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CYBELLINE A RAINHA MÁ Kátia Ferraz 1

CYBELLINE A RAINHA MÁ

Kátia Ferraz

CAPÍTULO I

Um grito de mulher se fez ouvir em meio à tempestade. A tormenta prenunciava o sofrimento que a presença daquele pequeno ser espalharia sobre o solo que o acolhia. Na Itália do século XVI, conturbados movimentos agitavam a sociedade. Os novos conceitos filosóficos e religiosos recrudesciam os ânimos inquisitoriais, após alguns anos de relativa paz. Era a conta-reforma, reação da Igreja Católica contra a disseminação do protestantismo, doutrina que tomava cada vez mais espaço entre o populacho. Reativando os tribunais da inquisição, os padres realizavam julgamentos absurdos e cruéis e aplicavam torturas indescritíveis, baixando sobre o mundo ocidental o terror,

confirmando a Jesus quando disse: “Eles se vestirão de púrpura e em meu nome cometerão iniqüidades”.

Na cidade de Luguiére, perdida no interior da velha Itália, a pobreza era a característica predominante. A vila se resumia a uma igreja de pedra escurecida pelo tempo e alguns casebres de madeira que ladeavam a estreita rua de terra batida. Em volta, pequenas propriedades rurais abasteciam o vilarejo com legumes, galinhas e porcos. Havia também uma taberna, onde os viajantes que porventura perdessem o caminho podiam encontrar alguns quartos miseráveis para passar a noite. Naquela madrugada, algo diferente acontecia. Em toda a cidade, escura e nevoenta, somente na taberna havia movimento e uma luz bruxuleante saía de suas janelas tortas. Maria, rapariga de dezenove anos, expulsava do ventre túrgido o filho bastardo. As dores do parto difícil quase lhe impossibilitavam a respiração, o suor abundante escorria- lhe da fronte e molhava-lhe a boca escancarada de sofrimento. Deus certamente a punia pelo pecado do adultério! Seu marido, o velho gordo e beberrão dono da estalagem, aguardava com uma caneca de cerveja preta a mastigar um pedaço de lingüiça seca. A expressão sombria não escondia o rancor que lhe fazia tremer as entranhas. Logo a esposa indigna desapareceria com os últimos traços de seu delito e voltaria a ser como antes. O que faria com o rebento, a prova viva de seu crime, não lhe importava, contanto

que se livrasse dele. Quanto ao pai do bastardo, também não fazia diferença. Por certo era um daqueles viajantes que se confundira no caminho e fora dar na maldita cidade, lugar esquecido por Deus não fosse a presença imponente do mosteiro de Luguiére. Outro grito se fez ouvir e o ribombar do trovão seguiu-lhe em coro. O choro forte da criança recém-nascida prolongou-se no ar carregado de odores gordurosos de lingüiças e cebolas, comuns a uma estalagem. _É um menino! _ Exclamou a parteira, segurando o rebento pelos tornozelos.

A mãe lançou um olhar desvairado para a criança e fez um gesto de horror. Seria

possível que Deus a quisesse punir ainda mais? Como o fruto de seu ato ignominioso podia

ser tão

...

perfeito?

O bebê era imenso, sugara todo o seu alimento, sua energia vital! Como

um pequeno vampiro, consumira-lhe as forças para se tornar um belo varão. _Leva-o daqui, Matilda! Leva-o para longe! Afasta-o de mim! _ gritou a infeliz,

descontrolada.

_Mas

...

senhora

...

Para onde levarei o menino?

_Fica com ele para ti! Dar-te-ei uma pensão para que cuides dele como se teu fosse! _ tornou a mãe exausta e aflita. _Mas tenho tantos filhos! Mais um e meu marido há de colocar-me na rua! Não, senhora! Não posso ficar como teu filho!

O menino calou-se e fitou a mãe como a entender cada palavra. Seus olhos, escuros e de estranho brilho, fixaram-se no rosto desfeito pelo medo. _Vês, Matilda? Ele tem parte com o demônio! Eu não o quero! Leva-o! Leva-o! O menino pôs-se a chorar, como a tentar sensibilizar a mulher que lhe carregara por nove meses no ventre. Mas a infeliz começou a gritar como se mil demônios a atormentassem. A parteira assustada enrolou o bebê num pedaço de linho sujo e carregou-o para fora. A senhora por certo ficara louca! Como dizer que uma criança tão bela poderia ter parte com o demônio? Fez o sinal da cruz sobre o peito e retirou-se na noite. A chuva fustigou-lhe a face provocando-lhe um arrepio de frio. Pensou que o pequenino morreria se não o aquecesse logo.

