O conhecimento e sua estrutura em Kant: aplicações na área de Inteligência Artificial

Vitor Vieira Vasconcelos Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais Fevereiro de 2005.

O Conhecimento em Kant
Nesta primeira parte, propõe-se expor de maneira sintética como é apresentado o conhecimento humano na teoria Kantiana, em especial na sua obra “Crítica da Razão Pura”, publicada em 1781. Kant propõe uma análise do conhecimento a partir do sujeito humano, ou seja, “daquele que conhece”. Seu método pode ser chamado de método reflexivo [Pascal, 2001], entendida a reflexão como “o movimento pelo qual o sujeito, a partir de suas próprias operações, se volta sobre si mesmo” [Pascal, 2001]. Desta maneira, suas conclusões e argumentos serão estruturado a partir da reflexão sobre os conchecimentos racionais do sujeito. O ponto de partida será o sujeito pensante, com suas referências próprias a partir das quais interpretará a experiência do mundo. Assim, abre-se a possibilidade de “compreender que as coisas que acreditamos dadas em primeiro lugar podem ser também constituídas por nós, em outras palavras, perceber nossa imperceptível colaboração na constituição do mundo objetivo” [Thouar, 1965]. Note-se que não se cai de maneira alguma em um solipcismo de procurar o conhecimento apenas no sujeito, pois o tempo todo ele está direcionado ao objeto através da experiência. Afinal, na maior parte das vezes será a sensação dos objetos que excitará a inteligência e dará material para que ela trabalhe. Como diz Kant, “poderemos admitir que o nosso conhecimento empírico seja composto daquilo que recebemos das impressões e daquilo que a nossa faculdade cognoscitiva lhe adiciona.” (Critica da Razão Pura, Introdução, I). Entendendo-se corretamente o processo do conhecimento, busca-se compreender a razão humana, estabelecendo seus campos de legitimidade e procurando por seus eventuais limites e antinomias. Crucial para entender a teoria Kantiana são os juízos analíticos e sintéticos. Julgar, que é a atividade primordial do pensamento, consiste em por em relação dois elementos, um sujeito e um caráter (o predicado), que poderão ser ligados ou separados. O juízo analítico “nada mais faz que desenvolver (pelo predicado) o conteúdo já posto no conceito.” [Thouar, 1965]. Isto é, a partir de um conceito A, chega-se logicamente a um conceito B, 1

que necessariamente deve ser verdadeiro se acreditarmos que A também o é. É como um detalhamento, um esmiuçamento de um pressuposto original. Diferentemente, o juízo sintético “relaciona a um conceito A (o sujeito) um conceito B (o predicado) diferente dele.” [Thouar, 1965]. Com isso, sempre acrescenta conhecimentos novo em nossa coleção de informações sobre um sujeito, e conhecimento este que “não era de modo algum pensado naquele e que não se obteria por nenhuma decomposição” (Critica da Razão Pura, Introdução, I), Dentre esses juízos sintéticos podemos colocar toda a gama de informações que nos vêm por meio da experiência do mundo, incluindo aí o que também é adquirido de acordo com os métodos formalizado das experiências científicas. Dessa maneira Kant procura um caminho de conciliação entre as tradicionais correntes do racionalismo (procurando o conhecimento apenas pela razão) e do empirismo (procurando o conhecimento apenas pela experiência). Pelo lado do racionalismo, a uso exclusivo de juízos analíticos leva a um excesso de abstração e às aparentemente insolúveis contradições metafísicas. Por outro lado, o empirismo, que recorre exclusivamente aos juízos sintéticos, apresenta dificuldade de se alçar à universalidade lógica, matemática e geometria. Isto ocorre porque, por serem juízos sintéticos a posteriori (isto é derivados da experiência), são sempre singulares e não podem ser universalizados. O máximo que se consegue se fazer são algumas generalizações, em que o sujeito espera que algumas experiências se repitam como têm sido observadas, todavia sempre a o risco de de repente encontrar-se com uma exceção. A saída de Kant é procurar por juízos sintéticos a priori (ou seja, que independem da experiência), e que possam trazer informações novas e seguras para o nosso conhecimento, porém de maneira universal. Esse será o caso das regras da geometria e da aritmética, que por sua vez serão usadas como pressupostos na elaboração de teorias da física e outras ciências. Pelos juízos sintéticos a priori se tornará possível ao sujeito dar leis à natureza, e a eficácia das ciências na época de Kant até os dias hoje nos mostra a medida em que isso é possível. Kant chama a sua crítica da razão de “transcendental”, porque se ocupa “não tanto com objetos, mas com o nosso modo de conhecer objetos na medida que este deve ser possível a priori” [Kant, B 25]. Segundo [Brook, 2004], é justamente essa proposta que torna o conhecimento da mente, na Filosofia Kantiana, tão singular: ao invés de investigar a mente a partir de experimentos empíricos, o filósofo vai justamente abstrair de toda experiência e procurar o que podemos conhecer a priori sobre a mente humana. O resultado apresentado, segunda esta metodologia especial, pode corresponder menos ao que hoje chamaríamos de estrutura biológica do cérebro humano, contudo, corresponde mais fielmente aos limites e possibilidades do conhecimento, com as funções necessárias sem as quais não seria possível a atividade cognitiva. Logo, as estruturas reais da mente humana, mesmo que ainda não descobertas, exerceriam obrigatoriamente estas funções, ou seja, adquire-se uma postura de neutralidade ontológica, porém compatível com o conhecimento 2

