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A interpretação da teoria psicanalítica Freudiana por Herbert Marcuse – Um estudo do “Eros e Civilização”

Vitor Vieira Vasconcelos Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais 21 de agosto de 2003 – Belo Horizonte – Minas Gerais

A interpretação da teoria psicanalítica Freudiana por Herbert Marcuse – Um estudo do “Eros e Civilização”.
Introdução:
Ao longo deste estudo procuraremos mostrar a interpretação que o pensador Herbert Marcuse faz da teoria psicanalítica freudiana. Através da leitura de sua obra “Eros e Civilização”, será feita uma análise de seu pensamento, sempre se apoiando nos conceitos e teorias de Freud. Tentar-se-á captar sua proposta filosófica, englobando suas críticas ao modelo da atual organização social e seus projetos tanto de uma nova organização quanto do que poderia ser feito para atingi-la. O caminho escolhido para estruturar nossa incursão ao pensamento marcusiano foi o seguinte: 1. As fontes do pensamento de Marcuse, incluindo seu percurso acadêmico e político, tanto quanto os filósofos e pensadores importantes em seu projeto. 2. A sua teoria exposta ao longo do “Eros e Civilização”, no tocante à primeira parte, denominada: “Sob o domínio do princípio de realidade”. Este será o ponto mais enfocado em nosso estudo. 3. Uma análise comparada das diferenças entre a teoria de Marcuse e a de Freud (em especial a do “Mal estar na civilização”). 4. A crítica que Marcuse faz ao movimento de Revisionismo Neofreudiano, das vertentes que se seguiram ao longo de seu desenvolvimento e da interpretação que fazem à obra de Freud. 5. Um breve comentário crítico sobre a teoria de Marcuse, discutindo sobre sua validade nos tempos atuais. Essa parte se coloca mais a título de extrapolação filosófica e exercício de reflexão e não tem altas pretensões de validade. Esse último tópico do estudo também tem como função fornecer uma conclusão final a tudo que foi apresentado.

1-As fontes do pensamento de Marcuse:
Herbert Marcuse nasceu em Berlim, no ano de 1898, sendo de origem judaica. Sabe-se que aos 20 anos participou do movimento revolucionário espartakista; a esfera política e a intenção de promover mudanças sociais sempre o irá acompanhar ao longo de sua vida. Depois irá se formar em Filosofia por Berlim e Friburgo, e seu primeiro trabalho será um levantamento bibliográfico sobre Schiller. Marcuse desenvolveu estudos com Martin Heidegger, que o levou a um doutorado sobre Hegel, autor que vai ter influência decisiva em suas reflexões filosóficas. Posteriormente essa sua tese se transformou em um livro, cuja repercussão lhe valeu o cargo de assistente de Heidegger. Com o advento do Nazismo, Marcuse teve que se refugiar nos Estados Unidos, onde passou a trabalhar ao lado de Max Horkheimer e Theodor Wiesengrund, sociólogos
neo-hegelianos com quem trocou diversas reflexões. É dessa época que datam vários ensaios de sua autoria, se preocupando com o desenvolvimento tecnológico, com o aumento do racionalismo na sociedade moderna, com o aumento da repressão da liberdade e com a impossibilidade de os indivíduos desenvolverem suas plenas potencialidades. Mais tarde, os companheiros de Marcuse retornariam para a Europa, onde darão continuidade a seus projetos no chamado “Grupo de Frankfurt”. Depois, na década de 50, como professor de Ciências Políticas na Universidade de Brandeis, Marcuse vai publicar dois de seus mais importantes livros: “Eros e a Civilização” e “Marxismo Soviético”. O primeiro será devidamente comentado nas próximas seções deste estudo, e o segundo tem como assunto desmascarar o totalitarismo que tomava conta da União Soviética e como afastava-se das aspirações de Marx. O grande sucesso dos dois primeiros livros incentivou Marcuse a lançar “O Homem Unidimensional" (também chamado de “Ideologia da Sociedade Industrial”); neste livro ele desenvolve uma grande crítica social ao estado moderno, mostrando suas irracionalidades e formas de repressão. Em 1967, Herbert retorna à Europa, e suas idéias vão ter grande repercussão no movimento estudantil europeu, inclusive ele próprio tendo um contato contínuo com o importante líder estudantil Rudi Dutschke, este que em pouco tempo será vítima de um atentado a bala. Todos esses acontecimentos trarão reconhecimento internacional à figura de Marcuse, que será ameaçado de morte pelo movimento Ku Klux-Klan.

Se analisarmos as fontes filosóficas de Marcuse, podemos dizer que o centro de sua filosofia se focará em Hegel. Ele tomará um conceito hegeliano muito marcante: a Razão, como faculdade humana que se manifesta pela possibilidade do homem desenvolver

inteira e livremente suas potencialidades (Marcuse será um grande defensor desse desenvolvimento humano). E como neo-hegeliano, Herbert será sempre dialético e crítico. Outra fonte importante do pensamento marcuseano será Marx, de onde ele se inspirará em diversas de suas abordagens sociais, políticas e econômicas. É dele que virá sua crítica ao Nacionalismo e aos efeitos que o capitalismo burguês vai ter na vida das pessoas. Também vem de Marx a proposta de que, com o desenvolvimento da tecnologia e do capitalismo como um todo, em conjunto com uma ação prática-revolucionária da sociedade, poderemos alterar as nossas condições e erguer uma nova organização social, que possibilite uma vida melhor para as pessoas, e onde elas não sejam alienadas. Marcuse procura esboçar caminhos que nos levem para além da organização sócio-econômica atual. Enfim, podemos perceber, em “Eros e Civilização”, um diálogo constante que Marcuse terá com a obra Freudiana. Uma grande influência de Freud será a busca da felicidade do indivíduo humano, que virá através da satisfação dos desejos individuais da pessoa. As pessoas hoje seriam infelizes porque a sociedade bloqueia a realização de seus desejos, e devemos tentar reverter essa situação. Será utilizado muito da teoria da psicanálise, também, para explicar o comportamento das pessoas na sociedade atual; por exemplo, como atuam suas pulsões e como procuram realizar ou reprimir os seus desejos.

