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Revista Brasileira de Geociências

Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim

37(4 - suplemento): 92-110, dezembro de 2007

A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu, extremo sul da Chapada Diamantina (BA)
Simone Cerqueira Pereira Cruz1 & Fernando Flecha Alkmim1
O Aulacógeno do Paramirim, localizado na porção nordeste do Cráton do São Francisco, é um rifte parcialmente invertido e representa o sítio deposicional das duas maiores unidades de cobertura, os supergrupos Espinhaço e São Francisco, de idades paleo/mesoproterozóica e neoproterozóica, respectivamente. A inversão do aulacógeno resultou em um sistema de falhas e dobras com trend NNW-SSE que domina o cenário estrutural regional. A idade da inversão e seu mecanismo vêm persistindo ao longo dos anos como matéria de debate na literatura geológica brasileira. Localizada no extremo sul do Aulacógeno, a sinclinal de Ituaçu é uma depressão sinformal que pertence ao conjunto de estruturas de inversão dominantes. Repousando sobre o embasamento, a sinclinal de Ituaçu envolve todas as unidades sedimentares proterozóicas de preenchimento do aulacógeno. Por causa disso, a sinclinal de Ituaçu pode ser vista como uma miniatura do Aulacógeno do Paramirim, representando um laboratório natural para a análise das estruturas de inversão e teste de hipóteses relativas à sua evolução tectônica. A investigação estrutural detalhada baseada em dados de campo permitiu documentar duas famílias de estruturas relacionadas com essa inversão. A família mais antiga, Da, marca o descolamento entre a cobertura e o substrato cristalino, sendo constituída por falhas e dobras que mostram uma orientação geral segundo WSWENE e vergência dirigida para NNE. A família mais jovem, Dp, compreende um rico e diversificado acervo de estruturas com trend NNW-SSE, vergência para ENE. Está representado por falhas e dobras que estruturam a sinclinal e que foram desenvolvidas inicialmente acima e no limite entre o substrato cristalino e a cobertura, seguido por envolvimento do embasamento na deformação. Ambas as famílias de estruturas afetam os carbonatos da Formação Salitre, a mais jovem unidade de preenchimento do aulacógeno, indicando assim uma idade máxima neoproterozóica para a inversão da porção sul do Aulacógeno do Paramirim. As estruturas Da foram interpretadas como uma conseqüência da migração do front de deformação brasiliana para norte, em direção ao aulacógeno, da mesma forma como documentada em muitas outras áreas próximas à borda sudeste do Cráton do São Francisco. As estruturas Dp refletem o fechamento frontal do aulacógeno, em função a um encurtamento geral WSW-ENE, que foi provavelmente induzida pelas colisões durante a colagem Brasiliana-Panafricana. Palavras-chave: sinclinal, Cráton do São Francisco, Chapada Diamantina, Neoproterozóico, evento brasiliano.

Resumo

a partially inverted rift, which represents the depositional site of two major craton cover units, the Espinhaço and São Francisco Supergroups of paleo/mesoproterozoic and neoproterozoic ages, respectively. Inversion of the aulacogen resulted in a system of NNW-SSE-trending faults and folds that dominates its structural picture. The age of inversion and its driving mechanism persist over the years as matter of debate in the Brazilian geological literature. Located in the southern end of the aulacogen, the Ituaçu syncline is a synformal depression that belongs to set of the dominant inversion structures. Besides basement, the Ituaçu syncline involves all Proterozoic sedimentary units in very good exposure conditions. Because of that, the Ituaçu syncline can be viewed as a miniature of the Paramirim aulacogen, thereby representing a natural laboratory for both analysis of inversion structures and test of hypothesis concerning its tectonic evolution. A detailed and field based structural investigation performed in the syncline area allows us to document two distinct families of inversion structures. The older family, Da, consists of a system of thin-skinned faults and folds, which shows a general WNW-ESE orientation and a systematic NNE-directed vergence. The younger family, Dp, comprises a very rich and diverse set of NNW-SSE-trending and ENE-verging fabric elements, associated with thin-skinned and basement-involved faults and folds, among them the Ituaçu syncline as a whole. Both families of structures affect the carbonates of the Salitre Formation, the youngest among the aulacogen fill units, indicting thus a maximum late Neoproterozoic age for the inversion of the southern Paramirim aulacogen. We interpret the Da structures as a consequence of the migration of Brasiliano deformation front further north, into the aulacogen trough, in the same way as document in many other areas close to São Francisco craton boundaries. The Dp structures clearly reflect the frontal closure of the aulacogen, due to an overall WSW-ENE oriented compression, which was probably induced by the collisions the São Francisco craton became involved during the Brasiliano-PanAfrican tectonic collage. Keywords: syncline, São Francisco craton, Chapada Diamantina, Neoproterozoic, brasiliano event.
1 - Departamento de Geologia, Escola de Minas, Universidade Federal de Ouro Preto, Morro do Cruzeiro, Ouro Preto (MG), Brasil. E-mails: simoneufbag@mail.com, alkmim@degeo.ufop.br

Abstract The Ituaçu Syncline, Extreme-South of the Chapada Diamantina (Bahia) and the Inversion of the Paramirim Aulacogen. The Paramirim aulacogen located in the northern São Francisco craton is

