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PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Luiz Inácio Lula da Silva

MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Fernando Haddad

GOVERNADOR DO ESTADO
Wellington Dias

REITOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ


Luiz de Sousa Santos Júnior

SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DO PIAUÍ


Antonio José Medeiros

SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA DO MEC


Carlos Eduardo Bielschowsky

DIRETOR DE POLITICAS PUBLICAS PARA EaD


Hélio Chaves

COORDENADORIA GERAL DA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL


Celso Costa

COORDENADOR GERAL DO CENTRO DE EDUCAÇÃO ABERTA A


DISTÂNCIA DA UFPI
Gildásio Guedes Fernandes

SUPERITENDÊNTE DE EDUCAÇÃO SUPERIOR NO ESTADO


Eliane Mendonça

DIRETOR DO CENTRO
Helder Nunes da Cunha

COORDENADOR DO CURSO NA MODALIDADE EAD


João Benício de Melo Neto

CHEFE DO DEPARTAMENTO
Jurandir de Oliveira Lopes

COODENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO DO CEAD/UFPI


Cleidinalva Maria Barbosa Oliveira

EQUIPE DE APOIO

Copyright © 2008. Todos os direitos desta edição estão reservados à Universidade Federal do
Piauí (UFPI). Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada, por qualquer
meio eletrônico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização, por escrito, do autor.

XXXX Lopes, J. de Oliveira


Fundamentos da Matemática Elementar /Jurandir de Oliveira
Lopes – Teresina: UFPI/UAPI
2008.
PRESIDENTE DA REPÚBLICA
72p.

Incluir bibliografia

1 – xx
Luiz Inácio Lula da Silva

MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Fernando Haddad

GOVERNADOR DO ESTADO
Wellington Dias

REITOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ


Luiz de Sousa Santos Júnior

SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA DO MEC


Carlos Eduardo Bielschowsky

COORDENADORIA GERAL DA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL


Celso Costa

SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DO PIAUÍ


Antonio José Medeiros

COORDENADOR GERAL DO CENTRO DE EDUCAÇÃO ABERTA A


DISTÂNCIA DA UFPI
Gildásio Guedes Fernandes

SUPERITENDÊNTE DE EDUCAÇÃO SUPERIOR NO ESTADO


Eliane Mendonça

DIRETOR DO CENTRO DE CIÊNCIAS DA NATUREZA


Helder Nunes da Cunha

COORDENADOR DO CURSO DE MATEMÁTICA NA MODALIDADE EAD


João Benício de Melo Neto

COODENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO DO CEAD/UFPI


Cleidinalva Maria Barbosa Oliveira

DIAGRAMAÇÃO
João Paulo Barros Bem
Joaquim Carvalho de Aguiar Neto

L864f Lopes, J. de Oliveira


Fundamentos da Matemática Elementar /Jurandir de Oliveira
Lopes – Teresina: UFPI/UAPI, 2008
72p

1.Matemática. 2.Universidade Aberta do Piauí. I.Titulo.

C.D.D.- 510

2
APRESENTAÇÃO

Este texto destina-se aos estudantes que participam do


programa de Educação a Distância da Universidade Aberta do
Piauí (UAPI) vinculada ao consórcio formado pela Universidade
Federal do Piauí (UFPI), Universidade Estadual do Piauí
(UESPI) e Centro Federal de Ensino Tecnológico do Piauí
(CEFET-PI), com apoio do Governo do Estado do Piauí,
através da Secretaria Estadual de Educação.

O texto é composto de IV unidades, contendo itens que


discorrem sobre os conjuntos numéricos, dando ênfase as suas
propriedades e resultados, que são relevantes para um bom
embasamento para o estudo da matemática. A ordem dos
conteúdos é seguinte: Na unidade 1, estudaremos o conjunto
números naturais, na unidade 2, estudaremos o conjunto
números inteiros, na Unidade 3, estudaremos o conjunto
números racionais e na Unidade 4, estudaremos o conjunto
números reais. A construção lógico formal dos conjuntos
numéricos será feita nos apêndices I, II, III e IV.
.
SUMÁRIO GERAL

UNIDADE 1: Conjunto dos Números Naturais


1.1 Introdução
1.2 Princípio da Indução Matemática
1.3 Operações: Adição e multiplicação
1.4 Relação de ordem
1.5 Princípio da Boa Ordem

UNIDADE 2: Conjunto dos Números Inteiros


2.1 Introdução
2.2 Operações: Adição e Multiplicação
2.3 Relação de Ordem
2.4 Valor Absoluto ou Módulo
2.5 Princípio do Menor Inteiro
2.6 Princípio da Indução Matemática em Z
2.7 Múltiplos e Divisores
2.8 Máximo Divisor Comum
2.9 Números Primos
2.10 Mínimo Múltiplo Comum

UNIDADE 3: Conjunto dos Números Racionais


3.1.Introdução
3.2.Operações: Adição e Multiplicação
3.3 Relação de Ordem
3.4 Valor Absoluto ou Módulo

UNIDADE 4: Conjunto dos Números reais


4.1Introdução
4.2 Operações: Adição e Multiplicação
4.3 Relação de Ordem
4.4 Valor Absoluto ou Módulo
4.5 Representação Decimal

Apêndice I

Apêndice II

Apêndice III

Apêndice IV

4
5
SUMÁRIO

UNIDADE 1: Conjunto dos Números Naturais

1.1 Introdução

1.2 Princípio da Indução Matemática

1.3 Operações: Adição e multiplicação

1. 4 Relação de ordem

1.5 Princípio da Boa Ordem

Exercícios

6
1 CONJUNTO DOS NÚMEROS NATURAIS

1.1 Introdução
Mais informações sobre
Os números naturais foram os primeiros a serem o conjunto dos números
naturais pode ser
criados, com intuito de contar. Mas, afinal, o que é o conjunto encontrado em:
1) www.educ.fc.u
N dos números naturais? l.pt/docentes/o
pombo/semin
Bem, podemos intuitivamente escrevê-lo dizendo quais ario/fregeruss
el/peano.htm
são seus elementos: eles são os números da forma. 2) www.obm.org.
1,2 = 1 + 1,3 = 2 + 1,4 + 3 = 1,...n = (n − 1) + 1 , ou seja, br/eureka/artig
os/inducao.d
N = {1,2,3,4,⋅ ⋅ ⋅, n,⋅ ⋅ ⋅} oc

Ocorre, porém, que dificilmente poderemos provar


algumas propriedades desses números utilizando apenas esta
descrição, pois apesar de sabermos intuitivamente quais são
esses números que acima representa, teríamos dificuldade de
descrevê-lo de modo suficientemente explícito.
Uma maneira consiste em dar uma propriedade que
caracterizem de modo único o conjunto dos números naturais.

1.2 Princípio da Indução Matemática

A propriedade que vamos anunciar é chamada de Princípio da


Indução Matemática. Mais precisamente:
Princípio da Indução Matemática. Seja X um subconjunto
dos números naturais (ou seja, X ⊂ N ) tais que:
i) 1 ∈ X ;
ii) Se n ∈ X ⇒ n + 1 ∈ X ;
Então X = N .
Essa simples propriedade fornece uma das mais poderosas
ferramentas de demonstração Matemática: A demonstração
por indução.
Suponha que seja dada uma sentença matemática P(n)
associada a cada n natural, a qual se torna verdadeira um falsa
quando substituímos por n . Mais adiante citaremos alguns
7
exemplos de sentenças abertas definidas sobre o conjunto dos
naturais.
Agora anunciaremos um resultado suma importância para
Matemática e, por conseguinte definir a soma e multiplicação
em N .
Teorema 1.1 (Prova por indução matemática). Seja a P(n)
sentença aberta sobre N . Suponha que:
i) P(1) é verdadeira, e.
ii) Se a validez de P(n) implicar na validez de P(n + 1)
Então P(n) é válida para todo o conjunto números
naturais.
Demonstração: Considere o seguinte conjunto
X = {n ∈ N P (n) é verdadeira }
1 ∈ X , pois P(1) é verdadeira. Suponha agora que n ∈ X , isto é,
P(n) é verdadeira, com isto garantimos a validez de P(n + 1) ,
logo n + 1 ∈ X . Assim pelo Princípio da indução matemática
temos que X = N , portanto P(n) é válida para todo o conjunto
números naturais. C.Q.D.

1.3 Adição e Multiplicação

No conjunto dos números naturais estão definidas duas


operações fundamentais:
a) Adição: Dados n, m ∈ N fazem corresponder à soma
m+ n∈ N
b) Multiplicação: Dados n, m ∈ N fazem corresponder à
soma mn ∈ N

Justificaremos a boa definição através da indução sobre n :


a) Adição: P(1) : Assim dados 1, m ∈ N é claro que m + 1 ∈ N
, logo P(1) é válida.
Suponhamos válida P(n) , ou seja, dados n, m ∈ N temos que
m. + n ∈ N .

8
Agora provaremos validez de P(n + 1) : De fato, dados
n + 1, m ∈ N temos que m. + n + 1 ∈ N , pois m. + n + 1 = (m + n) + 1 ,
e por hipótese m. + n ∈ N e daí (m + n) + 1 ∈ N .
b) Multiplicação: Exercício a cargo do leitor.

As operações acima gozam das propriedades: Associativa,


comutativa e distributiva. E que as mesmas podem ser
demonstradas por indução.
Considere alguns exemplos de sentenças abertas definidas
sobre N :
a) P(n) : 2(1 + 2 + 3 + L + n) = n(n + 1) , para todo n ∈ N .
P(1) : 2.1 = 1(1 + 1) ⇔ 2 = 2 , é verdade.
Suponhamos válida P(n) , ou seja,
2(1 + 2 + 3 + L + n) = n(n + 1) Hipótese de Indução (H.I)
Provaremos validez P(n + 1) , isto é.
2(1 + 2 + 3 + L + n + n + 1) = (n + 1)(n + 2) (Tese)
Com efeito: Temos que
2(1 + 2 + 3 + L + n + n + 1) = 2(1 + 2 + 3 + L + n) + 2(n + 1)
= 2(n + 1) + 2(n + 1)
= (n + 1)(n + 2) .
Portanto a sentença P(n) é valida para todo n ∈ N .

b) P(n) : n = n 2

P(1) : 1 = 12 ⇔ 1 = 1 , é verdade. Poderíamos agora supor válida

P(n) , mas fácil vê que P(2) : 2 ≠ 2 2 ⇔ 2 ≠ 4 é falsa. Portanto,


vimos que a sentença não é válida para todo n ∈ N .

c) P(n) : 6(12 + 2 2 + 32 + L + n 2 ) = n(n + 1)(2n + 1) , para todo


n∈ N .
P(1) : 6.1 = 1(1 + 1)(2.1 + 1) ⇔ 6 = 6 , é verdade.
Suponhamos válida P(n) , ou seja,

9
6(12 + 2 2 + 3 2 + L + n 2 ) = n(n + 1)(2n + 1) Hipótese de Indução
(H.I)
Provaremos validez P(n + 1) , isto é.

6[12 + 2 2 + 3 2 + L + n 2 + (n + 1) 2 ] = (n + 1)(n + 2)(2n + 3) (Tese)


Com efeito: Temos que

6[12 + 2 2 + 3 2 + L + n 2 + (n + 1) 2 ] = 6(12 + 2 2 + 3 2 + L + n 2 ) + 6(n + 1) 2

= n(n + 1)(2n + 1) + 6(n + 1) 2


= (n + 1)[n(2n + 1) + 6(n + 1)]

= (n + 1)(n + 2)(2n + 3)
Portanto a sentença P(n) é valida para todo n ∈ N .

1.4 Relação de Ordem

Faz-se necessário introduzir uma relação de ordem nos


conjuntos dos números naturais.

Definição: Dados n, m ∈ N dizem que m é menor do que n (e


escreve-se).
m < n () se existe r ∈ N tal que n = m + r .
A relação de ordem m < n goza das seguintes propriedades:
a) Transitividade: Se m < n e n < p então m < p .
b) Tricotomia: Dados n, m ∈ N , só podem ocorrer uma, e
somente uma das alternativas: m = n , m < n ou n < m .
c) Monotonicidade: Se m < n então, para todo r ∈ N , tem-se.
m + r < n + r e m.r < n.r .
Mostraremos que as três propriedades são satisfeitas:
a) : Se m < n e n < p então existem r1 , r2 ∈ N tais que
n = m + r1 .e p = n + r2 . Assim p = m + r1 + r2 , sendo que

r1 + r2 ∈ N , segue-se que m < p .

10
b) Dados n, m ∈ N têm que m = n , do contrário, existe
r ∈ N tal que n = m + r ou não existe, assim m < n ou
n < m.
c) Exercício a cargo do leitor.
Dizemos que m menor ou igual do que n (e escreve-se m ≤ n )
se m = n ou m < n .
Algumas sentenças abertas estão associadas para n ∈ N tal
que n ≥ a para algum a ∈ N . Assim para esse tipo de sentenças
temos o seguinte resultado

Teorema 1.2 (Prova por indução matemática). Seja a P(n)


sentença aberta para todo n ≥ a , com a ∈ N . Suponha que:
i) P(a) é verdadeira, e.
ii) Se a validez de P(n) implicar na validez de P(n + 1) ,
para n ≥ a
Então P(n) é válida para todo número natural n ≥ a .