2- O “Eros e Civilização”
De acordo com o prefácio que escreveu para a nova edição de seu livro, em 1966, essa sua obra tinha um objetivo otimista: de que as mudanças decorridas nos últimos tempos de nossa sociedade industrial-tecnológica nos habilitariam a inverter o sentido do progresso. Ao invés de se basear em uma sociedade de produção e consumo desenfreados, poder-se-ia usar a riqueza e o conhecimento da sociedade de forma a satisfazer, na medida do possível, as pulsões vitais humanas, além de impedir os efeitos nocivos de nossas vontades destrutivas. O homem poderia então trabalhar menos e se dedicar mais a uma vida de satisfação de seus desejos e pulsões, vivendo de maneira muito mais plena. No entanto, Herbert reconhece que subestimou a capacidade do sistema sóciopolítico atual em desenvolver formas de controle social cada vez mais eficazes. Entre essas formas de controle, temos uma produção de bens supérfluos cada vez maior, para redirecionar as necessidades de prazer e satisfação da população. Como outro exemplo, a necessidade inconsciente de agressividade das pessoas é direcionada quando o país

escolhe outro como seu “Inimigo Nacional”, abrindo uma guerra (vale lembrar que as novas tecnologias deram um poder destrutivo imenso aos exércitos nacionais). Quanto à necessidade de liberdade, os atuais sistemas democráticos permitem uma certa participação da população na escolha de quem a governa e nas decisões do governo. Note-se que achar que a população é realmente quem decide as coisas nessas democracias é uma ilusão: os verdadeiros senhores se escondem atrás do aparelho produtivo e destrutivo o qual controlam, já que são eles os donos das formas de satisfazer os desejos das pessoas (tanto o de consumo quanto o de agressividade). O povo então fica devidamente controlado e manipulado, de forma a não desejar tão arduamente uma mudança no sistema. E não dá para falar que esse sistema atual não tem problemas: várias pessoas estão morrendo nas guerras internacionais, e temos cada vez mais bolsões de pobreza nos países mais pobres. São pessoas excluídas das novas regalias do progresso, mas que acabam se submetendo e se acostumando às leis impostas pelas nações dominantes. Inclusive as forças sindicais atuam a favor da manutenção do sistema, já que a prosperidade deste é que levará a novos empregos para suas categorias. Esses problemas vão fazer com que muitos trabalhadores dos países subdesenvolvidos se revoltem contra o sistema sócio-econômico; porém não possuem uma consistência intelectual que permita transformar o mundo eficazmente para melhor. Talvez esse amparo intelectual tenha de vir dos países adiantados, onde a juventude (por exemplo, nas universidades) se revolta pela dominação e guerras que seu próprio país impõe aos outros. Essa solidariedade de movimentos talvez possa trazer verdadeiras mudanças para a sociedade. Marcuse critica essa imposição do capitalismo em obrigar os cidadãos a trabalhar integralmente, pois com a tecnologia fazendo o trabalho a nosso favor, muitos empregos não têm mais sua necessidade. Para empregar as pessoas excedentes, cria-se cada vez mais profissões supérfluas e improdutivas, ou desviam-se as pessoas para profissões que tem como objetivo a destruição (como a industria bélica e os exércitos). Apesar de tudo, para Herbert, são vistas como positivas as tendências sociais que buscam atender ao desejo por beleza, contato com a natureza, criação artística e a satisfação dos demais anseios das comunidades, visto que acenam para um quadro de transformação da situação atual. Só que, dentro do sistema estabelecido, essas tendências são patrocinadas e organizadas pelo Governo e pelas grandes empresas privadas, servindo como mais um braço para manterem o controle social. Esses novos

anseios acabam sendo enquadrados dentro das regras econômicas de mercado, tendo que se submeter ao comércio e ao lucro. Para tentar mudar a sociedade, é preciso tentar inverter o uso dos instrumentos materiais e intelectuais que estão sendo usados para acorrentar os homens nesse sistema. Para isso, é preciso divulgar conhecimentos livres de censura e manipulação, através de uma luta política. É nessa luta que estarão caracterizados os defensores de Eros (os que buscam um mundo melhor) contra os defensores de Thanatos (os que procuram a manutenção desse sistema destruidor e degradador de vidas humanas). O livro “Eros e Civilização” fará uma análise da teoria psicanalítica de Freud e procurará dar um enfoque ao que toca às esferas do social e político. Como os indivíduos se encontram dentro de uma sociedade, organizada por um Estado, as implicações de seus comportamentos terão conseqüências não só para o indivíduo particular, mas para a comunidade como um todo. Assim, as categorias psicológicas se convertem em categorias políticas, quando os processos psíquicos (primeiramente autônomos) são absorvidos na existência pública (no Estado ou nos movimentos sociais). É preciso entender que o problema enfrentado por um indivíduo pode ter uma causa na estrutura social em que ele vive, e ao invés de se tentar curar esse cidadão individualmente através da prática psicanalítica, seria muito mais eficaz procurar consertar a desordem social que está causando esse problema, provavelmente em um número gigantesco de pessoas. Para fazer isso, é preciso antes desenvolver as implicações políticas e sociológicas a partir das noções psicológicas, para se ter idéia de como está realmente o indivíduo e a sociedade, e qual seria uma proposta melhor para a situação presente. É isso que Marcuse irá fazer ao longo do livro. O ponto de partida será a proposição de Freud, segundo a qual a civilização é responsável por uma contínua repressão às pulsões humanas. Para ser possível a

organização social e o progresso, é preciso colocar rédeas nos desejos imediatos das pessoas, disciplinando-as e limitando-as para um bem melhor para a sociedade e, por conseqüência, para o próprio indivíduo. Isso consistiu em fazer as pessoas terem que renunciar a prazeres imediatos, refrear suas pulsões e se delimitar por uma moral imposta, e toda essa nova situação será chamada de cultura. Esse sacrifício foi muito útil em diversos pontos de vista: contribuiu para o progresso técnico-científico, aumentou o padrão de vida médio da população, e inclusive prolongou em algum tempo sua expectativa de vida. Infelizmente, temos por

