Contribuições do funcionalismo para as práticas de análise linguística Functionalism contributions to the linguistic analysis practice Título resumido: Funcionalismo

e análise linguística AUTOR

Resumo: Este artigo discute alguns postulados básicos do funcionalismo e algumas implicações dessa abordagem no processo de ensino e de aprendizagem da língua portuguesa. Ilustram-se as reflexões com algumas propostas de análise linguística do gênero receita culinária, destinadas a alunos do Ensino Fundamental (8º e 9º anos), as quais se encontram fundamentadas em um dos temas centrais do funcionalismo: a iconicidade. As discussões apontam que, no esteio do conceito de iconicidade sugerido pelo funcionalismo, as atividades de análise linguística em sala de aula de língua materna contribuem para demonstrar ao aluno que o autor realiza escolhas lexicais e estruturais de acordo com seus propósitos comunicativos, no caso da receita culinária, o de ensinar o interlocutor a preparar um prato culinário. Palavras-chave: Funcionalismo; iconicidade; gênero receita culinária; ensino fundamental. Abstract: This article discusses some basic assumptions of functionalism and some implications of this approach in the Portuguese teaching and learning progress. Reflections are illustrated with some proposals for linguistic analysis of the recipe genre, aimed at elementary school students (8 and 9 years), which are based on one of the central themes of functionalism: iconicity. The discussions indicate that, in the mainstay of the concept of iconicity suggested by functionalism, the activities of linguistic analysis in classroom contribute to the student to demonstrate that the author performs lexical and structural choices according to their communicative purposes, in the case of recipe, to teach the interlocutor to prepare a culinary dish. Keywords: Functionalism; iconicity; cooking recipe genre; elementary school.

Introdução Ao conceber a linguagem como instrumento de interação social entre seres humanos (DIK, 1989), o funcionalismo constitui-se como uma teoria linguística que, ao contrário das abordagens formalistas, preocupa-se em pôr em exame os vínculos entre as estruturas linguísticas e os contextos em que elas se realizam. Como essa teoria trata não apenas dos constituintes que se limitam à sentença, mas chegam à análise da instância textual, diversos linguistas e linguistas aplicados (OLIVEIRA; CEZARIO, 2007; NEVES, 2003; FURTADO DA CUNHA; TAVARES, 2007; ANTONIO, 2005) sugerem procedimentos metodológicos de cunho funcionalista para o tratamento da gramática em sala de aula, isto é, procedimentos de análise e reflexão linguística que

1

Por outro lado.20). 2 . tomando o gênero textual receita culinária. as quais se encontram fundamentadas em um dos temas centrais do funcionalismo: a iconicidade. Nessa perspectiva. O funcionalismo linguístico e suas implicações para o ensino da língua materna Podem-se constatar duas tendências antagônicas no campo dos estudos da linguagem: a formalista – representada pelo descritivismo americano e pelos diversos modelos do gerativismo – que tem como foco a forma linguística. Dessa forma. na obra “O texto na sala de aula”. que reúne várias linhas que têm em comum o fato de privilegiar a função exercida pelas formas linguísticas na comunicação. criativo e reflexivo no que diz respeito aos fenômenos que emergem no uso da língua no dia a dia. Por considerar o uso das expressões linguísticas na 1 Expressão cunhada por Geraldi (1984). p. Partimos do princípio de que se o objetivo precípuo das aulas de língua portuguesa é tornar o aluno um usuário competente da língua. AREAS. os formalistas buscam estudar a rede de dependências internas em que se estruturam os elementos linguísticos. A tendência formalista. privilegia a visão de língua como sistema. mas precisamos lhe oferecer atividades contextualizadas que instiguem e desafiem seu espírito crítico. para fazer referência aos estudos gramaticais feitos a partir do texto. não podemos mais lhe proporcionar exercícios gramaticais isolados. sujeita a pressões oriundas das diferentes situações comunicativas. herdando a concepção saussuriana de linguagem. 2003. ser confundida com o ensino tradicional de gramática. 1998). no contínuo da diversidade de gêneros textuais. objetivamos neste artigo recuperar alguns pressupostos básicos da abordagem funcionalista e discutir algumas implicações dessa abordagem no processo de ensino e de aprendizagem da língua portuguesa. o contexto discursivo. não devendo. como “um conjunto cujos elementos se estruturam num todo organizado” (MARTELOTTA. o funcionalismo observa a língua do ponto de vista do contexto da situação extralinguística – o propósito comunicativo. distantes da situação de uso. desse modo. 2003. p. e a funcionalista. portanto. excluindo os aspectos de ordem pragmático-discursiva inerentes à situação comunicativa real. AREAS. concebendo-a.privilegiam as funções exercidas pelos elementos gramaticais no contexto comunicativo. “como uma estrutura maleável. Ilustramos nossas reflexões. que ajudam a determinar sua estrutura gramatical” (MARTELOTTA. portanto em textos orais e escritos. ampliando suas possibilidades de participação social no exercício da cidadania (BRASIL. os participantes.17). a partir do qual elencamos e comentamos algumas alternativas de atividades de análise linguística1 para alunos do Ensino Fundamental (8º e 9º anos). ou seja. o que evidencia uma abordagem de construção e reflexão sobre os fenômenos linguísticos.

