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REFORMA FISCAL EM ANGOLA 2012 REFORMA FISCAL EM ANGOLA A reforma fiscal que está em

REFORMA FISCAL EM ANGOLA 2012

REFORMA FISCAL EM ANGOLA A reforma fiscal que está em curso assenta em cinco pilares: (i) reforma do sistema tributário, (ii) reforma da administração tributária e da (iii) justiça tributária, (iv) revisão dos encargos parafiscais e o (v) estabelecimento de convenções internacionais para evitar a dupla tributação.

Pese embora os diplomas legais que procedem à reforma ainda não tenham sido publicados, apresentamos, de seguida, uma breve síntese das principais alterações que se prevêem.

I. IMPOSTO INDUSTRIAL

Em sede de Imposto Industrial, está previsto um vasto leque de alterações, tanto no Código do Imposto Industrial, como em diplomas avulsos. Destacamos as principais alterações:

(i)

Eliminação do actual grupo C de tributação (pessoas singulares no âmbito de actividades industriais e comerciais exercidas por conta própria), que passa a estar sujeito ao Imposto sobre os Rendimentos de Trabalho (IRT);

(ii)

Redução da taxa geral de 35% para 30%.

(iii)

Alargamento do âmbito de incidência objectiva, passando a estar sujeitas a este imposto as actividades reguladas pelo Instituto de Supervisão de Seguros, Instituto de Supervisão de Jogos e pelo Banco Nacional de Angola, assim como também as actividades de mera gestão de carteiras de imóveis;

(iv)

Nova incidência sobre pessoas colectivas com sede no estrangeiro, sem estabelecimento estável em Angola, sendo criado um regime especial de tributação de serviços de natureza acidental, que revoga a actual Lei sobre a Tributação das Empreitadas (Lei n.º 7/97, de 10 de Outubro);

(v)

Nova incidência sobre entidades sem personalidade jurídica com sede ou direcção efectiva em Angola (por ex., pessoas colectivas sem registo definitivo ou declaradas inválidas, associações e sociedades civis sem personalidade jurídica e heranças jacentes);

(vi)

Eliminação do regime de atribuição de isenções subjectivas motivadas por fins sociais ou económicos;

(vii)

Novo regime de neutralidade fiscal aplicável à fusão de sociedades comerciais;

(viii)

Novas regras quanto as obrigações declarativas, cobrança e garantias dos contribuintes.

Novas regras para a determinação da matéria colectável do Grupo A (ix) Alargamento do âmbito

Novas regras para a determinação da matéria colectável do Grupo A

(ix)

Alargamento do âmbito de incidência do Grupo de A de tributação a Fundações e Cooperativas cuja actividade gere proveitos adicionais e actualização dos valores a partir dos quais os sujeitos passivos transitam obrigatoriamente do Grupo B para o Grupo A – capital social de 1.100.000 AKZ e proveitos totais de 30.000.000 AKZ;

(x)

Tributação de rendimentos provenientes de títulos de dívida pública, que estavam excluídos de tributação;

(xi)

Variações patrimoniais positivas passam a estar sujeitas a tributação, com exclusão das entradas de capital ou cobertura de prejuízos;

(xii)

Alterações ao nível dos custos/perdas dedutíveis, incluindo a exclusão de custos relacionados com pagamento de juros de empréstimos a detentores do capital da sociedade;

(xiii)

Proveitos sujeitos ao Imposto Predial Urbano (IPU) e ao Imposto de Aplicação de Capitais (IAC) passam a ser deduzidos à matéria colectável, revogando-se o actual mecanismo de eliminação de dupla tributação por dedução à colecta relativamente a lucros decorrentes da detenção de partes sociais nacionais sujeitas a Imposto Industrial;

(xiv)

Novas regras de regulamentação de custos indevidamente documentados, não documentados ou confidenciais, passando os mesmos a estar sujeitos a tributação autónoma;

(xv)

Nova Lei do Mecenato que regula os donativos e liberalidades, estipulando-se a não aceitação de custos relacionados com donativos não enquadrados na nova Lei do Mecenato;

(xvi)

Nova tabela de taxas anuais de reintegrações e amortizações, revogando-se a actual (Portaria n.º 755/72, de 26 de Outubro);

(xvii)

Novas regras sobre dedutibilidade de provisões relacionadas com processos judiciais em

curso, créditos de cobrança duvidosa e para custos ou perdas com existências; (xviii)Novas regras sobre os créditos incobráveis, impondo-se a documentação por certidão pública da existência de processos de execução, falência ou insolvência;