outro lado conseqüências nefastas: a mecanização e a padronização do modo de vida, o empobrecimento mental de grande parte da sociedade, a crescente destrutividade na mão dos homens e também uma crescente perda da liberdade (com o aumento dos meios de dominação do homem pelo homem). Porém Freud afirma que não há alternativa, pois a vida em sociedade sempre irá pressupor a subjugação de pulsões inerentes ao ser humano. Seria um preço a pagar pela vida social, e inclusive um preço obrigatório, já que não teríamos outra alternativa. Marcuse propõe encontrar na teoria freudiana um espaço para que haja, sim, um meio de mudar essa situação, de não ter que identificar sempre civilização com repressão. Ele propõe que necessidades de progresso, de dominação, de produção, de repressão e de destruição são apenas resultados de um contexto histórico, e não são princípios necessários de qualquer organização social. Será preciso provar que as últimas transformações da sociedade forneceram meios para uma gradual abolição da repressão das pulsões humanas. Para esclarecer melhor a situação, precisamos primeiro revisitar os conceitos de princípio de prazer e princípio de realidade, elaborados por Freud. Em modos gerais, o princípio de prazer tem por campo principal o inconsciente, e geneticamente será anterior ao princípio de realidade. Este primeiro princípio vai lutar pela simples definição de “obter prazer”, de forma imediatista, e procurar fugir das situações que lhe provoquem desprazer. Contudo, ao viver socialmente, o ser humano passa a precisar não satisfazer alguns de seus desejos imediatos, em troca de uma gratificação posterior por esse comportamento inicial de sacrifício: aprende a renunciar ao prazer momentâneo (muitas vezes incerto e destrutivo), em troca de algo mais seguro e bem planejado. Esse princípio funcional que adia e modifica o princípio de prazer terá um nome: princípio de realidade. Será através dele que o homem aprenderá a planejar, a usar a razão para analisar o mundo, a fazer discriminações morais, a redirecionar sua energia das atividades sexuais para o trabalho. A única atividade que estará alheia ao princípio de realidade será a da fantasia, que se manterá vinculada ao prazer. Ao longo do processo, o princípio de prazer acaba se subordinando praticamente todo ao princípio de realidade, que vai redirecionar suas pulsões, transformá-las, adiá-las ou simplesmente reprimi-las. Através do maior uso da razão, o homem vai adquirir a capacidade de apropriarse da realidade, alterando-a. Porém, em seguida essa alteração de realidade não será

mais decidida pelo sujeito, mas pela sociedade. É ela que irá ditar as normas, impor os modos de vida e castigar quem infringir os seus padrões. Ela reúne, mas também transforma em certa medida, as pulsões dos indivíduos que dela fazem parte. E o indivíduo, desde sua infância, aprende a refrear os seus impulsos em nome das regras morais da sociedade; e ao crescer, vai incorporando essas regras morais da sociedade em que vive, transmitindo-as por sua vez a seus filhos. Apesar de tudo, o princípio de prazer continua existindo na sociedade e em cada um de seus indivíduos. Estando no inconsciente, vai fazer uma contínua pressão para ser atendido: é o retorno do reprimido. Assim iremos ver surgir na sociedade tendências naturais como os desejos sexuais pervertidos, a agressividade e outros. O inconsciente preserva na memória os prazeres alcançados e faz pressão para que eles sejam buscados novamente. Então teremos essa luta antagônica entre a felicidade que a sociedade pode nos dar por satisfazer de forma segura e cada vez mais abrangentes nossas necessidades; e do outro lado, a liberdade, limitada pelos preceitos da lei e da ordem que regem a sociedade, constantemente buscada pelo princípio de prazer que teima em emergir do nosso inconsciente. Lembrando sempre que toda essa relação entre princípio de realidade e princípio de prazer se aplica tanto na análise do indivíduo (de sua infância à sua existência social consciente), quanto na análise da civilização humana como um todo (de sua época primitiva até o estado civilizado plenamente construído). Marcuse começará da análise da teoria psicanalítica aplicada ao individuo, para em seguida ampliar a teoria freudiana e abordar a civilização e sua história. De vital importância no “Eros e Civilização” será a distinção freudiana de pulsões de vida (representada por Eros) e pulsões de morte(por Thanatos). Basicamente, as pulsões de vida serão aquelas voltadas para a conservação da vida, construção, união, e fenômenos do gênero; elas se mostrarão claramente na sexualidade, que tem importância crucial no aparelho psíquico, para o prazer e para reprodução (continuação da vida). As pulsões de morte, pelo contrário, impulsionarão as atitudes agressivas, de destruição, fazendo as coisas tenderem para o repouso da morte. Apesar disso, a distinção entre essas duas espécies de pulsão não é tão clara. Ao longo da obra freudiana, elas vão adquirindo definições, funções e relações diferentes entre si. Por exemplo, há uma grande chance das pulsões de vida e de morte terem uma origem comum no psiquismo humano, um ponto de encontro. Além disso, temos a presença de elementos agressivos e destrutivos em vários impulsos eróticos, e do outro

lado, os impulsos de morte podem impulsionar o progresso e a manutenção da vida (é o caso do desenvolvimento tecnológico proveniente das guerras e do uso de castigos para fazer valer as leis sociais): parece que a relação entre os dois tipos de pulsão é responsável por uma dinâmica, de natureza conservadora, que acabam gerando o estabelecimento e preservação de unidades cada vez maiores de vida. Por fim, com o estabelecimento do princípio de nirvana (que é a necessidade humana acabar com as agitações e retornar ao repouso do útero materno), que passa ter papel importante no princípio de prazer, temos uma característica do impulso de morte (o repouso) em uma área, por excelência, das pulsões de vida. Um segundo ponto da teoria de Freud que precisa ser retomado, na proposta de Marcuse, é o da distinção da psique humana nas camadas: Id, Ego e Superego. Id é a camada mais antiga e fundamental, nascendo com o indivíduo, e que envolve o campo do inconsciente e das pulsões primárias. É ele que irá pressionar o indivíduo a satisfazer o princípio de prazer, de acordo com as pulsões de vida e de morte. Sob a influência do mundo externo, uma parte do Id, que está equipada com os órgãos para recepção e proteção contra os estímulos, desenvolve-se para formar o Ego, que será o mediador entre o Id e o mundo exterior. A percepção e o conhecimento consciente serão a camada superficial do Ego, que terá a tarefa de representar o mundo externo para o Id, protegendo-o de sua busca incontrolada por prazer que acabaria lhe destruindo. O Ego vai coordenar, alterar e controlar os impulsos do Id, para reduzir os conflitos com a realidade, reprimindo ou transformando os que são incompatíveis com esta. E assim se cria o princípio de realidade, por conseqüência. No curso do desenvolvimento do Ego, surge o Superego. Ele tem origem na longa dependência que a criança terá dos pais, incorporando suas influências culturais e sociais, se solidificando como um modelo de moralidade do indivíduo. Vai começar a ser construído a partir das primeiras restrições que os pais impõem a seus filhos, que passam a introjetá-las no Ego e a sentir culpa toda vez que transgridem (ou sentem vontade de transgredir) esses limites impostos. Contudo, essas repressões do Superego se tornam rapidamente inconscientes e automáticas, e Marcuse acha interessante observar como o indivíduo vai se tornar instintivamente ‘reacionário’ (defensor da ordem social na qual foi educado). Além disso, o Superego é formado a partir de uma moral da geração passada (dos pais da pessoa), e se o mundo sofreu modificações ao longo das gerações, as pessoas vão se tornar defensoras de uma moral ultrapassada e