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exposta no estado da Bahia. Corresponde. É intrudido por um grande número de diques e sills máficos. Turpin et al. bem como associaRevista Brasileira de Geociências. conseqüentemente.1999). 1992). em grande parte. Martin et al. ao Aulacógeno do Espinhaço. Uma correlação estratigráfica entre as rochas do Supergrupo São Francisco na serra do Espinhaço Setentrional e na Chapada Diamantina é mostrada na figura 2. dentre elas o Aulacógeno do Paramirim. que ocorre na Chapada Diamantina e na serra do Espinhaço Setentrional (Barbosa & Dominguez 1996. 1994). Cruz 2004). no máximo. com constante agitação de ondas ou em planície de maré (Formação Salitre) (Leão et al. de idade préSupergrupo São Francisco (Babinski et al. os supergrupos Espinhaço e São Francisco. o Aulacógeno do Paramirim envolve o embasamento e as duas grandes unidades proterozóicas da cobertura cratônica. os quais foram. 1992. dessa forma. Todo o conjunto de rochas graníticas. Danderfer Fo 2000) (Fig. O Supergrupo São Francisco. 1994). Esses sedimentos são recobertos por rochas carbonáticas. Macedo & Bonhomme (1984) encontraram idade Rb/Sr em torno de 960 Ma. condições de fácies xisto verde. Cruz et al. deformados e gnaissificados (Costa et al. forneceram idades em torno de 958 ± 38 e 900 Ma (Macedo & Bonhomme 1984). Para a Formação Salitre. Nessa sinclinal encontram-se elementos tectônicos relativos a todas as fases de deformação registradas na porção sul do Aulacógeno do Paramirim. A Sinclinal de Ituaçu constitui. intercaladas com pelitos. do Grupo Paraguaçu (Supergrupo Espinhaço) e do Grupo Una (Supergrupo São Francisco) (Fig. que ocupa grande parte da sua porção setentrional. O cráton hospeda uma série de feições tectônicas regionais. caracterizado por Moutinho da Costa & Inda (1982).000 e na confecção de transecções de detalhe. arenitos argilosos e arenitos finos formados sobre influência glaciogênica (Formação Bebedouro) (Guimarães 1996. Toulkeridis et al. Em função disso. 1991.suplemento). a uma plataforma antiga que se encontra bordejada por faixas orogênicas cujas vergências são dirigidas para o seu interior. albitizados. devido à qualidade das exposições. Representa uma grande feição morfoestrutural da porção norte do Cráton do São Francisco que engloba a serra do Espinhaço Setentrional. Na porção norte do cráton. 1985. A primeira está representada por um conjunto de zonas de 93 . in totum. CONTexTO RegIONAl Segundo Almeida (1977). para a formulação de um modelo para sua evolução. os dados Rb/Sr em argilas autigênicas dos carbonatos apontam idades de deposição entre 750-850 Ma (Macedo & Bonhomme 1984. uma miniatura do cenário tectônico da porção sul do Aulacógeno do Paramirim e. ardósias laminadas. Bento 2001).Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim INTRODUÇÃO O Aulacógeno do Paramirim (Pedrosa-Soares et al. 1998. dessa forma. na Chapada Diamantina. o Cráton do São Francisco é uma das diversas porções do continente sulamericano que foram poupadas das orogenias Brasilianas que tiveram lugar no Neoproterozóico. ordenados de acordo com as sucessivas fases de deformação em que foram nucleados que. Santos-Pinto 1996. 1987. que grada para condições plataformais. Cordani et al. os vales do Paramirim e do São Francisco e a Chapada Diamantina. todos depositados em ambiente marinho raso. compõem uma história evolutiva da etapa de inversão da porção sul do Aulacógeno do Paramirim. volume 37 (4 . muito importante. que foi atribuída à sua diagênese. guardando entre si relações notáveis de corte e superposição e. Datações realizadas pelo método Rb/Sr e K/Ar em argilas da Formação Bebedouro. Os trabalhos realizados nessa porção do aulacógeno demonstram a existência de três fases principais de deformação. Nos sedimentos da Formação Caboclo. do Complexo Lagoa Real. Cruz & Alkmim 2002. os carbonatos da Formação Salitre. baseado na cartografia na escala 1:100.8 Ga. um estudo estrutural. O seu metamorfismo atinge. 2007 ções supracrustais dessas mesmas idades (Brito-Neves et al. Marinho 1991. Supergrupos Espinhaço e São Francisco encontram-se estruturadas segundo um cinturão de cavalgamentos e dobramentos vergentes para leste com envolvimento do embasamento na deformação da cobertura (Danderfer Fo 1990. 2). afetando as rochas mais jovens do preenchimento do aulacógeno. Complexo Lagoa Real. Bastos-Leal 1998). 1988. Babinski et al. 1994. posteriormente. por sua vez. (1985). compreende um conjunto de rochas terrígenas e carbonáticas depositadas em ambiente marinho com influência glaciogênica. essas rochas encontram-se intrudidas por granitóides de 1. Dominguez 1996). A idade para o magmatismo ácido a intermediário da porção basal foi definida em 1. 1980. 1993). que compreende rochas gnáissicas e migmatíticas de idades arquena e paleoproterozóica. A Sinclinal de Ituaçu é uma das estruturas dominantes do extremo sudoeste da Chapada Diamantina e envolve rochas do embasamento. Na base ocorrem diamictitos. No presente artigo descrevem-se os componentes do arcabouço estrutural da Sinclinal de Ituaçu. as rochas do embasamento. gnáissicas e albitíticas intrusivas no embasamento foram agrupadas no Complexo Lagoa Real por Costa et al. Possui como unidades características os Supergrupos Espinhaço e São Francisco e corresponde a um par de riftes paleo/meso e neoproterozóico superpostos e parcialmente invertidos que envolvem essas duas unidades estratigráficas maiores (Schobbenhaus 1996). Misi & Veizer 1996. De acordo com a definição anteriormente apresentada.748 ±1 Ma (Babinski et al. com contribuições de vulcânicas ácidas a intermediárias na base. representa um excelente laboratório natural para a caracterização dos elementos do seu arcabouço e. 2001) corresponde. 1985. 1). Cordani et al. foi levado a efeito na região da sinclinal e áreas imediatamente adjacentes. Consideram-se como embasamento do Cráton do São Francisco as unidades mais antigas que 1. O Supergrupo Espinhaço engloba uma sucessão de sedimentos essencialmente terrígenos.75 Ga (Maruèjol et al. Na porção ocidental da Chapada Diamantina. Pimentel et al. Lobato & Fyfe 1990.

