desenvolvimento

social

I N S T I T U T O

P Ó L I S

IDÉIAS PARA A AÇÃO MUNICIPAL
N o 191 2001

GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Há cada vez mais adolescentes tornando-se mães e pais. Para diminuir a incidência destes casos, não basta informar sobre métodos contraceptivos: é preciso desvendar a questão para compreendê-la.
elatórios, diagnósticos, jornais, revistas e programas de televisão vêm destacando cada vez mais o tema da gravidez na adolescência, buscando denunciar e dar visibilidade ao aumento do número de meninas grávidas em todo o País. Nessas matérias são citados vários fatores que apontam os riscos físicos e psíquicos de uma gravidez nesta faixa etária, os prejuízos sociais para a jovem mãe, centrados principalmente no afastamento da vida escolar e no abandono de projetos futuros. Historicamente, no entanto, a idade das mulheres terem filhos está relacionada aos mecanismos gerados pela própria sociedade. Por exemplo, no Brasil do século passado, a faixa etária entre 12 e 18 anos não tinha o caráter de passagem da infância para a vida adulta. E as meninas de elite entre 12 e 14 anos estavam aptas para o casamento; e não casá-las nessa idade era problemático para os pais. Esta constatação mostra o quanto a concepção de adolescência está atrelada não só a fatores físicos e psicológicos mas também a fatores econômicos que determinam o modelo de sociedade de cada época. Para a psicologia, a adolescência corresponde a um período entre o final da terceira infância até a idade adulta. Este período é marcado por intensos processos conflituosos, com esforços de autoafirmação. É também um período no qual ocorre uma grande absorção de valores sociais e a elaboração de projetos que levem à plena integração. Já a Organização Mundial de Saúde (OMS) define a adolescência baseada no aparecimento inicial das características sexuais secundárias para a maturidade sexual, pelo desenvolvimento de processos psicológicos e de padrões de identificação que evoluem da fase infantil para a adulta, e pela transição de um estado de dependência para outro de relativa autonomia. Ou seja, a transitoriedade nos aspectos físicos e psicológicos está presente como elemento inerente. Mas não se pode deixar de considerar que a forma de inserção da adolescência na vida so-

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cial adquire formas e importâncias diferenciadas ao longo da história. Atualmente, a sociedade atribui à faixa dos 12 aos 20 anos a atividade escolar e a preparação profissional, em um contexto de dependência econômico familiar. Nas entrelinhas está dito que é preciso atingir a maioridade, terminar os estudos, ter melhor trabalho e melhor salário, para só então estabelecer uma relação amorosa duradoura A gravidez e a maternidade na adolescência rompem com essa trajetória tida como natural e emergem como problema e risco a ser evitado. A própria sexualidade dos meninos e das meninas vê-se contrariada pelos projetos que a sociedade lhes impõe visando determinados fins. Por exemplo: a manutenção da reprodução dentro do marco da família; a necessidade de mão-de-obra qualificada em condições de participar da sociedade de consumo; e a intenção de conter a pobreza por meio da diminuição de nascimentos, sobretudo daqueles partos cujas mães sejam adolescentes pobres, na medida em que a pobreza exige, do Estado, assistência, políticas públicas de saúde, de educação, de habitação. No entanto, para muitos adolescentes, não existe uma relação direta entre gravidez e fim da juventude. Muitas famílias não vêm isso como uma ruptura social e, até mesmo, se solidarizam com a gravidez.

GRANDES QUESTÕES
eria necessário traçar um diagnóstico para aprofundar as principais questões que envolvem esse tema e as mudanças, identificando o que é tradicional e o que é moderno na adolescência de hoje, diferenças entre comportamentos dos e das jovens das zonas rurais e das zonas urbanas. Estudos detalhados são fundamentais para subsidiar o desenho de políticas públicas para adolescentes.

