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FLEXIBILIZAÇÃO E DESEMPREGO

realidade dos trabalhadores têxteis de Blumenau

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Vilma Margarete Simão(1) Com a divisão social do trabalho, a cooperação doméstica foi substituída pela produção social, que não mais garante a sobrevivência individual e muito menos a familiar. Nesta divisão, os capitalistas produzem, em espaços diferenciados, os diversos produtos obrigatórios à manutenção da vida, e esta será garantida àquele que tiver condições de consumir as mercadorias produzidas pela indústria. Os indivíduos não proprietários de meios de produção vendem a sua força de trabalho para que com o resultado do dispêndio da força física possam adquirir a renda necessária à compra de mercadorias indispensáveis à subsistência. Sintetizando, na lógica capitalista encontramos nas relações de mercado um mercado de capital, um mercado de consumo e um mercado de mão-de-obra e neles uma simbiose que supõe interdependência, provocando movimento do capital. Porém, neste mercado capitalista, a determinação do valor da mão-de-obra é mediatizada pela oferta e procura da mercadoria mão-de-obra, e outras mediações que fogem ao controle do trabalhador, resultando na ausência de garantia da sobrevivência. Com o avanço tecnológico e o novo modelo flexível de produção e acumulação o desemprego está com um índice mais acentuado da história do capitalismo, assim, nem mesmo a venda da força de trabalho é fonte possível de garantia de sobrevivência do indivíduo e da família, já que o valor da força de trabalho depende da demanda existente e quanto maior o exército de reserva menor o seu preço. Nos países de terceiro mundo, com a implantação do Estado neoliberal, sequer o acesso a políticas sociais é garantia mínima de sobrevivência biológica. Portanto, é ainda mais frágil a manutenção da sobrevivência do excluído do mercado

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Mestre em Serviço Social/PUC - São Paulo, Professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Regional de Blumenau. Este artigo contempla parcialmente os resultados da pesquisa "Desemprego e Alternativas de Trabalho", por nós coordenada e concluída em outubro de 1998. Foi objeto desta pesquisa a identificação das alternativas de trabalho encontradas pelos desempregados têxteis de Blumenau para enfrentar a crise do trabalho formal e manter a sobrevivência. O instrumento utilizado para coleta de dados foi a entrevista, aplicada a uma amostra de 3,13% de um universo de 9.004 desempregados no período de julho/95 a julho/96.

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de trabalho, ou seja, daquele que não possui emprego nem propriedade de bens que lhe permitam o trabalho autônomo e através deles adquirir renda. Neste final de século, “o desemprego, entendido não apenas como ausência de atividade e de relações assalariadas, mas como uma situação, um status social, transformou-se em indispensável elemento explicativo dos problemas e das tendências da transformação econômica e social” (CATTANI, 1996:40). Os problemas relacionados ao conteúdo do trabalho, na sociedade capitalista, foram constantes, contudo, na década de 90, o fenômeno se tornou mais visível, "(...) particularmente nos países europeus mais avançados que, juntamente com os Estados Unidos e o Japão, constituem o eixo propulsor e definidor da dinâmica da economia mundial" (Idem). A centralidade da questão desemprego é resultante do seu impacto sobre a composição social da população ativa e sobre as novas construções sociais. Na nossa sociedade, o trabalho continua a ser a experiência social central e neste sentido, pergunta-se: "(...) o que acontece com aqueles que são privados dessa experiência? Qual o impacto do desemprego em termos de desperdício de recursos humanos e de custos sociais? Ele provoca a desagregação de uma parcela da sociedade?" (CATTANI, 1996:42). E acrescentamos: qual a proteção que a sociedade oferece aos excluídos desta experiência social? O "equilíbrio" entre mercado de emprego e mercado consumidor foi garantido durante o modelo fordista (2) com a interferência do Estado keynesiano, instituição que garantia certa liberação do salário do trabalhador para o consumo e satisfação de necessidades pelas regras do mercado. Assim, o Estado estava participando na criação de mecanismos de reprodução da força de trabalho, e portanto, como estratégia de mediação das relações entre produção e reprodução. No entanto, o acesso às políticas sociais do Estado keynesiano não era universal, até mesmo porque o capital e concepções liberais sempre combateram “(...) a difusão, junto à população operária, da idéia
( 2( ) Entendemos aqui o fordismo como "...a forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se ao longo deste século, cujos elementos constitutivos básicos eram dados pela produção em massa, através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos; através do controle de tempos e movimentos pelo cronômetro fordista e produção em série taylorista; pela existência do trabalho parcelar e pela fragmentação das funções; pela separação entre elaboração e execução do processo de trabalho; pela existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas e pela constituição/consolidação do operário/massa, trabalhador coletivo fabril, entre outras dimensões..." (ANTUNES, 1995:17).

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Este modelo flexibiliza as formas de emprego da força de trabalho através das terceirizações ou pelas contratações temporárias. implicando na flexibilização dos direitos dos trabalhadores ou na precarização das relações de trabalho. Também as desregulamentações das relações de trabalho (mudanças nas formas de contrato. é desdobramento do projeto capitalista de enfrentamento a crise econômica. e a economia americana decretou a inconversabilidade do dólar em relação ao ouro. A justificativa do capital 3 .(. deste final de século. O desemprego. 1995:129). etc).. objetivando a manutenção do exército industrial de reserva. ocasionando o chamado desemprego estrutural. Tanto o Estado keynesiano como o modelo fordista entram em crise na década de 70.) A desvalorização do dólar. Aos excluídos da produção. estava previsto o acesso à assistência. assim.. 1995:53). teve como conseqüência um movimento especulativo conhecido como mercado das euromoedas. pessoas sem condições de prover sua subsistência e desempregados. foi redefinido o papel do Estado e implantado um novo modelo de acumulação.. e neste modelo a mão-de-obra direta vem perdendo seus postos de trabalho. "(. Essa vinculação pode ser identificada em três níveis: 1) na organização do mercado de trabalho. A principal base da flexibilização do processo produtivo é a automação. desestabilização da representação sindical.de que se podia obter certa renda sem trabalho” (CORIAT. aos incluídos na produção previa-se acesso à seguridade social e legislação social: "Neste sentido. ocorridas nos anos 90. provida pelo circuito financeiro privado. permitindo o início de um período de grande expansão financeira" (MOTA. ampliaram as margens de manobra dos empregadores para com os empregados.) Este foi o ponto de partida para a crise mundial do capitalismo. 1995:75). nos momentos de pico do mercado. as políticas de seguridade social vinculam-se fortemente às necessidades da grande indústria. 2) na reprodução ampliada e 3) na construção de pactos entre grande capital e os grandes sindicatos de trabalhadores. Começa então a organização do modelo toyotista ou flexível de produção. Neste período há uma crise da economia internacional marcada pelos déficits orçamentários. limites mínimos e máximos do tempo de trabalho. principalmente quanto a concessão de salários indiretos" (MOTA.. em alguns casos fim da estabilidade.