Demonstração: Considere o seguinte conjunto


X = {m ∈ N P ( n = m + a − 1) é verdadeira }
1 ∈ X , pois P(a) é verdadeira. Suponha agora que m ∈ X , isto
é, P(n = m + a − 1) é verdadeira, com isto garantimos a validez
de P(n + 1 = m + 1 + a − 1) para n ≥ a , logo m + 1 ∈ X . Assim pelo
Princípio da indução matemática temos que X = N , assim
m ≥ 1 ⇒ m + a ≥ a + 1 ⇒ n = m + a − 1 ≥ a . Portanto P(n) é válida
para todo n ≥ a . C.Q.D.
Exemplos:
a) P(n) : 2n + 1 ≤ n 2 , para todo n ≥ 3 .

P(3) : 2.3 + 1 ≤ 2 3 ⇔ 7 ≤ 8 , é verdade.


Suponhamos válida P(n) , ou seja,

2n + 1 ≤ n 2 , para todo n ≥ 3 . (H.I)


Provaremos validez P(n + 1) , isto é.

11
2(n + 1) + 1 ≤ (n + 1) 2 , para todo n ≥ 3 . (Tese)
Com efeito: Temos que
2(n + 1) + 1 = 2n + 1 + 2 ≤ n 2 + 2 . Aceitando o fato de que
2 ≤ 2n + 1 , logo
2(n + 1) + 1 ≤ n 2 + 2 ≤ n 2 + 2n + 1 = (n = 1) 2 .

Portanto a sentença P(n) é valida para todo n ≥ 3 .

b) P(n) : 2n 2 > (n + 1) 2 , para todo n ≥ 3 .

P(3) : 2.3 2 > (3 + 1) 2 ⇔ 18 > 16 , é verdade.


Suponhamos válida P(n) , ou seja,

2n 2 > (n + 1) 2 , para todo n ≥ 3 . (H.I)


Provaremos validez P(n + 1) , isto é.

2(n + 1) 2 > (n + 2) 2 , para todo n ≥ 3 . (Tese)


Com efeito: Temos que
2(n + 1) 2 = 2(n 2 + 2n + 1) = 2n 2 + 4n + 2 . Por hipótese

2n 2 > (n + 1) 2 , assim

2(n + 1) 2 > (n + 1) 2 + 4n + 2 = n 2 + 6n + 3 . Aceitando o fato de que


6 n + 3 > 4 n + 4 , temos que
2(n + 1) 2 > n 2 + 6n + 3 > n 2 + 4n + 4 = (n + 2) 2 .

Portanto a sentença P(n) é valida para todo n ≥ 3 .

Teorema 1.3 (Princípio da Boa Ordem). Todo subconjunto não


vazio X ⊂ N possui um menor elemento, isto é, existe a ∈ X ,
tal que a ≤ x ∀x ∈ X .

Demonstração: Segue-se do Princípio da indução matemática


(Vide, por exemplo, LIMA, E. L. “Análise Real”, Vol. 1 .).
C.Q.D.
Demonstra-se também o Princípio da indução matemática
através do Princípio da Boa Ordem.

12
EXERCÍCIOS

1. 13 + 23 + 33 + ... + n 3 = (n 2/4).(n +1)2, ∀ n ≥ 1

2. 1 + 4 + 7 + ... + (3 n -2) = (n /2).(3 n -1), ∀ n ≥ 1

3. 13 + 33 + 53 + ... + (2 n -1)3 = n 2(2 n 2-1), ∀ n ≥ 1

4. 1.1! + 2.2! + 3.3! + ... + n. n! = (n + 1)! - 1, ∀ n ≥ 1

5. 2n > n 2, ∀ n > 4;

6. 2n > n 3, ∀ n ≥ 10;

7. n! > 3n, ∀ n ≥ 7.

8. 1 ⋅ 2 ⋅ 3 + 2 ⋅ 3 ⋅ 4 + 3 ⋅ 4 ⋅ 5 + ... + n(n + 1)(n + 2)


n(n + 1)(n + 2)(n + 3)
= , n ≥ 1.
4
1 1 1 1 n
9. + + + ... + = , n ≥ 1.
1⋅ 3 3 ⋅ 5 5 ⋅ 7 (2n − 1)(2n + 1) 2n + 1

10. Se m ≤ n e n ≤ m , prove que m = n .

11. Seja A = {x ∈ N | n < x < n + 1} com n ∈ N . Prove que A é


vazio.

13
14
SUMÁRIO

UNIDADE 2: Conjunto dos números inteiros

2.1 Introdução
2.2 Operações: Adição, Subtração e Multiplicação
2.3 Relação de Ordem

2.4 Valor Absoluto ou Módulo

2.5 Princípio do menor inteiro

2.6 Princípio da Indução matemática em Z

2.7 Múltiplos e Divisores.

2.8 Máximo divisor Comum

2.9 Números Primos

2.10 Mínimo múltiplo comum

15
2 CONJUNTO DOS NÚMEROS INTEIROS

2.1 Introdução
Saiba mais em:
1) www.brasi
Definimos o conjunto dos números inteiros como a reunião do
lescola.co
m/matema conjunto dos números naturais, o conjunto dos opostos dos
tica/nume números naturais e o “zero”, cujo símbolo é 0 . Este conjunto é
ros- denotado pela letra Z (Zahlen=número em alemão). Este
inteiros.ht conjunto é definido por:
m
2) www.testo
nline.com. Z = {0,±1,±2,±3,±4,⋅ ⋅ ⋅,± n,⋅ ⋅ ⋅} = {⋅ ⋅ ⋅,−4,−3,−2,−1,0,+1,+2., +3,+4,⋅ ⋅ ⋅}
br/curprim
os.htm Inteiros podem ser adicionados ou subtraídos, multiplicados e
comparados. A principal razão para a existência dos números
negativos é que tornou possível resolver todas as equações da
forma:a + x = b para a incógnita x; nos números naturais
apenas algumas destas equações eram solúveis.

Como foi definido o conjunto dos números inteiros, é óbvio que


N ⊂ Z . A construção lógico formal dos números inteiros é feita
no apêndice I.

2.2 Adição e Multiplicação

No conjunto dos números inteiros estão definidas as operações


adição e multiplicação as quais gozam das seguintes
propriedades que serão aceitas como verdades (axiomas).
Dados quaisquer a, b, c ∈ Z , temos:
1. Adição
a) a + (b + c) = (a + b) + c (associativa)
b) a + b = b + a (comutativa)
c) a + 0 = a ( 0 é elemento neutro da adição )
d) a + (−a) = 0 ( − a é elemento simétrico da adição)
2. Multlipicação
a) a(bc) = (ab)c (associativa)
b) ab = ba (comutativa)
c) a1 = a ( 1 é elemento neutro da adição )

16
d) ab = 0 ⇒ a = 0 ou b = 0 (lei do anulamento do produto)
e) ab = 1 ⇒ a = ±1 e b = ±1
f) a(b + c) = ab + ac (a multiplicação é distributiva em
relação à adição)
O conjunto que satisfaz as propriedades acima citada é
chamado de anel de integridade. Portanto o conjunto dos
números inteiros munidos da operação soma e
multiplicação é um anel de integridade.
Exemplo: Mostre que não existe a ∈ Z tal que a 2 − a = 1 . De
fato, de a 2 − a = 1 ⇒ a (a − 1) = 1 , por e) temos que a = ±1 e
a − 1 = ±1 , das duas equações conclui-se não pode existir
a∈Z .

1.4. Relação de Ordem em Z


A relação de ordem dos inteiros segue de maneira similar ao
do conjunto dos números naturais.

Definição: : Dados n, m ∈ Z dizemos que m é menor do que n


(e escreve-se

m < n ) se existe r ∈ N tal que n = m + r .


Exemplo: − 3 < 10 , pois 10 = −3 + 13 e − 7 < −2 , pois
− 2 = −7 + 5
A relação de ordem m < n goza das seguintes propriedades:
a) Transitividade: Se m < n e n < p então m < p .
b) Tricotomia: Dados n, m ∈ N , só pode ocorrer uma, e somente
uma das alternativas: m = n , m < n ou n < m .
c) Monotonicidade: Se m < n então, para todo p ∈ N , tem-se
m + p < n + p e mp < np .
Demonstraremos a validez das três propriedades. Como já
foram provados os itens a) e b) na unidade anterior, faremos à
apenas a demonstração do item c).

17
Se m < n , existe r ∈ N tal que n = m + r , assim para todo
p ∈ N , tem-se n + p = m + p + r e np = mp + rp o que implica em
m + p < n + p e mp < np . C.Q.D.
Podemos também trabalhar com seguinte relação de ordem:
Dados n, m ∈ Z dizemos que m é menor ou igual do que n (e
escreve-se: m ≤ n ) se existe r ∈ N ∪ {0} tal que n = m + r .
Com essa relação de ordem é fácil verificar as seguintes
propriedades
a) Reflexiva: a ≤ a ∀a ∈ Z .
b) Anti-simétrica: Se m ≤ n e n ≤ m então m = n .
c) Transitividade: Se m ≤ n e n ≤ p então m ≤ p .
Com relação < valem as seguintes regras de sinais:
i) Se 0 < n e 0 < m então 0 < mn .
ii) Se 0 < n e m < 0 então mn < 0 .
iii) Se n < 0 e m < 0 então 0 < mn .
Isto é verdade devido o fato de que o produto de dois naturais
ainda ser um número natural .

2.4 Valor absoluto ou módulo

Definição: Para todo a ∈ Z , o valor absoluto ou módulo de a


(notação: a ) é definido por:

a = a se a ≥ 0 e a = − a se a < 0 .

Exemplos: 4 = 4 , pois 4 ≥ 0 ; − 1 = − ( −1) = 1 , pois − 1 < 0 .

Proposição 2.1 Seja a, b ∈ Z , então vale as seguintes


propriedades:
a) − a ≤ a ≤ a ;

b) ab = a b ;

c) a + b ≤ a + b .

18
Demonstração: a) Se a ≥ 0 ⇒ a = a ⇒ − a ≤ − a ≤ a ≤ a , e

a < 0 ⇒ a = − a ⇒ − a ≤ a ≤ − a ≤ a . Então vale sempre que

− a ≤a≤ a .

b) Se a, b ≥ 0 ⇒ ab ≥ 0 ⇒ ab = ab = a b ; se a ≥ 0 e b < 0 , temos

que ab ≤ 0 ⇒ ab = − ab = a ( −b ) = a b ; caso análogo para a < 0

e b ≥ 0 . Agora se a < 0 e b < 0 , temos que


ab > 0 ⇒ ab = ab = ( − a )( −b ) = a b . Portanto vale sempre que

ab = a b ;

c) Por a) temos que − a ≤ a ≤ a e − b ≤ b ≤ b , somando as

duas desigualdades temos


− ( a + b ) ≤ a + b ≤ a + b , com isto

a + b ≤ a + b e − (a + b) ≤ a + b .

Se a + b ≥ 0 ⇒ a + b = a + b ≤ a + b . Agora Se

a + b < 0 ⇒ a + b = −( a + b) ≤ a + b . Portanto, em ambos os

casos obtemos que a + b ≤ a + b .

Exemplo: 1) Resolva a equação a + 1 = 2 .

Solução: Da definição, temos que a + 1 = 2 ⇒ a = 2 − 1 ⇒ a = 1


ou − (a + 1) = 2 ⇒ a + 1 = −2 ⇒ a = −2 − 1 ⇒ a = −3 . Portanto o
conjunto solução é dado por S = {1,−3}.

2) Resolva a desigualdade a − 1 < 2 .

Solução: Da definição, temos que a − 1 < 2 ⇒ a < 2 + 1 ⇒ a < 3


ou − (a − 1) < 2 ⇒ a − 1 > −2 ⇒ a > −2 + 1 ⇒ a > −1 . Portanto o
conjunto solução é dado por S = {a ∈ Z | −1 < a < 3}.

3) Resolva a desigualdade − a + 3 ≥ 5 .

Solução: Da definição, temos que


− a + 3 ≥ 5 ⇒ − a ≥ 5 − 3 ⇒ − a ≥ 2 ⇒ a ≤ −2 ou
− (−a + 3) ≥ 5 ⇒ a − 3 ≥ 5 ⇒ a ≥ 5 + 3 ⇒ a ≥ 8 . Portanto o conjunto
solução é dado por S = {a ∈ Z | a ≤ −2 ou a ≥ 8}.

19
4) Prove que a − b ≤ a + b .

Solução: a − b = a + ( −b) ≤ a + − b = a + − 1 b = a + b .

2.5 Princípio do menor inteiro

Definição: Um subconjunto A não vazio de Z é dito limitado


inferiormente de existe a ∈ Z tal que a ≤ x , ∀x ∈ A .
Exemplo: A = {−2,−1,0,1,2,3K} , neste caso podemos ter
a = K,−4,−3,−2.
Axioma (Princípio do menor inteiro): Se A é subconjunto não
vazio de Z limitado inferiormente, então existe m0 ∈ A tal que

m 0 ≤ x , ∀x ∈ A .

É fácil verificar que m 0 é único, que é chamado de mínimo.

No exemplo anterior, temos que m0 = −2

2.6 Princípio de Indução em Z

Anunciaremos dois princípio de indução, cuja as


demonstrações são relativamente fácil de provar, partindo do
pressuposto (axioma) acima.

Teorema 2.1 (Primeiro princípio de indução). Seja a P(n)


sentença aberta sobre n ≥ a com n ∈ Z . Seja a ∈ Z e suponha
que:
i) P(a) é verdadeira, e
ii) Se a validez de P(n) implicar na validez de P(n + 1) ,
para n ≥ a
Então P(n) é válida para todo número inteiro n ≥ a .

Demonstração: A demonstração é similar do Teorema que


anunciaremos a seguir.

Teorema 2.2 (Prova por indução matemática). Seja a P(n)


sentença aberta sobre Z . Seja a ∈ Z e suponha que:

20
i) P(a) é verdadeira, e
ii) Dado r > a , se P(n) é verdadeira para todo k tal
que a ≤ k < r , então P(r ) é verdadeira.