é a função “cortar madeira” que determina o formato da lâmina. Borges Neto conclui que “na linguística. p. a questão é semelhante: a linguagem tem a forma que tem porque é determinada por suas funções? Ou suas funções é que são ‘permitidas’ pela forma?” (2004. emergindo. Ao achar uma pedra em forma de cunha. o conflito pode ser comparado com a questão de se saber a origem da forma da lâmina do machado. da mesma forma que os funcionalistas. assim. então. com igual paixão e intransigência. ou seja. . pela multiplicidade funcional da linguagem. Rajagopalan. de forma intransigente. eleger vantagens e desvantagens de cada um deles no rol dos estudos linguísticos atuais. necessitando cortar um pedaço de madeira. como de Borges Neto (2004) e Rajagopalan (2004). No campo da linguística.15). Respondendo à questão. Sem pretensão de arrolar argumentos para instigar a polêmica. o estudioso da linguagem de filiação formalista sustenta que são as formas linguísticas que determinam as funções. Já um formalista explica que é por ter a forma de cunha que o machado serve para cortar madeira. a qual gostaríamos de recuperar nesta discussão. quebrar castanhas ou moer alimentos. “uma certa pragmatização do componente sintático-semântico do modelo linguístico” (NEVES. procurou um material com características adequadas à tarefa. bem como elencar suas possíveis contribuições para as práticas de ensino e aprendizagem da língua materna. apostam na impossibilidade de sustentar a tese da autonomia (2004. Um funcionalista explica que a lâmina do machado tem a forma que tem porque se destina ao corte de madeira. ilustra com uma metáfora interessante as diferenças entre essa abordagem e o funcionalismo.113). Borges Neto (2004).29). a análise linguística de base funcional pressupõe. os atuais formalistas são aqueles que pleiteiam. 1994. procuram definir esses modelos. das funções a forma do machado. o primata ancestral deve ter percebido que as pedras em forma de cunha eram adequadas não só para separar a pele dos animais caçados. ou seja. Nesse sentido. p. Supõe-se. p.comunicação. Diversos artigos e ensaios. Assim. adepto do formalismo. portanto. Para esse autor. de momento histórico. levantar semelhanças e diferenças entre eles. constatou que essa forma seria a adequada e criou o primeiro machado. Já o linguista funcionalista defende que as expressões linguísticas são modeladas pelas determinações pragmáticas da interação comunicativa. do que de ordem epistemológica: É importante entender como o debate sobre a pergunta: ‘O que vem primeiro: a forma ou a função?’ acaba se transformando numa questão política. partidário do funcionalismo. mas também para o corte de madeira. a autonomia da sintaxe. que o primata ancestral. reconhece que a questão é mais de ordem sócio-política.

