J. T.

Parreira
Poemário
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Na Ilha Chamada Triste
Sumário
Apresentação
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Chegada 5 Agreste 6 Diário Mínimo 7 Amanhecer 8 Exteriores 9 Domingo 10 A Visão de Patmos 11 A Visão 12 Uma cidade entre as visões 13 Um rio entre as visões 14 Chuva na Ilha 15 Inverno do nosso exílio em Patmos 16 Visita dos velhos amigos 17 Visitas 18 Poesia Final 19

O poeta

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Apresentação
Raro tecelão poético encontramos na pessoa do poeta J. T. Parreira. Expoente da assim chamada Nova Poesia Evangélica, movimento de renovação deflagrado na década de 70 pelo poeta Joanyr de Oliveira, no Brasil, tendo em Portugal Parreira como seu co-signatário e promotor em conjunto com o jovem poeta Brissos Lino. JTP contabiliza já mais de quatro décadas de singular produção poética. E digo tecelão pela habilidade do bardo em utilizar-se dos átomos-palavras, e recriá-los enquanto tecido, matéria-prima para formar poemas que por diversas vezes chegam àquele cume ideal que se convencionou chamar poesia maior. E além de mestre da tecelagem, o poeta fez-se também mestre do corte, verdadeiro alfaiate ao dar-lhe (ao verso) a justa forma, com a maestria da concisão, que é tantas vezes o ouro da poesia. E poesia, riquíssima em suas nuances de significado e sonoridade, é o que o leitor encontrará aqui neste a um tempo conciso e vasto poemário. Nos 16 poemas que compõem este opúsculo, iniciado no Recife, “defronte do mar”, em Abril de 1995, e concluído em Aveiro pelo mesmo ano, o poeta enfeixa as vozes de uma Patmos do Exílio e sua companheira sequaz, seu quase duplo que é a Solidão. Ilha (e ilha interior) da pura contemplação do
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profeta (apóstolo João) e do poeta (JTP) que produzem num a Revelação (Apocalipse), que com seu tesouro de ora literalidade, ora alegoria, nos traz a Advertência e a Esperança; e noutro a poesia que re-conta, re-vive, re-vigora e trans-vigora com a verve de sua voz poética as vivências do Apóstolo em seu exílio insular. Eis-nos Patmos, (uma) estranha ilha (chamada) Triste, mas de uma “tristeza segundo Deus” (2Co 7.10), que opera em seu fim a salvação. É pois com imenso prazer que venho a editorar e apresentar, neste formato de e-book, este singelo e até aqui inédito presente aos apreciadores da verdadeira Ars Poetica.

Sammis Reachers

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Chegada
Patmos esconde a dureza Sob o espelho das águas. A superfície olha com o olhar da pedra ao sol.

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Agreste
Os meus olhos suavizam a ilha Cúmplices da flor Que o mar alimenta nas rochas; Solitário Comigo o meu velho coração Carregado de lembranças Que um anjo pôs dentro, no Céu.

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Diário Mínimo
O sol está de novo no poente O mar afunda-se com o sol Numa abertura de luz Depois, a noite deixa A sensação da ilha não ter fim. Rosas, jasmins, violetas são odores Que não podemos senão tactear O anoitecer na ilha é um cheiro Que está no mar.

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Amanhecer
Todo um rebanho de cabras É o cheiro que a manhã acaba De levantar na ilha. O pastor é uma figura grácil Parece volátil com a poeira Com as pedras semeadas Entre raízes. Acordo os meus olhos Para eles vencerem um rebanho Que já vai enchendo o dia De ruídos, balindo, bulindo A solidão da ilha.

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Exteriores
Mandem-me de Éfeso um pouco de sal Da nossa terra venha um pergaminho Desenrolar maravilhas, Tragam também um cântico para passar No coração a voz dos irmãos, Mandem todo o fogo que ardia Do primeiro amor, Um cheiro do anoitecer no vento, Mandem-me para amenizar o azul Quente que vem do mar. Queria também que as trevas Não enchessem o pouco verde da ilha. Enviem-me pássaros para fazer Das asas as sombras do vento, A frescura quando assento Nas pedras, o silêncio do olhar.