As economias avançadas viram renascer os 'bicos' e o subemprego no setor informal. basicamente. entre outras coisas. em média. Outra característica da informalização nas relações de trabalho é a ausência de carteira assinada: "no mercado de trabalho brasileiro. . segundo Cattani.é a necessidade de diminuição dos custos para tornar suas mercadorias competitivas no mercado globalizado. portanto. este "trabalho" não está acessível à todos.” (URANI.1996:48). Para os países do Terceiro Mundo. onde os trabalhadores já não contam com a proteção social típica do Estado keynesiano e a sua sobrevivência fica dependendo.. não-contratuais ou com contratos não formalizados nas instâncias jurídicas ou sindicais. Segundo o relatório preparatório ao Encontro Mundial sobre o Desenvolvimento Social. que foi realizado na Dinamarca. a competitividade tem se calcado mais no aumento da exploração da força de trabalho. era considerado como apanágio das situações de subdesenvolvimento" (CATTANI. Então 1/3 da população ativa do mundo. "(. a férias remuneradas. Associada a acumulação flexível tem-se Estado neoliberal. 1996:98).com capacidade e à procura de um emprego. Mas. as mudanças no mundo do trabalho têm colocado uma questão social emergente: o crescente número de desempregados. não encontrariam um a curto prazo (CATTANI. e menos no uso de tecnologia avançada. possuir um emprego com carteira assinada significava (e ainda significa). estimou-se. que eqüivaleriam a estar sem emprego. no ano de 1995. à previdência social e. que. através de acentuado arrocho salarial. da possibilidade de sustentar as suas necessidades biológicas e sociais através do que os ideólogos do neoliberalismo chamam de “trabalho”. para o ano de 1994. Conforme já mencionado. 1996:43). a uma remuneração mais elevada que a propiciada nos segmentos informais desse mercado. 820 milhões de pessoas desempregadas ou em situações de subemprego tão precárias e malremuneradas.) proliferaram o teletrabalho e inúmeras outras formas de trabalho autônomo que disfarçam relações de dependência com as empresas.. até recentemente. a uma jornada de trabalho fixa. como é o caso das atividades informais ou do trabalho informal externo ao mercado e. ter direito ao salário mínimo. Nem todas as formas de trabalho se encontram inseridas no mercado formal. Assim. chamado de Bureau Internacional do Trabalho. 4 .

56%.. não haveria razão de o Brasil ficar imune a ele.Essas mudanças no mundo do trabalho se diferenciam entre os países considerados de Primeiro Mundo e os países do Terceiro Mundo. 1. ou seja.). entre outros fatores ao crescimento da produtividade para o mesmo nível de produção. as questões sociais. Quando o volume de desempregados começou a crescer em proporções assustadoras.27% o que significou o fechamento de 21. Por outro lado.365 postos de 5 .725 vagas.. desemprego e situações de pobreza jamais foram considerados como algo decorrente do próprio funcionamento do sistema (Castel. eram considerados um resíduo. e 53.23% no mercado informal e em pequenas empresas familiares.1 milhões dos 74% de brasileiros economicamente ativos estavam sem conseguir vender sua força de trabalho. Em Santa Catarina. em 1996. ou crescimento de 0. um salto provisório e eliminável com o crescimento econômico." (CATTANI. Índices de Desemprego aberto No Brasil. especialmente na Europa (. E. Isto se deve. correspondente à desativação de 37. até agosto de 1996. com número de trabalhadores cada vez menor. Nada surtiu efeito. o nível de emprego durante o ano de 1995 acumula queda de 2. 46. segundo informações do Ministério do Trabalho. a lógica da seletividade é que cria e recria as desigualdades. a indústria têxtil e do vestuário foi responsável. na composição do mercado de trabalho brasileiro.95%. pela supressão de 1.92%. Obviamente em um país como o Brasil. Nesse caso. 1978:48): "No máximo. inúmeras políticas foram adotadas.77% da população economicamente ativa estava no mercado formal. Entretanto. segundo números do jornal O GLOBO de 17 de janeiro de 1997. De acordo com os dados do CAGED.920 postos de trabalho. é possível sustentar que a exclusão provocada pelo desemprego não é um fenômeno passageiro e sim o resultado de um processo permanente. No mês de dezembro de 1995.568 vagas. em Santa Catarina. 4. a taxa média do desemprego aberto é de 5. de julho/95 a dez/95 a variação acumulada no nível de emprego foi da ordem de 3. 1996: 51). que tem a economia calcada nos ditames capitalistas. mas é global a questão social de desemprego. enquanto que no ano anterior a economia catarinense possibilitou a expansão de 8.

(. esta realidade é ainda mais caótica.830 admissões e 416. esse foi o pior desempenho do emprego formal da economia catarinense nos últimos cinco anos. a cultura e tradição de cada sociedade. Isso representa a entrada de mais 36 mil pessoas no mercado de trabalho a cada ano.77%. tendo suscitado uma pluralidade de valores e. a População Econômica Ativa (PEA) cresce em torno de 1. segundo dados do Sistema Nacional de Emprego (SINE). resultado de 394.703 postos de trabalho.) O capitalismo destruiu os sistemas particularistas de satisfação de necessidades.. Em termos absolutos o pior desempenho de transformação. caiu 1. A queda no emprego industrial foi puxada pelas empresas têxteis (menos 3. compostas por um número pequeno.526 vagas). sendo determinada historicamente. a reprodução da força de trabalho (3) das populações empregadas e subempregadas historicamente esteve sempre ameaçada. a força de trabalho necessita satisfazer um mínimo de necessidades de subsistência que variam conforme o grau de civilização.937 vagas.350 vagas (-2.77% verificada no mercado de trabalho de Santa Catarina superou a média nacional. que é ( 3() "Para reproduzir-se. mostra que o emprego formal em Santa Catarina apresentou queda mais acentuada que a média dos municípios brasileiros ( -1. com o aumento da automação. no Estado.1996). 17 mil são vagas de emprego formal. 23/24 de fevereiro de 1997: 10A). Já o setor de serviços desativou 3. mais 1. Em 1996. o nível de emprego. Este resultado comparado com os dados a nível de país.1995:99/100). Anualmente. e o comércio.. com exceção do ano de 1991. tanto quem foi demitido quanto aquele que procura colocação pela primeira vez acabam tendo que sobreviver no mercado informal" (JORNAL DE SANTA CATARINA. significando o fechamento de 16 mil e 715 postos de trabalho. a expansão das carências.666 postos de trabalho) e a mecânica (fechamento de 1.75%) que em conjunto eliminaram 412. Para a realidade dos países de Terceiro Mundo. que eliminou 9. A retração de 1.8 mil postos de trabalho. conseqüentemente. "Entretanto. No Brasil. com a eliminação de 304. A análise dos dados da LEI 4923/65 mostra que.7%).trabalho.26% em 1996. Neste sentido podemos dizer que a satisfação das carências traduzem as condições de vida de uma determinada classe social e dada sociedade" (CARTAXO. 6 .195 desligamentos.148 postos de trabalho" (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados [Lei 4923/65SINE/SC .5% em Santa Catarina. e. Diante da impossibilidade de conseguir um emprego com carteira assinada. o nível de emprego caiu 1. A garantia de qualidade de vida sempre esteve mais disponível às classes de poder aquisitivo mais elevado.

