticana em edição paleográfica de Monaci (1875). Nele se uniriam as audácias metafóricas da poesia moderna com as velhas formas de expressão lírica. II. 218).POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 23 te Antologia. de preocupação com a terra que dominava então o contexto sócio-político-cultural galego. 18-19). se viu frustrado por motivo da Guerra Civil. uma “recriación do universo poético medieval (ambiente e recursos formais: paralelismo.

Portanto. só recentemente divulgada (FERREIRO. quando se forjavam as línguas do Ocidente. através de autores vários. 36). e Herba aqui e acolá. Dona do corpo delgado. como um dos primeiros recriadores da poesia medieval. motivado por um namoro com uma jovem de ascendência galega. 1997. que desenvolvemos em lugar próprio (MALEVAL. Deixando de lado outras especificidades do Neotrovadorismo galego. 1999. 232). mesmo sofrendo um compreensível processo de desgaste. expostos intensivamente aos perigos da massificação globalizadora. o “movimento” conseguiria sobreviver. retrocedendo às origens medievais. fragmentando o que parecia tendente a desaparecer na globalização aludida. em 1905. p. até os dias de hoje.) socialismo e do anarquismo tão profusas na Espanha da época. escritos em 1911. foi o principal cultor e cânone seguido em fases posteriores. mas publicados apenas em 1987). quando ocorriam movimentos pró-autonomia regionais. intitulado “Poemeto da vida”. observados na atualidade. brasileiros. e Seitura. já que. p. a Galiza é uma das vozes que buscam firmar a sua diferença essencial. 1950. 1933. 1955) e Álvaro Cunqueiro (Cantiga nova que se chama ribeira. Constituem verdadeiros “bolsões de resistência” à descaracterização político-cultural. O primeiro seria o seu criador. p. 1998. a par dos avanços tecnológicos que tornam cada vez mais possível a internacionalização da cultura. Nesse contexto. 81-103). mas que somente seria publicado em 1930. o catalão Carles Riba (Cantares d’ amor e d’ amigo. 1979) são os representantes mais significativos dessa “fase histórica” do Neotrovadorismo galego (LÓPEZ. fatores por excelência de identidade de cada povo. Quanto a Cunqueiro. ter escrito uma “Cantiga trobadoresca al estilo de Johan Zorro”. apesar de Eduardo Pondal. o Neotrovadorismo galego inscreve-se nos movimentos de afirmação das identidades regionais reprimidas em maior ou menor grau desde o advento das Nações. lembramos que foram decisivas. Também Johán Vicente Viqueira fora autor de poema datado de 1919. exemplo a ser seguido por nós.LA T ARIA DO OMPARO T 24VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. em que são evidentes os traços formais e topológicos das cantigas de amigo paralelelísticas. Lembraríamos ainda. para essa retomada . 1933. Fermín Bouza Brey (Nao senlleira.

Myriam Coeli (Cantigas de amigo. Amor em Leonoreta. e José Rodrigues de Paiva (Cantigas de amigo e amor. da UERJ. e José Rodrigues de Paiva. 1954-1958). e Francisca Nóbrega. Ou ainda as ressonâncias do Trovadorismo em poemas de Neide Archanjo (As marinhas. p. Lira paulistana 1944-1945). 1922. mantendo-lhes as diferenças. Stella Leonardos (Amanhecência. Edison Moreira (In Cais da eternidade. Mafuá do Malungo. Onde a terra se acaba e o mar começa. sem levar em conta o grau maior ou menor de mimetismo por eles estabelecido na recriação de tópicos e/ou técnicas do Trovadorismo medievo: Afonso Lopes Vieira (In Canções do vento e do sol. Jorge de Sena (In O físico prodigioso. silêncio e sonho. que possibilitam a universalização da cultura. 1929). respectivamente. Paulo Bonfim (In Antônio Triste. Martins Fontes (In Sombra. Cecília Meireles (In Mar absoluto. 1917. 1941. 1944-1947). Citemos alguns nomes (e obras). via de regra movidos por uma auto-consciente intertextualidade que faz dialogar. que as tornara acessíveis a um público mais vasto. da UFPE –. Cantiga do desencontro. 1933). 1946. em 1928 e 1932. 1948). ou pela demanda das origens e do exótico. principalmente as Cantigas d’amigo e de amor editadas por José Joaquim Nunes. 1981). Manuel Bandeira (In Lira dos cinqüent’ anos. 1987-1988). Nadiá Paulo Ferreira. ex-professora da UFC. 1984). 1985). Mário de Andrade (In Remate de males. Fiama Hasse Pais Brandão (Barcas novas. 1940). 1945. Augusto Meyer (In Poemas de Bilu. 1960). 1922-1931). in Poesia vária. da UFRJ (MALEVAL. 1967). 1944.157-165). O jogral e a rosa. . País Lilás. Marly Vasconcelos (Cãtygua proençal. sem ser iletrado. 1911. 1974). 1964). as publicações de matéria trovadoresca.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 25 poética do medievo. o presente com o passado. 1954). 1951. 1996. como – além dos já citados Marly Vasconcelos. Onestaldo de Pennafort (In Espelho d’água. Ilhas de bruma. 1951). Sabe-se que. mesmo antes das atuais conquistas da tecnologia. Hilda Hilst (Trovas de muito amor para um amado senhor. Guilherme de Almeida (Cancioneirinho. para não falar de alguns professores universitários brasileiros que vêm experimentando fazer poesias-leituras dos cantares arcaicos. também portugueses e brasileiros poetaram ou buscaram poetar sobre temas e/ou à moda dos cantares medievais galaico-portugueses – ou por experimentalismo.

Ou a de María Teresa López Fernández. embora se baseie em edições preferentemente críticas de alguns trovadores.LA T ORAP DO OD AIRA T 26VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. pela via do Neotrovadorismo. etc. con estudio biográfico. 1998. por serem tão afetos a certos temas medievos e ao recurso do leixa-pren. Antes de nos atermos às peculiaridades das obras/autores brasileiros. na New York University. no tocante ao Trovadorismo medieval. este igualmente explorado pelo “desafio” gaúcho (ARMANDO. além de muitos estudos e edições críticas parciais de trovadores. defendida em 1993. e que. mas restringindo-se ao Neotrovadorismo galego. coordenada por Mercedes Brea (1996). Tal é o caso da tese de William Myron Davis. defendida em 1969. e apesar de não apresentar uma desejável uniformização ortográfica. Também poderiam ser arrolados os repentistas nordestinos. p. posteriores. até pela época já distante em que foi elaborada. Outras teses. como a de Pilar Castro. análise retórica e bibliografia específica. Portugal and Brazil.. tem sido valorizada pela Academia da forma mais relevante. na Universidade Complutense de Madrid. fornece boas notícias dos . destacando o papel da literatura medieval no ideário nacionalista. 106). foi recentemente publicada uma monumental edição da Lírica profana galego-portuguesa – corpus completo das cantigas medievais. intitulada A recuperación da tradición lírica medieval en Galicia: o Neotrobadorismo. da PUC e da UFRJ (MALEVAL. através de teses de Doutoramento.) ou Teresa Cristina Meireles de Oliveira. deixa de lado autores importantes e mais atuais. sob o esclarecedor título de Antología crítica de la Poesía Neotrovadoresca Gallega. p. Lembraria ainda que. Esta encara o fenômeno numa perspectiva historicizante. na Universidade da Coruña. Apesar de não ser ainda a esperada edição crítica da matéria dos Cancioneiros medievos. também se debruçaram sobre o assunto. intitulada New-troubadourism in Galicia. frisamos que a reflexão sobre o diálogo estabelecido do presente com o passado. que assinala a questão da influência de trovadores ou cantigas sobre poemas neotrovadorescos. 1995. defendida em 1989. levada a termo por uma equipe de pesquisadores do Centro de Investigacións Lingüísticas e Literárias “Ramón Piñeiro” da Xunta de Galicia. 265-267). efetivadas por professores universitários de vários países.

“Retoque da lírica 505 do Cancioneiro da Vaticana”. 132) que ele fora o primeiro autor português a usar “de maneira sistemática”. como pioneiros. lembraríamos que muitos dos primeiros “neomedievalistas” brasileiros são contemporâneos ou participantes do movimento modernista. Paulo Bonfim (COELHO. pintura e arquitetura. observaríamos ainda. além dos mais famosos Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira. 1981. acompanhados de exposições de escultura. 106). dado que dentre os postulados básicos do nosso Modernismo se encontravam justamente a luta pela emancipação da nossa literatura.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 27 trovadores e textos. Martins Fontes. p. 1997. 1997. p.. como Guilherme de Almeida. É importante esta observação. Onestaldo de Pennafort. 4. em relação aos modelos portugueses e o combate aos extenuados valores europocentristas. Quanto ao Brasil. embora não possamos determinar com precisão quem teria sido o seu primeiro realizador. que o português Afonso Lopes Vieira (1878-1946) teve. 132). através de sessões ou festivais literato-musicais. bem como no Brasil. 123). através de autores ligados ao Saudosismo lusitano. 19-26). p. p. publicado em 1919 na Galiza (LÓPEZ. dada a circulação e receptividade da sua obra e das suas idéias nos principais círculos culturais e nacionalistas de Galiza à volta dos anos vinte (LÓPEZ. da nossa língua. 1995. Já observara Teresa López (1997. Augusto Meyer (ARMANDO. na recriação do poema medieval. Voltando à nossa reflexão sobre o Neotrovadorismo. etc. citamos. p. nessas preliminares. além de ser a mais completa edição da lírica profana até hoje publicada. mesmo que antes dele João de Deus compusesse o “Desalento”. fundamental importância nos seus primórdios. os “recursos e temas do cancioneiro medieval”. proclamando-se uma nova concepção da arte e uma nova consciência da realidade nacional. sem dúvida. O Modernismo brasileiro e a tradição medieval Antes de destacarmos algumas particularidades individuais. que no Brasil se firmou com a Semana de Arte Moderna. Mas a poesia . realizada de 13 a 17 de fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo.

fiquei doendo de penas de amor! Foi minha ingrata que por mim passou! Ai. eu padeço de penas de amor. publicado em “Tempo de Maria”. 1987. 83). Quanto à poesia épico-lírica do Romanceiro hispânico. que foi o principal líder do Modernismo brasileiro. malvada ingrata que escolhi vem! Eu sofro e não posso queixar de ninguém! . gentes! Eu parto! Não sei pra onde vou! Ai. integrara-se ao imaginário do nosso povo. ele próprio se autodefiniria em Paulicea desvairada. 1987. os Cancioneiros medievais só a partir do final do século XIX passaram a ser divulgados através de publicações integrais. p. raramente revisitada nos séculos da nossa colonização. Tal retomada da lírica medieval se observa no poema “Cantiga do ai” (ANDRADE. 1941: CANTIGA DO AI Ai. como vimos. pois. uma ingrata tão fria me olhou. evidentemente que renovando-lhe o ideário e a linguagem. retomou o Trovadorismo medieval em alguns poemas. apresentava-se no início do século XX como novidade redescoberta. nos seguintes termos: “Sou um tupi tangendo um alaúde” (ANDRADE. que foi um dos principais manifestos modernistas no Brasil. Aliás. mais precisamente no seu “Prefácio interessantíssimo”.1. obra composta de 1920 a 1922. ou uma forma de subserviência a modelos estrangeiros.) lírica medieval galaico-portuguesa. sem poder ser considerada uma “receita”. Mário de Andrade O próprio Mário de Andrade (1893-1945). 232). Remate de males.LAVELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL T ARIA DO O MPARO T 28 (ORG. tendo em vista o seu caráter de oralidade. Que vou-me daqui sem saber pra onde vou! Eu cheirei um dia um aroma de flor E vai. Meu peito está cheio de luz e de dor! Ai. p. 4.

351) reminiscências medievas são evocadas não apenas pelo termo “viola”. decorrente da indiferença da mulher amada. escritas entre 1944 e 1945.. temos revisitadas principalmente as paralelísticas do jogral galego do século XIII. mas também pelo uso da técnica do paralelismo. etc. p. ela é rosicler. Em “Minha viola bonita. É linda a malvada que fui escolher! Tem a mansidão dos portos de mar Mas porém é arisca que nem pomba-do-ar! Ela é quieta e clara. amantes se amando no imenso Brasil! … 29 Neste poema. Martin Codax. já que as violas ou fístulas eram instrumentos usados pelos jograis. Oh.. é retomado o motivo da “coita” amorosa.. peito liso. comum nas cantigas de amigo paralelísticas. boca de carmim! Ingrata malvada que não pensa em mim! Ai. longo poema composto de peças variadas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Sofro mas me orgulho de meu sofrer. cujas virtudes são causa de orgulho do trovador por amá-la. segréis. pena tamanha que me quebrou! Adeus! Vou-me embora! Não sei pra onde vou! Lastimem o poeta que vai partir. mais precisamente do paralelismo sintático – deslocação dos termos na frase – objetivando a variação do verso: “Minha viola bonita / bonita viola minha”: . relacionando o poeta a mulher amada à “bocada-noite”.” (ANDRADE. menestréis etc. além do título (“Cantiga”) e da estrutura binária das estrofes. Em “Lira paulistana”. É a boca-da-noite virada mulher! Ai. representando-a pelas suas “unhas de vidro”. A esta tradição vêm se juntar as audácias metafóricas e metonímicas ou sinedóquicas do modernismo. unhas de vidro para me encantar! Ai. o que é uma tópica comum nas cantigas de amor medievas. olhos riscados para não me enxergar! Ai. 1987. A utilização reiterada da interjeição “Ai” também se inscreve na tradição lírica medieval.

“Eno sagrado en Vigo. O coração alçado Se expande em luz sinfônica. São Paulo na manhã. Ferida viola minha. Minha viola ferida.. vida. O amor fugiu para leste Na borrasca. lutas.”. 1987. 352) temos a evocação da bailia de Martin Codax. Miséria. Cantei.M ORA MA OD AIRA T LA 30VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. cresceste comigo Nas Arábias..” (ANDRADE.. Namorada viola minha. cantaste comigo Em Granada. sendo substituído o bailado da jovem pelo do “espírito” do sujeito da poesia: São Paulo pela noite. São Paulo pela noite. Minha viola namorada. O espírito cansado Se arrasta em marchas fúnebres. anseios. São Paulo noite e dia … . tudo passou-se Em São Paulo. Meu coração aberto Dilui-se em corpos flácidos. Minha viola quebrada Raiva.) Minha viola bonita. p. Em “São Paulo pela noite. Bonita viola minha.. Cresci. São Paulo na manhã. Meu espírito alerta Baila em festa a metrópole.

Onde está o amor vivo. Onde está? Caminhos da cidade. o contraponto que se estabelece. na noite paulistana de Mário. Numa evocação também das antigas albas provençais. E tudo é cólera”. de forma dialética.”. 355) podemos observar um diálogo com “Ondas do mar de Vigo. em contraposição à luminosidade feérica da noite que nela se observa é. 1987. ao passo que pela manhã o seu “coração aberto / dilui-se em corpos flácidos” e seu “espírito cansado / se arrasta em marchas fúnebres”. substituindo-se em cada estrofe a euforia de “São Paulo pela noite” pelo estado contrário de “São Paulo na manhã”. Corro em busca do amigo. E tudo é cólera. O labor diário. complementada pela oposição romântica do poeta ao mundo: “Sou bom. Tal se consubstancializa na “fiinda”. “baila em festa a metrópole” e o seu “coração alçado / se expande em luz sinfônica”. e o dia a sua separação. p. Em “Garoa do meu São Paulo” (ANDRADE. em “Ruas do meu São Paulo” (ANDRADE. Onde está? . ocorre a preferência pela noite. levando-se em conta os elementos formais (refrão e paralelismo). p. recurso medieval que remata a cantiga. se bem que não já por motivo de esta proporcionar a união dos amantes. pois. O crime do presente Enoitece o arvoredo: Sou bom. 1987.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL A forma do futuro Define as alvoradas: Sou bom. constituindo agora a síntese da sua dialética.. desde o ritmo dos versos hexassílabos: Ruas do meu São Paulo.. cansativo. E tudo é glória. 353) e. ainda mais claramente. com a explicação final de que “a forma do futuro / define as alvoradas”: o amor como motivo essencial é substituído por preocupações pautadas na desumanidade da existência no mundo industrializado. desumano na grande metrópole. 31 Neste poema é utilizada a técnica do paralelismo.

Aí está. a “amiga”. fazia às oraculares ondas do mar. sai dos meus olhos”. Abre-te a boca e proclama Em plena praça da Sé. Com relação aos poemas de cunho primacialmente narrativos do Romanceiro. Conta os crimes que o estrangeiro tem.) Ruas do meu São Paulo Amor maior que o cibo. O horror que o Nazismo infame É. Sem piedade por ninguém. uma das últimas compostas pelo poeta. Onde está? Há de estar no passado. 1987. Mas as preocupações com a injustiça social e o Nazismo substituem agora as indagações que outrora a donzela. no poema “Garoa do meu São Paulo. é pelo sujeito da poesia introjetada: “Garoa. 197). Abre-te boca e certeira. na “fiinda” deste poema. Resposta ao meu pedido. podemos comprovar a sua herança em peças como a da “triste história de Pedro” em Lira paulistana. Mas exalta as nossas rosas. Cala-te boca. Garoa que. A culpa do insofrido. p. Onde está? Caminhos da cidade. Mas já nas suas primeiras obras tal se observa. trocadas por Mário pela cidade (de São Paulo) e sua garoa. Os tico-tico mimosos. publicado na época do Primeiro Modernismo. Onde está? Ruas do meu São Paulo. Nos séculos malditos. Esta primavera louca. por exemplo em “Coco do major” (ANDRADE. em 1927: .LA T ORAP DO OD AIRA T 32VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG.

Que vidinha mais caningada – seu mano – Elas levam no engenho do velho! Nem bem a arraiada sonora Vem tangendo as juremas da estrada Já as três se botam na renda – seu mano – Trequetreque de bilros. – Seu major. mais nada. O major assobia pra dentro. Vêm três moças lindas chorando – seu mano – Com quartinhas de barro cinzento. Beba.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL COCO DO MAJOR a Antonio Bento de Araújo Lima (Rio Grande do Norte) O major Venâncio da Silva Guarda as filhas com olho e ferrolho. 33 . um mocetão paroara Destorcido porém sem cabeça Apostou num coco da praia – seu mano – Que daria uma espiada nas moças. moço! Se apeie da égua. moço que essa água é de sanga. Bate alguém na sede do engenho . Vai. Dois negrões agarram o afoito. Pois a fala do lambanceiro Foi parar direitinho no ouvido Do major Venâncio da Silva – seu mano – Que afinal nem se deu por achado. E os negrões obrigam o pobre – seu mano – A engulir a primeira moringa. Por favor me dê um copo de água … – seu mano – Pois não. ando morto de sede. – Esta é minha filha mais velha.

já observara Sonia Inez Gonçalves Fernández (FERNÁNDEZ. e falecido no Rio de Janeiro. como podemos ver na cantiga-tenção de Pero Amigo de Sevilha “Dizede. foi também poeta. MALEVAL. etc. Dessa forma. sem voz. 1996. e temáticos amalgamados.) – Esta é minha filha do meio. aos quais extermina: “O major Venâncio da Silva / guarda as filhas com olho e ferrolho. madre. E os negrões obrigam o pobre – seu mano – a engulir a moringa. – Esta é minha filha mais nova.”. sem direito a namorados. moço. que essa água é do corgo. “coco”. p. Augusto Meyer Augusto Meyer. beba. 1970.. o desejo. E os negrões afogam o pobre – seu mano – que adubou os faxineiros do monte. as tradições épica e lírica medievas são reaproveitadas por Mário. Beba. p. embora mais conhecido pelos seus excelentes ensaios. A propósito. não apenas no que concerne a elementos formais – inclusive o uso do refrão e o paralelismo –. “cantiga”. 4. 1996. ao passo que a prisão das donzelas pela mãe no Trovadorismo medieval ibérico não lhes inibe a voz. 67-75) que Mário de Andrade procedeu à assimilação de temas da literatura medieval pela via da cultura popular: o pai. porque me metestes / en tal prison e porque mi tolhestes / que non possa meu amigo veer?” (BREA.2. já vesgo..LA T ARIA DO OMPARO T 34VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. 736). O major Venâncio da Silva Tem as filhas mais lindas do norte Mas ninguém não viu as meninas – seu mano – Que ele as guarda com água de pote. já expressa desde o título das composições: “lira”. moço. que essa água é de fonte. guardião da honra das filhas. mas à união da poesia com a música. nascido em Porto Alegre. tem-nas prisioneiras. além de jornalis- . 1902.

publicadas em 1929 na obra Poemas de Bilu. o poetar hermético da arte de trovar occitana. 1957. as qualidades do artista medievo – trovador. Em outra “Bailada”.. menestrel – pelo “desenxabido” e “desenganado” Bilu “de corincho caído / quebrado” (“corincho” significa topete ou arrogância. bailadas. basófia. já não serás bom jogral.. (MEYER. como tal denominada. bailemos A dança d’ombros. Bailemos. 371). ai! qual menestrel! Mas bailemos. Nem cantarás. nem segrel. trobemos clus. segrel. jogral. lá vai perdida. bailemos ao menos No ritornelo destas retornadas! (MEYER. com conotações inclusive obscenas. Ai Bilu. Ai Bilu de corincho quebrado. isto é. 147). fez algumas incursões neotrovadorescas de forma lúdica. Por exemplo. Mas a estrofe-verso final corrói a aura de seriedade dessa reflexão. na qual a malmaridada. 158). Deixá-la. ai! como proençal. outro termo ligado ao Trovadorismo. p. Enquanto poeta. Recria-se uma nova bailia. composta nos anos 1928-1929 (ARMANDO.d. Aí se observa uma brincadeira a partir da expressão trobar clus. Meyer substitui a imagem. Nem trovarás. humorística. sem chus nem bus. 1957. p. memorialista e folclorista. é a “alma”.. mentr’al non fazemos. Bailemos poemas. .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 35 ta. p. Já não serás nem jogral. O non trobemos. Quem te vê tão desenganado. daí a expressão “quebrar o corinxo” no Rio Grande do Sul): Ai Bilu de corincho caído. s. Quem te viu tão desenxabido. com o jogo verbal estabelecido através dos termos “chus” e “bus”. ai Bilu. e sus! Que malmaridada é a alma E a vida. cantigas. na “Canção do chus”: Amigo.

tão caro à iconoclastia modernista. bem como às retornadas. sinônimo de irrealização ou de indiferença. p. como já observara Maria Luiza Armando (ARMANDO. p. 1996. um dos mais importantes críticos literários do Brasil: Senhora minha. ou as pelejas nordestinas e desafios gaúchos.” (BREA.. Dinis “Proençaes soen mui bem trobar (BREA. 162). Nesta mesma cantiga é feita uma referência expícita. quo vadis? Que me enchedes de soidades. 122) –. nos casos apresentados dialogando com a nossa lírica ancestral occitanogalaico-portuguesa. e também uma alusão paródica à cantiga de D. 1996. haveredes De avelenar coraçom. a nota cômica é dada pelo descompasso entre a erudição demonstrada no uso de termos e expressões em latim (quo vadis) ou do galegoportuguês (várias) e a estrofe-verso final. o abuso do sufixo verbal -des contribui para a “brincadeira” de Meyer.. teve em Mayer um dos seus cultores.d. Já na composição denominada “Rimance”. 1957. .LA T ARIA DO OMPARO T 36VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. o poema-piada. à bailia de Airas Nunez de Santiago – “Bailemos nós já todas três. 217).) A Bilu só resta a dança de ombros. A esta façon me feredes Deperecer por mi fé De vossas blandas beldades. Portanto. 374). que apresenta o popular “mardades”. y ay quão cuitado deixades a quem tão mal atendedes! Deixaredes de mardades (MEYER. ai amigas. cantigas que se mantiveram no folclore português e das quais se aproximam as desgarradas e os desafios. s.. p. p. no primeiro verso da terceira estrofe. A esta façon me deixades? Senhora minha.

que recolhe poemas escritos de 1922 a 1931. Certamente que estas atividades facilitaram-lhe tornar-se um dos primeiros poetas. trazendo-o para o interior do novo poema. tomá-lo como mote a ser glosado ou com ele dialogar literalmente. Alguns poetas. Observamos que esse Neomedievalismo brasileiro é uma prática muito heterogênea. Certamente que não recolhemos todos os autores e poemas encontrados. p. principalmente. de Verlaine (Fêtes galantes)” (BANDEIRA. Onestaldo de Pennafort A poesia do carioca Onestaldo de Pennafort (1902-1987) recebeu a influência dos mestres parnasianos e simbolistas franceses. Além de tradutor. completamente ou quase. que retomam a Idade Média. Os critérios de exclusão variaram desde a dificuldade de conseguirmos autorização para publicação (como foi o caso de Mário de Andrade e Augusto Meyer) ao número muito escasso de experiências neomedievalistas (por exemplo. 1996. 606). A seguir. as estruturas medievas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 37 5. optamos por reunir poetas famosos ao lado de outros menos conhecidos que. 5. a retomar claramente as cantigas dos trovadores medievos. apenas se restringiram a manter-lhes alguns vocábulos específicos. sobretudo à volta de universidades. Esta é a competente avaliação de Manuel Bandeira. através do Trovadorismo. que destaca ter sido ele “exímio tradutor de Shakespeare (Romeo and Juliet). Nesta podem ser lidos na íntegra os poemas a que nos referirmos. na obra Espelho d’água. senão o primeiro. foi ensaísta e memorialista. o das professoras Nadiá Paulo Ferreira e Teresa Cristina Meireles). outras vezes a parafrasear um texto arcaico. praticaram as suas incursões poéticas no medievo.1. mesmo intitulando os seus poemas por gêneros medievais. abordaremos os autores de poemas coligidos na Antologia. e ainda dos portugueses Bernardim Ribeiro e Eugênio de Castro. O Neomedievalismo no Brasil Na Antologia apresentada na segunda parte desta obra. Poucos são os que retomam. mas não só. Principalmente nos poemas “Cantar de .

através das epígrafes. e a estrofe é única. remetendo. que não apenas desmascara o embusteiro. que recriam temas da Idade Média. Guarda certo parentesco com o romance “La amiga de Bernal . com composições elaboradas de 1923 a 1931. Pennafort transforma o tema da filha transgressora no da esposa adúltera. 1954. Este se divide em “Romances d’alémmar”. como nos romances viejos. os que mais claramente se reportam à tradição ibérica. que dão continuidade ao gênero. “Dona Ausenda”. sem apresentar-lhes o costumeiro diálogo. 117) e “Cantar de amiga” (PENNAFORT. reino da aequivocatio realizada na dupla acepção do verbo “comer” (alimentar-se / copular). e “Romances d’aquémmar”. publicada por Almeida Garrett (GARRETT. são o do Conde aragonês e o do vilão. Em “Pastoral” (PENNAFORT. ou da Infanta prenhada. v. 1954. em versão que não conseguimos identificar.LA T ORAP DO OD AIRA T 38VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. glosada no poema através dos comparantes boca / vinho. delas se afasta.) amigo” (PENNAFORT. no segundo. mas conservando a unicidade estrófica do antigo Romanceiro hispânico. no primeiro. 123) sugere. constituindo um quadro desmaiado e melancólico da natureza ao entardecer. O “Romance do Conde aragonês” reapresenta uma tradição que deita raízes no Romanceiro ibérico. seios / frutos. p. Dedicou-se sobretudo à revitalização da tradição tardomedieva. ao invés da assonância. mas que teve uma variante. o “Romance do vilão”. mas. Dentre os primeiros. o “Romance do Conde aragonês” e o “Romance das três irmãs ou Miramar”. e à forma de dístico e a voz feminina. nos versos pares. o “Romance da rosa”. 823-826). 1966. E o tema é o da mulher virtuosa e esperta. mais especificamente carioca. oposta à atitude cortês do amante. encontram-se o “Romance dos sete cavaleiros”. a evocação das pastorelas. No “Romance do vilão”. II. 1954. desde o título à epígrafe. mas a falta de gentileza do esposo. p. A rima consoante estabelece-se agora entre palavras oxítonas. com temas já da sua mundividência brasileira. p. para o conhecido romance da erva que engravida. a epígrafe remete para o contexto das cantigas descarnho dos trovadores galaico-portugueses. através da epígrafe. p. 121) tal se observa. pelo título. compondo um Romanceiro. No entanto. Destes. e faz uso da rima consonântica.

/ tanto mais ficam enxutas ” (PENNAFORT. 1954. No entanto. então Distrito Federal. / Vai-las lavar alva. ajudando Oswaldo Cruz na profilaxia urbana do Rio de Janeiro. passar-se pelo marido. / desde que a manhã acorda / até que seja sol posto.. nunca se afastou das Letras. foi um dos pioneiros na recriação de cantigas trovadorescas. participando da eclosão do Modernismo no Brasil. 196-197): “Roupas secando na corda / ao rijo vento de agosto. “Romance da Rua Constante Jardim”. de . O primeiro deles ainda evoca-nos a cantiga de D.. “Romance do ignorante” e “Romance dos sobrados da Rua das Laranjeiras”. (.” (BREA. que. Martins Fontes Martins Fontes. / Quanto mais forte a lambada. mantinha estreito contato com escritores. pelas epígrafes. p. “Romance do emparedado”. “Romance dos olhos no espelho”. “Romance do Largo do Capim”. 1996. destacaríamos dois. Quanto aos demais “Romances d’aquém-mar”. assim. embora o faça em poucos exemplos.. assim”) e “Romance do transeunte antigo” (“Se estas ruas fossem minhas / eu mandava ladrilhar”). / levantou-s’alva.) O vento lh’as desvia. sendo no entanto descoberto o estratagema pela esposa fiel. / e vai lavar camisas / e-no alto. // O vento dá-lhes pancada / com suas maneiras brutas. Apesar de médico. “Romance do menino no jardim”. 5.2. Dinis “Levantou-s’a velida. “Romance do vento de cismas”. Já Pennafort faz o vilão. “Romance da Praça Gonçalves Dias”. um dos mais antigos. 186). candidato a amante. paulista de Santos (1884-1937). no início da década de 10. p. “Romance do Passeio Público”. mesmo sendo esse movimento uma reação à tradição literária (e não só).. Os demais romances pelos próprios títulos desvelam o caráter intimista ou de atualidade ou de circunstancialidade que apresentam: “Romance da fonte e da lua ou o artista”.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 39 Francés”. remetem à tradição das cantigas de roda: “Romance da lavadeira das encostas de Santa Teresa” (“As lavadeiras fazem assim. que trata também de um embuste: o marido que se faz passar pelo amante para desvelar o adultério da esposa. Além de jornalista.

Abrimos um parêntese para lembrar que a Arte de Trovar do Cancioneiro da Biblioteca Nacional não registra nenhuma composição com tal título. Embora usando o refrão medieval. Jorge F. Lembramos que o gênero. solau. paradigma ao qual não obedece integralmente. que o aproximara do sirventês moral. filha. Em outro poema. através de quadras. enchem-se-me os olhos d’água nela vos estou lavando. denominado “Solau”.) cunho extremadamente nacionalista. para bem inda vos seja. Nascestes. Limita-se a. em 1325. já citada acima. que no vosso nascimento vos houve a fortuna inveja. de Vasconcelos e Bernardim Ribeiro. no entanto a forma é também outra. parafraseando o elogio nela estabelecido pela jovem ao trovador. considerando-o superior aos provençais. Morto era o contentamento nenhuma alegria ouvistes: . lamentar a morte do “Dom Lavrador” e tecer-lhe o panegírico. Dinis.LA T ARIA DO OMPARO T 40VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. não exemplificado nos Cancioneiros. e a viagem à Europa em 1930. sobretudo da sua feição de “Rey Trobador”. e na de Johan de Leon. em 1924. de “troveiro das velhas Tenções” “do tempo da frôl”. um “cantar à maneira de solam” ou solau: Pensando-vos estou. entre mágoa. apresentava-se em galego-português nas raras realizações de Pero da Ponte (quatro). filha. ao qual aludem escritores quinhentistas como Sá de Miranda. Apenas sabemos que era um gênero poético-musical tardo-medievo. não impediu que o poeta fizesse as suas já mencionadas experiências neotrovadorescas. A sua eleição para a Academia das Ciências de Lisboa. que tão bem a louvara em “liras no son”. vossa mãe me está lembrando. no séquito do presidente eleito Júlio Prestes. retoma a cantiga de amigo do jogral galego Juião Bolseiro. personagem de Menina e moça. Este último põe na boca da ama de Arima. derivado do provençal planh. Num dos seus poemas. retoma o pranto do jogral leonês Johan sobre a morte de D. certamente que teriam contribuído para o estreitamento de laços com a cultura avoenga.