Sem saber o que fazer com o fardo, subiu na carroça e cobriu-o com a manta. Pegou a estrada lamacenta e levou consigo o enjeitado. _Pobrezinho! Tão novinho ainda e já não pode contar com a mãe! _ lamentou a velha mulher. De repente, o caminho tortuoso que a velha carroça seguia foi bloqueado. Um raio atingiu uma árvore, derrubando-a na estrada. O cavalo empinou e a custo a velha o dominou. _Calma, rapaz! _ falava enquanto puxava as rédeas demonstrando que estava ainda no comando. _Que raio de noite terrível esta! Arre! Parece uma maldição! _ exclamava enquanto aplacava o desespero do animal. Foi quando Matilda viu as luzes bruxuleantes da procissão. Eram os monges do mosteiro de Luguiére! Costumavam andar àquelas horas com suas tochas, cobertos com capuzes como almas penadas! A mulher fez novamente o sinal da cruz e pôs-se a rezar. Diziam que aqueles seres estranhos apareciam sempre que alguma coisa ruim estava para acontecer. Ninguém sabia dizer se eram pessoas em carne e osso ou se almas do além. O mais estranho era que, apesar da tempestade, as tochas permaneciam acesas!

Depois que a procissão passou, ela instigou o cavalo e prosseguiu. _Deus, que noite! _ Murmurou, levando o pequeno fardo para sua casa. Precisava limpá-lo e alimentá-lo, pensou. Depois, veriam o que fazer. Quem sabe Deus não o quereria para si? Afinal, sabia que os monges recolhiam bebês homens para torná-los servos do Senhor. Matilda continuou a viagem e chegou a casa. Logo ela e Geofrey decidiriam o que fazer com o pequeno fardo. A cabana possuía um só cômodo, pobre e desguarnecida de tudo. Matilda desceu da carroça e correu a bater na porta. Estava quase congelada com tanta água que lhe corria para dentro das vestes! A porta abriu com um rangido e uma luz bruxuleante iluminou o rosto gorducho da

parteira. O homem grande que segurava a maçaneta permitiu que ela entrasse e logo a mulher colocou o bebê ensopado sobre a mesa, iluminada por um toco de vela. Farelos de pão seco sujavam o tampo e uma caneca amassada deixava a mostra o vinho azedo que seu marido andara sorvendo. Fazendo uma careta, a mulher derrubou longe a caneca, o que provocou um gesto de desagrado do velho. _O que tens aí, mulher? Acaso não seria alguma iguaria com que aquela dona te presenteou?

_Antes fosse uma iguaria, meu velho _ resmungou a mulher,

contrariada.

_Mas olha

cá a tua refeição: um garboso menino, rejeitado pela própria mãe! Abrindo os panos, Matilda permitiu que o aparvalhado homem contemplasse o bebê. Geofrey chegou mais perto e aproximou a lanterna da peça estranha. _Estás louca, mulher! O que te deu para trazeres mais um menino para casa? Não

basta as seis bocas famintas que tenho de alimentar? Queres deixar-me à míngua? _ berrou, raivoso. _Geofrey, por favor! Não vês que acordarás os pequenos com teus rugidos? _ ralhou

a mulher para

disfarçar. _

Não entendes, homem? Não posso deixar o pequeno na rua para

morrer de frio e fome! _E podes então deixar que teus filhos morram de fome? Não percebes que não podemos mais sustentar ninguém? Leva teu fardo embora e dá para os abutres, pouco me

importa!

_Não és cristão? Não és um homem temente a Deus? Então como podes dizer tais absurdos? Ele haverá de condenar-te ao fogo do inferno por tuas palavras pecaminosas, Geofrey! _ Horrorizou-se a mulher, olhando em volta como se Deus ali estivesse a ouvir

tudo o que

diziam. _

Ajuda-me a encontrar uma solução! A senhora não quis sequer ver o

menino! Ficou completamente louca e por certo o teria matado com as próprias mãos se não

o tivesse tirado dali! O velho suspirou. Olhando novamente o menino, coçou a barba por fazer.

_Bom, é um belo varão. Podemos deixá-lo com as crianças um pouco mais até que interrompeu-se e fitou os olhos negros do bebê. Um arrepio atravessou-lhe a espinha e

...

_

Geofrey afastou-se,

rápido.

_Não! Ele não vai ficar aqui nem um dia mais! Amanhã mesmo

tu o levarás aos beneditinos e o deixará na porta do mosteiro! _Mas, Geofrey! Eu pensei ... _Tu não deves pensar nada, mulher! Somente aos homens cabe o ato de pensar, é assim que Deus quer! E agora ouve o que te digo: deixarás o menino no mosteiro e pronto! A menos que queiras ficar com ele sozinha! ... E sem mais palavras, levantou o cortinado roto que separava seus aposentos do resto da casa e desapareceu. Matilda ficou um momento a pensar, entristecida com a sorte do menino, mas depois

percebeu que seu velho tinha razão. Não poderiam ficar com mais uma boca para sustentar. Precisava pensar nos seus. Amanhã de manhã, iria até o mosteiro de Luguière e deixaria o pequeno na roda giratória. Estava decidido que assim seria.