Demonstração: Considere o seguinte conjunto


A = {n ∈ Z a ≤ n e P(n) é falsa }.
Mostraremos que A é vazio. Suponha que A não seja vazio,
como A limitado inferiormente, então existe m0 ∈ A tal que

m0 ≤ x , ∀x ∈ A . Por i) m0 ≠ a , e sendo m 0 o mínimo de A ,

então P(n) é verdadeira para todo n tal que a ≤ n < m0 . Assim

por ii) podemos concluir que P ( m0 ) é verdadeira. Absurdo,

portanto A é vazio. C.Q.D.

Exemplo:
P(n) : n + 1 ≤ 2 n , para todo n ≥ 0 .

P(0) : 0 + 1 ≤ 2 0 ⇔ 1 ≤ 1 , é verdade.
Suponhamos válida P(n) , ou seja

n + 1 ≤ 2 n , para todo n ≥ 0 . (H.I)


Provaremos validez P(n + 1) , isto é

( n + 1) + 1 ≤ 2 n +1 , para todo n ≥ 0 . (Tese)


Com efeito: Temos que
(n + 1) + 1 ≤ 2 n + 1 . Aceitando o fato de que 0 ≤ n , temos

(n + 1) + 1 ≤ 2 n + 1 + n ≤ 2 n + 2 n = 2 n +1.
Portanto a sentença P(n) é valida para todo n ≥ 0 .

2.7 Múltiplos e Divisores

Definição: Dado a ∈ Z , denotaremos por M (a) o conjunto dos


múltiplos de a e definido por M (a) = {0,±a,±2a,±3a,K} . Desde

21
modo dizemos que m é múltiplo de a se existe k ∈ Z tal que
m = ka .
Exemplo: M (2) = {0,±2,±4,±6,K} e M (5) = {0,±5,±10,±15,K} .
Podemos verificar que M (2) ∩ M (5) = {0,±10,±20,K} .
Proposição 2.2 Dado a ∈ Z , então o conjunto M (a) é fechado
para as operações soma e produto, isto é, dados m1 , m 2 ∈ M ( a )
então m1 + m 2 ∈ M ( a ) e m1 m 2 ∈ M ( a ) .

Demonstração: Dados m1 , m 2 ∈ M ( a ) existem k1 , k 2 ∈ Z tais


que
m1 = k1 a e m 2 = k 2 a , daí m1 + m 2 = ( k1 + k 2 ) a e m1 m 2 = ( k1 k 2 ) a .
Portanto
m1 + m 2 ∈ M ( a ) e m1 m 2 ∈ M ( a ) . C.Q.D.

Definição: Dados a, b ∈ Z , dizemos que b divide a ou b divisor


a e que a divisível por b se existe k ∈ Z tal que a = kb .
Notação b | a .
Exemplo: 1) 2 divide − 10 , pois − 10 = (−5)2 ,
2) − 2 divide 6 , pois 6 = (−3)(−2)
3) 4 divide 6 , pois não existe k ∈ Z tal que 6 = k 4 .
Dado a ∈ Z , denotaremos por D(a) o conjunto dos divisores
de.
Exemplo: D(2) = {±1,±2} e D(6) = {±1,±2,±3} . É fácil ver que
D(2) ∩ D(6) = {±1,±2} .

Proposição 2.3. Prove as seguintes afirmações:


i) a | a ∀a ∈ Z diferente de zero;
ii) Se a | b e b | a tal que a, b ∈ N então a = b ;
iii) Se a | b e b | c então a | c ;
iv) Se a | b e a | c então a | bx + cy ∀x, y ∈ Z .

22
Demonstração: i) a | a pois a = 1.a .
ii) Se a | b e b | a tal que a, b ∈ N existem k1 , k 2 ∈ N tais que
b = k1 a e a = k 2 b , daí b = ( k1 k 2 )b donde 1 = k1 k 2 ⇒ k1 = k 2 = 1 .
Portanto
a =b.
iii) Se a | b e b | c então a | c existem k1 , k 2 ∈ Z tais que
b = k1 a e c = k 2 b , daí c = ( k1 k 2 ) a . Portanto a | c .
v) Se a | b e a | c então existem k1 , k 2 ∈ Z tais que
b = k1 a e c = k 2 a , daí ∀x, y ∈ Z temos que bx = k1 xa e
cy = k 2 ya donde bx + cy = ( k1 x + k 2 y ) a Portanto a | bx + cy .
C.Q.D.

Exemplo: Prove que 2 | 3 n + 1 para todo n ≥ 0 .


Solução: P(0) : 2 | 30 + 1 = 1 + 1 = 2 é válida. Suponha P(n) :
2 | 3 n + 1 seja válida. Provaremos que P(n + 1) : 2 | 3 n +1 + 1 é
verdadeira. De fato, 3 n +1 + 1 = 3 n .31 + 1 = 33 n + 1 = 2.3 n + (3 n + 1) .
Ora, como 2 divide a primeira parcela da última igualdade e 2
divide a segunda parcela da última igualdade por hipótese de
indução, logo 2 | 3 n +1 + 1 .

Teorema 2.3 (Algoritmo da Divisão ou de Euclides). Dados a


a ∈ Z e b ∈ N . Então existem únicos q, r ∈ Z tais que
a = qb + r com 0 ≤ r < b.

Demonstração: Considere o seguinte conjunto


A = {kb | a < kb e k ∈ Z } .

(Existência:) É óbvio que A é limitado inferiormente. Resta-


nos mostrar que A é não vazio para podermos aplicar o
“Princípio do menor inteiro”. De fato, se a ≤ 0 basta tomar k = 1
, daí b.1 > 0 ≥ a ⇒ b ∈ A . Se a > 0 e como b > 0 temos
(a + 1)(b − 1) ≥ 0 ⇒ (a + 1)b − (a + 1) ≥ 0 ⇒ (a + 1)b ≥ a + 1 > a , assim
(a + 1)b ∈ A . Logo em ambos os casos A é não vazio, e como A
limitado inferiormente, então pelo “Princípio do menor inteiro”,
existe q ∈ Z tal que qb ≤ a < (q + 1)b ,onde (q + 1)b é elemento

23
minimal de A . Agora pela relação de ordem em Z existe r tal
que a = qb + r com 0 ≤ r < b .
(Unicidade:) Suponha que existam q1 , q 2 , r1 , r2 ∈ Z com q1 ≠ q 2
e r1 ≠ r2 tais que
a = q1b + r1 com 0 ≤ r 1 < b.

a = q 2 b + r2 com 0 ≤ r2 < b.
Subtraindo as duas equações acima temos que
0 = ( q1 − q 2 )b + r1 − r2 .
Podemos supor sem perda de generalidade que r2 > r1 , assim
temos que
r2 − r1 = ( q1 − q 2 )b ⇒ q1 > q 2 , assim r2 = ( q1 − q 2 )b + r1 .
Sendo r1 ≥ 0 e q1 − q 2 ≥ 1 , daí r2 ≥ b que um absurdo. Então
r1 = r2 e, consequentemente q1 = q 2 . C.Q.D.
Os números r e q são chamados de “resto” e “quociente”,
respectivamente. Quando r = 0 , temos que b divide a .

Exemplos
a) a = 35 e b = 6 . Neste caso 35 = 5.6 + 5 , onde q = 5 e
r = 5.
b) a = −7 e b = 2 . Neste caso − 7 = (−4).2 + 1 , onde
q = −4 e r = 1 .
c) a = 27 e b = 9 . Neste caso 27 = 3.9 + 0 , onde q = 3 e
r = 0.
Neste último exemplo, temos b divide a .
Observação: Para caso em que b = 2 o algoritmo de Euclides
nos garante que podemos decompor o conjunto Z na união de

24
dois conjuntos conforme a figura abaixo

Z
2k

2k + 1

onde os elementos da forma 2k ; k ∈ Z são chamados de


números pares e da forma 2k + 1; k ∈ Z são chamados de
números ímpares.
Exemplos: 1) Mostre que a soma e o produto de pares é ainda
par.
Solução: Sejam a, b ∈ Z números pares então existem da forma
k1 ; k 2 ∈ Z tais que a = 2k1 e b = 2k 2 , assim

a + b = 2 k1 + 2 k 2 = 2( k1 + k 2 ) e ab = 2 k1 2 k 2 = 2( k1 2 k 2 ) .
Portanto, conclui-se que soma e produto de pares ainda são
pares
2) Mostre que a 2 + a é numero par para todo a ∈ Z .
Solução: Se a = 2k , então
a 2 + a = a(a + 1) = 2k (2k + 1) = 2[k (2k + 1)] é um número par.
Agora se a = 2k +1, então
a 2 + a = a(a + 1) = (2k + 1)(2k + 1 + 1) = (2k + 1)(2k + 2) = 2(2k + 1)(k + 1)
é um número par. Portanto em ambos os casos temos um
número par.
3) Mostre que a é numero par se, somente se a 2 é par.

25
Solução: (⇒ ) Se a = 2k , então a 2 = 2k 2k = 2(k 2k ) é um
número par.
(⇐ ) Suponha que a não seja par, isto é,

a = 2k + 1 ⇒ a 2 = (2k + 1) 2 = 4k 2 + 4k + 1 = 2(2k + 2) + 1 , desde

modo a 2 é ímpar, que um absurdo. Portanto a é par.


Para b = 3 o algoritmo de Euclides nos garante que conjunto
Z pode ser escrito como união de três conjuntos da forma: 3k ;
3k + 1 e 3k + 2; k ∈ Z .

2.8 Máximo divisor comum

Definição: Dados a, b ∈ Z não nulos, dizemos que d “máximo

divisor comum” de a e b se:


i) d > 0 .
ii) d | a e d | b .
iii) Se existe c tal que c | a e c | b então c | d .
Notação d = mdc(a, b) .
Exemplo: mdc(4,6) = 2 e mdc(3,11) = 1 .
Fatos:

a) Se d e d 1 máximos divisores comuns de a e b então d = d 1


. De fato, como
d | d 1 e d 1 | d , e ambos são positivos então d = d 1
b) mdc(a, b) = mdc(−a, b) = mdc(a,−b) = mdc(−a,−b) . Com efeito,
seja d = mdc(a, b) e d 1 = mdc ( − a, b) , e daí conclui-se que d | d 1
e d1 | d , e ambos são positivos então d = d 1 . Os outros casos
as demonstrações são similares.
De a) mostrou-se a unicidade do máximo divisor comum. O
resultado abaixo garante a existência.
Proposição 2.4. Para todo a, b ∈ Z não nulos existe d máximo

divisor comum de a e b.

26
Demonstração: Por b) podemos supor sem perda de

generalidade a > 0 e b > 0 . Seja o subconjunto de números


inteiros A = {ax + by | x, y ∈ Z } . Para x = a e y = b , temos que
A possui elementos positivos. Seja d o menor elemento
positivo de A , mostraremos que d é o máximo divisor comum

de a e b.
i) É óbvio que d > 0.
ii) Como d ∈ A , existem x 0 , y 0 ∈ Z tal que d = ax 0 + by 0 .

Aplicando o algoritmo de Euclides para a e d temos


que
a = qd + r com 0 ≤ r < d .
Das duas últimas igualdades obtemos
a = q (ax0 + by 0 ) + r ⇒ r = a(1 − qx0 ) + b(− y 0 )q

Segue-se que r ∈ A ∪ {0} , sendo 0 ≤ r < d e d o menor


elemento positivo de A . Conclui-se que r = 0 , daí
a = qd ⇒ d | a . De modo análogo, prova-se que d | b .
iii) Se c | a e c | b , como d = ax 0 + by 0 , então é claro que

c | d . C.Q.D.
Exemplos: 1) Mostre que mdc(a, a + 1) = 1 para todo a ≠ 0 e
a ≠ −1 .
Solução: Seja d = mdc(a, a + 1) , então d | a e
d | a + 1 ⇒ d | (a + 1) − a = 1 ⇒ d | 1 .
Logo d = 1 .
1) Mostre que mdc(a, b) ≤ a para todo a ≥ 1 .
Solução: Seja d = mdc(a, b) , então d | a , como a ≥ 1 , existe
k ≥ 1 tal que a = kd . Como k ≥ 1 e d > 0 , temos que
d ≤ kd = a . Logo mdc(a, b) ≤ a .

2.9 Números primos

27
Definição: Um número p ∈ Z não nulo, é chamado de “primo”
se:
i) p ≠ ±1 .
ii) Os únicos divisores de p são ± 1 e ± p .
Exemplo: 2 é primo, pois seus únicos divisores ± 1 e ± 2 . Os
divisores ± 1 e ± a são chamados divisores triviais. Outros
primos 3,5,7,11,13 e 17 .
Se um número a não número primo, ele dito composto, ou seja,
existem pelos menos dois divisores não triviais, e neste caso,
podemos escrever a = bc .
Observação: Quando mdc(a, b) = 1, dizemos que a e b são
“primos entre si”. Exemplo: 4 e 15 são primos entre si, pois
mdc(4,15) = 1.

Corolário 2.1. Dois números a e b são primos entre si se, e


somente se existem x 0 , y 0 ∈ Z tal que 1 = ax 0 + by 0 .

Demonstração: (⇒ ) Se mdc(a, b) = 1, segue da demonstração


da proposição anterior que existem x 0 , y 0 ∈ Z tal que

1 = ax 0 + by 0 .
(⇐ ) Suponha que 1 = ax0 + by 0 . É claro que 1 > 0 , 1| a e 1| b .

Agora seja c > 0 tal que c | a e c | b então c | ax0 + by 0 = 1 , ou

seja, mdc(a, b) = 1.

