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REFERENCIAL TEÓRICO - GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA I) A Lei Sarbanes Oxley Em julho de 2002, o Presidente George W.

Bush assinou a Lei Sarbanes-Oxley, mais conhecida como SOX, como sendo a maior reforma da legislação de mercados de capitais dos EUA desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. Para Barcellos (2005) a nova Lei procura, por meios tangíveis, “reparar” a confiança pública

perdida dos empresários americanos e enfatizar uma vez mais a relevância dos padrões éticos na preparação das informações financeiras reportadas aos investidores. No Brasil, Queiroga (2005) afirma que as empresas brasileiras no futuro terão de seguir as regras estabelecidas pela SOX (Sarbanes Oxley), os administradores e auditores internos terão que documentar e validar os procedimentos internos e, a lei exige, ainda, que seja obtido um parecer de um auditor externo. Para atuar como reforço dos controles internos devera ser criado um Comitê de Auditoria independente ligado ao Conselho de Administração. A Securities and Exchange Comission (SEC), órgão regulador nos EUA, deu aval o pedido da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) de substituir o comitê pelo Conselho Fiscal, uma vez que o mesmo já é membro do comitê, mas não é composto por representantes independentes e se reporta à assembléia de acionistas. Na adaptação a lei, as empresas terão de ter membros autônomos, que não sejam remunerados das companhias, além de um especialista aprovado pelo SEC. Barcellos (2005, p.40) afirma que o “desafio será preencher as lacunas entre as duas legislações, colocando o órgão para funcionar de forma plena e sem gerar conflitos com o conselho de administração”. Para Sady (2005), a adaptação às exigências da SOX faz com que companhias de capital aberto, levem ao público, dados a respeito de suas operações, que são de grande valia nas negociações coletivas e além do interesse dos investidores. 1

que tem total autonomia na decisão. apud QUEIROZ. no Brasil essa autoridade é atribuída legalmente ao conselho de administração”. Com as exigências da Sarbanes.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA A seção 302 determina que diretores executivos e diretores financeiros devem declarar pessoalmente que são responsáveis pelos controles e procedimentos de divulgação. A SEC também propôs uma exigência de certificação mais abrangente que inclui os controles internos e os procedimentos para a emissão de relatórios financeiros. insuficiências materiais e atos de fraude ao seu comitê de auditoria. Até 30 de Junho de 2006. data final imposta pela SOX para a administração comprovar a eficácia dos controles internos implementados e dos procedimentos para divulgação de balanços. “Enquanto na lei americana SOX o poder de contratar e destituir auditores e determinar a política de prestação de serviços de não-auditoria está nas mãos do comitê. 2005.REFERENCIAL TEÓRICO .34). muitas das obrigações impostas pela lei estão sendo vistas como „burocráticas demais‟. 09). (Guia Sarbanes-Oxley. O foco dos ambientes corporativos tem sido. Os executivos certificados também devem declarar que divulgaram todas e quaisquer deficiências significativas de controles. “Além de difíceis de serem atendidas plenamente. a sensação é de que tudo o que foi feito para agilizar e simplificar os processos internos terá que ser readequado na outra ponta para atender a lei” (FONSECA. e a apresentação dos auditores externos de um parecer sobre os métodos utilizados pela administração para avaliar tais controles. segundo Queiroz (2005). Barcellos (2005. Deloitte Touche Tohmatsu. desburocratizar as administrações. justamente. além da exigência relacionada com os controles e procedimentos de divulgação. p. p. 2005. Cada arquivo trimestral deve conter a certificação de que eles executaram a avaliação do desenho e da eficácia desses controles. para que caminhem a passos mais largos. apontar os processos internos mais relevantes e demonstrar como é feito o 2 . 42). Será preciso para isso detalhar como funcionam os comitês de auditoria ou os conselhos fiscais. p.