*

*

*

A chuva não havia parado, deixando lamacentas as estradas para Luguiére. Matilda enrolou-se mais na manta e agasalhou o bebê que, desde aquela manhã, não cessara de chorar. Geofrey parou a carroça em frente aos portões do velho mosteiro e a mulher desceu, levando consigo o embrulho. Movendo uma portinhola no grande portão, girou o objeto por onde as almas piedosas colocavam oferendas para os monges e depositou ali o pequeno. Fechou-o, empurrando-o para o lado de dentro. Ela ainda pode ouvir o choro lamentoso e abafado da criança. Sentindo o remorso a corroer-lhe as entranhas, fugiu dali a fim de esquecer o que fizera. Algumas vezes, os monges não apareciam para retirar as ofertas e elas acabavam apodrecendo na portinhola. Quanto tempo o pequeno iria agüentar esperar até que um deles o recolhesse? Sem querer pensar, Matilda saiu apressada e subiu na carroça. Geofrey logo a colocou em movimento e aquela página já estava virada em sua memória. Estava certo de

que fizera o que devia e pronto. Que Deus cuidasse dos seus, afinal. Já tinha muito que fazer!

Iam longe quando um monge sorumbático caminhou até a portinhola para ver o objeto que se movia sob o cobertor roto. Ao abrir a manta, surpreendeu-se com o menino ensopado. Pegou-o, resguardou-o sob a capa de chuva e levou-o para dentro. Ainda bem que não era uma menina! Não recolhiam meninas no mosteiro e Monsenhor não raro as abandonava à própria sorte no meio da vila, junto à porta de alguém. Algumas pereciam. Não eram poucos os bebês enjeitados naquele lugar onde Deus os esquecera! Mas irmão Jacobino não temeria por aquele ser robusto! Parecia forte e logo seria mais um a engrossar as fileiras de servidores do Senhor! Com os sapatos chapinhando na lama, o monge, desdentado apesar de jovem, desapareceu com o pequeno dentro dos muros do edifício principal do mosteiro. O destino do menino estava selado. Seria um servo de Deus!

*

*

*

CAPÍTULO II

Giácomo Bernardone andou rápido pelos corredores do mosteiro. Estava com pressa e logo alcançou a sala do refeitório onde o senhor abade o aguardava. Monsenhor Joseffo estava impaciente. O velho e distinto clérigo de Luguiére voltou-se para o monge recém ordenado e fitou-o, medindo-o de alto a baixo. _Irmão Giácomo, bem se vê que continuas o mesmo, atrasando-te perdido em teus

devaneios, _ ralhou o mestre

austero.

_Não sabes que na casa de Deus tudo deve ter o

momento certo?Não te podes dar ao luxo de viveres mergulhado em teus livros, esquecendo- te de teus deveres! _Perdoai-me, monsenhor falou o jovem monge, tentando esconder certa

contrariedade. O livro que levava caiu ao chão, constrangendo-o ainda

mais. _

Irmão

Francisco avisou-me de que necessitáveis falar-me com urgência ... _Sim, eu necessito, realmente. Mas isso não é desculpa para tua indisciplina. Não és

mais um noviço tolo, rebelde e teimoso. És agora um homem, um homem de Deus e chamei- te aqui para dizer-te que deves partir o quanto antes de Luguiére. Giácomo abriu a boca, estupefato.

_ Partir de Luguiére? Mas

mas para onde?

... _Já te ordenastes e agora está na hora de seguires o teu caminho e levar Deus aos

homens sem fé! Sabes que muitos são os lugares no mundo onde ainda graça o desconhecimento do Senhor! Até mesmo alguns há que O conhecem, mas idolatram ídolos e deuses pagãos. Para estes temos um destino especial. Tu encontrarás alguns padres dominicanos e trabalharás com eles numa tarefa importante para a Santa Igreja.

_E eu poderia saber do que se trata, monsenhor? Quer dizer

eu

é claro que cumprirei

... poderia ao menos saber o que me aguarda? Jamais

minhas ordens sem objeções, mas deixei Luguiére e estou um tanto

apreensivo!

_ Giácomo gaguejava, ansioso.

de enviar um de seus monges mais competentes a fim de investigar um caso especial. Somente um dentre eles estava qualificado para o cometimento sem levantar suspeitas sobre a congregação. Giácomo era astuto e de temperamento um tanto indomável. Tinha grande inteligência, sabia ler e escrever em vários idiomas e era um estudioso das culturas e línguas mortas. Seu conhecimento dos pergaminhos antigos encontrados nos escombros de algumas escavações era impressionante. Curioso em demasia, sentia uma atração quase mórbida pelos achados em excursões aos países do oriente, assim como pelas lendas e documentos que cercavam os antigos bárbaros daquelas províncias. Algumas seitas e

hábitos estranhos eram também alvo de seu estudo e quando interrogado sobre seu interesse por tais culturas, respondera-lhe que quanto mais soubessem, melhor poderiam tirar proveito daqueles achados. Claro que monsenhor não concordara plenamente com aquilo, mas o mosteiro tinha grande suplemento desses pergaminhos e alguns padres dedicavam-se em segredo a decifrá-los. Aquilo agora viria a calhar. A oportunidade de Giácomo colocar à prova a sua filosofia se apresentara finalmente. As pessoas envolvidas na questão eram poderosas, ricas e de família distinta. Se Giácomo pudesse ajudar de alguma forma, uma grande soma em dinheiro seria doada a Luguiére. Sim, Giácomo era a pessoa certa para tal empreitada. Alguns pergaminhos importantes foram encontrados entre os objetos pessoais de um membro dessa família e talvez fosse a prova que faltava para condená-los por práticas