Corolário 2.2: Dois números a e b inteiros não nulos, se


a b
mdc(a, b) = d então mdc( , ) = 1 .
d d
Demonstração: Se mdc(a, b) = d existem x 0 , y 0 ∈ Z tal que

a b
d = ax0 + by0 ⇒ 1 = x0 + y 0 . Segue do corolário 1 que
d d
a b
mdc( , ) = 1 . C.Q.D.
d d

28
Proposição 2.5 Seja p primo. Prove as seguintes afirmações:
a) Se p | ab então p | a , ou p | b ;
b) Se p | a1 a 2 La n então p divide algum dos ai .

Demonstração: a) Se p divide a ., então os únicos divisores


comuns de p e a são ± 1 , daí mdc( p, a) = 1, o que implica
existem x 0 , y 0 ∈ Z tal que 1 = ax 0 + py 0 ⇒ b = abx0 + bpy 0 . Como

p | ab e p | p , então p | b .
b) Exercício a cargo do leitor ( Faça por indução sobre n ).
C.Q.D.
Exemplo: 1) Mostre que todo número primo é da forma 4 k + 1
ou 4 k + 3 .
Solução: Pelo algoritmo de Euclides, aplicado ao número
a ∈ Z e b = 4 , temos que a = 4k , a = 4k + 1, a = 4k + 2, ou

a = 4 k + 3. O primeiro e terceiro casos representam números


compostos ( são múltiplo de 2 ). Assim restam apenas as
possibilidades a = 4 k + 1 ou a = 4 k + 3.

2.10 Mínimo múltiplo comum

Definição: Dados a, b ∈ Z não nulos, dizemos que m é

“mínimo múltiplo comum” de a e b se:


i) m > 0 .
ii) a | m e b | m .
iii) Se existe c tal que a | c e b | c então m | c .
Notação m = mmc(a, b) .
Exemplo: mmc(4,6) = 12 e mmc(3,11) = 33 .
Fatos:

29
a) Se m e m1 mínimos múltiplos comuns de a e b então
m = m1 . De fato, como m | m1 e m1 | m , e ambos são positivos
então m = m1 .
b) mmc(a, b) = mmc(−a, b) = mmc(a,−b) = mmc(−a,−b) . Com efeito,
seja m = mmc(a, b) e m1 = mmc ( − a, b) , e daí conclui-se que
m | m1 e m1 | m , e ambos são positivos então m = m1 . Os outros
casos as demonstrações são similares.
De a) mostrou-se a unicidade do mínimo múltiplo comum. O
resultado abaixo garante a existência.

Proposição 2.6 Sejam a, b ∈ Z não nulos e d = mdc(a, b) então

ab
m= é mínimo múltiplo comum de a e b.
d

Demonstração: Podemos supor sem perda de generalidade

que a > 0 e b > 0.


i) É óbvio que m > 0.
b ab
ii) Como a = = m , temos que a | m , pois d | a , d | b e
d d
d | ab . Analogamente prova-se que b | m .
iii) Seja m1 tal que a | m1 e b | m1 então existem r, s ∈ N tal que
m1 = ar = bs , com isto

a b a b a b a a
r = s ⇒ | s . Como mdc( , ) = 1 ⇒ | s . Assim s = t
d d d d d d d d
ab
para algum t ∈ N . Como m1 = bs = t = mt ⇒ m1 | m . Portanto
d

m é mínimo múltiplo comum de a e b . C.Q.D.


Exemplos: 1) Ache os pares de números a > 0 e b>0 tais
que mdc(a, b) = 5 e
mmc(a, b) = 30 .

30
Solução: Temos ab = mdc(a, b) × mmc(a, b) = 5 × 30 = 150 . Como
ab = 150 = 2 × 3 × 5 × 5 e mdc(a, b) = 5 , temos que cada número
deve ter potência de 5 , daí as possibilidades são
a = 2 × 3 × 5 = 30 e b = 5 , ou a = 2 × 5 = 10 e b = 3 × 5 = 15 .

2) Se a = −2 × 5 2 × 33 e b = 3× 53 . Calcule mdc(a, b) e
mmc(a, b).
Solução: Pela definição de mdc(a, b) ele deve ser o maior

divisor comum de a e b , daí mdc(a, b) = 3 × 5 2 = 75 . Já o


mdc(a, b) ele ser ele deve ser o menor múltiplo comum de a e

b , daí mmc(a, b) = 2 × 33 × 5 3 = 6750 .

Proposição 2.7 Seja a ∈ Z não nulo e a ≠ ±1 . Então mínimo

do conjunto A = {x ∈ Z | x > 1e x | a} é número primo.

Demonstração: Como a | a e − a | a então um deles pertence


ao conjunto A , e mesmo é limitado inferiormente então existe
um elemento minimal p ∈ A . Agora se p não fosse primo então
existiria um divisor não trivial q > 0 de p tal que 1 < q < p .
Como p | a e q | p ⇒ q | a , ou seja, q ∈ A , e isto é um absurdo
pois p ∈ A é elemento minimal. C.Q.D.

Teorema 2.2. (Teorema Fundamental da Aritmética) : Dado


a ∈ Z , a > 1 . Então existem r inteiros primos positivos
p1 , p 2 , L , p r de modo que a = p1 p 2 L p r . Além disso, se

tivermos também a = q1 q 2 L q s , onde qj são números primos

positivos, então r = s , e cada pi é igual a um dos q j .

Demonstração: Usaremos o segundo Princípio de Indução.


Se a = 2 , então a afirmação é verdadeira, pois 2 é primo
positivo. Suponhamos o teorema válido para todo b ∈ Z tal que
2 ≤ b < a . A proposição anterior garante que existe um número

31
primo p1 > 0 tal que p1 | a ⇒ a = a1 p1 . Então se a1 = 1 ou a1 é
primo a conclusão é imediata, do contrario 2 ≤ a1 < a , assim
por hipótese de indução temos que a1 = p 2 L p r ( r ≥ 2) onde
p i > 0 e primos. Logo a = p1 p 2 L p r .

Provaremos agora a unicidade da decomposição. Se


p1 p 2 L p r = q1q 2 L q s ⇒ p1 | q1q 2 L q s ⇒ p1 | q j para algum j tal

que 1 ≤ j ≤ s . Suponhamos j = 1, então p1 | q1 ⇒ p1 = q1 pois os


mesmos são primos. Cancelando-os na igualdade inicial e
prosseguindo com o raciocínio, chega-se à unicidade da
decomposição. C.Q.D

Corolário 2.3. Dado a ∈ Z não nulo e a ≠ 1 . Então existem r


inteiros ( e únicos) primos positivos p1 , p 2 , L , p r de modo que
a = ± p1 p 2 L p r .

Demonstração: Temos que a > 1 , logo pelo Teorema

Fundamental da Aritmética a = p1 p 2 L p r e portanto

a = ± p1 p 2 L p r .

Na decomposição a = p1 p 2 L p r conforme o Teorema


Fundamental da Aritmética não temos a garantia que os fatores
são distintos assim podemos escrever
α α αs
a = p1 1 p 2 2 L p s

onde 1 ≤ s ≤ r , pi ≠ p j sempre que i ≠ j e α i ≥ 1 ( (i = 1,2,L, s) .

Assim , se
β β β
b | a ⇒ b | p1 1 p 2 2 L p s s (0 ≤ β i ≤ α i ; i = 1,2, K , s ).

Sendo assim, cada β i podem assumir os valores 0,1.2,K, α i ,

como temos s fatores, a análise combinatória nos garante que


números de divisores positivos de a ( denotado por d (a) ) é
dado por:
d (a ) = (α 1 + 1)(α 2 + 1) L (α s + 1).

32
Exemplo: 1) Quantos divisores positivo tem o número a = 60 .
Solução: Do Teorema Fundamental da Aritmética
a = 60 = 2 2 × 3 × 5 . Logo d (60) = (2 + 1)(1 + 1)(1 + 1) = 3 × 2 × 2 = 12 ,
ou seja, 12 divisores.

EXERCÍCIOS

1. Mostre que 32n+7 é múltiplo de 8.

2. Mostre que 8 divide 34n-1

3. Demonstrar que a soma dos cubos de três números


naturais sucessivos é divisível por 9

4. Resolva as equações:

a) a + 5 = 2a b) a + 5 + a − 3 = 10 .

5. Resolva as desigualdades:

a) 2a − 6 < a + 3 b) a − 2 + a + 3 > 1

6. Prove que a − b ≤ a − c + c − b para todo a, b, c ∈ Z .


7. Prove que a − b ≤ a − b para todo a, b ∈ Z .

8. Mostre que todo número primo é da forma 6 k + 1 ou


6k + 5 .

9. Na divisão euclidiana de 110 por b o resto é 11. Ache


os possíveis valores para b e q .

10. Na divisão euclidiana de a por b o quociente é 6. Ache


a e b sabendo que a − b = 30 .

11. Seja a um número inteiro cujo resto da divisão por 8 é


6. Mostre que a divisível por 2.

12. Mostre que a soma de ímpares é par e o produto de


ímpares é ímpar.
13. Mostre que a 2 + b 2 + a + b é numero par para todo
a, b ∈ Z .

33
14. Mostre que a 3 − b 3 é múltiplo de 3 se, somente se,
a − b é múltiplo de 3.

15. Seja a um número inteiro, mostre que resto da


divisão de a 2 por 3 é 0 ou 1.

16. Seja a um número inteiro ímpar, mostre que resto da


divisão de a 2 por 4 é 1.

17. Ache os pares de números a > 0 e b>0 tais que


mdc(a, b) = 6 e mmc(a, b) = 20 .

18. Se a = 2 × 5 2 × 7 e b = 23 × 3 × 53 . Calcule mdc(a, b) e


mmc(a, b).

19. Mostre que mdc(a, b) ≤ mdc(a, b) para todo a, b ∈ Z não


nulos.

20. Se mdc(a, b) = 1 . Prove que mdc(a + b, b) = 1 .

21. Encontre os valores possíveis de a de modo que


mdc(a − 5,2) = 1 .

22. Se que n 3 − 1 é primo, mostre que n = 2 ou n = −1 .

23. Quantos divisores positivos possui o número a = 105 .

24. Calcule de o valor α , sabendo que a = 2 × 5α × 7 e


d (a) = 40 .

25. Prove d (a) = 2 se, somente se, a é primo.

26. Mostre que para todo natural n>2 pode ser escrito
n = 2 m onde k ≥ 0 e m é ímpar.
k

34
35
SUMÁRIO

UNIDADE 3: Conjunto dos números racionais

3.1 Introdução
3.2. Operações: Adição e Multiplicação
3.3 Relação de Ordem

3.4 Valor Absoluto ou Módulo

36
3 CO
ONJUNTO
O DOS NÚM
MEROS RA
ACIONAIS
S
Saiba maais em:
1) www.ipb.p
3.1 Introdução
I o t/~cmca/hi
storia.pdf
O co
onjunto doss númeross racionais,, simboliza
ado pela lettra Q, é 2) www.ciul.u
o conjunto doss números que podem m ser escrritos na form
ma de l.pt/~ferfer
r/CF_novo
a _5.pdf
a fração
uma , com a e b inteiro
os quaisque
er e b dife
erente de
b
zero
o:

*
e Z é con
onde njunto dos números inteiros não
o nulos. Os
meros a e b são cham
núm mados de numerador e denominador,
resp
pectivamen
nte.

Commo todo número inteirro pode se


er escrito na forma p//1, então
Z é um
u subcon njunto de Q.
Q

A co
onstrução lógico-formmal do conjunto dos números
n ra
acionais
está feita no apêndice II.
a
O essencial numa fração
o é o par
p ordenad
do ( a, b) e a
b
relaçção de igua
aldade
a m
= ⇔ ann = bm.
b n
Dessse modo, temos uma
u infinid
dade de frações (cchamada
classses de eq
quivalência
a), que rep
presentam o mesmo
o número
racio
onal. Pode
emos, entã
ão, escolh
her um re
epresentante dessa
a, b) = 1 .
plo aquela que mdc(a
infinidade de frrações, como exemp

2 1 4 n
Exem
mplo: 1) = = = K = , n ∈ Z * , onde o
4 2 8 2nn
1
repre
esentante dessa infin
nidade de frações é .
2
12
2) Ache uma frração equiivalente à cuja soma
s do nu
umerador
20
com o denominador seja
a igual a 16
60.
122 3 3n
Solu
ução: Temo
os que = = , assim
200 5 5n
3n 3 × 20 60
5n + 3n = 160 ⇒ 8n = 160 ⇒ n = 20 . Donde
D = = .
5n 5 × 20 100
37
51
3) Ache uma fração equivalente à cuja diferença do
15
numerador com o denominador seja igual a 120.
51 17 17n
Solução: Temos que = = , assim
15 5 5n
17 n − 5n = 120 ⇒ 12 n = 120 ⇒ n = 10 . Donde
17n 17 ×10 170
= = .
5n 5 ×10 50
n −1
4) Mostre que a fração (n ≠ 2) ∈ Z é irredutível é
n−2
irredutível.
Solução: Devemos mostrar mdc(n − 1, n − 2) = 1 . Seja
d = mdc(n − 1, n − 2) , assim temos que d > 0 , d | n − 1 e d | n − 2 .
Logo d | (n − 1) − (n − 2) = 1 ⇒ d = 1.

