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AI-5: o golpe dentro

do golpe
Mesmo 40 anos depois, o Brasil ainda sofre suas conseqüências

Daniele Domingues, Marcos Pinheiro e Talita Lima

Evandro Teixeira

m 2008, a decretação do
AI-5 (Ato Institucional
número 5) completa 40
anos. Baixado em 13
de dezembro de 1968, assinado pelo
general-presidente Arthur da Costa
e Silva, o AI-5 fazia parte de uma es-
tratégia da chamada “linha dura”
do regime militar que se encontrava
descontente com os rumos da políti-
ca brasileira. Composto por 12 arti-
gos que instauraram um regime de
exceção ainda mais violento do que
aquele que estava em vigor, o ato
conferiu poderes excepcionais ao
Executivo e praticamente eliminou
todas as liberdades individuais e ins-
Militante sendo reprimido por policiais
titucionais ainda existentes no País.
Foi revogado apenas em 1978, pelo
general-presidente Ernesto Geisel, políticas sociais. Na França, desta- Guevara, os grupos de oposição
na retomada do processo democrá- cou-se a marcha de 30 mil mani- ilegal se multiplicaram. Data desta
tico. Durante 10 anos o Brasil viveu festantes que cantavam o hino da época, por exemplo, o surgimen-
sob as rédeas do AI-5, que permitiu, Internacional Comunista enquan- to de organizações clandestinas
entre outras coisas, o chamado “mi- to estudantes tomavam a tradi- como a Vanguarda Popular Revo-
lagre econômico” e o crescimento cional Universidade de Sorbonne, lucionária (VPR) e o Movimento
da economia patrocinado por volu- exigindo reformas no ensino. Até Revolucionário 8 de Outubro (MR-
mosos empréstimos externos. a Igreja Católica apoiou a onda 8). O Partido Comunista Brasileiro
de inovações quando, no 39o Con- Revolucionário (PCBR) também
O mundo à esquerda gresso Eucarístico, o papa Paulo VI foi formalmente criado em 1968,
O ano de 1968 foi marcado por clamou por justiça social. participando do movimento de re-
movimentos de protesto em todo Toda essa efervescência não dei- sistência à ditadura e incentivan-
o mundo. Na Alemanha, no Mé- xou de contagiar os brasileiros. do greves operárias em todo país.
xico, na Grécia e na França, parti- Incentivados pela vontade de der- Os estudantes, que lideravam
cularmente os estudantes foram às rubar a ditadura e inspirados pela os protestos contra o regime im-
ruas reivindicando mais liberdade alternativa política apresentada plantado pelos militares no Bra-
e mais atenção dos governos às pela Revolução Cubana e por Che sil, passaram a receber apoio de