(xix)

O reporte de prejuízos fiscais passa a ser impedido quando os mesmos tenham sido apurados durante um período de isenção ou redução de taxa do Imposto Industrial, bem como a impossibilidade da dedução de prejuízos fiscais de actividades isentas ou que beneficiem de redução de taxa com lucros de outras actividades sujeitas;

(xx)

A dedução à matéria colectável de lucros levados a reservas passa a estar limitada até metade do seu valor, impondo-se o seu reinvestimento em instalações ou equipamentos novos que contribuam para a criação de emprego e para o desenvolvimento económico. O reinvestimento deverá realizar-se no prazo de 3 anos e mantém-se dependente de aprovação da Direcção Nacional de Impostos;

Novas regras para a determinação da matéria colectável do Grupo B (xxi) Os sujeitos passivos

Novas regras para a determinação da matéria colectável do Grupo B

(xxi) Os sujeitos passivos passam a ser tributados sobre o lucro real, determinado de acordo com a sua contabilidade (passando a estar sujeitos às regras previstas para os contribuintes do Grupo A). Caso tal se revele impossível, serão tributados pelos lucros obtidos, presumindo- se que os mesmos correspondem a 25% do valor das compras efectuadas e dos serviços contratados no exercício;

Determinação da matéria colectável dos Serviços Acidentais

(xxii) Presume-se que a matéria colectável das entidades sujeitas a este regime é idêntica ao valor global do serviço prestado, excepto se o contribuinte demonstrar que incorreu em custos (componente do preço relativa a matérias-primas, peças ou materiais necessários à

prestação do serviço). Caso efectue tal prova, o contribuinte poderá beneficiar de uma dedução à matéria colectável até 30%;

II. ESTATUTO DOS GRANDES CONTRIBUINTES A nova legislação introduz no regime fiscal angolano a figura do Grande Contribuinte (GC), estabelecendo-se os critérios de classificação, direitos e obrigações da categoria e a organização da Repartição Fiscal dos Grandes Contribuintes, exclusiva para aqueles.

Caberá ao Ministério das Finanças publicar e actualizar a lista de GC. Sem prejuízo de outros, serão incluídos nesta lista os contribuintes que detenham maior montante de imposto entregue no ano de 2010.

Haverá uma relação de proximidade dos GC com a Administração Fiscal, passando esta a designar dois interlocutores privilegiados para manter o contacto com o contribuinte, a possibilidade de planos especiais de parcelamento do pagamento de dívidas ao fisco e, por outro lado, a obrigatoriedade de auditoria e certificação de contabilidade acrescidas e ainda a obrigação de comunicação à administração fiscal de quaisquer alterações na estrutura da sociedade e da sua sede ou direcção efectiva.

Regime de Tributação de Grupos de Sociedades

É criado um regime especial de tributação de grupos societários, caso estes sejam dominados por

um GC, directa ou indirectamente, em mais de 90%. A adesão a este regime implica a tributação do grupo pela soma algébrica dos resultados positivos e/ou negativos das empresas do grupo.

O regime é opcional e, para a sua aplicação, deverá ser entregue modelo específico (Modelo 5) na Repartição Fiscal dos Grandes Contribuintes, até 3 meses antes da data limite de entrega do Modelo 1 do Imposto Industrial, bem como, devem estar verificados cumulativamente os seguintes requisitos:

(i) Sede e direcção efectiva em Angola da sociedade dominante e de todas as sociedades

(i)

Sede e direcção efectiva em Angola da sociedade dominante e de todas as sociedades do grupo;

(ii)

Participação da sociedade dominante na participada deve ter uma antiguidade superior a 2 anos, excepto no caso de sociedades constituídas pela sociedade dominante;

(iii)

Sociedade dominante não pode ser detida por nenhuma outra com sede ou direcção efectiva em Angola, com condições de integrar o grupo;

(iv)

Sociedades dominadas não devem estar inactivas há mais de 1 ano ou ter pendentes contra si quaisquer acções de insolvência, liquidação, dissolução ou execução fiscal, não devem ter registado prejuízos nos últimos dois exercícios fiscais e não devem ser beneficiárias de quaisquer incentivos ao abrigo da Lei do Investimento Privado.

Regime dos Preços de Transferência No âmbito do Estatuto dos GC, o regime de preços de transferência é objecto de maior detalhe, designadamente, no conceito de “relações especiais”, aqui densificado.