3.2 Adição e Multiplicação

m r
Definição: Sejam a= e b= elementos de Q. Chama-se
n s
soma e multiplicação de a e b e indica-se por a + b e ab
elementos de Q definidos da seguinte forma:
ms + nr mr
a+b = e ab =
ns ns
As operações adição e multiplicação acima definidas, são
justificadas no Apêndice II. Deste modo, nos limitaremos
apenas em citar suas propriedades fundamentais a fim de que
possamos ter uma estruturação inicial do conjunto dos
números racionais.
Dados quaisquer a, b, c ∈ Z , temos:

2. Adição
a) a + (b + c) = (a + b) + c (associativa)
b) a + b = b + a (comutativa)

38
c) Existe 0 tal que a + 0 = a ( 0 é elemento neutro da
adição)
d) Existe − a tal que a + (−a) = 0 ( − a é elemento simétrico
da adição)

2. Multlipicação
e) a(bc) = (ab)c (associativa)
f) ab = ba (comutativa)
g) Existe 1 tal que a1 = a ( 1 é elemento neutro do produto)
h) ab = 0 ⇒ a = 0 ou b = 0 (lei do anulamento do produto)
i) Para todo a ≠ 0 existe b tal que ab = 1 e denota-se por
1
b= = a −1
a
j) a(b + c) = ab + ac (a multiplicação é distributiva em
relação à adição)
O conjunto que satisfaz as propriedades acima citada é
chamado de corpo. Portanto o conjunto dos números
racionais munidos da operação soma e multiplicação é um
corpo.
1) Mostre que elemento neutro do produto é único.
Solução: Suponha que exista outro elemento neutro do
produto , isto é, α ∈ Q tal que a α = a . Assim temos que

1 .α = 1 e 1 .α = α , daí por f) α = 1 . Portanto existe um único


elemento neutro do produto.

3.2 Relação de Ordem em Q


m m −m
Dado a= um número racional, temos que a= = ,
n n −n
desse modo podemos sempre considerar o denominador como
número positivo.
2 −2
Por exemplo: a= = .
−5 5

39
m
Definição: Dados a, b ∈ Q dizemos que a = é menor do que
n
r
b= (e escreve-se a < b ) se ms < nr .
s
1 3 −2
Exemplo: < , pois 1 × 4 < 2 × 3 ⇔ 4 < 6 e < 2 , pois
2 4 3
− 2 × 1 < 3 × 2 ⇔ −2 < 6 .
A relação de ordem a < b goza das seguintes propriedades:
a) Transitividade: Se a < b e b < c então a < c .
b) Tricotomia: Dados a, b ∈ Q só pode ocorrer uma, e somente
uma, das alternativas: a = b , a < b ou b < a .
c) Monotonicidade: Se a < b então, para todo c ∈ Q com c > 0 ,
tem-se a + c < b + c e a.c < bc .

m r t
Demonstração: Sejam a = ,b = e c = .
n s u
a) De a < b e b < c , temos que ms < nr e ru < ts (*), sendo
n, s, u > 0 , podemos multiplicar a primeira desigualdade por u
e a segunda desigualdade por n em (*), daí ums < unr e
nru < nts (**). Assim, pela propriedade transitiva dos números
inteiros ums < nts ⇒ um < nt ⇒ a < c. C.Q.D.
b) Exercício a cargo do leitor.
t
c) De a < b ⇒ ms < nr , como c = > 0 ⇒ t > 0 ,daí tu > 0 .
u
mt rt
Assim ms(tu ) < nr (tu ) ⇔ (mt )us < (rt )nu ⇔ < ⇔ ac < bc.
nu us

Podemos também trabalhar com seguinte relação de ordem:


Dados a, b ∈ Q , dizemos que a é menor ou igual do que b (e
escreve-se a ≤ b ) se ms ≤ nr.
Com essa relação de ordem é fácil verificar as seguintes
propriedades
a) Reflexiva: a ≤ a
b) Anti-simétrica: Se a ≤ b e b ≤ a então a = b .

40
c) Transitividade: Se a ≤ b e b ≤ c então a ≤ c .
Na relação < valem as seguintes regras de sinais:
i) Se 0 < a e 0 < b então 0 < ab .
ii) Se 0 < a e b < 0 então ab < 0 .
iii) Se a < 0 e b < 0 então 0 < ab .
m r
Demonstração: i) Seja a = e b = . Como 0 < a e 0 < b ,
n s
m r mr
temos que 0 < m e 0 < r , como ab = ⋅ = , segue-se que
n s ns
0 < ab .
ii) e iii) Exercício a cargo do leitor.

Proposição 3.1 Sejam a, b ∈ Q , se a < b , existe c ∈ Q tal que


a < c < b.

a+b
Demonstração: Considere c = , é óbvio que c ∈ Q . Resta
2
provar que a < c < b . De fato, como
a+b
a < b ⇔ a + a < a + b ⇔ 2a < a + b ⇔ a < = c e de modo
2
análogo, como
a+b
a < b ⇔ a + b < b + b ⇔ a + b < b + b ⇔ a + b < 2b ⇔ = c < b.
2
C. Q. D.

Corolário 3.1 O conjunto A = {a ∈ Q | a > 0} não possui mínimo.

Demonstração: De fato, como a > 0 , pela proposição acima


1
temos que a > a > 0 . Daí, A não possui mínimo. C.Q.D
2

41
1.4. Valor absoluto ou módulo

Definição: Para todo a ∈ Q , o valor absoluto ou módulo de a

(notação: a ) é definido por:

a = a se a ≥ 0 e a = − a se a < 0 .

Exemplos: 4 = 4 , pois 4 ≥ 0 ; − 1 = − ( −1) = 1 , pois − 1 < 0 .

Proposição 3.2 Seja a, b ∈ Q , então valem as seguintes


propriedades:
a) − a ≤ a ≤ a ;

b) ab = a b ;

c) a + b ≤ a + b .
−1
d) Se a ≠ 0 , então a −1 = a .

Demonstração: a) Se a ≥ 0 ⇒ a = a ⇒ − a ≤ − a ≤ a ≤ a , e

a < 0 ⇒ a = − a ⇒ − a ≤ a ≤ − a ≤ a . Então vale sempre que

− a ≤a≤ a .

b) Se a, b ≥ 0 ⇒ ab ≥ 0 ⇒ ab = ab = a b ; se a ≥ 0 e b < 0 , temos

que ab ≤ 0 ⇒ ab = − ab = a ( −b ) = a b ; caso análogo para a < 0

e b≥0 . Agora se a<0 e b<0 , temos que


ab > 0 ⇒ ab = ab = ( − a )( −b ) = a b . Portanto vale sempre que

ab = a b ;

c) Por a) temos que − a ≤ a ≤ a e − b ≤ b ≤ b , somando as

duas desigualdades temos


− ( a + b ) ≤ a + b ≤ a + b , com isto

a + b ≤ a + b e − ( a + b) ≤ a + b

42
e a + b ≥ 0 ⇒ a + b = a + b ≤ a + b . Agora se

a + b < 0 ⇒ a + b = −( a + b) ≤ a + b . Portanto em ambos os

casos obtêm-se que a + b ≤ a + b .

d) Se a ≠ 0 , temos que
−1
aa. −1 = 1 ⇒ aa. −1 = 1 = a a −1 = 1 ⇒ a −1 = a . C.Q.D

Exemplo: 1) Resolva a equação 2a − 7 = 2 .

Solução: Da definição, temos que


9
2 a − 7 = 2 ⇒ 2a = 2 + 7 ⇒ a = ou
2
5
− (2a − 7) = 2 ⇒ 2a − 7 = −2 ⇒ 2a = −2 + 7 ⇒ a = . Portanto o
2
9 5
conjunto solução é dado por S = { , }.
2 2
2
2) Resolva a desigualdade a + < 6.
11
Solução: Da definição, temos que
2 2 64
a+ < 6⇒ a < 6− ⇒ a < ou
11 11 11
2 2 2 68
− (a + ) < 6 ⇒ a + > −6 ⇒ a > −6 − ⇒ a > − . Portanto o
11 11 11 11
68 64
conjunto solução é dado por S = {a ∈ Q | − < a < }.
11 11
3) Prove que a − b ≤ a − c + c − b .

Solução: a − b = a − c + c − b ≤ a − c + c − b . A última

desigualdade é devido à desigualdade triangular.

43
EXERCÍCIOS
1. Se a ∈ Q mostre que na ∈ Q e a n ∈ Q ∀n ∈ N .

2. Se soma do numerador com do denominador de uma


m m
fração é 30. Ache a fração sabendo que a
n n
11
mesma é equivalente à .
4

3. Se diferença do numerador pelo denominador de uma


m m
fração é 130. Ache a fração sabendo que a
n n
7
mesma é equivalente à .
5

4. Se soma do numerador com o dobro do denominador


m m
de uma fração é 10. Ache a fração sabendo
n n
−1
que a mesma é equivalente à .
3

a m
5. Se = ∈ Z × Z * . Prove que:
b n

a±b m±n
=
b n

a m a+m m
6. Se = ∈ Z * × Z * . Prove que = .
b n b+n n

a m r a+m+r r
7. Se = = ∈ Z * × Z * × Z * . Prove que = .
b n s b+n+s s

1 + 2 + 3 + L + 1000
8. Qual o valor da fração ? e de
5 + 10 + 15 + L + 5000
2 + 4 + 6 + L + 34
?
3 + 6 + 9 + L + 51

b a a+b
9. Se a, b, c ∈ N tais que = = , qual o valor da
a−c b c
a
fração ?
b

44
10. Sejam a, b, c ∈ Q tais que ac ≤ bc e c > 0 . Prove que
a≤b

11. Seja a ∈ Q . Se a > 0 ⇒ a −1 > 0.

12. Seja a ∈ Q . Se 0 < a < 1 ⇒ 1 < a −1 .

13. Seja a, b ∈ Q . Se 0 < a < b ⇒ 0 < b −1 < a −1 .

14. Seja a, b ∈ N . Se 0 < a < b. Prove que existe um único


1 a 1
n ∈ N tal que ≤ < .
n +1 b n

1
15. Resolva as equações: a − 5 = a + e a + 5 + 2a − 3 = 1
2
.

16. Resolva as desigualdades:

5
a) 2a − 6 ≤ a + b) a − 2 − 2a + 3 > 8
4

17. Prove que a − b ≤ a − c + c − b para todo a, b, c ∈ Q .

18. Prove que a − b ≤ a − b para todo a, b ∈ Q .

19. Se a, b ∈ Q , mostre que a 2 + b 2 = 0 se, somente se,


a = b = 0.

n −1
20. Mostre que a fração ∀n ∈ Z é irredutível.
2n − 1
m
21. Seja uma fração é irredutível. Se r ∈ Z , prove que
n
m m + rn
+r = ,
n n
é também irredutível.

45
46
SUMÁRIO

Unidade 4: Conjunto dos números reais

4.1 Introdução
4.2 Operações: Adição e Multiplicação
4.3 Relação de Ordem

4.4 Valor Absoluto ou Módulo

4.5 Representação Decimal

47
4 Conjunto dos números reais

4.1 Introdução

Como já visto das unidades anteriores que a construção dos


Saiba mais em: números inteiros foi suprir a necessidades de números
1) www.ime. negativos. Já a construção dos números racionais foi suprir a
usp.br/mat necessidades de números fracionários. Desde modo temos que
/206/texto
s/Reais.pd o conjuntos dos números racionais contém conjuntos dos
f números inteiros e este contém o conjunto dos números
2) www.dme. naturais. Mesmo assim, com construção destes conjuntos
ufcg.edu.b numéricos, descobri-se que existem números que não podem
r/sites_pe
ssoais/pro a
fessores/ ser escrito da forma ∈ Z × Z * . Ao conjunto destes números
Marco/De b
dekind.pdf foi denominado de conjuntos dos números irracionais.

A reunião dos números racionais com os irracionais foi


denominado de conjuntos dos números reais. A construção
lógico formal do conjunto dos números reais será feita no
apêndice III.

4.2 Adição e Multiplicação

Definição: Sejam a e b elementos de R . Definem-se as


operações soma e multiplicação de a e b por a + b e ab .
As operações adição e multiplicação acima definidas, são
justificadas no Apêndice III. Deste modo, nos limitaremos
apenas em citar suas propriedades fundamentais a fim de que
possamos ter uma estruturação inicial do conjunto dos
números racionais.
Dados quaisquer a, b, c ∈ R , temos:

3. Adição
k) a + (b + c) = (a + b) + c (associativa)
l) a + b = b + a (comutativa)
m) Existe 0 tal que a + 0 = a ( 0 é elemento neutro da
adição)
n) Existe − a tal que a + (−a) = 0 ( − a é elemento simétrico
da adição)

48
2. Multlipicação
a) a(bc) = (ab)c (associativa)
b) ab = ba (comutativa)
c) Existe 1 tal que a1 = a ( 1 é elemento neutro do produto)
d) ab = 0 ⇒ a = 0 ou b = 0 (lei do anulamento do produto)
e) Para todo a ≠ 0 existe b tal que ab = 1 e denota-se por
1
b= = a −1
a
f) a(b + c) = ab + ac (a multiplicação é distributiva em
relação à adição)

O conjunto que satisfaz as propriedades acima citadas é


chamado de corpo. Portanto o conjunto dos números reais
munidos da operação soma e multiplicação é um corpo.
Exemplos: 1) Prove que o elemento neutro da adição é único.
Solução: Suponha que exista 0 1 outro elemento neutro da
adição, assim:
01 + 0 = 0 e 01 + 0 = 01 , logo 0 = 0 1 .
2) Prove que (−1)(−1) = 1 .
Solução: Temos que (−1) + 1 = 0 , multiplicado por (−1) ,
obtemos que (−1)(−1) + 1(−1) = 0(−1) ⇒ (−1)(−1) + (−1) = 0,
somando-se o simétrico aditivo de (−1) , que é 1 , na última
equação, ficaremos com
(−1)(−1) + (−1) + 1 = 0 + 1 ⇒ (−1)(−1) + 0 = 1 ⇒ (−1)(−1) = 1.
3) Prove que (− x)(− y) = xy .
Solução: Temos que (− x) = (−1) x e (− y) = (−1) y assim:
(− x)(− y) = (−1) x(−1) y = (−1)(−1) xy = xy.
Da construção dos conjuntos numéricos temos a seguinte
ordem de inclusão:
N ⊂ Z ⊂ Q ⊂ R.
Pela construção lógico-formal dos conjuntos acima citados,
tem-se que a inclusão Q ⊂ R. é própria, isto é, existem números

49
reais que não são racionais. O conjunto desses números é
chamado de conjunto dos números irracionais e denotado por
I = R. − Q. Por exemplo, o número 2 é irracional. De fato, se

a
2 fosse racional, existiriam a, b ∈ Q tal que = 2 , o qual
b
a
podemos supor mdc(a, b) = 1 . Assim ( ) 2 = ( 2 ) 2 ⇒ a 2 = 2b 2 ,
b
daí temos que a 2 é par, e pelo exercício do capítulo II, conclui-
se que a é par, ou seja, a = 2k . Desde modo, temos que
(2k ) 2 = a 2 = 2b 2 ⇒ 4k 2 = 2b 2 ⇒ b 2 = 2k 2 , de modo análogo
conclui-se que b é par, que é um absurdo, pois mdc(a, b) = 1 .