Não éreis vós.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 41 vossa mãe era finada. Não era esta graça vossa para nascer em desterro. p. Nada em dor. formosa. filha. Muitos hão que é fantasia. para morrerem por vós! Não houve. Mas não pode ser.104-105) . e a mágoa nós. em ambas há i cuidado! (RIBEIRO. se eu não fora. não sei se fiz mal se bem. [1985]. cos olhos verdes crescer. Eu vos ouvi a vos só primeiro que outrem ninguém. Eu. nós outras éramos tristes. razão nem se consente rogar. que vi dias e anos nenhuma cousa duvido como ela é causa de danos. filha. E na crença e na esperança em ambas há i mudança. para mal nenhum nascerdes com este riso gracioso que tendes sobre olhos verdes. Que a dita e a formosura. não sei onde isto há-de ir ter! Vejo-vos. em dor crescida. senhora. Conforto mais duvidoso me é este que tomo assim. Não fôreis vós. Mas nenhum mal não é crido. Deus vos dê melhor ventura que a que tivestes té qui. De vosso pai hei mor dó. não. dizem patranhas antigas que pelejaram um dia sendo dantes muito amigas. Mal haja a desaventura que pôs mais nisto que o erro! Tinha aqui a sepultura vossa mãe. O bem só é esperado. que de si se há de queixar. em fados.

quanto na repetição de alguns versos. o Livro de Horas de Sóror Dolorosa. Mas uma coisa não exclui a outra. para quem esta obra seria “um ato de criação que encarna o amor num ser feminino pra lhe dar . apresenta-a também agradecida. vinhetas e letras capitulares tardo-medievas ou renascentistas). cortês. nele já se registra a referência a um gênero literário medieval. Aí. retomado em aspectos gráficos (capa. apresenta as seguintes características: inicia-se por um verso octonário branco e segue com rimas cruzadas. na opinião da crítica (COELHO. o livro de horas. Martins Fontes aproximou o seu poema muito mais da cantiga medieval de Juião Bolseiro. do trovador.M ORA MA OD AIRA T LA 42VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. 40). do que para os contar ponto por ponto (GARRETT.) Como se pode observar. que só rompe por acrescentar mais um verso a cada estrofe (ABBA+A). Eu inclino-me a crer que o solau é um canto épico ornado. com pequena variação: “Fex ¢a cantiga d’amor” / “Fez umas trovas de amor”. distingue-o do romance e da xácara. “o parnasianismo cede lugar ao simbolismo”. 780). sempre variadas (XABA-BCDC-DEFE-FGHG). em 1920. Este livro era o predileto do poeta. pelo tom de tristeza. 2. tanto no esquema rímico. v.3. o que nos interessa. segundo o testemunho de Odylo Costa Filho (COSTA FILHO. p. 5. Almeida Garrett. Guilherme de Almeida O paulista de Campinas Guilherme de Almeida (1890-1969) publicara. Só que. em que as efusões líricas acompanham a narrativa de tristes sucessos. que também por vezes lança mão do encadeamento. aproximando-se. mais para gemer e chorar sobre eles. etc. do fado. Ao que tudo indica. ao invés de apresentar a amiga agradecida e seduzida pelo canto elogioso. 1966.. E. 1973. p. considerando-o mais plangente e lírico: o solau será sempre cantar triste como indica Bernardim Ribeiro? Narrativo é ele também pelo que tão claro nos diz Sá de Miranda. 1972). analisando os gêneros narrativos populares em verso. seria o solau uma adaptação da terça-rima italiana à quadra. mas pelo trovar que lhe traduziu o sofrimento.

como no poema “Destino” (“e cercaram-me as ondas da inspiração”). 1999. mas em perquirições existenciais que via de regra descambam na angústia existencial. conforme demonstramos em estudo anterior (MALEVAL. em quase todos os vinte poemas que compõem o citado Cancioneirinho. p. como se percebe nos versos de “Envoi”: “El-rei dom Ideal / versos mandou . Por exemplo. em perfeita obediência ao modelo medieval. uma vez que o ideário saudosista se desvela na distinção entre a “saudade” enquanto estado sentimental correntemente reconhecido e a “Saudade”. questões que não se esgotam nos temas do sofrimento por amor. no poema “Senhora Saudade” percebe-se claramente o diálogo com a Renascença Portuguesa. Não bastassem essas evidências. 1944-1947. ora a poesia aparece ligada à inspiração. retomando. desde as origens occitano-galaico-portuguesas. ao qual era tão caro o nosso poeta. diferentemente dos paradigmas evocados. faz sempre uso de epígrafes compostas por versos dos trovadores galaico-portugueses. os seus mais característicos aspectos formais. mais especificamente cantigas de amigo. elaborou uma belíssima lição sobre o percurso lírico da nossa poesia brasileira. embora de feição idealística. de um passado feliz irrecuperável. com S maiúsculo. Acrescente-se que. Mas seria no posterior Cancioneirinho (Poesia vária. que adiante comentaremos. 121-130). p. constituida pelo seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. das cantigas de amigo paralelísticas. senão a Saudade maiusculada – aliás. ora como trabalho. por ser um dos primeiros doutrinadores do idealismo/nacionalismo tradicionalista (COELHO. o “sangue espiritual da Raça” galaico-portuguesa. em 1932. em visível sintonia com o Saudosismo português. 1973. acompanhando-os de refrão. Teixeira de Pascoaes (1912). tida pelo mentor do movimento. como a “realidade essencial”. na nostalgia de um tempo perdido. o mais nítido paralelismo. 1006). em poemas indicativos da sua concepção poética. A saudade que nele se observa não é mais tão somente a da amiga pelo namorado. No entanto coloca. Entre estas duas experiências. Apresenta.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 43 ‘toda’ a dimensão humana”. 1952) que o poeta mergulharia ainda mais na Idade Média.

ademais. estabelecendo o seu percurso até as terras galaicas: Desceu daí. / cheio de medo. pastoras louçanas. verrumante. quando pelo seu caule se enroscou a árvore moça e estimada de Provença. pela monotonia plangente e repetida do verso “paralelístico”. muito embora veiculando através dele outras preocupações que não a dos trovadores. para rebentar o solo simples e laborioso da Galiza e aí respirar. em meus versos. Ia cantando sozinha. com avelaneiras.. meu segredo”.. do cheiro de amor das suas flores de laranjeira.. as suas serranilhas soluçadas de alalalas. p.) lavrar”. verdes pinos. Cantava.. planta agreste de serras. um lirismo próprio. 243-244). Mas já reconhecia também a existência da escola poética autóctone desse noroeste da Península Ibérica. Era a Arcádia Católica: terra de romarias e lavras. independente. e cantava as “ondas do mar salido” e as “ondas do mar levado”. do sabor aperitivo das suas olivas. estorninhos. estirou-se. do mosto fresco das suas uvas acres pisadas nas tinas. longa. em 1932.LA T ORAP DO OD AIRA T 44VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. bodas. ao qual já nos referimos. madres e amigos. No seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. 1937. ribeiras. furando a rocha funda dos Pirineus. desceu daí uma fina e perfurante raiz da árvore sonora e alastrou-se. Compondo o que ele chamou de “árvore genealógica da nossa poesia”. nenhum outro poeta novecentista conseguiu ser tão versado no paralelismo medieval como Guilherme de Almeida.. Era a Galiza.. Cantava. demonstrou profundo conhecimento e apreço pela lírica ancestral.. Versos que.. solo verde frolido ramo”. à qual se uniria a canção occitana para gerar novos rebentos: Ora. que em Espanha se chamou “cossante”: cantava “solo ramo verde frolido. são expressão de um segredo: “e lá vai. juntas e trançadas. remonta a sua gênese à Provença. do beijo de boca pintada das suas amoras quentes. hermanas. dessa Provença capitosa. Enfim.. varando as terras eriçadas de Espanha. . já aí cantava pelo ritmo mais velho dessa língua.. tomar fôlego e subir no ar em planta nova e forte (ALMEIDA. subterrânea.. original. E.

E. 5. metrificando a vida. foi.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 45 cresceram no céu pastoril. professor e historiador da literatura. o lirismo mais lírico. muito embora as suas primeiras poesias denunciem traços parnasianos e simbolistas. Com relação ao “Cantar de amor”.. sendo suplantados os provençais pela “sinceridade” portuguesa: Já então reinava. intitulados “Cantar de amor”. mesmo que para expressar a sua angústia e a sua nostalgia de um passado idílico não mais recuperável. Verdade! Dom Denis descobria. Manuel Bandeira O pernambucano do Recife Manuel Bandeira (1886-1968). Saber. radicado no Rio de Janeiro. Dinis seria um pulo. a corte poética d’El Rei Dom Denis. na voz e na sombra da árvore dupla. um dos mais conhecidos poetas do Modernismo brasileiro. Mas o Rei Trovador não invejava o provençal. A canção era a fala do trono. Daí para o apogeu trovadoresco na corte portuguesa de D. A lei era a poesia. o próprio autor revela o caráter cir- . estrangeiro dos “troubadours” (ALMEIDA. 1937. Portanto. publicado na Lira dos cinqüent’anos em 1944. Só mesmo a tristura dulçurosa de Portugal e a doçura triste do português seriam capazes de dar o que faltava – sentimento e alma – à bravura e gentileza da canção de Provença (ALMEIDA. porque sentia que “os proençais soem muy bem trobar” mas “non an tal coyta qual eu ey sem par”. p. intuitivamente. a melhor poesia e o maior lirismo de todas as línguas. definia e fundava.4. engenho e arte concorreram para que fosse um dos mais fecundos recriadores da forma paralelística. p. 244-245).. Guilherme de Almeida conhecia como poucos a lírica galaico-portuguesa em seus vários aspectos. restringindo-se a três. começou a bailar o ritmo novo. Na sua vasta obra os poemas neotrovadorescos não são muito numerosos. 244). além de ensaísta. como Guilherme de Almeida. assim. 1937. “Cantiga de amor” e “Cossante”. a poesia mais poética. bem como românticos.

A estes. 1999. transitando por reinos diversos. p. somos remetidos. 91). Também o lado andarilho do amante evoca os antigos trovadores. E que o “Cantar de Amor” fora “fruto de meses de leitura dos cancioneiros”: Li tanto e tão seguidamente aquelas deliciosas cantigas que fiquei com a cabeça cheia de ‘velidas’e ‘mha senhor’ e ‘nula ren’. – cuja visão detonaria a paixão e o sofrimento. além do título. que. No “Cossante”. Mas sem mencionar as (outras) virtudes. como Johan Airas de Santiago. sonhava com as ondas do mar de Vigo e com as romarias a San Servando. 1996. O único jeito de me livrar da obsessão era fazer uma cantiga (a obsessão era sintoma de poema em estado larvar). foi levado a ler os Cancioneiros galaico-portugueses. igualmente estabelecera o elogio da mais “fremosa”. por cortes diversas. nas cantigas “Vy eu donas. Escrevi o ‘Cantar de amor’ no vão propósito de fazer um poema cem por cento trecentista (BANDEIRA. sim. elogiadas pelos paradigmas medievais.107-110). p. No entanto.) cunstancial da sua elaboração: tornando-se. publicado na Lira dos cinquent’anos (1944). en cas d’el-rey” e “ Andey. Em outro poema. senhor. buscaria recriar uma cantiga de amigo paralelística.LA T ORA DO OD AIRA T 46VELAM SERAVAMARIAPMAAMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. outro lugar-comum retomado dos trovadores. pela . por sua vez indicativa do modelo provençal: “Quer’eu en maneyra de proençal / fazer agora hum cantar d’amor”. vista como mulher incomparável pela beleza apenas. estabeleceria o elogio da amada. que. Leon e Castela” (MALEVAL. senhor. intitulado “Cantiga de amor”. sem reduplicar a cantiga de mestria do rei-trovador evocada na epígrafe. Bandeira expressará a dor de existir. também por alguns aspectos formais – como o refrão e as três estrofes de seis versos rematadas pela fiinda. a partir de 1938. professor de literatura do Colégio Pedro II. Ao invés de elogiar as qualidades morais e a beleza inigualável da senhor. Confessa-nos ele que aos 52 anos ainda “ignorava a admirável forma lírica da canção paralelística”. ou chorar a coita amorosa. muito embora o tenha feito através de uma cantiga de refrão. apenas na forma conseguiria esse objetivo – “fazer um poema cem por cento trecentista” –.

no poema em questão.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 47 temática. 1999. o mesmo se percebe em outra sua “Cantiga” (1983. e o refrão-suspiro. Desde o título já tal se indicia. De imediato se impõe o confronto com o cânone mais óbvio – a paralelística de Martin Codax. p. emanações sedutoras dos olhos verdes. da mesma forma que as ondas e as “muit’altas ribas” a despertavam no cantar de Rui Fernandes de Santiago. interpretado de maneiras diversas pela crítica. Assim. pelo visto tão sedutores e impiedosos quanto os que atormentaram o neotrovador. 230) que. p. abrindo o poema à “polissemia de sentido” (MALEVAL. 1996. p. lembramos que não apenas o faz. através do motivo das ondas ligadas ao erotismo. Além do mais. as ondas. salve – con Atlântica”. polo son. 93). Ambos confessam o sofrimento provocado pelo desejo. apresenta como solução o esquecimento. Já o trovador Joam Garcia de Guilhade. “Ondas do mar de Vigo”. despertam a libido do novo trovador. o que foi considerado um equívoco por alguns especialistas1 . como também a estrutura estrófica paralelística. tamén lembra o saúdo latino Ave. na cantiga “Amigos. e a amada lembra os perigos do mar para o poeta brasileiro. à “estrela-d’alva”. p. se inscreve no campo das marinhas. na total desesperança do amante. atribuía a sua coita a uns olhos verdes. em 1922. mas dirigindo-o a algo inalcançável. é também utilizado. lembraríamos que Bandeira ainda teve de co- . para designar as paralelísticas. Aliás. 116). Não apenas o motivo das ondas é comum aos dois poemas. 900). uma vez que cossante fora o termo adotado por Aubrey Bell. 1995. Para Dalma Braune Portugal do Nascimento. Mas Bandeira. dele constando o neologismo “Avatlântica”. tão corrente no lirismo medievo ibérico. embora não tão rigorosamente seguida pelo poeta modernista. conforme demonstramos em estudo anterior (MALEVAL. “Quand’eu vejo las ondas” (BREA. anterior à confessada “febre” trovadoresca. Para concluir. que. non poss’eu negar”. Voltando ao diálogo com os cantores do passado. Valeria ainda lembrar que a expressão “olhos verdes” se repete a modo de dobre. já articulava o desejo de felicidade às “ondas da praia/do mar”. o mar lembra a amada para o trovador galego medieval. Avatlântica seria “formado pola unión de Av – abreviatura de Avenida.

A presença do Trovadorismo medieval em sua obra já se indicia pelos títulos de diversos poemas: Canção. ao jornalismo. defendiam a renovação de nossas letras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico. MEIRELES. Lorenzo Fernandez. E. Além do mais. ou a algumas situações que remetem para quadros por eles pintados. Por exemplo. também dedicou-se ao magistério. pelo fato de ser um dos poetas mais lidos no Brasil contribuiu decisivamente para a divulgação dessa tendência poética entre nós. Poetisa premiada. com incursões pelo teatro. malgrado a diversidade de pontos de vista no enfocamento do fenômeno literário por parte dos grupos concorrentes (DAMACENO. p. Seu aparecimento coincide com a eclosão do movimento modernista. Cantar. restringindo-se a alguns sintagmas e versos evocativos da lírica dos antigos trovadores. apresentada pelo grupo de escritores católicos que entre 1919 e 1927.) mum com os trovadores medievos o fato de alguns de seus poemas – dentre eles a Cantiga – terem sido musicados. 1967. nascido na adolescência. a “lavar camisas / . Cantiga. 13). que abandona para concentrar-se na sua produção literária.5 Cecília Meireles A carioca Cecília Meireles (1901-1964). Camargo Guarnieri.. Mignone. Jaime Ovalle.LA T ORAP DO OD AIRA T 48VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. acompanhá-la-ia por toda a vida. ao folclorismo. A par disso.. embora não tendo explorado o Neotrovadorismo de forma sistemática em sua obra. sugere-nos certo parentesco com a lavadeira “alva” da cantiga de D. através das revistas Árvore Nova. do qual pretenderam aqueles escritores representar uma tendência. “Miraclara desposada”. 5. apresentando a lavadeira a lavar o seu “antigo enxoval”. uma das maiores glórias da poesia brasileira. Mas é uma presença formalmente muito tênue. o seu interesse pelos estudos orientais. etc. tendo ainda feito estudos de música. Terra de Sol e Festa. Denis.. determinados ou não por qualificativos. Radamés Gnattali. como Villa Lobos. na apresentação de Darcy Damaceno. alguns deles constituíam letras de músicas. surge para a poesia brasileira em 1922. e por famosos compositores coevos.

senão a certeza da incompletude. “Cantata matinal” mostra um certo parentesco com as albas e pastorelas. da busca. 2001. “Acorrei. para acentuar a precariedade da existência diante do imponderável. os mesmos fonemas aparecerão nas palavras rimantes. da dor existencial. descuidadosas”. que nos remete à existência passada das amigas. mas. anel) e da forma estrófica (dísticos). finamente evocadas também pelas rimas em /a/ e /i/. descuidadas”. Também impossível é a visualização desta no plano físico. 602-603). p. que está “sendo levada” e que outra não é senão “a cantiga da tua Amada. que tornam o canto “guaiado”. . etc. Também em “A pastora descrida”. p. podem ser observadas reminiscências das pastorelas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 49 e-no alto”. Em “Confessor medieval” rememora as bailias medievais através de sintagmas (bailia. a saudade do amado. 1693-1694) é retomado o mesmo motivo medieval. a pastora que aí se apresenta tem como gado as “estrelas da madrugada / pelas campinas do vento”. Em “Cantar de vero amor”. isto é.. Em “A amiga deixada”. etc. uma vez que “de sombra a estrada”. Em “Cantar guaiado” as reminiscências das “flores do verde pino” de D. diversamente do gênero provençal. que retoma o tradicional diálogo com o eco (“antigo”). sirgo. (MEIRELES. a cantarem o abandono. mas enfatizando-se não já a saudade do amigo distante. lutando contra o “vento” que “as desvia”. é estabelecida uma reflexão sobre o tema-título. essa cantata põe em evidência a festa da natureza: “a luz da alvorada” que “brilhou nas palmeiras / que eram pura esmeralda”. do verso inicial “Acordai. nas cantigas chamadas de amigo. em que os amantes lamentavam o nascer do dia por terem que se separar. sofrido. verde mar!” –. na repetição. verde terra! ai. como acordes de uma música fugidia. apresentando inclusive vestígios do paralelismo medieval. com pequenas variações. 2001. da tua Amiga”. do destino. por retratar um amanhecer pastoril. à Amada”. Também em “Canção” (MEIRELES. Dinis e das “ondas do mar de Vigo” de Martin Codax se fazem presentes no verso-refrão – “ai. no entanto. que “levaria à Amiga. só através da (precária) memória aparecendo “a estrada antiga”.

2001.... p. que os separará... divergindo das albas provençais que apresentam a maldição dos amantes pelo nascer do dia.. por “amargos corações”: “Todas as aves do mundo de amor cantavam..LA T ORAP DO OD AIRA T 50VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG..” mas grandes mares se abriram para passagens belas como ritos. apresenta-se o desencanto da mulher em relação ao seu insensível amigo. contrapondo a ele o presente – um mundo (e não apenas um amante.. que dormides as manhãs frias. 1996. amigo.) / Irias à bailia.” e os grandes horizontes se estendiam multicores e os dias da vida eram tão raros ainda que se podiam enumerar.... (BREA.. 688)... / se ele não te dera saia de sirgo? / (.” a presença do trovadorismo medievo é ainda mais explícita.... ligado à corte de Alfonso X.. Já no poema “Todas as aves do mundo de amor cantavam. trovador-cavaleiro do século XIII. ao mesmo tempo em que é evocado o passado em que as “aves do mundo d’amor cantavan”. e a noite vem mais cedo e há tempestades entre nuvens.. E agora na verdade são os dias inumeráveis e cada um com sua angústia..... . como na cantiga medieval) povoado pela angústia. 1883-1884). e os dias se tornaram tão numerosos e densos e duros como essas pedras das fortalezas em montanhas antigas...) questionando a (im)possibilidade de sua ocorrência na falta do amor: “Irias à bailia com teu amigo.... p.. “Todas as aves do mundo de amor cantavam.. uma vez que retoma o verso da célebre alba de Nuno Fernandes (Torneol).... todalas aves do mundo d’amor dizian: leda m’and’eu.. amigo. e todos eles se entrechocam.. e sem nenhum suspiro?” (MEIRELES. Todalas aves do mundo d’amor cantavan: Leda m’and’eu.... que dormide’-las frias manhãas. que assim se inicia: Levad’. Este passado idílico será igualmente desejado por Cecília Meireles. Levad’. .... Nesta cantiga................ só por lembranças... já sem teu amigo...

a irmã de Oriana-a-sem-par. (MEIRELES. já que . Leonoreta. p. 411-412).POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 51 E eu queria que todas as aves do mundo de amor cantassem. 1832-1833) Também no poema “Amor em Leonoreta” (MEIRELES. ao invés de “blanca (sobre toda flor)”. “A canção de Leonoreta”. publicada em 1508 na versão de Garcí Rodríguez de Montalvo. 131-132) onde é registrada. em estrofe não encontrável no texto de Lobeira. esses poemas (e não são os únicos a evocarem a mundividência trovadoresca da Meia Idade). / entre equívocos momentos. em sintonia com os temas fundamentais da poesia de Cecília. dos “desacertos humanos”. pois. Portanto. era uma declaração de amor a Oriana. Colocam-se. Isto porque “entre pólos inviolados. 689-701) é explicitado o mote medieval. 2001. uma vigília de morte estende céus frios. 2001. / vem e volta a vida humana. gravitando em torno do sentimento de ilusão da existência. amada de Amadis. que a poetisa diz ter recolhido da novela Amadis de Gaula. intitulada Romance de Amadis (VIEIRA. mas cuja “sombra resiste” e “eterna” vive no Plano das Idéias (“Mas para que eterna vivas / que é preciso? / Que pensem meus pensamentos”). Tem por epígrafe o lais atribuído a João Lobeira. mas um vasto silêncio. Na novela. céus escuros sobre amargos corações. do “véu de Maia” para os hindus. p. que o namorava às escondidas dos pais). Possivelmente Cecília Meireles conheceu o lais do trovador na versão de Amadis de Gaula feita por Afonso Lopes Vieira. é apenas um “vulto amado” que “longe vai”. ganhara deste o poema. esclarecendo Montalvo. a roda reincarnacionista propugnada pelos orientais e o pensamento de Platão se encontram nesta “reinvenção” ceciliana. Mas o termo “bela (sobre toda fror)”. não deixa dúvida quanto à fonte primária (Lobeira). a Leonoreta de agora. p. No entanto. p. / que se engana e desengana / em redor do Paraíso” (MEIRELES. no capítulo XVII. presente na edição de Montalvo. enfim. tal como no poema anterior a Amiga. que outra era a destinatária do poema (na verdade. da aparência ilusória que vela e faz ignorar a realidade. a Amada. 2001. em meio às brincadeiras na corte do rei seu pai. como os da “humana insuficiência”.

com as mais inesperadas repercussões (MEIRELES. 1989. de Vaga música (MEIRELES. porém. isto é. 2000. não se ateve a “normas preestabelecidas”: há nele “metros curtos e longos. 1989. anima essas verdades de uma força emocional que não apenas comunica fatos. p. em Ouro Preto. no que concerne à revitalização da tradição poética medieva. trata-se “de um ‘Romanceiro’. p. para o qual remetemos os interessados. cai a cinza dos meus dias. sobretudo pela composição do Romanceiro da Inconfidência. 2001.) Pela celeste ampulheta.LA T ORAP DO OD AIRA T 52VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. Mas Cecília se notabilizara aos olhos da crítica. Leonoreta. p. No entanto. Por exemplo. 233-258). um romance. 22). da minha alma. Cai a cinza do meu corpo. p. Essa conferência é um primor de reflexão sobre o processo da elaboração e da natureza da poesia. ou com rima assoante – o que permite maior fluidez à narrativa” (MEIRELES. 21). não é um ‘Cancioneiro’ – o que implicaria o sentido mais lírico da composição cantada” (MEIRELES. 700). 230-231). . Tal destacara também Lênia Márcia de Medeiros Mongelli (MONGELLI. p. como ela própria declara em conferência sobre a obra. 1989. Daí a consciência de que “a vida só é possível reinventada”. como diria a poetisa no poema “Reinvenção”. a segunda. adianta a tão em voga discussão acerca dos limites entre o “registro histórico” e a “invenção poética”. 1967. e o tempo é um límpido sopro que liberta de alegrias e de queixas (MEIRELES. p. 22). mas obriga o leitor a participar intensamente deles. arrastado no seu mecanismo de símbolos. 1955. nos seguintes termos: O primeiro fixa determinadas verdades que servem à explicação dos fatos. de uma narrativa rimada. De qualquer modo. em excelente estudo que constitui a mais completa análise dessa enigmática “Leonoreta” ceciliana. MALEVAL. poemas rimados e sem rima.

1989. que trata da perseguição a Tiradentes. 1989. p.. na observação da autora. a história do nosso herói máximo. 23). como o das maias. seu desenvolvimento. 240-241). prestando-se generosamente de matéria para a poesia. 1989.” (MEIRELES. não mais festivas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 53 Partindo de minuciosa pesquisa. p. lançando mão daqueles elementos essenciais sobre os quais teorizara acima. “de coisas eternas e irredutíveis: ouro. e inesperadamente. 1989. no “Romance LXVIII ou de outro maio fatal”. ou na memória tradicional. na reconstituição de Menéndez Pidal: . cotejando-o com romance da tradição hispânica.. não deixa de utilizá-la muitas vezes. amor. transcrito à direita. Um dos exemplos que arrola são as palavras de “Marília”. Vejamos o LXVIII (início). p. e não “que foi sendo composto”. Essa história da luta pela nossa independência fora feita. observando “a maneira por que um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo. O “outro maio” fora o referido no “Romance XXXVII ou de maio de 1789”. Enfim. p. Nessas pesquisas a poetisa pôde observar como “as palavras registradas nos depoimentos do processo. traições. o Tiradentes. “Ah! se eu me apanhasse em Minas”. incorporadas ao “Romance LXIII ou do silêncio do alferes” (MEIRELES. à busca do “essencial expressivo” que “constitui o trabalho do artista”. Outro exemplo são as palavras do alferes-mártir. ao lhe falarem sobre o casamento de Gonzaga em Moçambique: “Só se estivesse alienado”. liberdade. bem como incorporar-lhe motivos. que trata do degredo de Tomás Antônio Gonzaga. sua medida” (MEIRELES. 20). 1989. já metrificadas” (MEIRELES. Joaquim José da Silva Xavier. p. em que condensa. 209-210). sua sonoridade. 21). Serão transformadas em refrão no belo “Romance LXXIII ou da inconformada Marília” (MEIRELES. mesmo sem subordinar-se à forma do Cancioneiro tradicional. vinham muitas vezes. registra o modo como “ele se foi compondo”.

oiam me iof .roma la rivres a naV . No poema “Onde andará”.roñesiur le ednopser y sodaromane sol odnauc . indaga às “árvores desfolhadas” e às “folhas soltas dos ramos” sobre a amada.asac a racrec mareiv eT ) .rolf ne sopmac sol nátse y airdnalac al atnac odnauc . 5. As suas incursões neotrovadorescas não são muitas. a métrica (redondilha maior) e outros elementos (o advérbio “quando”.it a odnauQ . 176).6491 . e nelas se torna evidente a apropriação de cantigas de amigo de D.odatiuc .rotsap erbop . Dinis.LADIP ZEDNÉNEM( )812-712 . os campos. agora masculino. e até mesmo o verso inicial. ai flores do verde pino.nos sehcon sal odnáuc in alliceva anu rop onis .roc a amserauq axor aD sairf sahnatnom sargen sà E . mas fica patente que a leitura da tradição medieva ou tardo-medieva na obra da grande poetisa é um rico veio a ser melhor explorado em estudos futuros. .nóisirp atse ne oviv euq aíd ed se odnáuc és in euq .loberra ed oigítsev mes .LA T ORAP DO OD AIRA T 54VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG.oy onis .rolac al ecah odnauc n a ñ a c n e s o g i r t s o l odnauc . o sujeito da poesia. etc. 1996.oiam me arE .los o ebos osoragaV . .oiam me arE . além de poeta dedicou-se ao jornalismo.nódralag lam soiD eléD . Não iremos adiante.p . e u é?” (BREA. p. ( z o v e t . usado reiteradas vezes.o d n a d o ã s i r p eD Destacamos em negrito alguns aspectos da tradição retomados por Cecília Meireles: o tema da prisão.). Paulo Bonfim O paulistano Paulo Bonfim. nascido em 1926.robla la abatnac em euQ .lonixuor uo ardnahlac meS sopmac son abaca es odnauQ . numa ambiência já sem o viço da natureza verdejante evocada pelo rei-trovador. as aves típicas do imaginário europeu (calhandra e rouxinol). da obra Antônio Triste (1946).oretsellab nu alemótaM . / se sabedes novas do meu amigo! / Ai Deus.) . principalmente da que se inicia com a copla (estrofe) “Ai flores.6.oyam rop are oyam rop euQ . . a referência ao maio.etsirt .oiam rop iof .anif aovén me odaçubmE .

Dinis. bem como a poesia como serviço prestado à amada. 5. através de uma sondagem no mistério. 1999. Mas. formado em Letras. recebeu de Alphonsus de Guimaraens Filho elogio pela pesquisa demonstrada. dizendo-se. 1999. atingir a substância mesma da vida. Aliás. Edison Moreira O mineiro Edison Moreira (1919-1989). jogral em claros burgos da senhora. o paralelismo. todo o poema. tal como se apresenta na “Cantiga I”. como o romance. de quem é o pajem. Portanto. pela via da memória. também a função de “enfeitar o sorriso / quando murchar a esperança”. Ao publicar o livro Cais da eternidade. pelas “auroras sem cor”. “Pesquisa de quem procura. p. assume a vassalagem amorosa típica do amor cortês. situado no pretérito. apesar dessa proposta. Esse “verde tempo”. ou épico-líricos. Dinis” (RIBEIRO. e o leixapren também são reutilizados a seu modo. Mas. pelas “manhãs cor de cinza”. No entanto. para além dos sonetos. embora os versos sejam quase sempre brancos. pelas “noites sem luar”. Nem é por outro caminho que se chega ao verdadeiro lirismo” (GUIMARAENS F. não possui apenas função oracular. já desde o título nos remete ao mundo trovadoresco. MOREIRA. 172). como a cantiga. já à época dizia Antônio Brant Ribeiro que “com rara felicidade” ele o transportara “pela simples manipulação de algumas locuções brandamente arcaicas e pela oportuna incorporação à sua lírica da temática do ‘morro-me de amor’. E no “Canto VIII” da Cantiga do desencontro (1954). e “em especial os belos sonetos” da primeira parte da obra. 173).. MOREIRA. sem os rígidos esquemas rímicos da lírica medieval. essas mesmas “flores do verde pino” são tranformadas em “flores do verde tempo”. às épocas remotas de El-Rei D.7. além de poeta foi jornalista e editor. como em D. estabelecido por associações. Em O jogral e a rosa (1954-1958). percorrendo. não obe- . no poema “Oferenda”. Além do refrão.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 55 substituída pelo “crepúsculo triste”. p. retomara gêneros medievais líricos. a modo de refrão inicial de quadras. reunindo poemas escritos de 1945 a 1951.

como por exemplo indicar D. Assim. 1999. 1989. p. Numa outra sua “Cantiga de amor”. o que se comprova em sua obra é o desejo de compor a “Cantiga cavalheiresca”. fazendo parte da sua “gramática”. clara.”. p. Conforme já observamos. ou o emprego do termo “cavalheiresca”. 1946.M ORA MA OD AIRAM LA 56 VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. publicado em 1516. “casa da estudaria” – o que é comum nos romances de um modo geral. E o faz apesar de algumas confusões. Dinis.) dece à poética medieval. apresentada como a pastora. uma vez que de Idade Média se trata. em “Evocação a D. / como as do tempo d’el-rei” (MOREIRA. através da rima dos fonemas /i/ e /a/. como cantor das “ondas do mar de Vigo”. no entanto desenvolverá uma cantiga dentro dos moldes do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Mas. se não realizou cabalmente uma cantiga nos moldes dos trovadores-cavaleiros. publicado em 1928 (LORCA. p. ao invés de “cavaleiresca”. retirada do Romanceiro gitano de Federico García Lorca. evocando o gênero provençal pastorela. Dinis”. apesar de apresentar como epígrafes versos de D. como “mai-la sua companhia”. vai aproximar-se do Romanceiro hispânico. inserta no seu Romanceiro do desencanto. 81). Mas de romances medievais. dela se aproxima no “Cantar de amor”. . seguindo a estrutura do mote constituído pela primeira estrofe e das voltas que o desenvolvem na(s) estrofe(s) subseqüente(s). do refrão e do panegírico da “mais fremosa”. 112-115). que sabemos ser do galego Martin Codax. de Pennafort. “o bom do. leve e fresca. além de palavras ou expressões iguais.. 124127). que teve poucos seguidores entre os trovadores galego-portugueses. Não tanto do modelo evocado pela epígrafe. p.. guarda muitos pontos de contato com o “Romance do Conde aragonês” e com o “Romance do vilão”. Notadamente na composição denominada “Rimance” (MOREIRA. “simples. Quando muito. 1999. conseguiu recriar quase que totalmente dentro dos paradigmas originais específicos um romance. 58-61. como o “Romance de Gerineldo y la Infanta” ou “La amiga de Bernal Francés” (MENÉNDEZ PIDAL. embora sem utilizar a rima assoante e o final inconcluso dos espanhóis. Desde o tema da transgressão sexual feminina do primeiro às imagens que relacionam o corpo da amada a frutos do segundo. Dinis. 66-68).