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setores da população que tinham gem (Minas Gerais), Osasco (São leiros, foram presos no Congresso
sido favoráveis ao golpe de 1964. Paulo) e Cabo (Pernambuco) fo- da UNE (União Nacional dos Es-
A Igreja Católica e a classe média ram violentamente reprimidas. tudantes), realizado na cidade de
percebiam que a prometida “in- O regime militar ainda promo- Ibiúna, em São Paulo. Em 22 de
tervenção eventual” dos militares veu atentados contra os Teatros novembro, foi criado o Conselho
para restabelecer a “combalida do Galpão e Ruth Escobar (São Superior de Censura que aumen-
moral da nação” com a finalida- Paulo) e Opinião (Rio de Janei- tou o controle e a repressão aos
de apenas de manter a democra- ro). A escalada da violência poli- meios de comunicação social. Em
cia, estava se tornando um regime cial culminou com o assassinato 12 de dezembro de 1968, o Con-
duradouro e cada vez mais opres- do estudante Édson Luís de Lima gresso Nacional, com base na
sivo. Mesmo o grande empresaria- Souto no Restaurante Calabouço, Constituição de 1967, que ainda
do, importante patrocinador do no Rio de Janeiro, por agentes da garantia a imunidade parlamen-
regime, resignava-se com as bai- repressão que suspeitavam de seu tar, recusou, por uma diferença
xas taxas de crescimento da eco- envolvimento com grupos ilegais de 78 votos, o pedido de cassação
nomia. Graça Salgado, professora de oposição. Assustada, a mesma de Márcio Moreira Alves.
de História da PUC-Rio, lembra classe média que apoiara o golpe
que havia contradições políticas de 1964, participou maciçamente AI-5: dissolução do Congresso
entre os que ocupavam o poder: da passeata dos 100 Mil, no Rio de e poder extraordinário ao
“Os militares estavam divididos Janeiro, que exigia a redemocrati- presidente
quanto aos rumos do regime. Ha- zação do País. Diante das crescentes manifes-
via divergências entre os ‘caste- Nos dias 2 e 3 de setembro de tações de força da oposição demo-
listas’, militares mais moderados 1968 o deputado Márcio Moreira crática, os militares chegaram a
que até então eram maioria, e a Alves (MDB) discursou na Câma- pensar em praticar atos terroris-
chamada ‘linha dura’ ligada ao ra, pedindo que as pessoas boico- tas, tais como explodir o gasôme-
SNI (Serviço Nacional de Informa- tassem o desfile da Independên- tro e estações de energia elétrica,
ções) e que defendia o fechamen- cia, em 7 de setembro, e que as no Rio de Janeiro, para culpar os
to total”. Certamente a decretação mulheres, ardentes de liberdade, movimentos de resistência e legi-
do AI-5 foi uma vitória dos setores não namorassem oficiais das timar a radicalização do regime.
mais radicais. Forças Armadas enquanto a es- Mas os setores radicais do gover-
Crescia a oposição política, e calada da violência não parasse. no não contavam com ferramen-
junto com ela a repressão policial. O Exército considerou ofensivas tas institucionais eficientes para
A Frente Ampla, movimento de e intoleráveis as declarações do aumentar a repressão. Em 13 de
oposição liderado por Carlos La- deputado e pediu a sua imediata dezembro de 1968, no dia seguin-
cerda e seus antigos adversários cassação. Em outubro de 1968, te à recusa do Congresso de cassar
Juscelino Kubitschek e João Gou- mais de 700 estudantes, repre- o mandato do deputado Márcio
lart, foi impedida de se articular sentantes dos movimentos estu- Moreira Alves, os doze artigos do
e as greves operárias de Conta- dantis de todos os estados brasi- AI-5 impuseram o medo e a mor-
daça a uma sociedade brasileira
perplexa. Na prática, o decreto
suprimiu as liberdades individu-
ais, deu poderes extraordinários
“O Ato instalou o terror de Estado no Brasil. ao presidente, dissolveu por tem-
po indeterminado o Congresso e
Nessa época tive meus melhores professores
abriu espaço para a sistematiza-
cassados, exilados, e amigos e companheiros de ção e a institucionalização da cen-
faculdade que começaram a desaparecer sura, das prisões arbitrárias e das
torturas. Simultaneamente, foram
ou simplesmente abandonar a universidade” cassados 30 prefeitos, 36 vereado-
Graça Salgado res, 178 deputados estaduais e 105
senadores e deputados federais.
A professora Graça Salgado re-
lembra o que o AI-5 representou