além do tempo. Certa dessa realidade a SEC obrigou as companhias listadas na bolsa norte-americana a simplificar a vida de quem quer denunciar eventuais fraudes. pelas leis brasileira e americana. Em 2004 as empresas norte-americanas listadas em bolsa de valores já tiveram de atender às regras. Para Queiroz (2005) as exigências da SOX. a fraude é um fenômeno onipresente. quanto à punição em caso de descumprimento. pelas bolsas de valores. p. Segundo Azevedo (2005) as estrangeiras. 3 . como ganhou força após os escândalos financeiros que motivaram.REFERENCIAL TEÓRICO . Quanto ao tempo de adequação Barcellos (2005. Nos Estados Unidos. inclusive a criação da Sarbanes-Oxley”. vem sendo levantado questionamento dentro dos EUA. 2005.48). “a prática de denunciar qualquer suspeita de irregularidade nas companhias não só é antiga. e não repetir. 42) acrescenta “os interesses na aproximação entre o conselho de administração e o conselho fiscal existe de ambas as partes. têm a oportunidade de ver antes e aprender com os erros dos outros. no mercado norte-americano. Já existe um estoque de boas histórias para acompanhar. Está tudo na seção 301 da Sarbanes-Oxley. todos poderão ser responsabilizados por eventuais fraudes ou condutas inadequadas”. já que. Ao delator deve ser oferecida garantia total de anonimato” (SILVA. “É competência do comitê de auditoria criar mecanismos de comunicação para receber queixas referentes a assuntos contábeis ou mesmo sobre o comportamento dos próprios auditores internos. complementa o autor. p.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA arquivamento de todos os controles. que sofrem o medo de ver suas companhias sair em retirada para não continuarem expostas è a legislação anti-fraude. Seja da mercearia do bairro até uma grande empresa multinacional.

p. sistemas e controles”. Embora o nível de esforço empreendido na adequação tenha sido muito maior do que o estimado inicialmente. p. e a maior confiabilidade nas certificações emitidas pelos CEOs e CFOs”. De uma foram geral. quando testada na prática. descreve da seguinte forma: “seção 404 determina uma avaliação anual dos controles e procedimentos internos para a emissão de relatórios financeiros.38) “no Brasil a prática não foi muito comentada. Muito se tem comentado sobre os altos custos de adequação ao artigo 404 da SOX. As autoridades francesas de proteção à privacidade também não gostaram da rigidez da SarbanesOxley. além de ter promovido oportunidades para o aprimoramento de processos.54) acrescenta que “um dos maiores benefícios da SOX foi o maior envolvimento da gerencia sênior na elaboração e divulgação dos relatórios financeiros.52) comenta que a “discussão sobre o volume dos custos necessários para cumprir no prazo as exigências da lei tem. está aí mais uma exigência da SOX que. p. Citeroni (2005.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA Ainda segundo Queiroz (2005. o auditor independente da companhia deve emitir um relatório distinto que ateste a asserção da administração sobre a eficácia dos controles internos e dos procedimentos executados para a emissão dos relatórios financeiros”. só quem tem aplicado essa regra foram às empresas que possuem American Depositary Receipts (ADRs) listados em bolsas dos Estados Unidos. Além disso. p. 4 . não pode ser contestado o fato de que o trabalho revelou e solucionou muitas deficiências nos controles internos.09). a maior consciência e responsabilidade da gestão operacional em relação aos controles internos.REFERENCIAL TEÓRICO . No guia criado pela Deloitte Touche Tohmatsu sobre a SOX (2005. esbarra na cultura das companhias e da sociedade à qual pertencem”. em geral deixado em segundo plano o debate sobre os benefícios que as empresas terão ao fim desse processo. Harrington (2005.