Do genial Camões é a própria epígrafe que encabeça a obra: “Canção. bem como a inspiração em poetas quatrocentistas e quinhentistas. tornando-a abstração ao “fiar. / Não queiram de ti mais.118). 1980). “em contraste com a concepção romântica. para quem tal concepção se apresenta como “apreensão e substância do vivido”. 5. A própria escolha do termo trovas. não digas mais. 1960. aos trovadores do passado – Trovas de muito amor para um amado senhor (HILST. A par disso. da mesma forma que “Romance de minha morte”. Na impossibilidade de os . naquilo que têm de “mais íntimo e vinculante – a própria concepção do texto poético”. 1999. já remete para a herança do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. 105).8. Tal observação já a estabelecera José Carlos Barcellos (MALEVAL. que retoma a imagem da fiandeira. paulista de Jaú (1930). 1995.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 57 As demais peças do seu Romanceiro do desencanto são: “Romance da renúncia da noite”. p. seguiu-os. “jogral” oposto a “vilão”. e também aos renascentistas. sem no entanto remontar ao Romanceiro. em sua obra são evidentes as apropriações de lugares-comuns trovadorescos no nível temático. Hilda Hilst Hilda Hilst. que trabalha com alguns elementos medievais. p. E das quadrinhas da tradição popular se aproxima. sem maiores ligações com a tradição. esses versos camonianos são o respaldo para os curtos versos e poemas que a seguir virão. senão pelo número de versos e estrofes. “Rimancete”. Funcionando a modo de poética. como Bernardim Ribeiro e Camões. “Romance da que me negou a mão”. e se teus versos / À pena vêm pequenos. confissão ou desnudamento”. foi a primeira mulher a escrever um livro de clara referência. ao invés de cantigas. como “senhora casta e serena”. que o vê como expressão. a partir do título. pela delicadeza que expressam e pela dominância da arte-menor. Mas não buscou nos cânones medievos a estrutura para os seus poemas. autora de significativa e premiada obra. que dirás menos”. / no estranho fuso do tempo / os dias do meu penar” (MOREIRA. o mesmo acontecendo com o “Romance da dama desprotegida”. Antes.

49). 1980. menos livre que no passado das bailias. 1966. pela via de autores renascentistas. ou de canções de amor trovadorescas. Mas esse amor refinado se reapresenta não já como meio de alcance do Bem. Postar-se às janelas seria o novo meio. enfatizando a nova amante: “. / Por serdes vós casado / (E bem por isso mesmo) / É que sereis amado? / Ai sim seria.. serviço de amor. citado em epígrafe. 1980.) rastrearmos mais detidamente. com os versos: “Não sou casado. 232). p. ligando-se ao trovar antigo não pela forma.. / Que ainda que dei a mão / Não casei o coração”. observaremos a seguir alguns aspectos revitalizadores da tradição lírica medieval. A poetisa assume o papel de representante dos anseios femininos nas estrofes monósticas. como o do Capelão André (1985. o que já fizemos em estudo anterior (MALEVAL. ou na mesura de cantar da rival “a cintura e a valia”. 227). Mas esses versos também indicam uma proposta poética. Ressonâncias das bailadas sob as avelaneiras pelas velidas ansiosas por namorado – por exemplo nas cantigas de Nuno Fernandez Torneol. p. 77-88).) Se forem belas / Ficam melhor à tarde / Ai. Na esteira de tantas novelas do ciclo bretão. 1980. a mesma doação. é Bernardim Ribeiro. senhor meu. nas janelas” (HILST. Também a delicadeza da fin’amors se reconhece na “fineza” de “repetir um amor já confessado” (HILST. p. é a condição adulterina do amor que se observa nos versos “Seria menos eu / Dizer-vos. mas pelo entendimento do fazer poético como experiência vital.” (HILST. transformada. 1980. ou de calar-se para não magoar o amado (HILST. 1980. p. 240). 1980. 23). a modo . 234).LA T ARIA DO OMPARO T 58VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. p. a mesma abnegação dos antigos trovadores se apresenta como proposta amatória: “Nave / Ave / Moinho / E tudo mais serei / Para que seja leve / Meu passo / Em vosso caminho” (HILST.. por sua vez herdeira dessa tradição. Logo no primeiro poema. 233). urbano. de criarem as jovens oportunidade para o namoro. senhora. mas ainda assim mal-visto pela moralidade reinante na década de 1960. são nítidas nos versos “Moças donzelas / Querem cantar o amor / (. ou de tratados medievais sobre o amor. Johan Zorro ou Airas Nunez –. p. A fonte. p.. p. chamado posteriormente cortês. mesmo que retomados alguns indiretamente. se não morro de amores / morro de delicadezas” (HILST.

Stella Leonardos A premiadíssima escritora carioca Stella Leonardos (1923) conseguiu. assume Hilda Hilst a posição de “Mulher / Vate / Trovador”. fazendo eco a trovadores como D. / Eis porque sou amante / E vos mereço.. 1995.. com a obra Amanhecência (1972). como beleza. p.9. uma vez que não a cerceiam cancelas como às moças donzelas.. 148): “Não sei dizer-vos / Amor. // De entendimento / Vivo e padeço. desprezando os aspectos formais dos cantos primeiros. pondo em questionamento prerrogativas androcêntricas dos primórdios do Ocidente. p. p. mesura e correlatos. apresenta a questão da sinceridade poética.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 59 de refrão: “Canto. crítico dos provençais por trovarem apenas “no tempo da flor” (NUNES. Dinis. mas apontando para a condição daquela abadessa “sabedor de todo bem” do escarnho de Afonso Eanes de Coton (LAPA.. Retornamos aqui àquela relação sinonímica entre o amar e o trovar. amigo // Mas é nos versos / Que mais vos sinto. 5. 1980. 11-61). 229). Em outro poema as ações de conhecer. o prêmio do Insti- ..” (HILST. O tópico arcaico do merecimento apresenta-se relacionado a novos valores ou prerrogativas da mulher. saber definiriam a superior condição da nova amante-trovadora: “Amo e conheço.. como se auto-denominaria em outro poema (HILST. Isto porque possui o dom da poesia e a liberdade. Fico. p. Em continuidade. Saio . Tal se percebe nos versos: “Tendes comigo / Tais dependências / Mas eu convosco / Tantas ardências // Que só me resta / O amar antigo”.. 1980. 228). Portanto. uma vez que o conhecimento substitui agora as qualidades (retóricas) que tornavam a senhor de outrora digna de ser louvada. 1970. A nova mulher não é mais aquele ser incorpóreo das canções masculinas galaico-portuguesas. 228). retoma a lição das jovens sequiosas de amor nas cantigas de mulher (de amigo). por elas”. Antes. 1972. E na linguagem / Desta canção / Sei que não minto” (HILST. p. // Vossas carências / Sei-as de cor. entender.. 1980. destacada por trovadores como Martín Moxa (MALEVAL. 69). p.

Mas também são feitas. prescindimos propositadamente da ‘medida velha’ dos trovadores. p. sendo que a primeira nos interessa mais de perto por retomar o trovadorismo galaico-português. de livros de falcoaria e alveitaria. p.) tuto Nacional do Livro. e ao semprelirismo brasileiro”. Como esclarece em Prefácio a própria autora (LEONARDOS. 35). correspondente ao Sesquicentenário da Independência do Brasil e ao 50º Aniversário da Semana de Arte Moderna. O estudo introdutório de Gilberto Mendonça Teles – “O código do códice: a estella de Stella” (LEONARDOS. p. Adianta igualmente a motivação da obra: “obra de amor às líricas raízes de nossa língua.LA T ARIA DO OMPARO T 60VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. já indicados a partir das epígrafes em trinta e uma composições.. de conselhos e regimentos. 35). bem como dos Romanceiros e lendas brasileiras. que “acaba onde o Brasil começa” (da segunda parte diria: “não acaba porque o Brasil é semprenovo e semprelírico”). Esta obra compõe-se de duas partes intituladas “Códice ancestral” e “Reamanhecer”.). e onde são revisitados textos ancestres dos séculos XII a XVI.. O procedimento. que à primeira vista seria o do mote a ser . catalão. à matéria de crônicas. remissões às carjas moçárabes. Daí a variedade da ortografia (LEONARDOS. de que a obra é pródiga. históricas ou literárias. e escrevemos os poemas do modo que nos pareceu melhor condizer com as sucessivas fontes documentais – em prosa e verso. acentua ao final que a autora tem feito mais “pela moderna filologia românica no Brasil do que muitos professores e membros de academia”. Bem como destaca o ano em que foi escrita. 1974. moçárabe. 1974. nesta parte. em outras muitas. 1974. bem como a composições do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e a estudos sobre a época. E não apenas neste mas em muitos outros textos retoma a escritora a tradição dos Cancioneiros (romeno. que o publicou em parceria com a Aguilar (1974). Muitos são os poemas de “Códice ancestral” que retomam cantares dos trovadores galaico-portugueses. 13-31) – é uma reflexão sobre o uso da epígrafe.

das “antorchas que se consomem”. coitada. atribuídos a Paay Soares de Taveiroos: “Mia senhor branca e vermelha! / Queredes que vos retraya?. “vivência moçárabe”. composto a partir de citação de Oliveira Martins. Num processo reiterativo dessa herança poética que traz “nas veias”. que “traz tinta negra e vermelha” – não já a guarvaia do cantar de outrora. 1974. termina por legar “ao vento o lírico manuscrito” que a “inscreve” e “transcende – dom de códice ancestral”. Este é construído a partir de epígrafe composta por verso de cantiga atribuída a D. a senhor retratada será a própria poetisa. gostaríamos de nos reportar ao que lhes serve de Prólogo. 39).. intitulado “Ancestre canção” (LEONARDOS. isto é. como vivo. “cigano ária nômade”. p. como podemos perceber no poema intitulado “Plang”. divergindo do modelo e sua musa (a mesma Ribeirinha amante de Sancho I. às vezes”. Tem como epígrafe os versos. o manto vermelho da realeza ganho pela cortesã.”. “Ai eu. claro códice”. a que já nos referimos). p. “ares cristãos-novos”. a assumida intertextualidade por vezes reveste-se de acentos outros. E conclui por evocar traços procedentes da mistura de raças e de culturas das origens: “coração de celta”.. ampliando-lhe o aspecto narrativo. 131-140). literalmente ou não. Na impossibilidade de examinarmos por ora os seus muitos poemas. é o da apropriação de versos medievais. “invasão de godo”. reportando-se aos celtas e a Viriato. sobre as origens lendárias de Portugal.” Mas. p. por exemplo trágicos. 40-41). Dita apresentação será continuada no poema seguinte. Aí. Só que as mais das vezes busca completar o sentido da cantiga a que pertencem. “In finibus Galleciae” (LEONARDOS. no corpo da nova cantiga. e de ser “coda de ancestres canções. “nostálgico mouro”. relacionada à sua amante... o lamento medieval da amada pela ausência do amigo é transformado em dolorido pranto pela sua morte. indiciada através da atmosfera lúgubre. Sancho I. e refletirmos sobre o processo de intertextualização neles operado.. que analisamos mais detidamente em estudo anterior (MALEVAL. etc. A sua certeza é a de que “existe o códex / de uma facies portuguesa”. a indagar sobre os avós portugueses dos quais herdara uma “face. Dessa forma. “altivez ibera”. 1999.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 61 glosado. 1974. .

as citações do Romanceiro são antecedidas e/ou sucedidas por versos que meditam sobre a tradição. Mas o Romançário de Stella é fruto também de trabalho intelectual. Donzela Teodora. xácara (mais dramático) e solau (mais plan- . que significativamente retoma outra citação de Oliveira Martins. Roberto do Diabo. 1974. 9-22). Stella Leonardos recria romances muito conhecidos do Romanceiro hispano-moçárabeluso-brasileiro: Nau Catarineta. sobre a participação da poetisa nesse processo de recriação das mesmas. em “Nau catarineta” fala da “nave” que lhe acena da infância. 1974. p. que se coloca enquanto repositária e transmissora. e que a navega. O cego andante. explicativa da interpretação e indagações suscitadas na autora pelos velhos cantares: essas cantigas. encontram-se desde a definição de romance feita por Câmara Cascudo à distinção efetivada por Almeida Garrett para as três espécies do gênero narrativo popular – romance (mais épico e narrativo). sobre o Tejo e sobre o Sado. provocando-lhe tremores (LEONARDOS. Conde Lindo. p. No mesmo ano em que foi publicado Amanhecência também o seria o Romançário (1974).) “Códice ancestral” apresenta. O processo é semelhante ao que já observáramos na poesia lírica neotrovadoresca. desferidas à noite sobre o Vouga. sobre a memória. a modo de Epílogo. monótonas como o ruído do mar. Esta obra recebeu o prêmio Casimiro de Abreu. 1972. o poema “Na guitarra”. Dessa forma. da maior seriedade. Capitão-daarmada. o Mondego. da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Aí.LA T ARIA DO OMPARO T 62VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. preenchendo-lhes as lacunas com emoção e imaginação. As pesquisas efetivadas na sua elaboração se documentam em Apêndice. tristes como a vida dos nautas. 133138). através de notas que remetem para as fontes bibliográficas (LEONARDOS. 1974. Por exemplo. que leva em conta os receptores. A moura cativa. mas com uma participação mais explícita da autora. Dona Leonor. de uma tradição recebida dos seus ancestrais. Nestas. traduzirão lembranças de alguma antiga raça? (LEONARDOS. 107). p. através da voz grave do avô.

mas entronca-se em tradição corrente na França. Já o “Romance da Donzela Teodora”. 1974. além de figurar em várias coleções. Inglaterra e Alemanha. como também referências a versões brasileiras dos romances. sendo os “campos de Mazagão” referidos em várias versões lusas. teve larga fortuna nos países de cultura neolatina. misturar-se-ia a este último episódio.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 63 gente e lírico) –. p. de Gustavo Barroso. 1974. Também o histórico de cada peça é observado. Em Portugal. na qual Jorge de Albuquerque Coelho se dirigira de Olinda a Lisboa em 1565. O “Romance de Dona Leonor”. dando origem à narrativa de Bento Teixeira Pinto e projetando-se na memória coletiva. e da portuguesa Dona Antônia Rodrigues. Assim. veredas. sendo que no Brasil estaria na base também da personagem travestida de Guimarães Rosa (1908-1967). onde propiciou numerosas versões e edições no século XVI. da mesma forma procedendo com a música das variantes em confronto. segundo Câmara Cascudo (LEONARDOS. p. referidos por Théo Brandão e retomados por Fernando de Castro Pires de Lima (LEONARDOS. o episódio trágico da nau Santo Antônio. surgido na Idade Média. 134): da espanhola Dona Catarina de Erausto (“La monja alferes”). 1974. p. guerreira disfarçada na Índia. isto é. e daí a Portugal e ao . que igualmente disfarçada de homem teria lutado em Mazagão. Diadorim. Como indica o especialista. da brasileira Dona Úrsula de Abreu Lencastre. 134). da donzela que vai à guerra. passando à Espanha. que coteja minuciosamente com os versos em que se baseou para a recriação de cada novo poema. na lição de Câmara Cascudo (LEONARDOS. na África. é citada por Tirso de Molina e Lope de Vega e incluída no Índice Expurgatório da Santa Inquisição (relação de 1624). o romance. 135). na Espanha e em Portugal. Teria por base os seguintes casos históricos. como as “Mil e uma noites”. a “xácara” denominada “Nau catarineta” teria como uma das hipóteses mais plausíveis para a sua gênese. O “Romance de Roberto do Diabo” não possui fundamentação histórica. em Grande sertão. fornecendo “pistas” importantíssimas para a observação da intertextualidade e interdisciplinariedade em sua obra. firmando. teria origem árabe. o tipo da moça astuta e sábia. assunto da novela A senhora de Pangim.

riograndenortenses. lá. 1926 – Natal. 1974. de larga repercussão em terras brasileiras. de Portugal. amigo de disfarçar-se em mendigo e correr aventuras noturnas. 1974.) teria sido visto por Menéndez Pidal “muito estropiado. fluminenses. 1974. Stella Leonardos mostra a fecundidade do gênero no Brasil. remontando às origens européias ou orientais dos romances. 137). de amor e luta” (LEONARDOS.. para o Brasil. postumamente. segundo Almeida Garrett. 5.10. paulistas.. professora e jornalista. “estaria ligado a tradições referentes a um castelo mourisco de Tavira”. segundo o folclorista Antonio Lopes (LEONARDOS. pernambucanas. além de escritora. que se basearia no romance conhecido como “Conde de Torres”. capixabas. “A moura cativa” (ou “encantada”). sergipanas. baianas. 137). Enfim. Liga-se à matéria de Bretanha. O “Cego andante”.) Brasil. 1974. Myriam Coeli Myriam Coeli (Manaus. etc. alagoanas. Dentre os seus cinco livros publicados. p. falecido a 13 de dezembro de 1542 com trinta e três anos e homem divertido. aprendido com o auxílio da genitora da poetisa. p. teria vindo de Vinhais e do Algarve. aos amores de Tristão e Isolda. p. Foi recentemente. p. num cancioneiro espanhol do século XV” (LEONARDOS. ou Niño. por ela recriado com saber e sabor. O “Capitão-da-armada” (ou “A bela Infanta”). 136). 1982) foi. enfim. sendo a primeira mulher norte-riograndense a obter diploma de curso superior de jornalismo no exterior (Madrid. 1954) e a enfrentar o “masculino” universo noturno da redação de jornais. originar-se-ia. aqui a partir de 1840. e apontando as versões gaúchas. por sua vez guardando traços do folclore pernambucano (LEONARDOS.LA T ARIA DO OMPARO T 64VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. eleita Mulher do Século do Rio Grande do Norte. de “temática das baladas escocesas do rei Jaime V. O “Conde Lindo” (ou Lindes. aproxima-se de versão colhida por Dulce Martins Lamas em Parati. “Dão Laurindo”. 136). interessa-nos o que se . maranhenses.

1). Prêmio Othoniel Menezes de poesia. Remonta aos tempos das lutas entre cristãos e mouros. ovelhas. E. / cantavam com voz sentida”. como as de Cecília Meireles... apenas numeradas.) entretinham seus cismares / (. a que dará seqüência nos poemas subseqüentes. Cantigas de ontem e de hoje (1999). nas quais por vezes o caráter épico sobrepuja o lírico. E foi assunto da Dissertação de Mestrado de Diva Sueli Silva Tavares. o trovar de “cantigas eternas”. Dinis. 1981. Nesta. aos amores expressos nas canções dos trovadores. 1981. 1981): o “Canto arcaico”. O livro compõe-se de vinte e três “cantigas” sem título. mas às do presente. pois. p. e o “Cantar amigo”. vemos o estado eufórico da donzela cortejada ser substituído pelo sofrimento proveniente da desilusão amorosa que atingia não apenas às mulheres do passado.. Na verdade. às coitas de mulheres moçárabes ou cristãs: pastoras que “entre ovelhas no prado / (. preconizando que as suas “cantigas florindas / hão de estrelar chão e céus”. um poema narrativo. trata-se também de cantigas de mulher. Neste. jograis e segréis. estrelas” (COELI. p. o “sereno cantar na tarde”.). apresentada na UFRGN. o . especificamente com D. ora pastoras que apascentam “na terra. a estudiosa observou o diálogo estabelecido por Myriam Coeli com os trovadores medievais. referindo-se ainda ao Cântico dos cânticos de Salomão enquanto presença fundadora no palimpsesto desenvolvido pela poetisa. rimas e assunto que em tudo nos remetem para a tradição ibérica. 1981. remetendo-nos mais para os Romanceiros que para os Cancioneiros. poucas vezes estruturalmente fiéis ao gênero cantigas de amigo.) com cantigas de amigo / que elas mesmas inventavam / com donaire provençal / que as ousanças alongavam”. antecedidas por um poema significamente intitulado “Fundamentos” (COELI. Funciona. 7). Mereceu de Stella Leonardos duas homenagens em poesia (COELI.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 65 intitula Cantigas de amigo publicado em 1981. destacando-lhe a “voz de leda cotovia”. isto é. às gestas a que deram motivo. Essas mulheres ora são “filhas dalgo” (COELI. Na cantiga XXII. fiandeiras que “doces cantigas de amigo / com os fios que trançavam. castelãs que “em castelos esperavam” o retorno do amado.. / no céu. que encerra a modo de epílogo a obra. ela na verdade compõe um romance. s/p. como uma introdução. à medida em que os poemas se sucedem. com versos redondilhos.

Na cantiga VIII. 13). p. Sancho I. como em Stella. Quanto à forma. como Guilherme de Almeida. Mas. Dinis “Ai flores do verde pino”. como também o paralelismo. até porque desnecessária. por exemplo na cantiga I. a Ribeirinha. Com humor (negro) a saída através do suicídio é a possibilidade que se apresenta não de solução mas de compensação: “E se me seduz um salto / convosco não vou ficar / mas manchete. Na XI.) sujeito feminino da poesia se coloca ainda como “senhora de mui castelos”. 21). na qual a sua amante. 1981. Também Stella Leonardos a recriara como vimos. 1981. p. A torre que lhe “dá triste degredo” é um “vigésimo segundo andar” de um edifício. em que um cavaleiro de passagem requesta a “grácil donzela”. mas estes agora se apresentam “flutuando no ar / ou inconstantes nas areias”. se lamentaria do amigo (o rei) que “tarda / na Guarda”.LA T ARIA DO OMPARO T 66VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. se bem que não inteiramente utilizado. as novas do amado são solicitadas aos jograis. 1981. a Deus. ocorre uma recriação paralelística da cantiga atribuída a D. Na cantiga V. ou a de Martin Codax “Ai ondas que eu vim veer”. Na cantiga X (COELI.” (COELI. ainda o refrão em dístico nos remete ao Trovadorismo. vemos que diálogos semelhantes aos das pastorelas são reapresentados. . 16). p. em poema que retoma tópica muito corrente nos Cancioneiros. a tenção em dísticos retoma moldes arcaicos. além de ressonâncias da estrutura paralelística. 1981. as perguntas dirigem-se agora a entidades abstratas. o refrão. não já à natureza. é estabelecido um evidente diálogo com a cantiga de D. certamente” (COELI. como no passado. etc. que é a indagação por novas do amigo ausente. não de sofrimento. p. aos “amores de amargos anos” (COELI. Florinda.. 35).. Na cantiga XV. etc. Na XII. remete aos paradigmas: “Meu amigo / por quem morro” (ou “por quem vivo”).. Os dísticos seguidos de refrão aí se apresentam.. às amigas. observamos reminiscências do paralelismo e uso de refrão. mas de desejo: “Porque tarda / morte amiga? . apesar do refrão e da manutenção de um certo paralelismo. pela forma e pelo sentido. “masmorra que amortalha / com capuz de asfalto e medo”. agora nomeada. atribuindo-lhe acentos lúgubres. embora sobrepujando o lírico pelo épico. Só que a morte em Myriam Coeli é motivo. Na cantiga XIII. já que o sujeito principal da poesia é feminino. sem a discrição propugnada pelas regras da cortesia.

fluminense de Macaé (1925). é ensaísta e professora (aposentada) de Letras (Teoria da Literatura). Guardo apenas as Cantigas que eu mesma escrevi (MALEVAL. estudar com os alunos algumas Cantigas trovadorescas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 67 Nas demais cantigas. nos anos 70 (MALEVAL.11. e a compreensão da falta existencial imprimem novo sentido ao poema. que infelizmente se perdeu.. as águas sem espuma e as romarias menos costumeiras. O que causava espanto aos meus alunos era a precisão com que um poeta como Chico Buarque de Holanda. Como ela própria esclarece.. 161). Mas as inquietações. de hoje. expressas no refrão. O sucesso do trabalho me estimulou a organizar com eles uma Antologia de Novos Trovadores. Ocorreu-me. 5. 161). com uma farta criação poética muito parecida com a dos trovadores medievais. e também através do entrecruzamento de vários motivos correntes nas cantigas de amigo: os “prados” presentes nas pastorelas. ele é evocado muito mais por sintagmas ou temas que por recursos versificatórios. as suas cantigas neotrovadorescas “foram escritas como se fossem um recurso didático incentivador para a criação” dos seus alunos de oitava série no Colégio de Aplicação da UFRJ. a técnica do leixa-pren. Na “Cantiga 71”. exercia um discurso atravessado. por exemplo. que retrata. as “águas” das barcarolas e as “romarias” aí estão. Francisca Nóbrega Francisca Nóbrega. mostrar-lhes a estrutura paralelística como a fala do coração que diz sempre e só a mesma coisa. Acrescente-se que os . Isto porque. acrescenta ela: A música popular brasileira contava. cantigas de maldizer. somos remetidos ao Trovadorismo pelos dísticos seguidos de um refrão com pequenas variantes. p. bailias. então. os verdes ausentes. as muitas variedades de composições (barcarolas. p. 1996. por sentimentos tão femininos como se viam na sua canção “Olhos nos olhos”. de ponta a ponta. 1966. no momento. etc. além de poetisa quase inédita e autora de livros infantis.). o refrão invariável. as incertezas próprias do nosso século.

Assim. Poluição e degradação nos afastam dos límpidos cenários de outrora. de maldizer). marinha. apesar da clara referência à cantiga de Martin Codax. de amor. como a fiinda e o refrão-suspiro. romaria. que dessa forma se junta à herança das paralelísticas. onde se viam a esperançada amiga ou a cortejada pastorinha. Mas a bem talhada e lembrada amiga – a expressão era uma tópica particularmente cara às cantigas de amor – de outrora é substituída pela sua negação. cortados por “rios de óleo e lama”. balada) e posteriores (acalanto. são retomadas as características formais do gênero. publicou em 1985 um livrinho de poemas intitulado Cãtygua proençal. estabelece o (desen)canto do “senhor arredio”. dando inclusive preferência ao termo cantiga (de amigo. Na “Bailia”. ao invés do provençal cansó (embora utilize o termo. No entanto. Marly Vasconcelos A cearense Marly Vasconcelos (1955). no entanto é outro o “mar de Vigo” da poetisa. já que “de asfalto”.LA T ARIA DO OMPARO T 68VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. a modo de finda. alva. não mais oráculo ao qual a amiga do passado interrogava confiante. 5. se coloca no espaço da exclusão e do desencanto. mas urbanos. E o sujeito da poesia. E na “Cantiga como se fosse de mal-dizer ou canção de amante” a poetisa. com refrão variável e paralelismo só quebrado na estrofe final. recurso provençal. misturam-se no seu (re)fazer elementos occitanos e ibéricos. também provençal. bailada. feminino. Na “Barcarola”. o Índice já indica que ela retomaria também os gêneros mais típicos do Trovadorismo galaico-português. bem como gêneros líricos de outras regiões (canção de gesta. retomando os motivos da “coita” amorosa.) “prados” a que se refere o poema não são rurais. Mesmo no interior dos poemas as duas tradições . xácara). do “morrer de amor”. praticada nos territórios ao sul da hoje França. de escárnio. pastorela). Aí.12. assumindo o lugar do trovador. as formas trovadorescas são evocadas também através de alguns recursos. Desde o título somos remetidos à lírica medieval em langue d’oc. formada em Letras e Direito.

. antes masculino. Na “Pastorela” apresenta. Por exemplo. não o diálogo do cavaleiro com a pastora. 5. além de poeta.. trata de resgatar a importância do Trovadorismo na gênese da tradição lírica do Ocidente: Entre o aedo e o rapsodo gregos. o mesmo que outrora não apenas louvava a senhor fremosa nas cantigas de amor. do trovador ibérico. radicado no Recife (1951). que a nossa poética remonta e se desenvolve . Na “Cantiga de amor” coloca em cena não o nobre trovador.. antes de se pensar nos gregos e latinos.13. e outras. o que vimos ser recurso típico das cantigas de amigo paralelísticas galaicas. a poetisa nos coloca diante do passado medieval. Publicou em 1987 Cantigas de amigo e amor. proençal. mas as suas indagações aos elementos da natureza sobre o paradeiro da amada. Na “Bailada” insere a pastora. madre. dos seus quadros mais típicos e até do som dos lamentos dos amantes. Desta poética. o bardo celta e o poeta moderno. na “Cantiga de amigo”. com o subtítulo explicativo: “Dez exercícios de canto segundo a maneira antiga seguidos de uma poética fragmentária”. José Rodrigues de Paiva O português coimbrão José Rodrigues de Paiva (1945). etc. se confundem. formado em Direito e Professor de Literatura Portuguesa. contista. extraímos alguns trechos. prado.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 69 trovadorescas. mas ridicularizava e reificava sem piedade as feias e soldadeiras. o vate latino. a amiga expressa o desejo de cantar em. Enfim. onde o choro das donzelas se confunde com o das “ondas que vogam”. como na “Marinha” dedicada a Roberto Pontes. mas o guerreiro mouro que anseia por uma lusitana. amalgamando a tradição lírica medieval. É sobretudo a ele. sem buscar ater-se aos seus rígidos esquemas formais. úteis para a reflexão sobre o Neotrovadorismo. E também assume por inteiro o lugar. Inicialmente. ensaísta e editor. embora seja um canto de voz feminina e nele retome os seus componentes ibéricos habituais (amigo. fontes). mas sem ater-se aos recursos formais típicos do gênero. principalmente desvelado na “Cantiga de maldizer” contra o “filho dalgo desprezível”. está o trovador provençal. é.

A eles. depois. Necessário regresso às origens. menestréis. p. 31-37). até San Clemenço. de castelo em castelo. e aos segréis. é que regressa o poeta moderno. E conclui pela dupla feição deste resgate. e dar-lhes outra música. às águas de Vigo (etc. de vila em vila. como vimos o mais autóctone dos gêneros trovadorescos. Passa. a falar dos modos de resgate da tradição medieval.. o Poeta poderá caminhar. de feira em feira. o poeta dá preferência às cantigas de amigo. então. (PAIVA. inconsciente ou consciente: Inconscientemente.. esfumados artistas que no tempo se diluem como o fumo das fogueiras dos acampamentos que animaram com a sua arte nômade ou como os perdidos brilhos das cortes e paços da nobreza antiga que abriram as suas portas à poesia..) no tempo a partir de velhas e primitivas raízes. dado o trabalho de reconstrução das .). ao encontro da ribeira do seu rio. em certos poemas seus. A ele e ao seu caminho francês. até San Leuter. algumas formas. Inconscientemente. retornar à primitiva pureza de certas formas simples e dar-lhes outra voz. algumas medidas.. desta fonte de séculos. Nos poemas. E o faz de forma consciente. até San Servando. pelo caminho lírico do retorno ao passado. ouvir no correr dessas águas alguns fios melódicos que se vão revelar. trovadores. a unir modernidade e tradição. em busca da própria identidade. a refazer os passos da História e da Tradição a que não pode estar indiferente. jograis. por esta verde Galiza mítica. poderá tomar.LA T ARIA DO OMPARO T 70VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. com a consciência da razão solar. até Santiago. Mas poderá também. 1988. Aprendizagem iniciática que se impõe indispensavelmente num tempo de algumas tão inconseqüentemente vazias vanguardas falsamente poéticas . assinalando a necessária busca de identidade como seu motor: Modernidade e tradição neste ato de resgate para dar continuidade a formas vivas.