Portanto 2 é irracional. Temos também na história da


Matemática alguns números irracionais “famosos”, como por
exemplo: π e e. Mais detalhes ver:
1) www.insite.com.br/rodrigo/misc/math/pi.html;
2) www.obm.org.br/eureka/artigos/irracionais.doc.

4.3 Relação de Ordem em R

Vamos considerar o subconjunto dos números reais


R+* = {a ∈ R | a > 0}
como sendo o subconjunto dos números reais positivos.
O subconjunto R +* satisfaz seguintes propriedades:
i) A soma e o produto de números reais positivos são positivos:
Ou seja, se a, b ∈ R+* ⇒ a + b ∈ R+* e a.b ∈ R+* .
ii) Dado a ∈ R , só pode ocorrer exatamente uma seguintes
alternativas: ou a = 0 , ou a ∈ R+* ou − a ∈ R+* .
Um corpo que possui um subconjunto que cumpre as duas
propriedades acima, diz-se ordenado. Neste caso o conjunto
dos números reais é ordenado.

50
Se indicarmos como R−* = {a ∈ R | a < 0} como o conjunto

números negativos, então temos que a ∈ R−* ⇒ a < 0 . Logo, por

ii), − a ∈ R+* . Deste modo, temos que R = R+* ∪ R−* ∪ {0} .

Exemplo: 1) Prove que para todo a ∈ R implica que a 2 ≥ 0.


Solução: Por ii), temos que a = 0 , ou a ∈ R+* ou − a ∈ R+* . Se

a = 0 ⇒ a 2 = 0.0 = 0 ≥ 0 , se a ∈ R+* ⇒ a 2 = a.a ∈ R+* ⇒ a 2 > 0 ≥ 0 ,

agora se − a ∈ R+* ⇒ a 2 = (−1)a (−1).a ∈ R+* ⇒ a 2 > 0 ≥ 0. Portanto

nos três casos, conclui-se que a 2 ≥ 0.


a+b
2) Prove que para todo a, b ∈ R+* ∪ {0} implica que ≥ ab .
2
Além disso, a igualdade ocorre se, e somente se, a = b.
Solução: Por i), temos que
a+b
( a − b ) 2 ≥ 0 ⇒ ( a ) 2 − 2 a b + ( b ) 2 ≥ 0 ⇒ a + b ≥ 2 ab ⇒ ≥ ab .
2
a+a
Além disso, se a = b ⇒ = a = a.a . Agora se ocorre a
2
igualdade, então, da demonstração, temos que
( a − b ) 2 = 0 ⇒ a = b ⇒ a = b.

1
3) Prove que para todo a ∈ R+* implica que a + ≥ 2 . Além
a
disso, a igualdade ocorre se, e somente se, a = 1.
1 1
a+ a+
Solução: Por 2), a ≥ a1 ⇒ a ≥ 1 ⇒ a + 1 ≥ 2 . Além
2 a 2 a
1
disso, por 2), a = ⇒ a 2 = 1 ⇒ a = ±1, sendo que
a
a ∈ R+* ⇒ a = 1.

Definição: Dados a, b ∈ R dizemos que a é menor do que b (e


escreve-se a < b ) se b − a > 0 .
A relação de ordem a < b goza das seguintes propriedades:
a) Transitividade: Se a < b e b < c então a < c .
b) Tricotomia: Dados a, b ∈ R , só pode ocorrer uma, e somente
uma, das alternativas: a = b , a < b ou b < a .

51
c) Monotonicidade: Se a < b então, para todo c ∈ R , tem-se
c.1) a + c < b + c ;
c.2) a.c < bc se c > 0 .
c.3) a.c > bc se c < 0 .
Demonstração: a) De a < b e b < c , temos que b − a > 0 e
c − b > 0 , daí (c − b) + (b − a) > 0 ⇒ c − a > 0 ⇒ a < c.

b) Dados a, b ∈ R ⇒ b − a ∈ R , pela propriedade ii) só pode


ocorrer uma, e somente uma, das alternativas: ou b − a = 0 ,ou
b − a > 0 ou b − a < 0 . Da primeira opção, temos que a = b , da
segunda opção b > a e da terceira opção obtemos que b < a .
c.1) De a<b ⇒b−a >0 , assim
(b + c) − (a + c) > 0 ⇒ b + c > a + c .
c.2) De a < b ⇒ b − a > 0 , como c > 0 , temos que
(b − a)c > 0 ⇒ bc − ac > 0 ⇒ bc > ac.
c.3) Exercício a cargo do leitor.

Assim, dados a, b ∈ Q , dizemos que a é menor ou igual do que

b (e escreve-se a ≤ b ) se b − a ≥ 0, ou seja, b − a ∈ R+* ∪ {0}.


È fácil verificar as seguintes propriedades:
a) Reflexiva: a ≤ a
b) Anti-simétrica: Se a ≤ b e b ≤ a então a = b .
c) Transitividade: Se a ≤ b e b ≤ c então a ≤ c .
Na relação < valem também as seguintes regras de sinais:
i) Se 0 < a e 0 < b então 0 < ab .
ii) Se 0 < a e b < 0 então ab < 0 .
iii) Se a < 0 e b < 0 então 0 < ab .
A desigualdade abaixo é de grande importância na Matemática.
Exemplo: (Desigualdade de Bernoulli). Dado a ∈ R tal que
− 1 ≤ a então para todo n ∈ N , tem-se (1 + a ) n ≥ 1 + na.

Solução: Provaremos por indução sobre n ∈ N . P(1) , é válida,


pois (1 + a) ≥ 1 + a . Suponhamos válida P(n) , isto é,

(1 + a ) n ≥ 1 + na. Provaremos que P(n + 1) , isto é,

52
(1 + a) n +1 ≥ 1 + (n + 1)a. Com efeito, como − 1 ≤ a ⇒ 1 + a ≥ 0,
assim multiplicando a hipótese de indução por 1 + a temos que
(1 + a)(1 + a) n ≥ (1 + a )(1 + na ) ⇒ (1 + a ) n +1 ≥ 1 + (n + 1)a + na 2 ,

sendo na 2 ≥ 0 , segue-se que


(1 + a) n +1 ≥ 1 + (n + 1)a + na 2 ≥ 1 + (n + 1)a.

4.4 Valor absoluto ou módulo

Definição: Para todo a ∈ R , o valor absoluto ou módulo de a


(notação: a ) é definido por:

a = a se a ≥ 0 e a = − a se a < 0 .

Exemplos: 7 = 7 , pois 7 ≥ 0 ; − π = −(−π ) = π , pois

−π < 0.

Proposição 4.1 Seja a, b ∈ Q , então valem as seguintes


propriedades:
a) − a ≤ a ≤ a ;

b) ab = a b ;

c) a + b ≤ a + b .
−1
d) Se a ≠ 0 , então a −1 = a .

e) a − b ≤ a − b .

Demonstração: a) Se a ≥ 0 ⇒ a = a ⇒ − a ≤ − a ≤ a ≤ a , e

a < 0 ⇒ a = − a ⇒ − a ≤ a ≤ − a ≤ a . Então vale sempre que

− a ≤a≤ a .

b) Se a, b ≥ 0 ⇒ ab ≥ 0 ⇒ ab = ab = a b ; se a ≥ 0 e b < 0 , temos

que ab ≤ 0 ⇒ ab = − ab = a ( −b ) = a b ; caso análogo para a < 0

e b≥0 . Agora se a<0 e b<0 , temos que

53
ab > 0 ⇒ ab = ab = ( − a )( −b ) = a b . Portanto vale sempre que

ab = a b ;

c) Por a) temos que − a ≤ a ≤ a e − b ≤ b ≤ b , somando as

duas desigualdades temos


− ( a + b ) ≤ a + b ≤ a + b , com isto

a + b ≤ a + b e − ( a + b) ≤ a + b ;

e a + b ≥ 0 ⇒ a + b = a + b ≤ a + b . Agora se

a + b < 0 ⇒ a + b = −( a + b) ≤ a + b . Portanto, em ambos os

casos obtêm-se que a + b ≤ a + b .

d) Se a ≠ 0 , temos que
−1
aa. −1 = 1 ⇒ aa. −1 = 1 = a a −1 = 1 ⇒ a −1 = a .

e) Como
a = b + ( a − b) ⇒ a = b + ( a − b) ⇒ a ≤ a − b + b ⇒ a − b ≤ a − b ,
de modo análogo
b = a + (b − a ) ⇒ b ≤ a − b + a ⇒ b − a ≤ a − b ⇒ a − b ≥ − a − b .
desde modo − a − b ≤ a − b ≤ a − b , assim por a) tem-se que
a − b ≤ a − b . C.Q.D.

Exemplo: 1) Resolva a equação a − 7 + a − 2 = 5 .

Solução: Da definição de a − 7 , temos que a − 7 = a − 7 se

a ≥ 7 e a − 7 = − ( a − 7 ) se a < 7 . Por outro lado, da definição de

a − 2 , temos que a − 2 = a − 2 se a ≥ 2 e a − 2 = −( a − 2) se

a < 2 . Sendo assim temos três possibilidades:


i) Se a < 2 . Assim a − 7 = −( a − 7 ) e a − 2 = −( a − 2) , daí

a − 7 + a − 2 = 5 ⇒ − a + 7 − a + 2 = 5 ⇒ − 2 a + 9 = 5 ⇒ − 2 a = −4 ⇒ a = 2
. Como a solução não pertence à restrição, temos que o
primeiro conjunto solução S1 = ∅.
ii) Se 2 ≤ a < 7. Assim
a − 7 + a − 2 = 5 ⇒ − ( a − 7 ) + a − 2 = 5 ⇒ − a + 7 + a − 2 = 5 ⇒ 5 = 5.
Portanto o segundo conjunto solução é S 2 = {a ∈ R | 2 ≤ a < 7}.

54
iii) Se a ≥ 7. Assim
a − 7 + a − 2 = 5 ⇒ ( a − 7) + a − 2 = 5 ⇒ a − 7 + a − 2 = 5 ⇒ 2a = 14 ⇒ a = 7.
Portanto o terceiro conjunto solução é S 3 = {7}. Sendo a

solução geral a união dos três conjuntos soluções, conclui-se


que a solução geral é dada por S = {a ∈ R | 2 ≤ a ≤ 7}.

2) Resolva a desigualdade a + 2 + a − 3 < 6 .