funcional. É um questionamento mais direcionado para “como a mente funciona” do que para “como a mente realmente é”. Ainda segundo [Brook, 2004], a investigação transcendental conduzida por Kant pode ser sempre interpretada de uma forma dupla: o que Kant inclusive chamou de Deduções Objetivas e Deduções Subjetivas, em (Axvii). Por um lado, tem-se o viés da objetividade, quando são enfocadas as possibilidades de conhecimento dos objetos, e que é o que Kant se propõe fundamentalmente a descobrir. Por outro lado, temos o viés da subjetividade, quando deduzimos, por conseqüência das possibilidades do conhecimento objetivo, como deve ser a “fonte subjetiva” que conhece esses objetos. Ademais, não devemos confundir o significado de “transcendental” com o de “transcendente”. Este último é entendido como “o que está para além da experiência”, como normalmente é o caso das especulações metafísicas e crenças religiosas. O princípio transcendental, pelo contrário, não admite outro uso que não seja o de se referir aos objetos da experiência, ao imanente. O conhecimento transcendental é sintético a priori, portanto não é retirado da experência, mas à qual, todavia, deve conformar-se. [PASCAL, 2001]. Findos estes esclarecimentos, vamos às perguntas. A partir desta discussão, como podemos conhecer alguma coisa? Ou, melhor formulado ainda, quais são as condições de possibilidade a priori para que isso ocorra? Pois bem, comecemos da própria coisa a ser conhecida. Kant considera a existência de um mundo de objetos exteriores ao ser humano (númenon), mas nega a possibilidade do acesso direto a eles pela nossa mente (nous). Os objetos incitarão nosso aparato perceptivo, e a nossa capacidade de receber as sensações advindas dos objetos será chamada de sensibilidade. Desta maneira, o objeto se apresenta à nossa mente como um fenômeno, o qual iremos conhecer, e não ao objeto real. O conhecimento dos fenômenos pode evoluir, mas nunca venceremos a distância entre o conhecer do que se apresenta a nossa sensibilidade e o conhecimento das coisas independente de como elas se apresentam a nós. “Por conseguinte, entre o sensível e o inteligível há uma diferença de natureza, e não de grau” [Pascal, 2001]. E isto vale inclusive para a percepção que o temos de nós mesmos: o sujeito só percebe a si mesmo como fenômeno, e não de maneira direta, estando submetido ao modo e às limitações humanas peculiares de experienciar. A consciência de si mesmo (apercepção) é nada mais nada menos que a representação simples do eu, partindo da maneira como o espírito do sujeito é afetado por si mesmo através da percepção empírica e formando intuições; e, portanto, para Kant não seria um dado espontâneo a priori. Dentro da teoria Kantiana do conhecimento, é importante precisar duas classes de elementos. De um lado, a “matéria” do conhecer, isto é, o que nos vêm do próprio objeto. Essa “matéria” é dada a posteriori, pelo objeto, e varia de um objeto para outro, sendo chamadas de fenômenos. Do outro 3

