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MAÍRA FERRO DE SOUSA TOUSO

A INCAPACIDADE PARA O TRABALHO E SUAS REPERCUSSÕES SOBRE A VIDA COTIDIANA: interpretações pelo método Photovoice.

Dissertação apresentada à Universidade de Franca, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Promoção de Saúde.

Orientadora: Profa. Dra. Rosalina Carvalho da Silva.

FRANCA

2008

Catalogação na fonte Biblioteca Central da Universidade de Franca

T669i

Touso, Maíra Ferro de Sousa

A incapacidade para o trabalho

e suas repercussões sobre a

vida

cotidiana: interpretações pelo método Photovoice / Maíra Ferro de Sousa

Touso; orientador: Rosalina Carvalho da Silva. 2008

190 f. : 30 cm.

Dissertação de Mestrado Universidade de Franca

Curso de Pós-Graduação Stricto Sensu Mestre em Promoção de Saúde

1. Promoção de Saúde Psicologia Trabalho.

2. Método Photovoice.

3. Trabalho Incapacidades.

4. Promoção de Saúde Vida cotidiana

(trabalho). I. Universidade de Franca. II. Título.

CDU 614:159.9:331

MAÍRA FERRO DE SOUSA TOUSO

A INCAPACIDADE PARA O TRABALHO E SUAS REPERCUSSÕES SOBRE A VIDA

COTIDIANA: interpretações pelo método Photovoice.

Presidente:

Nome:

Instituição:

Titular 1:

Titular 2:

Nome:

Instituição:

Nome:

Instituição:

Franca,

/

/

Dedico este trabalho aos meus pais (Beth e Touso), à minha irmã (Li) e ao meu querido marido (Gu) por me mostrarem durante todos estes anos que a maior felicidade está em nossa própria casa, entre as alegrias da família.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à Cris (Cristiane Paulin Simon) por primeiro acolher minhas idéias, meu gosto por fotografia e por me apresentar ao Photovoice;

à Lina (Rosalina Carvalho da Silva) por me orientar nesta pesquisa, sempre transmitindo sua sabedoria;

aos participantes por me aceitarem em suas vidas e compartilharem com carinho e confiança suas dores e alegrias;

aos meus colegas de trabalho da Fundação Civil de Misericórdia de Franca pela longa jornada que percorremos juntos, sempre com respeito e amizade;

à minha avó Marina e às minhas tias avós Tata e Ni pelos muitos telefonemas de incentivo e inúmeros “chás da tarde” repletos de “açúcar e afeto”;

aos meus pais pelo constante incentivo aos estudos e aprimoramento pessoal;

ao meu marido pela paciência e apoio;

aos meu cunhadinhos Nath e Dudu pela ajuda “high tech” ;

por fim, a todos os que amo muito (amigos e parentes) e que sempre se fazem presente em companhias e lembranças.

Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras Em que rí e cantei, em que era querida, Parece-me que foi outras esferas, Parece-me que foi numa outra vida

E a minha triste boca dolorida Que dantes tinha o rir das primaveras, Esbate as linhas graves e severas E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago Toma a brandura plácida dum lago O meu rosto de monja de marfim

E as lágrimas que choro, branca e calma, Ninguém as vê brotar dentro da alma! Ninguém as vê cair dentro de mim!

FLORBELA ESPANCA

RESUMO

TOUSO, Maíra Ferro de Sousa. A incapacidade para o trabalho e suas repercussões sobre a vida cotidiana: interpretações pelo método Photovoice. 2008. 190 f. Dissertação (Mestrado em Promoção de Saúde) - Universidade de Franca, Franca.

A partir de observações profissionais, no campo da Psicologia, acerca de experiências vivenciadas junto à pacientes do Centro de Reabilitação da Fundação Civil Casa de Misericórdia de Franca, foi possível notar que muitos de seus usuários apresentam dificuldades em lidar com mudanças em suas vidas decorrentes de limitações motoras adquiridas, quando estas os incapacitam para determinados trabalhos. Tais mudanças são evidenciadas pelas impossibilidades destes pacientes em retomarem atividades e funções antes desempenhadas com propriedade. A impossibilidade ou adiamento do retorno à vida produtiva, pós-incapacidade, interfere em diversos aspectos da vida do indivíduo, seja pessoal, social ou laboral. O presente estudo pretendeu conhecer as repercussões que a incapacidade para o trabalho que desenvolviam pode assumir na vida de um indivíduo adulto, e, através de tal compreensão elaborou alternativas de Promoção de Saúde que possam auxiliar na reabilitação de indivíduos, sob condições semelhantes, de uma maneira ampla (física, social e emocional), facilitando seu retorno ao contexto laboral. Para tanto foi adotado um método de pesquisa-ação participativa, intitulado Photovoice, que permitiu que os participantes da pesquisa produzissem fotografias sobre suas vivências enquanto incapacitados para o trabalho. As imagens visuais captadas, assim como os relatos que as acompanharam consistiram o material principal deste estudo.

Palavras-chave: Método Photovoice; Trabalho; Incapacidades; Promoção de Saúde.

ABSTRACT

TOUSO, Maíra Ferro de Sousa. The disability to work and impacts in daily lives:

interpretations trough Photovoice Method. 2008. 190 f. Dissertação (Mestrado em Promoção de Saúde) - Universidade de Franca, Franca.

Since observations by professionals of the psychology field about experiences with patients of the Center for Rehabilitation in a Franca‟s Hospital it was possible to note that many of its users have difficulties in dealing with changes in their lives from limitations in motor coordination when they are disabilities for work. Such changes are evidenced by the impossibility of these patients resume activities and functions previously undertaken with ownership. The inability or postponement the return to productive life, post-disability, interferes with various aspects of the individual's life, whether personal, social or labor. This study sought to understand the impact that the inability to work may take on the life of an adult, and through this understanding has developed alternatives for the Health Promotion that can assist in the rehabilitation of individuals, under similar conditions in a broad way (physical, social and emotional), facilitating his return to the workplace. To that end was adopted a method of participatory action research, entitled “Photovoice" which allowed participants of the research produce photographs on their experiences as unfit for work. The visual images captured, along with reports that followed, were the main material of this study.

Key words: Photovoice Method, Work; Disabilities; Health Promotion.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 ──

Foto de Ce. na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação local onde ocorre o Grupo de Apoio

26

Figura 2 ──

NGA - 16 Núcleo de Gestão Assistencial

27

Figura 3 ──

INSS Franca/SP

29

Figura 4 ──

Centro de Reabilitação

32

Figura 5 ──

Grupo de Apoio

34

Figura 6 ──

Uni-FACEF

35

Figura 7 ──

Casa de Ce.

37

Figura 8 ──

Esposa de Ce. trabalhando na garagem da casa deles

38

Figura 9 ──

Moto de Ce.

40

Figura 10 ──

Casa do sogro de Ce.

41

Figura 11 ──

Ce. em seu computador

42

Figura 12 ──

Área de preservação da prefeitura perto da casa de Ce.

44

Figura 13 ──

Casa de Di. terceiro trabalhando

46

Figura 14 ──

Casa do Di.

48

Figura 15 ──

Chácara da irmã do Di.

50

Figura 16 ──

Chácara da irmã do Di. terceiro trabalhando

51

Figura 17 ──

Riacho que despertou a atenção de Di.

52

Figura 18 ──

Móveis da Casa de Di.

54

Figura 19 ──

Moto do Di.

56

Figura 20 ──

Rapaz indo para o serviço lembranças de Di.: seu trajeto antigo

57

Figura 22 ──

Em frente a uma escola, perto do Palmeirinha, “simbolizando” os quatro filhos de Di.

60

Figura 23 ──

Um dos cantinhos da casa do Di.

62

Figura 24 ──

Local onde Di. faz fisioterapia

63

Figura 25 ──

Foto de Cl. na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação local onde ocorre o Grupo de Apoio

67

Figura 26 ──

Cl., a mãe e a avó

 

68

Figura 27 ──

Foto tirada na casa da Avó de Cl. no Paraná a avó, o padrasto e

70

o

cunhado

Figura 28 ──

Foto tirada na casa da Avó de Cl. no Paraná o esposo, a avó e uma vizinha da avó

71

Figura 29 ──

Foto tirada na casa da Avó de Cl. no Paraná a avó, dois primos

72

e

um tio

Figura 30 ──

Local do acidente de Cl

Rodovia: rotatória no Tropical

73

Figura 31 ──

Local do acidente de Cl

Rodovia: rotatória no Tropical

74

Figura 32 ──

Local do acidente de Cl

Rodovia: rotatória no Tropical

74

Figura 33 ──

Os dois filhos de Cl.

77

Figura 34 ──

Os dois filhos e o marido de Cl.

77

Figura 35 ──

Mão esquerda acidentada de Cl. parafusos retirados

79

Figura 36 ──

Amiga e Cl. caminho do Centro de Reabilitação

81

Figura 37 ──

Grupo de Apoio

 

82

Figura 38 ──

Foto de Cl. tirada na Clínica de Psicologia da UNIFRAN

83

Figura 39 ──

Foto de Te. na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação local onde ocorre o Grupo de Apoio

86

Figura 40 ──

Dr.

Ubiali e Te.

88

Figura 41 ──

Te. em atividades de dona de casa

90

Figura 42 ──

Te. em sua casa cuidando de sua galinha e pintinhos

93

Figura 44 ──

Te. cuidando das galinhos e patos

95

Figura 45 ──

Te., um pintinho na mão, a lagoinha que construiu e o pé de acerola, também plantado por ela

97

Figura 46 ──

NGA a espera de Te. para ser atendida

98

Figura 47 ──

Dr. Pedro Cury e Te. na sala de atendimento médico

100

Figura 48 ──

Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, em São Paulo. Moça de avental amarelo do atendimento Conte Comigo

101

Figura 49 ──

Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, em São Paulo

101

Figura 50 ──

Te. e seus medicamentos

104

Figura 51 ──

Te. no NUBES do Guanabara

105

Figura 52 ──

Te. e a fila do INSS

107

Figura 53 ──

Te. e a fila do INSS

108

Figura 54 ──

Te. e a fila do INSS

108

Figura 55 ──

Ma. em um dos ambientes de sua casa

109

Figura 56 ──

Ma., seu psicólogo e mais uma das pacientes no Ambulatório de Saúde Mental

112

Figura 57 ──

Centro de Reabilitação: Ma. e dois auxiliares da fisioterapia

114

Figura 58 ──

Ma. e seu psiquiatra de São Paulo

116

Figura 59 ──

Mãe da Ma. em seu próprio apartamento

117

Figura 60 ──

Ma. em sua casa e sua coelha

119

Figura 61 ──

Ma. e os seus medicamentos

121

Figura 62 ──

Ma.

em um Centro de Saúde

122

Figura 63 ──

Ma. na fila do INSS

124

INTRODUÇÃO Antecedentes teóricos Justificativa para o estudo

SUMÁRIO

1. OBJETIVO

11

2. ABORDAGEM TEÓRICA METODOLÓGICA

12

2.1 Perspectiva Teórica que embasa esta Pesquisa

12

2.2 Materiais

15

2.3 O Método Photovoice

15

2.3.1 Descrição do Método

15

2.3.2 A Questão Ética no uso do Método Photovoice

18

3. PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS

20

4. RESULTADOS

23

4.1 Participantes

23

4.2 Caracterização dos Participantes

24

4.3 O Material Captado

25

5.

ANÁLISE DOS DADOS

128

5.1 Significando a Produção Fotográfica

128

5.2 Identidade

128

 

5.3 Saúde

130

5.3.1 NGA

130

5.3.2 INSS

133

5.3.3 Centro de Reabilitação

138

5.3.4 Atendimentos psicológicos e psiquiátricos

141

5.3.5 Dores, remédios e consultas

143

5.3.6 Grupo de Apoio

147

5.4 Recursos Terapêuticos

149

5.5 Família

154

5.6 Trabalho

157

6.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

167

APÊNDICES

173

Apêndice A

174

Apêndice B

178

Apêndice D

180

REFERÊNCIAS

181

INTRODUÇÃO

O presente estudo começou a ser pensado muito antes de ser efetivado, enquanto eu era a psicóloga responsável pelo serviço de psicologia do Centro de Reabilitação da Fundação Civil Casa de Misericórdia de Franca, cargo que ocupei entre o iníc io de 2003 e meados de 2008. Na ocasião de meu exercício profissional convivi com inúmeros pacientes e profissionais e entrei em contato com a vivência cotidiana da incapacidade para o trabalho em indivíduos adultos. Após ouvir muitos relatos sobre este tema, gradativamente, a idéia de um estudo foi se delineando e passou a ser efetivamente pensada a partir de meu ingresso neste programa de mestrado em 2006.

Antecedentes teóricos

Ao longo da história da humanidade observamos que o trabalho desempenha um papel importante, na constituição identitária e no rol de atividades cotidianas que um indivíduo desempenha durante sua existência (DUBAR, 2002). Desde os primórdios da humanidade encontramos relatos que situam o trabalho como necessário e até mesmo inerente ao ser humano. Assim como as necessidades instintivas vitais a alimentação e o sono, por exemplo o trabalho pode ser visto como ferramenta estruturante da psique humana (ALVES e ANTUNES, 2004). O poeta grego Hesíodo que viveu entre os séculos VIII e VII a.C., no texto “O trabalho e os dias” discorreu sobre os fundamentos da condição humana através de suposições acerca da origem, limitações e deveres dos seres-humanos. Interessante notar que já, neste texto, o autor justifica o trabalho como uma das contingências da vida humana: o homem desfalcado de poderes divinos precisa trabalhar para subsistir. Neste contexto, o trabalho surge como pilar fundamental da estruturação do humano e, ainda, como precursor da justiça e organizações sociais. Pelo breve exemplo histórico acima relatado, observa-se o quanto o termo trabalho pode ser de difícil definição e contextualização, uma vez que seus significados estão imbuídos de noções históricas, culturais e sociais.

Ao recorrermos a um dicionário de nossa língua natal (Dicionário Eletrônico

Houaiss) encontramos vinte e oito definições para o termo trabalho. Dentre estas, podemos destacar duas que abrangem os sentidos mais comumente empregados:

conjunto de atividades, produtivas ou criativas, que o homem

exerce para atingir determinado fim. Ex.: t. manual, intelectual, mecânico.”; “[

profissional regular, remunerada ou assalariada. Ex.: <t. de tempo integral> <t. de meio expediente>.”

Ao questionarmos sobre os significados que a palavra trabalho pode assumir, para as pessoas, deparamo-nos com diversas definições que se circunscrevem em concepções bastante distintas. Segundo Galhordas e Teixeira Lima (2004), alguns autores consideram tratar-se de uma relação social (do tipo relação salarial). Para outros, trata-se do emprego. E, para outros ainda, trata-se de uma atividade de produção social. Em um sentido mais amplo, Alves e Antunes (2004) apontam alguns aspectos que estão envolvidos no ato humano de trabalhar: gestos, saber-fazer, engajamento do corpo, mobilização da inteligência, capacidade de refletir, de interpretar e de reagir às situações, e o poder de sentir, de pensar e de inventar. Em outros termos, para os autores, o trabalho não é em primeira instância a relação salarial ou o emprego, mas sim, o “trabalhar”, isto é, um modo de engajamento da personalidade para responder a uma tarefa delimitada por pressões, sejam elas materiais ou sociais. Neste sentido, Morin (2001) lembra que o trabalho pode ser definido de várias maneiras, sendo que o único elemento que reúne os múltiplos significados é: uma atividade que tem um objetivo.

Trabalho: “[

]

]

atividade

Geralmente, essa noção designa um gasto de energia mediante um conjunto de atividades coordenadas que visam produzir algo de útil (FRYER e PAYNE, 1984; SHEPHERDSON, 1984). O trabalho pode ser agradável ou desagradável;ele pode ser associado ou não a trocas de natureza econômica. Ele pode ser executado ou não dentro de um emprego. De acordo com Fryer e Payne (1984), o trabalho seria uma atividade útil, determinada por um objetivo definido além do prazer gerado por sua execução (MORIN, p.12).

Na sociedade moderna, o trabalho está claramente associado à noção de emprego que se trata da ocupação de um indivíduo referente ao conjunto de atividades remuneradas em um sistema organizado economicamente. Ou seja, a noção de emprego implica a existência de um salário e do consentimento do indivíduo em permitir que uma outra pessoa ou uma organização estabeleça suas condições de trabalho. O salário que ele

propicia permite prover as necessidades de base, dá um sentimento de segurança e possibilita ser autônomo e independente. O salário é associado, principalmente aos elementos de segurança e de independência. Fica claro o quanto o trabalho conserva um lugar importante na sociedade. As principais razões são as seguintes: para se relacionar com outras pessoas, para ter o sentimento de vinculação, para ter algo que fazer, para evitar o tédio e para se ter um objetivo na vida. (MORIN, 2001). Pela dimensão que o trabalho assume na vida de um indivíduo, a doença ou debilidade física que prejudicam sua capacidade de desempenhá-lo, podem repercutir negativamente em sua saúde global. É consenso na área da saúde que muitas doenças, relacionadas ou não com o trabalho, exigem, pela sua gravidade, o imediato afastamento do trabalho. Este afastamento pode ser visto como parte do tratamento (repouso obrigatório) ou pela necessidade de interromper a exposição aos fatores de risco presentes nas condições do trabalho. Apesar da discussão sobre o quanto o trabalho pode causar doenças ainda ser bastante controversa, as formas de organização dos processos de trabalho, seu ritmo e intensificação, os modelos gerenciais e as tecnologias adotadas se sobrepõem ao desgaste físico e psíquico dos trabalhadores, sendo a LER/DORT uma dessas expressões (TAKAHASHI, 2003). Os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT) são desordens neuro-músculo-tendinosas que correspondem a um conjunto de afecções relacionadas com as atividades laborativas. Podem acometer músculos, tendões, fáscias musculares, ligamentos, articulações, nervos e vasos sanguíneos. No decorrer de sua história os DORT já foram denominados de LER (lesões por esforços repetitivos), porém desde 1998, a Previdência Social passou a priorizar DORT como denominação. Os DORT representam hoje, no Brasil, a segunda causa de afastamento do trabalho. Sua incidência é maior no sexo feminino e na faixa etária economicamente ativa, entre 30 e 50 anos (TAKAHASHI, 2003). Frente a este quadro, Takahashi (2003) ressalta a necessidade de um modelo assistencial aos indivíduos incapacitados para o trabalho que seja capaz de aliviar seus sofrimentos resgatando-lhes a capacitação funcional, emocional e social num nível, também, mais amplo.