o setor da indústria vem reduzindo o número de contratações e aumentando o número de demissões.resultante do nível de concentração de renda.15%). Blumenau também se inclui nesta totalidade. segundo dados do CAGED. inclusive. (-1.15%).7. no período de janeiro de 1996 a dezembro de 1996. Blumenau. nos três últimos anos. conseguiu manter produção a distribuição de renda num nível de satisfação razoável. Este índice é superior. a População Econômica Ativa (PEA) cresce em torno de 1..13%). e do país (-1. e. "Entretanto. Isso representa a entrada de mais 36 mil pessoas no mercado de trabalho a cada ano. o setor da indústria vem reduzindo o número de contratações e aumentando o número de demissões. Em Blumenau. inclusive. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados Lei 4923/65.06% na variação de emprego formal. Hoje. ao longo de sua história. a retração ou declínio no desenvolvimento econômico/social. já é grande o número de desempregados. no período de janeiro de 1996 a dezembro de 1996. 23/24 de fevereiro de 1997: 10A). começa a ser percebida. Anualmente. só no ano de 1997 (até outubro) 2. temos um saldo negativo de . o município apresentou um índice negativo de -5. No entanto.024 vagas de trabalho decorrentes de desligamentos não foram preenchidas com novas admissões. aos números do Estado. tanto quem foi demitido quanto aquele que procura colocação pela primeira vez acabam tendo que sobreviver no mercado informal" (JORNAL DE SANTA CATARINA. Este índice é superior.024 vagas de trabalho decorrentes de desligamentos não foram preenchidas com novas admissões. (-1. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados Lei 4923/65.06% na variação de emprego formal.688 e se apenas levarmos em conta os três últimos anos e meio (período que os empresários locais começam a demitir 7 . e. só no ano de 1997 (até outubro) 2.13%). e do país (-1. aos números do Estado. O desemprego em Blumenau vem crescendo nos últimos anos. 17 mil são vagas de emprego formal. se considerarmos o período de 1993 a julho de 1998.5% em Santa Catarina. nos três últimos anos. Diante da impossibilidade de conseguir um emprego com carteira assinada. o município apresentou um índice negativo de -5. na vida cotidiana. considerada a realidade brasileira.

Tabela 1 Movimento do Mercado de Emprego Formal __ Blumenau __ Ano Desligamentos Admissões 1993 29. Comérci Civil o Serviços Outros Total 1995 276 18.990 10.065 98.237 6. ocupava o maior percentual na 4() No movimento do mercado formal. a um salto negativo de 9.587(4). conforme tabela abaixo. nos anos de 1997 e 1998. colocando em questão teses defensoras do simples deslocamento do trabalhador da indústria para o setor de serviços.041 06/1998 20.558 36.250 2. 5. a indústria e.065 26. do maior número de demissões atingirem as mulheres também está presente no setor têxtil. No ano de 1995/1996.911 28. Saldo +1.553 referente sexo feminino.956 32.459 11/1997 38 11. Ainda em 1960.206 5.com a justificativa da competitividade) chegamos. em seguida.776 2.868 Total Fonte: Ministério do Trabalho (Lei 4923/65).978 1.643 1996 116 13. Tabela 2 Número de Desligamentos de Trabalhadores por setor da Economia na cidade de Blumenau Ano Agricult.250 5.233 19. 56. o setor comercial cresceu durante toda a sua formação econômica. na metade de 1998.167 434 11 10 39. Indústria Constr.558 30.38 das demissões atingiram as mulheres.726 Total Fonte: Ministério do Trabalho (Lei 4923/65).003 30.706 mulheres. segundo o CAGED. os serviços foram os maiores responsáveis pelo aumento do índice de demissões.688 Nos últimos três anos (1995 a 1997).911 26.742 1995 39. 8 .806 4.136 1994 31.113 + 786 2. temos um saldo negativo de 978 referente ao sexo masculino e 1.531 8. Esta tendência. 11.534 Na trajetória histórica de Blumenau.024 507 7.544 1.752 1996 30. ou seja.661 1997 28.

6 %. Mas.7 15. quando a indústria passa a absorver maior número de trabalhadores. quando os trabalhadores são demitidos estão com salários de R$ 450.00.27 >3 a <=5 SM 26. sem considerar ainda a extinção das políticas sociais nestas empresas. com salários inferiores.3% (IN SIMÃO. e se acentua em 1980.ocupação da população economicamente ativa. Este quadro se altera a partir de 1970.setor têxtil Esta é mais uma estratégia do capital para aumentar a taxa de lucratividade às custas da diminuição das condições da manutenção da sobrevivência individual e familiar.57 43. o setor terciário volta. embora com uma diferença de 3. 868 vagas de trabalho/emprego não foram preenchidas.15% estão sem nenhuma fonte de renda e uma queda 6. 9 . Conforme dados apresentados do CAGED (Cadastro Geral de Emprego e Desemprego).35% da renda do trabalhador. mas também este setor vem reduzindo o número de trabalhadores: só em 1996. mas.3% dos trabalhadores que percebem renda na faixa de <= 1 a <= 3 SM.15 <= 1 a <= 3 SM 49.96 Acima de 5 SM 9.64 Fonte: Pesquisa Desemprego e Alternativas de Trabalho . na última década.73 10. como acontecia nos anos 60. Tabela 3 Movimento Da Renda Dos Trabalhadores Têxteis Demitidos No Período De Junho De 1995 A Junho De 1996 SALÁRIO RENDA RENDA % E PERIODO 1995 -1996 1997 SEM RENDA 19. Este movimento poderia estar adequado ao modelo de produção flexível e provocando o aumento do setor de serviços. e é a prestação de serviços que mais contribui para o aumento deste setor. 19. a ser o primeiro na absorção da população economicamente ativa. com uma diferença de 11. O movimento no mercado de emprego formal mostra claramente que as empresas demitem e readmitem seus próprios trabalhadores. E segundo a pesquisa realizada junto aos desligados da indústria têxtil.65 e quando readmitidos é com salário de R$ 375. significando uma diminuição em 19. 1995).