lado, temos a “forma” do conhecimento, ou seja, que irá depender do sujeito. Essa “forma” é imposta pelo aparato racional do ser humano, se repetindo invariavelmente para todos os objetos e por todos os sujeitos, sendo dada, portanto, a priori. “Por formas a priori devem entender-se os quadros universais e necessários através dos quais o espírito humano percebe o mundo; são como outros tantos óculos sem os quais nada poderíamos ver.”[Pascal, 2001] Os fenômenos então poderão alimentar o nosso conhecimento, gerando as intuições. Intuições são sempre as primeiras fontes de informação sobre um objeto, pois são a maneira como uma informação da sensibilidade se transfere para o conhecimento, abrindo a possibilidade do pensamento ligar uma informação ao predicado através de um conceito. Dentre as maneiras do conhecimento se relacionar com os objetos, aquela “em que essa relação é imediata chama-se intuição.” (Crítica da Razão Pura, Estética Transcedental, I). Porém, de acordo com [Brook, 2004], o sujeito não é consciente de suas intuições, durante o momento em que as recebe; ele não pode chegar a suas intuições diretamente, mais apenas por inferência, a partir do seu conhecimento já elaborado em etapas posteriores. Do ponto de vista epistemológico, as intuições seriam como entidades teoréticas que são postuladas para explicar a possibilidade lógica do que conhecemos [Brook, 2004]. Alerta-se para o fato de que, por mais claro que nos afigure o conhecimento das intuições, esta é uma clareza de ordem lógica (o que não deixa de ser uma boa coisa), que nos permitirá um melhor conhecimento dos fenômenos, todavia jamais proporciona uma melhor aproximação de como são as coisas em si, no númenon. Contudo, para permitir a intuição vinda dos fenômenos, serão necessárias duas intuições puras, que darão as condições subjetivas de sensibilidade. Explica-se como intuições puras são aquelas que nós possuímos a priori, sem nenhum auxílio ou traço a experiência, e que constituirão a forma pura de nossa sensibilidade. São como “quadros ou moldes universais e necessários nos quais se inserem as intuições empíricas” [PASCAL, 2001]. Para se chegar a estas intuições, é necessário em tudo abstrair “daquilo que a inteligência pensa, como substância, força, divisibilidade, etc., bem como daquilo que pertence à sensação, como impenetrabilidade, a dureza, a cor, etc.” (Crítica da Razão Pura, Estética Transcendental, I). Ao fim, nos diz Kant, apenas restará sua extensão e sua figura, e como resultado desta pesquisa chegaremos aos dois princípios do conhecimento a priori: as intuições puras de tempo e espaço. A esta teoria sobre a forma com que se dá a sensibilidade, Kant chamará de “Estética Transcendental”. A intuição pura do espaço irá nos permitir situar fenômenos como referentes a objetos externos a nós. Determinada sua condição de externo, o objeto poderá ser pensado como estando ao lado dos demais que nos são mostrados pela sensibilidade, e permitirá que sua figura, grandeza e relações com outros objetos possam ser determinadas. Mostra-se claro que esta intuição pura não poderia nascer da experiência de fenômenos exteriores, vista que é a própria condição de 4