Desta forma, o afastamento passa a ter uma dimensão política e econômica.

O Ministério da Saúde, em seu último manual de Procedimentos para Serviços de Saúde (2001) preconiza o seguinte:

Sendo o „trabalhador‟ segurado pela Previdência Social e havendo necessidade de afastamento superior a 15 (quinze) dias, o „paciente-

trabalhador-segurado‟ deverá se apresentar à Perícia Médica do INSS, onde

o médico-perito irá se pronunciar sobre a necessidade de afastamento, decorrente da existência (ou não) de incapacidade laborativa.

Para se compreender este pressuposto político, é importante compreender os conceitos de deficiência, disfunção e incapacidade para o trabalho. A “doença relacionada com o trabalho” ou o “acidente do trabalho” pode produzir, ou estar produzindo, “deficiência” ou “disfunção” (“impairment”), que segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1999) é “qualquer perda ou anormalidade da estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica”.

Por exemplo, após um acidente vascular cerebral (AVC), a paralisia do braço direito será „deficiência‟ ou „disfunção‟, isto é, sistemas ou partes do corpo que não funcionam, e que, eventualmente irão interferir com as atividades de uma vida diária „normal‟, produzindo, neste caso, „incapacidade‟ (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p.124).

No entanto, para fins previdenciários é valorizada a “incapacidade laborativa”, ou incapacidade para o trabalho, conceitos que vão além das definições básicas de disfunção e deficiência, ao avaliá-las em sua inter-relação com o ato do trabalho.

A impossibilidade do desempenho das funções específicas de uma atividade

(ou ocupação), em conseqüência de alterações morfopsicofisiológicas

provocadas por doença ou acidente. [

situações, a Previdência trabalha apenas com a definição apresentada, entendendo “impossibilidade” como incapacidade para atingir a média de rendimento alcançada em condições normais pelos trabalhadores da categoria da pessoa examinada. Na avaliação da incapacidade laborativa, é necessário ter sempre em mente que o ponto de referência e a base de comparação devem ser as condições daquele próprio examinado enquanto trabalhava, e nunca os da média da coletividade operária (MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL, 1999, p.132).

Para a imensa maioria das

]

Fica claro, então, que a questão da incapacidade laborativa é bastante complexa e paradoxal. Esta condição é ao mesmo tempo resultante de um processo de acidente e/ou adoecimento e invocadora de desajustes na vida do indivíduo que a experimenta

por impossibilitar a execução de um ato (trabalho) extremamente importante para a definição do homem moderno. Vale ainda salientar que a OMS (Organização Mundial de Saúde) define saúde como “um completo estado de bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença” (1946). Estas considerações a respeito do processo saúde - doença apontam para a necessidade de atenção multidisciplinar para melhor entendimento do assunto. Saber como um indivíduo percebe sua situação de saúde, torna-se essencial para que a atenção profissional a este dirigida seja eficaz. Em 1976, a Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma tentativa de compreender mais a fundo as conseqüências das doenças, criou a ferramenta que em português ficou conhecida como a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, CIF (BUCHALLA e FARIAS, 2005, p. 5).

O termo do modelo da CIF é a funcionalidade, que cobre os componentes de funções e estruturas do corpo, atividade e participação social. A funcionalidade é usada no aspecto positivo e o aspecto negativo corresponde à incapacidade. Segundo esse modelo, a incapacidade é resultante da interação entre a disfunção apresentada pelo indivíduo (seja orgânica e/ou da estrutura do corpo), a limitação de suas atividades e a restrição na participação social, e dos fatores ambientais que podem atuar como facilitadores ou barreiras para o desempenho dessas atividades e da participação.

Importante observar que tanto a saúde quanto a doença, em acordo a este modelo, são conceituadas a partir de um modelo biopsicossocial. Ou seja, os aspectos emocionais, orgânicos, sociais e a influência ambiental sobre os mesmos, têm participação importante na vida de um indivíduo e um balanço em relação ao equilíbrio destes permite que se compreenda a capacidade ou incapacidade para o trabalho de um modo mais profundo. Desta maneira, as deficiências físicas, permanentes ou temporárias, são influenciadas pelo contexto do ambiente físico e social, pelas diferentes percepções culturais e atitudes em relação a estas e também pela disponibilidade de serviços e da legislação em vigência.

Oliveira (2002) afirma ainda que na Saúde Pública, tradicionalmente, pouca atenção tem sido dada às pessoas com deficiência, assim como, para os programas de reabilitação física e profissional. Esta carência reflete-se tanto em problemas de ordem de inserção social, como de ordem política, no que diz respeitos às questões previdenciárias.

Segundo Lima et al. (1996), o adoecimento que leva a incapacitação profissional de adultos jovens tem um aspecto muito doloroso que é a destruição de projetos de vida, representando uma perda significativa da identidade própria e profissional. Ainda neste sentido, o autor salienta que estes indivíduos passam então por uma ruptura na antiga identidade que deixa de ser referenciada pelo meio social e passa a ser necessário, portanto, que ele busque novos parâmetros para que se reconheça, reorganize sua história pregressa e construa um novo projeto de futuro. Alguns estudiosos propõem uma importante contribuição ao tratar o conceito de saúde de um modo que coloca em xeque a concepção de saúde como oposto de doença. Estes autores afirmam que é valendo-nos de nossa capacidade para tolerar as infidelidades e variações do meio que devemos pensar o conceito e saúde. Neste sentido, a saúde deve ser pensada como a possibilidade de um indivíduo adoecer e poder recuperar- se (CANGUILHEM, 1995 apud CAPONI, 1997). Falar de saúde como o conjunto tributos que permitem a uma pessoa viver sob a imposição do meio (CANGUILHEM, 1995) implica em intervenções em saúde que necessitam se orientar, não apenas a fim de impedir que a doença aconteça, mas também prover meios para que os indivíduos e grupos possam adoecer e recuperar-se. Ao se adotar tal perspectiva, as intervenções em saúde podem se orientar para ampliar a margem de segurança e as possibilidades dos indivíduos para lidar com os imprevistos do meio. “Podemos falar de saúde quando temos os meios para enfrentar nossas dificuldades e nossos compromissos” (CANGUILHEM, 1995 apud CAPONI, 1997, p. 306). Logo, para se tratar de saúde, devemos pensar na participação ativa dos sujeitos que vivenciam a experiência do processo saúde/doença, tanto na produção de conhecimento, como nas possíveis intervenções sobre o processo. A Reabilitação Profissional, de acordo com o Ministério da Saúde (2006), é constituída pelos serviços de assistência reeducativa e de readaptação profissional e é prestada pela Previdência Social aos segurados incapacitados parcial ou totalmente para o trabalho, independente de carência, e às pessoas portadoras de deficiência, com o objetivo de proporcionar-lhes os meios para a (re)educação ou (re)adaptação profissional e social que lhes permitam participar do mercado de trabalho e do contexto em que vivem. Segundo consta, uma vez inscritos no programa nas Unidades Técnicas de Reabilitação Profissional, esses beneficiários são habilitados em uma nova função/atividade, podendo ser considerados aptos

para (re)ingressarem no mercado de trabalho ou incapacitados para o desempenho de atividade profissional. A Previdência Social é o seguro social para a pessoa que contribui. É uma

instituição pública que tem como objetivo reconhecer e conceder direitos aos seus segurados.

A renda transferida pela Previdência Social é utilizada para substituir a renda do trabalhador

contribuinte, quando ele perde a capacidade de trabalho, seja pela doença, invalidez, idade avançada, desemprego involuntário, ou mesmo a maternidade e a reclusão. Tendo em vista as considerações acima apontadas percebemos necessidade de planejamento de programas de promoção de saúde que atendam pessoas acometidas por

situações de debilidade física. Cabe, por fim, salientar que o movimento da Promoção da Saúde tem como uma das suas propostas a “capacitação das pessoas e comunidades para modificarem os determinantes da saúde em benefício da própria qualidade de vida” (CARTA DE OTTAWA, 1986). A Promoção da Saúde busca o desenvolvimento do protagonismo e o empoderamento (empowerment) das pessoas para que estas desenvolvam habilidades para poderem atuar em benefício da própria qualidade de vida, enquanto sujeitos e/ou comunidades ativas. (UIPES/ORLA, Sub-Região Brasil).

As idéias sobre Promoção da Saúde se firmaram em novembro de 1986, na cidade de Ottawa, Canadá, onde ocorreu a I Conferência Internacional sobre o tema. Na época, o evento foi uma reposta à complexidade emergente dos problemas de saúde, cujo entendimento passara a não ser mais possível através do enfoque estritamente preventivista, que vinculava determinada doença a um determinado agente ou grupo de agentes. Esta nova concepção de saúde passa então a se relacionar a questões como as condições e modos de vida (ALVES, 2003). Este novo enfoque nos remete aos “determinantes múltiplos da saúde” propostos por Buss em 2000 que seriam: paz, educação, habitação, alimentação, renda, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social e eqüidade. Sendo a saúde não meramente a ausência de doenças, as estratégias de intervenção deslocam-se do eixo puramente individual recaem sobre a necessidade da interdisciplinaridade e da intersetorialidade. Quando consideramos as idéias sobre Saúde do Trabalhador (ST) enfocamos, mais uma vez, que saúde não pode ser considerada apenas a ausência de doenças ocupacionais

e acidentes de trabalho, mas também, e principalmente, a transformação dos processos de

trabalho em seus diversos aspectos, na direção de buscar não apenas a eliminação de riscos que possam ocasionar agravos à saúde, mas também uma presumível participação do trabalhador no processo produtivo que seja promotora de saúde e de vida (BRITO & PORTO,

1991).

Machado, em 1997, apontou que um dos desafios que ainda persistiam para a ST, ao se tomar como enfoque as premissas da Promoção de Saúde (PS), diziam respeito à concretização da intersetorialidade em suas práticas.Uma vez que na época persistia um conflito de competências entre os órgãos de vigilância, sendo necessário um maior diálogo entre os setores governamentais tradicionalmente vinculados a essas questões: o Ministério do Trabalho, o Ministério da Previdência e o Ministério da Saúde.

Justificativa para o estudo

A pesquisa foi realizada na Fundação Civil Casa de Misericórdia de Franca

que atende à população do município e Região. A instituição conta em seu complexo hospitalar com o Centro de Reabilitação Santa Casa (CRSC) criado em julho do ano de 2002. O serviço caracteriza-se por oferecer um atendimento realizado por equipe multiprofissional:

assistente social, fisioterapeutas, fonoaudiólogas, médicos (fisiatras), nutricionista, psicóloga, técnicas em enfermagem e terapeuta ocupacional. A proposta de criação do Centro de Reabilitação baseou-se nos moldes do serviço existente na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP/SP).

O serviço atende a população que necessita de reabilitação física. Possui uma

visão de atenção à saúde de caráter interdisciplinar, uma vez que não trata somente da parte motora, mas também compreende que aspectos nutricionais, sociais, emocionais, entre outros, fazem parte de um trabalho de reabilitação. Este atendimento ocorre mediante encaminhamento médico de serviços de saúde. É oferecido em grande parte pelo SUS, porém,

também abrange alguns convênios particulares.

O público atendido é composto por uma população extensa, com diferentes

idades e patologias que ocasionam disfunções ou deficiências motoras, dentre estas: seqüelas de AVC (acidente vascular cerebral), paralisia braquial obstétrica, pós-operatórios, seqüelas

de tratamentos oncológicos, reabilitação em ortopedia, neurologia e pediatria.

Pacientes em processo de reabilitação motora apresentam alguma limitação física (déficit motor, déficit físico, limitação) em decorrência de seu diagnóstico (patologia) específico.

Nota-se que tais limitações repercutem em diversos aspectos da vida do indivíduo que as experimenta e comumente prejudicam a sua habilidade no desempenho do trabalho (profissão) e execução de atividades cotidianas que requerem esforço (executar pequenos serviços domésticos, como limpar casa, lavar roupas, carregar crianças de colo, entre outras).

Pelo motivo acima descrito observa-se que muitos dos pacientes atendidos no serviço recorrem ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) para solicitarem um afastamento remunerado do trabalho. No entanto, estar afastado do trabalho é um status provisório, e os indivíduos que se encontram nesta situação necessitam passar por perícias médicas periódicas para serem avaliados em relação as suas “incapacidades para o trabalho” (INSS). Muitas vezes, após um período de afastamento, dependendo da limitação motora que um indivíduo apresenta, a perícia médica subentende que a pessoa pode buscar outro tipo de serviço mais adequado às suas atuais condições de saúde. Dentro deste panorama é importante salientar que a maioria dos indivíduos que freqüentam o serviço acima descrito pertence às camadas de baixa renda, possui pouca escolaridade e não tem formação intelectual (acadêmica). Acrescente-se a isso o fato de que a maioria aprendeu seu ofício ainda jovem, sempre exerceu a mesma função em seu trabalho (ou alguma similar) e, geralmente, são estas funções que requerem esforço físico. Assim, quando confrontados com a realidade da perda de alguma função motora, percebem-se sem perspectivas futuras de inserção social via o trabalho produtivo remunerado.

Deste modo, nota-se que o fato de não poder trabalhar na mesma função, para muitos dos que estão em período de atendimento, repercute negativamente nos diversos aspectos da vida cotidiana dessas pessoas. Tais repercussões podem ser de ordem orgânica, emocional, relacional ou social. Portanto, o afastamento das atividades laborativas e o status de estar incapacitado para aquele trabalho desencadeiam uma série de situações e sentimentos que

geram mudanças e interferem junto aos diferentes aspectos da vida do indivíduo que a experimenta.

Conviver com perdas funcionais e com as limitações por estas impostas pode levar o indivíduo a um estado de sofrimento físico e psíquico e a um processo de desajuste social podendo tomar proporções maiores com conseqüências negativas para a saúde global deste.

Diante do exposto justifica-se a elaboração de um projeto de pesquisa que a partir de estudos e observações, no campo da Psicologia e da Promoção de Saúde, apreenda e discuta as experiências vivenciadas por pessoas em situações de debilidade física, atendidas por serviços de saúde específicos.

1. OBJETIVO

Realizar levantamento e análise de: interpretações, percepções, crenças e repertórios explicativos sobre os possíveis efeitos do afastamento do trabalho por problemas de saúde e mudanças relatadas após esse afastamento. No término da pesquisa esperamos contribuir com um material específico que possa servir de subsídio para Programas de Promoção de Saúde.

2. ABORDAGEM TEÓRICA METODOLÓGICA

2.1 Perspectiva teórica que embasa esta pesquisa

Concebemos a pesquisa científica como uma prática reflexiva e crítica sempre situada historicamente. Nessa perspectiva, os critérios utilizados para estabelecer o status de cientificidade estão intrinsecamente vinculados a definições historicamente situadas sobre o que vem a ser ciência. A pesquisa remete-nos a um processo inacabado e contínuo que exige uma postura de busca permanente, seja no campo teórico, seja no metodológico (SPINK e LIMA, 1999; MINAYO, ASSIS et al., 2005).

A concepção teórica que respaldou este projeto foi o da psicologia social em

uma perspectiva na qual se privilegia a compreensão dos fenômenos sociais, levando-se em conta que, significados e intencionalidades, os separam dos fenômenos naturais. Neste contexto, privilegiamos uma vertente compreensivista na qual as possíveis interpretações dadas aos fenômenos psicossociais são mais adequadas do que explicações causais. Essa opção epistemológica apóia a possibilidade de que o que o pesquisador procura são versões e interpretações possíveis em relação a um acontecimento e não

explicações causais, como as que são buscadas nos paradigmas tradicionais e positivistas.

A abordagem adotada insere-se, portanto, em uma abordagem qualitativa de

pesquisa que privilegia o processo e as vozes dos participantes.

Para Valles (1997, p. 104),

A credibilidade de um estudo qualitativo relaciona-se à utilização que tenha sido feita de um conjunto de recursos técnicos; a triangulação de dados, métodos e investigadores; do apoio de uma documentação escrita ou visual própria ao contexto; das discussões com os colegas; revisões de informações e interpretação com as pessoas componentes do estudo; e dos registros de diários de campo e diários de investigação [

Estas seriam as formas de se estabelecer credibilidade que substituiriam o

rigoroso controle metodológico e a "aleatorização" realizada nos estudos positivistas clássicos em busca da denominada validade interna.

O mesmo autor também afirma que a generalização dos resultados buscada e

apreciada como critério de qualidade nas investigações clássicas deve ser considerada como

equivalente à noção de transferibilidade adotada como critério de boa qualidade nas investigações qualitativas. Por transferibilidade deve-se entender não a reprodução dos resultados encontrados (generalização) sob as mesmas condições mantidas em estudos anteriores, mas a possibilidade de utilização dos procedimentos e resultados encontrados, em situações semelhantes, respeitadas as peculiaridades dos novos contextos.

A contribuição da abordagem qualitativa para a compreensão do social pode ser colocada como teoria e método. Enquanto teoria, ela permite desvelar processos sociais ainda pouco conhecidos, grupos particulares e

expectativas sociais em alto grau de complexidade [

caracterizado pela empírea e pela sistematização, a abordagem qualitativa propicia a construção de instrumentos fundamentados na percepção dos atores sociais, tornando-se, assim, válida como fonte para estabelecimento de indicadores, índices, variáveis tipológicas e hipóteses. Além disso, ela permite interpretações mais plausíveis dos dados quantitativos, auxiliando na eliminação do arbitrário que escorrega pela operacionalização dos modelos teóricos elaborados longe das situações empiricamente observáveis (MINAYO, 1994, p. 30-31).