56). p. Assim sendo. 2004. a força dinâmica que está por detrás do constante desenvolvimento da linguagem” (p. que focaliza tão-somente a própria estrutura linguística.27-28). em que falantes reais interagem e. No entanto. Furtado da Cunha e Tavares destacam a necessidade de um ensino de língua que leve em conta o funcionamento da língua nas interações comunicativas: A língua é determinada pelas situações de comunicação real.55 . pois. Neves (1997) esclarece que qualquer uma das abordagens funcionalistas tem como preocupação básica examinar o modo 4 . e considera que as regras se baseiam internamente na função. propondo uma análise funcionalista da estrutura. Ela ainda acrescenta que. Neves (1994) ressalta que o que caracteriza a concepção de linguagem defendida pela abordagem funcionalista é sua natureza não somente funcional. seu estudo não pode se resumir à análise de sua forma. um funcionalismo extremado e um funcionalismo moderado: O tipo conservador apenas aponta a inadequação do formalismo ou do estruturalismo. segundo Nichols (1984). o que depende de cada contexto específico de interação (2007.) a forma e a função são atributos inalienáveis de qualquer sistema” (RAJAGOPALAN. uma vez que “reconhece. 157). o funcionalismo contribui para uma percepção mais ampla acerca do fenômeno linguístico. consequentemente.. com textos produzidos em situações cotidianas orais ou escritas – diferentemente da abordagem formalista. não havendo.Para o autor. 1997. Definir o ”funcionalismo” é tarefa complexa. na instabilidade da relação entre estrutura e função. mas também dinâmica. Oliveira e Cezario (2007) afirmam que são os constructos teóricos de origem funcionalista que podem oferecer contribuições mais significativas para o tratamento dos aspectos gramaticais da língua portuguesa. Neves (2003). há um funcionalismo conservador. Sintetizando o pensamento básico das teorias funcionalistas. identificáveis por rótulos teóricos. p. ao aproximar a linguística da prática cotidiana da sala de aula. visto que as várias abordagens consideradas funcionalistas não são. ao privilegiar a atividade linguística real e autêntica. mas por meio dos nomes dos teóricos que as desenvolveram. como se forma e função fossem incompatíveis: “O que é importante perceber neste caso é que a forma necessariamente evoca a ideia de função e vice versa (. conforme explica Neves (1997). mas vai além.126). sem propor uma análise da estrutura. não é possível arguir em defesa de um ou de outro lado. restrições sintáticas (NEVES. em geral. O funcionalismo extremado nega a realidade da estrutura como estrutura. O tipo moderado não apenas aponta essa inadequação. Furtado da Cunha e Tavares (2007). Também. desvinculada de todas as influências que cercam sua produção e recepção. já que essa forma está relacionada a um significado e a serviço do propósito pelo qual é utilizada. p..

Neste trabalho. expressão utilizada por Hymes (1974). definida como a correlação natural e motivada entre forma e função.coveiro . “enrouquecer” e “esbravejar” que .Enrouqueceu de gritar. cavando. p. Rio de Janeiro: Nórdica. cansou de esbravejar. Tentou sair da cova e não conseguiu. maior a quantidade de forma. 2008) questionando. Millôr. desse modo. não conseguiria sair. ou seja.como os usuários da língua se comunicam eficientemente. Ninguém atendeu. 1991) Esses subprincípios relacionam-se à quantidade de informações. segundo Furtado da Cunha (2008). 2003. refletindo uma relação motivada entre o significado (quantidade/tempo relacionados ao verbo cavar) e a forma (repetição do verbo que expressa a ação de cavar). Gritou mais forte. o significado. os quais são apresentados por Givón na obra “Syntax I” (1984).. quanto maior o volume de informação. a repetição do verbo cavar fornece evidência favorável a esse subprincípio: O socorro Ele foi cavando. ou da motivação linguística.. focalizamos um dos principais centrais do funcionalismo: a iconicidade. O princípio da iconicidade. ao grau de integração dos No início do texto. na distração do ofício que amava.15). o narrador usa uma quantidade maior de formas linguísticas (repete três vezes o verbo cavar) para reforçar a ação iterativa de cavar e a quantidade de tempo que o personagem levou para cavar. desdobra-se em três subprincípios. que dissocia no signo linguístico. pondo-se sob exame a competência comunicativa.) (FERNANDES. Sentou-se no fundo da cova. na extensão das palavras: palavras derivadas. desesperado (. É o que se pode perceber nas palavras “coveiro”. para fazer referência à “capacidade que os indivíduos têm não apenas de codificar e decodificar expressões. desistiu com a noite. pois sua profissão . de tal maneira que a estrutura da construção gramatical sugere a estrutura do conceito que ela expressa. de repente.. 1997. Gritou. o significante daquilo que ele evoca conceptualmente. Mas. o dogma da arbitrariedade. 1997. mas também de usar e interpretar essas expressões de uma maneira interacionalmente satisfatória” (NEVES. A atuação desse subprincípio pode ser observada também. entre o código linguístico e o conteúdo (NEVES.era cavar. Fábulas fabulosas. cavando. veiculam uma maior quantidade de informações conceituais em comparação com as palavras de que se originam. constituintes da expressão e do conteúdo e à ordenação linear dos segmentos. FURTADO DA CUNHA et al. sozinho. No exemplo a seguir. De acordo com o subprincípio da quantidade. proposto pela linguística estrutural. Levantou o olhar para cima e viu que. FURTADO DA CUNHA. percebeu que cavara demais. Ninguém veio. mais extensas.