Ainda segundo a fonte do CAGED. mas que procuram emprego ou trabalho. Entre a população ativa estão também aqueles que não vendem a sua força de trabalho. Indaial e Gaspar __ Ano Inicial Admitidos Demitidos Final Diferença 1995 30.199 -2.847 9.A indústria têxtil. no ano de 1997. no período de 1995 a 1997 foram 98. de 199. Em alguns países. pois são proprietários dos meios de produção. E segundo o Sindicato dos trabalhadores da Fiação e Tecelagem de Blumenau no período de 1995 a 1997. demitiu 34. 10.771 postos de trabalho não foram preenchidos. que define a rigidez ou a fluidez do mercado.391 -10.731 1996 27.116 -3.199 4.006 24.733 8. do sistema de seguridade social e da dinâmica econômica. não sendo computada a população jovem que nem mesmo foi um dia contratada. segundo dados do SINE.968 trabalhadores afastados do emprego formal. nos municípios de Gaspar. Por isso.587.587.534 trabalhadores desligados e somente 69.856 20. 1996:47).782 71. é pequeno para uma população economicamente ativa.080. Poderia ser dito que um saldo negativo de 9.162 19. variando de país para país em função de políticas educacionais. __ um saldo negativo 10 .116 5. aquela constituída pelo pessoal de mais de 50 anos. Porém.679. é necessário esclarecer que a taxa de população ativa é composta pela população em idade entre 15 e 64 anos. em 1997. mesmo que sua situação real não tenha mudado.771 Fonte: Sindicato dos Trabalhadores da Fiação e Tecelagem de Blumenau O desemprego aberto em Blumenau vem crescendo nos últimos três nos e meio. Dos dados estatísticos também estão excluídos aqueles desempregados que já passaram pelo mercado e para os quais são propostas atividades precárias. Tabela 4 Movimento do Emprego Formal no Setor Têxtil __ Blumenau.917 1997 24.189 12. chegando a um salto negativo de 9.647 trabalhadores e admitiu apenas 29.123 Total 82.089 8. Como resultado há um saldo de 4. Na outra ponta do mercado.920 27.446.076 -4. é importante esclarecer que este saldo negativo se refere apenas a força de trabalho dispensada.011 29. Blumenau e Indaial. são propostas vantagens para antecipar a aposentadoria. os desempregados com mais de 57 anos não são mais contados (In CATTANI. ou que estão há tanto tempo sem emprego que nem mais são integrantes de tais dados.979 admitidos de 9.

o índice acumulado. aumentando o trabalho temporário ou informal. No período de 1995-1996. não há uma certa 11 .1996: 103. com o objetivo de identificar o índice de desemprego. 97 . tal processo foi divulgado como se trabalhadores e empresas. nove mil e quatro (9004) trabalhadores têxteis tiveram rompido o seu vinculo de emprego. mas que não o fazem há muito tempo por não conseguirem emprego ou uma atividade autônoma. 1997: p. Considerando estes aspectos. Considerando tais conceitos. em "parceria".no 77). 28 . se refere ao desemprego aberto e não ao índice de desemprego total. O principal argumento do capital local. (TEIXEIRA & OLIVEIRA. Já para os adeptos do conceito de desemprego aberto. do total da população ativa. os serviços estatísticos.no 77). foi o da crise provocada pela oferta de produtos asiáticos no mercado consumidor. no trabalho temporário. então. se fazia necessária a diminuição do custo da mercadoria objetivando a competitividade.Resumidamente. Entretanto. apesar de procurarem emprego. descobrissem nas cooperativas de trabalho uma maneira de ganhar competitividade e driblar o desemprego. em que é considerado não só o desemprego aberto como também diversas formas de desemprego oculto. Com a contenção de despesas nas grandes indústrias "a informalidade se generalizou" (Revista EXPRESSÃO. em Blumenau. diferentemente do conceito de desemprego total. conforme artigo na Revista EXPRESSÃO (1997: p. nos últimos três anos em Blumenau é bastante significativo. como a procura por trabalho que se dá com a realização de trabalho precário e/ou sob outras condições que também caracterizam formas disfarçadas de desemprego. 2. até aquele momento. para tais desligamentos. não computam os que ainda não entraram no mercado de trabalho. os trabalhadores em atividades substancialmente precárias. eliminam aquelas pessoas que necessitariam trabalhar. são desempregados todos aqueles trabalhadores que estavam procurando trabalho e que não estavam realizando qualquer espécie de trabalho episódico. As empresas adotaram a mão-de-obra não registrada acelerando assim o processo da tercerização e. dominado pelas indústrias têxteis blumenauenses e.). o índice identificado. Flexibilização e precarização das relações de trabalho O modelo de acumulação e produção flexível também vem exigindo mãode-obra qualificada e reduzindo os direitos trabalhistas.