Enquanto método

]

Dada a opção epistemológica, dentre a pluralidade metodológica qualitativa, optamos, neste estudo, por uma das práticas da investigação participativa que prevê a triangulação de múltiplas formas de observar, registrar e interpretar os dados do estudo (VALLES, 1997) e neste sentido, foram adotadas estratégias de coleta de dados que se enquadravam nas perspectivas etnográficas (BOGDAN e BIKLEN, 1994). A fotografia pode ser vista como uma destas estratégias, uma vez que está “intimamente ligada à investigação qualitativa” (BOGDAN e BIKLEN, 1991). Fotografias auxiliam no aspecto descritivo de um acontecimento, ajudam na compreensão de aspectos subjetivos e podem ser analisadas indutivamente. As imagens capturadas em fotos permitem o estudo de aspectos da vida aos quais não se consegue apreender somente através de palavras. Para a realização desta pesquisa qualitativa foi utilizada uma adaptação do método intitulado Photovoice. Para a execução desta pesquisa, inicialmente foram convidados todos os pacientes que participavam do Grupo de Apoio na semana eleita para o início da pesquisa. Vale salientar que o referido Grupo de Apoio era realizado pela psicóloga (pesquisadora) responsável pelo Centro de Reabilitação da Fundação Civil Casa de Misericórdia de Franca, com a esporádica colaboração da assistente social local. Este grupo tinha por objetivo trabalhar junto aos pacientes a compreensão e aceitação das limitações físicas e sociais

decorrentes do processo de adoecimento e, desta maneira, auxiliá-los na redução da ansiedade e sintomas depressivos. No tipo de abordagem qualitativa, adotada neste estudo, a amostragem é teoricamente estabelecida e intencionalmente buscada. Os participantes foram escolhidos intencionalmente por deterem os atributos buscados pela pesquisa. Na amostragem teoricamente definida os grupos sociais que se deseja pesquisar são definidos de antemão. Com isto, as características básicas da população são conhecidas. Nesse tipo de abordagem o tamanho da amostra também é definido previamente, com base nos critérios já mencionados e nos procedimentos metodológicos eleitos para a coleta de dados (MINAYO, 1993; DENZIN e LINCOLN, 2002; FLICK, 2002; DENZIN, LINCOLN et al., 2006). O número de sujeitos deste estudo pode ser considerado pequeno para estudos científicos de cunho positivista. Porém, para estudos com procedimentos de análise de dados interpretativos como os aqui propostos são considerados adequados (MINAYO, 1993; DENZIN e LINCOLN, 2002; FLICK, 2002; DENZIN, LINCOLN et al., 2006). O procedimento para o convite e a inserção de participantes no estudo incluiu, primeiramente, a apresentação de esclarecimentos contidos em um rapport, no qual constavam:

a) os pressupostos do tipo de estudo proposto;

b) seus objetivos;

c) o que se esperava dos participantes e as formas de registros; e

d) as análises previstas para o material colhido.

Após os esclarecimentos, foram formalizados os convites para as participações no estudo fornecendo os elementos necessários sobre os termos de consentimento livre e informado e outras questões referentes à pesquisa. Deste modo, foram incluídos neste estudo os convidados que aceitaram participar e estiveram de acordo com a utilização de fotos registradas e das transcrições das

sessões de entrevista para fins de pesquisa.

2.2

Materiais

Foram utilizados os seguintes materiais para a execução deste estudo:

- Material gráfico sobre a “arte da fotografia” que continha instruções básicas

sobre fotografias e manuseio das máquinas fotográficas, confeccionado pela pesquisadora

(Apêndice A).

- Máquinas fotográficas descartáveis.

- Fotografias reveladas e ampliadas.

- Fotografias selecionadas pelos participantes da pesquisa, expostas em cartazes para discussão final em grupo.

- Aparelho de mp3 com gravador digital de voz.

É importante ressaltar que todo o material foi custeado pela pesquisadora responsável e que os participantes não tiveram gastos financeiros no decorrer da pesquisa.

Conforme a necessidade, foram fornecidos passes de ônibus da empresa de transporte local para aqueles que precisaram se encaminhar ao local do estudo em dias que não coincidiam ao seu tratamento de reabilitação habitual.

2.3 O Método Photovoice

2.3.1 Descrição do Método

O método Photovoice foi desenvolvido por Wang, Burriss e seus colaboradores

em meados dos anos noventa. Foi utilizado pela primeira vez na China rural para o levantamento de necessidades de saúde das mulheres que viviam naquele contexto e, na ocasião, subsidiou a elaboração de ações do governo e possibilitou a avaliação destas (WANG, BURRIS, PING, 1996). Segundo seus criadores, o Photovoice é um processo que possibilita que indivíduos representem e exponham suas vivências comunitárias através de uma técnica de fotografia específica. Este método provê câmeras às mãos das pessoas que serão capacitadas a atuarem como repórteres e potenciais catalisadores de mudanças políticas e sociais em suas

próprias comunidades (WANG e BURRIS, 1996). Seu corpo teórico foi baseado em três idéias fundamentais. A primeira idéia, na qual o Photovoice está fundamentado, é a abordagem da “educação crítica” de Paulo Freire

(1970 apud WANG e BURRIS, 1996). Esta abordagem defende que todo ser humano, não importando o quão “ignorante” (grifos do autor) ou submerso na “cultura do silêncio” (grifos do autor) esteja, ele é capaz de um olhar crítico e dialético do mundo ao seu redor e dos relacionamentos que mantêm. Segundo Freire (ibid), com as ferramentas apropriadas, qualquer um pode perceber sua realidade pessoal e social, assim como as contradições desta, além de tornar-se consciente de suas percepções e lidar criticamente com estas. Freire, no mesmo artigo, apontou ainda que a imagem visual é uma ferramenta capaz de auxiliar o indivíduo a atingir este olhar crítico. O segundo pilar do método Photovoice é abalizado pela “teoria feminista”. Maguire (1987 apud WANG e BURRIS, 1996), importante estudioso deste movimento ideológico, notou que a dominação é o principal tema de nossa época e acrescentou que a dominação feminina pelo homem é ainda mais grave. A teoria feminista sugere que o poder acompanha aquele que tem voz, desenvolve comunicação, faz história e participa nas decisões.

O terceiro pensamento apontado como raiz do Photovoice, envolve a possibilidade de acesso de uma comunidade à fotografia. Jô Spence (1995 apud WANG e REDWOOD-JONES, 2001), fotógrafo e educador inglês, descreveu a “fotografia comunitária” (grifos do autor) como um instrumento que pode ser utilizado como ferramenta para mudança social, e acrescentou que a fotografia tem a vantagem de ser de simples manuseio e acesso. No sentido apontado pelos criadores do método Photovoice, a familiaridade com seus arredores dá aos membros da comunidade uma vantagem em relação aos pesquisadores externos, uma vez que os primeiros têm, evidentemente, um maior acesso e mobilidade dentro de sua comunidade. Difere-se, portanto, da fotografia de cunho documental uma vez que os indivíduos participantes se deslocam de uma postura passiva frente às intenções e imagens de outras pessoas, para serem os protagonistas das fotos e registrarem fatos e experiências sob suas óticas (WANG e BURRIS, 1997). Outra característica importante do Photovoice é que este se classifica como um tipo de pesquisa-ação participativa em que as pessoas produzem e discutem fotografias que elas próprias tiraram sobre suas vivências enquanto membros de uma determinada comunidade ou grupo. Através de fotografias e relatos que as acompanham, têm a possibilidade de expor suas visões para as autoridades e pesquisadores responsáveis pelas

questões levantadas (WANG e BURRIS, 1997; WANG, CASH, POWERS, 2000; WANG e REDWOOD-JONES, 2001;). A partir de uma perspectiva histórica, a estratégia da pesquisa-ação participativa (PAR) surgiu da realização de muitas pesquisas que levavam escassos benefícios ou um ganho pouco objetivo para a comunidade na qual eram realizadas, apesar de terem aproveitado do tempo, recursos e boa vontade destas comunidades. Diferentemente, o Photovoice coloca os participantes como principais autores de uma pesquisa: através de suas câmeras fotográficas são os próprios participantes que documentam suas realidades cotidianas focando em uma ampla escala de necessidades e recursos que compreendam os âmbitos familiares, pessoais e comunitários. Ao dividirem e conversarem sobre suas fotografias, utilizam ativamente o poder da imagem visual para comunicarem suas experiências de vida, conhecimento e habilidades (WANG; BURRIS, 1997 ; WANG, CASH, POWERS, 2000; WANG; REDWOOD-JONES, 2001;). Como uma estratégia participativa para avaliação de necessidades, Wang e Burris (1997 apud SIMON, 2007) consideram, ainda, que o método possibilita aos profissionais de saúde uma visão do mundo a partir da perspectiva da população-alvo, diferentemente da visão “viciada” (grifos do autor) por pré-conceitos daqueles que tradicionalmente estão no controle dos serviços de saúde. Em suma, podemos destacar que o poder da imagem visual aliado à facilidade de manuseio da técnica fotográfica, a partir de um treinamento prévio, empodera as populações mais vulneráveis socialmente, incluindo os indivíduos que têm dificuldades para ler e escrever. A partir deste empoderamento é permitido um processo de criação que facilita a representação da diversidade das vivências enquanto membros de um grupo ou comunidade. Como apontam as autoras Wang e Burris (1997 apud SIMON, 2007, p. 385):

Das pessoas, suas visões e seus mundos, nós podemos começar a avaliar as necessidades locais reais, na esperança de que as perspectivas divergentes dos profissionais de saúde e as pessoas leigas convergirão para exercer um impacto mais efetivo sobre o bem-estar da comunidade.

Neste sentido, o método Photovoice constitui-se como um conjunto de ferramentas que facilitam a apreensão do conhecimento e debate sobre as repercussões da incapacidade para o trabalho e seu conseqüente afastamento das atividades laborativas nas vidas de indivíduos adultos. Conforme já apresentado, esta opção metodológica possibilita que o conhecimento e avaliação de necessidades extrapolem o diagnóstico de saúde, por

fomentar a reflexão, tomada de consciência dos participantes e conseqüente planejamento de ação.

2.3.2 A questão ética no uso do método Photovoice

A questão da ética em relação à captação e uso das imagens em pesquisas que

utilizam o “método Photovoice”, como referencial, é amplamente considerado no aparato teórico desenvolvido por seus precursores. No artigo intitulado “Photovoice Ethics:

perspectives from flint Photovoice” (2001), os autores Wang e Redwood-Jones discutem e

orientam a respeito desta questão. Neste artigo é sugerido que os inconvenientes que podem ocorrer pela “intrusão” no espaço privado de alguém, grupo ou comunidade, são parcialmente controlados pelo uso de formulários de consentimentos. Assim sendo, como sugere o Método Photovoice, três tipos de Formulários de Consentimentos, abaixo descritos, são usados:

O primeiro - segue o modelo usual de protocolos de ética em pesquisa com

seres-humanos. Baseado nos princípios de respeito às pessoas, à caridade e à justiça explicita os direitos e as responsabilidades dos participantes. (Apêndice B). O segundo formulário - chamado pelos autores de “Agradecimento e Liberdade de Publicação”, solicita aos participantes obterem as assinaturas dos sujeitos a serem fotografados e implica em suas concordâncias com os termos de uso de imagem propostos pela pesquisa. Este formulário de consentimento não somente chama a atenção sobre o problema de intromissão no espaço privado de um indivíduo, mas também ajuda a prever os inconvenientes da intrusão no espaço privado de um grupo ou vizinhança. Embora o fato de pedir a permissão para tirar a foto possa fazer com que a espontaneidade da mesma seja perdida, assim como prejudicar o fotógrafo de capturar o momento pretendido ou idéia, no conjunto, tais dificuldades devem ser suplantadas, uma vez que o consentimento prevê vários tipos de inconvenientes futuros. Para tratar com o problema da espontaneidade, os participantes são advertidos a aprenderem a “arte” da paciência na fotografia. Muitos aprendem a esperar por algum tempo depois de conseguir a assinatura, até que os sujeitos esqueçam que os fotógrafos estão lá e voltem para sua rotina ou postura. O treinamento prévio sobre a arte e a técnica da fotografia,

estão lá e voltem para sua rotina ou postura. O treinamento prévio sobre a arte e

auxilia os participantes a compreenderem que eles passam a maior parte do tempo atrás da câmera simplesmente esperando, antes de realizarem uma foto adequada (Apêndice C). O terceiro - tipo de consentimento, empregado apenas depois das imagens terem sido desenvolvidas e discutidas, indica que o fotógrafo permite que as fotos sejam publicadas ou usadas para promover os objetivos da pesquisa (Apêndice D). Ressalta-se que as três formas requerem a assinatura de um parente ou do responsável legal do participante ou sujeito, caso o indivíduo fotografado não responda legalmente por seus atos. Importante advertir, que no presente estudo, os participantes não só fotografaram, mas também se permitiram fotografar. Como este fato não está previsto originalmente na literatura sobre o método Photovoice, ainda que os participantes que aparecem nas imagens tenham assinado os consentimentos necessários, na apresentação das fotografias, seus olhos foram velados por um recurso gráfico com o intuito de preservarmos suas identidades.

das fotografias, seus olhos foram velados por um recurso gráfico com o intuito de preservarmos suas

3. PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS

O método Photovoice compreende o desenvolvimento de várias etapas que são

um tanto flexíveis em relação a sua seqüência, pois dependem das metas e objetivos definidos

pelo pesquisador coordenador da pesquisa (WANG; BURRIS, 1994). Para a execução da pesquisa proposta neste projeto foram seguidas as seguintes etapas descritas:

1ª Etapa Fase Preparatória:

Os encontros previstos nesta fase da execução da pesquisa foram realizados em grupo com os sujeitos selecionados e tiveram a duração de uma hora cada. Estes encontros foram registrados, posteriormente, em um diário de campo de uso da pesquisadora.

1º Encontro Treinamento Técnico.

Neste encontro os participantes aprenderam os fundamentos teóricos da fotografia a partir de uma apostila confeccionada pela pesquisadora responsável. Nesta ocasião, os indivíduos receberam a apostila e assistiram a uma aula explicativa sobre o tema.

2º Encontro Treinamento Prático.

Neste encontro aconteceu uma sessão de fotografia guiada. Os participantes receberam uma máquina fotográfica do mesmo modelo utilizado na fase seguinte da pesquisa, foram orientados sobre seu funcionamento e orientados a tirarem algumas fotografias, seguindo um roteiro pré-estipulado. Esta atividade foi realizada no pátio externo do Centro de

Reabilitação, local onde há mais elementos a serem fotografados.

3º Encontro Avaliação dos Treinamentos Prévios.

Neste encontro a pesquisadora levou as fotografias tiradas no encontro anterior, reveladas e ampliadas. O grupo foi orientado a fazer uma observação cuidadosa das

fotografias e a observarem a qualidade das mesmas. Em seguida foram orientados sobre os equívocos cometidos e puderam esclarecer suas dúvidas. Foi um momento de avaliação do domínio da técnica pelos participantes.

4º Encontro Preparação para Campo.

Este foi o último encontro da fase preparatória. Neste, foram distribuídas as máquinas aos participantes, os mesmos foram orientados a respeito das questões éticas envolvidas no ato de fotografar e em como captarem os consentimentos de permissão junto

aos indivíduos que iriam fotografar. Foi, por último, reforçada (retomada ou relembrada) a questão que norteou a ação de fotografarem: “retratar o seu dia-a-dia a partir do momento em que ficou incapacitado para o trabalho, lembrando-se de enfocar as mudanças que ocorreram em sua rotina de vida”.

2ª Etapa Atuação em Campo:

Durante esta etapa da pesquisa, os participantes tiveram no total duas semanas, durante as quais ficaram em posse das máquinas e executaram a tarefa proposta. Uma vez que cada máquina continha um filme com vinte e sete poses (27), uma única máquina foi designada para dois participantes, os quais se organizaram para que cada um deles permanecesse com o material por uma semana. Importante esclarecer que cada participante teve direito a sacar doze (12) fotografias. Após este período, a pesquisadora recolheu as máquinas, revelou os filmes e ampliou as fotografias de todos os participantes.

3ª Etapa Entrevistas:

Nesta etapa da pesquisa foram realizadas entrevistas livres e individuais com cada participante. Cada sessão de entrevista teve a duração de, aproximadamente, uma (1) hora. No entanto, quando houve necessidade, foi possível agendar mais de uma entrevista por sujeito. Nestes encontros a pesquisadora apresentou as fotografias ampliadas de cada participante e conversou com eles a respeito de suas escolhas de temas, percepções e associações a respeito de cada fotografia; sentimentos (vivenciados) durante o processo; entre outras questões que surgiram. As entrevistas foram gravadas em arquivos digitais e posteriormente transcritas para a análise. Importante enfatizar que uma entrevista livre, como a que foi utilizada, é caracterizada pela ausência de formulação prévia de um roteiro a ser seguido durante a sua execução. Neste tipo de entrevista foram apresentados aos entrevistados objetos ou temas que nortearam suas reflexões, no caso fotografias. Este instrumento permite uma maior flexibilidade da dupla na medida em que promove liberdade na expressão de sentimentos e pensamentos por parte do entrevistado e possibilidade de fazer intervenções que julgue convenientes por parte do entrevistador (VALLES, 1997)

4ª Etapa Discussão Final:

Esta última etapa aconteceu em grupo e transcorreu em único encontro com duração de uma hora. Neste momento, as fotografias foram expostas em cartazes e serviram de estímulos para uma discussão grupal acerca da Promoção de Saúde em populações com características semelhantes a este grupo específico. Alguns tópicos nortearam a interpretação da pesquisadora sobre este momento, entre eles: avaliação geral do processo, percepções em comum em relação às fotografias do grupo, temas que mais chamaram atenção e “dicas” que propusessem trabalhos na área da saúde quanto ao auxiliar a pessoas que estivessem passando por momento de vida semelhante. Importante ressaltar que a pesquisadora, sob orientação de sua Professora Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Promoção de Saúde da UNIFRAN, foi a responsável pela realização de todas as etapas do processo de pesquisa: convite aos participantes, agendamento e realização de sessões e entrevistas, análise e tratamento dos dados, elaboração da tese. As quatro etapas, do início ao término, contabilizaram um período de três (3) meses. A pesquisadora responsabilizou-se para que a realização da pesquisa não interferisse na rotina do atendimento oferecido pelo Centro de Reabilitação, bem como, por assegurar que a proposta do Projeto fosse seguida rigorosamente. Manteve, também, o compromisso com uma postura ética e responsável durante toda pesquisa, preservando o anonimato dos participantes, respeitando as normas da instituição, cumprindo o planejamento proposto e comunicando os resultados obtidos. Foi de responsabilidade da Instituição, na qual a pesquisa foi realizada, fornecer autorização através do Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos, homologada e regulamentada pelo CONEP (Comissão Nacional de Ética de Pesquisa) que tem suas características estruturadas na Resolução 196/96. Cabe ainda, relembrar que esta pesquisa não possuiu promotores ou patrocinadores.