com resultados eficazes quanto ao retorno dos lucros aos fornecedores de recursos.737). embora não se possa descartar por completo os aspectos culturais de cada país. os benefícios associados tendem a compensar os grandes investimentos realizados”. uma vez que. II) Governança Corporativa no Mundo Segundo Malieni (2003) o ambiente institucional e a definição do Estado para o sistema financeiro e legal dos países influenciam significativamente na forma de governança corporativa das empresas. a transparência das informações financeiras e o ambiente mais seguro ajudarão a reduzir o custo de captação de recursos e tornarão mais fácil uma oferta pública de ações no futuro. as diferenças entre os sistemas de governança corporativa são maiores que entre os sistemas dos países desenvolvidos. somente as empresas que tiverem com práticas adequadas de governança corporativa poderão contar com um fluxo renovado de investimentos. No atual ambiente corporativo. com sucesso.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA E por fim Citeroni (2005. os países em desenvolvimento enfrentam o desafio de transformar os modelos e procedimentos de governança corporativa adotados em outros 5 . do artigo 404 é crítica para a manutenção da confiança no mercado de capitais. Neste cenário. os gastos atuais com o projeto SOX poderão ficar em segundo plano. Assim.REFERENCIAL TEÓRICO . Nos países em desenvolvimento. os problemas de governança corporativa são resolvidos de maneira satisfatória na maior parte das economias de mercado avançado. Para Monks (2001). em grande parte devido às estabilidades no sistema financeiro. com economias de mercado menos avançadas.53) nos mostra que é “consenso geral que a implantação. De acordo com Shleifer e Vishny (1997. p. p. a médio e longo prazo.

REFERENCIAL TEÓRICO . na grande maioria. No mercado mundial de capitais. de forma involuntária. o modelo anglo-saxão de governança corporativa. bem como com o conseqüente abuso de poder corporativo. aponta ainda que nos Estados Unidos. a saber: a) Modelo Anglo-Saxão. Essas preocupações devem-se principalmente a fragmentação do poder acionário das empresas americanas uma vez que os acionistas. b) Modelo Japonês.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA lugares do mundo como modelo na elaboração das próprias normas e princípios. responsáveis pelo estabelecimento de políticas corporativas e monitoramento da implementação de diretrizes pelos executivos. Os países desenvolvidos adotam. Esse modelo tem como estrutura um conselho eleito pelos acionistas. Atualmente. Monks (2001). essas normas e princípios podem servir para reforçar a confiança do investidor. d) Modelo Latino-Europeu. abriram mão de seu poder para a diretoria das empresas. em meados dos anos oitenta. A governança corporativa tem um significado pouco importante com relação aos países em desenvolvimento devido ao pequeno número de empresas que comercializam suas ações. e) Modelo Latino-Americano. c) Modelo Alemão. que tem como base a geração de valor aos acionistas. contribuindo para o crescimento da economia. 6 . existem 5 grandes modelos de Governança Corporativa. inevitavelmente ocorreram os abusos de poder. ocorreram manifestações de preocupação com a crescente distância entre os acionistas e a administração das empresas.

nomeados pelo Conselho de Supervisão. a governança alemã tem como uma característica centralizadora. com pouca participação de conselheiros externos.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA Comenta Malieni (2003) que as empresas japonesas utilizam o modelo anglosaxão como estrutura dos conselhos de administração. O Conselho de Gestores. A estrutura de propriedade das empresas alemãs restringe à participação de acionistas comuns com destaque para as ações sem direito a voto ou com direitos restritos. é responsável pela tomada de decisões. com prejuízo aos interesses de seus acionistas. onde os grandes investidores. 7 .REFERENCIAL TEÓRICO . que exercem funções múltiplas como acionistas. com poder de veto. Segundo Monks (2001) tal posicionamento advém da existência de conselhos formados por gestores de carreira. Malieni (2003) afirma que as empresas alemãs são governadas por uma assembléia geral e têm como principal composição de estrutura de governança corporativa dois Conselhos: de Supervisão e Gestores. principalmente bancos. entretanto privilegiam a geração de riqueza às próprias empresas e aos seus empregados. Os sistemas de governança corporativa das empresas japonesas não privilegiam a transparência e o atendimento dos interesses de todos os acionistas. bem como a prática pela realização de negócios entre si em troca de participações acionárias. Malieni (2003) ainda acrescenta que assim como o modelo japonês de governança corporativa. Dessa maneira. O Conselho de Supervisão é formado por representantes eleitos pelos funcionários e acionistas.e credores. representantes de outros acionistas – através da gestão de fundos de investimentos . o que gera conflitos de interesses em função da presença de diversos papéis que as instituições financeiras exercem. o modelo alemão não privilegia a transparência e o atendimento dos interesses de todos os acionistas.