ineficaz para as situações presentes, atravancando um melhor desenvolvimento da sociedade. Essas distorções na moral (causadas pelo superego) vão refletir na sociedade, criando dois termos que Marcuse chama de: Mais-Repressão e Princípio de Desempenho. A mais-repressão acontece quando o indivíduo tem suas pulsões reprimidas mais do que naturalmente seria necessário para que ele se desenvolvesse bem no mundo. Um exemplo disso são as situações de domínio de uma classe social sobre a outra, quando uma elite no poder acumula as riquezas do trabalho da classe inferior, além de impô-la sob dominação constante (para impedir qualquer revolta popular), mesmo que essa dominação das pulsões vitais exceda os limites racionais que são necessários para um bom desenvolvimento da sociedade. Essa repressão adicional (para a manutenção da divisão hierárquica do trabalho e para o controle da existência privada do indivíduo) costumava ser feita por meio da força e de medo, mas atualmente existem formas mais inteligentes e sutis para se conseguir efetivá-las. Marcuse mostra de maneira clara como o desejo individual por lucro, poder e consumo faz com que a sociedade deixe de se orientar pelo bem coletivo, perdendo as vantagens que o desenvolvimento do conhecimento poderia lhe proporcionar. Hoje em dia, a pobreza e escassez de recursos em vastas regiões do mundo não são mais devido à incapacidade humana, mas ao fato de sua má utilização e distribuição das riquezas. Sobre esse ponto de vista, podemos afirmar que a civilização humana foi se tornando cada vez mais irracionalmente administrada. Quanto menor o índice de mais-repressão, mais bem estruturada está a civilização, vista dentro do seu estágio de desenvolvimento do saber. São três as fontes de sofrimento humano citadas por Freud: a superioridade das forças da natureza sobre o homem, a progresso inevitável da decomposição de nossos corpos e a inadequação dos métodos que regulam as relações humanas na família, na comunidade e no Estado. A primeira e a terceira, com certeza, dependem das condições histórico-sociais da civilização, e estaria em nossas mãos procurar contorná-las: com o desenvolvimento das ciências tecnológicas, o homem se torna cada vez menos sujeito à natureza (na verdade, inverte-se a situação), além de se tornar possível trabalhar cada vez menos, já que as máquinas fazem o trabalho para nós. A dominação que chega ao indivíduo através do sistema social vai constituir o princípio de desempenho, que vai ser a forma histórica imposta do que originalmente seria o princípio de realidade. O ego vai procurar mediar o id com o mundo, baseando-

se agora nos critérios predominantes que a sociedade lhe passa, mesmo que estes não sejam os mais indicados e eficazes para isso. Esse princípio de desempenho será o padrão de comportamento que a sociedade cobrará do indivíduo, e ele será tão mais bem aceito quanto mais se adequar a esse modelo. E isso inclui a obrigação de um trabalho que na maioria das vezes não coincide com as faculdades e desejos do indivíduo, sendo apenas um grande adiamento de prazeres que vai garantir poucas horas de descanso ao fim do dia e a continuidade da vida. Marcuse irá chamar esta situação de trabalho alienado, além de chamar a atenção para que, quando o principio de desempenho é assimilado pelo superego, se torna inconsciente e o indivíduo não se sente reprimido pela ordem social: no desenvolvimento “normal”, o indivíduo vive a sua repressão “livremente” como sua própria vida. Outro exemplo diferente de mais-repressão é o medo que a sociedade tem de prazeres diretos e intensos, que de uma vez são associados a uma animalidade do homem (e por isso reprimidos como tabus, já que o homem deve ser “civilizado”). Isso vai abranger, de forma bem clara, a sexualidade, a ponto de a sociedade em certas épocas só considerá-la digna em sua função reprodutiva, e não pelo prazer erótico que proporciona. No fim, toda essa repressão dos desejos humanos vai negar cada vez mais o princípio de prazer e enfraquecer a força de Eros (ou seja, das pulsões de vida); enfraquecendo as relações de união entre pessoas e levando a uma agressividade recíproca cada vez maior. Muitas vezes a sexualidade reprimida irá retornar (a princípio em fantasias mentais, mas depois até na prática) associada às pulsões de agressividade, gerando perversões sado-masoquistas. Outras vezes, os instintos de agressividade podem vir para fins de construção (a serviço de Eros), como é o caso da destrutividade e dominação aplicados à natureza, resultando em um crescimento da civilização, porém conservando essa marca agressiva do ser humano. Para Marcuse, o progresso da civilização conduz à liberação de forças cada vez mais destrutivas. Para entender de forma mais clara as tendências e transformações por que passa a civilização humana, Marcuse irá trazer a tona um termo polêmico da teoria psicanalítica: a Herança Arcaica. Para Freud, essa herança abrange não só disposições individuais, mas também conteúdos ideacionais, como vestígios de memória das experiências das gerações anteriores. Assim, as pulsões reprimidas e os diversos acontecimentos traumáticos na história humana ficariam marcados e poderiam surtir

