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Aciênciano

combateàpobreza

O trabalho inovador

da economista Esther Duflo para reduzir a miséria nos

países pobres faz dela,

aos 38 anos, uma candidata

ao Nobel de Economia

Peter Moon

Programa Bolsa Família é um óti-

mo exemplo do fosso ideológico

que contamina o debate sobre políticas - públicas em todo o mundo. Ele beneficia 12,4 milhões de famílias brasilei- ras e foi decisivo na vida delas. Cada uma recebe do governo um estipêndio mensal

em troca de manter os filhos na escola e com a carteira de vacinação em dia. O

sucesso - ou fracasso - desse programa

é objeto frequente de discussões intermi- náveis, em geral contaminadas por incli- nações políticas, daquelas que costumam gerar muito calor e pouca luz.

De um lado, seus partidários defendem

o Bolsa Família como a maior inovação surgida nos últimos tempos no combate à pobreza, essencial para conferir cida- dania a uma massa enorme de excluídos.

Seus críticos dizem que ele apenas cria

uma subcasta de dependentes do Estado - que, interessados em manter a benesse, dificilmente terão interesse nas "portas de

saída" para a economia formal. Quem tem

razão? Serâo Bolsa Família uma estratégia

efrcaz p ar a reduzir a p obr eza?.

Eis o tipo de questão que fascina a jo- vem e pequenina economista parisiense Esther Duflo, de 38 anos. Em dezembro

de 2009, ao ser incluída na lista dos I 00 in-

telectuais mais influentes do planeta pela revista Foreign Policy, Duflo confessou o desejo de conhecer o Brasil. Jâ realizo:u

o sonho?'Ainda não, mas irei!", escreveu

ela numa mensagem de correio eletrônico enviada a ÉpOC,q. de alguma aldeia no

interior da Índia. Duflo se atribuiu uma

missão: reduzir a pobreza mundial. É um

sonho de menina. Ela cresceu num bairro

de classe média de Paris. Seu pai é rna-

temático. Sua mãe, médica, vivia viajan-

do para a Africa em missão assistencial.

"Nunca fui pobre", disse à revista Bloom- berg Businessweek."Mas, de certa forma, sempre estive em contato com a miséria, vendo as fotos que minha mãe trazia e as histórias que contava." Sua carreira começou colaborando com os megaprojetos de combate à fome pro-

movidos pelo economista )effrey Sachs,

da Universidade Colúmbia, em Nova

York. Sachs advoga o investimento ma- ciço, a fundo perdido, dos países ricos

para erradicar apobreza. Mas, após anos de megassubsídios, nenhum projeto li-

derado por ele na África e no Leste Eu-

ropeu rendeu frutos palpáveis - apesar de todos dragarem dezenas de milhoes de dólares. A visão de Sachs é oposta à

hoje defendida pelos economistas da ins-

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DuÍlo foi a

intelectual mais

jovem a proferir

conferências no Collêge de France,

em Paris (onde Íoi fotograda), um centro de

excelência consagrado pelos grandes sábios e ÍilósoÍos franceses

tituição onde ele começou sua carreira:

o Banco Mundial. Para eles, o combate à

pobreza só será eficaz financiando proje-

tos com finalidade clara, que resultem na produção de riqueza e possam, em última instância, andar com as próprias pernas. E entre esses dois polos que se inserem as novas ideias de Duflo.

Para tentar reduzir a pobreza, ela ado-

tou uma abordagem pragmática. Ao estu-

dar o modo de vida e as necessidades dos

moradores de cada região, Duflo procu-

ra enxergar além da frieza dos números.

Tome um exemplo: ao contrário do Bra-

sil, onde a população

acorre em massa

às campanhas de vacinação, na Índia a população é refratária. Por isso, doenças

erradicadas no resto do planeta, como

a paralisia infantil, Iá persistem. Mudar

a percepção dos indianos em relação à

imunização é crucial. Duflo percebeu que

bastava um pequeno incentivo, no caso I quilo de lentilhas, dado de graça às mães

que vacinassem os filhos. Ela promoveu um teste para avaliar se a ideia dava certo. E funcionou. Nas aldeias onde se dava lentilha, a taxa de crianças vacinadas foi equivalente a seis vezes a observada nas

aldeias sem o incentivo. Outro estudo de

Duflo foi capaz de reduzir a gravidez em

adolescentes no Quênia. Duflo notou que

as aulas de educação sexual não adian- tavam. A solução foi alertar as meninas

para o risco do assédio sexual por homens entre 25 e 35 anos.