para defender o seu ponto de vista e convencer o interlocutor. em qualquer manifestação linguística. então. segundo o subprincípio da ordenação linear. já que inversões provocariam um desordenamento das ideias. gritou. pois demandam maior atenção no fluxo discursivo. como no sintagma nominal “calça curta”.97). depois percebeu que cavou demais.. é o indivíduo que abre covas para enterrar os mortos. p. Se os conceitos entidade e tamanho estão próximos no sentido. Podem-se citar.apresentam um volume maior de forma em comparação com as palavras primitivas (cova. por exemplo. de maneira que a ordenação dos elementos no enunciado indica a sua ordem de importância para o falante (FURTADO DA CUNHA et al. O princípio da iconicidade relaciona-se também à ordem dos segmentos no encadeamento sintático. as autoras mencionam os textos argumentativos em que o autor. nos quais os verbos. Oliveira e Cezario esclarecem que “não queremos dizer que não haja arbitrariedade linguística. Tomando-se o exemplo anterior. como seu tamanho. A questão da iconicidade contribui. sendo uma expressão mais complexa que a palavra primitiva.. O subprincípio da integração prevê que os conteúdos que estão mais próximos no plano mental são colocados juntos sintaticamente no ato comunicativo. Essas orações não poderiam ser postas em posições diferentes daquelas em que se encontram. Ampliando a discussão sobre o princípio da iconicidade. Wilson e Martelotta (2008) explicam isso lembrando o fato de os adjetivos estarem sempre ao lado dos substantivos a que se referem. mas sim que. como exemplo. previsível e imprescindível tende a ocupar o primeiro lugar da cadeia sintática. 2003). a informação mais urgente. rouco. ao produzir uma situação discursiva. fazemos escolhas lexicais e estruturais de acordo com os nossos objetivos para tentarmos conseguir sucesso na comunicação” (2007. bravo). compõe seu discurso considerando 6 . normalmente são o elemento inicial nas sentenças. e as narrativas de viagens que são ricas em detalhes e apresentam uma forte adjetivação para que o interlocutor faça um quadro mental mais próximo da realidade experienciada pelo locutor. enrouqueceu de gritar. pode-se perceber que a disposição das orações do texto narrativo reflete a sequência temporal em que as ações ocorreram: primeiro o personagem cavou. não é estranho que se mantenham lado a lado na frase. Exemplificando a questão. imediatamente acionamos suas características inerentes. Ainda. Ao pensarmos na entidade “calça”. oral ou escrita. precisa valer-se de muitos e bons argumentos. etc. os textos instrucionais. já que veiculam uma maior quantidade de informação: coveiro. para que possamos perceber que o usuário da língua. em seguida tentou sair da cova e não conseguiu. gritou mais forte. que expressam as ações a serem desenvolvidas. na sequência percebeu que não conseguiria sair sozinho.