acima do paralelo 12o 30’ S. Mapa confeccionado a partir de Schobbenhaus et al. BJ: Bloco Jequié. ZCBC: Zona de cisalhamento Brumado-Caetité. (1981) e Barbosa & Dominguez (1996). O quadro representa a localização da Figura 4. a cobertura repousa subhorizontalmente sobre o embasamento. De uma maneira geral. A segunda fase está representada por um conjunto de falhas e dobras segundo NNW/SSE. 2007 . FRP: Faixa Rio Preto. SI: Sinclinal de Ituaçu. AAJ: Anticlinal de Abaíra-Jussiape. ES: Espinhaço Setentrional. Danderfer Fo 1990. volume 37 (4 . extremo sul da Chapada Diamantina (BA) Figura 1 . SRP: Saliência do Rio Pardo (Faixa Araçuaí). na Chapada 94 Diamantina Ocidental as estruturas deformacionais experimentam um aumento da deformação em direção ao sul (Moutinho da Costa & Inda 1982. as rochas sedimentares do Supergrupo Espinhaço seriam progressivamente mais deformadas e inversões estratigráficas seriam encontradas. Cruz & Alkmim 2006). Danderfer Fo 1990. com vergência para leste (Moutinho da Costa & Inda 1982. SG.suplemento). BG: Bloco Gavião. Essas estruturas são penetrativas a sul do paralelo de 14º 00’S (Cruz & Alkmim 2006). Revista Brasileira de Geociências.A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu. De acordo com aqueles autores. cisalhamento e dobras orientadas segundo E-W. CD: Chapada Diamantina.Serra Geral. Cruz & Alkmim 2006). Em direção ao sul. Essas estruturas são penetrativas regionalmente. ambos vergentes para norte. A intensidade de deformação e metamorfismo associada a essa fase diminuiriam para leste. em direção à Chapada Diamantina Oriental.Localização da Sinclinal de Ituaçu na porção sul do Aulacógeno Paramirim.

pode ser citado o modelo verticalista de Jardim-de-Sá et al. Posteriormente. como resposta de uma anomalia térmica no manto. Pedreira (1994) identificou cinco ciclos de embaciamento entre o Meso e o Neoproterozóico e propôs que a sedimentação 95 . na Sinclinal de Irecê (Lagoeiro 1990). (1976). em ambiente intraplaca continental. volume 37 (4 . durante o Meso e Neoproterozóico. confecionada a partir de Danderfer Fo (2000). acompanhados ou seguidos de deformação. Diversos são os modelos aventados para explicar a inversão do Aulacógeno do Paramirim e as principais controvérsias são a cerca da idade dessa inversão e do mecanismo focal que a teria gerado. Nesse contexto.suplemento). em que a instalação da bacia em questão estaria associada com o desenvolvimento de um domo termal-junção tríplice. 1996) propuseram que o aulacógeno em questão tenha se desenvolvido a partir de duas tafrogêneses superpostas. no Mesoproterozóico. 2007 geno do Espinhaço seria marcada por uma alternância entre períodos de soerguimento e subsidência. e que a sua inversão teria ocorrido no Neoproterozóico. Por outro lado. em seus trabalhos na porção oriental da Chapada Diamantina.Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim Figura 2 . Schobbenhaus (1993. A terceira fase corresponde a um conjunto de estruturas com vergência para sul e que são encontradas no extremo norte da Chapada Diamantina. seguidas de fases de subsidência flexural. Moutinho da Costa & Inda (1982) propuseram que a evolução do AulacóRevista Brasileira de Geociências. Em um cenário de discussão sobre a existência ou não do chamando Ciclo Espinhaço. aulacógeno-rifte. metamorfismo e erosão de unidades já depositadas.Coluna Estratigráfica para os supergrupos Espinhaço e São Francisco no Aulacógeno do Paramirim.

