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O jovem apaixonado – Hermann Hesse- Uma lenda Esta história aconteceu no tempo de Santo Hilário.

Na terra natal deste santo, em Gaza, vivia um casal humilde e crente, a quem o Senhor abençoara com uma linda e esperta menina. Para alegria de todos, a menina cresceu em recato, modéstia e temor a Deus, guiada pelos pais para a prática do Bem. Tanta pudicícia e suavidade de modos eram comparáveis às de um anjo do Senhor. Os cabelos escuros e scdosos esvoaçando em torno dos ombros, os olhos modestamente baixos, que longas pestanas sombreavam, caminhava ela sob as palmeiras com movimentos graciosos, esbelta e leve como uma gazela. Não tinha olhos para homem algum, pois aos catorze anos de idade, após grave doença, foi prometida por seus pais, no caso de salvar-se, como noiva de Deus. E Deus aceitara a oferenda. Foi por essa moça pura que um jovem da mesma terra se apaixonou. Também ele era formoso e esbelto, filho de pais abastados que o haviam criado e educado com esmero. Mas desde que se apaixonara pela linda donzela não pensava em outra coisa senão buscar oportunidades para vê-la e dirigir-lhe olhares ansiosos. Mas nos dias em que não lograva encontrá-la ficava triste e pálido, recusando alimentos e passando horas a fio entre suspiros e lamentos. O jovem recebera uma boa educação cristã, era de índole delicada e religiosa, mas essa paixão avassaladora tornara-se dona absoluta de sua alma. Já não conseguia rezar e, em vez de elevar o pensamento para as coisas santas, recordava apenas, obsessivamente, os longos cabelos pretos da donzela, seus belos e tranquilos olhos pestanudos, a cor e os contornos delicados de seu rosto e lábios, o alvo e fino colo, os pequenos e ágeis pés. Temia, porém, comunicar seu grande amor, pois bem sabia que ela não tencionava aceitar homem algum e pretendia devotar seu amor somente aos pais e a Deus. Por fim, consumindo-se de desejo dirigiu-lhe extensa e fervorosa carta, na qual falava de seu grande amor e lhe implorava encarecidamente que o aceitasse para que, num futuro não muito distante, pudessem gozar uma vida conjugai feliz e abençoada por Deus. Perfumara essa missiva com finos pós da Pérsia, enrolara-a com um cordão de seda e ordenara que a entregassem à donzela, em segredo, por intermédio de uma velha criada. Quando ela leu a carta, seu rosto fez-se escarlate, como se tivesse sofrido um ataque de rubéola. Em sua confusão inicial, inclinara-se a rasgar a carta ou mostrá-la imediatamente à mãe. Não o fez, porém, não só por conhecer o jovem desde criança e gostar dele mas também por notar que suas palavras eram repassadas de delicadeza e bondade. Decidiu então devolver a carta à velha, com as seguintes palavras: — Devolve esta carta àquele que a escreveu e diz-lhe que nunca mais me dirija semelhantes palavras. Diz-lhe também que fui prometida a Deus por meus pais, não podendo jamais dar minha mão a um homem, e que devo e quero permanecer em meu estado virginal para servir e honrar a Deus, cujo amor é infinitamente superior e mais valioso do que qualquer afeto humano. E diz-lhe ainda que, enquanto eu não encontrar alguém cujo amor seja superior e mais valioso do que o amor a Deus, permanecerei fiel aos meus votos de castidade. A ele, porém, que escreveu esta carta, desejo que viva na paz do Senhor. E agora vai, e faz-lhe saber que nunca mais aceitarei mensagem alguma. A criada, surpreendida por tanta firmeza, voltou a seu amo com a carta e lhe pôs a par de tudo o que a donzela lhe dissera. Apesar das palavras de consolo da velha, o moço apaixonado entregou-se a ruidosas lamentações, rasgando as roupas e espalhando cinza e terra sobre a cabeça. Não se atrevia mais a procurar a donzela, em seus passeios, limitando-se a segui-la com olhares à distância. À noite, em sua alcova, não conciliava o sono, murmurava o nome da amada e dirigia-lhe milhares de carinhosas e doces palavras, chamando-a de sua luz, sua estrela, sua gazela, sua palmeira, sua pérola e seu consolo... e quando despertava de tais fantasias, e via-se só em sua alcova, tinha acessos de raiva, maldizia o nome de Deus, rangia os dentes e batia com a cabeça nas paredes. Por causa dessa paixão terrena, o temor a Deus toldara-se e acabara por se extinguir de seu coração, onde apenas o demônio tinha agora acesso, dominando o jovem ao sabor de seus desígnios tenebrosos. Foi assim que, certo dia, o tresloucado rapaz jurou que possuiria a donzela, nem que para tanto tivesse que recorrer à força. Viajou para Mênfis e ingressou na escola do sacerdote pagão Asclépio, tomando com ele lições de feitiçaria. Dedicou-se com afinco, durante um ano, a tais estudos e voltou em seguida a Gaza. Começou então a gravar signos mágicos e palavras de sortilégio em placas de cobre com infalíveis poderes de feitiço. Durante a noite, ia furtivamente colocar essas placas sob a soleira da porta onde morava a donzela. Já no dia seguinte à aparição da primeira placa a donzela parecia mudada: seu recatado olhar cabisbaixo tornou-se mais franco, mais animado; soltou os cabelos, deixando-os ondear ao vento;