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CODI da Rua Barão de Mesquita,
fui bastante torturada por mili-
tares absolutamente sádicos que
queriam a qualquer custo infor-
mações sobre o paradeiro do meu
irmão. Mas eu não sabia de nada,
pois ele já estava desde 1969 na
mais absoluta clandestinidade, e
não nos víamos desde então. Dis-
to os militares não se convenciam
Protesto contra a censura Junta militar em 69. General Lyra Tavares
e por isso a tortura a que fui sub- (esquerda), Almirante Augusto Rademacker
metida”. (centro) e Brigadeiro Marcio de Souza e
Melo (direita).
O “milagre econômico“
para sua geração: “O Ato insta- Sob o manto do AI-5 o governo co” vitimou as classes mais baixas
lou o terror de Estado no Brasil. da ditadura resolveu implemen- e foram criados mecanismos que
Nessa época tive meus melhores tar um novo plano econômico produziram uma concentração de
professores cassados, exilados, e com objetivo de, finalmente, le- renda ainda maior. Temia-se que as
amigos e companheiros de facul- var o Brasil para o grupo dos pa- classes baixas gastassem o exceden-
dade que começaram a desapare- íses desenvolvidos. Aproveitando te em bens de consumo, aos quais,
cer ou simplesmente abandonar a a artificial estabilidade política, historicamente, não tinham acesso.
universidade. Já não havia mais Delfim Neto, Ministro da Fazenda Com isso, implantou-se o arrocho
clima para qualquer tipo de ação empossado em 1969, promoveu salarial sobre as classes trabalhado-
política, de exercício do pensa- a maciça entrada de capitais es- ras através da fixação de tetos sa-
mento crítico, o que, para nós que trangeiros em vários setores da lariais e a estabilidade no emprego
éramos uma geração muito mo- economia, com destaque para a foi substituída pelo FGTS (Fundo de
bilizada politicamente, significou extração de minerais metálicos, Garantia por Tempo de Serviço). Os
uma imensa violência e absoluta expansão das fronteiras agrícolas, sindicatos e prestadores de serviços
derrota. O clima de delação foi o indústrias química e farmacêutica assistenciais foram esvaziados, ca-
que passou a vigorar no espaço e fabricação de bens intermediá- bendo ao Executivo decidir sobre as
universitário. Era impossível pen- rios (máquinas e equipamentos). questões de política salarial.
sar, o ambiente era irrespirável”. O imediato resultado foi o cha-
mado “milagre econômico”, ou O legado do AI-5
O Brasil do AI-5 seja, o crescimento acelerado do O AI-5 deixou cicatrizes perma-
Com a vitória dos representan- PIB a taxas de 9% a 10% ao ano nentes na sociedade brasileira.
tes do aparelho repressivo, os mi- entre 1969 e 1973. A classe média De maneira sutil e muito pouco
litares conseguiram desmantelar e o empresariado aderiram no- comentadas, muitas das questões
toda forma de oposição que ultra- vamente ao regime por conta da que enfrentamos atualmente têm
passasse o perímetro considerado ampliação do poder de compra, suas raízes no golpe de 1964 e,
seguro — ocupado por instituições da elevação dos salários em car- principalmente, nos reflexos do
civis como OAB, ABI e o MDB. gos que exigiam qualificação, da ato institucional número cinco.
Graça chegou a sofrer na pele ampliação de créditos bancários e Uma das suas conseqüências é a
os métodos repressivos adotados da multiplicação dos lucros. escassez atual de lideranças polí-
pela ditadura: “Entre 1969 e 1971 Entretanto, esse crescimento ar- ticas. Com a limitação do número
sofri duas prisões por conta da mi- tificial proporcionado pelos meca- de partidos políticos e a persegui-
litância estudantil, mas também nismos repressivos do AI-5 acabou ção aos opositores, os militares
e, sobretudo, pela participação de sendo devastador no longo prazo. reduziram muito as possibilidades
meu irmão João Lopes Salgado, Os pesados empréstimos levaram à do surgimento de lideranças polí-
no seqüestro do embaixador nor- multiplicação da dívida externa e ticas legítimas.
te-americano Charles Elbrick, em quando, no fim da década de 1970, Outra conseqüência perversa
setembro de 1969. Na minha se- os juros dispararam, a recessão foi é a legitimação da violência. A
gunda prisão, a de 1971, no DOI- inevitável. O “milagre econômi- institucionalização de ações arbi-