4. RESULTADOS

4.1 Participantes

Para o desenvolvimento da pesquisa, como já descrito em capítulos anteriores, foram selecionados alguns pacientes do Grupo de Apoio citado que ocorria com freqüência semanal e dele participavam em média dez (10) pacientes adultos, sendo todos usuários do serviço de reabilitação. Os pacientes, após avaliação do serviço médico local, eram encaminhados para triagem psicológica na qual era avaliada a demanda. Após esta avaliação, os pacientes que apresentassem perfil eram convidados a participarem do grupo. A permanência do paciente no grupo tinha duração variável de acordo com o nível de comprometimento emocional e evolução global do processo. No geral, o desligamento ocorria no momento em que o usuário obtinha alta médica do processo de reabilitação. A escolha destes sujeitos para participantes da pesquisa se justifica pelo fato de que todos os pacientes do Grupo de Apoio possuíam, ao menos, uma dificuldade física (déficit motor, déficit físico, limitação) que acompanhava seu diagnóstico específico. Conforme havia sido observado previamente pela pesquisadora, tais dificuldades físicas repercutiam em diversos aspectos da vida dos indivíduos que as experimentavam e comumente prejudicavam suas habilidades no desempenho do trabalho (profissão) e execução de atividades cotidianas que requeriam esforço (executar pequenos serviços domésticos, limpar casa, lavar roupas, carregar crianças de colo, entre outras). Outros fatores que colaboraram foram: a intimidade pré-existente entre os membros do grupo; o hábito de trabalharem juntos no sentido de obterem autoconhecimento; o interesse previamente manifestado em participarem de atividades dinâmicas nas quais pudessem adquirir algum aprendizado, dentre os já citados acima. Sendo assim, o convite para a participação na pesquisa foi realizado juntamente com uma exposição sobre como a mesma estava estruturada e qual seria o envolvimento previsto para cada integrante que aceitasse fazer parte. Na ocasião o Grupo de Apoio era composto por sete indivíduos adultos e todos confirmaram participação. Observações a respeito deste momento e os demais previstos na Fase Preparatória foram registrados em um Diário de Campo. Ao fim da Fase Preparatória, o grupo contou com duas baixas:

- Li., 30 anos, (F), desistiu de prosseguir em função de um problema de saúde. Descobriu que estava com pedras na vesícula, que necessitaria de uma cirurgia e que por este motivo seria afastada do processo de reabilitação até a sua melhora. - Su., 52 anos, (F), interrompeu sua participação por ter se tornado avó “prematuramente”, como ela mesma denominou. Sua nora tivera o bebê prematuro aos sete meses de gestação e Susana decidiu não se comprometer uma vez que passaria a ajudar a nora nos devidos cuidados com o neto. Uma vez comunicadas as desistências ao grupo, o trabalho prosseguiu conforme previsto, sem maiores contratempos.

4.2 Caracterização dos participantes

Apresentaremos, a seguir, um quadro contendo uma breve caracterização dos participantes incluindo: idade, estado civil, número de filhos, profissão, tempo e causa do afastamento do trabalho.

Quadro 1 Caracterização dos Participantes da Pesquisa.

     

ESTADO

Nº DE

 

CAUSA DO

TEMPO DE

PARTICIPANTE

SEXO

IDADE

CIVIL

FILHOS

PROFISSÃO

AFASTAMENTO

AFASTAMENTO

Ce.

M

44

casado

02

sapateiro

acidente de trabalho

 

04

anos

Di.

M

35

casado

04

sapateiro

doença

 

04

anos

degenerativa

 
           

acidente

 

Cl.

F

34

casada

02

sapateira

 

02

anos

automobilístico

 
     

relacionamento

       

Te.

F

47

00

telemarketing

DORT - cervicalgia

01

ano e 02 meses

estável

     

relacionamento

   

DORT -

 

Ma.

F

42

00

telemarketing

01

ano e 06 meses

estável

fibromialgia

Fonte: Elaborado pela autora da pesquisa, 2008.

Observamos que três (3) dos participantes atuavam na indústria calçadista, que ocupa posição de destaque na economia do município, sendo responsável pela contratação de parcela significativa da população economicamente ativa. Destacamos o fato de que três (3) dos participantes relatam ter filhos, o que pode influenciar na vivência do afastamento do trabalho se considerarmos as preocupações com o sustento da prole, em especial, quando esta ainda não atingiu independência financeira.

Destacamos, também, que três (3) dos participantes estão na faixa etária acima dos 40 anos, a partir da qual a inserção ou reinserção no mercado de trabalho, na nossa sociedade, torna-se mais difícil, em especial, para pessoas com pouca qualificação profissional e/ou pouca escolaridade.

4.3 O Material Captado

A seguir estão apresentados os resultados por participante. Inicialmente, há uma breve exposição de cada sujeito. Em seqüência estão exibidas as fotografias captadas por cada um, a transcrição da respectiva entrevista seguida de comentários elaborados pela pesquisadora.

Importante ressaltar que neste primeiro momento estão expostas todas as fotografias e que os comentários em negrito foram tecidos a partir de interpretações advindas tanto do conteúdo manifesto do material como da experiência prévia que a mesma tinha com cada participante.

Ce. - 44 anos Casado, dois filhos, sapateiro, afastado há quatro anos por acidente. Prensou a mão em uma máquina durante o trabalho como cortador em um Curtume. A lesão de alguns nervos e tendões comprometeu muito os movimentos da mão e braço esquerdos. Além do comprometimento dos movimentos, o acidente desencadeou um processo inflamatório que acomete dor freqüente. Por este motivo, Ce. faz tratamento, também, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

Figura 1 – Foto de Ce. na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação, local

Figura 1 Foto de Ce. na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação, local onde ocorre o Grupo de Apoio. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Esta foto foi tirada na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação, local onde

ocorre o Grupo de Apoio.

Ele solicitou que um colega de grupo a sacasse para identificar que as fotos na

seqüência seriam suas, uma vez que cada máquina fotográfica foi dividida por dois

integrantes do grupo.

Esta escolha aponta para a importância do Grupo de Apoio no processo de re-

estruturação identitária. Durante a entrevista ocorrem outras verbalizações sobre o tema que

aprofundam a importância do Grupo de Apoio no sentido levantado.

1ª Foto

1ª Foto Figura 2 - NGA – 16.: Núcleo de Gestão Assistencial. Fonte: Máquina de Ce.,

Figura 2 - NGA 16.: Núcleo de Gestão Assistencial. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Sou uma pessoa que quase nunca dependeu de estar aí,

praticamente não ia ao médico de jeito nenhum. Tinha uma saúde boa. Hoje, praticamente de

trinta em trinta dias eu tenho que estar aí. Às vezes até antes, porque quando eu tenho alguma

consulta a pedido de Ribeirão (trata no Hospital das Clínicas), tenho que antecipar. Faço

acompanhamento com o ortopedista. Agora, depois deste acidente que eu tive, este local

passou a fazer parte do meu dia-a-dia, da minha vida.

Pesquisadora Há quanto tempo você tem freqüentado estes médicos?

Ce. - 44 anos Há quatro anos. Desde o acidente.

Pesquisadora Como é o atendimento deste local? Demora?

Ce. - 44 anos Agora que já sou paciente, posso marcar retorno mensal ou em

até noventa dias, conforme algum médico solicita. Não preciso mais passar por toda a

burocracia de acordar cedo e pegar senha para ser atendido. As pessoas que vão de vez em

quando, ou pela primeira vez, sim, estas esperam e nem sempre conseguem ser atendidas de

imediato.

Pesquisadora Quais médicos você costuma consultar aí?

Ce. - 44 anos O ortopedista. Eu comecei com um médico lá da Santa Casa,

Doutor Francisco Rocha, depois dele passei com o Doutor Maurício Barbosa. Aí o Doutor

Maurício teve que sair de Franca e me passaram para a Doutora Solange. A Doutora Solange

também foi para outra cidade e me passaram pro Doutor Cláudio, que por fim teve outros problemas e me passaram pro Doutor Marcelo, e, atualmente, eu estou com ele. Pesquisadora Algo mais sobre a foto? Ce. - 44 anos Às vezes, mesmo nos fins de semana, quanto eu estou passando ali perto, parece que já virou costume pra mim, rotina. Estou sempre ali. Pesquisadora Você fica chateado por ter que freqüentar tantos médicos? Ce. - 44 anos A gente sente, porque é como se fosse algo que terei que fazer durante toda uma vida, como se a gente fosse obrigado a estar aí. O acidente cortou o meu ritmo de vida de repente e fez com que eu praticamente começasse a ser forçado a estar aí.

Podemos interpretar esta fala como reveladora da falta de maiores cuidados com a saúde, até que se vê “obrigado” pelas condições de saúde atuais e suas implicações a modificar sua rotina relativa aos cuidados relativos a si. O acidente representa um momento de quebra repentina, pois a partir deste, se inicia uma “epopéia” de consultas com diversos médicos, em diferentes locais. Tais mudanças fazem com que o mesmo passe a questionar sua vida como se a saúde (liberdade), tivesse sido substituída pela doença (rotina). Podemos notar uma certa melancolia quando fala dos “finais de semana”. Como se passar por perto, sentir este local como familiar o levasse a uma constante lembrança de suas limitações e dor.

2ª Foto

2ª Foto Figura 3 - INSS – Franca/SP. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008. Ce.

Figura 3 - INSS Franca/SP. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Esta aí é do INSS!!! É penoso, não só pra mim, mas pra todo

mundo. Aí é um lugar que não tem boas coisas, só se vê coisas ruins. Deveria haver médicos

que te fazem perícia, que te examinam, mas, em quatro anos, eu só encontrei um, o Doutor

José Geraldo, que é atencioso não só comigo, mas com todo mundo. O resto, eles não te

olham, não pedem seus papéis (exames em geral). Mandam você guardar seus relatórios (de

tratamento) sem sequer olhá-los. Eles determinam se você está apto ou não, se está tendo

alguma coisa ou não. Eles não te põem a mão, parece que eles têm uma “super” visão, de que

podem ver você por dentro. E o atendimento, não só dos médicos, é um completo descaso.

Tem uma atendente que é uma princesa, é excelente, educada, mas no geral, os demais

maltratam todo mundo. Tem uma encarregada, não sei se você já a viu, que é uma pessoa mal

educada, você não pode pedir informação pra ela, que ela te maltrata. Então, às vezes, você

chega ali “mais ou menos”, pois quando entra, o seu psicológico, que já está um pouco

abalado, piora, já que você sabe o que vai estar esperando ali dentro. Agora até que deu uma

melhorada para agendar as perícias, mas a gente já chegou a esperar quatro meses sem ter

como fazer perícia porque não tinha médico. Agora está dentro do normal, você marca e com

oito dias já está fazendo a perícia. Mas, as perícias continuam ruins.

Pesquisadora Quando você precisa ir, espera muito tempo?

Ce. - 44 anos Você fica umas três horas, pelo menos, na fila. Mesmo tendo

agendado com antecedência.

Pesquisadora E dentre o pessoal que aguarda, você acha que todos sentem o mesmo mal-estar? Ce. - 44 anos Tem gente que passa mal, sai daí direto para o Janjão (Pronto socorro Municipal). Direto você vê chegando polícia, o pessoal faz ocorrência policial pra poder ter o direito de ser bem atendido. Quantas pessoas saem dali pior! Você já sabe o que vai te esperar ali dentro! Pesquisadora E quando você é aprovado na perícia, por quanto tempo dura seu afastamento, geralmente? Ce. - 44 anos Eu tive um pequeno afastamento de um mês, porque o médico achou que não tinha mais como eu fazer perícia, não estava adiantando, meu quadro não melhorava. Mas meus outros afastamentos foram de oito ou de seis meses. Pesquisadora Algo mais sobre a foto? Ce. - 44 anos A gente vê tantos políticos roubando, ninguém vai preso ou paga aquilo que rouba, e enquanto estão tirando de lá, estão sacrificando a vida de quem tá ali dentro porque precisa. Pela falta de dinheiro que se vê lá, o governo anda dando alta pra quem não tem condição de trabalhar. Ontem eu ouvi no rádio uma coisa absurda: um médico deu alta pra um paciente com câncer em estágio terminal. É isso que eu quero falar do INSS. Pra quem ta doente, tem só piorado a situação. Pesquisadora Você está falando que quem está doente, em função te todo esse estresse, acaba piorando. Você acha que isso acontece? Ce. - 44 anos Exato. E eu tenho provas de pessoas, ali dentro, que mesmo doentes tiveram alta. Dá pra ver que a alta já estava programada. Então, pra que um relatório do seu médico, relatando o seu problema? Ali, eles não olham exames, radiografias ou qualquer tipo de exame que você leve. Isso faz mal para a pessoa, a deixa pior, deixa para baixo. Além de não poder trabalhar, a pessoa que tem alta fica sem ter como viver, se sustentar.

Este depoimento revela a percepção negativa do Serviço resultante do tipo de atendimento prestado pelo INSS. Conforme veremos nas próximas entrevistas, Ce., não é o único a ter esta percepção negativa. Podemos perceber, no relato, a falta de humanização no atendimento. Há a falta de um trabalho integrado entre a área da saúde assistencial e a previdenciária. Os diagnósticos e tratamentos realizados em outros serviços, muitas vezes, são invalidados pelos

médicos peritos. A “super” visão apontada pelo entrevistado conota uma arrogância deste serviço, enfatizada pelos maus-tratos, ocorrências policiais, e corrupção por parte do governo. Um atendimento humanizado proporcionaria um acolhimento e um olhar sensível do profissional, que poderia perceber que as pessoas que necessitam deste local, geralmente estão passando por momentos críticos. As “coisas ruins” mostram que a busca de benefícios previdenciários, com exceção do auxílio maternidade e da aposentadoria voluntária, estão associados a uma mudança na vida da pessoa (pensão por morte de contribuinte, auxílio doença, afastamento por acidente de trabalho, entre outros). Em casos semelhantes ao relatado, independentemente da razão que leva um indivíduo ao afastamento do trabalho, supõe-se que o mesmo irá necessitar de uma readaptação ao mercado de trabalho, preparação para a aposentadoria. Novamente, há a importância dos profissionais do INSS estarem cientes de que estão prestando serviços a uma clientela, em sua maioria, fragilizada pelos eventos recentes em seu cotidiano.

Fica clara a percepção de que o Governo não garante o exercício da cidadania. Pessoas que não têm condições de trabalhar em suas profissões não estão incapacitadas, necessariamente, para toda e qualquer função laborativa. Fica evidente a necessidade de um espaço em que, através de discussões e reflexões, pudessem identificar novas funções e/ou áreas para atuarem. Nestas circunstâncias poderiam ter outra avaliação em relação aos pareceres dos profissionais do INSS e em relação ao termo incapacitado para o trabalho.

3ª Foto

3ª Foto Figura 4 - Centro de Reabilitação. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008. Ce.

Figura 4 - Centro de Reabilitação. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Centro de Reabilitação. Uma coisa que me ajudou muito foi

estar tanto na fisioterapia quanto aqui, com você, no Grupo de Apoio. As fisioterapeutas, a

médica, foram pessoas que me deram força. Pois, quando eu entrei aqui, a minha distrofia

estava bem avançada, eu estava com começo de ressecamento nos nervoso do braço. Minha

mão estava bastante cerrada. Hoje minha mão abre quase que normalmente, porém, não

possuo movimento. Pelo menos eu não tenho aquela possibilidade de atrofiar mais ainda. A

gente fica sem saída por conta destes problemas, então eu fui encaminhado para você, aqui no

Grupo de Apoio, o que me ajudou muito, pois eu estava em uma situação de apreensão,

achando que ia ficar doido. Então, deste lugar, lá da fisioterapia, com a Kátia na terapia

ocupacional, eu só trago boas lembranças. É como todo mundo que passa por aqui

Pesquisadora Você ficou aqui quanto tempo?

Ce. - 44 anos Aqui eu fiquei três anos. Fui bem tratado, não tenho do que

Nunca tive problemas para consultar. Nessa

parte, a doutora Líliam (médica fisiatra responsável pelo serviço) é uma excelente pessoa, me

anima bastante, ela me examina de fato e é muito legal. Você também, como psicóloga, eu

tenho que te agradecer porque eu estava muito estressado, pois eu estava em uma vida

produtiva e de repente

Eu comecei a trabalhar cedo, com oito anos. Havia uma fábrica de

doces aqui na Vila Nova - minha mãe comprava os doces e nós vendíamos. Nós tivemos

infância, mas uma infância no final de semana pois durante a semana nós trabalhávamos.

reclamar. O acompanhamento, a preocupação

Então, de repente, depois de mais de trinta anos trabalhando, minha produtividade foi

interrompida de uma vez e isso deixa qualquer pessoa aborrecida. E você passa a depender de outras pessoas, sendo que antes era você que contribuía. E isso me deixa muito aborrecido. Pesquisadora As pessoas que te conheciam, ou as pessoas que tinham convívio com você, pelo fato de não estar trabalhando, você acha que elas te julgam de alguma maneira?