incompatíveis a fé cristã. Os padres dominicanos tinham certeza de se tratar de fórmulas cabalísticas. O abade aproximou-se da grande mesa de carvalho e sentou-se. Serviu-se de um cálice de vinho e um pedaço de pão. _Há quanto tempo estás sob nossos cuidados, Giácomo? Desde pequenino, quando foste encontrado na roda do portão, não é?E isso foi há vinte cinco anos! Desde esse tempo temos dado a ti todo o carinho, assistência, conhecimento, disciplina, muito embora esta última te pareça ainda tão difícil ... _Sim, monsenhor! E eu sou infinitamente grato a todos que me acolheram nesta casa! _ murmurou Giácomo, lembrando-se com arrepios dos castigos a que era submetido quando faltava com a “disciplina”, inspirado pelo “demônio”, como diziam os padres. Suas mãos, suas costas marcadas e seus joelhos feridos eram a prova das privações a que fora submetido. Um profundo rancor nascera em seu coração rebelde e ansioso. Se Deus permitia que uma criança indefesa fosse torturada para servi-Lo, não devia ser um Pai tão amoroso quanto diziam! O abade captou o brilho mordaz nos olhos escuros do monge. Giácomo não o enganava. Aquele jovem, apesar da tentativa de incutir em sua alma os sentimentos sublimes dos ensinos do Senhor, mantinha uma frieza e uma determinação no olhar que lhe eram assustadoras. Mais uma vez sentiu que a tarefa seria perfeita para ele. _Giácomo, deves seguir até a ilha de Mür, onde te apresentarás aos padres dominicanos. Lá, eles te dirão o que deves saber. Nada mais posso adiantar-te, pouco sei e

quando for o momento, tudo será

esclarecido. _

Levantando-se, o velho envergado retirou

um objeto do bolso embutido na batina e estendeu-lhe. _Toma! Leva contigo este crucifixo para que tudo o que fizeres, o faças em nome do Senhor! E que ele te sirva de inspiração aos teus julgamentos assim como aos teus atos. Agora, vai e arruma tua bagagem. Amanhã de manhã, seguirás para a ilha de barco.

Despede-te dos teus afeiçoados e vai com Deus, filho!

Giácomo ainda ficou um momento a fitar o abade sem saber o que dizer. Depois, percebendo que a entrevista já estava terminada, virou-se e saiu, tentando segurar os passos apressados. “O que lhe reservava o destino?”, perguntava-se enquanto caminhava para seus aposentos - uma cela simples, de dois por dois, com uma pequenina janela que deixava passar uma réstia de sol e um catre com um colchão coberto de pulgas que se alimentavam de seu sangue. Um móvel guardava seus poucos pertences e um livro negro estava roto de tão manuseado. Não era a bíblia, mas sim um tratado grego de filosofia. Mantinha-o escondido para que pudesse lê-lo. Naqueles tempos difíceis, se o pegassem com tal obra fora da sala de estudos enfrentaria os tribunais! Enquanto guardava seus pequenos objetos um camisolão para dormir feito de algodão cru extremamente desconfortável, uma batina amarelecida e alguns livros mais sua mente não parava de questionar. Encontrar-se com padres dominicanos? O que tinha a ver sua pessoa com eles? Em que poderia ser útil se nada sabia do mundo lá fora? Pendurando cuidadosamente o crucifixo na parede, sentou-se sobre o leito e colocou a cabeça entre as mãos. A Ilha de Mür! Onde ficava? Nunca ouvira falar em semelhante lugar! Suspirando, resolveu deitar-se, mas antes a força do hábito o fez ajoelhar-se no meio do quarto e orar fervorosamente ao Senhor. _Senhor dos Exércitos, Deus das destemidas ordens que Te seguem os passos, orienta o meu rumo, dá-me a Tua força e Sabedoria para servir-Te com dignidade, trazendo para Ti as almas transviadas e ajudando-Te a aumentar o Teu Santo Exército! Deixa-me ser o Teu servo, O Teu braço direito, ó Senhor! E não Te arrependerás do Teu mais fervoroso seguidor! Assim eram as orações de Giácomo, cheias de fogo e sacrifício! Oferecia a Deus os seus préstimos, mas desejava também o seu quinhão. A humildade estava longe de ser uma das virtudes do jovem monge. Levantou-se e jogou-se sobre o leito empoeirado. Amanhã seria um longo dia! Não se despediria de ninguém, não tinha afeição por qualquer um de seus preceptores ou colegas de jornada. Não eram nada! Somente um monte de tolos medíocres, um mal necessário em sua existência! A Ilha de Mür seria a oportunidade de mostrar seu verdadeiro valor. Chegou mesmo a sorrir antecipando os acontecimentos. Daria o melhor de si e Deus veria o seu sacrifício. Sonhava um dia ser abade em Luguiére e agora seus sonhos poderiam tornar-se realidade! Ao partir na manhã seguinte, Bernardone esqueceu-se do crucifixo que monsenhor lhe dera de presente, pendurado na parede de sua cela.