Augusto Mayer. Usa aí recursos do paralelismo. a peregrinação a Santiago de Compostela. pela distinção de ter sido . só lhe resta o acordar do sonho. voz sulista da iconoclastia modernista. embora sem segui-lo rigidamente como na “Cantiga do mar de Vigo”. Enfim. decorrentes do contexto industralizado e do nazismo. inclusive variação do leixa-pren – por exemplo. tal não o fez nas de amor. Depois. Outros caminhos Para concluir. entre o primeiro verso da última estrofe e o verso anterior: “uma canção de atafinda. “Em Lisboa sobre o mar” constitui desenvolvimento da barcarola de Johan Zorro. com as suas desumanidades e ilusões. das experiências aqui retratadas. Já na “Cantiga de amigo”. substituiu as preocupações amorosas arcaicas por preocupações de cunho político-sociológico. apenas nasalisando a rima em /i/ e mantendo a rima em /a/. Já Pennafort procederia mais de acordo com as suas realizações no campo do memorialismo. Martins Fontes teve estimulado o seu interesse pela revalidação do nosso passado luso-galaico por motivo da sua ligação com Portugal. da tradução e do ensaísmo. lançando mão novamente de recursos paralelísticos. no caso. a modo de epílogo. canalizou para o poema-piada a sua retomada do medievo. Também a rima utilizada faz eco à do paradigma.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 71 formas arcaicas a que procede. encerra o pequeno cancioneiro. constituídos por oito a dezesseis versos redondilhos. // Uma canção sobre o mar”. concluindo pela necessidade do canto para distrair o sofrimento. cabeça do Modernismo no Brasil. se nessas e em outras cantigas de amigo conseguiu reproduzir até mesmo o som de versos e estrofes. Em “À sombra florida das avelaneiras”. vimos que Mário de Andrade. Conclusão. estabelece um diálogo com o gênero como tal considerado. sem refrão ou variação – como ele próprio as nomeia. antes. retoma a tradição dos bailados sob as avelaneiras frolidas e durante as romarias. 6. que na verdade são duas “quase esparsas” – as esparsas são poemas curtos do século XV. não repudiou a nossa lírica ancestral. na cantiga sobre a “noite do poema” que. de tom melancólico.

ele próprio desvelara o caráter circunstancial de seus poemas ditos medievais. inclusive os jornalistas Paulo Bonfim e Edison Moreira. o que se torna ainda mais claro nos poemas que se antecedem de epígrafes remissivas aos modelos poéticos (e são muitos). Muito embora . a grande especialista e mais fecunda cantora das nossas tradições. Cecília Meireles certamente que valorizara o medievalismo por sua tendência filosóficoespiritualista. Também a circunstância docente se ligam os poemas de José Rodrigues de Paiva e Francisca Nóbrega. Merece destaque Stella Leonardos. Mas os poemas apresentam uma constante inquestionável: terem sido construídos a partir das cantigas dos trovadores galego-portugueses. em numerosos poemas que aliam o delectare ao docere proposto pelos antigos. que percebemos também ser a mola-mestra de Marly Vasconcelos. motivados pela impressão que lhe provocara a descoberta dos Cancioneiros ao preparar aulas.) eleito para a Academia das Ciências de Lisboa. expressa em poesia. escritor mais assumido. assumindo um particular feminismo ao ocupar o lugar outrora atribuído aos homenstrovadores no contexto ibérico. sem dúvida. sem estar ausente em todos os demais. Hilda Hilst retomaria dos mestres as lições de brevidade do poema e a relação sinonímica amar/trovar.LA T ARIA DO OMPARO T 72VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. e algumas vezes dos occitanos. Já Stella Leonardos comporia guiada pelo seu confessado amor às nossas raízes líricas. Ao passo que Guilherme de Almeida. vinculara-se muito provavelmente ao Saudosismo lusitano. Nesta perspectivação feminista se inclui Miriam Coeli e. que reconstitui. Por essas amostras de poemas de autores e épocas diversas. também Francisca Nóbrega. certamente que incutindo-lhes a dor da precariedade existencial. sendo-lhe o conhecimento facilitado pela sua dedicação ao magistério e ao folclorismo. a história pátria e aspectos do imaginário popular expressos no Romanceiro. uma doutrina ou sistema que justifique o termo Neotrovadorismo em sua acepção mais rígida. tornando-se. Bandeira. sem ser a determinante principal. pela via do processo poético íbero-brasileiro. no Brasil. interagindo com os seus escritores e ideólogos. mas acentuando a angústia por um tempo existencial não mais recuperável. fica claro que não tivemos.

em peças admiráveis como Morte e vida severina. A injustiça social no Brasil. que a partir de 1947. Dinis é figura de destaque nesse processo. ora criam novos romances a partir de dados da realidade brasileira. E. polarizada no drama do retirante nordestino. ora dialogam com ela. como é o caso de Onestaldo de Pennafort.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 73 a sua relação com esse modelo seja extremamente variável. por exemplo. o romance ibérico. Enfim. por demais fecundo na literatura de cordel e na literatura oral. mesclando-o ao auto medieval.. bem como à literatura “popular” brasileira. de forma admirável. revivendo como tema ou como mestre na poesia brasileira do século XX. como o faz Stella Leonardos. apaixonou-se pela literatura tradicional ibérica. embora não tanto significativo em termos numéricos. quando foi residir na Espanha em decorrência de cargo diplomático. João Cabral de Melo Neto. como Onestaldo de Pennafort e Edison Moreira. em entrevista publicada em 1985. deixamos de lado. qual seria outro melhor termo para denominarmos ditas incursões?.. O próprio poeta revelou. dando frutos de novo sabor. não pode ser deixado de lado pelos especialistas e professores. assimilando e recriando-lhe as formas arcaicas e . Mesmo nos atendo à literatura considerada “culta” ou erudita. um dos grandes poetas do século XX no Brasil. mas que não é por ora nosso objeto de estudo. Mário de Andrade e Cecília Meireles. ao pranto e à tenção trovadorescos. documentada embora pela escrita. tem nessas formas mescladas um meio de expressão altamente impressivo. se levada em conta a extensa demografia do nosso Brasil. de diversas regiões brasileiras. já que se apresenta em poetas canônicos ou não canônicos. Este. voltando à epígrafe inicial. Ora seguem a tradição oral. pode-se constatar a sua floração também em alguns dos nossos poetas eruditos. Com relação aos romances. as sementes poéticas trazidas nas caravelas em nossos primórdios histórico-culturais continuam até hoje vivificadas pelos poetas. Evidentemente que não esgotamos o rico veio do Neomedievalismo brasileiro. através de obras que documentam uma tendência na História da Literatura Brasileira – o Neomedievalismo. Este também retomou. vemos que D.

. (. “constituem as primeiras obras ostentando a técnica e o estilo que se tornariam a marca registrada do poeta” (WOENSEL. A cena do enterro na rede é do folclore catalão.) a da mulher na janela é um poema narrativo em português arcaico incorporado ao folclore pernambucano (. A conversa com Severino antes de o menino nascer obedece ao modelo da tenção galega (MELO NETO. Através da competente análise de Maurice van Woensel (1998. 1994. 1998.) temas. a cena do Irmão das almas homenageia o romance catalão do conde Arnaut. 18).. Os monólogos do retirante provêm do romance castelhano. épico e dramático.). principalmente a sua dívida para com o Romanceiro Ibérico através de algumas cenas e do uso dos versos heptassílabos e da rima assonante. destacara o medievalismo desta obra. de 1953. 141)...... vemos que a obra é rica destes e de outros recursos medievos. principalmente do Romanceiro hispânico: além da preferência pelo verso de sete sílabas (ou de oito. nunca mais abandonando a rima toante: Com Morte e vida severina quis prestar uma homenagem a todas as literaturas ibéricas. p. bem como para com as tenções dos trovadores galaico-portugueses e autos. Também Marly de Oliveira. bem como a mistura dos gêneros lírico. p. 115-143). 1985. nela se percebem a ausência de refrão e a irregularidade na extensão das estrofes. As ciganas estão nos autos antigos (.) (OLIVEIRA. poetisa e esposa do poeta. O encontro com os cantores de incelenças é típico do Nordeste.LA T ORAP DO OMPARO T 74VELAM SERAVAMARIA MAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. Não me lembro se a mulher da janela é de origem galega ou se está em Pereira da Costa. que redunda em um esquema binário. Publi- . 303-304). Diz ela: os monólogos do Retirante têm em comum com o romanceiro ibérico o uso do heptassílabo e a assonância. MELO NETO. SECCHIN. O diálogo do Retirante com o Mestre Carpina segue os processos da tenção galega. p. Observou o especialista que a peça juntamente com o poema “O rio”. (. p.. na contagem espanhola) e pela rima toante entre os versos pares.).

orenêg -iam meb otcapmi mu ahnit arief ed serodatnac sod ed latipac an omsem e roiretni on aroga euq od ro .agitna oãçidart aleuqad aterid oãçaun -ajopsed odot ed e laro olitse olep omoc .ahnapsE an otrebocsed ret uossefnoc euq . originário do francês coursault.)731 . .). 386) o termo cossante “mostrou-se inadequado para designar tal espécie de cantiga de amigo.ele a meganemoh asson a E .mifnE oveidem od oãçalimissa ed ossecorp essed oãçaidem an anitsedron :onacubmanrep ateop ednarg olep o e anilarbac acitéop a ertne oiráidemretni ole mU -op arutaretil a adivúd mes é lanoicidart oriecnamor -itnoc amu etnemlevageni é atsE . ou Manuel Rodrigues Lapa. Parallelistic songs e serranas (Henri Lang). apesar de outras terem sido criadas. como retornadas (Leite de Vasconcelos).lesneoW siam sod mu iof euq .larbaC odnauq . tem conseguido mais larga aceitação. tradutor da Literatura Portuguesa de Aubrey Bell. ou corsaute. anteriormente.edarf od otua O sioped sona atnirt odnac ”agitna acirébi acitéop a moc sedadinifa saus“ euq uovorp ateop ues ed oxelfer o sam .8991 . Segismundo Spina (1991.p .p .1002 ed soicíni me odicelaf etnemzilefni .orielisarb etsedroN od arutluc alep od Nota p.anitsedron ralup alep otnat .áj otluda eleuqad anredom oãsrev a moc otatnoc me .LESNEOW( ocubmanreP -atrec .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 75 o ..LESNEOW( od .p .LESNEOW( ”siaveidem samet e soledom mar ralupop arutaretil ad lepap o odnatlasser iulcnoc lesneoV . 47 (1) Para Massaud Moisés (1978.rotudes etnemamertxe euq etnem o euq arap . paralelísticas (puras). Tal designação.8991 . que não apresenta qualquer vínculo com os cantares paralelísticos”. uma vez que resultou de uma falha de leitura: entendeu-se cos(s)ante em vez de cosaute.( amrof . além da adaptação de A. ou da tradução alemã verkettungslieder.arartne áj . serranilhas (Teófilo Braga)..ocirébi oriecnamor o .)931 .8991 .sáilA .ateop od aicnâfni ad acopé an .)141 . p. p.lisarB on omsilaveidem od oiev ocir ortuo é etse saM nav eciruaM ed etivnoc o aciF .oriegassap omsidom muhnen mare oãn“ -alimissa e marirbocsed euq edadilanosrep aus ed e ocitéop oinêg . ou ainda. Jeanroy chansons à répétitions. que preferiu a denominação cantigas paralelísticas puras ou bailadas. 369-370) também ressalta a inaceitabilidade do termo por parte de especialistas como Agostinho de Campos.sezov arap ameop .somerolpxe -anoxiapa mu e XX olucés od lisarB on satsilaveidem sodacided .oninem etra a .

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POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 81 Antologia .

Poesia medieval: 1.1 Cantigas .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 83 1.

Deus. Deus. Sua produção poética possui traços dos mais singulares e consta de oito cantigas de amor. val! Non ven o que ben queria! ai. Afonso. val! Com’ estou d’amor ferida! ai. Deus. nasceu pouco antes de 1289. val! Com’estou d’amor ferida!” “Com’ estou d’ amor ferida! ai.Dinis e de Dona Aldonça Rodrigues de Pilha. herdeiro legítimo do rei. duas cantigas de amigo. val! Com’estou d’amor coitada! ai. DIZIA LA FREMOSINHA Dizia la fremosinha: “ai. Gozou de um importante estatuto na corte de seu pai. Deus. Morreu por volta de 1328 no cerco de Escalana. Deus.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 85 Afonso Sanches Filho de D. Deus. uma tenção de amor (com Vasco Martinz de Resende) e quatro cantigas de escárnio. val! Com’ estou d’ amor ferida!” . Foi exilado em Castela após 1325 pelo Infante D. contudo só mais tarde seu corpo foi levado para o Mosteiro da Vila do Conde. val! Com’ estou d’amor ferida!” Dizia la ben talhada: “ai.

86 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. val! Non ven o que muit’ amava! ai.) “Com’ estou d’ amor coitada! ai. val! Com’ estou d’ amor ferida!” . Deus. Deus.

Pero m’eu moyro querendo-lhi ben. pesar. possivelmente no segundo terço do século. se lhi disser a coita ‘n que me ten. e q[uero]-m[h-ante] m[ha] c[oyta ‘n]d[urar] c[a lhi] d[izer. se al dizer quiser! Mays. Ben m’oyrá.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 87 Airas Carpancho Trovador galego. Deus. ativo em meados do século XIII. com’ando cuytado d’amor! E. pesar. pesar]. se o for dizer à mha senhor. logo dirá c[a lhi] d[igo] p[esar]. e quero-mh-ante mha coita ‘ndurar ca lhi dizer. DEUS. quando a vir. Ao certo sabemos que seu cancioneiro é constituído de cinco cantigas de amor e oito cantigas de amigo. AY. É muito arriscado estabelecer conjecturas sobre um autor do qual nem sequer o apelido (Carpancho ou Corpancho) está claro. e quero-mh-ante mha coyta ‘ndurar ca lhi dizer. . logo dirá que lhi digo pesar. quando a vir. quando a vir. COM’ANDO CUYTADO D’AMOR! Ay. logo dirá ca lhi digo pesar. se lhi ren de mha coyta disser.

. E sse fezer tenpo. e por veer meu amigo logu’i. a Santiag’. e mha madre non for. un dia.) POR FAZER ROMARIA. Quer’eu ora mui cedo provar se poderey hir queymar mhas candeas. pug’ en meu coraçon. PUG’EN MEU CORAÇON Por fazer romaria. con gran coita que ey.88 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. querrey andar mui leda. e parecer melhor. por fazer oraçon e por veer meu amigo logu’i. e por veer meu amigo logu’i.

so aqueste ramo. no período entre 1284 e 1289.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 89 Airas Nunez Foi um clérigo. BAILEMOS NÓS JA TODAS TRES. sol que nós bailemos. uma pastorela e quatro de escárnio e maldizer. . provavelmente galego. Suas cantigas constam no Cancioneiro da Biblioteca Nacional e no Cancioneiro da Vaticana. São cerca de sete cantigas de amor. se amigo amar. AI AMIGAS Bailemos nós ja todas tres. Por Deus. so aquestas avelaneiras frolidas. louçanas. e quen ben parecer como nós parecemos. se amigo amar. velidas. ai irmanas so aqueste ramo d’estas avelanas. mentr’al non fazemos so aqueste ramo frolido bailemos. e quen for louçana como nós. Atribui-se a ele co-autoria em algumas das Cantigas de Santa Maria. ai amigas. verrá bailar. e quen for velida como nós. se amigo amar. ai amigas. Bailemos nós ja todas tres. Airas Nunez parece ter sido um homem culto. so aquestas avelaneiras frolidas verrá bailar. Compôs as suas cantigas na corte de Sancho IV. so aqueste ramo d’estas avelanas verrá bailar. três de amigo. dono de uma respeitável técnica.

....... e faz-m’ alegr’ e faz-me trobador. E por esta razon ....... ... mais pero que sei lealment’ amar..[-ar] faz-me viver en alegrança. Ca per amor cuid’ eu mais a valer e os que d’ el desasperados son nunca poderán ne¢u ben aver........ mal veñ’ a quen se d’el desasperar.... ca trob’ e canto por señor....... Pois min amor non quer leixar e da-m’ esforç’ e asperança.. ¡vedes que mal!......90 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.. Pois min amor [non quer leixar e da-m’ esforç’ e asperança.. e é cousida sen dultança. Pois min amor [non quer leixar e da-m’ esforç’ e asperança mal veñ’ a quen se d’el desasperar]. Atal am’ eu. cuidand’ en ben sempr’..) AMOR FAZ A MIN AMAR TAL SEÑOR Amor faz a min amar tal señor que é mais fremosa de quantas sei.. e faz-me todavia en ben cuidar. que sobre quantas oj’ eu sei mais val de beldad’ e de ben falar. e por seu quer’ andar.. Cousecen min os que amor non han e non cousecen si.. [-ar] trob’ eu..... de pran. e mais vos direi: .... e non per antollança.. mais aver mal.. mal veñ’ a quen se d’el desasperar]...

e tornei-m’ eu logo a meu cam{o. e eu mui passo fui-mi achegando pola oír. e dizia este cantar mui ben: “¡Ai estorniño do avelanedo. e dizia mui ben este cantar: “Solo ramo verd’ e frolido vodas fazen a meu amigo. e dizia este cantar ben a pastor: “Pela ribeira do río cantando ía la virgo d’amor. ¡choran ollos d’ amor!” E a pastor parecia mui ben. [a]i. ¿quen amores á como dormirá. indo-ss’ én manseliño. bela frol?” .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 91 OÍ OG’ EU ¢A PASTOR CANTAR Oí og’ eu ¢a pastor cantar du cavalgaba per ¢a ribeira. e moir’ eu e pen’ e d’ amores ei mal!” E eu oí-a sospirar enton e queixava-sse estando con amores e fazia guirlanda de flores. des i chorava mui de coraçon e dizia este cantar enton: “¡Que coita ei tan grande de sofrer. cantades vós. amar amigu’ e non ousar veer! E pousarei solo avelanal!” Pois que a guirlanda fez a pastor foi-se cantando. ca de a nojar non ouve sabor. e sol non falei ren. e a pastor estava senlleira. e chorava e estava cantando. e ascondi-me pola escuitar.

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Alfonso X, o Sábio

Filho de Fernando III, o Santo, e de Beatriz de Suábia, nasceu em Toledo em 1221. É sem dúvida o protagonista da organização do Estado Medieval da Península Ibérica. Sendo infante e em posse dos cargos de alferes-mor (1242) e de tenente de Salamanca e Leão (1243 a 1246), leva a cabo a conquista de Murcia em 1243 e de Jaen em 1246. Foi coroado rei de Leão e Castela em 1252, tendo exercido o poder por vinte anos. Seu reinado coincidiu com a fase áurea da lírica galaico-portuguesa. Trovador prolífico, compôs quarenta e quatro poesias profanas, sendo trinta e sete escárnios, três tenções, três de amor e uma de amigo. Foi autor e/ou responsável pela publicação das 427 Cantigas de Santa Maria. Sua corte converteuse em ponto de encontro para trovadores, tanto galego-portugueses como provençais, além de outros intelectuais, artistas e sábios diversos. Por essas atividades foi conhecido como O Sábio. Morreu em Sevilha, em 1284.
Como Santa Maria feze estar o monge trezentos anos ao canto da passarynna, porque lle pedia que lle mostrasse qual era o vem que auían os que eran en Paraíso. Quen a Uirgen ben servirá a Paraýso irá. E d’aquest’ un gran miragre uos quer’ eu ora contar que fezo Santa Maria por un monge que rogar lh’ ía sempre que lle mostrasse qual ben en Paraís’á, Quen a Uirgen ben servirá…

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
E que o uiss’ en ssa uida, ante que fosse morrer. Et porend’ a Grorïosa uedes que lhe foi fazer: fez-lo entrar en h¢a orta, en que muitas vezes ia, Quen a Uirgen ben servirá… Entrarára; mais aquel dia fez que h¢a font’ achou mui crara et mui fremosa, et cab ela s’ assentou; et pois lauou mui bem sas mãos, diss’: − ¡Ay Uírgen! ¿Que será? Quen a Uirgen ben servirá… ¡Sei uerei do Paraýso, o que ch’ eu muito pidí, algun pouco de seu uiço ánte que saýa d’aquí, et que sábia do que ben obra qué galardon auerá! Quen a Uirgen ben servirá… Tan toste que acabada ouu’ o mong’ a oraçon, oyú h¢a passarinna cantar log’ eu tan bon son que ss’ escaeceu seendo e catando sempr’ alá. Quen a Uírgen ben seruirá.. . Atan gran sabor auía d’aquel cant’ e d’ aquel lais, que grandes trezentos anos esteuo assí, ou máys, cuidando que non esteuera senon pouco, com’ está Quen a Uírgen ben seruirá...

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL
Mong’ alg¢a uez no ano, quando sal ao uergeu; des í foiss’ a passarynna, de que foi a él mui greu, et diz’: − Eu d’aquí ir-me quero, ca oy máis comer querrá. Quen a Uírgen ben seruirá... O convent’. – E foi-sse logo, et achou un gran portal que nunca uíra, et disse: − ! Ai, Santa Maria, ual! Non é est’ o meu mõesteiro; Pois de mi? qué se fará?Quen a Uírgen ben seruirá... Des í entrou na eigreia, et ouueron gran pauor os monges quando o uíron et demandou-ll’ o prior, dizend’: − Amigo, ¿uós quén sodes ou qué buscades acá¿ – Quen a Uírgen ben seruirá... Diss’él: − Busco meu abade, que agor’ aqui leixey, et o prior et os frades de que mi agora quitey quando fui a aquela orta; ú séen? quén mi o dirá? − Quen a Uírgen ben seruirá... Quand’ est’ oyú o abade, téue-o por de mal sen, et outrossí o conuento; mais desque souberon ben de como fora este feyto, disseron: − !Quén öyrá Quen a Uírgen ben seruirá...

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
Nunca tan gran marauilla como Deus por éste fez pólo rogo de ssa Madre, Uírgen santa de gran prez! Et por aquesto a loemos; mais ¿quén a non loará Quen a Uírgen ben seruirá... Máis d’aoutra cousa que seia? ca, par Deus, gran dereit’ é, pois quanto nós lle pedimos nos dá seu Fill’ a la ffe por ela, et aqui nos mostra o que nos depois dará. Quen a Uírgen ben seruirá, a Paraýso irá.

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ESTA É DE LOOR DE SANTA MARIA.
Dized’ ¡ai, trovadores! a Sennor das Sennores ¿por qué a non loades? Se uós trobar sabedes, a porque Deus auedes ¿por qué a non loades? A Sennor que dá uida et é de bem comprida, ¿por qué a non loades? A que nunca nos mente et nossa coita sente, ¿por qué a non loades? A que é máis que boa et por que Deus perdõa, ¿por qué a non loades? A que nos dá conorte na uida et na morte, ¿por qué a non loades? A que faz o que morre uiu’, e que nos acorre, ¿por qué a non loades?

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

ESTA É DE LOOR DE SANTA MARÍA, COM’ É FREMOSA ET BOA, ET Á GRAN PODER.
Rosa das rosas et Fror das frores, Dona das donas, Sennor das Sennores Rosa de beldad e de parecer, et Fror d’ alegria et de prazer; Dona en mui piadosa seer, Sennor en toller coitas et doores. Rosa das rosas et fror das frores..... Atal Sennor deu’ ome muit’amar que de todo mal o pode guardar, et pode-ll’ os peccados perdõar que faz no mundo per máos sabores. Rosa das rosas et fror das frores..... Deuémol-a muit’ amar et seruir, ca punna de nos guardar de falir; des í dos erros nos faz repentir que nós fazemos come pecadores. Rosa das rosas et fror das frores..... Esta Dona que tenno por Sennor et de que quero seer trobador, se eu per ren poss’ auer seu amor, dou ao demo os outros amores. Rosa das rosas et Fror das frores, Dona das donas, Sennor das Sennores.

seria um jogral ligado. “Direy-vo-l’ eu. SE BEN AJADES! “Ay. fremosinha. à poderosa corte senhorial dos Sousas. poi-lo non sabedes: vin atender meu [amigo]”. Seu cancioneiro compõe-se de dez cantigas de amor. AY. poys me preguntades: vin atender [meu amigo]”. “Longi de vila quen asperades?”. “Ay. . se gradoedes! Longi de vila quen atendedes?”. segundo alguns estudiosos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 99 Bernal de Bonaval Provavelmente natural do sudoeste da Galiza. fremosinha. “Longi de vila quen atendedes?” “Direy-vo-l’ eu. Sua atividade poética parece estar situada na primeira metade do século XIII. FREMOSINHA. “Vin atender [meu amigo]”. “Vin atender meu amigo’’. oito de amigo e uma tenção. se ben ajades! Longi de vila quen asperades?”.

em 1290. e u é? .. portanto. Produziu 137 cantigas (72 de amor. Deus e u é? Se sabedes novas do meu amigo. convertendo sua corte em local para muitos trovadores e no núcleo de sobrevivência da tradição lírica galaico-portuguesa. e u é? Se sabedes novas do meu amado. e u é? Vós preguntades polo voss’ amigo? E eu bem vos digo que é san’ e vivo.. 51 de amigo. 11 escárnios e 3 pastorelas). aquel que mentiu do que pos commigo? Ai Deus. se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus. neto de Afonso X. AI FLORES DO VERDE PINO. aquel que mentiu do que mh a jurado. Ai Deus. Empreendeu uma política cultural que desembocou no surgimento de novos gêneros na literatura portuguesa (os Livros de Linhagens e a historiografia) e na criação da Universidade. data de sua morte. Ai flores. ai flores do verde ramo. nasceu em 1261. Continuou a linha iniciada por seu pai. Dinis Filho de Afonso III de Portugal e de Dona Beatriz de Castela e. AI FLORES. Ai Deus.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 101 D. e u é? Ai flores. Reinou de 1279 a 1325. o que o torna o trovador mais fecundo da lírica galaico-portuguesa. se sabedes novas do meu amado! Ai. ai flores do verde pino.

) Vós preguntades polo voss’ amado? E eu bem vos digo que é viv’ e sano. Ai Deus. e u é? E eu bem vos digo que é san’ e vivo. Ai Deus.102 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. e u é? . Ai Deus. e será vosc’ ant’ o prazo saido. e será vosc’ ant’ o prazo passado. e u é? E eu bem vos digo que é viv’ e sano.

que por vós tem a sa morte chegada. Um tal ome sei [eu] que perto sente de si [a] morte [chegada] certamente. ai bem talhada. seed’em nembrada: eu. mha dona. . nom xe vos obride: eu. vo-lo [em] partide. Um tal ome sei [eu].POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 103 UM TAL OME SEI EU. venha-vos em mente: eu. mha dona. veedes quem é. AI BEM TALHADA Um tal ome sei eu. veedes quem é. mha dona. aquest’oide. que por vós morre. veedes quem é.

mais os que trobam no tempo da flor e nom em outro. sei eu bem que nom am tam gram coita no seu coraçom qual m’eu por mha senhor vejo levar. sõo sabedor que os que trobam quand’a frol sazom a. que pois m’a de matar. logu’ em trobar razom nom am.104 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. nem vivem em qual perdiçom oj’eu vivo.) PROENÇAES SOEN MUI BEM TROBAR Proençaes soen mui bem trobar e dizem eles que é com amor. Ca os que trobam e que s’alegrar vam e-no tempo que tem a color a frol comsigu’ e tanto que se fôr aquel tempo. se Deus mi perdom. nom am tal coita qual eu ei sem par. . Pero que trobam e sabem loar sas senhores o mais e o melhor que eles pódem. e nom ante.

E vai lavar delgadas. [E] vai lavar camisas. levantou-s’ alva. Levantou-s’ a louçana. levantou-s’ alva. levantou-s’ alva. O vento lh’as desvia. Levantou-s’ alva. o vento ih’ass desvia e-no alto. e vai lavar camisas e-no alto. Vai-las lavar alva. Vai-las lavar alva. Meteu-s’ alva em sanha. e-no alto. Vai-las lavar alva. levantou-s’ alva.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 105 LEVANTOU-S’ A VELIDA Levantou-s’ a velida. Vai-las lavar alva. . Vai-las lavar alva. o vento lh’as levava e-no alto. e vai lavar delgadas e-no alto. meteu-s’alva em ira e-no alto Vai-las lavar alva. levantou-s’ alva. O vento lh’as levava.

) MESURA SERIA. Pero se eu ei de morrer sem vo-lo nunca merecer.106 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ca se meu feito vai assi. coitado pecador. me queira poer conselh’i. . de vós amercear de mi. sempr’ o melhor que nunca [eu] pudi fazer. moir’eu. des que vos vi. Pero sabe nostro senhor que nunca vo-l’ eu mereci. mais nom merecedor. porem querede vos doer de mim. muit’a. que nom ei poder d’aquesta coita mais sofrer de que. que vós em grave dia vi. SENHOR Mesura seria. tam grave. Mais Deus que de tod’ é senhor. e em mui grave voss’amor. fui sofredor. senhor. e m’el nom fôr ajudador contra vós que el fez valer mais de quantas fezo nacer. nom vos vej’ i prez nem loor. mais sabe bem que vós servi.

que adevinhades. Sedia la fremosa seu sirgo lavrando. sei [eu] que andades d’ amor mui coitada que tan ben cantades cantigas d’ amigo. sei eu que avedes amor mui coitado que tan ben dizedes cantigas d’ amigo. sa voz manselinha fremoso dizendo cantigas d’ amigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 107 Estevan Coelho Trovador português. ambas descendentes de Johan Soares Coelho. A hipótese mais provável sugere a sua participação na corte de D. dona. Dinis. . Há problemas para sua identificação. – Avuitor comestes. Compôs duas cantigas de amigo. aproximadamente. dona. – Par Deus de Cruz. sa voz manselinha fremoso cantando cantigas d’ amigo. Par Deus de Cruz. SEDIA LA FREMOSA SEU SIRGO TORCENDO Sedia la fremosa seu sirgo torcendo. nasceu no último terço do século XIII. onde teria realizado composições entre 1300 e 1325. pois existem duas personagens com esse nome.

se m’ el non vir. se m’el visse. pero sôo guardada. par Deus. morrerá. morrerá. E. QUE TRIST’ ANDA MEU AMIGO Que trist’ anda meu amigo. Nuno de Lara e deve ter vivido na segunda metade do referido período. o que dificulta a identificação de pessoas assim chamadas durante o século XIII. Se soubess’ i á morrer.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 109 Fernan Froiaz O sobrenome Froiaz tornou-se um apelido utilizado por famílias nobres portuguesas e galegas. mais quite será de ben. o Froiaz ao qual nos referimos é. nunca já ledo será e. Compôs quatro cantigas de amigo. Contudo. se m’ el non vir. e. provavelmente. i-lo-i’ ante veer ca bem sei d’esta vegada nunca já ledo será e. que pod’ e val. por que me querem levar d’aqui. morrerá. pois el fôr de min partido. se m’ el non vir. se el falar non poder ante comigo. se me’ el non vir. nunca já ledo será e. morrerá. Que trist’ oje que eu sejo! e. u non jaz al. guarido seria logo por en. . morrerá. E. um dos descendentes do conde D. se m’eu for e o non vejo nunca já ledo será e.

a linhagem perdeu grande parte de sua importância política. Morreu. Teria sido um dos primeiros a ter contato com a cultura provençal e difundi-la na lírica galaico-portuguesa. após janeiro de 1251. se ora non. SE DEUS ME LEIXE DE VOS BEN AVER Se Deus me leixe de vos ben aver. A partir deste ano. Era tenente de Celorico da Beira em 1230. E fez mi-o voss’amor tan muito mal. Garcia Mendiz D’Eixo e irmão do conde D. Entre 1248 e 1251 casou-se com Urraca Abril de Lumiares. que nunca vi prazer de min. filho do também poeta D. des quando m’eu de vos parti. senhor fremosa! Nunca vi prazer des quando m’eu de vos parti. Gonçalo Garcia. nen d’al. da linhagem dos Sousas. o que pode explicar o silêncio documental sobre o autor entre 1230 e 1247. Ouv’eu tal coita no meu coraçon que nunca vi prazer. des quando m’eu de vos parti.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 111 Fernan Garcia Esgaravunha Nasceu no princípio do século XIII. provavelmente. Compôs dezoito cantigas de amor e duas de escárnio. .

e las que cantavam non-nas quer matar. irmana. meu amigo. esteve ativo poeticamente no final do século XIII e início do XIV. vayamos dormir nas rrybas do lago. meu amigo. hu eu vi andar. Por sua colocação nos cancioneiros. hu eu andar vi. hu eu andar vy a las aves. cinco de amigo e três de escárnio. Vaiamos. VAYAMOS. meu [ amigo]. Certos indícios textuais fazem supor que freqüentou a corte de Dom Dinis. sua obra é composta de duas cantigas de amor. Seu arco na mano as aves ferir. e las que cantavan leixa-las guarir. hirmana. Enas rribas do lago. seu arco na maão as aves ferir. Enas rribas do lago. a las aves. Seu arco na mano a las aves tyrar. Se assim consideramos. A linhagem manteve uma estreita relação com o Mosteiro de São Martinho de Júbia. IRMANA. m[eu amigo]. meu [amigo]. seu arco na mano a las aves tirar. membro dos Esquio. vaiamos folgar nas rribas do lago. hu eu vi andar a las aves. a las aves. da pequena nobreza galega. meu amigo. a las aves. a las aves.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 113 Fernand’ Esquio Trovador galego. Supõe-se que ele fosse reconhecido por Fernando do Lago. . VAYAMOS DORMIR Vayamos.