Ao norte desse paralelo. A deposição das unidades do Grupo Chapada Diamantina teria ocorrido em bacia de antepaís associada com as colisões que estruturam o cinturão Contendas Mirante-Jacobina. por sua vez. A movimentação em direção ao norte do Bloco do Paramirim daria origem a movimentos sinistrais a reversos sinistrais ao longo do Espinhaço Setentrional e destrais a reversos destrais ao longo da borda da Chapada Diamantina. 2007 . ritmitos finamente laminados e ardósias. A fase seguinte nucleia estruturas NNW/ SSE e marca a inversão frontal do Aulacógeno. que teriam tido lugar em um intervalo de duração superior a 900 Ma. que é reproduzida na figura 3. Trompette et al. estando associada com a formação de uma margem passiva. Adota-se. O Supergrupo São Francisco está representado na porção central da Sinclinal de Ituaçu pelas formações Bebedouro e Salitre. somam oito pulsos de formação de bacia.A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu. PRINCIPAIs TRAÇOs DA geOlOgIA DA sINClINAl De ITUAÇU A Sinclinal de Ituaçu é uma sinforme aberta. ARCABOUÇO esTRUTURAl DA sINClINAl De ITUAÇU Delineado pelos contatos entre as grandes unidades envolvidas e pela superfície de acamamento das mesmas. No segmento sul. Dela participam o embasamento. argilitos carbonáticos. da cidade de Boquira (BA) até o limite Bahia-Minas Gerais. num processo semelhante ao previsto na formação de oroclines. calcarenitos. dolomitos. A deposição dessas rochas se deu em rampa instalada sobre uma topografia com baixo declive. a Sinclinal de Ituaçu (Figs. que juntos. postularam que a inversão da porção sul do Aulacógeno teria sido desencadeada pela indentação do bloco do embasamento adjacente à faixa Araçuaí. A fase Da é caracterizada pelo desenvolvimento de zonas de cisalhamento. com comprimento de onda de. as rochas do Complexo Lagoa Real e as rochas metassedimentares dos supergrupos Espinhaço e São Francisco. Recentemente. aproximadamente. Por meio de correlações regionais. Tendo em vista que a base geológica utilizada para a realização do mapeamento estrutural na Sinclinal de Ituaçu foi o mapa produzido por Menezes Fo (1996). aqui designadas Da e Dp. Na Sinclinal de Ituaçu foram reconhecidas duas famílias de estruturas compressionais. A inversão do Aulacógeno do Paramirim se deu por intermédio da nucleação de zonas de cisalhamento que mostram uma história de sucessivas reativações. (1992) e Trompette (1994) caracterizaram uma Faixa Brasiliana do ParamirimQuadrilátero Ferrífero que seria gerada por deformação intracontinental decorrente do fechamento de um rifte intracratônico. Somente ao sul do paralelo de 12º45’S é que o embasamento estaria envolvido na deformação da cobertura. que se estende desde a região próxima ao limite entre os estados da Bahia e do Piauí até as proximidades da cidade de Boquira (BA). que sugerem deposição por fluxo de detritos em plataforma marinha rasa sob influência glacial (Guimarães 1996). 4 e 5) apresenta-se como uma dobra regional com duplo caimento. com foliação milonítica Revista Brasileira de Geociências. esse autor utilizou denominações informais para agrupar as unidades que compõem o Supergrupo Espinhaço na Sinclinal de Ituaçu. a partir de colisões na borda do Cráton do São Francisco. Danderfer Fo (2000) propôs um modelo de evolução para os supergrupos Espinhaço e São Francisco na região da Chapada Diamantina e do Espinhaço Setentrional. as unidades sedimentares estariam em sua posição original. herdado de uma plataforma siliciclástica antecedente (Leão et al. levando Alkmim (2004) a incluir essa região no domínio da Faixa Araçuaí-Oeste Congo. a subdivisão estratigráfica proposta por esse autor. cujo mecanismo focal localiza-se na Faixa Brasília. com orientação WSW-ENE. 1992. no Complexo Lagoa Real e nas rochas metassedimentares dos supergrupos Espinhaço e São Francisco. Esse autor reconhece um único evento deformacional absorvido igualmente pelas rochas Espinhaço e São Francisco na região da Chapada Diamantina e no Espinhaço Setentrional. O segmento norte. assim. Essa faixa separaria os crátons de Salvador e Paramirim. as estruturas distensionais da formação desse aulacógeno são progressivamente invertidas. como unidades de cobertura discriminam-se. Segundo Menezes Fo (1996). uma série de unidades litoestratigráficas cujo conteúdo não encontra correspondência integral com as unidades tradicionalmente atribuídas ao Supergrupo Espinhaço na região norte do paralelo 13º 00’ S e que estão listadas na figura 2.suplemento). Observa-se nele um grande espalhamento dos pólos em torno de um máximo principal sugere uma dobra acilíndrica. Os elementos estruturais previamente nucleados são rotacionados e a curvatura é amplificada. 96 As estruturas deformacionais identificadas na porção sul do Aulacógeno do Paramirim por Cruz (2004) podem ser encontradas no embasamento. extremo sul da Chapada Diamantina (BA) das unidades basais do Supergrupo Espinhaço remontaria ao final do Paleoproterozóico. abriga a zona de interferência entre o Aulacógeno do Paramirim e a Faixa de Dobramentos Rio Preto. Cruz (2004) subdividiu o Aulacógeno do Paramirim em dois segmentos tectônicos distintos. que se encontra em contato transicional com as rochas da Formação Bebedouro (Menezes Fo 1996). Em função disso. Alkmim et al. Menezes Fo 1996). sua nomenclatura será aqui mantida. A Formação Bebedouro compreende um conjunto de diamictitos maciços a grosseiramente estratificados. (1993). volume 37 (4 . no Neoproterozóico. Esse modelo congrega sucessivos episódios de rifteamento e de subsidência flexural. bem como suas porções praticamente não invertidas. marcam a interação desse aulacógeno com o cinturão de cavalgamentos e dobramentos Araçuaí-Oeste Congo disposto ortogonalmente a ele. margas. 50 km e traço axial orientado segundo NNW-SSE. A Formação Salitre é constituída por uma seqüência de calssilutitos laminados. Na figura 6a tem-se o diagrama estereográfico sinóptico dos pólos do acamamento das rochas dos supergrupos Espinhaço e São Francisco. no âmbito do sinclinal. tal qual proposto por Cordani (1973). As estruturas mais antigas. no eixo do Aulacógeno.

e lineação de estiramento mineral segundo 205/15 e 202/20. À medida que se adentra o sinclinal.Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim Figura 3 .suplemento). 6c). volume 37 (4 . Regionalmente. respectivamente (Figs. variando entre simétricas e assimétricas (nesse caso. com orientação geral WNW-ESE (Fig. 6e). A lineação de estiramento associada a essa fase é amplamente variável. desde alta a até baixa obliqüidade (Fig. 6f). Dp. As lineações de baixa obliqüidade predominam na zona de cisalhamento João Correia-Barra do Mendes. de alta obliqüidade. Essa fase é penetrativa na porção sul da sinclinal em questão. em direção ao leste.Coluna estratigráfica proposta por Menezes Fo (1996) para o Supergrupo Espinhaço e São Francisco na Sinclinal de Ituaçu. 6d) e vergência para NNE (Fig. 2007 (Fig. Os elementos estruturais da fase seguinte. leques imbricados e trens de dobras. as lineações são. Durante a fase Dp formaram-se zonas de cisalhamento e dobras Revista Brasileira de Geociências. 7). 6b. As zonas de cisalhamento apresentam-se segundo NNW-SSE (Fig. pode ser encontrada no embasamento ao sul do paralelo de 14º 00’S. As dobras apresentam-se abertas. 8). preferencialmente. truncam aqueles previamente nucleados. a vergência é para ENE) e com 97 .