*

*

*

CAPÍTULO III

Sentado no barco, Giácomo observava enquanto ancorava às margens do rio. Estava escuro e uma neblina espessa cobria todo o lugar, impedindo-lhes a visão da ilha.

“Que lugar sinistro!”, pensou ele.

Mas não se incomodou. Na verdade, não tinha medo de nada. Sua fé em Deus e em

seus poderes como servidor do Senhor o protegia das mínimas agressões e intempéries. Depois, quem tivesse vivido no mosteiro como ele, certamente estaria preparado para qualquer sofrimento!

O velho marujo que o levara até ali levantou-se e prendeu a corda no cais. Logo, Giácomo vislumbrou duas figuras negras como aves de rapina a esperá-lo na margem. Seriam os frades dominicanos que o abade lhe falara?

Descendo da “barca de Caronte”, foi ao encontro dos dois padres. Um deles segurava

uma lanterna e levantou-a para iluminar-lhe a fisionomia. O outro permanecia de semblante fechado e olhar austero. _Giácomo Bernardone, suponho _ falou finalmente o da lanterna. _Sim, sou eu mesmo. Monsenhor abade de Luguiére mo enviou _ respondeu, solene. Os dois entreolharam-se e balançaram a cabeça como a duvidar da sanidade do abade. Afinal, Giácomo era muito jovem para a missão que tinham pela frente. _Garanto-vos, senhores, que preencho os requisitos necessários para a tarefa que me foi destinada ou o senhor abade jamais mo indicaria.

_Bom _ o da lanterna suspirou, dando de Agora, onde está a tua bagagem?

ombros. _

Esperemos para ver, então.

_Minha

...

Oh,

eu não tenho muita coisa! Somente algumas mudas de roupa me serão

suficientes _ respondeu Giácomo, escondendo o constrangimento. Era um monge, o que eles queriam afinal? Uma arca de tesouros?

Os dois novamente trocaram olhares como se conversassem por pensamento e

Giácomo achou-os irritantes. Eles o estavam tratando como a um tonto! _Providenciaremos algumas vestes a mais para ti, irmão Giácomo. O que tens a fazer precisa ser bem feito e sem roupas adequadas ...

_Como desejar, senhores. Não me lembro de vossos nomes

Cortou ele, rude.

..._ _Não o dissemos ainda. Sou irmão Ambrósio e este é irmão Estêvão _ tornou o da

lanterna. O outro somente o fitara e Bernardone imaginou se ele não era mudo ou coisa parecida.

_Irmãos, eu garanto que poderei executar a tarefa que me foi designada ainda que

dela nada saiba.

Irmão Ambrósio sorriu pela primeira vez.

_Talvez sim, talvez não. Esperemos que sim. Agora, vamos! É muito tarde e piratas

costumam invadir a ilha por estas horas da noite.

Giácomo olhou em volta, apreensivo. Que raio de lugar era aquele? Vendo que os

outros dois afastavam-se a passos largos, resolveu segui-los sem perda de tempo.

“Piratas? Ora essa!”

Mais a frente, subiram numa carroça e prosseguiram rumo ao pequeno povoado de

Mür.

Casebres pobres e algumas lanternas espalhadas davam uma idéia do estado precário

em que viviam as pessoas do vilarejo. Não pararam, ao contrário, afastavam-se cada vez

mais da cidadezinha e prosseguiam floresta adentro. Pouco depois, pararam diante de dois

grandes portões de ferro e Ambrósio desceu para tocar um sino pendurado num dos muros

altos. Logo os portões se abriram e puderam entrar. Olhando para trás, Giácomo viu um

corcunda fechando-os.

A tudo ele observava com extrema curiosidade. Não perdia um detalhe sequer. Sua

mente analítica registrava tudo, guardava cada movimento.

Extensos e bem cuidados jardins ladeavam a estrada de pedra e ao longe viu a

construção monumental no final do caminho.

_Onde estamos, irmão Ambrósio? _ ousou quebrar o silêncio dos padres enquanto

paravam e desciam da carroça.

_Na residência do bispo, irmão Giácomo. Não te impressiones com as aparências. As

belezas pecaminosas da luxúria habitam este castelo tanto quanto as virtudes” do nosso

benfeitor.

Giácomo jamais vira residência tão esplêndida! Afinal, nunca saíra de Luguiére a não

ser para ir ao povoado pobre de sua cidade.

Dissesse o que quisesse irmão Ambrósio, não se poderia negar a riqueza dos móveis e

objetos que enfeitavam a mansão, as pinturas e frisos de ouro que decoravam as paredes, os

candelabros de bronze cheio de gotículas que imitavam os diamantes e os belíssimos

afrescos que retratavam os santos do Senhor!