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Uma gravidez na adolescência sem dúvida desencadeia fatores que representam um comprometimento individual com questões de diferentes ordens. Medo, insegurança, desespero, desorientação, solidão são reações muito comuns, principalmente no momento da descoberta da gravidez. No entanto, não se pode ter uma falsa idéia de que toda gravidez na adolescência seja inconseqüente e desastrosa. Tanto a gravidez pode ser fruto da vontade quanto da falta de informação sobre sexualidade, saúde reprodutiva e métodos contraceptivos. Pode estar relacionada com aspectos comportamentais, como a inabilidade (às vezes inibição) da jovem para negociar o uso do preservativo com o seu parceiro, ou ainda com a falta de preocupação do rapaz em praticar sexo seguro evitando uma possível gravidez. Muitos homens se esquecem que a contracepção e a prevenção das DST/Aids não são questões que pertencem exclusivamente ao universo feminino: em um relacionamento, as decisões e a responsabilidade sobre a saúde sexual e reprodutiva são de ambos. É importante conhecer mais de perto a realidade da gravidez na adolescência. Há questões muito complexas que merecem atenção especial para serem compreendidas: por exemplo, que associação existe entre violência doméstica, violência de gênero, desinformação, baixa escolaridade, situação de pobreza, baixa auto-estima e gravidez em idade precoce? De que informações e de que atenção à sexualidade e saúde reprodutiva dispõem as meninas que engravidam? E os meninos, que lugar ocupam nessa história ? Que possibilidade tem os e as adolescentes de disporem de métodos contraceptivos de baixo custo? São estas e outras questões de diferentes ordens que ampliam a possibilidade de conhecimento e permitem desenhar propostas efetivas e adequadas de intervenção. Não se pode esquecer que os motivos que levam a jovem a engravidar devem ser ouvidos e

discutidos. Cada caso é um caso, e o desenlace depende da capacidade de se lidar com a questão, da maneira como se foi educado, dos valores de cada época, e principalmente, do apoio familiar e dos profissionais. Apoiar a adolescente que engravida e seu parceiro não significa estimular a gravidez entre adolescentes, mas criar condições para que esse processo não resulte em problemas físicos e psicossociais.

POSSIBILIDADE DE INTERVENÇÃO
A primeira coisa que um educador ou um profissional de saúde deve fazer é fornecer aos jovens informações claras e honestas sobre sexualidade e saúde reprodutiva. Muitos programas limitam-se a focalizar somente questões reprodutivas. No entanto, para se estabelecer sintonia com os anseios dos jovens é necessário desenvolver atividades que abordem também os aspectos sociais e psicológicos da sexualidade. Alguns programas que vem obtendo êxito ajudam os jovens a desenvolver habilidades para lidar com sua sexualidade, tais como poder de decisão, assertividade, capacidade de negociação, etc. O desenvolvimento destas habilidades pode ser trabalhado, observando-se os seguintes itens: a) garantir que o aprendizado e a discussão sobre sexualidade, contracepção e prevenção das DST/Aids ocorra antes de os adolescentes ou jovens iniciarem a vida sexual ativa;

b) incluir e garantir a participação dos adolescentes em todos os estágios do processo educacional; c) levantar os temas de interesse sobre sexualidade, discuti-los por ordem de prioridade e leválos a refletir sobre a necessidade de usar contraceptivos para evitar a gravidez e prevenir as DST/Aids; d) refletir e discutir as relações de gênero, valores, sentimentos e emoções; e) responsabilizar também os meninos quanto à anticoncepção e conscientizá-los da importância do uso do preservativo; f) estimular os meninos e as meninas a adquirirem novas habilidades e atitudes desenvolvendo atividades como dramatizações e exercícios de dinâmica de grupo. Além disso, uma abordagem com um caráter menos coercitivo, possibilita formular programas mais adequados às necessidades enfrentadas pelos adolescentes, sem “pré-conceituar” a paternidade e a maternidade nessa fase como pura e simplesmente negativa. Muitas vezes, mesmo quando um rapaz quer assumir um papel ativo como pai de seu filho, a maioria das instituições sociais ainda parecem recusar-lhe essa possibilidade. Do ponto de vista do educador, é importante criar espaços, mostrar alternativas e despertar o prazer pelo conhecimento.