Do trovador. passou per aqui un filho d’ algo e leixou-m’ assi penada. madre. passou per aqui quen non passasse e leixou-m’ assi penada. se me los ei. . os seus amores ei. outros me lhe dei. os seus amores ei. outros me lhe dei. Sua obra constitui-se de vinte e uma cantigas de amor. os seus amores ei. ai. só podemos conjecturar que esteve com seu irmão Paio na corte senhorial dos Sousas no início da segunda década do século XIII. ai. PASSOU PER AQUI UN CAVALEIRO Madre.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 115 Fernão Rodrigues de Calheiros Cavaleiro de provável origem portuguesa e que seria irmão de Paio Rodrigues e de Pero Rodrigues de Calheiros. madre. com’ eu ando: ai. madre. os seus amores ei. mais leixasse: ai madre. Madre. filhos de Rodrigo Fernandes. passou per aqui un cavaleiro e leixou-me namorad’ e com marteiro: ai. Madre. ai. época de sua atividade poética. ca mi-os busquei. se me los ei. madr’. outros me lhe dei. oito de amigo e três de escárnio MADRE. se me los ei. os seus amores ei. ca mi-os busquei. madre. os seus amores ei. ca mi-os busquei.

ca non poss’ eu al ben querer. ca non poss’ eu al ben querer.116 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. amigo? pois que non queredes migo viver.) QUE FAREI AGOR’. non sei eu como possa viver. En gran coita me leixades. AMIGO? Que farei agor’. ca non poss’ eu al ben querer. Se aquesta ida vossa fôr. se mi-o dizedes que vós ren sen mi podedes viver. ca non poss’ eu al ben querer. Matar-m’ ei. se vós alhur ir cuidades viver. .

de quantas molheres no mund’ á. sempr’ eu direi ja de molheres moito mal. ora vej’ eu que á Deus mui gran sabor de vos destroir. . casou-s’ ora. o que o torna. porém. 11 escárnios e uma tenção. u as vir.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 117 Johan Airas de Santiago Foi um trovador galego. con quena nunca amou nen amará. 22 de amor. ca. inferior apenas a D. de todas. Quanto a sua cronologia. não há como garantir nada. vós gran mal fostes dizer. sempre mi gran mal quis e querra ja. e non soubestes entender o mui gran mal que vos sempr’ én verra. com oitenta e uma poesias (47 de amigo. cativ’. Dinis. que. JOAN AIRAS. originário de Santiago de Compostela e pertencente a uma das famílias burguesas da vila jacobéia. o mais provável é que sua produção esteja situada após 1270. – Joan Vaasquiz. ORA VEJ’ EU QUE Á – Joan Airas. por gran ben que lh’ eu sabia querer. além da tenção iniciada por Johan Vasquez). pois que vós tal cousa fostes comedir. É considerado um dos autores mais significativos da lírica galaico-portuguesa. por mi pesar fazer. no que diz respeito ao volume de sua produção poética. porque eu foi end’ ¢a servir.

errades vós. non tenh’ eu por razon d’ as molheres todas caeren mal por end’ ¢a soo que a vós fal.118 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. por end’ a vós ¢a tolher o sén e dizerdes das outras mal por én. non dizedes ren. e quen lhis d’ esto ben disser. assi Deus mi pardon. ca todos se queixan d’ elas poren. – Joan Vaasquiz. que filhastes por én don. senon vós. atal prazer veja da ren que máis amar no seu coraçon.) – Joan Airas. e todas son aleivosas. ca Deulo sabe que é sen razon. vós perdestes o sén. – Joan Airas. pois viren que non amades al senon elas. – Joan Vaasquiz. ca enas molheres sempr’ ouvo ben e avera ja. . logo vos faran tal qual fez a min ¢a. mais pera vós non. todas taes son que.

mais ide-vos vossa via. empero dix’ a gran medo: – Mia senhor. que en al cuidar podesse senon todo en amor. . Ali ‘stivi eu mui quedo. se mi ascuitardes. e ir-m’ ei quando mandardes. non estedes máis aqui. quando saía l’ alvor. por Santa Maria. pois que vos aqui acharen. nas ribas do Sar. E as aves que voavan. ben diran que máis ouv’ i. máis aqui non [e]starei. – Senhor. falar-vos-ei un pouco. ca os que aqui chegaren. faredes mesura i. quis falar e non ousei. todas d’ amores cantavan pelos ramos d’ arredor.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 119 PELO SOUTO DE CRECENTE Pelo souto de Crecente ¢a pastor vi andar muit’ alongada de gente. alçando voz a cantar. apertando-se na saia. quando saía la raia do sol. mais non sei tal qu’ i ‘stevesse.

E. SENHOR. mia senhor. e vi donzelas muitas u andei. pois mi as foron mostrar.) VI EU DONAS. en cas d’ el-rei. a máis fremosa de quan[tas eu vi. senhor. senhor. mia senhor. mia senhor. fremosas e que parecian ben. preguntei por donas muitas. [long’ estava de parecer assi] Come vós. quero-vos al dizer: a máis fremosa de quantas eu vi. direi-vos ¢a ren: a máis fremosa de quantas eu vi. . e. Eu muitas vezes provei se ac[h]aria de tal parecer alg¢a dona. long’ estava de parecer assi]. long’ estava de parecer assi Come vós. e. que oi loar de parecer nas terras u andei. EN CAS D’ EL-REI Vi eu donas. mia senhor. e. u andei.120 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

senhor. e por vos non mentir. ala vi. tanto vos eu mui máis precei des i]. ala vi. SENHOR. E as que ala maior prez avian en todo ben. tanto vos eu mui máis precei des i. senhor. e poilas vi. senhor. senhor. e máis vos én direi: quantas máis donas. senhor. quantas máis donas. estive cuidando en vós. LEON E CASTELA Andei. [E] quantas donas eu vi. pero.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 121 ANDEI. e ben parecian. e non foi i dona nen donzela que eu non viss’. e cousi-as. Leon e Castela despois que m’ eu d’ esta terra quitei. ala vi. . punhei de as cousir. des quando me foi d’ aqui. quero-vos al dizer: quantas máis do[nas. senhor. todalas fui veer. [tanto vos eu mui máis precei des i].

desenvolveu sua atividade em Portugal. Os trobadores que pois ficarom eno seu regno e no de Leom. Os cavaleiros e cidadãos que d’este rei aviam dinheiros e outrossi donas e scudeiros matar se deviam com sas mãos. [e] no d’Aragom. provavelmente leonês. Afonso IV de Portugal e o conde de Barcelos. de que nom pode dizer nem ¢u mal homem. É autor. no de Castela. pero seja posfazador. nunca pois de sa morte trobarom. de uma cantiga que homenageia D. na corte de D. . composta por volta de 1355. também. Contudo. OS NAMORADOS QUE TROBAM D’AMOR Os namorados que trobam d’amor todos deviam gram doo fazer e nom tomar em si nem ¢u prazer. por que perderom a tam bõo senhor. por que perderam tam boo senhor como el rei dom Denis de Portugal.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 123 Johan [de Leon] Jogral. a quem dedicou um pranto após a sua morte em 1325. Dinis. E dos jograres vos quero dizer: nunca cobrarom panos nem aver e o seu bem muito desejarom. de que posso eu bem dizer sem pavor que nom ficou d’al nos cristãos.

que o vai semelhar em fazer feitos de muito bõo rei. per quant’eu vi e sei.) E mais vos quero dizer d’este rei e dos que d’el aviam bem fazer: deviam-se d’este mundo a perder quand’el morreu.124 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . ca el foi rei atam mui prestador e saboroso e d’amor trobador: tod’o seu bem dizer nom poderei! Mais tanto me quero confortar em seu neto.

e d’ est’ alguen se queyxará. também é muito considerado por sua individualidade e originalidade.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 125 Johan Garcia de Guilhade Natural de Guilhade. ca me vejo sandeu andar. Provavelmente foi cavaleiro a serviço da linhagem dos Sousas e manteve contato também com outros membros da nobreza portuguesa. AMIGOS. perto de Barcelos. Além de um dos mais fecundos poetas do período. viveu na segunda metade do século XIII. 17 de amigo. com mais de cinqüenta composições (14 cantigas de amor. Pero quen quer x’ entenderá aquestes olhos quaes son. 21 de escárnio e de maldizer e duas tenções). NON POSS’ EU NEGAR Amigos. Pero non devia a perder ome que ja o sen non á de con sandece ren dizer. mays eu ja quer moyra quer non: os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assí. non poss’ eu negar a gran coyta que d’amor ey. . e con sandece digu’ eu ja: os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assí. e con sandece o direy: os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assí.

já çafou! E d’essa folia toda ja çafou! Já çafou de pan de voda. Joan Garcia. muy ben sey eu que m’ouvestes grand’amor e estevestes muy gran sazon bem con migo. Já çafou! . e en sem e en loucura. quanto durava o dia. Já eu faley en folia com vosq’[e] en gran cordura. mays esto. meu amigo.126 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) PER BÕA FE. mays vede-lo que vos digo: já çafou! Os grandes nossos amores. que mí e vós sempr’ouvemos. MEU AMIGO Per bõa fe. nunca lhi cima fezemos como Brancafrol e Flores. mays tempo de jogadores já çafou.

e desejo. aproximadamente. conselheiro do rei Afonso III.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 127 Johan Lobeira Trovador português. Carolina Michaëlis de Vasconcelos. mi tormenta voss’ amor em guisa tal. meio-irmão do trovador Martin Perez Alvin e sobrinho de Men Soarez de Melo. como a douta filóloga D. Morreu em 1304. . Mas atualmente isso tem sido contestado por vários estudiosos. tan sobejo mataria h¢u leom. Exerceu sua atividade poética entre 1258 e 1304 (na corte de Afonso III a partir de 1261). bela sobre toda fror. fin roseta. non me meta en tal coi[ta] voss’amor! Das que vejo non desejo outra senhor se vós non. SENHOR GENTA Senhor genta. A autoria da cantiga a seguir lhe é atribuída por alguns especialistas. Compôs mais cinco cantigas de amor e um escárnio. fin roseta. mays la vossa m’ é mortal! Leonoreta. que tormenta que eu senta outra non m’ é ben nen mal.

128 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. [bela sobre toda fror. fin roseta. Ay fremusura sem par! Leonoreta. non me meta en tal coita voss’amor!] . fin roseta. É loucura que me dura que me non posso én quitar. fin roseta. non me meta en tal coita voss’amor!] Mha ventura en loucura me meteu de vos amar.) senhor do meu coraçon! Leonoreta. fin roseta. [bela sobre toda fror.

que se veesse o mais cedo que podesse. fez-mi tal preito e disse quand’ e qual dia. que nunca lhi ben quisesse. u é meu amigo que non m’envia mandado? Ca preit’ avia comigo. Alguns registros fazem supor que mudou-se para Portugal junto com um nobre castelhano (ou talvez galego) e lá permaneceu até o fim da vida. U É MEU AMIGO Ai Deus. que se veesse o mais cedo que podesse. Esta compõe-se de onze cantigas de amor e sete de amigo. senão toda. ao menos parte de sua obra. chorando. AI DEUS. se eu end’al soubesse. E. ergo se fosse mal treito de morte. ergo se fosse coitado de morte. Quase todos os cancioneiros que chegaram até nós conservaram. E já o praz’ é passado que m’el disse que verria e que mi avia jurado. Quando s’el de mi partia. que se veesse o mais cedo que podesse. viveu entre Santiago e Lugo entre os anos de 1238 e 1286.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 129 Johan Lopes de Ulhoa Trovador originário da Galiza. sen gran coita todavia de morte. .

e lá iran nas barcas migo mya filha e noss’ amigo. . e lá iran nas barcas migo mya filha e noss’ amigo. Barcas mandou lavrare e no mar as deyatare. Barcas mandou fazere e no mar as metere. e lá iran nas barcas migo mya filha e noss’ amigo. e lá iran nas barcas migo mya filha e noss’ amigo. De qualquer maneira. situa-se durante o reinado de Dom Dinis (1279-1325). sua atividade poética. El-rey Portugueese barcas mandou fazere.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 131 Johan Zorro Há poucos documentos confiáveis sobre sua pessoa. EL REY DE PORTUGALE El-rey de Portugale barcas mandou lavrare. o que tira a certeza de qualquer fato em sua trajetória. pelas freqüentes referências a Lisboa e ao rei de Portugal. Compôs dez cantigas de amigo e uma de amor.

) EN LIXBOA SÔBRE O MAR En Lixboa sôbre lo mar barcas novas mandey lavrar. ay mya senhor velida! En Lixboa sôbre lo lez barcas novas mandey fazer. ay mya senhor velida! Barcas novas mandey lavrar e no mar as mandey deytar.132 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ay mya senhor velida! Barcas novas mandey fazer e no mar as mandei meter. ay mya senhor velida! .

como nós velidas. ay loadas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 133 BAYLEMOS AGORA. s’ amig’ amar. sô aquestas avelaneyras frolidas verrá baylar! Baylemos agora. ay velidas. sô aquestas avelaneyras granadas e quen fôr loada. como nós loadas. por Deus. por Deus. sô aquestas avelaneyras frolidas e quen fôr velida. sô aquestas avelaneyras granadas verrá baylar! . s’ amig’ amar. AY VELIDAS Baylemos agora. POR DEUS.

no entanto. Muito bem se soube buscar. por xe mi matar. mais. que nunca melhor feita vi. . é difícil situarmos a existência de Juião Bolseiro. fez ¢as lirias no son que mi sacan o coraçon. por mi ali quando a fez. FEX ¢A CANTIGA D’ AMOR Fex ¢a cantiga d’ amor ora meu amigo por mi. en loar-mi muit’ e meu prez. mais de pran. que trata-se de um jogral de origem galega e que viveu em meados do século XIII. fez ¢as lirias no son que mi sacan o coraçon. como x’ é mui trobador. Per bõa fé ben baratou De a por mi bõa fazer E muito lho sei gradecer. fez ¢as lirias no son que mi sacan o coraçon. Mais vedes de que me matou. Sabemos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 135 Juião Bolseiro Como ocorre com quase todos os trovadores.

em que responde a poetas satíricos. e en ssa voz manssel{a cantou e diss’ a men{a: “ Prouguess’ a Santa Maria que oyss’ o meu amigo [com’ eu este cantar digo!”] Cantava mui de coraçon e mui fremosa estava. Rodrigu’Eanes Redondo e João Vasquez de Talaveira) e mais outras cinco. uma cantiga de escárnio.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 137 Lourenço [Jogral] Jogral considerado de origem portuguesa pela maioria dos estudiosos. Não há muitas certezas no que diz respeito à sua biografia. e diss’ ela: – “ Nostro Senhor. Sabe-se que exerceu sua atividade poética em meados do século XIII e que se relacionou com trovadores portugueses – como Johan Soares Coelho e Johan Garcia de Guilhade – e com trovadores castelhanos como Pero Garcia Burgalês. oj’ eu foss’ aventurada que oyss’ o meu amigo com’ eu este cantar digo!” A moça ben parecia. e disse. três tenções (com Pero Garcia. HUNHA MOÇA NAMORADA Hunha moça namorada dizia hun cantar d’amor. São atribuídas a esse jogral três cantigas de amor. quando cantava: “ Peç’ eu a Deus por pediçon que oyss’ o meu amigo [com’ eu este cantar digo!”] . seis de amigo.

se vistes meu amigo? E ay Deus. Sua obra consiste em sete cantigas de amigo. Além disso. se verrá cedo! Se vistes meu amigo. se vistes meu amado? E ay Deus. por que ey gran coydado? E ay Deus. como também do centro geográfico de sua atividade poética. Suas composições demonstram uma educação ligada a ambientes clericais ou aristocráticos e está situada na segunda metade do século XIII. se verrá cedo! Se vistes meu amado. cuja origem é possivelmente galega. se verrá cedo! Ondas do mar levado. ONDAS DO MAR DE VIGO Ondas do mar de Vigo. se aceitarmos as constantes referências a Vigo contidas em suas cantigas. Tais alusões podem servir não só como prova de sua naturalidade plausível.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 139 Martin Codax Jogral ou segrel. se verrá cedo! . o por que eu sospiro? E ay Deus. presentes nos Cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional de Lisboa. um pergaminho encontrado por Pedro Vindel contém a melodia de seis dessas suas cantigas.

se me saberedes contar porque tarda meu amigo sen min? .140 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. se me saberedes dizer porque tarda meu amigo sen min? Ay ondas. Ay ondas.) AY ONDAS. QUE EU VIN VEER. que eu vin veer. que eu vin mirar.

en Vigo: Amor ey! Que nunca ouver’ amado. no sagrado. Que nunca ouver’ amado: Amor ey! Que nunca ouver’ amigo. baylava corpo velido: Amor ey! En Vigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 141 ENO SAGRADO. en Vigo. Ergas en Vigo. EN VIGO Eno sagrado. baylava corpo delgado: Amor ey! Baylava corpo velido. Ergas no sagrad’. que nunca ouver’ amigo: Amor ey! Baylava corpo delgado. no sagrado: Amor ey! .

o que dificulta a identificação do trovador. O mais provável. nen veerei ja mais. é que seja um jogral de origem galega. FOI-S’ UN DIA MEU AMIGO D’AQUI Foi-s’ un dia meu amigo d’aqui trist’e cuitad’e muit’a seu pesar. por que me quis d’el mia madre guardar.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 143 Martin de Caldas O sobrenome Caldas é comum à Galiza e a Portugal. Conservam-se deste autor apenas sete cantigas de amigo. se m’el non ven. non vi depois prazer de nulha ren nen veerei já mais. mais eu. Quando s’el ouve de mi a partir. . non vi depois prazer de nulha ren. porém. mais eu. se m’el non ven. Sua produção cultural parece estar situada entre o segundo e o terceiro quarto do século XIII. des que o non vi. fremosa. por vos non mentir. fremosa. chorou muito dos seus olhos enton e foi coitado no seu coraçon.

com quem teve a Johan Martins. Nasceu por volta de 1200 e conheceu. Vedes que coyta de sofrer! Por gran coita per-tenho tal d’amar a quen nunca meu mal nen mha coita ei a dizer. 16 de escárnio e uma tenção. Vedes que coita de sofrer! E vejo que moyro d’ amor E pero vej’ a mha ssenhor Nunca o per min á a ssaber. São-lhe atribuídas perto de 40 cantigas (22 de amor. os trovadores Pero da Ponte e Pai Soares de Taveirós. no Minho. também trovador. Vedes que coyta de sofrer! . além de outras de origem duvidosa). é considerado grande trovador. Vedes que coyta de sofrer: d’amar a quen non ousarei falar. NON OUSO DIZER NULHA REN Non ouso dizer nulha ren a mha senhor e sen seu ben non ei mui gram coyt’ a perder.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 145 Martim Soares Trovador português originário de Riba de Lima. pero non perderei gran coita sem seu ben fazer. Morreu por volta de 1260. na corte castelhana de Fernando III. entre outros. Irmão do também trovador Garcia Soares. casou-se com Maria.

Dele nos chegou uma única cantiga. considerada pelos especialistas como uma das mais belas cantigas de amigo documentadas. Eu aten[dend’ o meu amigu’! E verrá?] Non ei [i] barqueiro nen sei remar: morrerei eu. no alto mar. Eu atendend’ o meu amigu’! E verrá? Estando na ermida. no mar maior. Por referências nela contidas. fremosa. acredita-se que seja galego da região de Vigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 147 Mendinho A documentação sobre esse trovador é escassa. SEDIA-M’ EU NA ERMIDA DE SAN SIMIÓN Sedia-m’ eu na ermida de San Simión e cercaron-mi-as ondas que grandes son. fremosa. ant’ o altar. Eu [atendend’ o meu amigu’! E verrá?] E cercaron-mi-as ondas do alto mar: non ei [i] barqueiro nen sei remar. cercaron-mi-as ondas grandes do mar. Eu [atendend’ o meu amigu’! E verrá?] . Eu aten[dend’ o meu amigu’! E verrá?] Non ei i barqueiro nen remador: morrerei [eu]. Eu atenden[d’ o meu amigu’! E verrá?] E cercaron-mi-as ondas que grandes son: non ei [i] barqueiro nen remador.

que dormides as manhãas frias. LEVAD’. Toda-las aves do mundo d’ amor cantavan. todalas aves do mundo d’ amor dizian: leda m’ and’ eu. pode-se deduzir que esteve ligado à corte castelã de Alfonso X. exerceu sua atividade poética durante o segundo terço do século XIII. e explicam o termo Torneol. como uma alteração de tornello (refrão). de condição cavaleiro.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 149 Nuno Fernandez [Torneol?] Trovador de origem provavelmente galega. QUE DORMIDES AS MANHÃAS FRIAS Levad’. todalas aves do mundo d’ amor cantavan: leda m’ and’ eu. AMIGO. doze de amor e uma de escárnio. do meu amor e do voss’ en ment’ avian: leda m’ and’ eu. que aparece por vezes como se fosse sua alcunha. vós lhi tolhestes os ramos en que siian: leda m’ and’ eu. Toda-las aves do mundo d’ amor dizian. amigo. Alguns especialistas o identificam com Nuno Fernandez de Mirapeixe. que figura em nota collociana. Compôs nove cantigas de amigo (a que se transcreve a seguir é uma variante galaica da pastorela provençal). Levad’. Do meu amor e do voss’ en ment’ avian. amigo. . do meu amor e do voss’ i enmentavan: leda m’ and’ eu. De acordo com referências contidas em suas composições satíricas. que dormide’-las frias manhãas.

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan e lhis secastes as fontes u se banhavan: leda m’ and’ eu. . Vós lhi tolhestes os ramos en que siian e lhis secastes as fontes en que bevian: leda m’ and’ eu.) Do meu amor e do voss’ i enmentavan. vos lhi tolhestes os ramos en que pousavan: leda m’ and’ eu.150 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

tornou-se uma figura de importância para o rei Sancho IV. a quem acompanhou em peregrinação a Santiago. E vanss’ as frores d’ aquí ben con meus amores. E vanss’ as frores d’aquí ben con meus amores. As ffrores do meu amado briosas van no barco. A partir de 1284. sabemos de sua participação na conquista de Sevilha. Anterior a esta data. AS FFROLES DO MEU AMIGO As ffroles do meu amigo briosas van no navyo. mas somente alcançou projeção ao ser nomeado Almirante do Mar. e de sua relação com a corte de Alfonso X. descende de uma linhagem assentada na província de Pontevedra. São atribuídas a Pai Gomez Charinho vinte e oito composições. em 1284. Morreu assassinado por Rui Perez Tenório. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. Nasceu por volta de 1225. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. . Briosas van eno navío para chegar ao ferido. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 151 Pai Gomez Charinho Trovador galego. E vanss’as frores d’ aquí ben con meus amores. Supõe-se que exerceu sua atividade poética entre 1248 e 1295. em 1295. sendo seis cantigas de amigo. em 1248. duas de escárnio (uma tenção) e 19 de amor.

idas som as frores d’aquí ben con meus amores. E vanss’as frores d’ aquí ben con meus amores. E vanss’as frores d’ aquí ben con meus amores. E vanss’as frores d’ aquí ben con meus amores. Pera chegar ao fossado (de) servirmi. corpo velido. .152 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) Briosas van eno barco pera chegar ao fossado. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. corpo loado. Pera chegar ao ferido servirmi.

São-lhe atribuídas oito cantigas de amor. mia sennor. Através de algumas referências cronológicas. pertenceu à pequena nobreza de seu país. Provavelmente esteve na corte portuguesa de Sancho I. . onde teria se relacionado com Martim Soares e produzido. na galega do Conde de Trastámara e na castelhana de Fernando III.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 153 Pai Soares de Taveirós Trovador de origem galega. mia sennor. filla de don Paay Moniz. com ele. é possível concluir que exerceu sua atividade poética na primeira metade do século XIII. ay! mia sennor branca e vermella. três de amigo e dois escárnios. uma tenção. d’ alfaya nunca de vós ouve nen ei valia d’ ¢a correa. ca ja moiro por vós e. queredes que vus retraya quando vus eu vi en saya? Mao dia me levantei que vus enton non vi fea! E. des aquel[la] me foi a mi mui mal di’ ay! E vus. NO MUNDO NON ME SEI PARELLA No mundo non me sei parella mentre me for como me vay. mais precisamente no segundo quarto. e ben vus semella d’aver eu por vós guarvaya? pois eu.

E meu amigo venia. e d’ amor tan ben cantava. podemos concluir que foi um trovador galego. e d’ amor tan ben dizia edoi lelia doura. Non dormia e cuidava. lelia doura. EU VELIDA NON DORMIA Eu velida non dormia. Muito desejei amigo. lelia doura. e meu amigo venia. Atribui-se a este poeta quatro cantigas de amigo. edoi lelia doura. edoi lelia doura. edoi lelia doura. nascido provavelmente em Pontevedra. duas cantigas de amor e um escárnio. e que teria exercido sua atividade poética em meados do século XIII. que revelam alguma originalidade e capacidades formais dignas de atenção. lelia doura.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 155 Pedr’ Eanes Solaz Unindo todas as informações possíveis. lelia doura. . e meu amigo chegava. lelia doura que vos tevesse comigo. edoi lelia doura. E meu amigo chegava.

leli.156 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ben sei eu que[n] non diz leli. edoi lelia doura. edoi lelia doura. Ben sei eu que[n] non diz leli.) Muito desejei amado. . demo x’ é quen non diz lelia. lelia doura. lelia doura. edoi lelia doura. lelia doura. par Deus. Leli leli. que vos tevesse a meu lado.

en forte pont’ eu fuy nado! Que nunca perdi coydado nen afan. SENHOR DO CORPO DELGADO Senhor do corpo delgado. foi um dos autores mais fecundos da lírica galaico-portuguesa. quatro prantos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 157 Pero da Ponte Segrel galego. ainda que fossem freqüentes suas viagens pelas cortes senhoriais. sendo sete de amigo. senhor. esteve assentado nas cortes reais de Fernando III e de Alfonso X. senhor. En forte pont’ eu fui nado. um jogo-partido. uma tenção. en forte pont’ eu fui nado! Que vus amo sen meu grado e faç ‘a vos pesar hy. exercendo sua atividade poética entre 1235 e 1275. sete de amor. En forte pont’ eu fui nado. Neste tempo. En forte pont’ eu fui nado. de condição escudeiro. en forte pont’ eu fui nado! Que servi sempr’ endonado ond’ un ben nunca prendi. Atribui-se a este trovador 53 cantigas. por vos e por mi! . dedicou a vida à arte de trovar. dois elogios e uma sátira. por vos e por mi! Con est’ affan tan longado. por vos e por mi! Ay eu. cativ’ e coitado. De acordo com suas próprias palavras. des que vus vi. senhor.

bela! . e chor’eu. sendo-lhe atribuídas quatro cantigas de amigo. bela! Perdi-o so lo verde pino. bela! O anel do meu amado perdi-o so lo verde ramo e chor’eu. e chor’eu. segundo consta nos Livros de Linhagens. Desenvolveu sua atividade poética no último quarto do século XIII. O ANEL DO MEU AMIGO O anel do meu amigo perdi-o so lo verde pino e chor’eu. filho de Gonçalo Viegas. dona d’algo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 159 Pero Gonçalves de Porto Carreiro Trovador português. o Alfeirão. que se caracterizou por participação turbulenta em certos acontecimentos fundamentais da vida portuguesa medieval e por sua relação com a corte portuguesa e de Castela. dona-virgo. É membro da família dos Porto Carreiro. bela! Perdi-o so lo verde ramo. por en chor’eu. por en chor’eu. e de Sancha Perez.

Passa seu amigo que a muito amava o cervo do monte volvía a augua. A sua colocação no hipotético Cancioneiro dos Jograres Galegos reforça a idéia da sua naturalidade galega. determinar quais eram seus círculos de relação. dos amores leda. leda dos amores. Passa seu amigo que lhi ben quería. dos amores leda. sendo uma delas dialogada entre duas personagens e outra escrita em terceira pessoa. . levóus’ a velida. Vai lavar cabelos na fontana fría. o cervo do monte a augua volvía. dos amores leda. leda dos amores. Leda dos amores. Vai lavar cabelos na fría fontana. passa seu amigo que muit’a amava. dos amores leda. vai lavar cabelos na fontana fría. Levóus’ a velida. leda dos amores. vai lavar cabelos na fría fontana. contudo. leda dos amores. LEVÓUS’ A LOUÇANA. passou seu amigo que lhi ben quería. que juntas apresentam uma espécie de enredo. LEVÓUS’ A VELIDA Levóus’ a louçana. sem que possamos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 161 Pero Meogo Provavelmente foi um jogral galego. dos amores leda. leda dos amores. dos amores leda. De sua obra constam apenas nove cantigas de amigo. levóus’a louçana. do qual se formulam diversas propostas de identificação. Atuou durante a segunda metade do século XIII.

mia filha louçana. Cervos do monte volvían a augua. – “Tardei. . mía filha. mía filha. – “Os amores ei”. mentis por amigo. mia madre. nunca vi cervo que volvess’ o alto”.162 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. – “Mentis. – Tardei.) DIGADES.”. porque tardastes na fontana fría?”. – Os amores ei. mía madre. mia filha velida. na fontana fria. nunca vi cervo que volvess’ o rio”. – Os amores ei. filha. filha. – “Digades. na fria Fontana. – “Os amores ei”. – “Os amores ei”. cervos do monte a augua volvían. porque tardastes na fría Fontana?”. MIA FILHA VELIDA – “Digades. FILHA. – “Mentis. – “Os amores ei”. mentis por amado.

e nos meninhas [baylaremus hy]. porém. e nossas madres. pois que alá van. é que fosse galego e que tenha exercido sua atividade poética no terceiro quartel do século XIII. queymen candeas por nos e por ssy. bon parecer. en cos. POYS NOSSAS MADRES VAN A SAN SIMON Poys nossas madres van a San Simon de Val de Prados candeas queymar. O mais provável. e nos meninhas baylaremus hy.. As cantigas de sua autoria que chegaram até nós são em número de oito. .. e elas enton queymen candeas por nos e por sy. duas de amigo e quatro de escárnio e de maldizer. e nossas madres. sendo duas de amor. e nos meninhas [baylaremus hy]. Nossus amigus todus lá hiran por nos veer..POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 163 Pero Viviaez Encontram-se registros deste nome em Portugal e na Galiza. punhemus d’ andar con nossas madres. nos. e poderan veer baylar moças de . Nossus amigus hiran por cousir como baylamus. queymen candeas por nos e por ssy. fremosas. e andaremus nos bayland’ant’eles. poys lá queren hir. as meninhas.

Se vejo las ondas e vejo las costeyras.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 165 Roi Fernandiz de Santiago É o possível autor de sete cantigas de amigo e dezoito de amor. outras o relacionam com Mendinho e Martin Codax por algumas alusões textuais. Como muitos dos demais trovadores. pola velyda: maldito se[j]a ‘l mare que mi faz tanto male! Nunca ve[j]o las ondas nen as altas debrocas que mi non venham ondas al cor. logo mi veen ondas al cor. Algumas hipóteses afirmam que se tratava de um clérigotrovador galego. pola fremosa: maldito se[j]a ‘l mare [que mi faz tanto male!]. . pola ben feyta: maldito se[j]a ‘l mare [que mi faz tanto male!]. é difícil estabelecer a sua origem e realizações durante a vida. logo mi veen ondas al cor. QUAND’ EU VEJO LAS ONDAS Quand’ eu vejo las ondas e las muyt’ altas ribas. teria vivido e/ou produzido no segundo terço do século XIII. no entanto.

a cantiga que aqui lhe é atribuída é de autoria duvidosa. AI EU COITADA! COMO VIVO EN GRAM CUIDADO Ai eu coitada! Como vivo en gram cuidado por meu amigo que ei alongado! Muito me tarda o meu amigo na Guarda! Ai eu coitada! Como vivo en gram desejo por meu amigo que tarda e non vejo! Muito me tarda o meu amigo na Guarda! . em Coimbra. Apreciava a prática de exercícios físicos. dedicando-se a diversos esportes. só sendo perdoado na proximidade de sua morte. atribuída a Alfonso X por alguns especialistas. Era ligado a instituições como as Ordens dos Templários e dos Hospitalários. No entanto. Para isso trabalhou no povoamento de terras. e morreu em 1211 na mesma cidade. ligando-se a artistas. nasceu em 1154. Envolveu-se em disputas com a igreja que lhes grangearam a excomunhão. Subiu ao trono em dezembro de 1185 e ajudou a firmar a autonomia do Estado Português.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 167 Sancho I Segundo rei de Portugal. sendo ele próprio compositor de algumas cantigas. Procurou em seu governo incentivar a cultura.

p.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 169 1. . 58-61 e 122-126).Poesia medieval: 1.2 Romances Nota: Os romances a seguir coligidos foram reconstituídos por Ramón Menéndez Pidal (Flor nueva de romances viejos. 1946. Buenos Aires – México: Espasa Calpe Argentina.

y allá hacia el amanecer los dos se duermen vencidos. Gerineldo. cumpliréis lo prometido? – Entre las doce y la una. Gerineldo no ha venido. que el rey estará dormido. – Quién a mi estancia se atreve. entre juegos y deleites la noche se les ha ido. que soy vuestro dulce amigo. burláis conmigo. cuerpo garrido. Tomáralo por la mano y en el lecho lo ha metido. quién llama así a mi postigo? – No os turbéis. Gerineldo. paje del rey más querido. cuerpo que tienes tan lindo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 171 ROMANCE DE GERINELDO Y LA INFANTA – Gerineldo. señora mía. quién te tuviera esta noche en mi jardín florecido. Válgame Dios. quien amor puso contigo!” – Abráisme. que de veras te lo digo. el mi paje más querido!” Tres veces le había llamado. “¡Oh. Despertado había el rey de un sueño despavorido. . – Como soy vuestro criado. Gerineldo. Gerineldo. ninguna le ha respondido. abráisme. “O me roban a la infanta o traicionan el castillo. Media noche ya es pasada. señora. Gerineldo. – ¿Y cuándo. la mi señora.” Aprisa llama a su paje pidiéndole los vestidos: “¡Gerineldo. malhaya. señora mía. – No me burlo.