seus efeitos muitas e muitas gerações à frente. Ao fazer isso, Freud irá abalar um dos pilares da cultura moderna: a noção do indivíduo autônomo. Essa foi a parte da teoria freudiana mais veemente contestada por diversas correntes, mas Marcuse acha que podemos utilizá-la com eficácia, desde que entendamos essa “herança” como encaixada no desenvolvimento dialético da civilização, através dos movimentos que a sociedade carrega dentro de sua estrutura social, como as leis, a extensão do trabalho a todas as pessoas, e a instituição da propriedade privada transmissível por herança. Como ápice, quando o indivíduo se liberta do jugo paterno legitimamente, no fim da juventude, assume toda uma posição social. E assim, embora não tenha vivido ou presenciado um episódio de um passado distante, o indivíduo da sociedade atual vive na pele as restrições sociais ocasionadas por tal fato, através da herança que fica na cultura e nos demais sistemas sociais; isso praticamente equivale a ter vivido esse episódio, já que a repressão às pulsões e a tendência de retorno do que foi recalcado continuarão as mesmas. Na construção freudiana, tudo começa com a situação de origem que remete ao pai primordial. Esse pai primeiro monopolizou para si a mãe-mulher (o prazer supremo), subjugando seus filhos sob seu poder. Essa foi a primeira repressão, com os filhos proibidos de usufruir da mãe, e por serem excluídos do prazer, ficaram com sua energia instintiva livre para ser canalizada em atividades produtivas, que são desagradáveis, mas necessárias à sobrevivência do grupo como um todo; esse primeiro evento não criou apenas a dominação, mas propiciou o contínuo funcionamento desta. A visão hierárquica do prazer foi justificada pela proteção, segurança e até amor (entre o pai e os filhos e também em meio aos filhos, que se identificavam em sua situação de restrição de prazer) que emanavam da nova situação. Mas a dominação paterna não era muito eficaz, visto ao crescente ódio e inveja que ele despertava em seus filhos. Essa situação culmina na rebelião dos filhos exilados, no assassinato e devoração coletiva do pai e no estabelecimento do clã dos irmãos. Esse clã terá a atribuição de estabelecer acordos e restrições sociais que garantam a nova situação da comunidade humana: é o interesse comum de preservação do grupo. Junto a essa nova etapa também aparecerá um sentimento de culpa, que provém do crime contra o pai e contra as tentativas posteriores de quebrar a ordem social vigente. O pai passa a ser relembrado e adorado como um deus em cuja adoração os pecadores se arrependem, para continuar as engrenagens da sociedade. Outra característica importante é que parte do poder que se concentrava nas mãos do pai, após a sua morte passa para as mulheres,

seguindo-se um período de matriarcado, onde há uma marcante liberdade erótica (que em seguida será precedida de uma nova fase dominadora). O matriarcado será substituído por uma contra-revolução patriarcal que terá como uma de suas marcas a instituição da religião. Nas representações divinas, os deuses masculinos começam como filhos da deusa mãe, mas vão tomando um poder cada vez maior, até assumirem forma do pai único (sai o politeísmo e entre o monoteísmo). A dominação primordial torna-se eterna, cósmica e boa, e os “direitos históricos” do pai primordial estão novamente restaurados. Nota-se que cada revolução não derruba as restrições aos desejos de prazer, mas, ao contrário, torna estas cada vez mais eficientes. Freud mostra como cada geração irá contestar a autoridade da anterior, se rebelando; e mais em frente se arrependendo, para restaurar e glorificar a autoridade de uma maneira ainda mais evoluída. Um exemplo seria Jesus Cristo, que pela sua história vinha libertar os homens de suas leis dominadoras através da mensagem do amor (que seria Eros – pulsões de vida). Porém ao morrer, segue-se a ele a religião do cristianismo, que tem no evangelho uma nova lei de repressão das vontades humanas, só que restaurada e fortalecida; o sofrimento e a repressão foram perpetuados. O cristianismo traía a sua própria origem, e como resultado temos todas as suas contradições e ações destrutivas: a luta armada contra os hereges e a censura de livros. Freud enaltecia a ciência e a razão, como cura para a ilusão que as supertições da religião impunham aos homens. Marcuse concorda com Freud desde que essa afirmação fosse feita no contexto daquela época. Após isso, a ciência e a religião sofreram profundas modificações e os papéis acabaram mudando: a ciência se tornou um dos instrumentos mais destrutivos, depois que se associou à industria bélica, enquanto a religião perdeu o seu poder repressor físico, se limitando a submeter seus fiéis ao sentimento de culpa. Ao se debruçar sobre o movimento histórico da sociedade, Freud concentra-se no ciclo “dominação-rebelião-dominação”; porém a segunda dominação não é a mesma que a primeira: existe um progresso da dominação. Ela se torna cada vez mais impessoal, objetiva, universal, e também mais racional, eficaz e produtiva; a lei e a ordem se identificam cada vez mais com a vida da sociedade. O pai do jovem vai desempenhar a função do representante da posição da família na divisão social do trabalho e não ser apenas o “possuidor da mãe”. Conseqüentemente, as pulsões do indivíduo são controladas através da utilização social de sua capacidade de trabalho. O

sistema hierárquico de trabalho social vai racionalizar a dominação e conter os processos de rebelião (bem melhor, exemplificando, que o antigo regime escravocrata ou de servidão). Apesar disso, mesmo as rebeliões através da história quase sempre lutando contra um grupo dominante (e tentando impor outro), algumas vezes temos movimentos fortes tentando lutar pela abolição completa da relação de dominação e de exploração; e a facilidade com que esses movimentos foram derrotados nos deixa perplexos. Como explicação, podemos pensar na necessidade de poder inerente ao homem, na falta de consciência de classe, mas o mais interessante é que, ao analisarmos essas rebeliões, parece sempre ter havido um momento em que ela podia ter saído vitoriosa; só que esse momento passou, e por um triz. Marcuse abre a hipótese de um sentimento de autoderrota que parece estar em jogo; um sentimento de culpa pela rebelião que provém, antes, do assassinato do pai primordial. O problema é que agora a revolta não é contra um animal-déspota que proíbe a gratificação, mas contra a ordem sábia que garante os bens e serviços para a progressiva satisfação das necessidades humanas: a rebelião se torna um crime contra a sociedade como um todo. Por isso, a civilização seria um processo de dominação do qual não haveria uma possibilidade de retorno (entendido como regressão da dominação) e apenas podemos pensar em uma saída apontando para frente desse processo civilizatório. Outra modificação importante na sociedade é a substituição do objeto original de prazer, que passa da mãe para a esposa-amante, na maioridade da pessoa. O tabu do incesto, sendo a primeira grande proteção ao sistema social, separará a imagem da mãe da imagem de esposa. Em relação à mãe, o amor é inibido em sua finalidade última e transforma-se em ternura; enquanto sofre outras espécies de inibições em relação à esposa, embora conserve aí a direção para uma finalidade. Dessa forma, a pulsão de Nirvana (que é a vontade de voltar para a tranqüilidade inicial do ventre materno), que se associa as pulsões de destrutividade, vai sofrer um grande bloqueio, pois o indivíduo foi redirecionado para longe da sua mãe. Prosseguindo na luta de Eros contra Thanatos (pulsões de vida x pulsões de morte), Marcuse acha que a única saída da humanidade para defender-se contra as suas tendências destrutivas é possuir um Eros realmente bem forte, que envolva toda a agressividade. Eros esse que, como impulso erótico, seria capaz de unir todos os homens em uma massa estreitamente unida. Infelizmente, devido à contínua e muitas vezes irracional repressão aplicada aos impulsos eróticos do indivíduo, a civilização em seu estágio atual se encontra incapaz de dar esse importante passo.