RECOMENDAÇÕES
Além das ações educativas, é preciso constituir políticas de saúde reprodutiva para os jovens de

forma mais ampla, com caráter intersetorial levando em conta a participação dos jovens, considerando a heterogeneidade existente, inclusive dentro da faixa etária, e propor estratégias diferenciadas que privilegiem os grupos de maior vulnerabilidade. Implementar políticas que aumentem o acesso a serviços de promoção geral da saúde reprodutiva e a métodos que promovam o sexo seguro e a dupla proteção. E, além disso, implementar políticas que abram oportunidades para atividades produtivas, educativas e recreativas visando a ocupação do tempo livre e mudanças de estilo de vida, decorrentes da maternidade e da paternidade. É importante também garantir: a) inclusão de temáticas relativas à saúde e sexualidade na adolescência em todos os projetos voltados para adolescentes; b) articular projetos de educação sexual nas escolas com retaguarda nos serviços de saúde; c) garantir acesso e disponibilizar métodos contraceptivos para os e as jovens, inclusive a contracepção de emergência; d) garantir orientação sobre sexualidade e saúde reprodutiva para o pai e a mãe adolescente após o parto; e) criar abrigos para gestantes adolescentes favorecendo seu acesso a projetos de reforço escolar, profissionalização, etc.; f) garantir os cuidados da criança (creches, parentes, etc.) para que as mães possam continuar na escola; e g) implementar projetos comunitários que ofereçam atenção integrada aos adolescentes (saúde, reforço escolar, esportes, profissionalização, etc.).

O PAI ADOLESCENTE
A gravidez na adolescência tem sido vista e tratada como uma questão exclusiva do universo feminino. São poucas as agendas que relatam experiências de pais adolescentes. Segundo constatações verificadas pelo Programa PAPAI de Recife em seus trabalhos sobre paternidade adolescente, a gravidez na adolescência se confunde na literatura e nas ações sociais com maternidade na adolescência, ou seja, fala-se muito sobre gravidez na adolescência, mas, na verdade, fala-se mesmo sobre a adolescente grávida. Basta reparar que o filho em geral é percebido como sendo da mãe; o homem jovem quase sempre é percebido como naturalmente inconseqüente, aventureiro e impulsivo; o jovem pai é visto, sempre e por princípio, como ausente e irresponsável. Um dos problemas centrais dos estudos sobre gravidez na adolescência, inclusive comprometendo parte dos resultados obtidos, é a escassez ou ausência total de informações sobre os pais. Essas pesquisas tendem a focalizar a experiência da mãe e pouco (ou nada!) falam sobre o pai. Além disso, esses estudos: • não perguntam sobre o que pensam os homens a respeito da reprodução ou fertilidade; • as informações sobre o pai são obtidas de forma indireta, muitas vezes a partir do que as mães dizem; • quando existem pais nas pesquisas, o número geralmente é muito pequeno e não se focaliza a experiência de ser adolescente e estar passando pela experiência da paternidade; • os resultados são pouco precisos para medir transformações psicológicas e culturais; • nem todo parceiro da grávida adolescente é também um adolescente. Em geral ele é um jovem ou adulto; • as informações disponíveis, geralmente, restringem-se aos que moram efetivamente com seus filhos.

Mais Informações: Seminário Gravidez na Adolescência. São Paulo: Associação Saúde da Família, 1998 Caderno Paternidade e Cuidado/PAPAI. Projeto H: série Trabalhando com Homens Jovens. São Paulo: PROMUNDO/ECOS/PAPAI/ Salud y Gênero, 2001.
Elaboração de texto: ECOS – Comunicação em Sexualidade Sexualidade. Apoio: Fundação MacAr thur. MacArthur thur. Instituto Pólis- Rua Cônego Eugênio Leite, 433 - São Paulo - SP - Brasil CEP 05414-010 - Telefone: (011) 3085-6877 - Fax: (011) 3063-1098 http://www.polis.org.br - e-mail: dicas@polis.org.br