p. propiciando uma aproximação mais positiva entre o aluno e a língua. Nas situações de ensino e aprendizagem da língua. ou seja. próprio ao estabelecimento de orientações. a análise e reflexão dos tópicos gramaticais deve se dar em textos orais e escritos.157). 2008). os livros e cadernos de receitas e embalagens de produtos. o aluno apreenda a função que os vários recursos do sistema formal da língua assumem na comunicação discursiva e. Na mesma linha de raciocínio. 2007. considerando a variabilidade da língua e a variabilidade dos textos.as diversas finalidades ou propósitos comunicativos. a lista de ingredientes (escrita na vertical) e o . tem-se como local de publicação os jornais e revistas. Nesse sentido. o leitor é alguém que deseja aprender a fazer o alimento. pode encontrar alternativas mais eficazes e criativas para o tratamento da gramática nas aulas de língua portuguesa nos níveis fundamental e médio. conforme apontam Furtado da Cunha e Tavares (2007).11). o professor. constata-se que o gênero receita culinária apresenta: o nome da receita a ser preparada. “A gramática existe somente quando utilizada. lançando mão dos estudos a respeito de iconicidade. pois eles representam em si o objeto mais apropriado para o estudo da língua. os sites. constata-se que o autor (algumas vezes não identificado e outras vezes. é de suma importância que o tratamento dos tópicos gramaticais nas aulas de língua portuguesa encontre-se relacionado ao estudo de gêneros textuais para que. desse modo. regras e ordens (DECAT. A receita culinária é uma manifestação do tipo textual injuntivo. a finalidade é levar o destinatário ou cozinheiro a obter sucesso no preparo de um prato culinário. Quanto aos aspectos composicionais. Ao comungar da ideia de Givón (1984) de que as propriedades sintáticas emergem do discurso. Para isso. passe a utilizá-los com maior eficiência. uma vez que as relações entre formas e funções gramaticais dependem da gama de fatores que interferem a cada interação comunicativa oral e escrita” (p. tendo em vista as contribuições da abordagem funcionalista de linguagem. assim. de gêneros variados. um especialista) é uma pessoa que sabe preparar determinado alimento e pretende ensinar como fazê-lo. a autora defende a indissociabilidade entre a forma e as funções discursivo-pragmáticas exigidas pelos gêneros. “há motivação para a forma de um texto ser do jeito que é” (OLIVEIRA. CEZARIO. no contínuo dos gêneros textuais. O gênero receita culinária na sala de aula: algumas alternativas à luz do funcionalismo Discorremos nesta seção acerca de algumas possibilidades de práticas de análise linguística com o gênero receita culinária com alunos das séries finais do Ensino Fundamental (8º e 9º anos). Decat (2008) destaca a necessidade de uma abordagem funcionalista para o estudo dos processos da língua em uso. Caracterizando a dimensão social do gênero.

Deixe esfriar. torna-se possível discutir com os alunos uma especificidade do gênero receita. Desligue o fogo. Misture. depois o leite 8 .E quanto ao “modo de preparo”.. não aleatoriamente.Observando os ingredientes do “Pavê delicioso”.Quanto ao uso das formas verbais. mas conforme a ordem de utilização na montagem da receita: primeiro a manteiga. Selecionamos a seguir a receita “Pavê delicioso”. Passe no açúcar de confeiteiro. que é a iconicidade na organização dos elementos da lista de ingredientes e das orações do modo de preparo. Abaixe o fogo. por exemplo. Aumente o fogo e mexa. para a qual elencamos algumas atividades de análise linguística: Pavê delicioso Ingredientes 2 colheres (sopa) de manteiga ou margarina 3 latas de leite condensado 8 colheres (sopa) de achocolatado 1 pacote de biscoito doce quebrados grosseiramente açúcar de confeiteiro Modo de preparo Unte uma assadeira retangular (40 cm X 34 cm) com manteiga ou margarina. Depois de frio. coloque 2 colheres (sopa) de manteiga ou margarina. . até soltar do fundo da panela (+/. . 3 latas de leite condensado e 8 colheres (sopa) de achocolatado. observe: . . as orações são ordenadas de modo aleatório ou obedecem a algum critério? Justifique. encontra-se repetido três vezes no modo de preparo? Por meio dessas questões.15 minutos). mexa. retirado de um caderno pessoal de receitas. pode-se dizer que a ordenação dos itens obedece a algum critério? Eles poderiam ser expostos de outra maneira? Comente. Salpique os biscoitos quebrados.modo de fazer (escrita na horizontal). Os ingredientes são expostos.Percebe-se que os períodos que formam o modo de preparo são separados por pontos. mexa.Por que razão o verbo mexer. Em uma panela em fogo médio. Despeje tudo na assadeira untada.. Essa estrutura básica pode apresentar variações. .Em que lugar da oração os verbos aparecem? Justifique sua resposta. contendo a sequência dos procedimentos que devem ser seguidos no preparo do alimento. no caso de receitas que apresentam o nome e um único agrupamento que contém o modo de fazer e os ingredientes.O que predomina no desenvolvimento das instruções: períodos simples ou períodos compostos? Por quê? . corte em quadrados do tamanho desejado. Esses pontos são necessários? Comente. ATIVIDADES: .