Jamais imaginara que uma residência pudesse ser tão

fabulosa!

...

_Vem, Giácomo! _ despertou-o

Ambrósio.

_Vou mostrar-te os teus aposentos e

amanhã de manhã, logo após as orações, falaremos sobre tua missão.

Giácomo os seguiu escada acima. Sem deixar de contemplar as maravilhas, o padre

prosseguia sem perder nenhum detalhe. As paredes recobertas de quadros antigos com

fisionomias austeras e nobres tinham molduras muito bem entalhadas e o corrimão em

madeira reluzente era uma obra de arte!

Os aposentos de Giácomo o deixaram perplexo! Parado no meio do quarto imenso,

parecia patético aos olhos dos dois padres com sua pequenina sacola e sua cara de espanto.

Ele olhava em volta, boquiaberto. O ouro das peças que havia ali daria para sustentar todos

os pobres de Luguiére!

Voltando-se para os padres, questionou-os:

_Irmãos, acaso não se enganaram? Estes aposentos são dignos de um rei!

_Não, irmão Giácomo. Serão teus aposentos enquanto permaneceres nesta casa _

respondeu Ambrósio.

_E tu? Estás também hospedado aqui?

Ambrósio sorriu e olhou para o outro que continuava calado.

_Sim, nós estamos no andar inferior. É mais fácil para nós. Subir estas escadas já

não nos é tão atraente, afinal. Os anos passam também para os servos de Deus, meu amigo.

_E o que devo fazer então?

O padre parecia perdido, muito embora tentasse aparentar segurança. Irmão

Ambrósio chegou mesmo a sentir um laivo de compaixão apesar do olhar intimidador do

rapaz.

_Traremos roupas mais adequadas para ti e uma tina de água quente para que te

banhes. Depois, descerás para comeres alguma coisa e amanhã cedo faremos as orações na

capela. Então, o bispo te esclarecerá sobre tua missão. Agora, fica com Deus, irmão

Giácomo.

E fecharam as portas.

Giácomo soltou o ar dos pulmões e observou melhor o ambiente, finalmente à

vontade.

A cama antiga era enorme e parecia muito confortável. No chão, tapetes finíssimos

cobriam as pedras frias e objetos que eram verdadeiras obras de arte oriental estavam

espalhadas por toda parte! Giácomo sabia que pertenciam aos tesouros pilhados pelos

cruzados e entregues à Igreja como espólio de guerra. Mas em seu mosteiro pobre não havia

nenhum vestígio dessas jóias preciosas, considerou com ironia.

Era mesmo um quarto digno de um rei! Se o seu aposento lhe parecia demasiado

rico, imaginava como não deveriam ser os apartamentos do bispo!

Um grande espelho polido cobria parte de uma parede. O quarto de vestir possuía um

grande armário e ele sorriu ao jogar a pequena bagagem dentro dele. Jamais tivera luxo

parecido! Vivera toda a vida em cela pequena e sem ar, com a cama dura e barulhenta e a

água suja na velha caneca amassada.

Giácomo pensou que iria gostar muito daquela experiência. Seria sua alma

corrompida pela luxúria? Talvez já tivesse se deixado corromper antes mesmo de chegar a

Mür. Seus sonhos de grandeza o condenavam!De qualquer maneira, estava ali por causa

Igreja, então não seria pecado usufruir o que o céu lhe oferecia...

Giácomo deixou as reflexões de lado e começou a despir-se. Estava em camisas

quando uma jovem camareira entrou. Com as faces tintas de vermelho, o padre observou-a

andar até à cama e estender o novo traje sacerdotal que o bispo lhe enviara. Uma capa de

veludo fora acrescentada ao traje e o crucifixo em ouro, cravejado de pequenos rubis que

deveria usar na cintura, ela o pendurara cuidadosamente na cabeceira do leito.

Giácomo analisou a roupa, agradavelmente surpreendido. Não se lembrava de algum

dia em sua vida ter usado algo tão fino e macio!

A jovem camareira, linda como um daqueles anjos das pinturas que vira nas paredes,

olhou para Giácomo e deu um pequeno sorriso. Os olhos do jovem clérigo brilharam de

admiração. Não havia mulheres no mosteiro de Luguiére e nas poucas ocasiões em que

tivera contato com o sexo oposto jamais vira uma criatura tão bela!

_O senhor bispo mandou que vos trouxesse os trajes para a ceia, senhor. Ele vos

aguarda na sala de refeições.

_Muito grato, signorina

...

esconder-se.

_ agradeceu, cobrindo-se com a velha batina, tentando

A menina deu um sorriso divertido.

_Rafaella,_ respondeu e lançando um olhar malicioso que não combinava com a

inocência de sua face, completou antes de retirar-se _ meu nome é Rafaella e estarei ao

vosso dispor, signore.

“O novo padre era muito bonito!”, pensou ela, já nos corredores. Contaria às outras

companheiras a novidade. Esperava que o padre permanecesse mais tempo na mansão!