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Domingo
Não está longe, um pouco mais do escuro a dissipar-se entre as estrelas, erguerei meu corpo então da pele da cama E pisarei o vento que teima em meter entre as fendas, no silêncio a nostalgia Há vozes que ouço no interior que espreitam no meu coração Nenhuma delas temo, antes me alivia da minha solidão O domingo começa no céu de Patmos que vai estar ao alcance da minha mão.

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A Visão de Patmos
O poeta estende os braços para o ar da ilha, para encontrar uma brisa que venha refrescar a respiração O poeta ainda não sabia que iria descer no céu que escutaria a voz do anjo deixando em seus ouvidos maravilhas.

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A Visão
Voltei-me para escrever Como meter nas palavras com tão pouco espaço toda a vista para a eternidade?

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Uma cidade entre as visões
E vi a cidade que descia trazendo o céu ao norte do Trópico de Câncer para acabar com o hábito da morte E eu, João, vi a cidade que é uma grande voz no céu Em redor da sua praça o vidro treme como água no cristal A luz lava a palavra noite e há rostos como que voltando do sol.

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Um rio entre as visões
Passa um rio na claridade do vidro, sem peixes e sem algas É um rio que passa à minha vida, de olhar as águas Talvez os anjos lhe toquem nas suas margens flautas e cavalos em brancos saltos como nos sonhos dos homens É um rio que lembra o ar tranquilo das margens dos anjos sem vestígios de asas é um rio sobre coisas claras.

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Chuva na Ilha
Caía uma chuva do Universo E dos baixos relevos dos frontões das casas com figuras esculpidas numa luta em mármore, e pedras a tomar nas aves o lugar das asas Uma chuva à flor das nuvens que descem para espreitar nas vidraças A chuva que caía do Universo e das goteiras das casas.

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Inverno do nosso exílio em Patmos
Desde então tem chovido muito sobre as ruas de Patmos pedras suspensas entre lamas parecem boiar entre o que resta das águas Toda a minha mobília ficou na última jornada Meus olhos ficaram no céu minha mão direita está pronta para trazer o que vi Todo o meu material celeste agora se resume a esta chuva no meu coração e no solo árido.

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Visita dos velhos amigos
Nenhum velho amigo desata a noite dos fios da chuva e vem visitar curvado ao vento e aos tojos o meu coração que chove sangue por dentro Nenhum velho amigo virá das mãos embriagadas de Domiciano nenhuma companhia de amigo virá sempre que nasça o céu com tanta luz, até nossos olhos arderem ao sol que branqueia as casas De longe nenhum velho amigo virá falar-me do fundo do peito no qual minha cabeça reclinava.

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Visitas
Entra el campo a mi quarto Octavio Paz

Não só o cheiro das pedras entra através da noite no meu quarto O mar que atira um cheiro subtil a espuma contra as rochas As plumas que descansam dos seus voos a erva onde o orvalho deita pérolas rente ao chão, o silêncio que entre as árvores enche o espaço visitam o meu quarto Até as flores rompem o sal e a água que o vento entorna nas paredes e entram à frente de outros cheiros no rastro do meu sono Também a noite entra, lado a lado as estrelas entram e arrumam sua luz aos poucos no meu quarto.
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Poesia Final
“E não escolho mais as minhas visões” Mário de Andrade

Estava sentado em certo lado do Céu Depois acometido de um vento Meu olhar entrou com o devagar da minha velhice no azul.

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O Poeta
João Tomaz (do Nascimento) Parreira, Lisboa, 1947. É poeta e escritor. Autor de 5 livros de poesia e um ensaio teológico e participação em Antologias. Escreve na revista evangélica «Novas de Alegria» desde 1964 e no Portal da Aliança Evangélica Portuguesa. Na juventude escreveu poesia e artigos no suplemento juvenil do "República", entre 1970-1972, sob a direcção de Raul Rego. Tendo começado em 1965 também no Juvenil do "Diário de Lisboa", de Mário Castrim. Está representado no Projecto Vercial, a maior base de dados da literatura portuguesa. Mantém os blogs Poeta Salutor e Papéis na Gaveta, e colabora em Liricoletivo e na Confeitaria Cristã.

©J.T.Parreira (João Tomaz Parreira, Lisboa, 1947-)
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