experienciá-los, pois é impossível perceber sem que exista espaço. O espaço, inclusive, vai possibilitar juízos sintéticos a priori nos darão os princípios da geometria. A segunda intuição pura é a de tempo. A partir dela, podemos estabelecer a ocorrência de um fenômeno como simultâneo a outro, ou então estabelecer que determinados fenômenos ocorreram sucessivamente (isto é, em tempos diferentes). A partir desta intuição, também será possível adquirir o sentimento de uma permanência de um fenômeno (que Kant explica como “simultaneidade da sucessão”). A intuição de tempo terá uma aplicação mais ampla que a de espaço, pois agora irá se aplicar a todos os fenômenos, tanto os externos quanto aos internos ao sujeito: toda percepção que nos afigurar receberá a marca do tempo e estará sujeita às suas relações. E já se pode mencionar que, mais a frente no processo de conhecimento, a memória vai ter um papel crucial na apresentação e organização dos diversos fenômenos percebidos sobre a marca do tempo. De posse das duas intuições puras, e do aparato perceptivo humano, será possível criar conceitos como a mudança e o movimento (que nada mais é do que uma mudança de lugar). Porém, embora o movimento de um fenômeno necessite da sensibilidade, as regras de possibilidade de movimento (por exemplo, na ciência da Física) se dão como conhecimentos sintéticos “a priori”. É interessante que tanto a intuição pura de tempo quanto a de espaço só farão sentido debaixo do ponto de vista do próprio homem. Assim, embora possamos estendê-los a todos os fenômenos, objetos de nossa sensibilidade, não podemos estendê-los as coisas em si. Kant enfatiza que “as condições particulares de sensibilidade não são as condições de possibilidade das coisas mesmas, senão somente de seus fenômenos.” (CRÍTICA DA RAZÃO PURA - Teoria Elementar Transcendental, Estética Transcendental, Exposição Transcendental do conceito de espaço, Conseqüências dos conceitos precedentes). Assim, o espaço e o tempo, assim como os demais juízos baseados nestas duas intuições, terão como alvo os objetos tais como o sujeito percebe, e portanto não vão compreender as coisas mesmas, como elas se constituiriam no númenon. Laureia-se: “o sujeito do conhecimento só pode ter acesso ao fenômeno, isto é, ao que aparece sob a dupla condição de espaço-temporalidade”. (THOUAR, 1965) Porém, Kant enfatiza que os fenômenos não seriam uma simples aparência ou ilusão, fruto da fantasia humana; pois são tão objetivos e dados com seriam as coisas, e é a partir deles que iremos erigir o nosso conhecimento sobre o mundo. Assim, defende-se a dignidade ontológica dos fenômenos, sem rebaixá-los, afinal são eles os objetos de nossa experiência. E caso não houvesse mais sujeitos humanos, desapareceria o tempo, o espaço, os fenômenos, as propriedades destes, e as relações que lhe atribuímos (pois estas últimas são possibilitadas pelas intuições puras, que são humanas e não do mundo externo). As coisas em si poderiam permanecer, embora continuem tão desconhecidas como eram anteriormente, pois “não conhecemos delas senão a maneira que temos de percebê-las; maneira que nos é peculiar” (Kant, Crítica da Razão Pura, Teoria 5