Giácomo não era bonito, mas as mulheres o achavam bastante atraente! Não possuía

a beleza tradicional de feições finas e pálidas, como ditava a moda da época. Podia mesmo

ser descrito como rude, os ossos da face eram angulosos e os traços, duros. Os cabelos

anelados e negros e a boca bem desenhada chamavam a atenção. Contudo, eram os olhos

que atraíam ...

ou repeliam! Como duas contas de ônix, possuíam um brilho assustador!

Poucos conseguiam encará-lo por muito tempo.

Retirando a camisa de uma vez, resolveu banhar-se rápido. Estava faminto e louco de

curiosidade para saber o que o bispo tinha a dizer-lhe.

Vestiu-se saboreando a maciez do tecido sobre a pele arranhada pelas vestes de

algodão cru. Olhando-se no espelho, admirou-se do efeito que um simples traje fizera sobre

ele.

Colocando a faixa em torno do pescoço, apreciou o que viu. Depois, pegou o crucifixo

e observou-o, tocando com as pontas dos dedos as pequenas pedras. Pareciam lágrimas,

lágrimas de sangue, o sangue do Crucificado.

Prendendo-o em volta da cintura, examinou-se novamente.

O queixo liso e barbeado e os cabelos lavados da poeira e gordura de Luguiére fê-lo

sentir-se como nunca antes. A vaidade era um pecado, mas via-se forçado a reconhecer-se

um belo exemplar. O ângulo de seu maxilar, o queixo levemente erguido demonstravam que

também a humildade não era uma de suas virtudes.

Sorriu, divertido. Se os outros companheiros o pudessem ver agora

...

Eles usavam

roupas escuras e simples porque as mais claras sujariam com muita facilidade, concluiu.

Imaginou-se andando no lamaçal de Luguiére com aquela batina tão alva e macia! Logo

mudaria de cor!

Respirando fundo, preparou-se para ir ao encontro do bispo.

Pegando um dos candelabros, seguiu pelo corredor e desceu as escadas. No saguão,

ficou um tanto perdido, mas a jovem camareira novamente apareceu e veio em seu socorro.

Giácomo sorriu-lhe.

A signorina Rafaella era muito agradável e ficou satisfeito em revê-la.

A moça caminhou à sua frente e guiou-o pelas infinitas salas e ante-salas antes de

entrarem num grande aposento oval. Se até agora a casa o impressionara, não tinha

palavras para descrever o salão principal tal a beleza e o luxo que o adornavam! A mesa

imensa estendia-se por todo o centro e candelabros de cristal com todas as velas acesas

iluminavam tudo, não deixando nenhuma nesga de sombra. Na ponta da mesa sentava-se um

sacerdote ricamente trajado e com muitas jóias! Um imenso anel de rubi no dedo anular

soltava reflexos vermelhos à luz das velas.

“E ele usa peruca!, constatou, surpreso e divertido.Giácomo pensara que somente os

nobres tinham aquele hábito engraçado.

“O bispo de Mür!”, murmurou para si mesmo. Sozinho,o velho servia-se de um lauto

jantar, muita comida para um só homem! E não parara de comer para recebê-lo!

Sem saber se devia interrompê-lo, preferiu esperar.

_Homem de Deus! O que fazes aí parado? Vem e senta-te aqui comigo. Deves comer

ou tua magreza não te permitirá servir ao Senhor! _ falou o bispo, de repente, com voz de

trovão.

Giácomo apressou-se em obedecer.

Já ao lado do bispo, cumprimentou-o respeitosamente.

_Certo, certo. Agora, senta à minha direita. Rafaella vai servir-te.

O padre sentou-se e a jovem lhe serviu um pouco de sopa. O perfume da menina o

deixou inebriado! Ficou observando seus movimentos graciosos. Rafaella, vez por outra,

roçava propositadamente o braço em seus ombros, agitando-lhe o sangue nas veias.

_Deus! Acho que te impingiam grandes jejuns! _ reclamou o bispo ao ver o quão

pouco comia.

Vermelho, Giácomo observou impotente o bispo encher-lhe o prato com carnes e

outras iguarias. Ficou horrorizado com a quantidade absurda de comida à sua frente,

sentindo o estômago embrulhar. Jamais conseguiria comer aquilo tudo!

_Agora come, filho! Deus não quer esqueletos como servos! Quer soldados, homens

fortes e valentes!

“E gordos?”, pensou Giácomo, mordaz.

E ele teve que comer até não poder mais. O que ainda era pouco para o homem

enorme que lhe servia pessoalmente.

Depois da refeição, a quantidade exagerada de vinho que o clérigo lhe obrigara a

tomar deixou-o literalmente bêbado.

_Excelência, onde estão os padres Ambrósio e

...

como

é mesmo

o

nome? _Pode

perguntar através de uma nuvem espessa que lhe invadia a mente.

O Bispo riu.