É importante notar também como as pulsões eróticas, originalmente sexuais, vão se dessexualizando na sociedade, conforme vão sendo sublimadas para outros fins. Assim as pessoas vão defender ideais (que são nada mais que as vontades que atualmente estejam sendo reprimidas socialmente), e prosseguindo nesse caminho vão buscar coisas cada vez mais afastadas do sentimento erótico original. Marcuse abre a hipótese de que essa dessexualização do Eros pode enfraquecê-lo, dando mais margem para Thanatos, na medida em que os desejos se afastam das pulsões de vida. Mas isso não é tão direto assim, haja vista que nem toda profissão das pessoas é dessexualizada e desagradável; um exemplo é o trabalho artístico. Além disso as pulsões de morte também vão sendo sublimadas, seguindo o mesmo processo das pulsões de vida; o próprio trabalho costuma ser uma utilização social das pulsões agressivas em vista a um ganho para a comunidade (direciona-se as pulsões destrutivas para objetos que devem ser transformados pelo trabalho, ou para serviços que requerem força e empenho físico e intelectual). Infelizmente, sempre sobra um montante de agressividade, como a que sentimos pela violência nas ruas e pelas medidas de guerra na política internacional, e mesmo a natureza é constantemente violentada para que continue o desenvolvimento da humanidade. Aliando isso ao poder cada vez maior de destruição (tanto dos países quanto do indivíduo particular), proveniente do desenvolvimento tecnológico, pode-se imaginar um panorama assustador para o futuro, bastando apenas que permaneça esse “superávit” de Thanatos. E a sociedade não pode afrouxar os meios de repressão, sob o risco de que surja uma rebelião a fim de destruir a ordem social estabelecida. Logo, a civilização procura se defender contra movimentos que lutem por um mundo mais livre, e nesse momento a produtividade vai ser voltada contra os próprios indivíduos; é preciso investir e trabalhar em funções de controle social. Isso é claramente observado no funcionamento de regimes totalitários: o povo precisa ser mantido em constante mobilização interna e externa, e para fins mais de dominação que de produtividade. O melhor método para fazer isso é a “automatização do superego”: o indivíduo tem a impressão de que escolhe livre e conscientemente suas ações, quando na verdade é alvo de uma manipulação da cultura popular através dos meios de comunicação e controle de massas. Há uma aparente liberdade maior (por exemplo, a liberação sexual pela qual passa a sociedade), embora seja sempre estimulado que o individuo se dedique a atividades ociosas que não exijam empenho mental; empenho este que poderia tornar o indivíduo consciente de sua

própria situação. As atividades sexuais são liberadas desde que se submetam à ordem social: em suas relações eróticas, os indivíduos respeitam seus compromissos morais, obedecem às modas e tendências, entram para a sociedade de consumo e inclusive chegam a associar sexo, dinheiro e ascensão social. Analisando todas essas modificações pela qual a sociedade estaria passando, Marcuse mostra como se delineia a transformação do capitalismo de “livre” para “organizado”. A unidade familiar, que era a mais importante na formação das estruturas da psiché do indivíduo, vai passando a ser uma unidade de um sistema estruturado e impessoal em escala cada vez maior. E o indivíduo vai ser medido cada vez mais pela sua aptidão e por suas qualidades padronizadas pela sociedade, em lugar do julgamento autônomo e da responsabilidade pessoal; mesmo a concorrência social ainda requerendo um certo grau de iniciativa pessoal e criatividade, essas características ficam superficiais quando são englobadas pelo sistema e passam a servir a este. Anteriormente, era a família que educava o indivíduo, para o bem ou para o mal, e agora a repressão às pulsões vai passar a ser cada vez mais coletiva: a escola, as festas, o rádio, a televisão, as propagandas, os especialistas (médicos, terapeutas, educadores, estilistas, gurus, etc.), tudo vai fixando padrões tanto para os níveis de conformidade quanto para os de rebelião. Inclusive, as punições passam a vir não só da família, mas das instituições coletivas externas também. A família tem poder cada vez menor, e pode proibir cada vez menos (quando em desconformidade com o princípio de desempenho em vigor). E a dominação torna-se cada vez mais despersonalizada. Antes, o superego era ‘encarnado’ pelo: chefe, patrão, pai, diretor, etc. Agora, eles são apenas parte de um sistema maior do qual não têm culpa; são só mais um elo na corrente. Mesmo os que estão nas situações mais supremas parecem incapazes de poder alterar o sistema no qual estão: no fim, os que antes comandavam a seu bel-prazer foram transformados, em última instância, em membros assalariados de uma burocracia na qual se sustentam. A partir dessa situação social vemos o sofrimento, a frustração e a impotência do sujeito individual em não poder fazer nada para transformar o sistema. O impulso agressivo mergulha no vácuo, e o ódio é contraposto ao lado de um sistema em que os colegas da pessoa sorriem e obedecem às normas sociais, onde todos estão cumprindo seus deveres e são apenas vítimas inocentes. Nem a religião pode mais explicar à pessoa esse sentimento de culpa, visto o decréscimo de sua força na sociedade; a existência humana virou um mero recheio em um sistema praticamente autônomo que a determina. Só que a felicidade humana exige o conhecimento; e este será dado, mas pelos meios de