Elementar Transcendental, Da Estética Transcendental do Tempo, Observações gerais sobre a Estética Transcendental). Em outras palavras, “o fenômeno é qualquer coisa que não se pode achar no objeto mesmo, mas sempre na relação do objeto para com o sujeito, e que é inseparável da representação que temos” [MEREGE]. A ciência que estuda a forma e possibilidade das intuições, Kant chama de Estética Transcendental. Ao lado da Estética, que trata de sensibilidade, no conhecimento humano encontraremos a Lógica, que trata do entendimento, quer dizer, da faculdade de conhecer um objeto vindo das intuições, transformando-o em conceitos. Assim, em oposição à receptividade, característica da sensibilidade, Kant apresenta o entendimento como espontaneidade, que é a faculdade de produzir representações. Um trabalha em conjunto com o outro, a sensibilidade fornecendo conteúdo para o qual o entendimento vai se debruçar e aprofundar as conseqüências lógicas. Uma faculdade dá o objeto e a outra pensa sobre ele. Afinal, é necessário tornar inteligíveis os fenômenos, e, em muitos casos, também, fornecer à construções conceituais os objetos sensíveis aos quais elas podem ser aplicadas. Daí a célebre frase kantiana: “Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem certos conceitos, são cegas” (crítica da razão pura, lógica transcendental, da lógica em geral). Quem procurar adquirir conhecimentos sobre objetos utilizando apenas da Lógica estará cometendo um grande erro, e ficará navegando em meio a abstrações vazias e sem ligação com o mundo. A estas tentativas, Kant chama de Dialética, em alusão às tentativas de filósofos antigos de chegar à metafísica por vias meramente especulativas. Ao longo da Teoria Elementar Transcendental, na Crítica da Razão Pura, Kant vai subdividir a Lógica em diversas áreas, de acordo com suas particularidades e objetos de aplicação. Em primeiro lugar, teremos a Lógica Elementar, que examina as operações gerais do entendimento, com as regras necessárias para que seja possível o pensar, e que se aplica ao conhecimento de quaisquer objetos. Em segundo, temos a Lógica das operações particulares, que se aplicam às regras de conhecimento dentro de alguma ciência específica, sendo portanto uma propedêutica científica. A Lógica Elementar (ou Lógica Geral) irá se dividir em pura e aplicada. Para trabalhar com a Lógica Pura, é necessário abstrair de todos os traços vindos de fontes empíricas: os sentidos, a imaginação, a memória, o hábito, as inclinações, etc. Ela vai estabelecer os princípios “a priori”do entendimento e a parte totalmente formal de seu uso. Por outro lado, a Lógica Geral e Aplicada, será bastante ligada à Psicologia, e vai tratar da situação prática do uso do entendimento no nosso dia-adia, com a influência das inclinações, paixões, cansaço e demais sentimentos, e sobre como conseguir tratar com esses obstáculos para não incorrer em erros. Para isso ela irá tratar de atitudes como a dúvida, o escrúpulo e a persuasão, dentre outros. Kant procurará tratar especialmente da Lógica Geral e Pura, e em sua aplicação transcendental (isto é, a que se debruça sobre os meios, possibilidade e validade dos conceitos). 6

Para trabalhar com a Lógica Geral é Pura, é preciso atentar que, assim como as intuições, os conceitos podem ser puros ou empíricos. Os conceitos empíricos são aqueles que no fim se originam de uma intuição empírica. Já os conceitos puros, só são alcançados após a abstração de todos os traços da sensibilidade no conhecimento, e irão corresponder à forma como pensamos os objetos em geral. É justamente deste último tipo de conceito que tratará a Lógica Transcendental, e o caminho trilhado para construí-la será denominado de Analítica Transcendental. A primeira indagação de Kant, dentro do entendimento humano, será sobre o que é a Verdade. Em princípio, estabelece-se que a verdade é a conformidade de um conhecimento com o seu objeto (no caso do conhecimento empírico, a conformidade com o fenômeno). Porém, nas situações em que se faz abstração de todo o conhecimento empírico ou conteúdo de qualquer objeto, como é o caso do conhecimento transcendental, no qual nos interessa apenas a forma, então como poderemos aplicar este conceito de verdade? Respondendo a essa pergunta, Kant mostra que, dentro da Lógica, chegamos às regras universais e necessárias do entendimento, e serão justamente essas regras que darão o critério de verdade nessa ciência. Qualquer proposição que contradiz as leis da lógica contradiz a nossa própria forma de pensar, portanto entra em contradição e podemos considerá-la falsa. Todavia, os conceitos podem estar em perfeita coerência com as leis da Lógica, mas, na hora em forem aplicados a um objeto, se mostrarem totalmente desconformes. Isso acontece porque os critérios lógicos só dizem respeitos à forma lógica da verdade, o que já é um critério para desqualificar ou não uma teoria, porém falta-lhe a pedra de toque: sua conformidade ao conteúdo, que enfim lhe dará o estatuto de verdade material. A lógica será uma modalidade de verdade negativa, que pode desqualificar uma proposição, mas não pode, em última instância, comprovar a conformidade desta última com o objeto. Na espontaneidade do pensamento, o entendimento utilizará de certas ações gerais, que Kant chamará de funções. Somente através dessas funções o entendimento poderá se referir aos fenômenos e conceitos, criando juízos. Nos juízos, há sempre um conceito aplicável a diversas coisas, e uma representação especial à qual o conceito irá ser ligado. O conceito sozinho não é capaz de produzir conhecimento, mas através dos juízos, será relacionado a uma outra representação, intuitiva ou conceitual. No exemplo “todos os corpos são divisíveis”, a divisibilidade é um conceito aplicável a diversas coisas, mas neste caso está referindo-se a representações de corpo (e estas se referem a um grupo de fenômenos específicos de nossas intuições sensíveis). Por definição, julgar é estabelecer relações entre as representações, reduzindo-as à unidade do pensamento. E como “o entendimento em geral pode ser representado como uma faculdade de julgar” (B 94, TP 88), Kant propõe que através da unidade dos juízos será possível encontrar todas as funções do entendimento [Pascal, 2001]. 7