ZCJB.Mapa geológico da Sinclinal de Ituaçu. B-B’ e C-C’ estão apresentados na Figura 5.suplemento). 98 Revista Brasileira de Geociências. Os perfis A-A’. extremo sul da Chapada Diamantina (BA) Figura 4 . ZCBC.A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu.Zona de cisalhamento Brumado-Caetité. 2007 . volume 37 (4 .Zona de cisalhamento João Correia-Barra do Mendes.

na sinclinal em questão. Domínio estrutural I O Domínio I compreende a porção sudoeste da sinclinal (Fig. inter e intraestratais. zonas de cisalhamento com médio a alto ângulo de mergulho foram nucleadas e truncaram todo o conjunto de estruturas anteriormente nucleado. Em alguns locais. Revista Brasileira de Geociências. em conjunto. entretanto. Na fase final do encurtamento.B-B’) e ao longo (C-C’) à Sinclinal de Ituaçu. Devido ao dobramento posterior. etapas Dp1 e Dp2. sobretudo. a intensidade da deformação diminui de oeste para leste e de sul para norte. 6g). Na figura 9 tem-se o mapa de domínio estrutural da Sinclinal de Ituaçu. formaram-se zonas de cisalhamento cegas. O desenvolvimento da fase de Dp comporta três estágios. volume 37 (4 . 2007 O contato oeste das unidades envolvidas na sinclinal com o embasamento se faz por meio da zona de cisalhamento João Correia-Barra do Mendes (Fig. a sinclinal em foco foi subdividida em três domínios estruturais (Fig. A sua nucleação está relacionada com a fase Dp. 6i). Os contatos leste e sudeste se fazem por intermédio de discordância angular e erosiva. cuja orientação preferencial é 186/03 (Fig. Todas essas estruturas foram nucleadas acima da interface embasamento-cobertura. conferindo um padrão de interferência do tipo “Domos e Bacias”. descritos a seguir. De uma maneira geral. Estruturas do tipo slickensides sugerem movimentos de SSW para NNE e de WSW para ENE. aloja-se nesse contato uma superfície de descolamento. Dpdesc. A legenda de litologias é igual à daquela figura e a escala vertical está exagerada 3 vezes. 4).Perfis geológicos transversalmente (A-A’. 6h). compõem o sistema de empurrões e dobramentos da Chapada Diamantina. De acordo com a predominância e orientação das estruturas associadas às duas fases de deformação reconhecidas. 9). Trata-se de uma zona dúctil-rúptil com movimentação destral reversa e mergulho variando entre 60 e 80º que coloca o embasamento sobre as rochas do Supergrupo Espinhaço. área de aflora99 . A geometria deste contato e o espalhamento na distribuição das lineações está relacionado com a superposição das fases deformacionais Da e Dp. pode apresentar caimentos para todos os quadrantes. Essa superfície apresenta-se dobrada e com orientação variável. é assinalado por uma proeminente discordância erosiva (Menezes Fo 1996). 9). cuja nucleação marca a fase de envolvimento do embasamento na deformação da cobertura. linhas de charneiras posicionando-se em 166/03 (Fig.suplemento). aos estágios Dp1 e Dp2. Essas estruturas. é possível reconhecer uma lineação de sulcos e estrias de movimento. Essas zonas foram sucedidas por um conjunto de megadobras abertas que afetam as zonas de cisalhamento pré-existentes.Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim Figura 5 . a sua estruturação deve-se. O arcabouço estrutural da Sinclinal de Ituaçu relaciona-se com superfícies de cisalhamento profundas que marcam a ascensão do embasamento sobre as rochas metassedimentares da Chapada Diamantina. Numa etapa precoce. O contato entre as rochas dos supergrupos Espinhaço e São Francisco. sua atitude modal é 206/14 (Fig. Dessa forma. A posição dos perfis encontra-se marcada na Figura 4. marcada pela ocorrência de milonitos. Sobre ela.

extremo sul da Chapada Diamantina (BA) Figura 6 .Número de Amostras. do Supergrupo São Francisco (Fig. de parte da Unidade Velhas do Supergrupo Espinhaço e das formações Bebedouro e Salitre. As relações de truncamento entre elas esRevista Brasileira de Geociências.A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu. existe uma forte similaridade entre os acervos estruturais das rochas dos supergrupos Espinhaço e São 100 Francisco. 2007 . Nesse domínio. N. 4). volume 37 (4 . Podem ser encontradas estruturas associadas às fases Da e Dp. A diferença entre eles está no ângulo de mergulho das estruturas. é mais acentuado.suplemento). da foliação metamórfica e da lineação de estiramento das fases Da e Dp.Diagramas estereográficos sinópticos (Hemisfério inferior) dos pólos do acamamento primário das unidades de cobertura da Sinclinal de Ituaçu. que no caso do Supergrupo Espinhaço. mento do embasamento.

tanto no embasamento quanto na cobertura.Domínios estruturais na Sinclinal de Ituaçu. pode ser encontrada uma foliação de baixo ângulo com direção WNW-ESE e mergulho para WSW (Fig. 4). em perfil. 4.Dobras assimétricas Dp em dolomitos da Formação Salitre (Domínio III). são de natureza dúctilrúptil. 10b). Elementos da fase Da encontram-se obliterados pelas estruturas mais jovens. Indicadores cinemáticos observados nos tectonitos da zona de cisalhamento Brumado-Caetité sugerem movimento de SSW para NNE. Nas unidades com granulação mais grossa. com larguras de até 500 metros. Corte em perfil. formaram-se zonas de cisalhamento. 10c. de natureza rúptil-dúctil (Fig. que a foliação de baixo ângulo Sa encontra-se truncada por uma série de zonas de cisalhamento de médio ângulo.Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim Figura 7 . durante a fase Da. aproximadamente. Sobre a foliação principal desenvolveu-se uma lineação de estiramento marcada por cristais recristalizados de plagioclásio e quartzo. volume 37 (4 . respectivamente (Fig.d). Essas estruturas materializam a zona de cisalhamento Brumado-Caetité. é possível observar.Dobras assimétricas da fase Da em dolomitos da Formação Salitre. no núcleo da Sinclinal de Ituaçu. as zonas de cisalhamento possuem a atitude modal 196/35 e a lineação de estiramento está posicionada em 198/35 (Figs. No embasamento do Domínio I. A deformação Da é acomodada. Essa foliação está associada às dobras que variam des101 . Nessas rochas. 5. 11a). O bandamento é marcado pela alternância de níveis ricos em biotita e hornblenda e bandas quartzo-feldspáticas. posicionada em 202/22 (Fig. Na Unidade Velhas. Revista Brasileira de Geociências. nesse caso. 2007 Na Unidade Velhas e na Formação Bebedouro. essas zonas se estruturam segundo um arranjo em leques imbricados que em profundidade devem se conectar com a zona de cisalhamento Brumado-Caetité. Em várias exposições. as zonas de cisalhamento são estreitas e pouco desenvolvidas. Corte. Figura 9 . também durante a fase Da. Tais dobras possuem as charneiras orientadas segundo 280/08 (Fig. principalmente. cuja atitude é 220/32 (Fig. baseado na figura 4. Apresentam foliação penetrativa e lineação de estiramento com orientações preferenciais em 217/24 e 212/23. 10e. A faixa em preto representa a porção onde as deformações Dp são fracamente desenvolvidas.suplemento). f). Fora das zonas de cisalhamento. nuclearam-se uma superfície milonítica e um bandamento metamórfico com orientação principal segundo 211/22 (Fig. zonas de cisalhamento encontram-se amplamente desenvolvidas. Dp (Figs. perfis A-A’ e C-C’). 11c). tão muito bem expostas na região a sudoeste da cidade de Tanhaçu. além de actinolita e biotita. Figura 8 . por meio de dobras abertas que se associam a uma foliação plano axial. Na Formação Bebedouro. 11b). 10a). Entretanto.