comunicação de massa, já totalmente tratados e controlados, de forma a encaixar o superego do indivíduo dentro do princípio de desempenho por eles ditado. Assim, um cidadão terá várias revistas e jornais em sua casa, todos pregando os mesmos ideais reacionários e indicando os mesmos estilos e modelos de viver. A organização social e seus métodos de dominação são suficientes para desencorajar as tentativas de destruição orientadas para o sistema social; porém não são suficientemente eficazes para impedir que as pulsões agressivas desapareçam por completo. As pessoas vão canalizar sua agressividade para algum alvo: um arquiinimigo escolhido, contra o qual toda uma população se mobiliza. Esse inimigo sempre estará em algum lugar: cada sociedade vai procurá-lo até que possa defini-lo e lutar contra ele. Marcuse, nesse momento, mostra como as guerras são injustificadas (pois os motivos apresentados para elas costumam ser desculpas fáceis de desmascarar), e como elas são causadas muito mais pela necessidade humana de se voltar contra algo do que por uma ofensa que esse pretenso inimigo realmente causou. E com o desenvolvimento das armas de destruição de massa, já não são mais apenas dois exércitos de soldados recrutados que se enfrentam e se matam em campo de combate, mas toda uma população que não tinha nada a ver com o assunto, e que será exterminada por mísseis, bombas, envenenamento e tudo mais que a tecnologia pode fazer. E em relação à filosofia? Marcuse demonstra, perspassando uma breve história da filosofia ocidental, como de início, a filosofia pretendia usar a razão para que o homem controlasse seus instintos animais e em seguida controlasse o mundo; isso tudo bem no estilo da repressão das pulsões em vista de um desenvolvimento da civilização, como foi mostrado na teoria freudiana. O Logos grego, utilizado para tornar o homem senhor de si e dono (‘controlador’) de seus instintos animais, é seguido pela Razão da filosofia moderna, que tenta livrar o homem, como antes, das ilusões tanto dos sentidos como das crenças infundadas. E o homem sempre se comporta como se tivesse essa necessidade a priori de dominar e controlar um objeto, seja algo externo ou sua própria subjetividade. Porém, como um retorno do reprimido, sempre há uma tendência (como exemplificado nos sistemas filosóficos de Aristóteles, Hegel e Nieztche) de um início e/ou fim em que tudo está junto em um ente só, e a relação sujeito-objeto passa a ser algo em si e para si, independente das coisas externas. É como se, no fim de toda uma estrutura racional orientada a objetos, houvesse um ponto que ultrapassa esse método, e

onde está assentada a verdadeira meta escondida dos seres humanos, onde eles irão alcançar a verdadeira paz e realização. Eis que, depois da idade moderna, passam a surgir cada vez mais filosofias que Marcuse considera como a-lógicas. São propostas como as de Schopenhauer, em que a Razão sai do papel principal e entram a vontade e as pulsões. Busca-se uma alternativa que fuja da razão controladora e dominadora, à qual o pensamento humano estava acorrentado. Busca-se o gozo dos desejos, procuram-se caminhos para se fugir da repressão, porém, se acaba reconhecendo sua inevitabilidade frente ao mundo físico e social. É inevitável tecer analogias entre a trajetória da filosofia e a teoria psicanalítica, e todo esse jogo inerente a esta última: de dominação dos objetos (sejam eles inanimados ou seres viventes) e de repressão às pulsões naturais em busca de um desenvolvimento comum do grupo social onde as necessidades humanas podem ser satisfeitas em uma escala progressiva cada vez mais completa. Como conclusão, não podemos negar que a teoria psicanalítica ultrapassa a esfera do corpo orgânico, chegando em sua esfera de relações mentais e sociais, e posteriormente discursando sobre propriedades ontológicas do próprio sujeito psicanalítico (e aí já entramos em um terreno em que a psicanálise entra no debate com a filosofia).

3- Análise comparada entre a teoria de Marcuse e a de Freud.
A principal inovação que Marcuse propõe à teoria Freudiana é a possibilidade de enxergar nela a utopia de uma nova ordem social, que torne o mundo melhor. Embora Freud nunca tenha chegado a tanto, Marcuse procura mostrar essa “tendência oculta da psicanálise”: ao propor uma teoria crítica sobre a repressão social e ao fazermos uma análise das novas possibilidades criadas pelo desenvolvimento tecnológico, temos então o germe para uma nova etapa no processo de evolução social. Marcuse vai reformular e ampliar alguns conceitos de Freud, de modo a analisar seus componentes históricos e sociais, chegando assim aos conceitos de mais-repressão e princípio de desempenho; enquanto para Freud a diferença entre princípio de prazer e princípio de realidade corresponde à diferença entre um comportamento não-reprimido e um comportamento reprimido, apenas. O princípio de desempenho marcuseano é a atual forma do princípio de realidade, sua atual forma histórica; ele é característico do sistema capitalista, pois exige uma mais variada forma de repressão para manter a dominação.

A mais-repressão diferencia-se da repressão básica, pois equivale a uma quota a mais de repressão para manter a dominação sob o princípio de desempenho; este conceito permitiu a Marcuse pensar na possibilidade de uma sociedade livre, na qual o excesso de repressão fosse eliminado, mantendo-se apenas um mínimo de controle necessário para manter a coesão da sociedade. Marcuse desenvolveu o caráter histórico e sociológico da teoria freudiana, e nesta "extrapolação" ou "reinterpretação" da teoria, introduziu novos conceitos e distinções que até então não se encontravam presentes. Parece que há também uma diferença no modo como os dois autores encaram a relação entre a formação das pulsões e a repressão social. Marcuse defende que a saída para subjugar as pulsões agressivas da sociedade é diminuir a repressão sobre Eros, tornando-o cada vez mais forte e englobante nas atividades humanas. Freud defendia, por sua vez, que o funcionamento da sociedade só poderia se dar com uma repressão tanto das pulsões de morte como das de vida, pois as duas, se diretamente realizadas, ameaçariam a organização social. Marcuse chega inclusive a propor uma utopia em que, com os impulsos destrutivos subjugados, os indivíduos poderiam ser plenamente livres em sua realização de prazeres das pulsões eróticas.