Kant propõe que o entendimento, ao utilizar de sua função lógica, compreende quatro momentos, aos quais chama de categorias; e cada uma delas também conterá três momentos específicos. Para isso, nos apresenta o seguinte esquema:

Tábua das Categorias

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QUANTIDADE DOS JUÍZOS Gerais Particulares Singulares 2 QUALIDADE Afirmativos Negativos Indefinidos 4 MODALIDADE Problemátivos Assertórios Apodíticos
________________________________________ Crítica da Razão Pura, Analítica Transcendental, Capítulo I, Segunda Seção trad. J. Rodrigues Merege

3 RELAÇÃO Categóricos Hipotéticos Disjuntivos

Vamos então abordar cada um deles:

CATEGORIAS MATEMÁTICAS (dizem respeito aos objetos da intuição pura ou empírica tomados em si mesmos [THOAR, 1965] )

Quantidade: Diz respeito à extensão de objetos à qual o juízo se refere. Os juízos gerais se propõem abarcar a totalidade, por exemplo: “Todos os homens são mortais”. Já os juízos particulares expressam um conceito a um objeto específico, porém sem definílo, vide: “Um homem é mortal”. Correspondente a um terceiro momento, os juízos singulares se referem a um objeto específico, como em “Sócrates é mortal”. 8

Qualidade: Os juízos podem vincular um conceito a um objeto (juízo afirmativo) como em “A bola é verde”. Também podem negar a vinculação entre conceito e objeto (juízo negativo) como em “A bola não é verde”. Os juízos indefinidos, por sua vez, ocorrem quando limitamos o conjunto de objetos, porém sem definir esse conjunto; esse seria o caso do exemplo “a alma é não-mortal”, o que exclui a alma do conjunto de objetos mortais, mas ainda a deixa em um conjunto indefinido.

CATEGORIAS DINÂMICAS (indicam as relações dos fenômenos, entre eles ou para com o conhecimento [THOUAR, 1965] )

Relação: O sujeito pode relacionar um sujeito a um predicado (juízo categórico), o que é o caso das relações conceituais, por exemplo: “A porta está aberta”. Outro tipo de relação é a que liga um princípio a uma conseqüência (juízo hipotético), como em “Se a porta está aberta, então alguém entrou na casa.”; e que dessa maneira forma dos juízos em geral. O terceiro tipo é o de juízo disjuntivo, onde se vinculam diversos tipos de juízos uns com os outros, de maneira exclusiva, como em “Se a porta está aberta, então alguém entrou na casa, ou o dono a esqueceu aberta”. Os juízos de Relação terão um papel fundamental, visto que são a única ferramenta que pode colocar os diversos objetos em uma grande teia relacional, conectando as diversas representações entre si através de regras lógicas. Dessa maneira, as representações mentais, que antes eram esparsas e isoladas, agora adquirem uma unidade, formando o conhecimento humano e permitindo uma noção global da consciência que o sujeito tem do mundo e de si mesmo. Essa mesma categoria irá instituir os fundamentos para o desenvolvimento lógico da ciência da Física.