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trárias do aparelho repressivo co- vivemos como se estivéssemos sob bre os 40 anos do AI-5 que será
meçou nas operações criminosas o decreto de um estado de sítio, de lançado em 2008, foi o próprio
organizadas durante a ditadura, exceção, com horas e lugares cer- Congresso que possibilitou um
como a Operação Bandeirantes tos para ir e voltar. As pessoas têm ato abusivo e antidemocrático
(Oban) e seus “bicos de extermí- medo de sair às ruas, de se relacio- como este: “O Parlamento brasi-
nio”; a Operação Condor, que vi- nar com aqueles que consideram leiro abriu o flanco para o AI-5
sava a eliminação física de qual- diferentes, que vivem em “outro quando na antevéspera do gol-
quer liderança latino-americana mundo”. pe de 1964 o senador Auro de
de esquerda e até o Esquadrão da A exclusão social acabou por Moura Andrade declarou vaga
Morte, que pontificava as ações criar cisões cada vez maiores a Presidência da República com
policiais com a simples matança entre pobres e ricos. Cidadania o presidente João Goulart ainda
de marginais no final da década deixou de ser uma questão de em território nacional. É como
de 1960. Estes foram os precurso- política para virar uma questão se, do ponto de vista da institu-
res dos grupos de extermínio que de polícia, a luta por direitos cionalidade democrática, o Con-
existem até hoje na Baixada Flu- humanos se esmaeceu. A polícia gresso se antecipasse e dissesse:
minense e na Grande São Paulo. não investiga e nem reivindica ‘nós não somos necessários’. O
Para Oswaldo Munteal, historia- do Estado os instrumentos ne- Parlamento brasileiro adotou
dor e professor da PUC-Rio e UERJ, cessários para realizar as inves- uma posição golpista antes mes-
o BOPE é resultado da criação des- tigações, a tortura faz parte da mo que os militares”.
te “Estatuto da Violência”. “O que rotina policial. O fato é que 40 anos depois do
é a tropa de elite senão a apologia O AI-5, além de abrir os cami- pior ato político da ditadura mili-
desse lixo político recuperado da nhos para a institucionalização tar ainda vivemos sob a sua som-
ditadura? O BOPE ‘mata as pesso- da violência no Brasil, celebrou bra. A legitimação da violência, a
as certas’, como a ditadura dizia um poder constituído, não cons- fragilidade da luta pela promoção
fazer. Eles não erram, não matam titucional, um poder imposto dos direitos humanos e o uso da
gente inocente, criança, trabalha- de cima para baixo. Provocou política para promover os inte-
dor: quem morre são as pessoas a vilania das instituições políti- resses pessoais foram alguns dos
marcadas para morrer. O estado cas como a Câmara e o Senado, legados deixados por essa marca
de segurança não é um estado de potencializou a cultura do “go- da nossa história. Viramos o país
extermínio. Uma coisa é dar segu- vernar para os amigos”, do “fari- do “farinha pouca, meu pirão pri-
rança ao cidadão, outra coisa é nha pouca meu pirão primeiro” meiro”, do “é dando que se rece-
eliminá-lo”, afirma. e da corrupção. Ainda de acordo be”, da corrupção e do atraso. O
A legitimação da violência esta- com o professor Munteal, que é AI-5, como disse Chico Buarque,
beleceu a cultura do medo. Ainda um dos autores de um livro so- “emburreceu o Brasil”.

O AI-5, de 13 de dezembro de 1968, baixou uma série de disposições arbitrá-


rias. O discurso dos militares sobre a legitimidade do ato em prol da democra-
cia e das liberdades era obviamente absurdo, o que pode ser notado por algu-
mas justificativas ao Ato, aqui descritas:

Artigo 5. A suspensão dos direitos políticos com base neste Ato, importa simul-
taneamente em:

I – cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;


II – suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;
III – proibição de atividade ou manifestação sobre assunto de natureza política;
IV – aplicação, quando necessário, das seguintes medidas de segurança:
A) liberdade vigiada;
B) proibição de freqüentar determinados lugares;
C) domicílio determinado.

(...) Artigo. Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade,
bem como a de exercício em funções por prazo certo.

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