Não é com pena, é analisando a

situação que existe no INSS e o fato de nós dependermos dele. O tempo de contribuição, quanto falta para a aposentadoria. Faltam três anos para eu aposentar. Então, a contribuição

você já fez, mas na hora que você precisa você fica nesta situação. É onde as pessoas comentam que tem dó de quem precisa passar por isso. Agora, resumindo, do Centro de Reabilitação eu só tenho a agradecer, por tudo, a todo mundo. Pesquisadora Fizemos nossa parte, nada além. Ce. - 44 anos Mas foi ótimo.

Ce. - 44 anos Não. Às vezes eles ficam

Neste trecho da entrevista, Ce. aponta que a patologia orgânica pode originar distúrbios psicológicos. Há vários estudos, os quais serão citados na discussão desta pesquisa, que apontam que limitações físicas adquiridas levam ao surgimento de quadros de ansiedade e depressão.

Ce. traz consigo a certeza de que no Centro de Reabilitação foi “bem tratado”, relata que a médica o examinava de fato e que os demais profissionais se preocupavam com ele. Neste Serviço ele é percebido como pessoa enquanto no INSS ele é “mais um” a ser submetido à perícia. Há também referência ao seu trabalho que é iniciado cedo na vida e que, portanto, contribui na sua aquisição da identidade, mas que por outro lado, pode levar a um desgaste físico precoce.

4ª Foto

4ª Foto Figura 5 - Grupo de Apoio. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008. Pesquisadora

Figura 5 - Grupo de Apoio. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Pesquisadora Você estava falando do Grupo de Apoio

Ce. - 44 anos Que aqui houve uma troca, isso que eu achei legal, as

dificuldades de um serviam de experiência para outros. Muitas vezes, alguém estava em uma

situação pior que a nossa. Era um grupo, não de pacientes, mas sim de amigos. Um querendo

sempre o melhor para o outro, sempre ajudar o outro. Se eu puder, mais pra frente, eu vou

continuar participando, pois foi muito bom. As pessoas sempre me davam força e eu dava

força aos outros, como eu falei, era uma troca. A Luciana (assistente social responsável), eu

esqueci de falar, também é uma pessoa super legal.

Pesquisadora Todo mundo se divertindo muito?

Ce. - 44 anos É. Sempre havia momentos de descontração e isso ajudou

bastante. Eu comecei com a Marciene (fisioterapeuta) e ela falou: “Ce. - 44 anos, eu vou

precisar passar você para a médica e vou avisá-la para te passar para o psicólogo”. Ou seja,

ela percebeu o jeito que eu estava. Eu não estava me conformando com aquilo, e foi através

daqui que eu comecei a aceitar o problema. Então foi ótimo e só tenho a agradecer.

Há a identificação de algumas características que um Grupo de Apoio pode ter:

no caso são apontadas as identificações e trocas, os laços afetivos que são criados nesta

vivência e os momentos de “descontração” possíveis (vide foto), apesar da doença e

sofrimento que levam os pacientes a buscá-lo.

Enquanto psicóloga deste serviço, presenciei momentos de intenso sofrimento

e compaixão entre os participantes, assim como momentos de alegria. O convívio e a

intimidade criada possibilitavam a experiência de diferentes tonalidades afetivas. Criou-se um

clima de respeito e comunhão entre os integrantes.

5ª Foto

clima de respeito e comunhão entre os integrantes. 5ª Foto Figura 6 - Uni-FACEF. Fonte: Máquina

Figura 6 - Uni-FACEF. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Da Uni-FACEF. Por que eu fotografei? Porque eu estou

afastado, estou recebendo normalmente e a minha luta é para que meu filho não passe pelo

que eu estou passando hoje. Para que ele tenha um futuro melhor.

Pesquisadora Qual a idade do seu filho?

Ce. - 44 anos Dezenove anos.

Pesquisadora Quantos filhos são?

Ce. - 44 anos São dois, eu tenho também uma menina de doze. Ele já está

terminando o primeiro ano de Administração, já está trabalhando no Magazine Luiza. É o

sonho de qualquer pai, que o filho tenha o caminho dele. Mas não é porque ele vai trabalhar,

vai ganhar bem, que ele precisa me sustentar. Eu quero que ele não passe por aquilo que eu

passei, mas se passar um dia, que ele tenha mais recursos. Pois uma pessoa que tem um curso,

uma formação, ela tem mais chance de não depender de trabalhar fechado dentro de uma fábrica. Não desprezando a classe sapateira, pois foi dela que consegui tudo que tenho. Pesquisadora Mas no seu trabalho você sabe que dependia de habilidade

manual.

Ce. - 44 anos Isso. Pesquisadora E você quer que seu filho tenha habilidade intelectual. Ce. - 44 anos Exato. E eu já tive chance, mas não consegui por falta de estudo. Eu tive que parar de estudar para trabalhar. Pesquisadora Mas você está fazendo um curso, não é? Ce. - 44 anos Sim, estou fazendo Computação. Estou indo bem e pretendo futuramente fazer um curso do SENAI, de técnico de segurança, porque eu não sei se eu vou poder voltar a trabalhar no Curtume. Eu tenho meu filho, tenho minha filha que também estuda, e o que eu puder fazer para eles terem aquilo que eu não tive, eu vou fazer. Pesquisadora E seu filho está satisfeito? Ce. - 44 anos Bastante! E depois que ele começou a fazer faculdade, várias empresas ligam atrás dele, pois ele deixou currículos em vários lugares antes de conseguir o emprego. Agora ele vai prestar concurso para a Caixa Econômica. Então nós estamos depositando nossa fé e nossa força nele para que ele tenha um caminho melhor. Por isso que eu coloquei a Uni-FACEF na foto.

A bela foto da fachada da Universidade onde o filho mais velho de Ce., estuda e o relato que a segue, confirmam sua crença de que um curso universitário garante inserção no mercado de trabalho, boa remuneração, proporciona o desenvolvimento de um maior número de habilidades que permitem a atuação em diferentes campos profissionais. O desenvolvimento intelectual pode ser um eficiente antídoto em caso de limitações físicas. Por outro lado, a produtividade na atividade calçadista, parece encerrar o indivíduo em um universo limitado. Uma vez que este universo se dissipa, a pessoa encontra- se despreparada para a vida, para o mercado de trabalho. Após um tempo participando do Grupo de Apoio, após diversos debates sobre a incapacidade, “o quanto se está incapacitado?”, e por suas experiências pessoais, com o filho principalmente, Ce., passou a considerar sobre a importância de descobrir novas habilidades (independente do nível educacional), fato que o motivou a fazer curso na área de informática e a querer fazer curso de técnico de segurança.

No entanto, este foi um processo lento e gradual, uma vez que antes de chegar

neste ponto, houve muita dor, sofrimento psíquico, desesperança, revolta, entre outros

sentimentos vivenciados intensamente no processo de crise e necessidade de mudanças.

6ª Foto

no processo de crise e necessidade de mudanças. 6ª Foto Figura 7 - Casa de Ce

Figura 7 - Casa de Ce Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Esta é da minha casa. O tempo que eu não estou me tratando,

eu estou aí. Eu fotografei porque, primeiro, ela foi conseguida com muita luta, com muito

trabalho. Ser impedido, de uma vez, de trabalhar me deixa muito chateado. Há quinze anos

atrás eu tinha uma bicicleta para andar e hoje, graças a Deus, eu tenho uma casa, tenho uma

moto, que hoje nem tem como eu andar mais, e tenho um carro também. E isso era uma prova

do que é estar trabalhando, estar produzindo. Se eu tinha um plano de mexer na minha casa,

eu calculava que se fizesse serão quatro meses seguidos, eu conseguia. Você tinha um plano e

conseguia realizá-los. Agora hoje, que eu estou afastado, você sabe que não tem como sair

para fazer outra coisa. Então eu coloquei a casa pelo que ela representa, por ser o lugar que eu

fico, hoje em dia, quase vinte e quatro horas.

Pesquisadora E como é ficar em casa? Muito difícil? Você já se acostumou?

Ce. - 44 anos Agora, minha mulher também está com problemas no braço, e

minha cunhada emprestou uma máquina para ela. E mesmo com uma mão só, ela consegue

movimentar e está mexendo com palmilhas de sapato em casa. Eu estou sempre ali, sempre

com ela porque eu estou vendo que ela está na batalha também. Então, resumindo, aqui é onde

eu passo meu maior tempo. Pra quem ia lá apenas para dormir, pois almoçava na fábrica, às

vezes fazia serão, chegava entre nove e dez horas.

Por este depoimento fica claro o significado do trabalho para Ce

Os bens

adquiridos ao longo dos anos de trabalho (como a casa da foto) são “prova” de que ele era

uma pessoa produtiva, o responsável pela melhoria das condições de vida da família.

A impossibilidade de traçar planos, pois embora esteja recebendo, está na

dependência de perícias, a remuneração é menor, entre outros fatores, aparecem como fatores

impeditivos para um bem estar social e mental. Como se a vida estivesse suspensa por um

período, aguardando algum tipo de aval (reinserção no mercado, aposentadoria, etc) para que

pudesse ser retomada.

O gênero, ser homem e o ideal de provedor, aparecem em “xeque”, na medida

em que ser cuidado financeiramente e afetivamente tem um caráter dual. Há aborrecimento

por depender de alguém seja financeiramente ou para realizar atividades cotidianas, auto-

cuidados, mas há prazer em ter a família por perto.

7ª Foto

mas há prazer em ter a família por perto. 7ª Foto Figura 8 - Esposa de

Figura 8 - Esposa de Ce. trabalhando na garagem da casa deles. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Pesquisadora Então sua esposa fica trabalhando. Ce. - 44 anos É. Fica na garagem, lá em casa. Essas aí são umas palmilhas para pespontar. Ali está uma pia, faz três anos que eu mandei fazer. Queria mexer na minha cozinha, mudar. Só que teve a questão do INSS, não tem conserto. Pesquisadora Os planos ficaram Ce. - 44 anos Pois é! Mas ela é uma pessoa com quem eu conto, sei que posso contar, que é tudo na minha vida. Está sempre me apoiando, me dando força, e eu também sempre dando força pra ela. Pesquisadora Agora que você passa mais tempo em casa, o convívio com a sua família melhorou? Antes você não tinha muito tempo, não é? Ce. - 44 anos Eu vou te falar a verdade sobre uma coisa. O convívio da gente melhorou porque hoje, eu estando aí, estou vendo tudo o que está se passando. Meus filhos,

graças a Deus, estão no trabalho. Minha filha também

crescendo, não é que ela me dá trabalho. Mas se ela está sabendo que tem sempre eu ali, ela

Minha filha é assim. Eu a pus na ginástica da prefeitura, que não paga nada, tem ônibus

Ela faz jazz também, na igreja. Ela gosta disso. Ela não fica

que leva no Poliesportivo e traz

Porque menina, quando vai

na rua. Hoje as crianças de dez anos saem e os pais não sabem nem onde elas estão. Então é sempre assim, meu filho, até hoje, com dezenove anos, me fala aonde vai e que horas vai chegar. Às vezes liga de madrugada e fala que vai chegar um pouquinho mais tarde, pergunta se tem problema. A gente tem, graças a Deus, um bom relacionamento. Às vezes tem uns momentos de nervosismo também, mas nunca de maltratar um ao outro. Eu posso falar que tem um pai na minha casa, e dou graças a Deus. Há também os “louros” do afastamento. A possibilidade de maior convivência com a esposa, e a percepção de que esta também “batalha” para a manutenção da casa, a participação no cotidiano da família, o conhecimento a respeito dos filhos, a possibilidade de um convívio respeitoso e não somente autoritário com os mesmos, entre outros.

8ª Foto

8ª Foto Figura 9 - Moto de Ce Fonte: Máquina de Ce., março de 2008. Ce.

Figura 9 - Moto de Ce Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Essa aí é uma coisa que eu sempre adorei na minha vida, desde

os meus dezessete anos eu gostei de moto.

Quantas vezes, quando eu era solteiro, até ao Mato Grosso a gente já foi de

moto, num encontro de motos lá.

O dia em que eu comprei minha primeira moto eu dormi lá na garagem, de

emoção. O tanto que eu gosto

eu tenho ela, e eu andei pouco nela, uns três meses só.

Teve uma época em que estava muito ruim de serviço em Franca, aí a fábrica

fazia acordos, falava pra ficar quinze dias em casa, que perdia quinze mas ela te pagava

quinze.

Essa moto é recente, não faz muito mais que quatro anos que

Eu tinha uma outra moto e pegava muito bico, subia na moto às cinco horas da

manhã e ficava até sete, oito horas trabalhando, fazendo entrega nas cidades da região.

É uma coisa que eu sempre gostei, e hoje em dia a única coisa com que eu fico

chateado é de não poder andar nela. Até eu ia, na época, vender a moto.

Mas aí meu filho já fazia estágio e falou pra eu não vender. Disse que

trabalharia um pouquinho a mais pra ajudar a pagar. Ele se dedicou, pagou, e depois tirou

carta. Hoje ele que dirige pra trabalhar, pra ir pra faculdade. Serviu pra ele.

E a questão do carro é a seguinte: o pai da minha mulher tinha umas heranças

para passar para ela e como estava demorando demais ele falou que ia passar esse carro pra

gente.

Quando saiu o dinheiro ele descontou só metade do valor. E agora ele está

sendo útil, porque às vezes eu tenho que ir ao médico, minha esposa me leva, é aqui perto.

Esses dias eram três horas da manhã e eu estava no Janjão, tive dor.

Pra pagar táxi é difícil, pois ele não te espera. Então, uma coisa que me chateia

nisso tudo é eu não poder mais andar na moto.

Em contrapartida a foto anterior, o adoecimento surge associado à privação de

prazeres: a moto, o afastamento do trabalho enquanto uma atividade produtiva (na fábrica de

calçados, como entregador nas horas vagas).

9ª Foto

de calçados, como entregador nas horas vagas). 9ª Foto Figura 10 - Casa do sogro de

Figura 10 - Casa do sogro de Ce Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Aí é onde meu sogro mora. Eu vou muito aí.Às vezes eu vou

dia de sexta e fico até segunda-feira. No fundo tem um rio que passa por lá, é uma coisa

gostosa, a gente passar uns momentos pra refletir, uma tranqüilidade. E eu gosto muito de

ficar em contato com a natureza. A gente vai aí e descansa muito, descontrai, porque vai todo

mundo. É um momento que eu passo alegre. Tenho boas lembranças daí, do tempo que eu

podia ajudar a mexer aí, cuidava do pomar. Porque ele sempre falava que isso aí ia ser da

gente, pra cuidar mesmo. Hoje eu fiquei impedido de podar, mas alguma coisinha do tipo

aguar as plantas, pôr ração para os porcos, eu faço. Eu gosto de ir lá pra descarregar, é um

momento de lazer pra esquecer os problemas.

Pesquisadora Porque também ninguém vive só de problemas.

Mesmo restringindo suas atividades relativas aos cuidados com o lugar ele

consegue vivenciar momentos felizes. Para tanto, pensamos que o trabalho de reabilitação

motora e emocional foi fundamental para que o mesmo pudesse voltar a sentir prazer. No

início do tratamento, em crise, o mesmo relatava um grande desânimo, vontade de se isolar,

sintomas que conotavam um humor depressivo.

Há também uma tônica na produtividade, fazer algo parece ser sinônimo de

identidade e laboriosidade sinônimo de prazer.

10ª Foto

de identidade e laboriosidade sinônimo de prazer. 10ª Foto Figura 11 – Ce. no computador da

Figura 11 Ce. no computador da casa dele. Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Aqui é na minha casa. Eu estou fazendo um curso de

Computação pra pelo menos entrar na Internet, é um passatempo. Você pode olhar que o site

que está aí é o da Previdência Social, por onde eu acompanho o dia que eu vou receber. Eu estou com um processo de uns pagamentos que foram ficando pra trás e por aí eu vou

acompanhando pra ver como está. Também marco perícia médica por ali

notícias, gosto muito de ficar sabendo o que está acontecendo no dia-a-dia no Brasil e no mundo.

Pesquisadora É uma fonte de informação. Ce. - 44 anos É, e é um passatempo que hoje, pra eu ficar mais integrado, fui fazer esse curso. Gosto mesmo de mexer. Pesquisadora E agora está dando pra você “mexer” mais. Ce. - 44 anos Está. Primeiro era só de fim de semana, agora tem o dia todo. Até no site do Ministério da Previdência eu entro pra ver as coisas. Tem uma parte lá que você entra e vê as reclamações das pessoas, vê que o INSS não é referência de reclamação só aqui em Franca não. Pesquisadora Quem é o garoto que está ao seu lado? Ce. - 44 anos Esse é meu sobrinho. Como mora perto está sempre lá. É filho único, não tem ninguém pra brincar ali, a molecada está toda na escola, e como a gente não tem mais criança ele fica sempre lá. Tem-se gente em casa, ele está aí. É um tipo de companhia também, pra descontrair.

E mais, vejo

A foto “mexendo” no computador retrata outra uma mudança positiva: tempo para entrar na Internet e ver notícias, buscar informações de seu interesse. O sentir-se integrado, não só virtualmente, mas como cidadão, como um indivíduo capaz de buscar conhecimento. O tempo neste sentido, deixa de ser completamente ocioso e neste momento ele se mostra como uma pessoa produtiva. Há um resgate de sua identidade.

11ª Foto

11ª Foto Figura 12 - Área de preservação da prefeitura perto da casa de Ce Fonte:

Figura 12 - Área de preservação da prefeitura perto da casa de Ce Fonte: Máquina de Ce., março de 2008.