O que predominam na receita “Pavê delicioso”: substantivos concretos ou substantivos abstratos? Essa predominância se aplica a outras receitas culinárias? Comente. Ainda no tocante aos verbos. 2001). Por quê? Na maioria das gramáticas escolares. contribuindo para que ele não se esqueça de utilizar algum dos itens elencados. de modo que a ordem dos elementos do enunciado revela a sua ordem de importância para o falante” (MARTELOTTA. amido de milho. a ordem de elaboração do alimento. materializados pelas chamadas orações absolutas. direcionar as ações do interlocutor para prepará-lo (DECAT. No caso da receita culinária. analisando os adjetivos que aparecem na receita “Pavê delicioso”. Do mesmo modo. Observe um caderno (ou um site) de receitas culinárias e faça um levantamento dos adjetivos e locuções adjetivas que aparecem nesse gênero textual. ou seja.. Por força da função instrucional a que se presta o gênero. observa-se que no “modo de preparo” o emprego do verbo no início das orações tem motivação icônica: os verbos retratam as ações necessárias para a elaboração da iguaria e por isso ocupam a posição inicial na oração. nota-se a repetição da estrutura “mexa. 2003). sendo que cada período. Saliente-se ainda que em “Pavê delicioso”. os adjetivos são definidos como palavras que qualificam os substantivos. a distribuição das orações no texto reflete a sequência cronológica das ações descritas. correspondendo a cada etapa da receita e especificando. ou se classificam os substantivos Nome da receita Ex: Rocambole Adjetivos qualificadores Fácil (é fácil de fazer!) Adjetivos classificadores . em embalagens de produtos alimentícios. como nas demais receitas culinárias. no modo de preparo – refletindo a atuação do subprincípio da quantidade – que revela o desejo do autor de expressar a necessidade de que a ação seja realizada de modo intensivo e iterativo. mexa. Você deve ter percebido que na lista de ingredientes e no modo de preparo da receita “Pavê delicioso”. encontramos somente substantivos comuns – aqueles que se aplicam a qualquer elemento de uma classe. Verifique se esses adjetivos qualificam os substantivos. atribuem uma qualidade. em seguida o achocolatado etc. 2008. separado do outro por ponto. procurando. Discuta a validade desse conceito. as formas verbais em “Pavê delicioso” aparecem no modo imperativo. o que poderia ocasionar resultados inesperados na finalização da receita. Essa forma de organização consiste numa facilidade para o leitor. como de farinha de trigo. podemos encontrar alguns substantivos próprios. PISCIOTTA. fermento em pó. indica uma etapa do processo de preparo do prato. Ainda sobre o subprincípio da ordenação linear. assim. desse modo. mexa”. AREAS. “a informação mais importante tende a ocupar o primeiro lugar da cadeia sintática. predominam os períodos simples.condensado. No entanto.

animais. no gênero receita. em traços gerais. entidades de primeira ordem. pode-se debater que as palavras pertencentes a essa classe funcionam como um instrumento da língua usado pelo falante para dirigir a atenção do interlocutor para alguma entidade a que ele pretende fazer referência. (iv) podem ser avaliadas em termos de sua existência” (2008. processos). tratadas na escola como compartimentos estanques. exclamações) (CAMACHO et al. sem vinculação com a situação comunicativa. os substantivos são. p. tomando-se as propriedades semânticas dos substantivos. de segunda ordem (estado de coisas – ações. Nesse sentido. sendo essa de primeira ordem (indivíduos – pessoas. (iii) são observáveis publicamente. a designação de uma entidade como “biscoito” sugere que essa entidade apresenta um feixe de características que a define como pertencente à classe dos biscoitos. açúcar.. discuta: qual a importância dos adjetivos qualificadores e dos adjetivos classificadores nas receitas culinárias? Que tipo de adjetivos predomina nas receitas culinárias? A partir da discussão a respeito da iconicidade. 2008. no gênero receita culinária. de terceira ordem (entidades abstratas: crenças. apresentam as seguintes características: “(i) sob condições normais. manteiga. segundo Camacho et al. bem). pode ganhar contornos mais significativos. a classe de entidades à qual pertence o seu referente” (CAMACHO et al. manteiga. Desse modo. coisas). Verifique quais adjetivos do exercício anterior podem ser intensificados. as quais.Os adjetivos podem ser intensificados por meio de um sufixo ou por meio da anteposição de um advérbio (por exemplo: muito.32). são relativamente constantes quanto a suas propriedades perceptuais. Assim. expectativas. por se tratar de manifestação textual de tipologia injuntiva. p. Observando a receita “Pavê delicioso” e outras que você pesquisou. os substantivos – predominantes na lista de ingredientes – são concretos (biscoito. p..32). isto é. (ii) são localizadas em algum ponto no tempo e no espaço.. estados. em sua maioria. açúcar. 2008. referindo-se a entidades de existência independente. Ainda. leite). destinada a instruir o interlocutor a fazer uso de determinadas coisas/alimentos no preparo da iguaria. julgamentos) ou de quarta ordem (ilocuções que caracterizam os atos de fala – declarações. comuns (biscoito. inseridas em um gênero textual. a abordagem das classes de palavras. quanto a essa mesma classe. “denominam. ao se analisar o comportamento das categorias gramaticais no uso comunicativo. perguntas. leite). Já a presença de substantivos próprios em receitas culinárias encontra-se restrita nos casos em que o gênero é 10 .32).