Ellos en estas razones la infanta a su padre vino: – Rey y señor.172 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Pondré mi espada por medio que me sirva de testigo. tan mustio y descolorido? – Vengo del jardín. . la fragancia de una rosa la color me ha desvaído.” Y salióse hacia el jardín sin ser de nadie sentido. por ver cómo ha florecido. – ¿Y adónde iré. buen rey. vió a su hija. la espada del rey mi padre entre los dos ha dormido. pesares que te vinieren yo los partiré contigo. Gerineldo. dueño mío. “Mataré yo a Gerineldo. bien lo tengo merecido. no le mates. matadme. O si lo quieres matar la muerte será conmigo. señor. Rebullíase la infanta tres horas ya el sol salido. – Matadme. mi señora. con el frior de la espada la dama se ha estremecido. adonde la infanta ha ido. a quien crié desde niño? Pues si matare a la infanta mi reino queda perdido. mas dámelo por marido. – ¿Dónde vienes. vió a su paje como mujer y marido. Gerineldo levántate. que del rey no sea visto? – Vete por ese jardín cogiendo rosas y lirios.) Puso la espada en la cinta. – De esa rosa que has cortado mi espada será testigo. – Levántate.

bañole todo su cuerpo con agua de toronjil. Bernal Francés? que estás triste a par de mí? ¿Tienes miedo a la justicia? No entrará aquí el alguacil. ni me quieras descubrir. que a un hombre he muerto en la calle. ¿ quién será ese caballero que a mi puerta dice: “Abrid”? – Soy Bernal Francés.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 173 LA AMIGA DE BERNAL FRANCÉS – Sola me estoy en mi cama namorando mi cojín. – ¡Válgame Nuestra Señora. que la busco para mí. – No te espantes. señora. el que te suele servir de noche para la cama. – No temo yo a la justicia. Le ha cogido de la mano y le ha entrado al camarín. tomó candil de oro en mano y la puerta bajó a abrir. válgame el senõr San Gil! Quien apagó mi candela puede apagar mi vivir. ni menos temo criados que duermen su buen dormir. . cubrióse de um mantellín. – ¿Qué tienes. Catalina. la justicia va tras mí. de día para el jardín. hízole cama de rosa. cabecera de alhelí. ¿Tienes miedo a mis criados? Están al mejor dormir. sentóle en silla de plata con respaldo de marfil. Al entreabrir de la puerta el dió un soplo en el candil. Alzó sábanas de Holanda.

Por regalo de mi vuelta te he de dar rico vestir. y tu marido. señora.) – ¿Qué tienes. – Si temes a mi marido. que outro amor nunca serví. – No dejo amores en Francia. y gargantilla encarnada como en damas nunca vi. que tu cuello va a ceñir. . muy lejos está de aquí. lo tienes a par de ti.174 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. gargantilha de mi espada. vestido de fina grana forrado de carmesí. Nuevas irán al francés que arrastre luto por ti. – Lo muy lejo se hace cerca para quien quiere venir. Bernal Francés? ¡No solías ser así! Otro amor dejaste en Francia o te han dicho mal de mí.

pásola con gran dolor. cáigale mi maldición: rabia le mate los perros y aguilillas el falcón. dormidla. cuán flaco estáis. – Apead. cúan linda que eres. Ellos en aquesto estando. en mi lindo mirador.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 175 ROMANCE DE LA LINDA ALBA – ¡Ay. conde dos Grifos. que no me desarmo. Albertos toca el portón: – ¿Qué es lo que tenéis. señor. que siete años había. más que los rayos del sol! ¡Quién la durmiese esta noche desarmado y sin temor. no! – Dormidla. mi vida. don Grifos. – Si a caza es ido. señora mía. desarmado y sin pavor. blanca sois. Alberto es ido a caza A los montes de León. siete. – Hoy lo alcanzaréis. señor! – No os maravilléis. – Esas palabras. y por bien que pene y muera no alcanzo ningún favor. ¡Lindas manos tenéis. lanzada de moro izquierdo le traspase el corazón. mala vida paso. más linda que no la flor. no eran sino traición. la niña. conde! ¡Ay. – ¿Cúyo es aquel caballo que allá abajo relinchó? . señora. porque hace muy gran calor. que muero por vuestro amor. señora? ¡Mudada estáis de color! – Señor. Alba. que me dejáis aquí sola y a los montes os vais vos.

.) – Señor. eran de mi hermano. era de mi padre. que aquesta muerte. bien os la merezco yo.176 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. buen conde. y envíalo para vos. – ¿Cúya es aquella lanza que tiene tal resplandor? – Tomadla. Albertos. matadme con ella vos. y agora os las envió. – ¿Cúyas son aquellas armas que están en el corredor? – Señor. tomadla.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 177 2. Poesia brasileira neomedievalista .

Colaborou nas revistas Fon-Fon. nem a morte pode entrar. Assim pensam cavaleiros . porém. Sua obra poética é normalmente classificada como simbolista. no Instituto Nacional de Previdência e no Banco do Brasil. a porta se há de fechar. Traduziu Shakespeare e Verlaine. Perfume & outros poemas (1924). Raimundo de Pennafort Caldas e Maria Luísa da Rocha Caldas. uma vez ele tomado. Morreu no Rio de Janeiro em 18 de abril de 1987. Careta. Ilustração do Brasil e na Revista do Brasil. senhores. O festim. uma história de pasmar. Já adulto. ROMANCE DOS SETE CAVALEIROS Ouvide agora. Espelho d’água – Jogo da noite (1931). Nuvens da tarde (1954). entre outras obras. que não concluiu. iniciou o curso de Direito. Trabalhou nos Ministérios da Agricultura e da Justiça. Que ela sendo uma e eles sete não lhes podia bastar. por onde nem mesmo a morte. esta classificação é questionável. nasceu no Rio de Janeiro em 25 de junho de 1902. Nem a sete cavaleiros uma só podia amar. Publicou.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 179 Onestaldo de Pennafort Poeta e tradutor. Vinham sete cavaleiros sua dama disputar. Interior e outros poemas (1924). a dança e a degolação (1960) e Romanceiro (1981). Poesia (1954). Escombros floridos (1921). filho do Dr. Que o coração de uma dama só deve ter um lugar.

) que assentam de disputar a ver quem vence a peleja e com a dama há de ficar. todos podem-se igualar. põem-se logo a batalhar. Ei-la na torre suspira. O primeiro com o segundo. Mas por igual que eram bravos. que é forte em querer quanto é forte em pelejar. cavaleiros. Armaram-se os cavaleiros. quantos hajam de sobrar.180 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. O mais valente de todos com a dama há de ficar. Tombando mortos os seis ao mesmo tempo e lugar. começam logo a lutar. o terceiro com o seu par. o quinto e o sexto. em seguida. Correi. o terceiro com o seu par. o sétimo cavaleiro . o sétimo cavaleiro com eles há de brigar. Se for um. com o sétimo cavaleiro hão de em seguida lutar. Todos tombam mortos juntos ao mesmo tempo e lugar. que mostre que o seu desejo não pára em só desejar. correi. Os mais valentes dos pares que vencerem o seu par. se forem mais. em seguida. começam logo a lutar. Antes. suspira por entregar sua mão e sua vida ao que as souber conquistar. vinde a peleja encetar. cavaleiros. o quinto e o sexto. vinde a peleja encetar. que o coração de uma dama não é de muito esperar. põem-se logo a batalhar. Correi. O primeiro com o segundo. Armaram-se os cavaleiros. correi.

arrancai com este punhal o coração do lugar. – Se sois tão valente assim e provas me quereis dar.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL não tinha com quem brigar. que sou valente e não o posso amostrar! Venham vinte cavaleiros. salvou-o o modo de amar. nem as sereias do mar. que se deram a matar. Palavras não eram ditas. Aos outros vencer pudera. – Ai de mim. cavaleiro. Nem são os anjos do céu. que sou valente e não o posso amostrar! Sem o coração que tenho. Mas o último cavaleiro. Sem honras. 181 . correi a escutar. Guardá-los-ia comigo para melhor vos amar. Não vô-los iria eu dar. um cavaleiro Como a pode desposar? Ai de mim. Que se ele for amante. Melhor há de me falar. – Ai de mim. suspira por se casar. com eles posso lutar! – Alvíssaras. E nunca mais ninguém poude a torre e a dama avistar. O cavaleiro era um anjo que o demo estava a atentar. como a hei de desejar? Ei-la na torre suspira. É a dama dos vossos sonhos que convosco quer falar. que sou valente e não o posso amostrar! Daqueles com quem brigara nem um me poude sobrar! Sem disputar minha dama. correi. escurecia-se o ar. Como vos podia amar? Mil corações que tivera.

no castelo estranhas cousas se dão. O cavaleiro partira montado em seu alazão. dized’ ora con quen comedes? Era uma vez uma dama. adeuses aos que se vão. A castelã no castelo ficara.182 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. – Senhora minha. que fome senti na separação! . Senhora. – Esposo amado. que o vinho tão fresco assim não é.) ROMANCE DO VILÃO Escudeyro. que estranho tanta consideração! Tomai a mão. Altas horas. que ela é vossa. não. – A mão. como outras cousas o são. dái que eu beije a vossa mão. Um vilão por lá passava com feia e porca tenção. A cavalgada que o segue ainda se escuta no chão. que é vossa. não. que sede senti na separação! A vossa boca. – Senhora minha. Novas à terra chegaram Dos mouros contra o cristão. pois armas queredes. como outras cousas o são. É o vosso esposo que volta. que estranho tanta consideração! Tomai a boca. primeiro. à dor não resistiu. não fora. um cavaleiro e um vilão. Grandes luzes no castelo. não! – Esposo amado.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Os vossos peitos são frutos. como outras cousas o são. que eu por mim não vejo. comigo teve tenção. que noite de tão má escuridão! Guiai-me neste caminho. Mas quando me acometia. Nos modos que me falava notava transformação. bem que enxergaria através da escuridão. salvai-me de mau vilão! Meteu-se de meu esposo. que estranho tanta consideração! Tomai os peitos. Senão. – Senhora minha. os meus vassalos. não. frutos verdes na sazão! – Esposo amado. 183 . logo vi que era vilão. Julgava que eram excessos depois da separação. – Vassalos. são vossos.

não sei. com o mel a compararei. com o sol os compararei. Doce. E a donzela ria.) ROMANCE DA ROSA La rose que voicy ressemble à ceste rose. E a donzela ria. com a seda as compararei. – Boca mais fresca que um fruto que está dizendo “mordei”. mas porque ria. mas porque ria. O cavaleiro jurava pela lei e pela grei. Verdes. tão brancas nunca avistei! Mais macias do que a seda. não sei. mas porque ria. verdes como o mar. O cavaleiro jurava pela lei e pela grei. doce como o mel. E a donzela ria. não sei. – Belas mãozinhas de fada. – Lindos olhos tem a bela de enlouquecer o seu rei. ria. O cavaleiro jurava. cada fio é ouro de lei. ria. – Cabelos da cor do ouro.184 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. São como raios de sol. com o mar os compararei. ria. . pela lei e pela grei.

ria. E a donzela ria.. E a donzela ria. ria. não sei.. mas porque ria. o que não vos direi. tão corada. mas porque abria. E eis que uma rosa ali perto. no jardim abriu-se a rosa. rosa do jardim do rei. Como a folha leva-a o vento. não sei. O cavaleiro jurava pela lei e pela grei. mas por que ria. eu bem sei. ora. – Linda rosa. abrirei. como a guerra leva o rei.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL O cavaleiro jurava pela lei e pela grei.. 185 . tímida abriu. esta rosinha. parecendo. com outra a compararei.. não abrirei. tão medrosa.

Volta da caça contente mai-la a sua companhia.186 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. para ver a minha espada até onde chegaria! Deu-lhe três golpes tão fortes que a casa toda tremia. Maior. porém. na casa da estudaria. que eu aqui esperaria a ver até onde chega deste vassalo a ousadia. Volta da caça contente (mas para que voltaria!) para ver sua condessa nos braços (quem tal diria!) nos braços do seu vassalo. Torna-lhe o conde raivoso: – Esperar esperaria.) ROMANCE DO CONDE ARAGONÊS Alli nace un arboledo que azucena se llamaba. Deu-lhe uma morte tão triste que em noite tornou-se o dia. capitão de cortesia. Qualquier mujer que la come luego se siente preñada. Volta da caça contente com a caçada que fazia. Ao vê-lo entrar. o bom Conde Aragonês. – Esperai o bom do conde. a condessa Muito enxuta lhe dizia: – Esperai o bom do Conde. que eu aqui esperaria para ver o seu amor até onde chegaria! . do que tudo vinha a ser sua alegria de tornar ao seu castelo onde a condessa estaria.

A primeira era Marfida.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 187 ROMANCE DAS TRÊS IRMÃS OU MIRAMAR C’erano tre zitelle e tutti tre d’amore. passa os dias a mirar as ondas que vão e vêm nas águas verdes do mar. oh. tinha os olhos cor do mar. Nós éramos três irmãs. Passava mais de ano e dia . que remira. que ela a não soube negar. todas las três por casar! A primeira tinha um colo para um punhal se cravar. A terceira por desgraça Miramar se foi chamar. Tanto espiou. a segunda Guiomar. Nós éramos três irmãs num castelo ao pé do mar. Cavaleiros que passavam. Logo por desgraça dela Miramar se foi chamar! Mira. que algum dia um deles que ia a apear. quem m’os dera a abraçar! A mais formosa de todas. mira. Marfida que ia a espiar. A segunda tinha uns braços. Montou logo na garupa. puseram-se a galopar. tão bem que a mão lh’a pedia. Nós éramos três irmãs num castelo ao pé do mar! Cavaleiros que passavam no seu lindo galopar.

que o remédio era casar.) que tinham ido a casar. em derredor do castelo se escuta um belo cantar. a saia não n’a podem consertar. Só um frade é que o podia. A voz que entrava no ouvido. Miramar. estava mirando o mar. passam anos de contar. a mal fadada. Tão cheinha que ela estava das trovas de aquel trovar! Chamam um frade. O trovador que trovava.188 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Miramar. A saia de lhe apertar! Chamam dois xastres. Guiomar que ia a escutar. estava mirando o mar! . Miramar. passam noites. a mal fadada. Passam dias. a mal fadada. Arde o castelo com o fogo que o demo foi a atear. estava mirando o mar. ali mesmo muito bem que os vai juntar.

Se alguém vier perguntar-me por acaso para quem fiz esta cantiga. eu o olharei nos olhos tranqüïlamente e em meus olhos ele há de ler o nome da minha amiga! . Fiz esta canção para a minha amiga bem simplesmente como o oleiro faz o seu vaso de cera nova ou de argila antiga.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 189 CANTAR DE AMIGO Et todolos que me veem preguntar qual est a dona que eu quero bem.

Rosicler. . em 1922). com Olavo Bilac. sob a direção de Bueno de Andrade. para serviço de propaganda dos produtos brasileiros em Paris. Concluídos os estudos em escolas ginasianas. Volúpia. onde faleceu em 25 de junho de 1937. sociólogo e jornalista. contam-se: Verão. médico. estréia como orador lendo. A flauta encantada. Havre. Doutorando-se. fez os estudos primários com a mãe. no “Centro Socialista”. Dr. como médico. onde em 1917 se casa com Dona Nicota Neto. Vulcão. silêncio e sonho e Sol das almas. As cidades eternas. n’O País. Estado de São Paulo. inicia sua carreira como interno na Clínica Dr. Funda. então eleito Presidente da República. Em 1908 toma parte. em 1914. Em 1924 é eleito para a Academia das Ciências de Lisboa. Enquanto menino. E acompanha Júlio Prestes em viagem que este. em 23 de junho de 1884. Silvério Fontes. uma Agência Americana. E em 1910 é designado chefe da Assistência Escolar da Prefeitura Carioca. fez à Europa e aos Estados Unidos em 1930. Sombra. nasceu em Santos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 191 Martins Fontes José Martins Fontes. auxiliar de Osvaldo Cruz na profilaxia urbana do Distrito Federal. na Comissão de Obras do Acre. Hamburgo e Nova Iorque. Dona Isabel Martins. na revista Careta e em outros periódicos. Em 1º de maio de 1892. um hino a Castro Alves. em 1906. Entre seus livros. Durante os anos de estudante. Juliano Moreira no Hospital dos Alienados. e o pai. trabalhou na Gazeta de notícias. em 1901 matricula-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. poeta e médico brasileiro. Arlequinada (de cuja representação toma parte. Volta a residir em Santos em 1915.

O consolo que me deste Loando o meu padecer. folgo em dizer O bem que tu me fizeste. Fez umas liras no son Que sacon mi caraçon. A dor que me faz chorar. melhor não pinto. Com as liras que no teu son Mi sacon o coraçon.) SOLAU Fez umas trovas de amor Para mim. Que. Agenor. vos digo Que não sei de trovador Capaz de maior primor! Fez umas liras no son Que sacon mi coraçon. Com as tintas do meu pesar. com franqueza. . certo. Que eu. Muito bem soube trovar As desventuras que sinto.192 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. o meu amigo. Que me dá mágua e prazer.

a pender do talabarte. Se espelha no meu tristor. seja onde for. heróico. Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! O tristor de Dom Duarte.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 193 DON GALAOR (A Jaime Franco) Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! Um Gran Cavalleiro da Arte E Gran Príncipe do Amor! A glória do meu bravor Pelo mundo se reparte! Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! Flammeja o meu estandarte! Fulge a minha Escalibor! Que. clara Senhor! Irman de Iseu e de Isarte. Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! Offerta Brancaflor! para adorar-te E servir-te. Mas a paz. Chantando a Cruz-Baluarte. por Vós. Brancaflor! Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! . Meu olhar consegue impor! E. em toda a parte. Lembra um raio furta-cor! E.

Que acaba. De quem ninguém poude dizer nenhum mal. Mansobres. fazer o louvor Do pai piadoso do meu Portugal. trobando. El Rey Dom Denis! Os metros galantes dos bons provençaes. carpindo. pranteie o Sem-Par. louçanas. Cantando as soidades do Dom Lavrador. Canções. sabendo trobar. –El Rey Dom Denis! . chorai! – Oriana. eu morro de Amor” – – “Ay. Melhor os fazedes em bom português! Devemos. do agora morrer. Rondel. Descordo. Donaires. flores! Ay. flores! dos pinos gentis!” – Assim celebrastes a Terra Gensor! Assim vós trovaveis.) PLANH POR EL REY DON DENIS Os mil trobadores. fremosas. Amigos.194 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Sirventês. Brancafrôl! Em prantos e rimas soltai vosso guay: E’morto o Troveiro do tempo da frôl! – “Amigos. Genevra. De todolos homens. que trobam de amor – Gran dó e gran coita deviam haver – Por terem perdido seu Rey Trobador. Guimar. Aquelle que troba. Rimances do Grande Amadis! E’ morto o Troveiro das velhas Tenções! Em planh vo-lo eu conto: morreu Dom Denis! Garridas. Aquelle que troba. sabendo o que diz. Cantares d’Amigo. – Balleta. A planh tôe agora. Embora digades que são sem rivaes.

Simplicidade (1929). e Entre quatro paredes. em 1959. entre outros. São Paulo. foi tradutor de obras como: Eu e você. um dos mais conhecidos dos nossos poetas. Meu / Raça (1925). Escreveu obras em prosa como: O meu Portugal (1933).POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 195 Guilherme de Almeida Guilherme de Andrade e Almeida. Foi o autor. pela habilidade na elaboração de rimas e ritmos poéticos e pelo preciosismo verbal. A dança das horas (1919). de Paul Géraldy (1932). escrevendo em vários jornais de seu Estado. singularizadoras de sua técnica do verso livre. Estudou na Faculdade de Direito em São Paulo. Em 1930 passou a ocupar a cadeira de número 15 da Academia Brasileira de Letras. Iniciou-se no jornalismo. Também foi membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. A casa (1935) e Histórias talvez (1948). Embora tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922. A frauta que eu perdi (1924). colaborando com Oswald de Andrade em Théâtre brésilien (1916) e em Do sentimento nacionalista na poesia brasileira (1926). Flores das flores do mal. sua obra se caracteriza por inegável inspiração romântica. com o título de “ Príncipe dos Poetas Brasileiros”. de Charles Baudelaire (1944). nasceu em Campinas. Pequeno romanceiro (1957) e Rua (1961). de Jean-Paul Sartre (1950). de: Nós (1917). . em 1890 e faleceu em São Paulo. Foi também ensaísta. Guilherme de Almeida possuía o seu próprio critério e suas próprias normas. Foi agraciado. terminando o curso em 1912. Além de poeta. em 11 de julho de 1969. Messidor / Era uma vez (1920). Carta à minha noiva / Você (1931).

que passais pelas tardes claras.” (Nuno Fernandez Torneol) Passai.196 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Das tardes todas de amor de que vos lembrardes.) PASSAI. “Levad’ amigo.. Passai. lembranças. que dormides as manhãas frias. . que passais pelas claras tardes: das tardes todas de amor de que vos lembrardes só fiquei eu. lembranças. dos restos todos de dor das suas saudades só fiquei eu. Todas as tardes de amor por mim já passaram: das sombras todas que então na sombra deixaram só fiquei eu. todalas aves do mundo d’ amor dizian: leda m’ and’ eu. todas as tardes de amor por mim já passaram: só fiquei eu..

. esquecido! Como vivo só chorando por um passado que vou recordando! Muito esta vida me custa a mim ser vivida! Eu.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 197 EU.. ESQUECIDO . esquecido! Como vivo só morrendo por um passado que vou revivendo! Muito esta vida me custa a mim ser vivida! . “Aí eu coitada! Como vivo em gram cuidado por meu amigo que hei alongado! Muito me tarda o meu amigo na Guarda!” (El-rei Dom Sancho I) Eu.

.198 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. daquele que andou nas asas do vento? (Meu Deus. onde estás?) Que novas trazeis do tempo perdido. onde estás?) Ó sombras. flores. daquele por quem sou tão perseguido? (Meu Deus. (Meu Deus. onde estás?) . que novas trazeis do meu pensamento? (Meu Deus. onde estás?) As novas que trago? O tempo perdido é o único que não foi esquecido.. ó sombras do amor vivido. (Meu Deus. que novas trazeis do tempo perdido? (Meu Deus. e u é?” (El-rei Dom Denis) Ó sombras.Deus. onde estás?) – As novas que trago? O teu pensamento já nada mais é que arrependimento. flores do verde pino.) Ó SOMBRAS. onde estás?) Que novas trazeis do meu pensamento. “Ai. ai. se sabedes novas do meu amigo? Ai. ó sombras do esquecimento.

Partiu-se na tua estrada. bela!” (Pedro Gonçalves Porto Carreiro) O fio do meu destino partiu-se no teu caminho e vou à toa. por isso vou desnorteado e vou à toa. .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 199 À TOA “O anel do meu amigo perdi-o so lo verde pino e chor’eu. O fio do meu passado partiu-se na tua estrada e vou à toa. por isso tu não és minha e vou à toa. Partiu-se no teu caminho.

Ai andorinhas do meu beiral! Quando partis daqui. fico eu. sempre um só. (Ayras Nunes. quando eu não sou mais que um ponto final. e o bem que deixais é o meu mal. Ai andorinhas do meu beiral! Vindes fazer o ninho onde eu enterro o meu tédio mortal! Ai andorinhas do meu beiral! Enquanto sois sempre outras. eu sou eu. que o bem que trazeis é o meu mal. . sempre igual.) AS ANDORINHAS “Ai estorninho do avelanal! Quando cantades vós. clérigo) Ai andorinhas do meu beiral! Quando chegais aqui sofro eu. e pen’ e d’amores ei mal”. moir-eu.200 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Ai andorinhas do meu beiral! Sois reticências no ar.

Sua sombra foi luz que envolve. mas era um gesto de adeus. Ele fez florir o caminho desolado do meu destino. mas era um gesto de adeus.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 201 O GESTO “So lo ramo verde frolido vodas fazem a meu amigo e choran olhos d’amor”. E baixaram as mãos vazias sob o gesto que prometia. e atirei as mãos para o alto. (Ayras Nunes. mas era um gesto de adeus. E pensei poder alcançá-lo. parecia céu e horizonte. mas era um gesto de adeus. Fez cantar ao mesmo compasso do meu coração o meu passo. mas era um gesto de adeus. sua luz foi sombra que acolhe. . Acenando no alto e de longe. mas era um gesto de adeus. mas era um gesto de adeus. clérigo) Houve um gesto de mão amiga na paisagem da minha vida.

a voz de mansinho saudosa lembrando palavras de outrora. a voz de mansinho saudosa dizendo palavras de outrora. Senhora Saudade. no livro da minha feliz mocidade palavras de outrora. e tendes saudade! . Estava a Saudade seu livro folheando.202 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Bem sei eu que ledes. – Tão pouco vivestes. – Senhora Saudade. bem sei eu que vedes meus olhos chorando no livro em que ledes palavras de outrora. sa voz manselinha fremoso dizendo cantigas d’amigo”. (Estevam Coelho) Estava a Saudade seu livro relendo.) SENHORA SAUDADE “Sedia la fremosa seu sirgo torcendo.

.. morrerei feliz por morrer assim: E eu entendo o meu destino. E não sei sair de dentro de mim. (Meendinho) Fechei-me na paz do meu coração e cercaram-me as ondas da inspiração: e eu entendo o meu destino.. Cercaram-me os sonhos que são sem fim.. e eu attendendo o meu amigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 203 DESTINO “Sedia-m’eu na ermida de San Simon e cercaram-m’as ondas que grandes son: e eu attendendo o meu amigo. E não sei sair do meu coração: morrerei sozinho de solidão: E eu entendo o meu destino. e eu entendo o meu destino. eu entendo o meu destino. Estando fechado dentro de mim.. . e eu entendo o meu destino..... e eu entendo o meu destino... e eu entendo o meu destino.”. E cercaram-me as ondas da inspiração: e não sei sair do meu coração: e eu entendo o meu destino. e não sei sair de dentro de mim: E eu entendo o meu destino.. e eu entendo o meu destino.. cercaram-me os sonhos que são sem fim: e eu entendo o meu destino..

cheio de medo. (João Zorro. versos mandou fazer: e lá vai. jogral d’el-rei) El-rei dom Ideal versos mandou lavrar: e lá vai. em meus versos. El-rei. meu segredo. em meus versos. meu segredo.204 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. o voss’amigo”. cheio de medo. Versos mandou fazer e no mundo os perder: e lá vai. em meus versos. era uma vez. cheio de medo. Versos mandou lavrar e no mundo os deixar: e lá vai. meu segredo.) “ENVOI” “El-rei de Portugale barcas mandou lavrare … e lá irá nas barcas migo. mia filha. em meus versos. . meu segredo. cheio de medo.

mesmo ao enfocar aspectos do social.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 205 Manuel Bandeira Manuel Bandeira. bem como românticos. natural do Recife (1886) mas radicado no Rio de Janeiro. destacando. e Mafuá do Malungo (1948). Ele próprio o testemunha no autobiográfico Itinerário de Pasárgada. Carnaval (1919) e Ritmo dissoluto (publicado na primeira edição das Poesias completas. universal e nacional. Suas primeiras poesias apresentam-se impregnadas de traços parnasianos e simbolistas. a obra do poeta caracteriza-se pelo individualismo. A partir de Libertinagem (1930). além de ter sido ensaísta e historiador da literatura. não faltando críticos biografistas que perceberam nos seus poemas reflexos. da experiência da tuberculose e suas seqüelas. como também pela auto-reflexibilidade. de 1958). Os principais temas por ele explorados ligam-se à nostalgia da infância e à condição solitária. foi um dos mais conhecidos poetas do Modernismo brasileiro. e até mesmo da lição dos trovadores medievais galaico-portugueses. com a sombra da morte iminente a suscitar-lhe desânimo e tristeza. após a manifestação da doença. à sua obra. a intenção demolidora dos modernistas com relação aos aspectos . de 1924). Belobelo (na 3a ed. onde viria a falecer em 1968. modernistas. Enfim. transfigurados embora. dando a lume Estrela da manhã (1936). das Poesias completas. e até pelo egocentrismo. Fazendo um balanço da sua vida nesta obra memorialista. imprimiria feições iconoclastas. de 1944). Lira dos cinqüent’anos (na 3a ed.. Opus 10 (1952). por exemplo. mas por muitos anos. onde diz ter vivido “sempre provisoriamente”. como se percebe em A cinza das horas (1917). que via na sua poesia um percurso que partiria “da vida inteira que poderia ter sido e não foi” para outra vida que fora ficando “cada vez mais cheia de tudo”. conclui por lembrar o crítico Otto Maria Carpeaux. Mas o que nos interessa ressaltar no momento é que a sua obra apresenta a assimilação de várias tendências estéticas.

como veremos. crítico e historiador da literatura. CANTIGA Nas ondas da praia Nas ondas do mar Quero ser feliz Quero me afogar.) da lírica consagrados pela tradição. através do seu talento e virtuosismo. tornando-se-lhe inclusive. Assim é que. Nas ondas da praia Quem vem me beijar? Quero a estrela-d’alva Rainha do mar. recriar a tradição e assegurar para si um destacado lugar na história da poesia brasileira. possuía fecundo conhecimento das literaturas portuguesa. Como professor. familiares as cantigas dos Cancioneiros arcaicos. brasileira e galego-portuguesa. dominando os meios e processos expressivos tradicionais. Quero ser feliz Nas ondas do mar Quero esquecer tudo Quero descansar. soube.206 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . bem como as conquistas da poesia modernista.

Por quem juro vos esquecer.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 207 COSSANTE Ondas da praia onde vos vi. de ondas sem dó. de ondas sem fim. de ondas sem fim. Ai Avatlântica! Olhos verdes. Ai Avatlântica! Olhos verdes sem lei nem rei. Ai Avatlântica! Olhos verdes. Por quem jurei de vos possuir. Por quem me rompo. Olhos verdes. Ai Avatlântica! Ondas da praia onde morais. Olhos verdes intersexuais. exausto e só. Ai Avatlântica! . Ai Avatlântica! Olhos verdes sem dó de mim. Olhos verdes sem dó de mim.

Des oimais o viver m’é prison: Grave di’aquel en que naci! Mha senhor. Noit’e dia no meu coraçon Nulha ren se non a morte vi. E pois tal coita non mereci. Mha senhor. D. ai meu lum’e meu ben.208 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Meu coraçon non sei o que ten.. Dinis Mha senhor.. Mha senhor. Moir’eu logo. se Deus mi perdon. ai meu lum’e meu ben. Ca non dormho á mui gran sazon. Atan cuitad’e sen cor assi! E par Deus non sei que farei i. Mha senhor. Meu coraçon non sei o que ten. Meu coraçon non sei o que ten. Fazer agora hum cantar d’amor. . Ca per’ço sen e perç’a razon. com’oje dia son.) CANTAR DE AMOR Quer’eu en maneyra de proençal. ai meu lum’e meu ben. ai rezade por mi.