Ce. - 44 anos Aí é o seguinte. Lá perto da minha casa tem uma área de

preservação da prefeitura e não pode construir casas, aí a gente fez este serviço aí. E como

hoje tudo é malandragem, os rapazes ficam mexendo com qualquer bagunça, pra eles não

ficaram lá embaixo a gente limpou, preparou a terra, deixou tudo arrumadinho. Mesmo antes

de eu ter sofrido o acidente a gente já tinha mexido aí. Aqui está aparecendo só as bananeiras,

mas lá no fundo tem pé de goiaba, laranja, tem abacate. É área da prefeitura, mas a gente

cuida. Então eu estou sempre aqui, levanto cedo, vou ali, tomo um ar. Não dá pra ver, mas as

bananeiras estão tudo com os cachos carregadinhos. E ali, onde tem uma árvore maior, os

homens põem os bancos e sentam tudo debaixo. É gostoso ter um pomar pra cuidar. É uma

forma de você também passar o tempo. Aí você não fica pensando em remédio, perícia. Você

fica envolvido, parece que areja a cabeça. É gostoso, como eu te falei, uma coisa que eu adoro

é ficar no meio da natureza. É uma coisa muito bonita.

Pesquisadora É raro ter uma área dessas no meio da cidade, não é?

Ce. - 44 anos É, e é gostoso. Às vezes você chega lá e olha fruta de fora a

fora. Teve uma mulher que fez até uma horta lá, uma horta comunitária. A gente pega verdura

lá e eles pegam as coisas de cá. E o bom é que como a gente está tudo ali ninguém estraga. É

um lugar gostoso. Você vê essa mata, mas lá dentro é bem limpinho. Nós colocamos ganchos

numas árvores, agora dá pra colocar rede lá. O rio também é limpinho. É uma nascente, mina.

Na parte de cima tem uma área com muita argila. É gostoso

dos problemas e vai ter um pouco de paz. Pesquisadora Por último, eu gostaria de saber o que você achou de tirar essas fotos, se foi difícil escolher estes assuntos. Como foi? Ce. - 44 anos Não foi difícil. Não sei se você percebeu, mas eu não pus ninguém ligado à saúde porque dentro do INSS a gente não sente vontade de fotografar ninguém dali. Não vou generalizar. Há pessoas ali que são educadas, que reconhecem o seu problema e te tratam muito bem. Mas têm pessoas ali que, ao que parece, acham que não podem passar por isso um dia, por isso que eu não quis nem pôr. Mostrei o NGA, também. Ali muita gente reclama, mas eu, particularmente, não posso reclamar, porque eu não fui maltratado ali. Aqui também eu fui muito bem tratado. Eu só não tirei foto aqui, das pessoas, porque queria retratar mais a idéia por cima, mostrei nestas fotos em cada ponto o que mudou pra mim. Fui naquilo que mais estou vivendo, que é na minha casa, minha família, meu filho no seu segmento profissional, aquilo de que eu gostava e não posso fazer mais. Então eu resumi as idéias, e não as pessoas. Se for pra eu hoje escrever aquilo que eu te falei, é difícil. É aquilo ali.

É um momento em que você sai

Podemos acrescentar à foto anterior, a percepção de que “passar o tempo” é diferente de “matar o tempo”. No primeiro há produção associada ao lazer, não somente a necessidade de se ocupar com algo que o impeça de sentir o vazio deixado pela incapacidade de exercer sua profissão. Este é um espaço que possibilita a convivência com as pessoas da comunidade, um momento promotor de saúde. As fotos sacadas e os temas abordados por Ce. parecem ilustrar o seu dia-a-dia presente. Nesta nova rotina várias mudanças foram abordadas a partir do momento em que sofreu o acidente e deixou de trabalhar. Neste sentido, a atividade proposta parece ter sido efetiva. A partir dos comentários finais fica evidente o envolvimento do paciente e seu esforço.

Di. - 35 anos, casado, 04 filhos, sapateiro, afastado há quatro (4) anos. Após um incidente no trabalho precisou ser afastado temporariamente e descobriu-se, neste período também, a pré-existência de uma doença de cunho degenerativo.

Di.

sofre

de

espondilite

anquilosante,

responsável pelo Centro de Reabilitação, como:

patologia

descrita

pela

fisiatra,

uma doença reumática que causa inflamação na coluna vertebral e nas articulações sacroilíacas (no final da coluna com os ossos da bacia), e cujos sintomas podem variar de dores nas costas, e nas nádegas, até uma doença grave (estágio no qual D. se encontra) que ataca a coluna, juntas e outros locais do corpo, resultando em grande incapacidade devido a um “congelamento” das vértebras da coluna que com o decorrer do tempo, dificultarão inclusive a caminhada e a capacidade de locomoção.

1ª Foto

a caminhada e a capacidade de locomoção. 1ª Foto Figura 13 - Casa de Di. –

Figura 13 - Casa de Di. terceiro trabalhando. Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Esta foto eu tirei em casa. Está dando pra ver que o chão está

um pouco molhado, pois faltava cimento. Às vezes era um pouco das coisas que eu mesmo

dava conta de fazer, e precisei arrumar uma pessoa pra poder fazer. Porque o jeito de ficar, o

jeito de fazer, o que eu fazia, que era fácil eu fazer, já está ficando mais complicado.

Pesquisadora Você está com dificuldade física há quanto tempo?

Di. - 35 anos Na faixa de uns quatro anos e meio, mais ou menos.

Pesquisadora Desde então você está precisando de ajuda com os afazeres?

Di. - 35 anos Principalmente coisa pequena como essa. Quando eu

trabalhava, nos fins de semana eu sempre fazia esse tipo de coisa, pra ganhar um dinheirinho ou ajudar as pessoas. Pesquisadora Você gostava de fazer essas coisas?

Di. - 35 anos Gostava, porque era no meio da turma, não havia chefe pra

perturbar. Então, de certa forma, você brincava de trabalhar. Ganhava um dinheirinho e ajudava as pessoas que também não tinham pra pagar. Pesquisadora Aí você fazia na sua casa e na casa de outras pessoas também.

Di. - 35 anos É, quando ia em casa pra fazer, como neste caso aí, que é só

um pedacinho que tem. Era coisa que eu dava conta de fazer, precisava ficar agachado. Agora complica.

Pesquisadora Essa pessoa é conhecida sua?

Di. - 35 anos Ele trabalha com esse tipo de serviço. Aí eu pedi pra tirar uma

foto e ele até disse para eu aproveitar pois estava acabando o serviço.

Nesta foto aparece o trabalho delegado a um terceiro. A limitação física decorrente do adoecimento não somente o incapacita para o seu exercício profissiona l, mas também o impossibilita para os “pequenos trabalhos” (pequenos reparos na casa, pequenos bicos, etc). Estes, por sua vez, encarados como fonte de descontração e convívio social. Di. enfatiza que cuidava de sua casa e da casa dos outros, e parece que o sentimento de ser útil, solidário lhe proporcionava um bem estar.

2ª foto

2ª foto Figura 14 - Casa do Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008. Di.

Figura 14 - Casa do Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Esta foto é em casa também. Significa uma boa parte dos meus

momentos, quando eu fico centralizado nesse pedaço. Ela estava deste jeito, mas agora está

bem mais bonita. É um pé de uva, uma parreira. E agora ela foi podada e está toda tampada,

está com cachinho de uva.

Pesquisadora Você fica bastante na varanda?

Di. - 35 anos Eu fico muito aqui nesse pedaço. Ao lado do pé da uva tem um

pé de limão galego. É um lugar onde eu fico, debaixo da sombra, fico muito tempo nesse

pedacinho aqui.

Pesquisadora Hoje em dia você fica muito em casa?

Di. - 35 anos Eu fico, procuro ficar mais em casa.

Pesquisadora Mais em casa do que você ficava antigamente?

Di. - 35 anos Com certeza.

Pesquisadora Você é quem cuida dessas plantas?

Di. - 35 anos Eu águo todos os dias, não falto não.

Pesquisadora Você gosta de cuidar delas?

Di.

- 35 anos Eu gosto, porque aí tem parte da vida da gente, afinal, a casa

era da minha mãe e essas plantas já têm oito ou dez anos e eu sempre fiquei ali. Então, após eu comprar a casa dela, a gente ficou mais próximo. Eu sempre gostei de ficar ali. Pesquisadora - A sua mãe faleceu há quanto tempo?

Di. - 35 anos Três anos.

Pesquisadora E ela gostava deste local também?

Di. - 35 anos Gostava. Ela ficava sentada na mureta e a gente conversava

bastante.

Pesquisadora Então é um lugar que tem significado de familiar para você?

Di. - 35 anos Tem sim.

O afastamento, o “estar centralizado” em sua casa, possibilitou que o mesmo se envolvesse com o cuidar (plantas) e com a produção (frutos), atividades estas que parecem ter uma função “terapêutica”. Também aparece um resgate da figura materna (a parreira da foto é herança materna), culturalmente associada ao cuidar.

A mãe não está presente fisicamente, mas simbolicamente é representada pela

casa e pelos “cantinhos” nos quais costumava ficar junto ao filho. Di. adquiriu a casa materna enquanto estava em tratamento no Grupo de Apoio. Na época se empenhou bastante para poder comprá-la, uma vez que precisou de uma quantia em dinheiro além do obtido com a venda de sua casa.

O fato de estar afastado do trabalho por possuir uma doença degenerativa o

possibilitou legalmente a retirar seu fundo de garantia e foi com este recurso que realizou a compra almejada.

3ª foto

3ª foto Figura 15 - Chácara da irmã de Di Fonte: Máquina de Di., março de

Figura 15 - Chácara da irmã de Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Esta foto é na chácara da minha irmã. Eu queria que saísse de

um jeito, sem aparecer a cerca, como você ensinou, mas não deu certo. É um cavalo. Tem a

ver comigo porque eu sempre gostei de cavalos, acho que já vem no sangue caipira. Hoje é

impossível eu andar a cavalo, eu nem tento andar porque eu sei que vou me complicar por

uma ou duas semanas ou bem mais. Mas eu sempre gostei. Eu acho os animais bonitos, e

sempre que tinha oportunidade, nos fins de semana, a gente ia para uma chácara andar a

cavalo. Para mim era como uma terapia e agora passou a ser uma coisa impossível, porque eu

mesmo não tenho coragem de montar.

Pesquisadora Você continua indo para esta chácara?

Di. - 35 anos Continuo.

Pesquisadora E quando você vai, você fica muito chateado ou já

acostumou?

Di. - 35 anos Às vezes eu vejo o tanto de coisa que eu fazia, tanto nessa

chácara quanto na fazenda de um tio, onde eu sempre andava. Então eu tenho lembranças até

e gosto de ver os outros andarem, darem uma volta, mas eu mesmo não tenho coragem.

Mais uma vez aparecem as limitações que restringem as vivências associadas

ao prazer. No entanto, hoje em dia, Di. não assume uma postura melancólica em relação ao

fato. Entristece-se, mas também consegue admirar aqueles que realizam as atividades para as

quais se encontra impossibilitado.

4ª foto

para as quais se encontra impossibilitado. 4ª foto Figura 16 - Chácara da irmã de Di.

Figura 16 - Chácara da irmã de Di. - terceiro trabalhando. Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Pesquisadora Esta daqui é na mesma chácara?

Di. - 35 anos Esta fica ao fundo e este rapaz estava limpando. Essa foto eu

devia mostrar para o pessoal que faz parte do meio “rural” o tanto que faz sofrer um sol

desses, a pessoa trabalhando e por uma mixaria, por dez reais, o dia inteiro em um sol desses.

Muitas vezes tem gente que ganha bem mais e não está satisfeito. E é uma coisa que eu fazia

também: limpezas, algumas vezes na cidade, em outras eu pegava um terreno lá. Sempre que

eu tinha uma folguinha eu fazia alguma coisa. Juntava com meu cunhado e pegava um terreno

para limpar. Chácara nós também já limpamos, tanto podando quanto capinando. Eu topei

com essa pessoa da foto e ela me chamou a atenção. E é muito complicada a situação que eu

estou hoje. Você vê, de tanto capinar, a postura que ele tem.

Pesquisadora Di. - 35 anos, você acha que esse tipo de trabalho prejudica a

saúde com o passar do tempo?

Di. - 35 anos Eu digo que a pessoa que pega serviço grosso assim,

futuramente vai ter problemas. Mas é o meio de vida de cada um. Muitas vezes é o meio da

pessoa ganhar um algo a mais. Tem aquilo lá para fazer, você topa fazer? Opa! Vamos

embora!

Pesquisadora - Ao mesmo tempo em que o trabalho tem um lado que

prejudica a saúde, tem o lado positivo também?

Di. - 35 anos Isso, prejudica, mas um pouquinho de dinheiro que entra, já

ajuda.

Nesta, o trabalho aparece como fonte de adoecimento e prazer.

Há também o enfoque no trabalho “grosso” que traz conseqüências negativas

permanentes à saúde, mas que também acrescenta, proporciona um “algo a mais”.

O afastamento, a queda salarial e a impossibilidade de realizar quaisquer

funções remuneradas, decorrente deste, o privam financeiramente de algumas aquisições

cotidianas.

5ª Foto

financeiramente de algumas aquisições cotidianas. 5ª Foto Figura 17 - Riacho que despertou a atenção de

Figura 17 - Riacho que despertou a atenção de Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Eu não lembro muito qual era o sentido de eu ter tirado essa

foto, mas essa foto me despertou curiosidade. Eu aprendi a nadar no rio meio aos “trancos e

barrancos” e essa água me chamou a atenção. Eu aproveitei e tirei (a foto) da claridade. Na

época em que eu aprendi era um rio, agora é riozinho, tinha corredeira. Hoje em dia, água

apenas de piscina, e ainda assim, rasa. Eu não dou conta de dar braçada. Se eu falar que vou

passar para o outro lado da margem, eu não faço, pois é preciso muita agilidade, tanto nos

braços quanto nas pernas, e meu problema está mais localizado na bacia. Se eu falar, como já

fiz, que vou cortar a represa, hoje em dia não dou conta, então eu procuro ficar na beiradinha, pois aí não tem perigo nenhum, não precisar dar braçadas ou bater os pés. Pesquisadora Mas você não deixa de entrar na água um pouquinho

Di. - 35 anos Não. Como eu estava lhe falando, tem a piscina olímpica no

SESI, mas eu vou na que tem forma de coração, que é mais rasa e serve para eu fazer os

alongamentos, pois na terra não dá para fazer e na água eu tenho mais facilidade de fazer. Pesquisadora - Ficou bonita esta foto.

Di. - 35 anos Eu achei que não ia ficar, pois o sol estava atrás.

Pesquisadora O céu ficou bem azul, ficou bonito.

Di. - 35 anos Eu tentei pegar um pouco do chão.

O riacho representa o aprendizado que é realizado “aos trancos e barrancos”. A doença o faz se confrontar com uma nova realidade, à qual no dia-a-dia vai tentando se adaptar.

A represa é substituída pela piscina infantil e a agilidade pelas dificuldades e

dores.

Do mesmo modo que o rapaz com a postura curvada lhe chamou a atenção por ele ter se visto nele, o rio lhe chamou a atenção porque, como ele, não é mais o mesmo. Ele não tem mais as habilidades que tinha (corredeira), se sente “diminuído”, menor, tal como o rio que virou riozinho. A “claridade” captada pode representar a busca por uma “luz no fim do túnel”, cotidianamente, quando se cuida é esta busca que respalda.

6ª Foto

6ª Foto Figura 18 - Móvel da casa de Di Fonte: Máquina de Di., março de

Figura 18 - Móvel da casa de Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Essa foto não tinha muito o que aparecer. Era para sair à noite.

Essa foto foi tirada as duas e pouquinho da manhã. Eu me levantei, pois estava sentindo muita

dor, não estava conseguindo ficar deitado e a máquina estava na estante. Então eu peguei a

máquina, desliguei a luz e o flash para sair só o escuro. É uma das noites traiçoeiras, pois uma

boa parte (das dores) que pegam, é na madrugada. Aí eu levanto, pois na cama não tem jeito

de ficar, sento em um lugar, tomo o remédio. Nesse dia eu vi dois pontos vermelhos, um do

som e outro da televisão, e com o flash desligado eu imaginei que ia sair escuro. Essa foto era

para sair o escuro, eu não enquadrei a estante nem nada e, o significado que ela tem pra mim é

uma das noites traiçoeiras que eu passo.

Pesquisadora - E isso acontece com freqüência?

Di. - 35 anos Quase todas. Se eu não tomo o remédio, não durmo. Mas aí

não tem como eu ficar deitado, eu estou deitado e algo me tira de lá.

Pesquisadora Você consegue dormir quantas horas seguidas?

Di. - 35 anos Geralmente deito cedo, mas depois de umas quatro horas

começa a doer e não consigo mais. Quando tomo remédio tento ficar na cama até as seis. Mas

quando está ruim, aí eu sempre levanto, sento um pouco, tomo um remédio, que muitas vezes

não está nem na hora de tomar, mas eu tomo, para tentar aliviar.

Pesquisadora E depois dorme de novo?

Di.

- 35 anos Depois eu volto, sento um pouco na cama e tento descansar,

deitar. Mas vai um bom tempo (até conseguir), uma hora e meia, duas horas. Pesquisadora - Aí você fica perambulando no escuro?

Di. - 35 anos Parecendo um zumbi.

Pesquisadora - Passa uma mensagem, isso que importa e, acho que pelo que

você contou, o pessoal vai entender a foto.

Di. - 35 anos A hora que eu vi a foto eu assustei.

Pesquisadora - Mas foi incrível mesmo porque quase não havia luz e as únicas que havia a máquina captou!

Di. - 35 anos Estava muito escuro. Era umas duas da madrugada.

Este relato refere mudanças no ciclo do sono. Devido às dores durante a madrugada, há a necessidade de inserir o uso de medicamentos em sua rotina. O “escuro” pode estar associado à percepção de falta de perspectiva de voltar ao trabalho e de obter melhora em seu quadro clínico, uma indefinição quanto ao futuro. A noite soa “tenebrosa” pois nela há a dor, solidão e a constante lembrança das limitações que o acompanham. O zumbi pode se referir ao sentimento de estar um “morto-vivo”, ou seja, Di. parece se sentir em parte como os zumbis de filmes que aparecem em estado catatônico, sem consciência plena de seus atos, vagando em busca de algo. Talvez este algo seja a esperança, a luz captada em condições impróprias pela câmera. Interessante a foto ter captado as luzes, assim como a foto anterior captou a claridade, se prejuízo para a sua qualidade.