sendo continuamente requintado e aperfeiçoado. No entanto. a satisfação de necessidades no nível da reprodução física da força de trabalho. em outras palavras. e 4.99% estavam na condição de trabalhadores informais. é um processo incessante e interminável. de modo que sua pressão sobre os trabalhadores é incessante. Neste sentido.96% tornaram-se microempresários. estão sim encontrando alternativas de trabalho que se adequam ao modelo adotado pelo países de terceiro mundo. necessariamente. como instrumento do capital. 22% permaneceram desempregados. "A transformação da humanidade trabalhadora em uma 'força de trabalho'. No entanto. Assim. desenvolvendo um trabalho. demitidos no período de 1995-1996. comprar a força-de-trabalho e tê-la disponível por um período. flexibilização essencialmente nas relações de trabalho. no final deste século. o capitalista já não quer.38% voltaram à condição de assalariados. o modo capitalista de produção está sempre modificando as formas contratuais de compra da força-detrabalho. 10. Assim. entretanto. no entanto 15.continuidade e sobretudo uma certa regularidade na execução de tarefas. também conhecido como processo de precarização das relações de trabalho. a noção de trabalho retorna a sua concepção antiga. fala-se que estamos na era do fim do emprego e que é necessária a distinção entre emprego e trabalho. os extrabalhadores têxteis estão hoje distribuídos nas seguintes atividades: 56. sem trabalho e sem renda para subsidiar a sua sobrevivência pois com o novo modelo novas alternativas de trabalho estão surgindo. Todo trabalhador que mantêm um vínculo empregatício estaria. ou seja. mas sim quer comprar o resultado do trabalho da força que entra em ação e produz mercadoria. Pelos percentuais. em 'fator de produção'. é visível que o capital tem se aproveitado da falta de alternativa dos trabalhadores para a manutenção de uma renda mínima.” (BRAVERMAN 1974:124). Está claro que o desemprego ampliado serve como estratégia de “busca de adesão” dos trabalhadores aos processos de 12 . mas nem todo trabalhador sem vínculo empregatício estará necessariamente.25% não possuíam carteira assinada. Mas. ou seja. na medida que a produção não se restringe ao chão da fábrica. função econômica com fim de assegurar apenas subsistência biológica do homem. esta não a realidade de todos os trabalhadores têxteis. em tese. as alternativas de trabalho encontradas pelos desempregados não fogem da concepção de trabalho assalariado.

não se deve confundir a característica de flexibilidade externa ou informalidade. a taxa média de desemprego. são um parâmetro fundamental no desempenho da economia.” (NETO. atingindo uma média de 8. como um fenômeno desvinculado do desemprego. o prazo do contrato de trabalho e o índice de rotatividade no emprego. “(. A aproximação de realidades. a precarização das relações de trabalho. no livro Condição Pós-Moderna. ou seja. que se alastra sob a condição de informalidade. pelo seu bom padrão de vida. ao mesmo tempo em que cresce o desemprego. Alguns autores consideram que. segundo José Meneleu Neto. que marca historicamente nosso mercado de trabalho. os outros 75% encontram-se em atividades periféricas. apenas 25% da força de trabalho encontra-se no núcleo estável da economia.. aumento global dos índices de exclusão social. 1996:29). Sabe-se que o desemprego vem crescendo em todo o mundo. a taxa de desemprego no Brasil ainda é modesta. pelo menos duplicou nos últimos 15 anos. os cidadãos blumenauenses também sofrem as conseqüências dos ajustes econômicos: aumento do desemprego.. hoje. em comparação com os países industrializados.5% para o conjunto de 24 países que compõem a OCDE (NETO. Para David Harvey. Apesar de ao longo da história local Blumenau ter se destacado.trabalho flexíveis ou aceitação da redução dos salários. mas é decorrência dele. E com o aumento do Exército Industrial de Reserva (EIR) o valor da força de trabalho diminui cada vez mais. (CAMARGO. trabalhos precários ocasionais ou no desemprego. Ainda segundo José Meneleu Neto. 13 . A informalidade das relações de trabalho amortece os impactos sobre as taxas de desemprego aberto e oculta situações de desemprego. Tais considerações são possíveis pelo grau de flexibilidade do mercado de trabalho brasileiro: duração do desemprego. que havia ficado em torno de 4% nos anos setenta. o que era uma característica apenas dos países subdesenvolvidos vem se tornando uma realidade mundial. O grau de flexibilidade do mercado de trabalho e o grau de flexibilidade salarial. Ou seja. 1996:101). 1996:77). é o traço universal da globalização. como se vê. Contudo.) o resultado prático da visão liberal é a tentativa de reposição do exército industrial de reserva como variável de ajuste das relações salariais. baixos salários. Em outras palavras. vem se expandindo o trabalho precário. não é um fenômeno desvinculado do desemprego. nacionalmente. E.

37% dos trabalhadores têxteis. cumprem as obrigações de trabalhador assalariado e subalternizado sem nenhuma segurança social e legislativa. dentre os 56.93% estão trabalhando atualmente em facção (6). de controle de qualidade por todos os envolvidos e de menor custo para barateamento da mercadoria . sendo comum o serviço de costura.traz consequências aos trabalhadores.” (CAMARGO. E. entre elas. há aí um incentivo para que ambos deixem de cumprir a legislação e dividam essa diferença entre si. enquanto o custo para a firma é de 190% do salário nominal. possuem renda familiar. dos 56. segundo os próprios desempregados. A busca do empresariado de um processo produtivo mais enxuto.43% dos trabalhadores têxteis perderam seus ( 5() Quando um “(.13% voltaram a condição de assalariado com acesso a seguridade social. maior que quatro salários mínimos. somente 41.) trabalhador é admitido num emprego com contrato assinado. seu salário efetivo corresponde a 155% do salário nominal negociado. acompanha as nuances do capitalismo. como ainda ter um custo mais baixo de mão-deobra. diminuição do padrão de vida e aumento da pobreza. 14. a atividade de facção é entendida como prestação de serviço de uma indústria. Se antes a renda individual de 69. Se o contrato for assinado. Blumenau.não colocando em voga a diminuição da taxa de lucro .38% que voltaram a condição de assalariamento. São empresas que costuram para outras empresas do mesmo ramo. considerando os motivos das demissões.25% estão na condição de assalariados mas sem carteira assinada (5). Segundo dados coletados junto aos desempregados da indústria têxtil. demitidos no período de 19951996.. 14 . o empregador não só pode pagar um salário mais alto ao trabalhador. enquanto que 15. 1996:18). 28. hoje. Mas. aposentadoria próxima a um salário mínimo ao completar 65 anos de idade e também pelo acesso universal a assistência médica através do sistema único de saúde (SUS). pelo fato de ter garantido. ágil. Isso se o custo de burlar a lei for menor do que o custo de não firmar um contrato legal. podendo se caracterizar como terceirização ou como deslocamento da produção do locus da fábrica à atividades de subemprego. apenas 62. normalmente microempresas ou mesmo sem firma constituída. Com a estratégia de transferência do custo da produção para o trabalhador.45% dos desempregados retornaram para a grande indústria e os salários foram reduzidos. à outra indústria. Significando que a situação de trabalho atual dos desempregados das indústrias têxteis estão precarizando-se. em Blumenau 51. a partir da constituição de 1989.38% dos entrevistados que voltaram a condição de assalariamento. Neste sentido.. demitidos no período de 1995-1996. Como 35% do custo da mão-de-obra não revertem diretamente para o trabalhador ou para o empregador que firmaram o contrato. através de carteira assinada. a transformação da estrutura do mercado de trabalho.ou seja. qual a garantia que este trabalhador tem quando está temporariamente impossibilitado de trabalhar? Dependente da assistência social do município e de ações filantrópicas da sociedade? ( 6()Na região. O trabalhador é também falsamente estimulado a se beneficiar da renda proveniente da não-formalização da relação empregatícia.49% trabalhadores era de 2 a 4 salários mínimos.