Por outro lado, define-se que os GC que registem, no respectivo exercício, um valor de proveitos anual superior a 7 mil milhões de AKZ, passam a ter obrigações declarativas acrescidas, nomeadamente, a obrigação de elaboração de um dossier que suporte as relações e preços praticados com as sociedades com as quais detenham relações especiais. O dossier deve ser entregue até 6 meses após o encerramento do exercício fiscal.

III. IMPOSTO SOBRE OS RENDIMENTOS DO TRABALHO As principais alterações prendem-se com os rendimentos sujeitos a tributação e com a repartição dos sujeitos passivos em 3 grupos distintos: A, B e C.

Grupo A Incluem-se no Grupo A as remunerações dos trabalhadores por conta de outrem e da função pública.

Passam a estar sujeitos a IRT, entre outros, as contribuições para fundos de pensões ou quaisquer regimes complementares de Segurança Social, os subsídios de representação, e quaisquer outros subsídios diários atribuídos aos trabalhadores (excepto funcionários públicos) e remunerações pagas pelos partidos políticos e outras organizações de carácter político ou social.

São também alterados os limites dos pagamentos abaixo dos quais é excluída a tributação:

(i) Abono de família até ao limite de 5% do ordenado base do trabalhador;

(ii) Compensações pagas a trabalhadores por resc isão contratual, independentemente de causa objectiva, que não

(ii)

Compensações pagas a trabalhadores por rescisão contratual, independentemente de causa objectiva, que não ultrapassem os limites mínimos previstos na Lei Geral do Trabalho;

(iii)

Subsídios diários de alimentação e transporte, até ao limite de 25.000 AKZ do seu valor agregado;

(iv)

O reembolso de despesas incorridas pelos trabalhadores quando deslocados ao serviço da entidade patronal, desde que devidamente documentadas;

(v)

Gratificações de férias e o subsídio de Natal, até ao limite de 100% do salário base do trabalhador.

A

determinação da matéria colectável dos rendimentos do Grupo A será efectuada pela dedução

aos rendimentos tributáveis das contribuições obrigatórias para a Segurança Social.

Grupo B No grupo B incluem-se as remunerações dos trabalhadores por conta própria que desempenhem as actividades constantes da lista de profissões anexa ao novo Código do IRT, bem como, os rendimentos auferidos pelos titulares de cargos de gerência, administração ou outros órgãos sociais de sociedades.

A determinação da matéria colectável das remunerações dos trabalhadores por conta própria

poderá ser efectuada com recurso à contabilidade organizada, situação em que serão deduzidos os encargos inerentes à respectiva actividade, com um limite máximo de 30% dos rendimentos

brutos. Caso o contribuinte não disponha de contabilidade organizada, presume-se a existência de encargos dedutíveis correspondentes a 30% dos seus rendimentos brutos.

A determinação da matéria colectável referente aos rendimentos auferidos pelos titulares de

cargos em órgãos sociais de sociedades é feita de acordo com as regras do Grupo A.

À matéria colectável apurada aplicar-se-á uma nova taxa de 20%, face à anterior taxa de 15%. Caso

a matéria colectável tenha sido apurada com recurso a métodos indirectos, aplicar-se-á uma nova

taxa de 25%.

Grupo C No Grupo C incluem-se as remunerações de pessoas singulares, decorrentes de actividades industriais e comerciais exercidas por conta própria (corresponde, em parte, ao actual Grupo C do Código do Imposto Industrial, conforme atrás explicámos).

As novas regras para a determinação da matéri a colectável diferem consoante os rendimentos provenham,

As novas regras para a determinação da matéria colectável diferem consoante os rendimentos provenham, exclusivamente, da prática de comércio com pessoas singulares, ou não. No primeiro caso, a matéria colectável será presumida de acordo com a Tabela de Lucros Mínimos em vigor e estará sujeita a tributação à taxa de 35%, no segundo caso a matéria colectável corresponderá aos rendimentos reais e estará sujeita a tributação à taxa de 20%. 1

Em qualquer dos casos, será ainda possível aos contribuintes deduzir à matéria colectável um conjunto de encargos até ao limite de 30% dos rendimentos brutos auferidos.

IV. IMPOSTO DO SELO Está em aprovação um novo Código do Imposto do Selo, diploma único que vem revogar o Regulamento do Imposto do Selo, a Tabela Geral e os vários diplomas existentes. Prevêem-se alterações profundas no actual regime, reduzindo-se significativamente o número de realidades sujeitas ao imposto (de 164 para 27).