Paraoutrapesquisa, feita no Pa-

quistão, Duflo criou um incentivo inusita- do. O objetivo era garantir que os pacientes de tuberculose tomassem todas as doses

do longo tratamento com antibióticos,

que só é capaz de curar a doença depois

de seis meses. EIa resolveu distribuir aos

pacientes um papel absorvente - e pedir

que eles urinassem sobre o papel. Se o

paciente estiver tomando suas doses re-

gulares de remédio, o papel revela um có-

digo que pode ser usado para ganhar cré-

ditos de celular. Tâl incentivo também )

2rr de ! ho de 2OlO, ÉPOCÀ :,69

A inspiração vem da medicina

A economista Esther Duflo pertence a um grupo de cientistas

que usa em suas pesquisas (econômicas, politicas ou comportamentais)

metodos tipicos da medicina e das análises clÍnicas

Em primeiro lugat Duflo define

I a amostra (a população a ser investigada) e o obietlvo da pesquisa. Um exemplo: aferir os resultados do incentivo do uso de

fertilizantes na agricultura familiar do Quênia. Ou detectar o impacto

da doação de livros na melhoria do desempenho escolar das crianças

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A maioria dos métodos

tradicionais de pesquisa divide

os indlvíduos da amostra por

idade, sexo, faixa de renda, nível educacional etc. Para Duflo, há casos em que a separação invalida o resultado Íinal, pois ignora a existência de fatores culturais ou

comportamentais preexistentes.

Na agricultura familiar, seria o caso do apego dos idosos às técnicas ancestrais de plantio que os tornam

refratários ao uso de fertilizantes

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Na pesquisa, Duflo parte de uma amostra grande, dividindo-a de

Iforma aleatória em dois grupos de mesmo tamanho. Cada grupo reúne pessoas de ambos os sexos, de todas as Íaixas etárias, e diversos estratos de renda e nível educacional

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O prlmelrogrupo

recebe o íncentivo (fertilizante ou livros,

nos exemplos).

O segundonada

recebe. Os resultados depois são medidos

ao longo do tempo

nas duas amostras

e comparados por meio de uma rigorosa análise estatística. Se

o incentivo se revela

eficaz, ele depois pode ser adotado como política pública em outros lugares

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está sendo submetido a um teste e compa- rado com uma amostra de pacientes que não recebem o absorvente.

Mais que suas ideias criativas, a prin- cipal inovação das pesquisas de Duflo

é o uso consistente de testes estatísticos comparativos, depois analisados com ri-

gor científico. É aprorimadamente o que

fazem os laboratórios farmacêuticos que testam novas drogas ou os médicos que estudam como combater doenças. Não foi Duflo quem criou essa metodologia. Ela é

fruto do trabalho do economista indiano Abhijit Banerjee, fundador do Laborató-

rio da Pobreza do Instituto de Tecnologia

de Massachusetts (MIT) e orientador de

Duflo. "Bastaram dez minutos da primei-

ra aula com Banerjee para saber que estava

no lugar certo", diz Duflo.

O método de Banerjeê é conhe-

cido como "teste randomizado" (do inglês random, aleatório). Ele não leva em conta

apenas e tão somente o gênero, a faixa etá-

ria e o recorte econômico e educacional

do público,pesquisado

- variáveis que

perdem o sentido em muitas áreas rurais

da Índia e da África (ou do Norte e do

Nordeste brasileiros), pois todos são mi- seráveis. A inovação é escolher aleatoria-

mente os grupos pesquisados e priorízar variáveis como costumes ou tradições que passam de pai para filho. Duflo, com seu inglês com forte sotaque

francês, se tornou rapidamente a princi-

pal assistente de Banerjee. Ao se doutorar,

foi imediatamente contratada pelo MII

algo raríssimo nas grandes universidades americanas. Foi com suas soluções enge- nhosas que ela ganhou evidência dentro e fora da academia. Em setembro de 2009,

ela recebeu o Prêmio dos Gênios da Fun-

dação MacArthur, US$ 500 mil dados a pesquisadores e artistas surpreendentes,

os "gênios". Em abril de 2010, foí avez da

medalha ]ohn Bates Clark, conferida ao

economista com menos de 40 anos que

mais contribuiu para o avanço do pen- samento econômico. A medalha é con-

siderada o primeiro passo na direção do

Nobel de Economia. Desde 2000, Duflo

se divide entre o MIT e as pesquisas de campo na Índia e no Quênia. Ela diz que não sonha com o Nobel - mas com o Bra-

sil. Se quer erradicar nossa miséria, um

excelente primeiro passo seria promover

um teste randomizado para avaliar - livre

dos preconceitos do Bolsa Família.

ideológicos - a eficácia