já que.33% estão com atividades no setor de comércio. Entre os desempregados da indústria têxtil. 20.69% Anja Confecções. que leva ou não a contratação de serviços por outras indústrias. Neste sentido. 15.38% Cremer. 4.38% Hering. Na medida em que vai avançando a flexibilização da economia e com ela a indústria terceirizando suas atividades-meio. As empresas compradoras destes serviços são: 23. 33. Dos trabalhadores entrevistados que optaram por estabelecer uma indústria (setor da economia que somou 40. 1993:145). também. 15.. Por exemplo. 18." (HARVEY.00% são facções que produzem inteiramente uma mercadoria para outra indústria. terceirização.42% pela compra de máquinas.empregos por conta das novas formas de organizar o processo de produto: polivalência. 1.16% o setor foi terceirizado. 23. são as empresas que contratam serviços dos desempregados.00%).61% fechou a unidade.38% Teka e 7. 26.08% Sulfabril. 93. 8. "A transformação da estrutura de trabalho teve como paralelo mudanças de igual importância na organização industrial. Portanto.96% se tornaram proprietário do seu próprio negócio. 13. esta autonomia é relativa.09% redução do quadro.08% Artex.96% desaparecimento da função. No entanto. confirmando a tendência à terceirização e adequação ao modelo flexível de 15 ..67% no setor de serviços e 40% vieram a se transformar em industrial.33% são dependentes de outra indústria e prestam serviço na esfera da produção. a subcontratação organizada abre oportunidades para a formação de pequenos negócios. fim de estoques e automatização do processo produtivo. 15. 4. a terceirização juntamente com a prestação de serviços fazem do trabalhador assalariado um trabalhador autônomo. Com exceção desta última. trabalhador independente do vínculo empregatício.33% são facções que produzem parcialmente um produto para outra indústria. é dependente do grande capital e dominada por este e a possibilidade de manutenção da sobrevivência fica comprometida e subordinada ao movimento do mercado consumidor. através da flexibilização da economia. e destes. 3. Os motivos apresentados foram: 15.19% redução na produção da empresa. vai se ampliando o número de trabalhadores que montam suas empresas de prestação de serviços e passam a ter uma relação de "parceria" com o dono da indústria. na maioria das vezes. todas são consideradas grandes e tradicionais indústrias de Blumenau e são estas as empresas que demitem e.

67% são sociedades entre duas pessoas." (HARVEY. também podem ser considerados trabalhadores informais.. o fim do sindicato corporativo e a perda do papel histórico dos sujeitos políticos coletivos de classe de representar os interesses individuais dos trabalhadores coletivamente.00% são individuais e 6.. Como visto.acumulação de capital. O que se caracteriza como empresas essencialmente familiares. 1993:145/146). embora não suficiente. a consciência de classe já não deriva da clara relação de classe entre capital e trabalho. estes prestadores de serviços de forma autônoma individual ou mesmo familiar. o setor informal se desenvolve em função de uma forte concentração da força de trabalho nos centros urbanos e. na medida em que a ação coletiva se tornou mais difícil. ainda. a grande indústria que possui a maior concentração de trabalhadores num mesmo local .. uma das grandes vantagens do uso dessas formas de processo de trabalho e de produção é a de minar a organização da classe trabalhadora( ) "(. o individualismo exacerbado se encaixa no quadro geral como condição necessária.67% estão sede em local longe do ambiente doméstico. também pela exclusão do trabalhador assalariado em decorrência de novas formas de produzir e acumular. O que atualmente tem se modificado quando os capitalistas “lançam mão” destas modalidades.33% são familiares. em Blumenau. 40. na ordem do dia. da transição do fordismo para a acumulação flexível. para maior acúmulo de 7() Entretanto.96% dos demitidos) 53. hoje. Concretamente. Situa-se como um conjunto de atividades de produção e ou comercialização de bens e serviços não típicas das formas tradicionais da sociedade capitalista. não colocando. passando para um terreno muito mais confuso dos conflitos interfamiliares e das lutas pelo poder num sistema de parentesco ou semelhantes a um clã que contenha relações sociais hierarquicamente ordenadas.á fábrica -. Daí o surgimento de formas alternativas de geração de renda frente à questão do desemprego e dos baixos salários.. Vejamos ainda. que das empresas montadas pelos desempregados têxteis (alternativa de trabalho de 4. apenas 26.67% destes novos empresários estão com a sede da empresa plantada no terreno doméstico. Nelas. E 26. ainda é. das empresas montadas a maioria não possui empregados desenvolvem suas atividades no ambiente doméstico. ou seja. fora da formalidade. David Harvey (1993) que.) e a transformação da base 7 objetiva da luta de classes. ainda. flexibilizam e conciliam o formal com o informal. Historicamente. embora se inicie uma mudança na estrutura de trabalho. Diz. 16 . Segundo David Harvey.

