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A Sobredeterminação em Althusser

Vitor Vieira Vasconcelos, Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte, Novembro de 2006

Este estudo tem como objetivo investigar sobre o uso do conceito de Sobredeterminação nas proposições de Louis Althusser. Serão tomados como textos básicos de pesquisa o capítulo “Contradição e Sobredeterminação - notas para uma pesquisa” - no livro A Favor de Marx, de Althusser, assim como a Tese Conhecimento e Desejo, em que o professor Walter Evangelista perscruta este mesmo conceito nas obras de Louis Althusser.

Primeiramente, nos cabe definir o que vem a ser o conceito de sobre-determinação (ou super-determinação). O próprio Althusser, em Contradição e Sobredeterminação, não se debruça tanto sobre esta definição, no que diz que a toma emprestado de outras disciplinas, na falta de outro melhor 1. Apesar deste aparente pouco caso frente à conceituação e contextualização deste termo, o mesmo será de extrema importância, servindo de base para a radical virada na interpretação da filosofia marxiana, tecida ao longo deste capítulo de A Favor de Marx. Walter Evangelista ressalta com perspicácia que o fato de Althusser não se debruçar sobre as origens deste conceito se deve muito ao contexto da publicação desta coletânea de artigos, em que a influência da psicanálise, e principalmente de Lacan, não seria bem vista 2. Todavia, a influência de Lacan e Freud no pensamento Althusseriano pode ser muito bem constatada em outros textos deste filósofo, como Lacan e Freud e Marx e Freud, sendo que este último foi detidamente analisado ao longo do curso sobre “A crise do Sujeito na Modernidade: Marx e Freud”, ministrado pelo professor Walter Evangelista, no ano de 2006.

Recorrendo a outras fontes, nos acercamos melhor do termo Sobredeterminação, o qual é utilizado em fenômenos quando "A formação considerada é resultante de diversas
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ALTHUSSER, 1979, pág. 87. EVANGELISTA, 1984.

causas, pois que uma só não basta para explicá-la;” 3. Portanto, recorre que um objeto de estudos é resultado de uma mutualidade de causas 4, somadas, concorrentes ou interagentes de forma mais ou menos parcial, e que são responsáveis por matizes singulares (às vezes únicas) neste objeto analisado.

O contexto em que Althusser recorre ao conceito de sobredeterminação se passa em torno da famosa proposta de Marx: “A dialética de Hegel está de cabeça para baixo. É preciso invertê-la para descobrir na ganga mística o nódulo racional” 5. Para Althusser, essa inversão da dialética hegeliana não pode ser apenas uma inversão na natureza dos objetos de aplicação 6, ou seja, que invés de aplicar-se às idéias, a dialética deva ser aplicada aos fenômenos materialistas 7. Na verdade, Althusser argumenta que esta inversão defendida por Marx deve alterar a própria natureza e método da dialética 8.

A saber, a dialética hegeliana opera pela oposição entre Tese e Anti-tese, as quais, em sua contradição, se embatem e deste confronto emerge a Síntese, a qual supera em evolução ambas as oposições anteriores. Althusser é perspicaz ao notar que Hegel utiliza a Dialética como embate sempre entre as essências ideais dos fenômenos a que investiga. Em sua Filosofia da História, Hegel recorre constantemente à dialética aplicada a princípios internos comandariam as determinações concretas, por exemplo explica o declínio do império romano inferindo que foi o embate entre o princípio interno de personalidade jurídica abstrata, o qual encarnava o espírito deste povo, contra o princípio da consciência estóica; da contradição originada declina o império romano e emerge a figura de subjetividade, síntese deste momento histórico-dialético que vai ser essência do cristianismo medieval 9. Há de se perceber que, apesar de toda complexidade do período romano (instituições, meios produtivos, personagens históricos, religiões, influências externas, etc.), os princípios internos hegelianos unificariam todo o espírito de uma época, e tornam a contradição dialética um embate

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LAPLANCHE E PONTALIS, 1986, in CASTIEL, 1988, pág. 323. MIJOLLA, 2005, p. 1821-1822, verbete superdeterminação. 5 ALTHUSSER, 1979, pág. 75. 6 ALTHUSSER, 1979, pág. 79. 7 ALTHUSSER, 1979, pág. 76. 8 ALTHUSSER, 1979, pág. 79. 9 ALTHUSSER, 1979, pág. 88.

entre dois princípios de simplicidade cristalina decorrente.