É igualmente introduzida uma nova regra de territorialidade, que sujeita a tributação todos os factos e operações ocorridos em território angolano. O IS incidirá ainda sobre:

(i)

Documentos, actos ou contratos celebrados fora do território nacional, mas apresentados em Angola para quaisquer efeitos legais;

(ii)

Operações de crédito realizadas e garantias prestadas no estrangeiro a quaisquer entidades domiciliadas em Angola;

(iii)

Juros, comissões e outras contraprestações cobradas no estrangeiro por instituições de crédito ou sociedades financeiras aí sedeadas ou filiais ou sucursais no estrangeiro de instituições de crédito ou sociedades financeiras angolanas, a quaisquer entidades domiciliadas em Angola;

(iv)

Seguros efectuados no estrangeiro cujo risco esteja localizado em Angola.

O imposto passa a ser liquidado unicamente por meio de verba, apresentando-se Documento de Liquidação de Impostos e passa a estar ao dispor dos contribuintes a possibilidade de compensação e anulação do imposto pago indevidamente, durante o prazo de 1 ano. Supletivamente, prevê-se ainda a possibilidade de apresentação de um pedido de restituição, caso tenham sido praticados erros de que resulte a entrega de imposto superior ao devido, relativamente aos últimos cinco anos.

1 Caso a matéria coletável tenha sido apurada com recurso a métodos indiretos, aplicar-se-á uma nova taxa de 25%.

V. IMPOSTO SOBRE A APLICAÇÃO DE CAPITAIS As alterações relevantes em sede de IAC prendem-se,

V. IMPOSTO SOBRE A APLICAÇÃO DE CAPITAIS As alterações relevantes em sede de IAC prendem-se, essencialmente, com o alargamento das operações sujeitas a tributação na Secção B, com a alteração das obrigações declarativas e a actualização do valor das penalidades.

Operações sujeitas a tributação - Secção B No âmbito da secção B, destaca-se a inclusão de uma norma residual de sujeição a IAC, à taxa de 15%, para quaisquer outros rendimentos provenientes da simples aplicação de capitais (rendimentos passivos). Por outro lado, verifica-se uma redução da taxa de imposto de 15% para 10%, que incide sobre os juros de suprimentos feitos pelos sócios às respectivas sociedades. É ainda alargada a base de territorialidade da incidência do imposto e reduzido o leque de operações isentas.

Liquidação, pagamento e obrigações declarativas Quanto às realidades previstas nas duas secções, mantêm-se as actuais regras de liquidação e pagamento, sendo, por regra, o imposto liquidado pelos titulares dos respectivos rendimentos. O pagamento do imposto é devido até ao último dia do mês seguinte àquele a que respeita.

A entrega de declaração dos rendimentos passa a ser devida, regra geral, até ao final do mês de Janeiro do ano seguinte.

São actualizadas as multas aplicáveis para os casos de infracções ao Código do IAC.

VI. IMPOSTO DE CONSUMO Relativamente ao Regulamento do Imposto de Consumo, as principais alterações traduzem-se no alargamento da base tributável a novas operações sujeitas a imposto. As operações já previstas no Regulamento continuam sujeitas às taxas actualmente em vigor.

A liquidação do imposto que incide sobre as novas operações sujeitas a tributação é efectuada no acto da facturação, com excepção dos casos em que os fornecedores do serviço sejam não residentes em Angola, situação em que a liquidação cabe ao beneficiário do serviço, se residente e sujeito a Imposto Industrial.

Prevê-se isenção de IC no caso de bens produzidos em Angola, quando estes estejam isentos na importação.

VII. REGIME JURÍDICO DE FACTURAS E PREÇOS EQUIVALENTES Este diploma pretende regular os requisitos da

VII. REGIME JURÍDICO DE FACTURAS E PREÇOS EQUIVALENTES Este diploma pretende regular os requisitos da emissão, conservação e arquivamento de facturas e documentos equivalentes, em Angola.

São definidas taxativamente as operações sujeitas a emissão de factura ou documentos equivalentes (recibo, nota de débito, despacho aduaneiro e talão de venda). São também definidas as operações nas quais se dispensa a emissão e, bem assim, as taxas de multa aplicáveis, nos casos de incumprimento.

O diploma visa generalizar a implementação de sistemas informáticos no processo de facturação, bem como, definir um leque de requisitos a cumprir nesse processo e em momento posterior.

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