33% dos trabalhadores informais em retornar à condição de empregado formal. Não gera sobre trabalho alienável para o para o capital. barateando bens e serviços para poderem viabilizar-se no mercado. Além disso.. portanto. 12.. taxista. É a situação dos desempregados têxteis.19% dos trabalhadores informais esta alternativa de trabalho já se 17 .32% é pelo acesso a benefícios.“ (CARVALHO. 10.) contêm o desemprego em massa e nelas circulam bens produzidos por empresas capitalistas. evidenciando-se situações de intensa exploração. A dinâmica do setor em foco. As ocupações no setor informal. desenhista. segundo Valéria Landin Carvalho. 1990:06). “(. pedreiro. Esta afirmativa não pode ser generalizada. 16. E além destas atividades apareceram: mecânico. pela justificativa de estabilidade financeira e para 26. jardineiro chegando a um percentual de 25.. uma forte presença de autônomos.13. rebaixam os custos de reprodução.21%.) situa-se nos limites mínimos de reprodução da força de trabalho. E a maior determinação para tal interesse é. de limpeza (diarista).97% desenvolvem a atividade de trabalhador autônomo e 29.13%. porque esses sub-remuneram o seu trabalho. baixa capacidade para a acumulação e expansão resultante da não ou pequena geração de excedente.90%.” (CARVALHO. assessor comercial.83%. Portanto. ao proporcionarem aos trabalhadores acesso a bens e serviços mais baratos que os produzidos por empresas capitalistas. O trabalho informal muitas vezes é considerado complementar de atividades transitórias.. são incertas. oscilantes nos rendimentos. 16. atenua as conseqüências da exclusão do mercado de trabalho formal. 1990:05).99% dos desempregados têxteis encontraram alternativa de trabalho a informalidade. viabilizando a mais-valia. Essa realidade contribui para a existência da necessidade em 63. Estas atividades são fundamentais para a reprodução da força de trabalho excluída do mercado formal de trabalho e do próprio capital. freqüentemente. “(. hoje trabalhadores autônomos (79. latoeiro. de baixa produtividade.capital. porque. no entanto há apropriação do trabalho dos informais autônomos. 79. Identificamos que para 74.97% do total de 10% da amostra) desenvolvedores de atividades de: costura. Como já mencionado. apenas ameniza a pobreza. no setor informal. Constata-se. mas não a elimina.03% atuam em negócio informal. para 84.

subterrânea. são consideradas um resíduo. mas. tornaram-se proprietários de meios de produção. informal. Entre os sujeitos pesquisados. o número de trabalhadores é cada vez menor. entre outros fatores. submersa. muito comum entre os entrevistados que optaram montar uma empresa como alternativa de trabalho. não oficial. Tipo Humano Flexível As características do modelo flexível de produção aumentam a possibilidade de ser ampliado o número de trabalhadores que são dispensados. um excedente da força de trabalho que não tem preço. etc. Conceituando trabalho informal é a “(. 1994:109). Apesar das questões sociais do desemprego e das situações de pobreza jamais serem consideradas como conseqüência do próprio funcionamento do sistema. além de se constatar a dedicação de um tempo cada vez maior de trabalhadores no setor informal. No máximo. (CATTANI. inúmeras políticas foram adotadas. Assim vai emergindo uma "nova pobreza". setores incluídos na chamada economia invisível.. alterando substancialmente o mercado de trabalho. a dois anos nestas atividades.) proliferação das pequenas ocupações autônomas e do trabalho informal. superior a 2% ao ano. repatriamento do imigrantes. por não possuírem a qualificação necessária ao novo tipo humano exigido. portanto parcelas da força de trabalho têm a atividade informal como a principal fonte de renda. em média. oculta.. não possuem condições de sobrevivência se atenderem à todas exigências da formalidade do Estado. especialmente na Europa: alongamento da escolaridade. proximamente. Isto se deve. 1996:51) 18 . 3. um saldo provisório e eliminável com o crescimento econômico.mantêm. aumentada a produtividade do trabalho para um mesmo nível de produção. Quando o volume de desempregados começou a crescer em provocações assustadoras.. paralela. ou seja. Nada surtiu efeito.. Ou seja. redução do tempo de trabalho.” (PINTO. há dois tipos de informalidade: a tradicional informalidade (ocupações em atividades paralelas a economia formal e consideradas sub-ocupações) e novas formas de informalidades que é o uso de contratação de trabalhadores sem carteira assinada e o não pagamento de impostos. ao crescimento da produtividade do trabalho que foi.

33. percebendo a fragmentação que provocava o modo de produzir fordista. perceberam que só sabiam montar uma parte do todo de uma roupa.A história não se repete. levou a diminuição dos postos de trabalho e a redução do custo com a força de trabalho. desenvolvendo por longo tempo movimentos estúpidos e repetitivos” (SIMIONATTO: 1995:84).86% dos entrevistados que tinham sua atividade na fábrica reconhecida como ofício. após demissão. o trabalhador tornado escravo das exigências das cadeias de montagem. O trabalhador desempregado. assim. Em comentários com pesquisadores. manifestavam frustração pela descoberta. Entretanto. Como resultante do modelo de produção fordista os trabalhadores já não se reconhecem como profissionais na atividade que desenvolviam na fábrica. 1995:17). Entre os 97. (ANTUNES. a qual se fragmenta em uma série de encargos temporalizados e repetitivos. elas tentaram desenvolver a atividade que estava como profissão em sua carteira. mas.. entre outras dimensões.) de processo de trabalho taylorizado que cria uma elite de trabalhadores destinada a dominar em toda a produção. foi pela existência do trabalho parcelar e pela fragmentação das funções. Gramsci discorre a respeito de tal modelo como sinônimo “(. trabalhador coletivo fabril. que o operário deve desenvolver com eficiência e precisão. No entanto. durante muitos anos ser costureira era seu orgulho e agora descobre que nem mesmo costureira um dia foi. O homem vai mudando e assim também a sua história. A forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se ao longo deste século. tal como Chaplin o expressou em Tempos Modernos de 1936. A imagem do trabalhador taylorizado é a do ‘gorila amestrado’. era simplesmente uma tarefa complementar do trabalho coletivo. pela separação entre elaboração e execução do processo de trabalho pela constituição/consolidação do operário/massa. adquirindo maior produtividade. a história da sociedade capitalista é sempre a mesma: maior produtividade com menor custo. Já no modelo taylorista-fordista de produção a introdução de máquinas mais complexas e aperfeiçoadas. enriquecimento de uns e empobrecimento de outros.94% eram costureiras. além dos já citados. começa a perceber que a atividade que desenvolvia na fábrica não era de um profissional.. 19 . nem mesmo como costureira podiam desenvolver um trabalho informal.