o Conselho de Administração (Conseil de Surveillance) e o Conselho de Gestão (le Directorire). considerados como principais fontes de capital às empresas daquele país.REFERENCIAL TEÓRICO .GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA A estrutura acionária francesa está concentrada nas mãos de famílias. funcionários e Estado. c) Propriedade e Gestão: separadas (o dono não exerce a direção do próprio negócio) ou sobrepostas (acionista controlador exerce grande influência na direção do negócio). b) Propriedade e Controle: dispersa (muitos donos) ou concentrada (poucos donos). o Estado exerce importante papel na economia. De uma forma geral e para fins didáticos. d) Conflito de Agência: pode envolver diferentes agentes (donos. denominado Président Directeur Génerale (PDG) e um sistema inspirado pelo modelo alemão onde existem dois conselhos. Segundo Carlsson (2001). diretores e credores). Nessa estrutura. e) Conselho de Administração: pode ser um órgão atuante (fiscalizador) ou apenas um órgão consultivo (assessoria). inclusive bancos e seguradoras. sendo um sistema caracterizado pela concentração de poder onde existe um único Conselho de Administração e um líder da organização. 8 . a estrutura de governança corporativa francesa apresenta dois sistemas. pode-se identificar as seguintes características definidoras dos diferentes modelos de Governança Corporativa: a) Fontes predominantes de Financiamento: mercado financeiro (bancos) ou mercado de capital (ações). possuindo participação acionária em diversas empresas.

i) Status do Modelo: os modelos de Governança Corporativa apresentam diferentes níveis de desenvolvimento.foco Atuante .GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA f) Forças de Controle mais atuantes: as demandas ou pressões para a manutenção de controles internos pode ser originada por fatores internos (proprietários) ou fatores externos (leis e órgãos fiscalizadores). ou seja.SÍNTESE DAS CARACTERÍSTICAS DOS MODELOS DE GC Características Definidoras Fonte de Financiamento Predominante Propriedade e Controle Propriedade e Gestão Conflitos de Agência Modelo Anglo-Saxão Mercado de Capital Modelo Alemão Mercado Financeiro Modelo Japonês Mercado Financeiro Concentrada: conglomerados Modelo LatinoEuropeu Indefinido Modelo LatinoAmericano Mercado Financeiro Concentrada: familiar Dispersa Concentrada Concentrada Separadas Sobrepostas Sobrepostas Sobrepostas Sobrepostas Diretores e Acionistas Credores e Acionistas Credores e Acionistas Majoritários e Majoritários e Minoritários Minoritários Pressões para maior eficácia Internas migrando para externas Vinculado a gestão Conselho de Atuante . os quais partem de um estágio inicial (embrionário) até lograrem o completo estabelecimento e aceite da comunidade empresarial. TABELA I . revela se o modelo busca o atendimento dos interesses dos acionistas ou da sociedade (interesses múltiplos).foco Administração em direitos nas operações na estratégia Forças de Controle mais atuantes Externas Internas Internas Internas 9 . h) Orientação do Modelo: esse aspecto diz respeito aos interesses que são privilegiados pelo modelo.REFERENCIAL TEÓRICO . g) Proteção os Minoritários: depende das leis de cada país que podem oferecer maior ou menor proteção aos direitos dos acionistas minoritários e preferenciais.foco Atuante .

a análise de pesquisa efetuada pelo IBGC (2001) e pela Mckinsey & Company e Korn/Ferry International (2001) permite traçar um modelo geral de governança corporativa para as empresas brasileiras. o governo deveria apoiar o princípio fundamental de que não deve haver poder sem prestação de contas e criar a presença efetiva de acionistas em todas as empresas. 10 . Os dados estatísticos mostram que o maior acionista nas empresas brasileiras possui em média 51% da participação acionária. enquanto os 3 maiores acionistas possuem um total de 65% da participação acionária.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA Características Definidoras Proteção aos Minoritários Orientação do Modelo (interesses privilegiados) Status do Modelo Modelo Anglo-Saxão Modelo Alemão Modelo Japonês Modelo LatinoEuropeu Fraca Modelo LatinoAmericano Fraca Forte Baixa ênfase Baixa ênfase Acionistas Acionistas Múltiplos Múltiplos Acionistas Estabelecido Adesão Crescente Ênfase Crescente Ênfase Crescente Embrionário Para Monks (2001). sendo do interesse nacional contribuir para a participação efetiva dos acionistas na governança corporativa das empresas de capital aberto. III) A Governança Corporativa no Brasil Segundo Silveira (2002).REFERENCIAL TEÓRICO . com as seguintes características:  Estrutura de propriedade com forte concentração das ações com direito a voto (ordinárias).

GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA   Alto índice de emissão de ações sem direito a voto (preferenciais). como auditoria ou sucessão. os acionistas minoritários buscam novas alternativas que possibilitem a inclusão de seus representantes nos conselhos de administração. apud MALIENI. p. considerado como o modelo mais próximo do brasileiro.    Escassez de conselheiros profissionais no Conselho de Administração. com os membros do conselho representando os interesses dos acionistas controladores. 2003. os conselhos das empresas nacionais contam com representantes eleitos por seus acionistas controladores em sua maioria famílias ou grupos econômicos familiares com estruturas hierárquicas.   Presença de acionistas minoritários pouco ativos. a prática de sistema de controles corporativos internos (RABELO. principalmente nas empresas familiares. exercendo. Empresas com controle familiar ou compartilhado por alguns poucos investidores alinhados por meio de acordo de acionistas para resolução das questões relevantes. com ausência de comitês para tratamento de questões específicas. De acordo com Gilson apud Mônaco (2000). a exemplo do que acontece no sistema de governança da Europa Ocidental. Estrutura informal do Conselho de Administração. Alta sobreposição entre propriedade e gestão. Com a impossibilidade de controle efetivo pelo mercado e. assim.  Pouca clareza na divisão dos papéis entre conselho e diretoria.REFERENCIAL TEÓRICO . Remuneração dos conselheiros como fator pouco relevante.59). 11 .

não sendo capazes de fornecer capitais de longo prazo às empresas nacionais. Ao contrário do que acontece nestes países. em média. que lhes permitiu obter expressivos ganhos com as altas taxas de juros praticadas.REFERENCIAL TEÓRICO . 58% das ações ordinárias. enquanto os três maiores acionistas juntos possuem 78% destas ações. França e Japão. Ainda segundo Leal e Valadares apud Silveira (2002).GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA Diferentemente dos modelos de governança existentes na Alemanha. A forte concentração das ações com direito a voto é característica fundamental do modelo de governança das companhias abertas brasileiras. La Porta apud Malieni (2003) em seu estudo sobre os fatores que influenciam a concentração da propriedade critica a emissão de ações distintas. p. Desta forma: 12 . Malieni (2003). Ainda em relação à estrutura de capital das empresas. “os acionistas controladores detêm. Segundo Mônaco apud Silveira (2002. o Brasil possui dois tipos de ações com direitos distintos. em média. Esta distinção é apontada por Easterbrook e Fischer apud Monks (2001) como uma contribuição para a ineficiência do poder de monitoramento dos acionistas. constata-se que o maior acionista possui. pois elas contribuem para o exercício do controle pelos acionistas internos (controladores). sem que os mesmos possuam participação acionária significativa e afirma que os acionistas minoritários só exercem seu poder através da eleição dos membros dos conselhos de administração. a saber: na distribuição de dividendos e no direito a voto. visto que estimula-se a criação de custos de agências. com uma ausência quase total de empresas com estruturas de propriedade pulverizadas. 88% das ações com direito a voto emitidas”. fruto provável da instabilidade econômica histórica. 31). a estrutura de propriedade das empresas brasileiras não conta com participações elevadas de bancos.