7ª Foto

7ª Foto Figura 19 - Moto do Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008. Di.

Figura 19 - Moto do Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Essa moto foi uma grande conquista, mas por outro lado, quer

dizer para mim que não posso mais andar de bicicleta. Eu fiz muito, muito tempo, dois anos

de Distrito ao Panorama (bairros) e era muito complicado porque eu ia de bicicleta, além do

serviço que já era pesado, mas eu ia sem problemas. E eu ficava pensando que uma moto iria

ajudar bastante nesses quinze quilômetros.

Pesquisadora - Todos os dias você ia ao trabalho de bicicleta?

Di. - 35 anos De bicicleta. Eu precisava entrar às quatro horas da manhã,

então, eu saía três ou antes um pouco, pois, de bicicleta, não tem como prever se vai furar um

pneu ou não. Hoje ando com essa moto. E hoje, ter ela, é um meio de locomoção, de ser mais

fácil eu me locomover. Dias atrás, no Grupo de Apoio, eu comentei com o Ce., que a moto

está me atrapalhando porque as ruas têm muitas emendas no asfalto e fica trepidando muito e,

como meu problema é no quadril, fica incomodando. Eu conversei com o médico e ele disse

que era para eu evitar. Mas a última vez que eu fui de ônibus, na saída do ônibus, para descer,

eu tive dificuldades porque é muito alto e na hora que eu pisei a perna não deu apoio e eu

pisei em falso. E a moto, que há um tempo atrás me fez muita falta, hoje está me

complicando.

Pesquisadora Mas ainda assim é um meio de locomoção melhor?

Di.

- 35 anos Melhor que o ônibus, melhor que andar a pé e melhor que a

bicicleta, que já deu o que tinha que dar.

Pesquisadora No resto você não consegue mais andar?

Di. - 35 anos Muito pouco, coisa pequena, pois movimentar as pernas é

como mexer em um machucado, se você fica mexendo vai irritando.

Pesquisadora Mas quando você vai aos locais em que você se trata, você vai

de moto?

Di. - 35 anos Sim, para poder me locomover mais facilmente.

A moto que num primeiro momento era o símbolo concreto de conquistas e

sonhos realizados através do trabalho passa a incomodar, pois deixou de ter a função mais

importante para a qual foi adquirida que era facilitar o trabalho.

8ª Foto

a qual foi adquirida que era facilitar o trabalho. 8ª Foto Figura 20 - Rapaz indo

Figura 20 - Rapaz indo para o serviço lembranças de Di: seu trajeto antigo. Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Esta foto é a respeito do serviço. Você pode ver que é um

rapazinho com uma mochila atrás, empurrando (a bicicleta) em uma subida. Na bicicleta você

não vai só montado, tem horas que você precisa descer porque não dá pra ir. Essa foto me

lembra de quando eu fazia o percurso Panorama-Distrito, eu praticamente cortava a cidade de

canto a canto. Essa foto foi tirada as seis e meia e esse rapaz estava indo para o serviço e me

deu saudade. Eu sinto saudade desse tempo em que eu pegava a bicicleta e ia para o trabalho.

A cidade estava vazia, dava uma sensação de liberdade e aí neste lugar eu fazia “Em nome do pai”, era sempre de madrugada. Pesquisadora Desde que idade você trabalha?

Di. - 35 anos Desde cedo eu já estava na firma, porque minha mãe pôs a

gente pra frente desde cedo pra trabalhar. Com doze anos eu já tinha tirado a carteira, eu já

estava na firma e fui registrado.

Pesquisadora E faz quanto tempo que você não está trabalhando?

Di. - 35 anos Uns quatro anos e pouco, uma coisa assim.

Pesquisadora Você sente saudade do trabalho?

Di. - 35 anos É outra vida, outra disponibilidade. É outro tudo. Você não tem

cansaço. Quando você chega do serviço faz uma coisa ou outra, só ficar parado cansa mais do que trabalhar.

Há a saudade do trabalho, mesmo dos aspectos aparentemente sofridos, como levantar de madrugada, cruzar a cidade de bicicleta. Parecer haver uma associação do trabalho com a saúde, com o agradecimento representado pelo “sinal da cruz”. No curso de fotografia que os preparou para a pesquisa, lhes foi ensinado que a luz das primeiras horas do dia proporciona um clima agradável às fotografias. Neste dia, Di. parece ter colocado em prática tal aprendizado. Sair de casa cedo, com um objetivo, tirar fotos, parece ter tido um efeito de resgate dos velhos tempos.

9ª Foto

9ª Foto Figura 21 - Cristo. Avenida Major Nicácio. Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Figura 21 - Cristo. Avenida Major Nicácio. Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Pesquisadora Você foi às seis e meia da manhã tirar esta foto ou foi por

acaso?

Di. - 35 anos Não, eu ia mesmo sair para tirar essa foto do Cristo. Fui cedo

para não pegar o sol assim (aponta). Como a gente aprendeu, o sol ia atrapalhar e fazer

sombra. Então na foto anterior eu estava a caminho desta. Aquela é a avenida Major Nicácio.

Aquela hora eu estava subindo.

Pesquisadora A rua estava sem movimento de horário de pico, ficou boa.

Fale do Cristo.

Di. - 35 anos Isso aí é o que eu tenho aqui dentro, que muita gente pode

alegar mesmo só nas maiores dificuldades. O que eu tenho em mente é uma imagem de Deus.

Não é ele, e sim uma imagem que representa Deus. Acho que sem Deus, a vida não é nada.

Sempre que eu passo ali na frente vejo o Cristo e me sinto bem.

Pesquisadora Fica no seu caminho para a fisioterapia.

Di. - 35 anos E eu sempre o vejo. Procuro ver Deus na minha vida, porque a

situação não é fácil. Quando está com saúde a gente empurra com a barriga e enfrenta os

obstáculos. Agora, quando a gente está com um problema, tem que estar com Deus mesmo.

Pesquisadora Você acha que ter mais fé nesse momento da sua vida é

fundamental.

Di.

- 35 anos Eu acredito, porque muitas vezes eu desanimo. É uma maneira

de desabafar um pouco. Porque se não for Ele pra tentar aliviar

tomada.

O

afastamento

e

as

limitações

vivenciadas

A medicação já está sendo

o

levaram

a

uma

maior

espiritualidade. Esta espiritualidade o tranqüiliza e o sustenta. É um antídoto ao sofrimento.

10ª Foto

e o sustenta. É um antídoto ao sofrimento. 10ª Foto Figura 22 - Em frente uma

Figura 22 - Em frente uma escola, perto do Palmeirinha, “simbolizam- do” os quatro filhos de Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Esta foto vem dizer que eu tenho quatro meninos, um de

dezoito, um de dezessete, um de dez e um de cinco anos. E os dois maiores eu não vi irem pra

escola, porque eu trabalhava de madrugada ou numa parte da noite, então nunca levava na

escola ou acompanhava alguma coisa. Aí eles estavam chegando na escola, com a mochilinha,

de manhã. Vem dizer pra mim que eu não tive a oportunidade de ver os dois maiores irem pra

escola, arrumadinhos, com lanchinho. Com o problema que eu estou, hoje dá pra acompanhar

os menores. É um meio de me aproximar. Se eu estivesse naquela vida, como eu sempre

estive, ia passar sem ver os quatro de uniforme, mochila.

Pesquisadora Essa escola fica perto da sua casa?

Di. - 35 anos Essa escola fica perto do Palmeirinha. Sabe onde é?

Pesquisadora Sei. Seus filhos estudam lá?

Di.

- 35 anos Não, não estudam. É que eu vinha vindo, passando, e toda vez

que eu ia levar meu filho, com a máquina pra tirar foto, tinha muito carro e eu ficava com medo de não sair boa. Aí eu falei “não, vou tirar a foto e mostrar aquilo ali”. Pesquisadora O fato, não a escola.

Di. - 35 anos Tinha muita gente passando pra lá e pra cá.

Pesquisadora E a escola em que seus meninos estudam é perto da sua casa?

Di. - 35 anos Fica perto da minha casa.

Pesquisadora Então dá pra levá-los a pé.

Di. - 35 anos Dá pra levá-los a pé, porque é pertinho.

Pesquisadora Eles gostam que você os leve?

Di. - 35 anos O de dez não gosta muito não, fala que já pode ir sozinho. Eu

falo “não” porque passa muito movimento. Aí não deixo eles irem sozinhos não. Já o pequenininho gosta.

Pesquisadora Mas o de dez está na idade mesmo de querer fazer as coisas

sozinho.

 

Di.

- 35 anos – Ele quer ter a “liberdadinha” dele, eu falo não, só quando

crescer mais.

Pesquisadora Quando os seus filhos vão para casa com lição, quem os ajuda? Você ou sua esposa?

Di. - 35 anos Às vezes eu, quando tem algumas coisas pra ler, porque eu não

sei muita coisa, estudei pouco. Mas mais vezes, quem ajuda, é minha mulher.

O trabalho o privou de uma dimensão que parece julgar importante no contato com os filhos. O afastamento do trabalho, por outro lado, tem proporcionado este maior convívio familiar, o desempenho da função paterna, o cuidar e orgulhar-se dos filhos irem para a escola. Os estudos são valorizados, aquilo que não teve enquanto criança e jovem agora tenta estimular nos filhos.

11ª Foto

11ª Foto Figura 23 - Um dos cantinhos da casa do Di Fonte: Máquina de Di.,

Figura 23 - Um dos cantinhos da casa do Di Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Esse aí é um cantinho que tem lá em casa que faz parte

também, do meio em que eu comecei a ajudar a fazer alguma coisa, esquentar uma comida

pro menino ir pra escola. Pra não depender muito da mulher, porque depender da mulher e

ficar muito sem fazer nada a gente passa a habituar a ser uma pessoa muito inútil. Então esse

cantinho é onde eu esquento uma comida pra ele, é um meio de ajudar. É onde eu fico um

tempinho também, porque, vamos supor, eu lavo a loucinha ali e aí eu paro, quando começo a

sentir dor, passa um tempo, volto de novo. São coisas que eu estou gostando de fazer.

Pesquisadora A sua esposa trabalha?

Di. - 35 anos Trabalha.

Pesquisadora Então durante o dia quem fica em casa é você e os seus

meninos?

Di. - 35 anos Meio período eu fico com eles e meio período eles ficam na

escola. Esta foto é um meio de mostrar onde eu fico, às vezes, não, aliás, bastante.

Pesquisadora Um dos locais que você mais habita na casa?

Di. - 35 anos É. Não sou aquele cozinheiro não, mas, às vezes, dá pra

disfarçar.

Pesquisadora Arrumou uma máquina de lavar roupa nova, não é, Di. anos?

Di. - 35 anos É, quatro meninos, seis. Suja muita roupa ali.

Pesquisadora Aí você também ajuda.

Di. - 35 anos Agora está comprovado!

A foto e o depoimento pontuam mudanças na distribuição dos afazeres

domésticos. Mudanças nas representações sociais e de gênero surgem em seu cotidiano após o

afastamento. O ajudar em casa o faz se sentir capaz e combate à sensação de permanente

inutilidade evocada pelas privações da doença. Em outros momentos no Grupo de Apoio, Di.

chegou a comentar o quanto a sua relação com a esposa mudou após o afastamento. Segundo

ele, a mesma valoriza seu empenho doméstico e como ele adianta o serviço que anteriormente

era, em grande parte obrigação dela, sobra mais tempo para ficarem juntos e com os filhos.

12ª Foto

mais tempo para ficarem juntos e com os filhos. 12ª Foto Figura 24 - Local onde

Figura 24 - Local onde Di. faz fisioterapia. Fonte: Máquina de Di., março de 2008.

Di. - 35 anos Esta foto é um local que desses tempos pra cá faz parte da

minha vida, porque eu estou tentando controlar a situação.

Pesquisadora É o local onde você faz fisioterapia, não é?

Di. - 35 anos É aonde eu venho três vezes por semana. Arrumei muita

amizade aqui, e onde a gente vê que a luta continua, porque a gente tem que ver o problema

da gente e olhar um pouquinho pro problema do colega. Porque, às vezes, ele está com uma

dificuldade maior do que a sua, batalhando pra ir vivendo.

Pesquisadora Daí que você tira sua inspiração pra continuar também.

Di.

- 35 anos É, porque se eu for analisar, que eu tenho melhorado, não cem

por cento, mas me livrando um pouquinho da dor eu já controlo a situação. Pesquisadora E nesse local você faz a fisioterapia, Grupo de Apoio, e

Di. - 35 anos E passo com a médica.

Pesquisadora Você acha que esse tratamento está te ajudando?

Di. - 35 anos É como o médico falou. Eu acredito que sim, pois se eu não

estivesse fazendo esse tratamento eu acredito que estaria com uma postura bem inferior a esta que eu tenho. Aprendi muita coisa aqui, a respeito de poder sentar, levantar, o que às vezes a pessoa não dá tanta importância. É um meio de você corrigir a postura. E o médico disse

mesmo que se eu não estivesse fazendo tratamento já estava com a postura do outro tipo, que é incorreto. Pra mim está sendo bom. Pesquisadora Já se acostumou a vir aqui toda semana?

Di. - 35 anos Eu até gosto, porque é um meio de dar uma andadinha. Já

aproveita, dá uma andadinha e faz o que, no caso, está sendo bom fazer, em cima de prescrição médica. Pesquisadora Além daqui, você costuma ir muito em médicos?

Di. - 35 anos Eu também tenho acompanhamento com a doutora no NGA, e

assim que ela pede exame eu sempre estou levando. Ela muda a medicação, ou, às vezes, pede um exame de sangue, ou uma chapa, aí eu vou sempre levando. Pesquisadora Tem mais alguma coisa disso tudo que você falou que você acha importante, no momento?

Di. - 35 anos A gente tem uma noção do que vai explicar, ao tirar a foto.

Outras coisas vamos lembrando conforme falamos. Mas um pouco da vida da gente, você acaba pegando e tirando, do que aconteceu e do que pode acontecer. Eu falei a respeito de algo que eu fazia e hoje já não faço mais, dá saudade. A tendência das coisas é diminuir. Então acho que eu tenho que erguer a cabeça e continuar, pra ver se tenho uma melhora de

alguma porcentagem e poder seguir a vida sem ficar dependendo de médicos, de INSS. Pesquisadora Quando você passa pela perícia ela te afasta por um período

longo?

Di. - 35 anos Eu acredito que eles vêem muito a situação de cada um. Eu, graças a Deus, e pelos exames, sempre fui afastado. Às vezes num intervalo de um tempo curto e logo tenho que passar de novo, mas ser liberado e não ser afastado durante uma ou duas perícias nunca aconteceu.

Pesquisadora Pelo que você está contado sobre o seu problema físico e tudo o que tem acontecido, provavelmente aquele serviço que você fazia você acha que não dá mais conta?

Di. - 35 anos Lá é produto químico, curtume. Até antes de eu me afastar eu fui

pegar um saco de bicarbonato que pesava cinqüenta quilos. E hoje, a dificuldade pra esfregar

meus pés já é um absurdo

descartei. Até médico já disse pra eu descartar. E a respeito da agilidade, porque pra tudo, até pra ficar sentado você tem que ter uma agilidade no corpo. Pra você levantar, sentar, se movimentar. Então eu tive que descartar a possibilidade de pegar o serviço que eu fazia.

Pesquisadora E você pensa, talvez um dia, em ter algum outro tipo de

trabalho?

Aí, só de imaginar carregar de novo os cinqüenta quilos, eu já

Di. - 35 anos Eu acho que ficar em casa também não presta muito não. O bom

é você sentir vontade de chegar em casa. Você ficar em casa passa a ser enjoativo, ficar sem

ter muito o quê fazer. Então você ter uma atividade e você dando conta de fazer aquela atividade seria bom sim. Pesquisadora Como foi tirar as fotos? Bom, difícil?

Di. - 35 anos Na hora eu quase conversei com você pra não fazer isso.

Pesquisadora Bem que eu percebi.

Di. - 35 anos Depois eu pensei melhor, não ia ser um bicho de sete cabeças.

E eu gostei deste lado meu, então acho que foi bom ter feito isto. Um meio de conversar com

você, e você saber o que já aconteceu. Pesquisadora E vai ajudar as pessoas a pensarem como é a vida de uma

pessoa que não pode trabalhar, porque tem muito preconceito, não é? Este é um jeito de mostrar que não é isso.

Di. - 35 anos Porque pra muita gente perceber que aquela pessoa está com

problema, ou ela tem que ficar descrevendo dor na cara ou ficar com cara feia direto. Para demonstrar para os outros que não tem problemas, como é passar por todas estas dificuldades, para que tenham consciência daquilo ali. E aquela pessoa que “corneta” nas costas, que acho que não é a fim de pensar direito, porque não é fácil ser afastado por tanto tempo assim, talvez pense melhor. Então, se não estiver com aquele problema, eu acho que não é afastado, não.

Quem tá nessa é por que ta mal mesmo!

O Centro de Reabilitação aparece como um novo espaço de convivência social. Neste local ele cuida da saúde, obtém uma melhora do quadro clínico e também realiza trocas que proporcionam aprendizagem. Em função do problema físico de Di. ter um diagnóstico específico e pela doença ser caracterizada como degenerativa, a experiência que o mesmo relata referente ao INSS se difere um pouco da dos demais entrevistados. Di. não tem dificuldades para manter-se afastado, no entanto, sua incapacidade para seu exercício profissional permanece incomodando, especialmente no que se refere a sua identidade social. Importante acrescentar que Di., a princípio, quando convidado para participar desta pesquisa mostrou-se resistente. Conforme verbalizou na ocasião, poucas foram às vezes na vida em que havia tirado uma fotografia e temia não ser capaz de aprender a técnica, devido ao seu pouco estudo. Contudo, “o trabalho” de fotógrafo executado por Di. foi bastante eficiente e ele conseguiu expressar, através de suas fotos, várias nuances de sua rotina e de sua percepção relativa a esta.