Solução: Da definição de a + 2 , temos a + 2 se a ≥ −2 e

− (a + 2) se a < −2 . Por outro lado, da definição de a − 3 ,

temos a − 3 se a ≥ 3 e − (a − 3) se a < 3 . Sendo assim temos


três possibilidades:
i) Se a < −2 . Assim a + 2 = −(a + 2) e a − 3 = −( a − 3) , daí

5
a + 2 + a − 3 < 6 ⇒ −a − 2 − a + 3 < 6 ⇒ −2a + 1 < 6 ⇒ −2a < 5 ⇒ a > −
2
. Portanto, o primeiro conjunto solução é
5
S1 = {a ∈ R | − < a < −2}.
2
ii) Se − 2 ≤ a < 3. Assim a + 2 = ( a + 2) e a − 3 = −( a − 3) , daí

a + 2 + a − 3 < 6 ⇒ a + 2 − a + 3 < 6 ⇒ 5 < 6. Portanto o segundo

conjunto solução é S 2 = {a ∈ R | −2 ≤ a < 3}.

iii) Se a ≥ 3. Assim a + 2 = ( a + 2) e a − 3 = (a − 3) , daí

7
a + 2 + a − 3 < 6 ⇒ a + 2 + a − 3 < 6 ⇒ 2a < 7 ⇒ a < . Portanto o
2
7
terceiro conjunto solução é S 3 = {a ∈ R | 3 ≤ a < }. Sendo a
2
solução geral a união dos três conjuntos soluções, conclui-se
5 7
que a solução geral é dada por S = {a ∈ R | − ≤ a < }.
2 2

4.5 Representação Decimal

Com o objetivo de efetuar cálculos de forma mais eficiente com


números reais usaremos sua representação decimal.
Trabalharemos apenas com os números positivos, pois para

55
trabalhamos com os números negativos basta acrescentar o
sinal de “menos”.
Definição: A representação decimal de um número real α é
dada por
α = a0 , a1 a 2 a3 L a n L,
onde a0 é um número inteiro, e a1 , a 2 , a3 , L a n L, são dígitos,
isto é, ai ∈ {0,1,2,3, L,9}, com i = 1,2,3L, n,L.
Exemplo: 1) 13,123 , 2) 0,121212L e 3) π = 3.14159265 L .
Observamos que no exemplo 1) temos uma terminação finita.
Já nos exemplos 2) e 3) não temos terminação finita, mas há
uma diferenciação entre ambos, pois no exemplo 2) existe uma
repetição (periodicidade) dos dígitos.
Podemos supor sem perda generalidade que a0 é um número

inteiro não-negativo. A representação decimal de α como


soma de frações é da seguinte forma
a1 a 2 a a
α = a0 + + 2 + 33 + L nn L.
10 10 10 10
A última reticência nos diz que temos uma soma de infinitas
parcelas. Desta forma podemos considerar aproximações de α
por números racionais da seguinte forma:
a1 a 2 a a
α n = a0 + + 2 + 33 + L nn . (n = 0,1,2,3L.) .
10 10 10 10
a1
Observe que α 0 = a 0 ≤ α , α 1 = a 0 + ≤ α,
10
a1 a 2
α 2 = a0 + + ≤ α e de modo geral
10 10 2
a1 a 2 a a
α n = a0 + + 2 + 33 + L nn ≤ α . (n = 0,1,2,3L.) .
10 10 10 10
Desde modo, obtém-se uma seqüência não-decrescente de
número racionais (α n ) tal que

α 0 ≤ α 1 ≤ α 2 ≤ Lα n ≤ Lα .
Da definição da soma de uma progressão geométrica (P.G.)
(mais detalhes ver apêndice IV), obtém-se a seguinte
estimativa 0 ≤ α − α n ≤ 10 − n . Assim através do cálculo do “limite”

(mais detalhes ver referência 5.) temos que α é limite da

56
seqüência (α n ) . Conclui-se que todo número real é limite de

seqüência de números racionais.


Analisaremos alguns casos especiais:
1) α = a 0 , a1 a 2 a3 L a n 000L, então

a1 a 2 a a
α n = a0 + + 2 + 33 + L nn é número racional.
10 10 10 10
1 3 7
Exemplo: 9,137 = 9 + + 2 + 3.
10 10 10
Para estudarmos os próximos dois casos vamos considerar
a 0 = 0.

2) α = 0, a1 a 2 a3 L a n a1 a 2 a3 L a n a1 a 2 a3 L a n L. Esta expressão

decimal é denominada de dízima periódica simples, de período


a1 a 2 a3 L a n . Exemplo: α = 0,999999999L , α = 0,171717L e

α = 0,123123123L.
Através da soma dos termos da P.G. infinita prova-se α possui
representação na forma de fração denominada de fração
geratriz.

Proposição 4.2 A fração geratriz de uma dízima periódica


simples é uma fração cujo numerador é o período e o
denominador é número formado por tantos noves quantos são
os algarismos do período.

Demonstração: Como já sabemos da existência da fração


geratriz, usaremos um método prático para sua obtenção.
Temos que
α = 0, a1 a 2 a3 L a n a1 a 2 a3 L a n a1 a 2 a3 L a n L.

Multiplicando-se a expressão acima por 10 n. Logo


10 n α = a1a 2 a3 L an , a1a 2 a3 L an a1a 2 a3 L a n a1a2 a3 L a n L.
Assim

57
a1 a 2 a 3 L a n a a a L an
(10 n − 1)α = a1 a 2 a 3 L a n ⇔ α = ⇔α = 1 2 3 .
10 − 1
n
999 L 9
Sendo que no denominado da última igualdade aparecem o
dígito 9, n (quantidade de algarismos do período) vezes.
Calcule as frações geratrizes dos seguintes exemplos:
a) α = 0,999999999L . Pelo método prático temos que
10α = 9,999999999L . Logo
9 9
(10 − 1)α = 9 ⇔ α = ⇔ α = = 1.
10 − 1 9
b) α = 0,171717L . Do mesmo modo, 10 2 α = 17,171717 L . Logo
17 17
(10 2 − 1)α = 17 ⇔ α = ⇔α = .
10 − 1
2
99
c) α = 0,123123123L. De modo análogo, 10 3 α = 123,123123L .
Logo
123 123
(10 3 − 1)α = 123 ⇔ α = ⇔α = .
10 − 1
3
999
É claro que poderíamos aplicar o resultado (proposição acima)
direto para obter a fração geratriz de cada exemplo acima.

3) α = 0, a1 a 2 a3 L a m b1b2 b3 Lbn b1b2 b3 Lbn L. Esta expressão

decimal é denominada de dízima periódica composta, de


período b1b2 b3 L bn e parte não periódica a1 a 2 a 3 L a m .

Exemplo: α = 0,1222222L , α = 0,10171717L e


α = 0,56456456456L.
Através da soma dos termos da P.G. infinita prova-se que α
possui representação na forma de fração denominada de
fração geratriz.

Proposição 4.3 A fração geratriz de uma dízima periódica


composta é uma fração cujo numerador é a parte não-periódica
seguido de um período menos a parte não-periódica e o
denominador é um número formado por tantos noves quantos

58
são os algarismos do período, seguidos de tantos zeros
quantos são os algarismos da parte não-periódica.

Demonstração: Do mesmo modo da proposição anterior


usaremos um método prático para obtenção da fração geratriz.
Temos que
α = 0, a1a2 a3 L amb1b2b3 Lbnb1b2b3 Lbn L

Multiplicando-se a expressão acima por 10m. Logo


10 m α = a1a 2 a3 L a m , b1b2 b3 Lbn b1b2 b3 Lbn b1b2 b3 Lbn L.

Agora multiplicando a expressão acima por 10 n :


10 m+ n α = a1a 2 a3 L am b1b2 b3 Lbn , b1b2 b3 Lbn b1b2 b3 Lbn L.
Agora, subtraindo a última equação da penúltima, temos que
(10 m+ n − 10 m )α = a1a 2 a3 L am b1b2 b3 Lbn − a1a 2 a3 L am .
Desde modo
a1 a 2 a 3 L a m b1b2 b3 L bn − a1 a 2 a 3 L a m
α=
10 m (10 n − 1)
Ou ainda,
a1a2 a3 L amb1b2b3 L bn − a1a2 a3 L am
α=
999
1
42 L43900
12L30
n m

Sendo que no denominador da última igualdade aparece o


dígito 9, n (quantidade de algarismos do período) vezes
seguido do dígito 0, m (quantidade de algarismos da parte
não-periódica) vezes.
Calcule as frações geratrizes dos seguintes exemplos:
a) α = 0,1222222L . Pelo método prático temos que

10α = 1,222222L e 10 2 α = 12,22222 L . Logo


11
(10 2 − 10)α = 12 − 1 ⇔ α = .
90
b) α = 0,10171717L . Do mesmo modo, 10 2 α = 10,171717 L e

10 4 α = 1017,171717 L Logo.

59
1002 1002 501
(10 4 − 10 2 )α = 1017 − 10 ⇔ α = ⇔α = = .
10 − 10
4 2
9900 4950
c) α = 0,56456456456L. De modo análogo,

10 2 α = 56,456456456L e 10 5 α = 56456,456456456 L . Logo


56400 56400 564
(10 5 − 10 2 )α = 56456 − 56 ⇔ α = ⇔α = = .
10 − 10
5 2
99900 999
É claro que poderíamos aplicar o resultado (proposição acima)
direto para obter a fração geratriz de cada exemplo acima.

EXERCÍCIOS
1. Mostre o elemento simétrico da adição é único.

2. Mostre o elemento neutro da multiplicação é único.

3. Se a, b ∈ R − {0} , mostre que (ab) −1 = a −1b −1 .


1 − x n +1
4. Mostre que 1 + x + x + L + x =
2 n
para todo x ≠ 1
1− x
e para todo n ∈ N .

a (1 − x n +1 )
5. Mostre que a + ax + ax 2 + L + ax n = para todo
1− x
x ≠1
e para todo n ∈ N .

6. Prove que 3 é irracional.

7. Mostre através de exemplo numérico que os conjuntos


números irracionais não fechado é em relação à
adição e multiplicação, isto é, existem a, b ∈ R − Q tais
que a + b ∉ R − Q e ab ∉ R − Q .

8. Se a ∈ R − Q e b ∈ Q prove que a + b ∈ R − Q .

9. Sejam a, b ∈ R − Q . Se a + b ∈ Q prove que a − b ∈ Q

10. Sejam a, b, c ∈ R tais que ( ac) 2 + (bc ) 2 = 0 e c > 0 .


Prove que a = b = 0

60
a+b a2 + b2
11. Seja a,∈ R . Mostre que ≤ .
2 2

12. Seja a, b ∈ R . Se 0 < a < b ⇒ 0 < a < b .

13. Seja a, b ∈ R . Se 0 ≤ a < b. Prove que a+b ≤ a + b .

14. Seja a, b ∈ R . Mostre que a 2 + ab + b 2 ≥ 0.

15. Resolva as equações:

a) − a + 5 = a + 2 b) a + 5 − 2a − 3 = 2 .

16. Resolva as desigualdades:


5
a) 2a − 6 + a ≤ a + b) a − 2 + a + 3 > 8 − a
4

17. Prove que se a−b ≤ c ⇒ a ≤ b +c para todo


a, b, c ∈ R com c ≥ 0.

18. Prove que a1 + a 2 + K + a n ≤ a1 + a 2 + K a n para todo


a1 , a 2 ,K , a n ∈ R e para todo n ∈ N .

19. Calcule a fração geratriz dos seguintes números reais:


a) 0,333333333...
b) 0,3311111111...
c) 0,9191919191..
d) 0,123777777777....

20. Calcule a fração geratriz de a+b onde


a = 0,133333333... e b = 0,121212... .

61
Apêndice I
Números Inteiros

Para formalizarmos a construção dos números inteiros


inicialmente consideremos o conjunto NxN dos pares
ordenados (a, b ) de números naturais.
Motivados pelo fato de que, para a < b, d < c , temos
a−b = c−d ⇔ a+d = b+c , definimos
(a, b ) ≈ (x, y ) ⇔ a + y = b + x .
Não é difícil mostrar que a relação ≈ é reflexiva,
simétrica e transitiva, sendo, portanto, uma relação de
equivalência em NxN. Em virtude disto, NxN fica subdividido
em classes de equivalência [a, b] de ordenados (a, b ) .
Vamos, então, denominar número inteiro a cada uma
destas classes de equivalência. Isto significa que
[a, b] = [c, d ] ⇔ (a, b ) ≈ (c, d ) ⇔ a + d = b + c .
Usaremos o símbolo Z para representar o conjunto das
classes de NxN, acima descrito, denominando-o de conjunto
dos inteiros.
Dados dois pares ordenados (a, b ), (c, d ) , definamos as
operações adição e multiplicação através das igualdades:
(a, b ) + (c, d ) = (a + c, b + d )
(a, b ) • (c, d ) = (ac + bd , ad + bc )
É imediato verificarmos, então, o resultado seguinte.

Proposição 1. Se (a, b ) ≈ (a ' , b') e (c, d ) ≈ (c' , d ') então


(a + c, b + d ) ≈ (a '+ c' , b'+ d ') .
Demonstração:
(a, b) ≈ (a' , b') ⇔ a + b' = b + a'
(c, d ) ≈ (c' , d ') ⇔ c + d ' = d + c'
Adicionando as igualdades acima resulta
a + b '+ c + d ' = b + a '+ d + c '
ou seja,
(a + c ) + (b'+ d ') = (b + d ) + (a '+ c')
o que significa
(a + c, b + d ) ≈ (a '+ c' , b'+ d ')
Como queríamos mostrar.
A proposição acima permite definir a operação adição no
conjunto das classes [a, b] .

Definição: Para dois elementos arbitrários [a, b] e [c, d ] de Z,


[a, b] + [c, d ] = [a + c, b + d ] .

62
Exemplo:
[1,2] + [7,9] = [8,11]
A subtração é, também, possível para qualquer par de
elementos de Z.

Proposição 2. Dados [c 1, c 2 ] , [a1 , a 2 ] ∈ Z existe um único


elemento de Z, [x1 , x 2 ] tal que [a1 , a 2 ] + [x1 , x 2 ] = [c1 , c 2 ] . (1)
O elemento [x1 , x 2 ] é representado por [c 1, c 2 ] − [a1 , a 2 ] .
Demonstração: A equação (1) é equivalente a
[a1 + x1 , a 2 + x 2 ] = [c1 , c 2 ] , ou seja, (a1 + x1 , a 2 + x 2 ) ≈ (c1 , c 2 ) , o que
equivale a x1 + a1 + c 2 = x 2 + a 2 + c1 .
A equação acima possui duas incógnitas x1 , x 2 e tem
sempre solução em N, quaisquer que sejam a1 , a 2 , c1 e c 2 . Com
efeito,
(i) Se a1 + c 2 = a 2 + c1 , (x1 , x 2 ) = (h, h ) ≈ (0,0 )
Logo, [x1 , x 2 ] = [0,0] .
(ii) Se a1 + c 2 < a 2 + c1
(x1 , x 2 ) = (h + ((a 2 + c1 ) − (a1 + c 2 )), h ) ≈ ((a 2 + c1 ) − (a1 + c 2 ),0 )
Assim, [x1 , x 2 ] = [(a 2 + c1 ) − (a1 + c 2 ),0] .
(iii) a 2 + c1 < a1 + c 2
(x1 , x 2 ) = (h, h + ((a1 + c 2 ) − (a 2 + c1 ))) ≈ (0, (a1 + c 2 ) − (a 2 + c1 )),
[x1 , x 2 ] = [0, (a1 + c 2 ) − (a 2 + c1 )],
como queríamos mostrar.