extremo sul da Chapada Diamantina (BA) Figura 10 .Diagramas estereográficos sinópticos (Hemisfério inferior) dos pólos da foliação e da lineação de estiramento Da nucleadas no embasamento e nas unidades de cobertura presentes no Domínio I. 102 Revista Brasileira de Geociências.suplemento). 2007 . volume 37 (4 .A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu.

Elas são destral-reversas e apresentam orientação e lineação de estiramento segundo 255/79 e 190/12. Entretanto. nos carbonatos da Formação Salitre. ficam na posição 289/10 (Fig. As zonas de cisalhamento posicionam-se em 185/14 (Fig. 10g). Suas charneiras. localmente. principalmente. 10h). 11e). os registros das etapas Dp1 e Dp2 podem ser separados em função da natureza das estruturas e da assembléia mineralógica. Essas falhas morrem no interior de antiformais e associam à fault propagation folds. No embasamento. 7). Nos calcários e dolomitos da Formação Salitre. cuja orientação preferencial é 193/18 (Fig. a fase Da é marcada por zonas de cisalhamento e. em escala de afloramento. No Domínio I. Podem desenvolver uma clivagem planoaxial. de apertadas até abertas e que se desenvolvem. 11f). volume 37 (4 .Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim Figura 11 . em 214/19. No embasamento. preferencialmente. Revista Brasileira de Geociências. 12a. Dp1 e Dp2. vergentes para NNE (Fig.Diagramas estereográficos sinópticos (Hemisfério inferior) dos pólos da foliação de plano axial e da linha de charneira das dobras Da nucleadas nas unidades de cobertura do Domínio I. b). respectivamente (Fig. a fase Dp subdivide-se nos estágios Dpdesc. Subordinadamente. Associadas a essas zo103 . 2007 preferencialmente. por sua vez. São evidenciadas por cristais de calcita que se alinham. sobretudo. com lineação de estiramento mineral de alta obliqüidade e disposta em 207/15 (Fig. pela presença de dobras apertadas e assimétricas. Associada às dobras da fase Da é possível identificar a presença de deslizamentos interestratais com desenvolvimento de lineação de estiramento. também atinge a cobertura. As dobras afetam o acamamento e são observadas. o estágio Dp1 é representado por um conjunto de zonas de cisalhamento de médio a alto ângulo que. na cobertura a separação entre esses dois estágios é impossível. com orientação 284/10 (Fig. 11d).suplemento). a fase Da é marcada pela presença de zonas de cisalhamento ancoradas no embasamento.

volume 37 (4 . 2007 .Diagramas estereográficos sinópticos (Hemisfério inferior) das estruturas Dp presentes no Domínio I.A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu. extremo sul da Chapada Diamantina (BA) Figura 12 .suplemento). Apresentam vergência para leste e charneiras orientadas preferencialmente na direção Revista Brasileira de Geociências. têm-se dobras abertas a fechadas e horizontais que afetam a foliação Sa e o bandamento 104 gnáissico associado. nas de cisalhamento.