presumiu que o feitiço tivera algum efeito. lembraram-se os pais de um santo eremita. Essa mudança na donzela enfeitiçada não podia. Entrementes. A mãe. Cientes de tão estranhos modos e palavras. o eremita pensava: . meus apetitosos seios! Aterrorizados.. Depois dirigiu-se para casa. prosseguiu em seu caminho. ergueu os olhos para que ele pudesse contemplá-los como se contempla uma estrela pura e distante. um receptáculo de maus desejos? A moça. Curara tantos enfermos e exorcizara tantos demônios que bem podia ser tido na conta — ao lado de Santo Antônio — do mais poderoso agente de Deus daqueles recuados tempos. em pleno deserto. reencontrava o caminho da virtude e. pois. Mas dominou-se e. Ela sorriu como um anjo e disse: —• Não deveis renunciar a mim para sempre. Sua formosura dissipou-se. viu-a surgir ao longe e encaminhar-se na sua direção. acabou dizendo seu nome e confessando todas as suas artimanhas. A donzela foi então levada por seus pais a Hilário. eu vos amo. Surpreendido. fechou-a e foi para o deserto servir a Deus. Quero unicamente fazer aquilo que for de vosso agrado. proferindo até blasfêmias e gritando cm altas vozes que desejava seu amado. envergonhado de sua malfeitoria. disse: — É certo. Mas Hilário sorriu. Hilário acercou-se da donzela e assim falou: — Quem fez de t i . sentindo-se acossado por uma força superior à sua. Amo a vossa pobre alma e vos rogo que a liberteis do Mal. O jovem. Esta conduta tornava-se mais escandalosa com o passar dos dias.Uma indescritível bondade resplandecia em seu rosto suave. e ouviram-na cantar uma serenata de amor que ninguém lhe ensinara. Entregai-a a Deus para que readquira a pureza e a formosura de outrora. Quero ser vossa amiga. Chegou perto da donzela e. Será por pouco tempo que vivereis separado de mim. devo então renunciar ao vosso amor para sempre? Pois ordenai-me que o faça. voltava à cidade. curada. Quando acordou. reconheceu e saudou os pais. ao mesmo tempo ern que a donzela. Uma mão invisível tocou o coração do jovem. meu irmão. O santo expulsou violentamente o demônio. voltou a ser a boa serva de Deus. e reconhecendo o Diabo que se apossara da donzela. começou ridicularizandoo. Chegará o dia em que todos estaremos irmanados diante do trono de Deus. remexia-se nas almofadas do leito. como de um sono febril. que choravam. dessa hora cm diante. e esta acabou tombando sem sentidos. Passava os dias acalentando essa esperança. chamando-o de seu bem-amado e confessando desejos carnais. espiavam-na discretamente e tanto se apavoraram com o que ouviram uma noite que o indignado pai logo quis expulsar de casa a depravada filha. chamando-o de espantalho sarnento e entoando em voz dolente: — Vede minha pele branca e macia. Reteve entre as suas mãos a mão do jovem e respondeu: — Sim. o jovem esperava que os feitiços de amor fizessem efeito na donzela e a levassem a seus braços ávidos. Como a donzela continuasse possessa. emagreceu. ele viu que no rosto da donzela refulgia a antiga pureza e que toda ela irradiava uma beleza tranquila. certo de um desfecho propicio. sorrindo. teve um súbito impulso de afastar-se. e tão perto de Deus que todas suas preces eram ouvidas. depois das provações acima narradas. meu corpo liso. Hilário. como que fascinado. os cabelos encanecessem e ele ficasse neste mundo até à idade de oitenta anos. O jovem ficou imóvel. a quem contaram tudo o que estava acontecendo e imploraram ajuda. os pais caíram de joelhos e esconderam a cabeça entre as mãos. a pele escureceu. contudo. Tratemos pois de proceder de modo a que possamos olhá-lo sem temor e passar em Seu Juízo. seu único consolo era repetir centenas de vezes as palavras da donzela: "Será por pouco tempo. encarando aquele que tinha o corpo esquálido e a pele queimada. Quando já estavam perto um do outro. que me tendes amor? A donzela. tomados de vergonha. ao passar por uma rua. o jovem estacou e. era preciso examinar bem o caso e reconhecer que a filha fora levada a tão estranho comportamento certamente por algum feitiço.desleixou as orações e serviços religiosos. e de noite. Soltou lentamente suas mãos e. fustigou-o tanto que. ficaram vigilantes. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele exclamou: — Ah. sem enrubescer. Quando se sentia exausto e dúvidas o assaltavam. serva de Deus. que opunha a maior resistência na alma da donzela.. como se tivesse acabado de descer do Paraíso. gritando o nome do jovem." Embora o tempo se alongasse. como ela se acercasse bastante. que vivia há longos anos fora da cidade. dividia seu tugúrio com os animais do campo. passar despercebida a seus pais. evidentemente. tomando-lhe as mãos. pediu a Hilário sua bênção e. implorou paciência.

e não ficará outro vestígio de nossa vida senão... Desde os recuados tempos em que viveu esse jovem. A Eternidade me espera. . muitas centenas de anos já transcorreram e com que rapidez serão também esquecidos os nossos atos e os nossos nomes. após este vôo breve pelo mundo. talvez.Que são oitenta anos? Os anos vêm e morrem como se tivessem as asas de um pássaro. uma pequena e incerta lenda.