Modalidade: Diz respeito não ao conteúdo da relação, mas ao valor da relação em si, em seu grau de ficção ou realidade. Os juízos assertórios são aqueles em que consideramos a relação como sendo verdadeira, correspondente à realidade. Os juízos apodíticos são aqueles em que, além de serem considerados verdadeiros, também são considerados necessários segundo as leis do entendimento, e portanto sua refutação se tornaria contraditória e falsa. Já os juízos problemáticos são aqueles em que não se assumimos que podem ser certos ou errados, e que muitas vezes enunciamos mais por mero exercício de pensamento; embora sejam logicamente coerentes, não têm necessariamente que corresponder à realidade.

Através da delimitação dos tipos de juízo, Kant chegará as Categorias do Entendimento, ou Conceitos Puros do Entendimento, que são nada mais que “as formas a priori pelas quais se opera a síntese de uma multiplicidade dada na intuição” [Pascal, 2001]. 9

Kant ressalta em observar que as categorias estão organizadas em tríades, e que cada em cada uma dessa tríades, o terceiro termo necessita das funções dos dois termos iniciais. Apesar dessa necessidade funcional, o terceiro termo não é apenas um dedução lógica, pois acrescenta em modo essencial de pensar os objetos e, por isso mesmo, deve ser encarado como termo em separado. E todo conhecimento utilizará destas mesmas categorias, precisando conformar-se às operações destas. Daí Kant concluir que: “o entendimento não tira suas leis da natureza, ele as prescreve” (Prolegömenos IV, 320, in THOUAR, 1965). As categorias forneceriam uma espécie de Gramática do Conhecimento, com suas regras específicas e a priori sobre a inteligibilidade, de que todos utilizariam, mesmo que não tenham consciência disso. Em uma posição não muito clara [BROOK, 2004, PASCAL, 2001] entre a Intuição e o Entendimento, está a faculdade da Imaginação. Essa faculdade da mente é a responsável pela produção de imagens através da conexão de elementos vindos da Intuição. É importante não confundir essa definição de imaginação outras comumente empregadas por outros pensadores, pois é comum atribuírem à imaginação um papel oposto ao da atividade do conhecimento, colocando-a como uma produtora de imagens sem referência à realidade, em contraposição ao que seria a forma correta do conhecimento. Pelo contrário, Kant atribui à imaginação de um papel crucial na formação do conhecimento válido logicamente e fenomenicamente, estando essa faculdade da mente integrada aos demais processos mentais. Explicando de uma maneira geral, o conhecimento em Kant se dá por meio de três sínteses [Brook, 2004]. E cada um dos três momentos de síntese pode-se ver a marca da dualidade entre intuição e conceito sobre um diferente aspecto [Brook, 2004]. São elas:  Síntese da Apreensão, na Intuição - Gera a estrutura (matriz) espaço-temporal ao dado da sensibilidade. Nesse momento em que recebemos uma grande quantidade de percepções inicialmente indiferenciadas e indistinguíveis, a síntese da apreensão os distribui em diferentes momentos e diferentes localizações.  Síntese da Reprodução, na Imaginação - Associa os objetos espaço-temporais uns aos outros.

 Síntese dos Conceitos, no Entendimento - Reconhece os objetos em conceitos, utilizando das
Categorias do Entendimento. As duas primeiras, reprodução e apreensão, são inseparáveis e uma não ocorre sem a outra (A102, in BROOK, 2004), enquanto a terceira, que é a do entendimento, depende das duas anteriores, mas não é requerida por elas. Ao fim desse percurso, fica mais claro entender porque, para Kant, “Conhecer é ligar em conceitos a múltiplicidade do sensível” [Pascal, 2001].