Cl. - 34 anos. Casada. 02 filhos, sapateira; afastada do trabalho há dois (2) anos após acidente de moto em que teve fratura exposta de punho e lesão parcial de alguns nervos e tendões que comprometeram seus movimentos da mão e braço esquerdos e por esta razão está em processo de reabilitação. Vale destacar que Cl. é canhota

Figura 25 – Foto de Cl. na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação, local

Figura 25 Foto de Cl. na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação, local onde ocorre o Grupo de Apoio. Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Esta foto foi tirada na sala da psicóloga do Centro de Reabilitação, local onde

ocorre o Grupo de Apoio.

A paciente solicitou que um colega de grupo a sacasse para identificar que as

fotos na seqüência seriam suas, uma vez que cada máquina fotográfica foi dividida por dois

integrantes do grupo.

Esta escolha aponta para a importância do Grupo de Apoio no processo de re-

estruturação identitária. Durante a entrevista ocorrem outras verbalizações sobre o tema que

aprofundam a importância do Grupo de Apoio no sentido levantado.

1ª Foto

1ª Foto Figura 26 - Cl., a mãe e a avó. Fonte: Máquina de Cl., março

Figura 26 - Cl., a mãe e a avó. Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Cl. - 34 anos Esta foto representa minha família. Sou eu, minha mãe e

principalmente, a minha avó, que eu não via há muito tempo. Ela estava doente e eu estando

afastada, tive um pouco mais de tempo e fui vê-la.

Pesquisadora Onde ela mora?

Cl. - 34 anos No Paraná. Fica quase mil e quinhentos quilômetros daqui.

Pesquisadora O que essas pessoas representam pra você?

Cl. - 34 anos A minha avó é como se fosse minha mãe, porque praticamente

me criou quando eu morava lá. Então ela é muito importante para mim, como se fosse minha

mãe mesmo.

 

Pesquisadora E a sua mãe, hoje em dia?

 

Cl.

- 34 anos Minha mãe é tudo. Ela está sempre por perto

Estamos sempre

juntas.

Pesquisadora Então você é muito apegada a ela? Cl. - 34 anos Sou. Pesquisadora E essa viagem? Você estava esperando por ela há muito

tempo?

Cl. - 34 anos Fazia, mas nunca imaginava que poderia ir agora! Só fui porque estava afastada mesmo, ou não tinha como.

Nesta primeira foto surge o tema do afastamento e realizações pessoais que são possíveis a partir deste. Durante o Grupo de Apoio, Cl. já havia manifestado o quanto gostaria de rever a avó, uma vez que a mesma já e idosa e estava doente. Interessante a realização do sonho da viagem ter se realizado e ter sido possível levar a câmera fotográfica para registrar tal momento. Após um longo período de crise e tentativa de reestruturação de vida (como poderá ser visto ao longo desta entrevista), após o acidente e limitações decorrentes deste, Cl. parece iniciar sua exposição com um bálsamo (o reencontro e contato familiar) contra o sofrimento.

O afastamento possibilitando algo há tempos almejado, mas que o trabalho limitava. O pouco contato familiar e o adiamento dos projetos podem ser uma das formas de sofrimento associadas ao trabalho. Pela organização do trabalho, pelo caráter do vínculo empregatício a pessoa tem a “liberdade” cerceada. Ao mesmo tempo, o vínculo que “garante” estabilidade, a certeza de remuneração mensal é buscada.

2ª Foto

2ª Foto Figura 27 - Foto tirada na casa da Avó de Cl. no Paraná -

Figura 27 - Foto tirada na casa da Avó de Cl. no Paraná - a avó, o padrasto e o cunhado. Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Pesquisadora Quem são as pessoas nessa fotografia?

Cl. - 34 anos São minha avó, meu padrasto e meu cunhado. Minha avó mora

no Paraná, meu padrasto em Franca e meu cunhado também. Eu ia tirar uma foto só dela, mas

aí ela falou pra tirar de todo mundo, aí eu tirei da família. É na casa dela, uma casa toda de

madeira.

Pesquisadora Ela é uma pessoa simples?

Cl. - 34 anos É muito simples. Ela dorme no sofá, só dorme sentada. Mora

com um tio meu.

O prazer da avó que solicita companhia na fotografia e se mostra contente,

espelha a satisfação da neta. São momentos simples e especiais, como a casa de madeira que

acolhe sua avó.

3ª Foto

3ª Foto Figura 28 - Foto tirada na casa da Avó de Cl. no Paraná –

Figura 28 - Foto tirada na casa da Avó de Cl. no Paraná o esposo, a avó e uma vizinha da avó. Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Cl. - 34 anos Aí estão meu esposo, a minha avó de novo, e a vizinha que

ajuda a tomar conta dela. Ela se chama Maria.

Pesquisadora Seu esposo te acompanhou nessa viagem?

Cl. - 34 anos Acompanhou. Até as outras duas fotos foi ele quem tirou.

Pesquisadora Ele é chegado na sua família?

Cl. - 34 anos Sim, ele foi quem mais quis ir! Eu ia mais no final do ano, mas

aí ela ficou doente

não a vir, não adianta ficar chorando”. Aí nós fomos. A viagem foi uma loucura. O carro era

do meu cunhado e ele e meu marido revezaram na direção. Ficamos lá só dois dias e mais

quase dois na estrada. Na volta, minha mãe e meu padrasto vieram juntos. Você acredita, que

quando faltavam uns trezentos quilômetros o carro quebrou. Ficamos ainda a espera do

guincho umas boas horas! Mas, valeu a pena!

Aí ele falou “Vamos agora, porque depois, se acontecer o pior e você

Pesquisadora Ela, a sua avó, está lúcida?

Cl. - 34 anos Está.

Pesquisadora Ficou feliz?

Cl. - 34 anos Ficou super feliz. Justamente quando eu liguei pra minha mãe,

que estava lá, e falei “Mãe, a gente vai buscar a senhora, e ver minha avó!”. Ela disse

“Nossa, você não sabe o tanto que sua avó ficou feliz de saber que você vai vir!”. Porque ela

é minha avó e minha madrinha de batismo. Então a gente foi!

Pesquisadora Neste momento, o que significa para você a sua família?

Vocês têm tido mais contato do que antes?

Cl. - 34 anos Com o pessoal daqui sim, mas com os de lá só contato por

Ela veio ano

passado, ela era mais viajada. Mas o contato é mais ligar, mandar alguma cartinha. Ela gosta

de carta, também, adora.

telefone, ligo pra ela direto. Com ela doente, a gente acaba ligando mais

Há um reforço da importância da família. Marido e cunhado que não são

parentes consangüíneos colaboraram com a aproximação familiar. A viagem é longa, mas

vale a pena. Já a volta é mais dura, o carro quebra, é necessário um guincho. Podemos

interpretar como se o contato com a realidade fosse um peso, como veremos nas fotos que se

seguem.

4ª Foto

um peso, como veremos nas fotos que se seguem. 4ª Foto Figura 29 - Foto tirada

Figura 29 - Foto tirada na casa da Avó de Cl. no Para- na a avó, dois primos e um tio. Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Cl. - 34 anos Esta foto são os dois primos meus. Minha outra tia não quis

tirar foto, porque ela não gosta mesmo.

Pesquisadora São lá do Sul?

Cl.

- 34 anos São. A minha avó e o meu outro tio, que é filho dela. O mais

velho dos irmãos da minha mãe, que morava em Campinas. Eu não o conhecia, só por foto.

Ele não é muito certo não. Foi pra lá pra tomar conta da minha avó e morar com ela, mas ela

mesmo que acaba tomando conta dele, porque ele não está com a cabeça muito boa. Um ajuda

o outro. Moram só os dois. É essa vizinha que mora no fundo que dá uma atenção.

Pesquisadora Você disse que é muito apegada à sua mãe e à sua avó. Neste

momento da sua vida você acha que está precisando mais da sua família do que antes?

Cl. - 34 anos Eu acho, principalmente da minha mãe, que é com quem mais

eu converso, a que mais me aconselha.

Pesquisadora Você tem tido muitas coisas pra pedir conselho ultimamente?

Cl. - 34 anos Muito, muito, não, porque ela tem os problemas dela, então

pode ficar doente, preocupada. Porque tem coisas que você não pode falar pra ela, por causa

dos problemas dela. Mas ela não é uma pessoa boba, ela sabe às vezes o que está se passando.

Mas eu nunca chego nela e falo a realidade profunda que está acontecendo na minha vida,

porque não quero levar mais problemas pra ela.

Fica evidente o peso da realidade e das preocupações. Os problemas e

sofrimentos são acolhidos pela presença materna, mas o diálogo não é possível. Cl. parece

considerar sua vida sofrida e teme que seu sofrimento possa contagiar aos que ama.

5ª Foto

que seu sofrimento possa contagiar aos que ama. 5ª Foto Figura 30 - Local do acidente

Figura 30 - Local do acidente de Cl

Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Rodovia: rotatória no Tropical.

Figura 31 - Local do acidente de Cl Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Figura 31 - Local do acidente de Cl

Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Rodovia: rotatória no Tropical.

de Cl., março de 2008. Rodovia: rotatória no Tropical. Figura 32 - Local do acidente de

Figura 32 - Local do acidente de Cl

Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Rodovia: rotatória no Tropical.

Cl. - 34 anos Esse é o lugar que eu sofri o acidente, a rodovia rotatória ali

no Tropical.

Pesquisadora Há quanto tempo você sofreu o acidente?

Cl. - 34 anos Há um ano e quatro meses. Foi bem nesse local. Meu marido

entrou na contramão, e a gente bateu de frente aqui. Ocorreu de dia. Eu estava indo pro meu

trabalho. Já está foto é de noitinha, quando meu marido chegou do trabalho eu pedi para ele

me levar lá para fotografar.

Pesquisadora Vocês se machucaram?

Cl. - 34 anos Sim. Meu esposo machucou mais e eu menos. Só que o mais

grave foi o meu, deixou seqüelas complicadas. Pesquisadora Qual foi o principal problema físico desse acidente para

você?

Cl. - 34 anos A fratura que eu tive no braço foi muito grave, e eu estou

afastada até hoje por causa do braço.

Pesquisadora Foi o braço direito ou esquerdo?

Cl. - 34 anos O braço esquerdo.

Pesquisadora E você é canhota?

Cl. - 34 anos Sou canhota.

Pesquisadora Com esse problema no braço você precisou fazer cirurgia e ficar internada?

Cl. - 34 anos Eu precisei fazer duas cirurgias. Na primeira fiquei internada

uma semana e, na segunda, quatro dias.

Pesquisadora E é por esse motivo que você faz fisioterapia?

Cl. - 34 anos Sim, faço fisioterapia no braço.

Pesquisadora O que seu marido significa para você em relação ao acidente?

Cl. - 34 anos (Riso) No dia do acidente eu falei pra ele “Fernando, vai

devagar, você está correndo muito”. Ele sempre correu muito. Eu entrava às treze horas. A gente saiu de casa quinze minutos antes e ele teve que resolver outros problemas. Eu tinha

acabado de falar que a pressa é inimiga quando a gente virou a rua e sofreu o acidente. Pesquisadora Ele ficou sentido com esse acidente?

Cl. - 34 anos Ficou muito sentido. Ele sente remorso de eu ficar machucada

e ele não ter machucado mais, disse que podia ter sido ele. O meu machucado foi o mais

grave, mas quem machucou mais mesmo, foi ele.

Pesquisadora Mas ele não ficou com seqüela para o trabalho?

Cl. - 34 anos Não, não. Voltou a trabalhar logo.

Pesquisadora Com o que você trabalhava?

Cl. - 34 anos Eu trabalhava em fábrica de calçados.

Pesquisadora E para esse serviço é necessário habilidade manual?

Cl.

- 34 anos Habilidade manual e, principalmente, da mão esquerda, que é a

que eu usava pra tudo. Usava as duas, mas trinta e quatro anos usando mais a mão esquerda, tenho muita dificuldade com a mão direita. Pesquisadora Há quanto tempo você trabalhava lá?

Cl. - 34 anos Nessa fábrica fazia seis (6) anos. No total, já faz dezoito anos.

Pesquisadora Então seu marido, em relação a isso, não se omitiu. Ele tem

colaborado?

Cl. - 34 anos Tem colaborado. Ele tem muito remorso de ter me deixado

assim. Ele fala que podia ter sido com ele, mas as coisas não são do jeito que a gente quer.

Nesta foto surge uma outra dimensão da relação matrimonial. O marido generoso que a leva para visitar a avó, aparece também como alguém que não a escuta e que a leva a seqüelas dolorosas. Não é só o trabalho que fica em falta, mas todas as atividades cotidianas, uma vez que a mão esquerda era sua principal ferramenta. Interessante notar, que foram fotografados o local e o “responsável” pelo acidente, em sua moto, mesmo contexto anterior. Para Cl., este é um lugar que estará sempre associado às mudanças em sua vida.

6ª Foto

6ª Foto Figura 33 - Os dois filhos de Cl Fonte: Máquina de Cl., março de

Figura 33 - Os dois filhos de Cl Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

dois filhos de Cl Fonte: Máquina de Cl., março de 2008. Figura 34 - Os dois

Figura 34 - Os dois filhos e o marido de Cl Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Cl. - 34 anos Estes são os meus dois filhos.

Pesquisadora Qual a idade deles?

Cl. - 34 anos O Diego é o mais velho e tem quinze. E o Clivert é o mais

novo e tem nove.

Pesquisadora O que eles significam para você?

Cl. - 34 anos Eles significam tudo pra mim. Tudo, tudo. Quando eu sofri o

acidente ele me ajudou muito, o mais velho. Eu o ensinei a fazer muita coisa antes, e “futuramente” ele me ajudou muito. Arrumar casa, lavar louça, até fazer uma comida ele sabe.

Pesquisadora Você ficou com dificuldade pra fazer os serviços de casa? Cl. - 34 anos Fiquei. Até pra tomar banho eu tinha dificuldade, porque colocou aquele fixador externo no osso. Então, eu tinha muita dificuldade de fazer as coisas com uma mão só, principalmente no começo. Depois eu fui acostumando, fiquei três meses com esse fixador. Então eles sempre me ajudaram em tudo. O Clivert também sempre estava fazendo alguma coisa, lavando o banheiro. Pesquisadora Hoje em dia você passa muito tempo com seus filhos?

Cl. - 34 anos Agora que eu estou em casa, tenho mais tempo com eles. Antes

eu não tinha tanto tempo pra eles. Pesquisadora Você acha que é um lado bom ou ruim de não estar

trabalhando?

Cl. - 34 anos É um lado bom, porque eu estou perto deles. Só que eu adorava

trabalhar. Adoro. Morro de vontade de voltar. Quando eu puder vai ser uma boa, porque do

jeito que está não pode ficar.

Pesquisadora Você gosta de ficar na sua casa?

Cl. - 34 anos Adoro ficar em casa. Antes eu não tinha tanto tempo. Na sala,

mesmo, eu quase não ficava, porque chegava, tomava um banho e ia pro quarto. É uma casa

simples. Moro nela desde quando casei, há quinze anos. Pesquisadora Hoje em dia você passa mais tempo na sala se divertindo ou

trabalhando?

Cl. - 34 anos Vejo televisão, mais à noite mesmo. Às vezes eu fico ali perto

dos meninos quando eles estão no computador. Assim fico mais tempo com eles.

Também em outros momentos, no Grupo de Apoio, as dificuldades cotidianas

decorrentes do acidente, como cuidar de casa e os auto-cuidados foram abordados. A questão

de gênero, mulher e mãe, quem cuida da casa, dos filhos e marido (universo masculino)

parecem reforçar os sentimentos de inutilidade e pesar de Cl

A ambivalência trabalho x tempo para a casa e filhos é uma tônica. Por um

lado, a rotina do trabalho a afasta dos prazeres maternos e domésticos, por outro lado, o

trabalho faz falta, como se uma parte de sua identidade estivesse estreitamente ligada ao

exercício profissional. As limitações impostas aparecem, neste caso, evidenciando a

importância de uma prática educativa que rompeu com estereótipos de gênero, pois o filho

arruma é quem passa a arrumar a casa e a cozinha.

7ª Foto

arruma é quem passa a arrumar a casa e a cozinha. 7ª Foto Figura 35 -

Figura 35 - Mão esquerda acidentada de Cl. - parafu- sos retirados. Fonte: Máquina de Cl., março de 2008.

Cl.

- 34 anos Esta foto eu tirei da minha mão esquerda, que sofreu o

acidente. Mostra o pino que eu coloquei e o fixador. Eu tinha feito uma promessa, e no final do ano eu vou cumpri-la. Vou até Aparecida do Norte levar essas duas pecinhas e deixar lá. Pesquisadora O que você vai pedir em Aparecida do Norte?

Cl. - 34 anos Eu pedi pra eu ter saúde, pra Nossa Senhora, muita paz, e que

eu ia deixar esses aparelhinhos lá, que eu tirei do braço. Não quero ver nunca mais isso. Meu desejo era ficar boa. Pesquisadora Hoje em dia, quando você olha pra essas coisas, é ruim? O que você sente?

Cl. - 34 anos Eu quase não olho. Tirei isso da gaveta só pra tirar a foto,

porque eu não me sinto bem vendo esses negócios não. O dia que eu tirei essa foto até chorei.

Você tem que mostrar, porque foi através do acidente que eu

Mas foi uma coisa assim que

precisei usar isso aí. Pesquisadora Antes do acidente você tinha problemas de saúde nesse

sentido?

Cl. - 34 anos Nenhum problema de saúde.

Os pinos e o fixador são as evidências da perda da saúde. A fé e a religiosidade são instrumentos necessários para que tenha esperanças em sua recuperação. Por outro lado, o verbo utilizado no passado conota um certo desânimo em relação ao futuro. O futuro certo, dos 18 anos de trabalho, agora é incerto. Algumas seqüelas são permanentes, mesmo que se escondam suas provas no fundo da gaveta.

8ª Foto

8ª Foto Figura 36 - Amiga e Cl. – caminho do Centro de Reabilitação. Fonte: Máquina