12d) e apresentam lineação de estiramento cuja orientação preferencial é 254/59 (Fig. a deformação é baixa a inexistente e as feições sedimentares encontram-se muito bem preservadas. ao passo que as da fase Dp refletem esforços orientados na direção WSW/ENE. Sua atitude modal varia entre 249/68 e 272/79 (Fig. No embasamento. b). Serra da Cabeça Inchada. As zonas de cisalhamento inter e intraestratais do estágio Dpdesc desenvolvem foliação metamórfica e lineação de estiramento que se orientam. São rúpteis e provocam a rotação ou a transposição dos elementos estruturais mais antigos. os estágios Dp1 e Dp2 estão representados pelo amplo desenvolvimento da zona de cisalhamento dúctil-rúpteis João Correia-Barra do Mendes. apresentam-se transpostas por aquelas estruturas. zonas de cisalhamento intraestratais e interestratais ocorrem. essas estruturas desenvolvem foliação plano axial. O Domínio II representa a porção da Sinclinal de Ituaçu diretamente afetada pela zona de cisalhamento João Correia-Barra do Mendes. 12h. segundo 254/26 e 255/26. Como essas estruturas apresentamse amplamente distribuídas no Domínio III. Essas zonas apresentam foliação metamórfica com orientação preferencial de 246/36 e lineação de estiramento em 243/35 (Figs. na direção 220/20 (Fig. A lineação de estiramento. 14e. 14c). Nele. 9). Esse domínio é caracterizado pela mais baixa intensidade de deformação. 4). segundo 259/67 e 250/34. As estruturas observadas nesse domínio marcam a ascensão do embasamento sobre as rochas metassedimentares do Grupo Paraguaçu. 13e). 14d). f). Zonas de cisalhamento de médio a alto ângulo da fase Dp2 cortam as grandes dobras do Domínio III. na Unidade Velhas. Embora predominem as estruturas da fase Dp. 14a. com movimento preferencialmente destral reverso. As dobras desenvolvidas posteriormente a essas zonas são abertas. preferencialmente. que liga as cidades de Ituaçu e 105 . As estruturas deformacionais relativas à Da refletem um campo de esforços com orientação geral NNE/SSW. fraturas e zonas de cisalhamento de alto ângulo formaram-se no embasamento. Essas zonas apresentam foliação metamórfica e lineação de estiramento de alta obliqüidade orientadas. Nas unidades de cobertura. Domínio estrutural II O Domínio II. 13d).Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim 167/02 (Fig. Os movimentos são preferencialmente para ENE. Estruturas S/C sugerem movimentos reversos associados com essas zonas. Zonas de cisalhamento de alto ângulo das etapas Dp1 e Dp2 ocorrem truncando todas as estruturas anteriormente nucleadas (Fig. desarmônicas e apresentam foliação plano axial e charneira segundo 241/72 e 166/02. Domínio estrutural III O Domínio III. respectivamente (Figs. No extremo sudoeste do sinclinal. de médio a alto ângulo (Fig. que engloba o setor leste da sinclinal. com movimento destral-reverso e orientação preferencial entre 236/38 e 251/68 (Fig. cuja orientação é 252/42 (Figs. parte das unidades Velhas e Rio dos Remédios e a totalidade da unidade Pastinho. Durante o estágio Dp2. aproximadamente ortogonais ao primeiro. Esse padrão pode ser observado tanto no embasamento quanto nas unidades da cobertura metassedimentar. inclui somente rochas do Supergrupo Espinhaço. formaram-se. elas serão descritas na seção referente a esse domínio. dobras associadas com a fase Da também foram reconhecidas no Domínio III. envolvendo as unidades de cobertura e o substrato cristalino. foi reconhecida uma lineação de estiramento disposta segundo 210/12 à qual se superimpõe a lineação da fase Dp. posiciona-se em 202/27 (Fig. nas unidades da Formação Salitre. nos calcários que afloram no núcleo da Sinclinal de Ituaçu é possível encontrar dobras de várias ordens hierárquicas associadas a esse estágio de deformação. g). 13b). Nesse contexto. que são: parte das unidades Velhas. engloba o embasamento. respectivamente (Figs. respectivamente (Figs. Nesse domínio. Apesar da intensa deformação das unidades envolvidas. presente nessa foliação e marcada pela biotita e hornblenda. interceptando estruturas da fase Da. as rochas repousam diretamente sobre o embasamento. Entretanto. As estruturas relacionadas à fase de deformação Dp são as mais expressivas. predominam as estruturas do estágio Dp1. Fazenda Corcovado e Riacho das Covas. Destacam-se as zonas de cisalhamento da serra do Geral e Tanhaçu (Fig. 13c). A interferência tectônica entre as dobras das fases de deformação Da e Dp permite o desenvolvimento do padrão “Domos e Bacias”. zonas de cisalhamento destral-reversas (sugerido por estruturas S/C) às quais se associa uma foliação metamórfica/milonítica cuja atitude modal é 260/75 (Fig. 10). Trata-se de uma zona de cisalhamento dúctil-rúptil. 12e). situado na porção oeste da sinclinal (Fig. No limbo leste da Sinclinal de Ituaçu. no estágio Dp1. Dobras abertas afetam as zonas de cisalhamento previamente nucleadas e. as estruturas desenvolvidas durante o estágio Dpdesc foram bastante deformadas nas etapas seguintes. A sua nucleação marca o envolvimento do embasamento na deformação da cobertura durante a fase Dp. Essas podem ser observadas ao longo da BR-142. A atitude das charneiras das dobras Dp1 e Dp2 é 300/01 (Fig. preferencialmente. 2007 dem para sul.suplemento). freqüentemente. 12f. preferencialmente. preferencialmente. uma estrutura que inicia a sua atividade na etapa Dp1 e prossegue na etapa seguinte. volume 37 (4 . Pastinho e Rio dos Remédios e as Unidades Morro do Ouro. Tais zonas de cisalhamento progriRevista Brasileira de Geociências. A lineação de estiramento a ela associada é de baixa obliqüidade e se alinha. Esse fato sugere que as zonas de cisalhamento supracitadas podem ter sido nucleadas durante Da e que foram reaproveitadas durante as fases tardias de deformação Dp. 13a). i). ainda é possível recuperar feições do acamamento primário que demonstram a presença de inversões estratigráficas. 12c). parte das rochas do Complexo Lagoa Real. 13). As dobras associadas com a zona de cisalhamento em questão são isoclinais e. Seus eixos posicionam-se em 162/13 (Fig. Nas unidades da cobertura.

por mica branca. A segunda associação. ele está preferencialmente concentrado em zonas de cisalhamento. microclina. está relacionada com as zonas de cisalha106 mento da etapa Dp2 e é composta por clorita. indicando condições de fácies xisto verde. No embasamento foram observadas duas associações metamórficas. plagioclásio. hidrólise de feldspatos. 2007 . A formação da foliação envolve processos de deformação plástica e recristalização dinâmica por rotação de subgrãos em quartzo e feldspatos. mica branca e quartzo. é regressiva. Sua orientação geral é segundo E-W. M1p. MeTAMORfIsMO e PROCessOs DefORMACIONAIs Assim como a deformação. Já no limbo oeste. extremo sul da Chapada Diamantina (BA) Figura 13 . Barra da Estiva. o metamorfismo praticamente inexiste. o metamorfismo diminui de oeste para leste na Sinclinal de Ituaçu. No limbo leste da sinclinal estudada. volume 37 (4 . deformação plástica e dissolução do quartzo. biotita e hornblenda. quartzo. Nas unidades de cobertura. na interface quartzo/mica e em carbonatos. clorita.suplemento).Diagramas estereográficos sinópticos (Hemisfério inferior) das estruturas Dp presentes no Domínio II. M1r. A dissolução acontece. Os processos deformacional-metamórficos associados com o desenvolvimento dessas zonas são o microfraturamento de feldspatos.A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu. A primeira. Revista Brasileira de Geociências. Não foi verificada nenhuma variação no metamorfismo no sentido norte-sul. preferencialmente. Tal associação indica condições de fácies xisto verde. o metamorfismo associado às duas fases de deformação reconhecidas é marcado por uma associação mineralógica constituída. essencialmente. Essa associação é de fácies anfibolito e é marcada por quartzo. o deslizamento friccional dos fragmentos. Os principais processos deformacionais observados nas rochas do Supergrupos Espinhaço e São Francisco estão associados à transferência de solução (solution transfer). calcita. está associada com as foliações da fase Da e da etapa Dp1.

entretanto. respectivamente. Os indicadores cinemáticos observados em afloramento mostram que as estruturas Da refletem transporte tectônico dirigido de SSW para NNE. seriam as mais antigas e anteriores ao Grupo Bambuí. As estruturas EW. o registro dessa fase deixa de existir a partir da altura do paralelo 14º 00’S. ao norte da cidade de Ituaçu. por outro lado. as estruturas NS.suplemento). Não foram encontradas discrepâncias entre os acervos estruturais das rochas dos grupos Paraguaçu e Una. No embasamento. equivalentes às estruturas Dp.Diagramas estereográficos sinópticos (Hemisfério inferior) das estruturas associadas com a fase deformacional Dp presentes no Domínio III. seriam posteriores e refletiriam a tectônica brasiliana da margem do Cráton do São Francisco. Na cobertura.Simone Cerqueira Pereira Cruz & Fernando Flecha Alkmim Figura 14 . Isto faz com que a inversão da porção sul do aulacógeno tenha uma idade máxima neoproterozóica. a relação cronológica Revista Brasileira de Geociências. equivalentes à fase Da. Brito-Neves & Pedreira (1992) já haviam reconhecido a presença de duas fases deformacionais na Sinclinal de Ituaçu. Essas estruturas possuem 107 . MODelO De evOlUÇÃO TeCTôNICA PARA A sINClINAl De ITUAÇU Na Sinclinal de Ituaçu podem ser reconhecidas todas as fases de inversão da porção sul do Aulacógeno do Paramirim. o seu registro persiste até o paralelo 13o 40’S. volume 37 (4 . Entretanto. que representam as unidades mais velha e mais nova da região. 2007 entre as duas gerações de estruturas proposta por esses autores é antagônica à que é aqui apresentada. A partir das relações de truncamento estudadas no Domínio I da sinclinal em questão pode-se afirmar que as estruturas da fase Da são mais antigas do que as da fase Dp (Fig. 15a). Segundo eles. O registro estrutural armazenado nas rochas dos supergrupos Espinhaço e São Francisco demonstram a existência de duas fases de deformação compressionais distintas (Da e Dp). cujas estruturas possuem orientações aproximadamente ortogonais entre si.

15b). nas unidades da cobertura. a deformação das unidades da cobertura se inicia por meio do desenvolvimento de zonas de cisalhamen108 to inter e intraestratais. como descrito por Cruz & Alkmim (2006). elas são dobradas e cortadas por zonas de cisalhamento de médio a alto ângulo que marcam a fase de envolvimento do embasamento na deformação da cobertura. Em seguida. Essa fase está registrada pela formação do cinturão de dobramentos e cavalgamentos da Chapada Diamantina. a idade máxima dessas estruturas é neoproterozóica: (2) O primeiro conjunto de estruturas tem orientação WNW/ESE e vergência para NNE. Modelo semelhante a esse foi sugerido por Danderfer Fo (1990) e Alkmim & Danderfer Fo (1995) para as demais áreas da Chapada Diamantina. A presença dessas estruturas demonstra que o acamamento tornou-se mecanicamente ativo. Ao contrário da porção norte do aulacógeno. volume 37 (4 . extremo sul da Chapada Diamantina (BA) Figura 15 . Elas refletem a propagação.Modelo de evolução tectônica para a Sinclinal de Ituaçu. têm as estruturas vergentes para sul. na parte norte do aulacógeno.A história de inversão do aulacógeno do Paramirim contada pela sinclinal de Ituaçu. com movimentos dirigidos para leste. precedem a formação dos elementos tectônicos dominantes Dp. o mesmo significado que. 2007 . Essas zonas representam antigas falhas normais que foram invertidas durante a compressão Da e Dp. da fase Da. Essas estruturas foram também observadas nas rochas do Complexo Lagoa Real e na Saliência do Rio Pardo. CONClUsÕes (1) Na Sinclinal de Ituaçu dois conjuntos de estruturas cortam igualmente as rochas do embasamento. documentadas por Lagoeiro (1990). Pela relação com Revista Brasileira de Geociências. A fase seguinte. Dessa forma. Durante a inversão do Aulacógeno do Paramirim. acomodando boa parte da deformação. as estruturas com orientação WNW/ESE. que marcam a fase inicial dos descolamentos. do Complexo Lagoa Real. marca a época de inversão frontal do Aulacógeno do Paramirim (Fig. do Supergrupo Espinhaço e do Supergrupo São Francisco.suplemento). Dp. das frentes orogênicas brasilianas que margeiam a porção sudeste do Cráton do São Francisco.

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Evolução Geocronológica do Pré-Cambriano no estado da Bahia. foi contemplada com Bolsa de Pós-Doutorado 1 da FAPESB (Termo de Outorga 2083/2006) e pelo Projeto Universal do CNPq (Processo 475092/2004-0). Agradecimentos Os autores gostariam de expressar seus agradecimentos à Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM). 382 p. 46.H. In: SBG. 1980. Bento R.Oeste Congo. Supergrupo Espinhaço. F.F.uma revisão. Simp...5-1. O Cráton do São Francisco. Earth Sci. com orientação NNWSSE.Alkmim recebe auxílio do CNPq na forma de bolsa de produtividade em pesquisa (Processo no 300833/99-7)...) Geologia do Continente Sul-americano: evolução da obra de Fernando Flávio de Almeida. Nac. Além disso. Carneiro & B. Anais.M.S. The geologic evolution of the ancient granite-Greenstone terrane of central-southern Bahia Brazil.M. os autores agradecem aos revisores anônimos. A. Referências Alkmim F. S. Andrade A. 1-2. 1995. 1:3-46. Simp. Brito-Neves B. In: SBG. Babinski M.. In: J. p. SW do estado da Bahia. v. 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