testando-os face aos dados linguísticos para constatar se eles descrevem ou não a estrutura e/ou funcionamento da língua em relação ao elemento em foco. “Fica saboroso e fresquinho!”. 2008. No que se refere ao trabalho com os adjetivos. p. Por isso. qual a qualidade que está sendo conferida ao substantivo “assadeira”. tomandose a receita “Pavê delicioso”. torna-se fundamental provocar reflexões em sala de aula a respeito da validade ou não de determinados conceitos expostos na gramática tradicional. Considerações finais Para o funcionalismo. quando ele se articula com o adjetivo “retangular”? De fato. aparecem nos títulos das receitas ou na parte final. p. Questionando o rigor dos conceitos expostos na gramática e reproduzidos nas aulas de língua portuguesa. mas as funções que elas exercem nos contextos de uso. quando o autor pretende ressaltar as qualidades positivas do prato: “Receita de torta fácil”. ninguém nos desafiou a pôr essa definição à prova” (2010. identificando um referente único com identidade distinta dos demais referentes” (CAMACHO et al. nessa perspectiva. “de confeiteiro” (açúcar de confeiteiro). quando os termos ao fazerem “designação individual dos elementos a que se referem. poderíamos perguntar: no início do modo de preparo. Constata-se que no gênero receita culinária são mais comuns os adjetivos classificadores. persuadindo o interlocutor a usar/comprar um ingrediente em específico. funcionam como uma espécie de propaganda de algum produto. “Mousse super rápida de limão”. que se deve dar a abordagem dos tópicos da gramática da língua portuguesa. sob condições específicas de interação. por exemplo. Neves argumenta: “aprendemos durante a vida toda que adjetivo é a palavra que qualifica o substantivo.. “condensado” (leite condensado). De forma diferente ocorre em “pavê delicioso”. em menor número. não são as expressões linguísticas em si que interessam. para especificar ao interlocutor as propriedades que devem ter um determinado ingrediente a ser utilizado. uma qualidade (no caso. agora sim.46). O trabalho com gêneros surge.veiculado em embalagens de produtos. positiva) ao pavê. é nos textos que um falante concreto produz. Como ocorre com tudo o que se aprende de ‘gramática’ na escola. como uma alternativa para se discutir em sala de aula que as relações entre regularidades linguísticas e funções dependem de uma série de elementos que interferem na prática comunicativa diária. em uma situação real de comunicação. No esteio do conceito de . Nessa perspectiva. Os adjetivos qualificadores. “retangular” é adjetivo classificador.178). “doce” (biscoito doce). em primeiro lugar. em que “delicioso” atribui. porque restringe o conceito àquela assadeira que tem o formato de retângulo.