. ai de mim. Nenhuma que fosse bonita assim! Andei por São Paulo e pelo Ceará (Não falo em Pernambuco. Minas. Bahia.. no estrangeiro. por mal dos pecados meus! Mas em parte alguma vi. Belém do Pará. De muito olhar de mulher já sofri! Mas em parte alguma vi. tão bonita assim! . E amei-as. onde nasci). ai de mim. Vi mulheres de todas as nações. ai de mim. Nenhuma que fosse bonita assim! Mulher bonita não falta. castanhas. Ruivas. brancas e morenas. Nenhuma que fosse bonita assim! Atravessei o mar e. Basiléia e nos Grisões. Mas em parte alguma vi.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 209 CANTIGA DE AMOR Mulheres neste mundo de meu Deus Tenho visto muitas – grandes. Em Paris. pequenas. Lugano. ai de mim! Nenhuma porém. Gênova por derradeiro.

do amor. De 1935 a 1938 lecionou literatura luso-brasileira e técnica e crítica literária na recém-criada Universidade do Distrito Federal. Escreveu também memórias: Olhinhos de gato (1940). e crônicas: Escolha seu sonho (1964). chegando a ingressar no Conservatório Nacional de Música. estudou violino. seus livros foram traduzidos em várias línguas. aproximou-se do grupo tradicionalista e católico que tinha na revista Festa seu principal veículo de expressão. pioneira no país. Yerma). No início da década de 20. Poesia completa. No ano seguinte. Espectros. Estudou Filosofia e Literatura. livros infantis: Giroflê. Lírica e intimista. Traduziu autores como García Lorca (Bodas de sangue. até transferir-se para os Estados Unidos. fez uma série de viagens pela América Latina. premiado pela Academia Brasileira de Letras. de 2001. Retrato natural (1949). onde lecionou literatura e folclore na Universidade do Texas. revista na edição comemorativa do centenário de nascimento. canto.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 211 Cecília Meireles Uma das maiores glórias da poesia brasileira. Seu primeiro grande livro. Índia (onde escreveu o poema Elegia a Gandhi) e Israel. da morte. abordou em sua poesia os temas da fugacidade do tempo. Em 1930 começou a dirigir a página de educação do Diário de notícias. Em 1994 foi publicada uma nova edição de sua obra. foi publicado em 1938. Romanceiro da Inconfidência (1953). Poemas escritos na Índia (1961) e Solombra (1963). da precariedade das coisas. Em 1934 criou uma biblioteca infantil. da eternidade. em 1919. 12 noturnos da Holanda (1952). em 1901. Publicou seu primeiro livro. Virginia Woolf (Orlando) e Ibsen (Peer Gynt). Mar absoluto (1945). . Trabalhou também como jornalista no Observador econômico e financeiro. giroflá (1956). Seus principais livros de poesia são: Vaga música (1942). aí falecendo em 1964. Canções (1956). Professora primária aos 16 anos. Poetisa conhecida internacionalmente. nasceu no Rio de Janeiro. Viagem.

sem lhe responderem nada. todos estavam de acordo. não repercutiam nada … “Bebamos. ao futuro!” – exclamara na pousada. Leva uma dobla no bolso. Já se afastam os amigos. Mas o rosilho passava. e uma tristeza sem nada. (“Ah se eu me apanahasse em Minas…”) – suspira a voz fatigada. que estavam perto. pois. Mas o eco andava tão longe! E os homens.212 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Mas largo é o rio na serra! “Quem tivesse uma canoa …” (Não servira para nada …) .) ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA ROMANCE LXIII OU DO SILÊNCIO DO ALFERES “Vou trabalhar para todos!” – disse a voz no alto da estrada. e já não tem mais amada. Todos beberam com ele. “Quem me segue? Que me querem?” – pergunta a voz espantada. “Levai bem pólvora e chumbo!” – disse a voz aos da boiada. e os homens riam-se dela. Mas o traidor escondido e as sentinelas esquivas não lhe esclarecem mais nada. E agora não sabem nada. leva uma estrela no sonho.

com duros passos na escada. E vós bem sabeis. porém não dispara nada.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL (Já vão subindo os algozes. parentes… Só ele é que não tem nada. há quatro dedos de chumbo. e tu bem sabes. ouro. repartido aos quatro ventos. No bacamarte que empunha. Já lhe vão tirando a vida. quem servia. Agora é puro silêncio. – que já não responde nada. ó Vilas. Tanto tempo na masmorra! Tanta coisa mal contada! Os outros têm privilégios. por quem não fazia nada! Dizem que por sua língua anda a terra emaranhada… Pois quem quiser faça agora perguntas sobre perguntas. Já sem lembrançade nada. estrada. quem galopava essa terra. Já tem a vida tirada. amigos. quem sofria.) 213 .

tão sozinho. negro sonho atormentado: voava seu corpo longe. gemia: “Só se estivesse alienado!” . gemia: “Só se estivesse alienado!” Entre lágrimas se erguia seu claro rosto acordado. por esse amor acabado: que esperavas que fizesse o teu pastor desgraçado. a bela. longe. dormindo.) INCONFORMADA ROMANCE LXXIII OU DA MARÍLIA Pungia a Marília. Volvia os olhos em roda. Marília. volta Marília tira-te desse cuidado. e logo. piedosas vozes discretas davam-lhe o mesmo recado: “Não chores tanto. em tão lamentoso estado?’ A bela. tão distante. de cada lado.214 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. a antiga fala do amado. Mas o oráculo dos sonhos dizia a seu corpo alado: “Ah. volta. porém. que teu pastor não se lembra de nenhum tempo passado…” E ela. Procurava o amor perdido. por alheio prado.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL
E a névoa da tarde vinha com seu véu tão delicado envolver a torre, o monte, o chafariz, o telhado… Ah, quanta névoa de tempo longamente acumulado… Mas os versos! Mas as juras! Mas o vestido bordado! Bem que o coração dizia – coração desventurado – “Talvez se tenha esquecido …” “Talvez se tenha cansado …” Seu lábio, porém, gemia: “Só se estivesse alienado!” envolver a torre, o monte, o chafariz, o telhado … Ah quanta névoa de tempo longamente acumulado … mas os versos! mas as juras! Mas o vestido bordado! Bem que o coração dizia – coração deventurado – “talvez se tenha esquecido…” “talvez se tenha cansado…” Seu lábio, porém, gemia: “só se estivesse alienado!”

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

MIRACLARA DESPOSADA
Mãos de coral dentro da água, na tina, entre o sol e o sal, Miraclara vai lavando o seu antigo enxoval. Ai, doce mágoa ver o futuro passar! Libélulas de esmeralda vêem Miraclara lavar. Mãos de coral dentro da água, na tina, entre o sal e o sol, Miraclara torce a nuvem cintilante do lençol. O azul que dorme redondo numa bacia de prata é do anil do próprio céu que ali dentro se retrata. Miraclara, sal e sol, Miraclara, sol e sal, canta e lava, lava e canta com uma dourada garganta, defronte à minha janela. E à luz da manhã levanta a sua colcha amarela nas destras mãos de coral. Quem viu colcha igual àquela, como um grande girassol num canteiro de cristal! Em redor de Miraclara dançam borboletas: brancas, e encarnadas com riscas pretas.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

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CANTAR DE VERO AMOR
Assim aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada! E assim de longe ouvirás a cantiga da tua Amada, da tua Amiga. Abrem-se os olhos – e é de sombra a estrada para chegar-se à Amiga, à Amada! Fechem-se os olhos – e eis a estrada antiga, a que levaria à Amada, à Amiga. (Se me encontrares novamente, nada te faça esquecer a Amiga, a Amada!) Se te encontrar, pode ser que eu consiga ser para sempre a Amada Amiga. II E assim aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada! E talvez apenas uma estrelinha siga a tua Amada, a tua Amiga. Para muito longe vai sendo levada, desfigurada e transfigurada. sem que ela mesma já não consiga dizer que era a tua profunda Amiga, sem que possa ouvir o que tua alma brada: que era tua Amiga e que era tua Amada. Ah! do que disse nada mais se diga! Vai-se a tua Amada – vai-se a tua Amiga! Ah! do que era tanto, não resta mais nada... Mas houve essa Amiga! mas houve essa Amada!

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

CANTAR GUAIADO
Também cantarei guaiado – ai, verde terra! ai, verde mar! – por haver buscado tanto e ter tão pouco que amar! Morrerei sem ter contado – ai, verde terra! ai, verde mar! – quantas bagas do meu pranto ficam no mundo a rolar. Mas em meu lábio cerrado – ai, verde terra! ai, verde mar! – fica o vestígio do canto, ai! do grande canto guaiado para quem o interpretar...

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

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A AMIGA DEIXADA
Antiga cantiga da amiga deixada. Musgo da piscina, de uma água tão fina, sôbre a qual se inclina a lua exilada. Antiga cantiga da amiga chamada. Chegara tão perto! Mas tinha, decerto, seu rosto encoberto... Cantava – mais nada. Antiga cantiga da amiga chegada. Pérola caída na praia da vida: primeiro, perdida e depois – quebrada. Antiga cantiga da amiga calada. Partiu como vinha,

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
leve, alta, sòzinha, – giro de andorinha na mão da alvorada. Antiga cantiga da amiga deixada.

sejas viva. Leonoreta. ai. fez-se de sal a espineta que me acompanhava o canto. só por alma te procuro. Com três séculos de pranto. desfechada no ar escuro … O licorne beija a rosa. fin’ roseta. por mais que eu não to prometa. Leonoreta. sem desgosto e sem favor. fin’roseta. apesar de sofrer tanto. puro amor é minha vida. fin’roseta. sejas morta. encontrarás meu amor. Leonoreta. Leonoreta! Leva a seta um rumo claro. Ai. ai. canta a fênix do alto muro: mas é tal meu desamparo. Que a chamar não me aventuro. Bela sobre toda fror.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 221 AMOR EM LEONORETA Leonoreta. desgraçado mas jucundo. não te meta en gran coita a minha dor! . por silêncios esvaída. nom me meta En tal coita vosso amor! (do “Amadis de Gaula”) I Pela noite nemorosa. Rondo em sonho a tua porta. nos bosques atrás do mundo. Fin’ roseta. Leonoreta. Leonoreta. branca sobre toda flor.

mesmo sem precisar vê-la …? Das varandas da alta lua. e só do sonho inseguro. longe. mais leve que borboleta.) O licorne beija a rosa. De que estrela. Fin’roseta! Esta.222 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. canta a fênix do alto muro … Ai. ou que planeta. ou que mundo. Meus olhos. que. algum dia. Leonoreta. salamandras e quimeras vêm saber o que procuro. Leonoreta. que apenas flutua. Pela noite nemorosa. Ai. tornam-se os picos das eras vales rasos de violeta … Não me digas que me esperas! Não me acenes com o futuro … Eu sou das sortes severas. se de ti me aproximasse. Leonoreta. nada insinua … esta é a voz de Leonoreta! . fin’roseta. “Leonoreta!”– exclamaria. sofriam de indiferença. antes de a amar. ricos de amor. Leonoreta. se pensa. E. mas buscava tua face. fin’roseta. é nascida a branca flor em que. recordo o estremecimento: era a tua voz que me trazia o vento. II Do teu nome não sabia. Leonoreta.

Leonoreta. Nem te meta en gran coita.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Podia morrer de pena. nada reclamo. Mas a vida é tão pequena. andar por onde estiveste! 223 . viverás por esse encanto. Se como te ouvi me ouviras. que não se ama. Leonoreta. fin’roseta! Por alheia não me feres: sei teu nome e não te chamo. A adorada ausência não me põe triste. Sei que é tanto meu amor que. bela sobre toda flor! – tão pequena para amar-te … E em toda parte causa espanto o meu amor. se vi que me não queres. se te vi mas não me viste: que foste a mais derrotada … Pois. E comecei a cantar-te. noutras eras. por mim. que doçura. fin’roseta. só terei do que me deres. mais feliz não me fizeras. Leonoreta. que. por enquanto… Nem de ti desejo nada senão saber que exististe. Meu amor é flor sem ramo. tu não viste como te amo … Leonoreta. Amor é arte. Mas é tão de outras esferas.

Tu. que me não deste nada! Que nem viste quem te via! Leonoreta.224 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. não te meta en gran coita a minha dor: se te amava. branca sobre toda flor? Teu semblante choraria de alegria. fin’roseta.. não sofria… III Leonoreta. longe vai teu vulto amado. Porém resiste ao meu lado o espaço que ocuparias. Guardo por altas varandas tua fala em meus ouvidos. sem que o sangue comprometa o sonho. Leonoreta. como poderei ser triste. fin’ roseta. fin’ roseta. não mais penso por onde andas. entre esfinges e quimeras.. pela criatura… Ai Leonoreta. . Sem fogo que o lírio creste. se te visses debuxada pelo meu poder de amor. Leonoreta. se a tua sombra resiste e tu não resistirias? Leonoreta. é minha humana aventura.) A mais pura imagem do amor celeste. quem eras. fin’ roseta. Leonoreta.

se eu te vejo sobre os mares. ai! outras são as companhias.. Leonoreta. fin’ roseta. se mais ninguém para mim valia tem. fin’ roseta. porém.. quando tudo é tão de além. Não venhas por onde eu for.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Leonoreta. não me vês.. mas eu te vejo. fin’ roseta. IV Morrerei. do vento que leva a bela mão sobre saudosos mares. sofrendo por te afastares. 225 . se suspirares. Leonoreta. feliz da barca e da vela. Não te quero nem desejo: morrerei. Leonoreta. como os puros amadores.. bela sobre toda flor (que todos os meus pesares são por saudade do amor). se também por mim visse que sofrias. não te meta en gran coita a minha dor.. Leonoreta.. fin’ roseta. que eu nunca fui por onde ias! Não venhas. eu vivo a bordar de flores a sombra dos teus vestidos. Leonoreta. que és o meu bem. se suspirares. Pois. se és o meu grande bem.

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
Leonoreta, fin’ roseta: olha os sonhos singulares que existem porque não vêm... V Pela celeste ampulheta, flui-me a vida em cinza breve, sem que eu saiba aonde me leve, Leonoreta, O enlevo – que foi tão raro, O sonho – que era tão certo, O amor – que, apesar de claro, nem foi visto, de encoberto. Desconheço a quem remeta a experiência a que me entrego: todos querem amor cego, Leonoreta, e o meu é clarividente. Amor cego, fiel, cativo, todos querem. E eu, somente, sei do isento e sem motivo… Grave amor que não submeta asas próprias nem alheias, amor de límpidas veias, Leonoreta, onde o tempo é eternidade, e alegrias e tristezas são igual felicidade, indelevelmente acesas. Que meteoro, que cometa conhece campo florente em que prospere a semente, Leonoreta, deste amor que te proponho? Amor que apenas contemplo, em que sou meu próprio sonho, flor de meu silêncio e exemplo?

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL
VI Leonoreta, fin’ roseta, deixo meus olhos fechados sobre os acontecimentos. Não te meta en gran coita o meu amor: podem, por todos os lados, duros, tenebrosos ventos quebrar muitas tentativas. Mas, para que eterna vivas, que é preciso? Que pensem meus pensamentos. E entre pólos inviolados, entre equívocos momentos, vem e volta a vida humana, que se engana e desengana em redor do Paraíso. Branca sobre toda flor, a Verônica levanto, num transparente estandarte: celebro por toda parte a alegria de adorar-te com o meu pranto. VII Pela celeste ampulheta, cai a cinza dos meus dias. Cai a cinza do meu corpo, da minha alma, Leonoreta, e o tempo é um límpido sopro que liberta de alegrias e de queixas... Leonoreta, fin’ roseta, alta estrela, a minha sorte!

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Pela celeste ampulheta, vai-se a luz da primavera... A ventura que se aprende nos adeuses, Leonoreta, vale o que neles se perde... Tudo quanto sou te espera, e me deixas... Leonoreta, não te meta en gran coita a minha dor. Puro sonho, a minha morte, pura morte, o meu amor.

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Paulo Lebéis Bonfim

Nasceu em São Paulo, em 30 de setembro de 1926. Além de poeta, foi jornalista e relações públicas. Foi Membro da Academia Paulista de Letras e do Pen Clube. Recebeu o prêmio Olavo Bilac, da ABL, e o troféu Juca Pato, da UBE (1981). Suas obras são: Antônio Triste (1946), Transfiguração (1951), Relógio de sol (1952), Cantiga do desencontro (1954), Poema do silêncio (1955), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Quinze anos de poesia (1957), Poema da descoberta (1957), Sonetos (1959), O colecionador de minutos (1956), Ramos de rumos (1961), Antologia poética (1962), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Calendário (1968), Poemas escolhidos (1973), Praia de sonetos (1981) e Sonetos do caminho (1983).

CANTIGA DO DESENCONTRO
Canto VIII Ai flores do verde tempo, Cheias de sol e distância... Em que canteiro deixastes O aroma de minha infância? Ai flores do verde tempo, Alvas luas que semeei... Em que camada da terra Mora o pranto que chorei? Ai flores do verde tempo, Perfume que o vento traz... Em que silêncio repassam Os dias do nunca mais?

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MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
Ai flores do verde tempo, Que refloris na lembrança Enfeitai o meu sorriso. Quando murchar a esperança!

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ANTÔNIO TRISTE
Onde andará Onde andará minha amada Neste crepúsculo triste Nestas noites sem luar? Ó árvores desfolhadas, Falai-me de meu amor! Onde andará minha amada Nestas manhãs cor de cinza, Nestas auroras sem cor? Ó folhas soltas dos ramos, Falai-me de meu amor! Ó árvores desfolhadas, Ó folhas soltas dos ramos, Peregrinos ventania, Daime-me notícias de alguém, Falai-me de meu amor!

232 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Em minha angústia De cais deserto. – És o destino. – És o oceano. .) POEMAS ESPARSOS Serenata Em meu silêncio De rua antiga. Em meu lirismo De tarde triste. – És serenata.

exerceu as profissões de jornalista e editor. em 27 de janeiro de 1919. Poemas existenciais e Tempo de poesia (todos de 1962)..POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 233 Edison Moreira Edison Crisóstomo Moreira nasceu em São Francisco da Glória. além de sua atividade poética. Certo dia. RIMANCE . Minas Gerais. O jogral e a rosa. senhor de cavalaria. Em vão não foram os cantares do Conde d’Albergaria. Colaborou em periódicos e participou de antologias poéticas.pero tenia marido. que à côrte estava em visita de amizade e cortesia. Este de tenção formada pelo pagem respondia que disposto não estava. Diplomado em Letras. ficava a estudar os livros na casa da estudaria. não estava nesse dia. o bom do Rei ao Conde d’Albergaria roga ir consigo à caça se tal cousa lhe aprazia. trovador mui afamado. Suas principais obras são: Cais da eternidade (1951).. . pela qual foi laureado com o Prêmio Oton Bezerra de Melo. Garcia Lorca A formosa Infanta Ausenda bem que já correspondia.

nos nobres dedos colhia.) Recado não era dado e o bom do Rei se partia levando toda a matilha mail-a sua companhia. “como a vinha”. o Conde. Cabelos da Infanta. os bebia. quantas vezes fossem meus tantas eu vô-los daria: quando os beijásseis. e esta por sua vez mui enxuta lhe dizia: – Meus cabelos. “trigais louros”. os mordia. o Conde. Mal na curva do caminho o Rei desaparecia. o Conde. quantas vezes fossem meus tantas eu vo-los daria: sempre os colhêsseis nos dedos que ventura não seria. – Meus peitos. o vosso trovar dizia. já o Conde para os braços da bela Infanta corria. amado. “dois frutos verdes”. o vosso trovar dizia. . o vosso trovar dizia.234 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. – Minha boca. mais que os beijava. mais que os beijava. que ventura não seria! Peitos tão alvos. quantas vezes fossem meus tantas eu vô-los daria: sempre a tomásseis nos lábios que vindima não teria! Lábios tão doces.

Abraçai tão belo corpo que vos tanto apetecia. que fora à caça fingia a ver se a formosa Ausenda em sua ausência o traía e a feia tenção do Conde até onde chegaria. – Alvíssaras.. – Tão belo corpo da Infanta (cruel o Rei prosseguia) em mãos tão nobres vos juro. que logo voltou trazendo punhal de oiro que luzia. vos juro. abraçando a Infanta Ausenda que de terrores tremia.. eis que o Rei ali surgia. arma de mui grande estima que em sua panóplia havia. abraçaria. Tal qual um vilão o Conde sem querer obedecia. meu nobre Conde (diz o Rei com ironia) que amáveis a minha Infanta. um servo o Rei despedia. 235 . Quanto a mim. ai de mim que não sabia! Se tivesse adivinhado vô-la dado já teria.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Palavras não eram ditas. Voltara a meio caminho. sem que preciso fizésseis tudo à minha revelia. deste modo o nobre Conde de um Rei não se queixaria por faltar a um visitante com as normas da cortesia. Tendo-os assim abraçados. nunca o veria. me fora dado abraçar.

. a formosa Infanta Ausenda e o Conde d’Albergaria. com crueldade tão fria.236 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) Tomando o punhal o Rei. deu sete golpes profundos com toda sua mestria. traspassando sete vezes. sua mão sequer tremia.

Dinis. as tuas canções de amigo me fizeram mais feliz. . Desde que as levo comigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 237 EVOCAÇÃO DE D. DINIS As tuas canções de amigo: ondas do mar de Vigo D.

Dizer-vos meu quebranto meu coração não se atreve: dentro de um corpo de fogo guardais um’alma de neve.) CANTIGA DE AMOR Um tal ome sei eu. Dinis Senhora. D’el-rei D.. sem vossa correspondência. . causais a mágoa que a vida me faz tão breve dentro de um corpo de fogo. ai ben-talhada. guardais um’alma de neve.238 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Meu mal vem de amar-vos tanto. que por vós ten a sa morte chegada.. pois nunca mostrei meu pranto à vossa gentil ciência.

A mais fremosa e querida.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 239 CANTAR DE AMOR Se na campina frolida vires por todos loada uma pastora velida: é minha amada. a bem talhada. pola ribeira frolida: é minha amada. . a louçãa.

Da morte. Estado de São Paulo. noviciado da paixão (1974). na cidade de Santos. e. tema de teses universitárias em nível de pós-graduação. dramaturga e ficcionista. Sobre a tua grande face e Com meus olhos de cão e outras novelas (1986). Perspectiva. com a tradução de poemas e textos seus para o francês. Poetisa. inglês e italiano. Hilda Hilst vem obtendo com a sua obra alguns dos mais significativos prêmios literários brasileiros. e o curso secundário (Clássico e Científico) no Instituto Presbiteriano Mackenzie. Hilda Hilst nasceu na cidade de Jaú. memória. Seu primeiro livro de ficção (Fluxo-floema – Ed. Com dezoito anos de idade. Em 1966 construiu.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 241 Hilda Hilst Filha de Bedecilda Vaz Cardoso e de Apolônio de Almeida Prado Hilst. do qual faz parte até hoje. . subsidiado pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Formou-se bacharel em Direito em 1952. freqüentemente. iniciou a faculdade de Direito. onde reside até hoje. O caderno rosa de Lori Lamby (1990). Cursou o primário e o ginasial como aluna interna do Colégio Santa Marcelina. Em 1982 participou do Programa do Artista Residente. mais recentemente. em Campinas. de propriedade de sua mãe. Seu trabalho tem sido. gozosos e devotos (1984). Estado de São Paulo. em São Paulo. Ficções (1977). Dois anos depois publicou seu primeiro livro de poesia (Presságio – Revista dos tribunais. Outras obras: O verdugo (1970). no dia 21 de abril de 1930. Júbilo. a casa que denominou “Casa do Sol”. Em 1963 mudou-se para a fazenda São José. alemão. Odes mínimas e Tu não te moves de ti (1980). Poemas malditos. Em 1967 iniciou a produção de peças teatrais. tem chamado a atenção da crítica internacional. próxima à fazenda São José. SP) foi publicado em 1970. que terminaria em 1969. na Universidade São Francisco. Em 1935 iniciou a vida escolar fazendo o jardim de infãncia no Instituto Brás Cubas. Poesia (1959/1979). SP).

Em 1997 publicou o livro Estar sendo. em 1995. pelo “Centro de Documentação Alexandre Eulálio”. Ter sido. e está aberto a pesquisadores do mundo inteiro. TROVAS DE MUITO AMOR PARA UM AMADO SENHOR Poema II Amo e conheço. de São Paulo.242 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Vossas carências Sei-as de cor. . E o desvario Na vossa ausência Sei-o melhor. da UNICAMP. amigo Mas é nos versos Que mais vos sinto. contendo registros de sua criação artística acumulados ao longo de quase meio século. De entendimento Vivo e padeço.) Seu arquivo pessoal. Eis porque sou amante E vos mereço. foi comprado. Tendes comigo Tais dependências Mas eu convosco Tantas ardências Que só me resta O amar antigo: Não sei dizer-vos Amor. E na linguagem Desta canção Sei que não minto. e anunciou seu afastamento do trabalho literário. Dois anos depois teve sua dramaturgia publicada pela Nankim Editorial.

. Porque ai senhor A vida é pouca: Um bater de asa Um só caminho Da minha à vossa Casa. nada. E depois... do tempo. Convém amar Ainda que seja Por um momento: Brisa leve a Princípio e seu Breve momento Também é jeito De ser.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 243 Poema IV Convém amar O amor e a rosa E a mim que sou Moça e formosa Aos vossos olhos E poderosa Porque vos amo Mais do que a mim.

Fineza é que não seria. É o muito vos repetir Um amor já confessado. Não é fineza tão grande Fazer-vos tal juramento? Ai é sim meu senhor.) Mas hoje vos conhecendo E tendo sido afligida Por males próprios do amor.244 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Porque se acaso depois Passado tanto tormento Eu nunca mais vos lembrasse Do amor o encantamento. . senhor. (A princípio sem cuidado Porque não vos conhecendo À força de repetir O que não é acaba sendo. E é pois o que venho tendo.) POEMA VII Fineza minha.

. .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 245 POEMA XVII Moças donzelas Querem cantar amor Sem mais aquelas. Fico eu por elas. E em sendo belas Pretendam conseguir Grinalda e perlas Velo eu por elas. E se as cancelas Das casas onde vivem Ai. Solteira e bela Ao. Canto eu por elas. Mas ai daquela Que em vós deitar o olhar. nas janelas.. cuidam delas Saio eu por elas. Se forem belas Ficam melhor à tarde Ai. pobre dela.

“Arthur Azevedo” por Auto dos Reis e seus camelos reais (1987) e “Coelho Neto” por Água brava (1994). é composta por mais de duzentos títulos entre poesia. da SBAT e da União Brasileira de Escritores. como o “Prêmio Nacional de Literatura Infantil” (Fundação Nacional de Brasília) por Macaquezas do macaco Malaquias (1971). “Roquete Pinto” por Memorial de Rondon (1986). romancista. No mesmo ano foram publicados mais dois livros: E assim se formou a nossa raça e A grande visão. Os mais recentes são: Mítica e Cancioneiro capixaba. de Alejo Carpentier. tradutora. Suas peças infantis já foram traduzidas em vários idiomas e encenadas em muitos países. entre eles o “J. teatro e livros infantis. (1978). ensaísta e teatróloga.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 247 Stella Leonardos Poetisa. publicados em 2000. Espanha). do PEN Clube do Brasil. Recebeu ainda outras distinções. e nove láureas da Academia Brasileira de Letras: “Coelho Neto” (teatro em verso) por Trilogia biográfica (1945). nasceu no Rio de Janeiro. Sua obra.M. É também integrante da Academia Carioca de Letras. do Instituto Histórico Geográfico do Rio de Janeiro e da . Iniciou-se na carreira literária em 1941 com o livro de poesias Passos na areia. onde se destaca como Secretária Geral. Foi também condecorada com a Medalha “Estácio de Sá”. Recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior. “João Ribeiro” por De líricas românicas e outras líricas (1980). ficção. “Júlia Lopes de Almeida” por Estátua de sal (1960). sendo a primeira autora brasileira a recebê-lo. hoje. do Institut de Projecció Exterior de la Cultura Catalana (Barcelona. Batista i Roca” 2001. “Odorico Mendes” por O século das luzes. Stella Leonardos é membro do Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica. pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. “Monteiro Lobato” por Macaquezas do macaco Malaquias (1979). em 1 de agosto de 1923. “Olavo Bilac” por Poesia em três tempos (1957).

E minha infância estremece – ai vento estranho harpejar! “Lá vem a Nau Catarineta.U. Uma história de pasmar”.) International Writens and Artists Association (IWA) do Bluffton College. Eis que voga nau de azares no mistério secular. Uma das vertentes de seu trabalho em poesia é justamente a inspiração na lírica medieval neolatina e no romanceiro hispano-brasileiro.248 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. senhores. Quanto tempo quanto tempo a nave me navegando? Ao litoral pervagado . E.A. Ouvide agora. que tem muito que contar. Ohio. ROMANCE DA NAU CATARINETA De que ondes vêm estas ondas de música em meu vagar? De que vagas Submarinhos? De que búzios beira-mar? Eis que acenam lenços brancos de uma nave em meu lembrar.

refluindo de um cais. Solo de Sol inclemência.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL vaga vou. Já não tinham que comer. “Passava mais de um ano e dia que a nau andava no mar . Já não tinham que tomar. Na memória paira a nave sólita no mar invário. De meu medo solitário a só nau de sol e dó fadada a insolaz fadário. vago indagando – horas a fio nas rocas fluidas dúvidas confiando.” De sol a sol. marujos inconsoláveis curtindo viver contrário. 249 . de busca ao casco da nau – de quando? Entre bússolas insones a insônia de um memorando. Marasmo de itinerário. calmaria .

minha cândida figura de criança de expectativa pupilas de noite pura. Terror que assola. .) “Deitaram sola de molho para o outro dia jantar. Rola o trágico baralho. E surdem súbitas ondas de inquieta significância. Mas a sola era tão rija Que a não puderam tragar”. Inda tremo. Arregalo olhos infantes. Ah impiedosa quiromância! Um rei de ouros – de ouro ou sangue? cai no convés à distancia. Vivo pânica tremura. “Deitaram sorte à ventura: matar a qual deles? Qual? Logo foi cair a sorte no Capitão-general”. sinto até que desfigura meu ouvinte rosto pálido. me cega. Uma nuvem muito escura cresce mais que o sol.250 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

De sete mares aflitos sete pássaros viageiros seteiam nuvens obscuras nos sete dardos certeiros. sobe àquele mastro real! Vê se vês terras de Espanha. De sete mastros afiados poreja suor marinheiro. pesam sete anos inteiros.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL E rondam rostos ferozes de faminta concordância. Sete instantes sustam vôo. areias de Portugal!”. Vejo sete espadas nuas. meu gajeiro.Aqui-d’ el-rei. . “Sobe sobe. Sete gumes no ar fatal”. Mas sobre a ronda se eleva aquela voz de antes e ânsia. E na setêmplice angústia retine a voz do gajeiro: “Não vejo as terras de Espanha. Capitão! 251 . areias de Portugal.

Areias de Portugal!” Mãos de brisa tocam velas. Empunhando o inquebrantável da esperança.252 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. acima até o tope real! Olha se avistas Espanha. Sete vezes sete olhares de clepsidras e ampulhetas acompanham mastro acima o gajeiro veste preta. Bravura em riste. dedilham sete maretas. Sim. afirma de encontro ao não. acima gajeiro. E encoraja minha infância. – “Acima.) Combate. E seu canto – timbre de aço boa têmpera – subsiste. desafia o que há de triste. . sob a gávea que me assiste. Canta o gajeiro do luto – ardis talvez do Capeta? – ao som de uma viola etérea. resiste.

meninas vagas que vão. a chorar”. três imagens de soidão. Uma cose fina espuma numas anáguas – pra quem? – 253 . E a outra na roca a fiar. que marujos encantados – cativos de encantação? – vêem meninas de olhos d’água. Debaixo de um sol laranja como ninguém viu. areias de Portugal!” E vagas-meninas vêm e vagas-meninas vão – meninas verdes e azuis e tão de encanto.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Ou de uma clara espineta? – “Alvíssaras. meu Capitão-general! Já vejo terras de Espanha. de tão. Uma sentada a coser. e a mais formosa de todas entre as duas. meninas vagas que vêm. – “Mais avisto três meninas debaixo de um laranjal. ninguém. Capitão.

Oh! Quem m’as dera abraçar! A mais formosa de todas Contigo a hei de casar”. prestes. – “Todas três são minhas filhas. Um gajeiro de desdém. – Dou-te pois tanto dinheiro que o não poderás contar! – Não quero vosso dinheiro que vos custou a ganhar”.254 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. além. Sete vezes sete vidas que a imagem da bela atiça. O gajeiro veste preta a resposta. Sete vezes sete juízos . Sete vezes sete olhares ardem presos de cobiça. Por excesso de justiça? – “A vossa filha não quero que vos custou a educar. iça.) Outra fia numa roca mais de cem mágoas – de cem? – A terceira conta às águas saudades do pai.

Sete vezes sete bocas ávidas por mil tonéis.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL reprimidos no convés. Sete vezes sete corpos tensos da cabeça aos pés. Sete vezes sete peitos sonando árdegos corcéis. De que praias que se escondem fluem presságios devagar? A que aondes vagam medos de marujo segredar? De que roteiros perdidos? A que funduras do mar? 255 . E o gajeiro lá da gávea? Gajeiro de olás e olés? – “Dou-te meu cavalo branco o meu cavalo sem par! – Guardai a vosso cavalo que vos custou a ensinar”.

.) O vento arrepia as velas da nave de singular. E o Capitãogeneral perplexidade crescente: – “Que queres tu. E a nau como que encravada num rochedo de repente. quero tua alma para comigo a levar”. E o gajeiro veste preta? Lá do alto do recusar? – “Dou-te a Nau Catarineta para ser teu navegar.256 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Sete vezes sete sopros do vento com ar de gente. meu gajeiro? Que alvíssaras te hei de dar? – Capitão. Sete vezes sete vagas de surpresa face enchente. – Não a Nau Catarineta que não a sei governar”. Sete vezes sete pasmos na tripulação silente.

257 . Irremovível rochedo se parte por sob a nave. É o Capitãogeneral? É meu avô! vivo mito. E o romance oral da nave singra sendas de infinito. – “Renego de ti.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Das cordas de uma garganta a crença criança dá grito. E corre na correnteza o veleiro jeito de ave. E ouço e vejo meu avô cabeça branca. O Capitãogeneral olha impávido o Maldito. domônio. E lá da gávea o gajeiro minha infância fita e o fito. rezando a estória. olhar suave – almo avô levando a estória. que me estavas a tentar! A minhalma é só de Deus: Meu corpo darei ao mar”.

) voz grave: “Tomou-o um anjo nos braços. E eis a Nau Catarineta de noite em terra a tocar”. Houve estouro do demônio! Acalmaram vento e mar.258 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . não no deixou se afogar.

.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 259 AA SOMBRA DAS “CANTIGAS DE SANTA MARIA” . o Sábio (A Frei Ludovico Gomes de Castro) Eu trobador acá viindo sõo vindo de muyto longe. “Dized’... “Tan toste que acabada ouu’ o mong’ a oraçon. e o monge do extase trezentos anos gran sabor d’eternidade. ai trobadores! a senhor das senhores. Trobadores.. Senhor das Senhores’’.. ai trobadores!”. “Rosa de beldad e de parecer”… D.. loores: “Rosa das rosas et Fror das Frores’’. escutade que canto o miragre lindo da passarinha d’arcanos en cantar celeste. “Se vos trobar sabedes a por que Deus avedes por que a non loades?’’ Con migo cantade oo alas d’alvores: “Dona das donas. . Afonso X. oyu h¢a passarinha cantar log’en tan bon son”… “Dized’.. por que a non loades?’’ Con migo cantade oo aves..

260 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) O SEGREL E A LAVADEIRA .. ponte vedra. – Ay eu! . per la ponte. lavandeiras so la ponte. Pero da Ponte passou: – “Ay eu!’’ Per la ponte d’ altas pedras. “ en forte pont’ eu fui nado!” “Poys uoss’ amor en tal coyta me trage. baten áuguas contr’ as pedras.. en forte pont’ eu fui nado!’’) Lavandeiras so la ponte. ponte vedra. tristes pedras. Pero da Ponte cantou: – “Ay eu!’’ Vedra ponte. Ay eu!” Pero da Ponte (So la ponte. pero Pero non voltou. saluçan áuguas nas pedras: – “Senhor do corpo delgado.

como vivo en gran desejo por meu amigo que tarda e non veio!’’..POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 261 PLANG “Ai eu. coitada. como vivo en gran cuidado por meu amigo que ei alongado! Muito me tarda o meu amigo na Guarda!’’) Guarda-moor: passo passinho leixaredes quen aguarda aiar doilo que desviva? (“Ai eu. como vivo. De lagrymas.... Antorchas que se consomem como vidas comovidas: ai que ¢a vida se some! Du surde la fontainha? Sobolas sombras. coitada.) Tarde.Sancho I plange dona en doilo negro. coitada. . (“Ai eu.” El – Rei Dom Sancho (A Cleonice Berardinelli) Sobolas sombras do paaço del-rei D.

podedes ben vos nembrar: por vos sõo nobre d’honor.) DO SEGREL AA DONA-D’ALGO “D’amar a quen non ousarei falar”… Martin Soares Sõo nascido filho dalgo pero por vilaão me teen.’’ Se algo nobre tenho dalgo como por vilaão me teen? Seed’en nembrada.’’ . Non aqueste vero amor “d’amar a quen non ousarei falar. “d’amar a quen non ousarei falar. senhor: posso vender meu cantar. senhor. Seed’en nembrada.262 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

.. “briosas van eno barco’’. “briosas van no navyo’’. as frores do meu amado. “briosas van eno barco pera chegar ao fossado’’ as frores do meu amigo. Ay frores! “As frores do meu amado’’ van. van altos alvores. E alá per azures altos van barcos alvos.. Ay frores! E vagas frores amigas. sospyran. e alvas e altas velas vagan a velar vago navyo d’amores.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 263 MARINHA “As ffrolles do meu amigo. Van.” Pai Gomes Charinho (A Natércia Freire) “As frores do meu amigo ” van. aa fror das vagas que vagan. E frores vagas sospyran aa fror das vagas.

meninhas.) CANTIGA DE ROMARIA …“queymen candeas por nos e por sy”… Pero Vyvyães Amigos romeiros. baylaremos hy.’’ Eu e a meninha quedaremos hy. . e nos. meninhas. Con olhos romeiros vaiamos ligeyro candeas queimar.264 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. por nos e por sy. Meninhas da romaria. vaiamos ligeyro candeas levar. h¢s olhos almas candeas a queimar lumes infiindos. meninhas.’’ Meninhas da romaria. vi. h¢s olhos. meninhas d’olhos que vi. vossos olhos son candeas a queimar ardor de riiso: “Queymen candeas por nos e por sy. “Baylen.

ca me teen presa no laço! “Dizia la ben talhada: ay deus. Afonso Sanches “Dizia la fremosinha: ay deus. val!” Caçador qu’ides aa caça caçador d’afoito passo: ay que moyro. aa mingua de voss’ abraço. caçador. ay deus. caçador.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 265 LA FREMOSINHA “Dizia la fremosinha”… D. val!” Caçador. . ay deus. meu caçador! Caçador d’ afoito passo: ay que moyro. val! Com’estou d’amor ferida. val! Com’ estou d’amor coytada.

. “E fez-mi o voss’amor tan mui mal. que nunca vi prazer de min. Dona Amavide. que o vento que ven aas vinhas non vos vee viinda entre vides.” No virgeu das vinhas virgens em vivo amor me desvivo. mais de viço do que as vides. Senhor fremosa. “Se Deus me leixe de vos ben aver. Dona Amavide. No virgeu dos amavios amei-vos. des quando m’eu de vos parti. nunca vi prazer des quando m’eu de vos parti”.266 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. amada Dona Amavide. nem d’al. .) NO VIRGEU “Se Deus me leixe de vos ben aver”. dona-virgo fror das vides.. Fernan Garcia Esgaravunha No virgeu das vinhas virgens vi-vos eu.

bela! . Achado ei lumbroso anel mui belo e de moor valia: vosso cuidar. anel d’oiro fin amor. e chor’eu.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 267 A DONA-VIRGO DO ANEL …“por en chor’eu. senhor mia. e cant’eu. bela! Non chorade aquel anel que de coraçon vos sei. Lumbroso anel achado ei na vossa voz. mia senhor. Aque so lo verde pinho meu coraçon. dona virgo”… Pero Gonçalves de Porto Carreiro – O anel do meu amigo perdi-o so lo verde pinho. dona-virgo.

268 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. con alva ja venho. levou-s’ a velida”… Pero Meogo Levou-se. velida cor d’alva. con alva ja chego. . dos amores leda. “(Levou-s’a louçana. levou-s’a velida: vai lavar cabelos na fontana fria. leda dos amores. Ja canto minh’alva. leda dos amores dos amores leda.)” Levou-se. (Levou-s’ a ben viinda. louçana. louçana.) Por ve-la louçana tan d’alva nas áuguas alvoro tan ledo. Ja tanjo minh’alva. dos olhos de cervo dos montes sen magoa.) ALVA “(Levou-s’ a louçana).

cantar d’amigo. se verra cedo!” Navega en ondas de Vigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 269 BARCAROLA . ¢s olhos de ben amar. . se verra cedo!” Capelinha aa beira-mar: Que reza a dona de doairo aas ondas do aire sagredo? – “Ondas do mar levado: se vistes meu amado! E ay Deus. Navega. Mareja.. cantar amaro. se vistes meu amigo! E ay Deus. navega.“Ondas do mar de Vigo”… Martin Codax (A Naumim Aizen) Capelinha aa beira-mar: que canta a dona atristada tornando trist’o rochedo? – “Ondas do mar de Vigo.. vago cantar.

amável Fernando Esguio. a las aues meu amigo. vaiamos folgar nas ribas do lago. alou-se de cotovias vozes d’amavioso afago) . u eu andar vi a las aves meu imigo. E cantavam cotovias que a seu lado ian pousar: – “Vaiamos. Cantava ¢a cotovia con apenado cantar: – Vaiamos. pequena amiga que vos non quero apenar! E ouvi nas ribas do lago Fernando Esguio cantar.” Fernando Esguio Nas ribas do lago ouvi Fernando Esguio passar.” (E vosso trovar no lago. irmãas. u eu vi andar a las aves meu amigo.270 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Nas ribas do lago vi Fernando Esguio acenar: – Cantade. irmãas.) O TROVADOR E A COTOVIA “Seu arco na mano a la aues tirar: a las que cantauan nõ nas que’ ( r ) er matar. vaiamos fugir das ribas do lago.

Estudou no Atheneu Norte-rio-grandense e no Colégio São José (Recife). poemas. Redigiu mais de mil artigos. Foi indicada. Também lecionou história da língua portuguesa na já extinta Faculdade de Filosofia de Natal. tornando-se a primeira mulher norte-rio-grandense a obter diploma estrangeiro e a primeira de seu estado a trabalhar na redação de um jornal (A República). mas foi criada em São José de Mipibu (RN). que deixou inédita ao falecer no ano de 1982. espanhol. cartas e contos. . em Manaus (AM). Em Madri. onde ensinou português. onde cursou a Faculdade de Filosofia e Letras. Era casada com Celso da Silveira. Trabalhou ainda na Tribuna do Norte e no Diário de Natal. todas com uma rígida formação religiosa. Foi membro da Associação Norte-rio-grandense de Jornalistas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RGN. Inventário (1981) e Catarse. a Mulher do Século / Rio Grande do Norte. Foi criada pelas tias paternas. reportagens. atual CEFET) e de francês em escolas da Prefeitura de Natal. graduou-se em jornalismo. Myriam Coeli foi professora do Atheneu durante 25 anos. numa lista de dez nomes. Além disso.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 271 Myriam Coeli Myriam Coeli nasceu em 1926. de português na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN. deu aulas de História da Imprensa na Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza. todos catalogados pela Biblioteca Pública do Estado e pela Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. para onde foi com dois meses de idade devido ao falecimento de seu pai. vítima de câncer generalizado. italiano e francês. Espanha. seu colega de redação em A República de quem teve dois filhos e com ele publicou a obra Imagem virtual (1961). Cantigas de amigo (1981). Suas obras individuais são: Vivência sobre vivência (1980).

Todos tinham na lembrança As mulheres que sonhavam – Flores morenas ou alvas – Nos campos que se alagavam. Os segréis tanta tristeza Em violas cantigavam O amor. outros. Distantes mulheres mouras De altas torres ais soltavam Mui sós. com esperança e o sonho Nas vias e águas que andavam Tinham no peito cantares. Longe. cristãs ou moçárabes Agonias castigavam. Pela Fé e pela Espada Suas honras adestravam. Naqueles tempos de antanho Paixões a todos bruxavam. Só nascia flor vermelha De corpos que arrebentavam. pelas águas Aventura aventuravam. alfinete em peito. Que os dias espetavam. Outros.272 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . Velhos castelos distantes Cavaleiros visitavam Cantando gestas de amor Que poetas lhes legavam. Desejos que despontavam Da lonjura ser presente Daquelas por quem tristavam.) FUNDAMENTOS Naqueles campos distantes Cristãos e mouros lutavam. Vermelhos rios vermelhos Que os campos alagavam. E os delgados cavaleiros Pelas vias inda andavam.

Malferidas as mulheres Em teares que teavam Doces cantigas de amigo Com os fios que trançavam. Ou entre ovelhas no prado Que sozinhas pastoravam. Ou entre ovelhas no prado Que sozinhas pastoravam. Cantavam com voz sentida Saudades que descantavam. E as mulheres recolhiam Toda dor que desatavam.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Rios de Portugal e Espanha Buscando o mar soluçavam. Suspirando em solidão Duas fontes derramavam. 273 . Naquele tempo as mulheres Em castelos esperavam. E entretinham seus cismares Que as distâncias já cansavam Com cantigas de amigo Que elas mesmas inventavam Com donaire provençal Que as ousanças alongavam. Os jograis essa tristeza Em violas cantigavam.

como eu maldigo amores de grande lida. Cuidai bem prejuízos de quem de amor ferida. ai amores de amargos anos. Ai amores. Ai. que já tendo passado o prazo.) POEMA VIII Ai amores. os gaios amores dos verdes anos. aquele que sabeis a quem muito amava E para quem. Não me pergunteis. Mal está sem seu senhor. Ai. ai amores. fui talhada. por destino só. dizei-me onde estão. Guardam-se somente os danos. Se sabeis para onde fugiram as esperanças Ai. Quando encontrardes amores bem mais sentidos. Que ai. por Deus. Oh! fazei prazo comigo. . de mim partidos.274 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Oh! bem sabeis.

Dizei-lhe já. Ai. ó meu amigo. Dizei. bem asinhas Pois minha lembrança nele se aninha E este vero amor castiço de antanho Bem guardado está em guarda guarida. perdido em vias. Que tarda. Negro suspiro por presença amém Sem valia. Sem azul cantar. ó meu amigo. Que o meu peito é chama. ó meu amigo. ardendo por quem ardo. eu esquivo fogo E duas candeias meus olhos lagrimam. chorai. Trazei alegres novas. ó meu amigo. vilão. Que tarda. No peito jaz guardado Na saudade minha. ó meu amigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 275 POEMA XII Se avistardes. meu amigo. visão errante. Sem avisamento a saudade arma Meu coração-ponte. Ai. Ai. que pastora tão bela Em vãs tristuras entretendo ovelhas Na paz do prado tem canção cativa De quem amando sente dasamada. jograis. Eu formosa – Fenecida. o amor. Reparai bem. dizei onde o encontrardes Dos ousados desejos desvividos Sob penas de quem penada está Pois tem punhal silêncio amaro dentro. Que tarda. Que tarda. por meu amigo Apartado. Jograis. mata. Ai. jograis. Que tarda. Ai. . ó meu amigo. ó jograis. Ai. Que tarda.

276 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Como louvar amigo alongado Se peito é punhal azinhavrado? Ai. Valados. Deus de gran valia.) POEMA XIX Se sabeis novas de meu amigo. Deus. Ai. por que morte comigo? Ai. Onde estará quem me prometeu Pôr-me na terra o eterno céu? Ai. Deus. Onde está ele. onde andará meu doce amigo? Se sabeis. espelhos dágua. Deus. ais. céus. Se está bem. flores do pinho. e o seu encanto? Meu sonhado amigo era o pastor Que flautas em mim tocava amor. Ai. Trazei quem me queria. buscai-o por Deus. Onde comportar a minha mágoa? Ai. Prazo passado. dizei-me por Deus. se inda sonha comigo. . dizei-lhe por Deus. que o praza tanto? Deus. tapai-lhe o pranto. cravado espinho? Ai.

Pesam fardos sem sentido. Nem drama urdido em um átimo Ou o progresso que é o elo Monstro de nossa des / graça. Senhor. Edifício que me rasga Do almo a alma o almar E me dá triste degredo Vigésimo segundo andar Masmorra que amortalha Com capuz de asfalto e medo. Ventos uns a velejar. Uns bizarros. Tudo aquém de minha janela Só traz solidão e dor. . Artefatos coloridos De plásticos. outros belos. escumas. Só pássaros. Mais belos que o de Almançor. Já no tempo arrebatados Com anjos. flores. meu senhor!). Que me preservem os átomos Na construção dos castelos E inventos não os desfaçam. dividir pudera! Que outros castelos sonhados (Que castelos. Castelos flutuando no ar Ou inconstantes nas areias. Com as traves destravadas Destravo traves que envergam Duras portas envergadas – Palavras ensangüentadas Celas que da língua selam Pelo espanto fustigadas. plumas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 277 POEMA XXII Senhora de mui castelos Não de pedras ou de ameias. nuvens. aço e isopor.

certamente.) Vigésimo segundo andar É castelo muito alto Jaz entre Oriente e Ocidente E se me seduz um salto Convosco não vou ficar Mas manchete. .278 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

que infelizmente foi perdida. inclusive os modos de falar.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 279 Francisca Nóbrega Nascida em Macaé. em companhia da natureza e de pessoas simples. a técnica do leixa-pren e as muitas variedades de composições (as barcarolas. . a música popular brasileira contava com uma vasta criação poética muito parecida com a dos trovadores medievais. Naquele momento. Suas cantigas foram escritas como se fossem um recurso didático incentivador para a criação dos seus alunos de oitava série no Colégio de Aplicação da UFRJ. a idéia de estudar com os alunos algumas cantigas trovadorescas. O “vício” de ver e ouvir adquirido em Macaé a guiou pelos caminhos um tanto parodísticos que segue em suas canções. autora quase bissexta e estudiosa permanente de Literaturas. com as quais adquiriu o hábito de olhar longamente as mudanças dos ambientes. Francisca Nóbrega guarda somente as cantigas escritas por ela. o refrão invariável. aqui reproduzidas a seguir. é Professora Mestra e Doutora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. no Estado do Rio de Janeiro. por exemplo). Obteve grande sucesso com seu trabalho. Francisca Nóbrega teve. fato que a estimulou a organizar com seus alunos uma “Antologia de novos trovadores”. Cresceu. então. mostrando-lhes a estrutura paralelística “como a fala do coração que diz sempre e só a mesma coisa”. as bailias e as cantigas de maldizer. até os seis anos de idade. nos anos 70.

E se nada sabes. onda do meu Mar de Vigo. . quanto mais do meu amigo.280 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) BARCAROLA Onda do meu Mar de Vigo. é que não te acresço do chorado pranto cheio da história do meu belo amigo. E se não te acresço é porque não sei de outra serventia para meus dois olhos. que te olhar e ver-te. Ai onda. nada sabes de mim.

irmãs. nem mesmo sou bem lembrada do meu senhor. Eu sou a bem esquecida. Bailai. meu senhor! . Que faço agora da vida.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 281 BAILIA Bailai. que podeis. irmãs. Eu não sou a bem amada nem sei s’inda sou pensada por meu senhor. eu. de quem se ocultou Amor. Eu não sou a bem talhada. que podeis. irmãs. Bailai. que podeis.

– Saberá de mim? . Discreto traço na palavra rara. Que achei à tarde. rios de óleo e lama. na Fonte dos Tempos. Ausentes verdes. Quero uma nova do meu belo amigo. – Quem será por mim? Sem romarias. – Saberá de mim? Prados de asfalto.282 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. águas sem espumas. Buscando lá o que não vejo aqui: – O senhor de mi(m).) CANTIGA D’AMIGO 71 Figura recortada em meu silêncio. sigo-me às ermidas.

vos diria. no vosso frio. muito e mui gran mal me fez. já que me morro por voss’amor. senhor. Enganei-me quanto ao preço que valia a vosso apreço. ai. – ai meu senhor arredio! Mal dia o em que vos olhei e vi vossa luz guardada na pupila que hoje sei não quer ser luz desvelada. Ai meu senhor arredio! . É que esse dia. – ai. – ai. meu senhor arredio. meu senhor arredio. por oposto o tamanho do desgosto que tenho por vos amar. meu senhor arredio! Leve-me a morte a encontrar-me convosco.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 283 CANTIGA COMO SE FOSSE DE MALDIZER OU CANÇÃO DE AMANTE Como se eu fosse um trovador igual a tantos que ouvi trovar.

Recebeu Menção Honrosa do Prêmio Graciliano Ramos da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. Publicou: Água insone (1973). nestes montes não passou donzela alguma cristalina como a fonte. . PASTORELA Dizei-me lírios e gerânios de uma formosa donzela vestida de sedas brancas. em 1944. em 1989. Coração de areia (1992) e Sala de retratos (1998). Cursou as faculdades de Direito e de Letras na Universidade Federal do Ceará. Ocupa a cadeira número sete da Academia Cearense de Letras. Cãtygua proençal (1985). – Não sabemos. – Vento que sopra nos ramos que é da minha donzela de tez macia e branca? – Com seu coração que sangra chorará em algum lugar toda a sua mal-andança.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 285 Marly Vasconcelos Marly Vasconcelos nasceu no Ceará. – Passarinhos e passantes não vistes entre os peregrinos a donzela que eu amo? – Nestes prados. cavaleyro da donzela que procuras com tanto empenho e zelo. pela obra Coração de areia (romance).

– Fico soprando nos ramos cavaleyro.) – Que terra esconderia minha formosa donzela devota de Santa Iria? – Não te aflijas. – Dizei-me vento andarilho onde posso encontrá-la e tornar-me seu marido? – No primeiro rio manso estará tua donzela alvejando as lembranças. coberta de brancas sedas. adeus. – Adeus.286 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . meu amigo cavaleyrinho de honra. cavaleyro que acharás a tua noiva. vento brando que a branca noiva espera o meu trobar e constância.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 287 BAILADA No bosque calmo e frolido con a sua louçania uma pastora caminha. Enquanto as mãos sem tormentos levam leve a pucarinha. atentos sempre sós. baila em suas mãos a doirada pucarinha. sem companhia. E porque vai ver o amado sob o trobador pinheiro baila. Baila. Miram as frores con alegria seus olhos grandes. Ben talhada e prazerosa nas mãos leva a pucarinha. . baila a pastorzinha.

Filho dalgo desprezível! Cantar ninguém me escuta cantiga de maldizer mas o ódio tem o brilho do ferro que esgota o sangue e se foste meu amado se sonhei com teu sorriso hoje já não és mais nada. Filho dalgo desprezível! . Filho dalgo desprezível! Molher nenhuma cantou cantiga de maldizer mas imenso é meu ódio raiva que queima recintos e aos poucos apaga o tempo em que louvei teu sorriso a palavra mentirosa.) CANTIGA DE MALDIZER Nenhuma molher cantou cantiga de maldizer mas meu ódio é tan grande tan feroz e assassino que maldigo sempre o dia em que amei teu sorriso o teu falso juramento.288 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

Ondas. vêm e vão bailando com suas flores. ondas vogam e vogam vogam e vogam ondas douro vão e vêm. . vêm e vão bailando com suas flores. minhas donzelas de Portucale e Bragança lembrarei os vossos lábios embora ame a inconstância.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 289 MARINHA A Roberto Pontes Choram tanto as donzelas que tornam meu sono inquieto as águas vagam sozinhas cheias de dores secretas. Sossegai. Ondas. ondas vogam e vogam vogam e vogam ondas douro vão e vêm. As donzelas ainda choram e atravessando distâncias no meu corpo caem gotas lágrimas cheias de pranto.

a 30 de outubro de 1945. também. da Universidade Federal de Pernambuco. Publicou. É presidente da Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano. que dirigiu até 1987. os seguintes volumes de ensaios teóricos e de crítica literária: O espaço-limite no romance de Vergílio Ferreira (1984). pela Universidade Federal de Pernambuco. As surpresas do mágico & outros ensaios (1985) e Reflexos do signo (1988). Portugal. o título de Mestre em Teoria Literária. e diretor da revista Estudos portugueses. a revista Encontro. No Departamento de Letras da mesma universidade. . publicou a coletânea de contos Três noites no sobrado (1969) e os livros de poemas O círculo do tempo (1972). leciona a disciplina Literatura Portuguesa. Vozes da infância (1979).POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 291 José Rodrigues de Paiva Nasceu em Coimbra. Com a dissertação intitulada Mudança: romance-limite realizou estudo crítico do conjunto da obra romanesca de Vergílio Ferreira. Os frutos do silêncio (1980). Radicado em Recife desde 1951. Foi diretor cultural do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco. Memórias do navegante (1976). Organizou e editou o volume Estudos sobre Florbela Espanca (1995). diplomou-se em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco em 1969. contista e ensaísta. editada pela entidade. em 1983. onde criou. Eros no verão (1983) e Cantigas de amigo e amor (1987). em 1981. Tem colaboração publicada em jornais culturais e revistas especializadas editados no Brasil e no exterior. obtendo com este ensaio. Poeta.

como um canto de ninar. Senhor. eram sombras de embalar um cantar de amigo e amor.292 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Mas a noite antiga. . E a noite antiga.) O SONHO DO TROVADOR Na noite antiga. Senhor. no tempo veio embalar o senhor do trovador. amor. qual Dom Dinis quis cantar um cantar de amigo ou amor.

cantemos para não chorar! .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 293 CANTIGA DE AMIGO – Cantigas de amigo vim vos perguntar se ouvistes meu canto seu amor louvar. mais val não saber. Cantigas de amigo queria saber por que é triste o canto deste meu viver. bailemos. amigo. – Perguntais se vimos voss’ canto louvar o amor das airosas? Nós vos respondemos que a cantar bailemos enquanto formosas. Perguntais porquê é triste esse canto e o vosso viver? Nós vos respondemos: bailemos. Cantigas de amigo vim vos perguntar onde pode o canto viver a sonhar. Perguntais. onde pode o canto viver a sonhar? Nós vos respondemos: cantemos.

amigas. amigos. amigos.) Á SOMBRA FLORIDA DAS AVELANEIRAS Amigas e amigos. ai vamos rezar. ao som dos pandeiros. amigas. amigas. . ao som de alaúdes. depois de rezar. À sombra florida das avelaneiras. amigos. bailemos. ai vamos rezar. soam alaúdes. à sombra florida das avelaneiras. a Santiago iremos depressa a rezar. amigas. ai vamos rezar. tocam cordas secas. mais santos louvemos do que há no altar. amigas. vibram pandeiretas.294 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ai. vamos bailar. à sombra florida das avelaneiras. mal o dia nasça. bailemos até nosso corpo agüentar e amanhã. Mas depois das rezas. amigas. vamos rezar. A Santiago vamos. amigos. amigos. ai. tocam flautas doces. amigas. A Santiago vamos o santo louvar. amigas. homenagear. amigos.

barcas novas vou lavrar e dentro delas cantar uma canção que não finda. . Nessas barcas. e nessas águas cantar em teu louvor. Senhora. sobre o mar. tão linda. Uma canção sobre o mar. sobre o mar. Em Lisboa vou cantar apenas por te louvar meu coração pulsa ainda. minha Senhora tão linda. Senhora minha. uma canção de atafinda. Barcas novas vou levar. por te louvar queria uma vida infinda.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 295 EM LISBOA SOBRE O MAR (Cantiga à maneira de Joan Zorro) Em Lisboa. sobre o mar. esta cantiga tão linda em Lisboa vou cantar. minha Senhora tão linda.

Dom Dinis. As flores do verde pinho nos barcos vão navegar. em Leiria há pinheiros a cortar. Dom Dinis. .296 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. em Leiria os pinheiros chamam o mar. As flores do verde pinho vão ao leme a comandar. em Leiria há pinheiros a plantar. As flores do verde pinho os mastros vão a enfeitar. em Leiria há pinhos a semear. Ai. Ai.) AS FLORES DO VERDE PINHO As flores do verde pinho nos navios se vão ao mar. Dom Dinis. Ai. Dom Dinis. Ai.

pena. APENAR – entristecer. COYDADO – cuidado. AQUESTA – esta. ACÁ – aqui. AZUR – azul. ARCANO – mistério. brancura. inquietação. BEN AVER – ser amado. ALEIVOSO – desleal. Ai. AI – interjeição. hão. CA – pois. ALOU-SE – voou. felicidade. AVELANEYRAS – árvores frutíferas cujos frutos são as avelãs. ANHO – carneiro. ATRISTADO – entristecido. AIRE – ar. haver. APENADO – triste. porque. BRIOSO – orgulhoso. AQUESTE – este. AMARO – amargo. AFAN – trabalho. AM – tem. AO PEE – ao pé. cá. CANDURA – pureza. AMAVIOSO – feiticeiro. vela. AL – outra coisa. CANDEA – candeia. ASPERAR – esperar. AIAR – gemer. CHORAR – lamentar. AMAVIOS – gorjeios ou filtro de amor (duplo sentido). ALONGADO – distante. . ALA – asa. ALVORES – clarões da madrugada. ANTORCHA – tocha. AVER – ter. AFAGO – agrado. ÁUGUA – água.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 297 Glossário AA – à. ATAN – tão. ANTOLLANÇA – semelhança.

perfeição. EN FORTE PONT’ EU FUI NADO – em má hora nasci.298 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. sofrimento. coberta de grãos. GRADOER – agradar. GRADO – gosto. DE PRAN – certamente. COUSIR – olhar. DOILO – dor. ou botões. COUSIDO – visto. seguramente. DIX’ – disse. END’– daí. examinar. DELGADO – esbelto. preocupação. FROR – flor. Ey. GREU – difícil. ERMIDA – capela. EXTASE – elevação espiritual. GRANADA – vermelha. êxtase. pássaro. DOO – dor. custoso. EI – v. DESVIVER – matar. agrado. elegância. FONTAINHA – fontezinha. FREMOSO – formoso. HU – onde. DOAIRO – donaire. H%A – v. FROLIDO – florido. DES – desde. FILHO-D’ALGO – fidalgo. FIN – morte. D’HONOR – de honra. DU – de onde. FOSSADO – lugar da batalha. DULTANÇA – dúvida. GUARIDO – curado. ESTORNINO – estorninho. hunha. delicado. HUNHA – uma. formoso. DONA-VIRGO – donzela.) COYTADO – angustiado. FEZO – fez. CUIDADO – espera. FERIDO – lugar onde ocorria a guerra. quando. fim. ENO – no. considerar. DONA-D’ALGO – fidalga. FONTANA – fonte. senhora nobre. EMPERO – porém. . admirado. belo. COUSENCE – censura. EY – tenho. fossado.

PEL – pele. MANSSELIA – suave. LOUÇANA – vistosa. LOAR – louvar. MENINHAS – donzelas. NOJAR – prejudicar. LEVADO – bravo. QUITAR – livrar. IMIGO – inimigo. trabalhar. POER – pôr. acordou. LEIXAR – deixar. pessoa. REN – coisa. MARTEIRO – martírio. PASSO PASSINHO – devagar e sem ruído. maneira. NULHA – nenhuma. colocar. MIRAGRE – milagre. PASSARINHA – passarinho. cultivar. LILIO – lírio. jovens de boa família. MAGOA – mácula. LEVOU-SE – levantou-se. QUEDO – quieto. LAVRAR – construir. MOYRO – morro. PODEDES – podeis. 299 . OYMAIS – de hoje em diante. REBANHO – fila. MESURA – medida. PREZ – honra. PLANGER – chorar. QUEDAR – sossegar. PERO – porém. PERA – para. LUMBROSO – luminoso.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL H%S – uns. PER – através. LONGI – longe. OME – homem. LOADO – louvado. HY – ali. cortesia. PINO – pinheiro. OO – ó. RAZOM – argumentação. LEDA – alegre. NEMBRAR – lembrar. LOOR – louvor.

VERO – verdadeiro. SIRGO – seda. critério. SE BEN AIADES – se fazeis favor SEDIA – estava SEED’ EN NEMBRADA – lembrai-vos SÉN – juízo. TAN – tanto. disciplina trovadoresca. SALUÇAR – soluçar. VILAÃO – plebeu. SENLLEIRO – sozinho. SANDEU – louco. roubar. VEGADA – vez. SA – sua. entendimento. TANJO – toco. SOO – só. SO LA – sob a. UOS – vos. depressa. antiga.300 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. prazer. TALHADO – proporcionado.) RIBA – margem. TROBAR – produção trovadoresca. VILA – cidade. SO LO – sob o. VIÇO – gozo. típica dos latinos. . TOLHER – tirar. SOBOLAS – sobre as. VAL – valei-me! VEDRA – velha. TRIGUENHA – cor de trigo. SURDE – surge. U – onde. VERRA CEDO – virá cedo. RÍVOLO – rio. SOUTO – bosque de castanheiras. VIRGEU – bosque. VIDES – videiras. U% – um. SY – si. VELIDA – formosa. logo. TOSTE – cedo.

1947. 1996. Natália. Cancioneiro da Ajuda – vol. Manuel. São Paulo: EDUSP. São Paulo: Quíron. BONFIM. Rio de Janeiro: José Olympio. JENNY. 1981. 2 vols. “A poesia brasileira contemporânea e suas raízes portuguesas”. São Paulo: Martins. 1987. e notas). Eduardo F. Mercedes (coord. Mário de. 1974. ANDRADE. HILST. Guilherme. Poemas escolhidos. 1952. Amanhecência. Rio de Janeiro: OLAC-FAE. Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Hilda. BREA. Enciclopédia de Literatura Brasileira. COUTINHO. Rio de Janeiro: Rocco. VII.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 301 Bibliografia utilizada na pesquisa pelos alunos ALMEIDA. Cantigas d’escarnho e de maldizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses. 2ª ed. António Triste. 1977. 1978. Romançário. In: Cadernos de Literatura. “Hilda Hilst. Lírica profana galego-portuguesa. LEONARDOS. 1945.). COUTINHO. Trad. COELHO.. ——— et alii. 1970. 1974. Discursos acadêmicos (1927-1932). Ed. nº 8: 19-26. Coimbra: Almedina. Coimbra: Editorial Galáxia. 2ª ed. e CARVALHAL. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. Santos: Bazar Americano. Lisboa: Estampa. Centro de Investigacións Lingüísticas e Literárias Ramón Piñeiro. FONTES. Poesia. Poesia completa e prosa. Myriam. Livraria Sá da Costa. LAPA. Laurent et alii. Poesias completas. s/d .. São Paulo: Círculo do Livro. 1994. 1937. COELI. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia. Paulo Lebéis. Maria do Amparo Tavares. Cantigas de amigo. Tânia Franco. Nelly Novaes. Stella. Poesias completas. CORREIA. Marques (pref. Literatura comparada. São Paulo: Martins. 1980. 1978. 1.. Rio de Janeiro: Aguilar. São Paulo: Livraria Martins Ed. 5º volume. 2 vols. Rio de Janeiro: Empresa Editora ABC Ltda. 1980. Vol.1996. 1928. Lisboa. Toda a poesia. Manuel Rodrigues. 1990. textos fundadores. BANDEIRA. ______. leitora dos trovadores . crítica de Diléa Zanotto Manfio. Brasília: INL. Intertextualidades. BRAGA. Afrânio. Natal: Clima. Brasília: Instituto Nacional do Livro / MEC. MALEVAL. Martins. de Clara Crabbé Rocha. Cantares dos trovadores galego-portugueses. ______. Belo Horizonte: Itatiaia..

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