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, assim como também será a síntese

Pois bem. Althusser argumenta que a proposta para o uso do método dialético em Marx difere bastante do uso da dialética empregado por Hegel, justamente neste ponto de que a contradição não será entre princípios idéias simples, como o é em Hegel, mas sim uma contradição sobredeterminada
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, incorporando diversos fatores tanto do meio físico,

quanto da organização produtiva humana, quanto da superestrutura ideológica existente, incluindo também o fato de que todos estes fatores estão em constante interação, alterando uns aos outros. Althusser recorre ao exemplo de Lênin, que ao estudar os motivos da Revolução Socialista Russa, demonstra como foram vários os fatores que influíram para o sucesso desta; a saber alguns dos mais importantes 12:          

As contradições do regime de exploração feudal. As contradições da exploração capitalista e imperialista de larga escala, nas cidades e nas regiões mineiras e petrolíferas. A própria contradição entre o grau de desenvolvimento do sistema capitalista em contraposição ao feudal. A exasperação entre as lutas de classes, tanto entre explorados e exploradores, quanto entre as diversas classes dominantes. O exílio e desenvolvimento intelectual da elite revolucionária russa. A herança cultural da experiência política operária européia. Os sovietes, como nova forma de organização política de massas. As duas guerras mundiais, incluindo o intervalo entre elas, e também o conseqüente abalo temporário às nações imperialistas. O apoio involuntário da burguesia franco-inglesa à revolução, em sua oposição ao Czar Russo. Até mesmo as riquezas naturais do país e a extensão de seu espaço.

Como bem se pode perceber, uma diversidade de fatores, gerando contextos que não ocorreram em mais nenhuma nação européia, colocaram a Rússia como única potência
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ALTHUSSER, 1979, pág. 88. ALTHUSSER, 1979, pág. 87. 12 ALTHUSSER, 1979, pág. 81-86.

em que houve sucesso da revolução socialista

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. Sob o mesmo enfoque de

sobredeterminação, a expectativa de uma revolução socialista na Alemanha malogrou, visto que, embora as contradições entre Capital e Trabalho se mostrassem evidentes, e até houvesse um aparente progresso do partido social-democrata, havia o fator de existir uma burguesia forte e conservadora, e um aparelho de estado organizado e fortemente armado, o que acabou conduzindo à subida do Nazismo 14.

Althusser critica aqueles que definem que, em Marx, a Economia seria o único fator responsável pelo desenvolvimento histórico, levando a um conseqüente determinismo histórico 15. Quanto a isso, cita Engels, que aqui transcrevemos: “A situação econômica é a base, mas os diversos elementos da superestrutura - as formas políticas da luta das classes e os seus resultados - as constituições estabelecidas uma vez ganha a batalha pela classe vitoriosa, etc., as formas jurídicas, e mesmo os reflexos de todas essas lutas reais no cérebro dos participantes, teorias políticas, jurídicas, filosóficas, conceitos religiosos e o seu desenvolvimento posterior em sistemas dogmáticos, exercem igualmente a sua ação nas lutas históricas, e, em muitos casos, determinam-lhes de modo preponderante a forma...” 16.

É certa a ênfase de Marx e Engels de que o modo de produção (econômico) determina, em última instância, os modos possíveis da sociedade humana se estabelecer
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. A

condição social e a consciência de seus indivíduos, em um determinado período histórico, dependerão, sobremaneira, da capacidade científica, técnica e organizativa disponível, e que tem sua contraparte efetiva no sistema de produção para a manutenção do modo de ser desta sociedade
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. Contudo, é importante o reconhecimento de Marx
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sobre a autonomia relativa das superestruturas e a sua eficácia específica

. Portanto,

o modo de produção de uma sociedade de forma alguma é totalmente determinista quanto à sua superestrutura, muito menos em curto prazo; vis a vis, constata-se que a ideologia de um povo leva em conta uma herança histórica, além de se relacionar com a cultura de outros povos; e mesmo após uma revolução, vários aspectos culturais são
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ALTHUSSER, 1979, pág. 83. ALTHUSSER, 1979, pág. 84. 15 ALTHUSSER, 1979, pág. 97-99. 16 ENGELS, 1890 in ALTHUSSER, 1987, pág. 98. 17 ALTHUSSER, 1979, pág. 97. 18 CHASIN, 1995, pág. 407-408 19 ALTHUSSER, 1979, pág. 97.

mantidos, ao invés de desmoronar repentinamente

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. E ambas, estrutura e

superestrutura, afetando uma à outra de maneira importante, porém reciprocamente e de forma não totalmente determinista, irão em sua infinidade de fatores, sobredeterminar as contradições e movimentos de mudança social ao longo da história da sociedade humana.