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Análise comparada da Teoria Kantiana com a área de Inteligência Artificial
Tomaremos como exemplo prático, neste estudo, a comparação entre a Teoria do Conhecimento em Kant, tal como se dá na Crítica da Razão Pura, e a dinâmica de conhecimento e informação envolvida no processo de funcionamento de um modelo de programa (software) especialista de Inteligência Artificial, dentro dos padrões especificados na metodologia CommonKads e com os recursos e limitações da programação de seu código em Prolog. Sobre uma perspectiva histórica, não pode-se negar que Kant influenciou em muitos pontos o desenvolvimento das ciências cognitivas, das quais, na contemporaneidade, irão surgir as reflexões sobre inteligência artificial. A principal égide postulada por Kant, e que vai influenciar toda a maneira de representar o conhecimento ao longo de todos os séculos vindouros, é a representação do conhecimento em conceitos; aliada à adição de novos conhecimentos através de novos dados que nos chegam pela percepção e da adição relações lógicas que atribuímos à nossa base de objetos de conhecimento. Outra forma de abordagem kantiana que com recorrência foi utilizada para representar o processo de conhecimento humano, de maneiras mais ou menos similares, é formação do conhecimento pelos três momentos de síntese: a apreensão pela sensibilidade, a associação das percepções em imagens mentais e a posterior cognição destas representações sobre a forma de conceitos. A Teoria da Informação abrange, de maneira clara, o ato de comunicação, ainda mais quando lembramos de sua origem no campo das Telecomunicações. Já a Teoria de Conhecimento em Kant praticamente não aborda a questão da comunicação entre sujeitos, e essa é um crítica comum a sua filosofia por parte de pensadores pertencentes à corrente da Filosofia da Linguagem. Contudo, segundo [Brook, 200?] e [Brook 2004], ainda há aspectos da teoria kantiana a que as ciências cognitivas poderia dar mais atenção. Esse é o caso da atividade mental de tecer relacionalmente as múltiplas representações de objetos em uma representação global do conhecimento, com diversas implicações nos estudos de unidade da consciência humana. Este aspecto da teoria kantiana, embora não seja foco especial deste estudo, se levanta como possibilidade de reflexão para pesquisas posteriores na área cognitiva. Com efeito, é de comum acordo entre os programadores de IA que a capacidade de dedução lógica de uma base de conhecimentos aumenta em muito, na medida em que as proposições se tornam mais interligadas entre si. Talvez esta seja uma boa referência para se avaliar o grau de “inteligência” de um programa de IA. A maneira Kantiana de definir as estruturas de conhecimento com limites precisos facilita sobremaneira a comparação com as estruturas delimitadas de software. Também é especialmente relevante a proposta de Kant, de que o caminho para chegar a suas estruturas mentais foi trilhado 11

com base em argumentos transcendentais, isto é, que não eram baseados em observações experimentais e sim nas possibilidades lógicas do ato de conhecer. A proposta lógica do conhecimento em Kant permite um casamento pouco conflituoso com a programação de softwares inteligentes em Prolog, que também é uma linguagem calcada dentro do terreno da Lógica. Destaca-se a importância de se realizar este estudo, como mais um esforço para estabelecer relações entre áreas de conhecimento tradicionalmente distintas, e que não possuem uma experiência consolidada de diálogo. O primeiro passo para que pesquisadores e profissionais de campos tão distintos começarem a se entender em diálogos e, posteriormente, em trabalhos comuns, é que os conceitos e mensagens transmitidas entre emissor e receptor tenham, no máximo possível, a mesma interpretação para ambos. Com isso não se quer dizer que, ao final, todos devam adotar a mesma teoria, ou mesmo compartilhar dos pressupostos, objetivos e métodos de trabalho; afinal, não se propõe aqui concluir quem estaria mais certo quanto à verdadeira (ou real) estrutura do conhecimento, mas sim abrir o campo para o debate. Dessa maneira, abre-se a possibilidade de interação entre estudiosos de filosofia, cientistas (físicos, biólogos, ecólogos, cientistas da natureza, cientistas da computação, e tantos outros), e demais pensadores que se dedicam ao estudo do conhecimento direta ou indiretamente.

Bibliografia:
BROOK, Andrew - Kant’s View of the Mind and Consciousness of Self - Standford University, 2004. Disponível em http://stanford.library.usyd.edu.au/archives/spr2009/entries/kant-mind/ KANT, Emmanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. de J. Rodrigues de Merege. Rio de Janeiro, Ediouro, s/d. PASCAL, Georges - O Pensamento de Kant - trad. Raimundo Vier - Petrópolis, Editora Vozes, 2001. THOUAR, Denis (1965) - Kant - trad. Tessa Moura Lacerda - São Paulo: Estação Liberdade, 2004.

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