1980:382). mesmo que sendo o resultado do trabalho alheio ao trabalhador. de acordo com o novo tipo de trabalho. fica a pergunta: o homem que vende sua força-de-trabalho está preparado para as novas exigências do tipo humano toyotista? Se Gramsci fez indicações tão significativas acercada concepção integral do fordismo. na lógica da integração toyotista. O resultado do processo de trabalho corporificado no produto permanece alheio e estranho ao produtor. “O estranhamento próprio do toyotismo é aquele dado pelo 'envolvimento cooptado'... tratou-se de delinear um tipo humano necessário às exigências do modelo de produção. Neste sentido.. do “novo tipo humano”. a decisão do que e de como produzir não pertence aos trabalhadores. Aparência porque a concepção efetiva dos produtos. o toyotismo por certo aprofundou essa integralidade. Finalmente. expressa-se em um neopuritanismo que corresponde à exigência da luta sistemática contra o gasto de energias necessárias ao ato produtivo.Agora. entrar na fase do enriquecimento das tarefas. “(. bem como o planejamento do próprio trabalho.. 1995:34). É neste sentido que se desenvolve a luta contra o alcoolismo. e a luta pela ‘regulamentação e estabilização das relações sexuais’ expressa no objetivo ligado ao ‘reforço da família’. sob a aparência da eliminação efetiva do fosso existente entre elaboração e execução no processo de trabalho. A ideologia típica do fordismo. 1994:89). do controle de qualidade" (Gounet In ANTUNES. que possibilita ao capital apropriar-se do saber e do fazer do trabalho. A racionalização do modelo fordista “(. Este. ou seja um trabalhador totalmente centrado sobre o seu trabalho. (SIMIONATTO.) não por acaso.. desmotivante e embrutecedor. ultra-simples. e de processo produtivo” (GRAMSCI. Cada modelo de produção exige um tipo humano adequado. satisfação do consumidor..” (ANTUNES. para a produtividade. o modelo toyotista promete o desaparecimento do trabalho repetitivo.) determinou a necessidade de elaborar um novo tipo humano. em consonância com o “novo tipo de trabalho e de produção”. Porém. deve pensar e agir para o capital. Os altos salários não devem ser a base para um desvio. mas para um direcionamento do comportamento dentro dos esquemas que a classe dominante se esforça para tornar modelos para a prática. Em ressumo: um trabalhador alienado do processo e do resultado da produção e servil as determinações dos planejadores do 20 . 1995:29).

condicionado a ter o mínimo de contato com seu companheiro. “Neste sentido. a cobrança é camuflada. mais criativo. “O trabalhador das linhas de produção individualizadas. cedem lugar aos trabalhadores abertos a mudanças. “O trabalho passa a ser realizado em equipe. As unidades de produção se descentralizam e as decisões por e no local de trabalhos se democratizam. controlar toda a produção. e sim se integra a família empresa para colaborar com seu crescimento. se relacionar com seu companheiro de trabalho. Estes novo tipo de trabalhador realiza várias tarefas e supervisiona várias máquinas. devendo realizar suas tarefas sem questioná-las pois era pago para fazer e não para pensar e muito menos para conversar e se relacionar com o companheiro de trabalho. participando e sugerindo para melhorar a qualidade e a produtividade. o controle que anteriormente era realizado por um único indivíduo passa ser coletivo. urge um novo tipo humano. 1995:26). com novos modelos de gestão da força de trabalho. voltada para a participação e o envolvimento do funcionário que não mais vende sua força de trabalho. Portanto. todos respondem pelo trabalho realizado. dos trabalhos repetitivos. uma nova cultura organizacional. inteligente. o trabalhador já não transforma 21 . cooperador. este modelo exige que os trabalhadores possam cobrar um do outro a produção. como círculos de controle de qualidade (CCQs) e gestão participativa. No toyotismo. um novo modelo de produção chamado toyotista. submisso à hierarquia. dinâmico. o papel do encarregado ou da chefia são substituídos pelos líderes. Assim. Agora. rompendo-se com o caráter parcelar típico do fordismo” (ANTUNES. participante de equipes de trabalho. originário no Japão por volta de 1950. onde as empresas devem estar reestruturadas com uma nova postura. Sob o slogan da qualidade total. polivalentes ou multifuncionais. pensar o processo produtivo. com comportamento linear. a responsabilidade é do grupo. O trabalho de um indivíduo é cobrado por todos e todos cobram resultados de produtividade. iniciam-se novas relações de trabalho e de acúmulo de capital. não existe mais a chefia que detêm o poder e dita as normas.processo produtivo. É pago para pensar e fazer. Finalmente o trabalhador deve conversar. 1998:18). o próprios colegas são cobradores de eficiência e agilidade.” (ANACLETO. baseia-se a nova lógica de mercado. sucumbi o trabalhador que realizava apenas uma determinada tarefa.

dando lugar a profissões totalmente novas. nos termos de Ricardo Antunes. Neste caminho o assalariado consegue manter o seu vínculo empregatício. 51. mostrando que não estamos mais na época de “tempos e movimentos” de Charles Chaplin. Presenciamos uma intelectualização de uma parcela da classe trabalhadora e a desqualificação de outra parcela. procuram se adaptar e evitar a total exclusão social. Vários campos de trabalho são destituídos. Neste sentido. responsabilidade e habilidade. exigindo trabalhadores com maiores conhecimentos. Se os motivos das demissões. E entre os demitidos (de julho/95 a julho/96) da indústria têxtil local. precarização das relações de trabalho. criando um ambiente de total incerteza à classe trabalhadora que vive do trabalho. monótono. associam trabalho informal com flexibilização das relações de trabalho e. sem uma maior conhecimento do trabalhador sobre o trabalho que iria realizar.objetos materiais diretamente. Um “tipo humano flexível”. rompendo-se com o modelo de operário industrial tradicional. Os novos requisitos se distanciam do operário-padrão dos anos 70. se adequam ao modelo hoje em voga no mundo do trabalho. Nesta primeira aproximação da realidade dos trabalhadores têxteis desempregados e suas alternativas de trabalho para enfrentar a crise e manter a sobrevivência. portanto. que era repetitivo. conseqüentemente. 1995:51). 22 . mas supervisiona o processo produtivo em máquinas computadorizadas. programa-as e repara os rôbos em caso de necessidade. A escolaridade mínima é uma das primeiras exigências das empresas. criador de alternativas de aumento da produtividade e com cultura suficiente para entender a interdependência entre ambiente de trabalho “solidário” e produção em células. não é possível concordar com a justificativa do capital local para tais desligamentos: crise no mercado consumidor. dispensando criatividade. ou do método fordismo/taylorismo. aberto à mudanças.06% não chegaram a concluir nem mesmo o 1o grau. de máquinas mais sofisticadas. várias funções deixam de existir. A alegação das empresas que colocam a escolaridade como primeira exigência é decorrente do salto tecnológico.” (ANTUNES. exigência mínima para manutenção do emprego. podemos simplesmente dizer que os trabalhadores estão subalternizados as exigências do capital e. apontadas pelos entrevistados.

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