13.. FURTADO DA CUNHA. M. 38:109-127. p. A. TAVARES. A. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. M. Alfa. p. M. Ensaios de filosofia da lingüística.29-55 ______.) Estudos descritivos do português: história. p. R. Gramática do português culto falado no Brasil: classes de palavras e processos de construção. M.. M. M. M. In: FURTADO DA CUNHA. São Paulo: Parábola Editorial.. 2008. In: MARTELOTTA. Parâmetros Curriculares Nacionais. MARTELOTTA. C. Brasília. jul.. M. RIOS DE OLIVEIRA. 1994. n. 2003. DF: MEC/SEF. In: ANTONIO. A gramática funcional. A visão funcionalista da linguagem no século XX.ufcg. Dordrecht: Foris Publications. M./dez. Acta Scientiarum. 12 . Pressupostos teóricos fundamentais.). Acesso em 01 dez. M. (org. E. S. CAMACHO.17-28 NEVES. BRASIL. Ensino de gramática com base no texto: subsídios funcionalistas. J. M. 2007. para os estudos sobre os gêneros textuais. 1998. 2008.. G. uso. M. Referências ANTONIO. Língua Portuguesa. A. COSTA. E. São Paulo: Martins Fontes. Formalismo vs Funcionalismo nos estudos lingüísticos. J.27. Rio de Janeiro: Faperj/DP&A. o de ensinar o interlocutor a preparar um prato culinário. 173-191 DIK. 865-931. E. S. 2011. The Theory of Functional Grammar. O substantivo. p. M. 2004. as atividades de análise linguística elencadas neste artigo demonstram que no gênero textual receita culinária. M. DALL’AGLIO-HATTNHER. M. o autor realiza escolhas lexicais e estruturais de acordo com seus propósitos comunicativos. L. A. 2008. BORGES NETO. da Unicamp.edu. D. variação. Ariús: Revista de Ciências Humanos e Artes. In: FURTADO DA CUNHA. In: ILARI. Lingüística funcional: teoria e prática. São Paulo. Uma visão geral da gramática funcional. D. R. Algumas contribuições do funcionalismo e da linguística textual para o ensino de gramática na escola. Human and Social Sciences. p. v. E. Funcionalismo. Maringá. M. Manual de linguística.B.. nº 1. v. ______.2.pdf... 1989.. A. GONÇALVES. Acesso em 01/11/2011. M. (org. MARTELOTTA.. Lingüística funcional: teoria e prática. M.N. 15-24. numa abordagem funcionalista. Campinas: Ed. 2005.ch.iconicidade proposto pelo funcionalismo. p. AREAS. M. São Paulo: Contexto. RIOS DE OLIVEIRA. Carlos: Claraluz. de Janeiro: Faperj/DP&A. 1-6.br/arius/01_revistas/v13n2/05_arius_13_2_ensino_de_gramatica_com_ base_no_texto. A relevância da investigação dos processos lingüísticos. H. MARTELOTTA. S. H. 2003. DECAT. R. K.157-176 ______. p. E. 1997. NEVES. CEZARIO.. Disponível em http://www. neste caso. J.

São Paulo: Parábola Editorial. 2008. Eliana Vianna. de. MATTOS. ______. UFMG. OLIVEIRA. S. Análise lingüística: do uso para a reflexão.ileel.pdf. Harumi (org. M. Acesso em 01 dez. R. 10.ufu. nº1. M. 10. Ensaios de filosofia da lingüística. São Paulo: Contexto.. 93-128.71-85.). 171-196. In: ______. v. 2007. PCNs de Língua Portuguesa: a prática em sala de aula. M. WILSON. Para que ensinar teoria gramatical. In: Revista de Estudos da Linguagem.C. E. Manual de linguística. PISCIOTTA. PISCIOTTA. 87-108. 2002. p. São Paulo: Arte e Ciência. E. 25-33. p. n. Linguagem e Ensino: Revista do Programa de Pós-graduação em Letras / Universidade Católica de Pelotas. Arbitrariedade e iconicidade. 2. Alguns aspectos da gramática de usos na escola. CEZARIO.). RAJAGOPALAN.. 2004. Que gramática estudar na escola? Norma e uso na Língua Portuguesa. Paulo: Contexto. In: MARTELOTTA. MARTELOTTA. v. 2001. Ensino de língua e vivência de linguagem. 2010. p.______. V. PCN à luz do funcionalismo lingüístico. Funcionalismo: sobre as premissas ocultas dessa polêmica. 2011. p. . L. Disponível em: http://www. In: BRITO. TRAVAGLIA. São Paulo: Contexto. 2003.br/homepages/travaglia/artigos/artigo_para_que_ensinar_teoria_grama tical. Harumi. p. (Org. K. M. M. Temas em confronto.Linguagem e ação escolar. Formalismo vs. José Miguel de.mel. Pelotas.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful