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Uma Delegação de Sindicalistas Portugueses deve estar representada

na Conferência Operária Europeia de Fevereiro de 2009

Isabel Pires, membro da Direcção do SPGL, declara em entrevista para o


semanário francês “Informations Ouvrières”:

A luta dos professores diz respeito a toda a sociedade portuguesa

Pergunta: Tu és dirigente do maior sindicato dos professores portugueses – o


Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL), membro também da
principal Federação sindical de professores (a FENPROF) – e tens estado, com
todo o sindicato, no centro da luta e da mobilização histórica dos professores
portugueses. Consideras que esta luta diz apenas diz respeito aos professores,
como o Governo afirma a cada momento, para afirmar que as suas reformas
não podem estar dependentes de uma corporação?

Isabel Pires (IP): Essa afirmação do governo Sócrates é um disco riscado, tal
como o da Ministra da Educação que afirmava despudoradamente: “Perdi os
professores, mas ganhei o país”.

A mobilização massiva dos professores e educadores, fechando as escolas por


inteiro, ou a 95%, e as suas declarações, tal como a de toda a Plataforma
sindical, é a de que estão a defender a Escola Pública. Como é dito em
múltiplas faixas: “Assim não se pode ensinar! Deixem-nos ser
professores”.

Quem está numa escola sabe que o nosso trabalho é preparar aulas, estudar,
ensinar, avaliar e ajustar, a cada momento, as respostas que considerarmos
mais adequadas para os nossos alunos. Isto implica tranquilidade, trabalho de
equipa, implica mais professores, nomeadamente no ensino especial, implica
que os professores tenham mais autonomia e vivência democrática.

Todas as “reformas” que este Governo tem procurado impor em relação ao


ensino, e, em particular, contra os professores, são medidas economicistas que
levam ao desmantelamento da Escola Pública e à privatização da educação,
possibilitando só às famílias com melhores capacidades económicas o acesso a
um Ensino de qualidade, e as famílias sem capacidade económica e
socialmente mais fragilizadas ficam sem possibilidade de escolher uma boa
escola para os seus filhos.

Em relação ao novo modelo de Gestão, dos Directores/Reitores, acaba com a


vida democrática nas escolas. Este novo paradigma apresenta sérios riscos, os
quais é importante que os Pais e a população se apercebam. Uma escola
fechada em si própria, a uma única voz, onde as vozes dos interessados não
contam. Torna-se numa escola descontextualizada, no tempo e no espaço, feita
por e para mentes acríticas, formando jovens acríticos.

Mas os professores estão vigilantes e conscientes; por isso, a negação desse


tipo de modelo de Gestão faz parte das suas reivindicações.

Outro projecto do Governo será a Municipalização da Educação, com o qual


também não estamos de acordo. O Sistema Educativo terá que ser nacional,
respeitando as especificidades locais, mas nunca entregue a pequenos poderes
com abertura para desigualdade de procedimentos.

A nossa luta é não permitir esta destruição, o que passa pela suspensão desta
avaliação do Desempenho docente – que, aliás, grande parte das escolas já
suspendeu, respondendo ao apelo da Plataforma sindical, feito na
manifestação dos 120 mil – pela exigência de um Estatuto da carreira docente
sem a divisão dos professores em categorias, sem provas de ingresso na
carreira, por um sistema de avaliação dos docentes baseado na componente
científico-pedagógica, sem quotas, formativa e não feita na secretaria,
destinado a melhorar a prática de cada professor e a qualidade de ensino e
elevar os padrões de qualidade de cada Escola.

Travar e ganhar esta batalha é garantir uma Escola Pública para todos, tal
como está consignada na Constituição Portuguesa.

Pergunta: Consideras que esta ofensiva do governo ultrapassa o âmbito


nacional?

IP: Trata-se de uma ofensiva da União Europeia, cujo carácter visa


essencialmente reduzir os encargos com as funções sociais do Estado, onde a
Escola Pública está incluída.

O congelamento da progressão na carreira foi imposto aos professores e a


todos os funcionários públicos, durante28 meses, tal como a divisão dos
professores em “titulares” e “professores”, para que dois terços não passem do
meio da carreira, visam essencialmente cumprir o Pacto de Estabilidade da UE
(PEC).

São medidas que ficam contidas na própria lei do Orçamento de Estado, para
respeitar os compromissos com Bruxelas.

Penso também que não podem deixar ficar para segundo plano a perda do
vínculo ao Estado dos funcionários públicos. É preciso lembrar que os
professores, a partir de Janeiro, com a nova lei da contratação para a Função
pública, deixam de ser funcionário público, tal como de todos os outros
trabalhadores da Função Pública. Só os lugares de topo dos corpos especiais –
Justiça, Segurança e Defesa e Corpo Diplomático – manterão o vínculo ao
Estado. Todos os outros, até agora efectivos, passarão a ter um contrato de
trabalho sem termo e os restantes, que eram trabalhadores sem vínculo ao
Estado, passam a ter um contrato com termo. Com esta perdemos uma série
de direitos adquiridos e perdemos estabilidade laboral.

Os mesmos critérios economicistas, impostos por Bruxelas, levaram o Governo


a encerrar milhar de escolas e outros serviços do Estado, no quadro da
aplicação do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado
(PRACE), um programa que visa cortar um terço dos serviços centrais do
Estado. As populações ficam sem escolas, serviços de saúde de proximidade,
esquadras da polícia, tribunais, etc. Em relação às escolas estão concentradas
em megas agrupamentos, obrigando as crianças a deslocar-se muitos
quilómetros. Portugal está a ficar descaracterizado, com regiões inteiras
desertificadas, com população muito envelhecida, sem produção agrícola nem
industrial, sem serviços públicos, sem população activa. No entanto numa
pequena faixa litoral concentra-se toda a população, com problemas de
urbanismo, e todos os problemas que daí resultam.

Ao mesmo tempo que impõem estas medidas para liquidar os serviços


públicos, atacam o Código laboral de todos os trabalhadores. Foi por isso que a
CGTP organizou manifestações massivas, 200 mil diante da Cimeira dos Chefes
de Estado e de Governo da UE, em Outubro de 2007. Os trabalhadores
portugueses não aceitam a flexigurança nem a destruição da contratação
colectiva, que também vem de Bruxelas. Mas nada aconteceu.

Pergunta: Sendo estes ataques programados a partir das instituições da UE –


logo, levados à pratica também nos outros países, mesmo se provavelmente
com formas diferenciadas – não consideras que poderia haver uma procura de
respostas em comum?

IP: Deveríamos caminhar para uma procura de soluções conjuntas.


Obviamente que cada país tem as suas próprias características, as lutas dos
seus trabalhadores organizam-se de acordo com a sua própria cultura política e
organizativa. Mas isso não significa que os trabalhadores – e, em especial, os
seus dirigentes sindicais – não procurem encontrar-se para conseguirem
delinear estratégias de acção comuns capazes de derrotar estes planos anti
sociais, saídos da UE.

Alias, nós precisamos de uma outra União Europeia, uma verdadeira União na
qual os governos de cada país possam acordar políticas de cooperação e de
troca, sobre a base da soberania de cada povo. Isso não tem nada a ver com a
União Europeia dos banqueiros e dos grandes capitalistas, que é esta da qual é
preciso sair.

Pergunta: O que pensas do plano de salvamento do capital financeiro?

IP: O objectivo deste plano é salvar e estabilizar os mercados financeiros, com


o nosso dinheiro, o dinheiro dos impostos. Com a agravante que eles apenas
estão a tomar medidas a prazo. Estão apenas a adiar a falência e a derrocada
de um sistema. Veja-se como está Portugal, com estas medidas.

É preciso um plano de socialização dos meios de produção, para começar a pôr


todas as riquezas ao serviço do Homem.

Chegámos a um estádio de desenvolvimento científico e tecnológico que


permitiria resolver os problemas de toda a Humanidade. É um estádio de
desenvolvimento que, logicamente, deveria colocar o homem no centro. Mas,
paradoxalmente, tudo é ao contrário. Em vez de o Homem estar no centro,
está a defesa de um sistema que utiliza exactamente todo esse progresso
científico e tecnológico para nos explorar ainda mais, para nos escravizar, ou
pôr-nos a competir com a escravatura.

É um paradoxo falar na “Sociedade do Conhecimento” e ao mesmo tempo, as


“reformas” dos governos servirem não para aumentar o conhecimento das
jovens gerações, mas para os analfabetizar, que é o que o Governo está a fazer
à Escola Portuguesa.

É urgente parar e pensar na gravidade de tudo isto!

Pergunta: Tu subscreveste o apoio à delegação de sindicalistas europeus que


foi recebida por um representante do Comissário europeu para o Emprego, os
Assuntos Sociais e a Igualdade de Oportunidades, visando exigir a anulação
das sentenças do Tribunal Europeu de Justiça, tomadas contra os sindicatos da
Finlândia, Suécia e um Land da Alemanha, porque estes impuseram o
cumprimento das prerrogativas contidas nos contratos colectivos de trabalho
dos sectores de trabalhadores dos seus países . Este representante da
Comissão europeia respondeu à delegação que não poderia alterar aquelas
sentenças, aliás tomadas com base nos Tratados que regem que a UE.

No seguimento dos passos que já foram dados eles apelam, em conjunto com o
Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos (AIT), a uma Conferência
Europeia, a realizar nos dias 6 e 7 de Fevereiro, em Paris, pela revogação
dessas sentenças, afirmando que não admitem que leis supranacionais se
imponham às leis nacionais, revogando direitos conseguidos com a luta dos
trabalhadores de cada país.

Estás de acordo com esta iniciativa?

IP: Estou de acordo. Numa altura em que os grandes que mandam no mundo
se reúnem para procurarem as melhores maneiras de manterem o seu
domínio, os trabalhadores e os povos também se devem encontrar, para lhes
responder.

Considero que, na Conferência de Paris, deverão estar representados


sindicalistas portugueses. Se for necessário, se for considerada a pessoa
indicada e me for possível estarei disponível para participar nela.