pois apesar da grande concentração das ações ordinárias. Outra característica importante do modelo de governança das companhias abertas brasileiras é o alto índice de emissão de ações sem direito a voto (preferenciais). 2002. p. os benefícios de se ter um grande acionista controlador são reduzidos em grande parte no Brasil. que compreende. aliada à baixa proteção legal dos acionistas. Como decorrência da grande concentração de poder. Assim sendo. 46% do capital total das companhias abertas”. por não possuírem a maioria do capital social da empresa. p. permitindo aos acionistas majoritários manterem o controle com uma participação menor no capital da empresa e. acionistas minoritários das empresas controladas. conseqüentemente.32). a emissão de grande percentual de ações sem direito a voto (ações preferenciais) e a utilização de esquemas piramidais (holdings que controlam holdings que controlam empresas) faz com que muitos controladores sejam. de fato. “apenas 11% das companhias abertas não lançam mão deste artifício. segundo Silveira (2002).REFERENCIAL TEÓRICO . faz com que o principal conflito de agência no país se dê entre acionistas controladores e minoritários. De acordo com Silveira apud Leal e Valadares (2002. como nos países anglo-saxões com estrutura de propriedade pulverizada (SILVEIRA. aumentando o incentivo para expropriação da riqueza dos pequenos investidores. os membros do Conselho de Administração são em sua grande maioria indicados pelo acionista controlador. Esta situação gera uma combinação de muito poder com baixa alocação de recursos próprios na empresa. e não entre acionistas e gestores. em média. Adicionalmente.31).GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA A alta concentração da propriedade (posse de ações) e do controle (tomada de decisão) das companhias. o autor argumenta que a emissão de ações preferenciais atua como o principal mecanismo de separação entre a propriedade e controle nas companhias. Silveira (2002) afirma que esta situação reduz a possibilidade de uma postura ativa e 13 .

principalmente no que tange a maior consideração dos interesses dos acionistas minoritários e maior transparência das informações. têm levado as empresas brasileiras a uma necessidade crescente de acesso aos mercados de capitais nacionais e internacionais.REFERENCIAL TEÓRICO . “esta necessidade de obtenção de recursos ao menor custo possível tem motivado as empresas a adotarem novas práticas de governança corporativa pressionando o atual modelo de governança brasileiro”. conhecida como a Nova Lei das SAs. algumas iniciativas institucionais e governamentais também vêm contribuindo para a melhoria das práticas de governança pelas empresas brasileiras. entre as quais:   A criação do Instituto Brasileiro de governança corporativa (IBGC).34). A aprovação da lei no 11. p. em 1995.  O estabelecimento de novas regras pela Secretaria de Previdência Complementar (SPC) para definição dos limites de aplicação dos recursos dos fundos de pensão. O aumento da competitividade decorrente da maior estabilidade econômica e abertura de mercado. Além dos incentivos de mercado decorrentes do aumento da competitividade. 14 . Segundo Silveira (2002. Adicionalmente.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA independente dos conselhos. 2002. a criação dos Níveis 1 e 2 de governança corporativa e do Novo Mercado pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). corroborando a hipótese de um papel mais consultivo e figurativo do que profissional por parte do órgão” (SILVEIRA. 33).638 de 28 de dezembro de 2007. que é necessária para o cumprimento de suas atribuições legais em prol de todos os acionistas. p. além da maior dificuldade de obtenção de financiamento estatal. “a remuneração variável dos conselheiros não é adotada pela grande maioria das empresas brasileiras.

REFERENCIAL TEÓRICO . e a prática de emissão de ações sem direito a voto (preferenciais) continua a fomentar o conflito de agência entre os donos (majoritários vs minoritários). a criação dos Níveis Diferenciados de Governança Corporativa pela BOVESPA é uma ferramenta extremamente importante na tentativa de rompimento dessas barreiras. Essas iniciativas tentam romper as barreiras que impedem o avanço desse modelo de gestão nas empresas brasileiras. 15 . A solução desse conflito repousa apenas na limitação ou restrição do uso dessas ações. pelo BNDES.GOVERNANÇA CORPORATIVA LEITURA OBRIGATÓRIA  A definição. um dos pilares básicos desse modelo. uma vez que os sistemas convencionais de monitoramento e incentivo utilizados para dirimir os conflitos de interesse entre gestores e proprietários não é cabível. Por isso. Não há no Brasil ainda uma completa separação entre propriedade e gestão. da adoção de práticas de boa governança corporativa como um dos requisitos preferenciais para a concessão de financiamentos.