Reflexões finais:

Recorrendo a um conceito vindo de outro campo prático de pesquisa, Althusser lança novas luzes sobre um ponto polêmico, e nem por isso constantemente atentado, que é a comparação crítica entre a dialética marxiana com a de Hegel. Althusser demonstra, de maneira ademais clara e coerente, a sensatez da explicação proposta por Marx, e como os resquícios subterrâneos da herança hegeliana levaram grandes líderes e suas respectivas massas a iludirem a si mesmos, em sua necessidade subjetiva de uma fé inabalável na revolução pela contradição simples entre Trabalho e Capital 21.

Em meu ver, o uso do conceito de Sobredeterminação empregado à explicação da Dialética Marxiana é bastante esclarecedor, se aproximando da maneira como Marx pretendia ser entendido. Contudo, esta aproximação não é total, ao que recorro ao argumento utilizada por Althusser no caso da “dialética", no que se refere ao perigo de um termo acabar sendo acompanhado da estrutura explicativa em que era inserido originalmente. Pois há que se dizer, não podemos negar que o termo Sobredeterminação foi cunhado a partir de um contexto de experiência científica e prática (neste caso, clínica) totalmente peculiar ao que deu origem às formulações teóricas de Marx 22. Isto pode levantar dúvidas se uma aplicação forçosa de um termo em uma outra ciência não causaria distorções: ou no significado do próprio conceito (como Althusser defende que Marx o faça conscientemente, no caso da Dialética), ou na interpretação da nova teoria em que foi inserido, o que é bem perigoso, caso não seja abertamente explicitado.

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ver discussão sobre a “sobrevivência” de aspectos ideológicos em ALTHUSSER, 1979, pág. 100-101. ALTHUSSER, 1979, pág. 90 e 91. 22 EVANGELISTA, 1984, pág. 314-316.

Não obstante estas dúvidas ou limitações típicas do desenvolvimento conceitual aplicado à interpretação de teorias, há que se reconhecer a fertilidade e utilidade do conceito de sobredeterminação; e não apenas para a teoria marxista, e sim para vários outros campos do saber a que abre a possibilidade de ser utilizada. Ainda mais se lhe acrescentarmos a interpretação althusseriana de uma sobredeterminação em que interagem a base estrutural materialista relacionada a uma superestrutura ideológicacultural. Afinal, em uma época em que tanto se debate sobre conceitos como holismo, complexidade, interdisciplinaridade, etc, e em que pesam os fatores positivos e negativos das características e limites nem sempre claros de cada um destes termos, talvez a entrada do conceito de sobre-determinação ofereça novas saídas a impasses e dificuldades a que aparentemente não se via solução satisfatória.

BIBLIOGRAFIA

ALTHUSSER, Louis - A Favor de Marx - Segunda Edição, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1979. 220p.

ALTHUSSER, Louis - Freud e Lacan e Marx e Freud - 3ºed. São Paulo. Ed. Graal, 1991.

CASTIEL, Luis David - Freud, um Epidemiologista - in Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 4 (3): 316-325, jul/set, 1988.

CHASIN, José - Marx: Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica. - in Francisco José Soares Teixeira, Pensando com Marx (S. Paulo: Ed. Ensaio, 1995).

EVANGELISTA, Walter José - Conhecimento e Desejo: Estudo Histórico-Crítico do Conceito de Super-Determinação no itinerário de Louis Althusser - Tese, FAFICH-UFMG, Belo Horizonte/MG, 1984. 328 p.

MIJOLLA, Alain de (Cord.) - Dicionário Internacional de Psicanálise - 2 vols. Ed. Imago, 2005. 2024 p.