Procuremos, agora, definir uma multiplicação de


elementos de Z.
Vejamos, inicialmente, que, quando as subtrações são
possíveis em N, temos (a − b )(c − d ) ≈ (ac + bd ) − (ad + bc ) .
Daí, porque teremos a seguinte definição:
Definição: (a , b ) • (c, d ) = (ac + bd , ad + bc ) .

Proposição 3: Se (a, b ) ≈ (a ' , b') , então, para todo par ordenado


(c, d ) , (a, b ) • (c, d ) ≈ (a ' , b') • (c, d )
Demonstração: (Exercício)

Analogamente mostraríamos que se o par (c, d ) for


substituído por um equivalente (c ' , d ') também o produto será
substituído por um par equivalente.
Novamente aqui é, então, possível enunciar a
Definição: Para a, b, c e d ∈ N, [a, b ] • [c, d ] = [ac + bd , ad + bc ] .

Definidas a adição e a multiplicação em Z,


enunciaremos uma propriedade útil para o que veremos
adiante.

63
Proposição 4: Dado um elemento [a, b ] ∈ Z, podemos
representá-lo, de modo único, por [a, b ] = [c,0] , c ∈ N,
[a, b] = [0, c ] , c ∈ N, c ≠ 0 .
Demonstração:
Sabemos que, se as subtrações indicadas são possíveis
em N, temos (a, b ) ≈ (a − c, b − c ) .
Dado [a, b] , temos a ≥ b ou a < b . No primeiro caso,
tomando c = a − b , será [a , b ] = [a − b,0] = [c,0] . No segundo
caso, fazendo c = b − a , virá [a, b ] = [0, b − a ] = [0, c ] , como
queríamos demonstrar.
Temos, como conseqüência, que o conjunto Z dos
números inteiros pode ser escritos como
Ζ = {[c,0], c ∈ Ν} ∪ {[0, c ], c ∈ Ν , c ≠ 0} .
Representando os conjuntos acima, respectivamente por
Ζ + e Ζ − , teremos Ζ = Ζ + ∪ Z − . Os elementos de Ζ − são os
inteiros negativos e os elementos de Ζ + são os elementos não-
negativos.
Nesta altura, a identificação do conjunto N com o
conjunto Ζ + é feita de modo simples através da função
δ : Ν → Ζ + , definida por δ (c ) = [c,0] .
A função δ é injetiva e sobrejetiva. Além disso, ela
preserva as operações em N e em Ζ + , de adição e de
multiplicação. Mais precisamente,
δ (c + d ) = δ (c ) + δ (d ) .
δ (c.d ) = δ (c ).δ (d ) .
Admitindo a identificação acima, podemos, então,
escrever Ν ⊂ Ζ .
Se, convencionarmos, representar [c,0] = c e [0, c ] = −c ,
vem que Ζ = {..., −3,−2,−1,0,1,2,3,...}.

64
Apêndice II
Números Racionais

Definição 1: Dados os números inteiros a, b, b ≠ 0 , dizemos


que o inteiro x é o quociente de a por b , e representamos por
x = a / b , se tivermos a = b. x .
É claro que nem sempre existe em Z o quociente de dois
números. Por exemplo, não existe em Z o quociente 12 / 5 .
Procuremos, então, construir um conjunto numérico que
inclua, além dos inteiros, os quocientes de inteiros.
Uma primeira observação é a de que podemos obter o
mesmo quociente a partir de diferentes pares de inteiros.
Assim, 12 / 4 = 33 / 11 = 3 . Não é difícil ver que, se existem em Z
os quocientes a / b = c / d então ad = bc . Reciprocamente, se
ad = bc , vemos que a / b = c / d .
Desta forma, imitando a construção do conjunto Z a
partir de N, deveremos tomar, no conjunto ΖxΖ * de pares de
inteiros com segunda componente não nula, a identificação:
(a, b ) ≅ (c, d ) ⇔ ad = bc .
Da definição acima segue-se, de imediato, que a relação
“ ≅ ” é uma relação de equivalência em ΖxΖ * . Segundo a
relação “ ≅ ”, definida acima, a classe de equivalência de
_____
qualquer elemento (a, b ) ∈ ΖxΖ * , será representada por (a,b ) ;
(a, b ) = {(c, d ) ∈ ΖxΖ * / (a, b ) ≅ (c, d )} = {(c, d ) ∈ ΖxΖ * / ad = bc}
_____

_____
a
No que se segue, representamos (a,b ) pela fração .
b
______
a
Ou seja, (a, b ) = .
b
O inteiro a é o numerador, b é o denominador.

Exercício: Mostre que a relação “ ≅ ” acima é reflexiva, simétrica


e transitiva, [Na transitividade será necessário usar a lei de
cancelamento da multiplicação que é verdadeira em Z (Por
quê?)].

Motivados pela soma e pela multiplicação de frações,


pode-se definir as seguintes operações no conjunto ΖxΖ * :
(a, b ) + (c, d ) = (ad + bc, bd ),
(a, b )(. c, d ) = (ac, bd )
Proposição 1: (i) Se (a, b ) ≅ (a ' , b') e (c, d ) ≅ (c ' , d ') , então
(ad + bc , bd ) = (a ' d '+b' c' , b' d ') .
(ii) Se (a, b ) ≅ (a ' , b') e (c, d ) ≅ (c ' , d ') , então (ac , bd ) = (a ' c ' , b ' d ') .
Prova: (Exercício)

65
A proposição acima nos permite definir, no conjunto das
a
classes de equivalência , as operações de adição e
b
multiplicação:
a c ad + bc a c ac
+ = , ⋅ = .
b d bd b d bd
a
Cada uma das classes de equivalência é chamada
b
um número racional. O conjunto Q, dos números racionais, é,
então, o conjunto das classes de equivalência de ΖxΖ * com
respeito à relação “ ≅ ”.
O conjunto Q, assim construído, amplia o conjunto Z dos
inteiros de modo que:
(i) As operações ditas “inteiras” (adição, subtração e
multiplicação), definidas em Q, fornecem o mesmo resultado
das operações correspondentes em Z, quando os elementos
de Q envolvidos são os elementos de Z.
(ii) As propriedades formais das operações “inteiras” em Z são
preservadas, quando estendidas às operações em Q.
a c
(iii) Existem em Q o quociente de dois elementos e , com
b d
c ≠ 0 , pertencentes a Q.
Para provar todas essas afirmações devemos,
simplesmente, usar as definições adotadas. Algumas
observações são úteis para esta tarefa.
Observação 1: Todos os pares de forma (0, h ) ∈ ΖxΖ * são
equivalentes, com respeito à relação “ ≅ ”; com efeito,
(0, h ) ≅ (0, k ) , pois 0.k = h.0 .
0
O número racional é, portanto, o mesmo qualquer
h
que seja o inteiro não-nulo h . Ele é o racional zero.
Mostraremos que é o elemento neutro da soma. Com efeito,
a 0 a.h + b.0 a.h a
+ = = = .
b h bh b.h b
Observação 2: Representemos por Q * o conjunto dos
racionais excetuando o zero.
a c
Definamos, então, o quociente de ∈ Q por ∈ Q * ,
b d
x a x c
como sendo o racional tal que = ⋅ .
y b y d
É fácil ver, então, que a operação de obtenção do
quociente (chamada divisão) é sempre possível em Q x Q * .

Observação 3: Se definirmos a função


φ:Z → Q

66
x
x a φ (x ) =
1
onde Q1 é o conjunto dos racionais de denominador igual a um,
não é difícil provarmos que φ é uma função
bijetora, e, além disso, preserva as operações em Z e Q, no
sentido de que:
φ (a + zb ) = φ (a ) + Q φ (b )
φ (a.zb ) = φ (a ). Q φ (b )
onde usamos os símbolos +Z, • Z, +Q, • Q para representar as
operações de adição e multiplicação em Z e em Q,
respectivamente.
A função φ permite-nos, assim, identificar Z com o

subconjunto Q1 =   ⊆ Q dos racionais de denominador igual a


a
1 
1. . Desta maneira, o conjunto Q pode ser visto como uma
ampliação do conjunto Z.

67
Apêndice IV

Seqüências: Progressões Aritméticas e Geométricas

Neste apêndice introduziremos a definição de seqüência, e em


especial, as denominadas de progressões aritméticas e
progressões geométricas.

Definição: Uma Seqüência é uma função a dos conjuntos dos


números naturais (domínio) aos conjuntos dos números reais
(contradomínio) que associa a cada elemento n ∈ N a um
único elemento a n ∈ R. O elemento an é denominado o

n-ésimo termo da seqüência.

Notação: A notação que utilizaremos para nos referirmos às


seqüência, será apresentada como segue:
a = ( a1 , a 2 , a 3 , L a n , L) , ou a = ( a n ) n∈N ou simplesmente,

a = (a n ) .

Exemplos:
1. a = (1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,L n,L) ;
1 1 1 1
2. a = ( ) = (1, , ,L , L) ;
n 3 4 n
3. a = (1,−1,1,−1,1,−1, L (−1) n , L);
1 1 1 1
4. a = ( n ) = ( , 2 ,L n ,L).
10 10 10 10
Dentre as seqüências existem dois tipos que são muitos
especiais, denominadas de progressão aritmética e progressão
geométrica.
Progressão Aritmética (P.A)

Definição: Uma Progressão Aritmética e uma seqüência


(a1 , a 2 , a 3 ,L a n ,L) definida por a n +1 = a n + r onde r é uma

constante chamada de razão da progressão.

68
Na progressão aritmética (a1 , a 2 , a 3 , L a n , L) tem-se que

a 2 = a1 + r , a 3 = a 2 + r = a1 + 2r , a 4 = a3 + r = a1 + 3r , desde

modo obtemos que a n +1 = a1 + nr para todo n ∈ N .

A fórmula acima pode ser provada por indução sobre n ∈ N .


O exemplo 1) de seqüência é uma P.A de razão 1. Outro
exemplo de P.A é seqüência a = (0,−2,−4,−6,−8,L) onde a
razão é -2.
A soma dos n primeiros termos de uma P.A é dada pela
fórmula
(a + a n )n
Sn = 1 para todo n ∈ N .
2
A dedução da fórmula acima fica a cargo do leitor (sugestão:
Prove por indução sobre n). Na seqüência
a = (1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,L n,L) a n primeiros termos é dada por
(1 + n)n
Sn = , por exemplo para n=100 temos que
2
(1 + 100)100
S100 = = 5050 . Um fato interresante que a soma dos
2
infinitos termos de P.A. é sempre divergente, isto é, infinito (
+ ∞ ) ou “menos” infinito ( − ∞ ).

Progressão Geométrica (P.G)

Definição: Uma Progressão Geométrica e uma seqüência


(a1 , a 2 , a3 ,L a n ,L) definida por a n +1 = a n q onde q é uma

constante chamada de razão da progressão.


Na progressão aritmética (a1 , a 2 , a 3 , L a n , L) tem-se que

a 2 = a1 q , a3 = a 2 q = a1 q 2 , a 4 = a3 q = a1 q 3 , desde modo obtemos

que
an+1 = a1q n para todo n ∈ N .
A fórmula acima pode ser provada por indução sobre n ∈ N .
1
O exemplos 3) e 4) de seqüência são P.G de razão -1 e ,
10
respectivamente.
A soma dos n primeiros termos de uma P.G é dada pela
fórmula
a (q n − 1)
Sn = 1 para todo n ∈ N .
q −1
A dedução da fórmula acima fica a cargo do leitor (sugestão:
Prove por indução sobre n). Na seqüência

69
1 1 1
a = ( , 2 ,L n , L) a n primeiros termos é dada por
10 10 10
1 1 1
( n − 1) 1 − n
S n = 10 10 = 10 , por exemplo para n=3 temos que
1 9
−1
10
1
1−
S3 = 1000 = 111 = 0,111 . Um fato interresante que a soma
9 1000
dos infinitos termos de P.G. pode ser convergente, isto é, ser
finito, cujo o valor é dado por
a1
S = lim S n = ,
n → +∞ 1− q
desde que q < 1 , pois lim q = 0 ( para mais detalhes ver
n

n → +∞

referência 5.). Assim para a P.G acima temos que


1
1
S = 10 = .
1 9
1−
10

70
Bibliografia

1. LIMA, E. L., CARVALHO, P. C. P., WAGNER, E e


MORGADO, A. C. A Matemática do Ensino Médio
– vol. 1. Coleção do Professor de Matemática:
Sociedade Brasileira de Matemática - SBM, 2006

2. DOMINGUES, H. H. e IEZZI, G., Álgebra Moderna,


São Paulo, Editora Atual, 1979.

3. DOMINGUES, H. H. Fundamentos de Aritmética,


São Paulo, Editora Atual, 1991.

4. HEFEZ, Abramo. Curso de Álgebra – vol. 1.


Coleção Matemática Universitária: Instituto Nacional
de Matemática Pura e Aplicada – IMPA, CNPq, Rio
de Janeiro, 1993.

5. LIMA, ELON LAGES. Curso de Análise – vol. 1.


Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada –
IMPA, CNPq, Rio de Janeiro, 1976.

6. www.obm.org.br/eureka/artigos/irracionais.doc

7. www.insite.com.br/rodrigo/misc/math/pi.html.

8. www-groups.dcs.st-
and.ac.uk/~history/Biographies/Peano.html

9. www-groups.dcs.st-
and.ac.uk/~history/Biographies/Dedekind.html

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