4- Crítica ao revisionismo neo-Freudiano.
Marcuse, principalmente no apêndice do Eros e Civilização, faz uma crítica geral do movimento psicanalítico pós-Freud, analisando as reinterpretações que diversos autores fizeram sobre a teoria original. Ele faz uma breve crítica a Reich, tanto por rejeitar o conceito de pulsão de morte, quanto por achar que a liberação sexual era a panacéia para todos os problemas dos indivíduos. Em relação à ala de Jung, ele se limita a dizer que se tornou uma pseudomitologia obscura. A maioria de suas críticas serão voltadas para as escolas psicanalíticas interpessoais e culturais, que são as que fizeram mais sucesso na sociedade. Essas escolas neo-freudianas esvaziam a teoria psicanalítica de sua crítica social, rejeitando todos os conceitos mais metafísicos, sociológicos e especulativos que não estão sujeitos a verificação clínica, e no fim acabam levando o indivíduo a acreditar que vai encontrar a felicidade se adaptando novamente ao sistema social vigente. As escolas revisionistas não analisam bem a dominação da sociedade sobre o indivíduo, e acabam aderindo à ideologia dominante, servindo como um meio de colocar o indivíduo nos eixos do princípio de desempenho. Após ter tomado consciência de sua situação durante o

tratamento, a pessoa está pronta para aderir a alguma ética idealista ou religião que vai continuar a guiá-la e a fornecer-lhe novos dogmas, mais eficientes que os anteriores. Os pacientes reivindicam por felicidade, mas dentro de uma sociedade em que ela só é possível se podada e controlada em pontos chave; estas escolas têm eficiência terapêutica em seus métodos, para que o indivíduo possa continuar vivendo em uma sociedade que é enferma e contraditória, que ele não tem poder para alterar. Em suma, é uma psicologia da adaptação, diferente da proposta clínica de Freud de buscar a origem dos distúrbios psíquicos no passado do indivíduo e em sua estrutura biológica, e não na sua relação presente com a sociedade.

4 - Comentário crítico e conclusão:
E agora, será que as reflexões de Marcuse são válidas, inclusive com as modificações que já ocorreram na sociedade desde que escreveu ‘Eros e Civilização’? Para termos uma idéia mais clara, é preciso retomar o contexto no qual a obra foi escrita. Nas décadas de 50, 60 e 70, havia um forte movimento estudantil e intelectual que acreditava na possibilidade de uma verdadeira revolução social. As pessoas iam para as ruas por seus ideais e havia quem entrasse de cabeça na luta armada e em atentados contra as instituições do governo, tudo em uma articulação revolucionária, normalmente a partir de uma reinterpretação da proposta marxista. Só que mais uma vez o capitalismo mostrou como é capaz de reprimir movimentos contrários a ele e se adaptar às novas situações, seja inventando novos meios de manipulação, seja alterando sua própria estrutura de organização. Será possível, nos nossos dias, pensar que vamos conseguir fazer uma revolução social nos moldes das revoluções socialistas do início do século passado? Parece não haver mais clima para isso, e as pessoas dispostas a tentar criar um mundo melhor se redirecionaram ou para partidos políticos de oposição que buscam políticas mais sociais (e menos econômicas), ou entraram para Ong’s e entidade que prestam serviço comunitário. Mesmo que houvesse uma boa proposta sobre uma sociedade que fosse mais bem estruturada que a de hoje, faltaria um jeito de fazer mudar o sistema atual para esta. Se formos observar as inovações tecnológicas e as mudanças sociais, na maioria dos aspectos as propostas de Marcuse ganham uma proporção até maior do que na época em que ele escreveu o ‘Eros e Civilização’. A industria bélica está muito mais

poderosa, os meios de comunicação de massa cada vez mais eficientes em fixar o princípio de desempenho, e (pelo menos algo de bom) as necessidades corporais e de entretenimento estão sendo atendidas em uma escala bem maior que nas épocas passadas. Em relação às transformações sociais, a liberação sexual cresceu bastante, com os tabus cada vez mais soltos; e mesmo assim as pessoas ainda continuam com uma carência de afetividade, talvez numa escala maior que nos tempos passados. Hoje uma pessoa pode ficar e transar com outras com muita facilidade, mas relacionamentos afetivos duradouros e profundos ficam cada vez mais raros, ou fora de moda. Quanto aos impulsos agressivos, pelo menos no Brasil, dificilmente temos a figura de um inimigo nacional (ao contrário dos EUA, que sempre recorrem a ela na ‘guerra contra o terror’), mas o nosso povo vai ao campo de futebol para descarregar sua tensão agressiva contra o adversário de seu time predileto. Não podemos negar também a descarga agressiva a que as pessoas dão vazão jogando jogos eletrônicos violentos. Por último, as instituições sociais e as propagandas são cada vez mais eficientes no controle das pessoas, desde sua infância até sua velhice, o que dá até uma certa angústia, já que a liberdade se apresenta ao nível do impossível. Como conclusão, vemos que a maioria das tendências civilizatórias apontadas por Marcuse ou se mantiveram, ou cresceram em proporção ao desenvolvimento tecnológico e à complexidade crescente da sociedade. O ser humano continua se agrupando em comunidades coletivas cada vez maiores: as populações dependem mais e mais umas das outras e é cada vez mais fácil a comunicação, o comércio e a locomoção entre as áreas do planeta. A globalização gradativamente transforma o mundo em uma comunidade planetária, para o bem ou para o mal. Outro ponto importante da teoria de Marcuse é a interpretação do comportamento humano, através da psicanálise, trazendo a tona as suas implicações sociais e filosóficas, e que criam um grande campo a ser discutido e pesquisado.

Bibliografia:

Marcuse, Herbert – ‘Eros e Civilização, Uma Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud’- Trad. Álvaro Cabral, Ed. Guanabara Koogan, 8ª edição.

Doria, Francisco Antônio – ‘Marcuse, Vida e Obra’ – José Álvaro Editor S.A./ Paz e Terra, Rio de Janeiro, Guanabara, 1974

Pizani, Marilia Mello – ‘Marcuse e Freud: A Polêmica na Interpretação’ Fonte:

http://orbita.starmedia.com/~escola_de_frankfurt/marilia.htm

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