_Poucos se lembram, meu jovem! Estêvão não é muito de falar e por isso sua presença

passa despercebida entre tantos! Contudo, aconselho-te a não ignorá-lo. Tão calado é

quanto observador e influente. Fala pouco, mas quando o faz, pode condenar alguém ao

inferno! Agora respondendo à tua pergunta, eles não estão aqui. Já seguiram à tua frente e

amanhã deverás seguir também.

_Seguir? Mas

para

onde devo ir, senhor?

_Para o castelo, meu filho! Onde mais?

_Oh

...

_ falou um frade aparvalhado. Não tinha a mínima idéia de nada! Parecia que

todos sabiam de seu destino, menos ele. Mas sua cabeça girava e o estômago revoltava-se

pelo excesso de alimento, por isso resolveu fazer de conta que estava tudo certo.

Vendo a palidez súbita do padre, o clérigo mandou que Rafaella o ajudasse a subir

aos seus aposentos.

Prontamente, a jovem postou-se ao seu lado. Ajudando-o a erguer-se, dirigiram-se às

escadas. Para Giácomo, elas pareciam não ter fim!

_Senhor padre

...

Apoiai-vos em meus ombros.

Giácomo olhou para a moça delicada e sorriu, imaginando como um ser frágil

daqueles poderia suportar seu peso. Entretanto, a ajuda de Rafaella foi primordial e talvez

sem ela jamais tivesse chegado aos aposentos.

No quarto, a moça o ajudou a deitar-se e lhe tirou as sandálias, massageando-lhe os

pés.

_Hum ...

Isso é muito bom! _ murmurou ele, suspirando de prazer. Em tempo algum,

mãos tão macias tocaram-lhe os pés! Jamais uma mulher o acariciara, nem mesmo sua mãe!

Não fosse o fato de saber que não poderia ter nascido sem mãe, acreditaria que jamais

tivera uma.

Fechando os olhos, Giácomo deixou-se envolver em novas e inebriantes sensações,

para ele até então desconhecidas. Sentindo a languidez invadir-lhe os membros, usufruiu

daquelas carícias desejando que nunca acabassem.

Quando as mãos de Rafaella afastaram-se de seus pés, ele protestou em meio às

nuvens que lhe toldavam o raciocínio. Cada fibra de seu corpo pareceu ressentir-se da

ausência de mãos macias e dos carinhos de que fora privado por tantos anos!

_Não vá, por favor ...

_ pediu, segurando-lhe os pulsos. Sentando-se no leito,

observou-lhe o rosto angelical, e encantado tocou-lhe a face com as pontas dos dedos

trêmulos. Ela estava tão próxima que podia sentir-lhe o hálito perfumado.

Novas correntes de energia percorreram-lhe o corpo e um brilho febril escureceu-lhe

ainda mais os olhos, dilatando-lhe as pupilas. Os músculos estavam tão tensos que se

assemelhavam às cordas das harpas! As mãos tremiam e um calor incontrolável agitou-lhe o

sangue.

Atraído por uma força tão primitiva quanto o próprio homem, Giácomo segurou-a

pela nuca e com um suspiro profundo, tocou-lhe os lábios com os seus. Ao sentir-lhe a

maciez da boca, Giácomo perdeu toda a lucidez e uma verdadeira tormenta explodiu dentro

dele.

Macios! Como eram macios e quentes os lábios de Rafaella!

Rafaella, que se encantara pelo jovem padre desde quando o vira pela primeira vez,

não opôs resistência ao seu toque e nem quando ele a puxou para o leito, levando-a consigo

para um abismo de loucura.

Sequioso, faminto de um alimento que lhe faltara por toda vida, Giácomo abraçava-a

e beijava-a com paixão, consumindo-se em fogo ardente.

Não desejava parar

...

ou não tinha forças para parar! Em vão, a consciência o

alertava, em vão seus anos de sacerdócio o conclamassem ao equilíbrio! Giácomo

Bernardone nada ouvia, apenas sentia!

Na manhã seguinte, o antes ingênuo padre percebeu que havia cometido mais um

pecado capital: deixara-se levar pela luxúria! Tivera pela primeira vez em seus braços o

corpo macio de uma mulher!

Como Adão, envolvera-se nos encantos de Eva e perdera o paraíso!

*

*

*

CAPÍTULO IV

A capela estava iluminada pelos raios do sol. Os vitrais coloriam as paredes com seus

reflexos. Era um bonito lugar, diferente do aspecto lúgubre do mosteiro de Luguiére!

Giácomo acendeu uma vela e ajoelhou-se diante da imagem de Nosso Senhor. Não se

lembrava muito bem dos detalhes da noite passada, mas a presença de Rafaella em seu leito

estava bem fresca em sua mente! O corpo desnudo da jovem camareira, os cabelos macios e

perfumados espalhados em seu travesseiro e aquela sensação misteriosa em seu corpo não

o enganavam quanto ao ocorrido.

Assustado, levantara-se e mandara a mulher embora. A pobre somente tivera tempo

de enrolar-se num lençol e sair correndo pelos corredores.

Agora, diante do Senhor, não sabia o que dizer ou fazer para desculpar-se de sua falta

irremediável. Deveria confessar-se e pagar um tributo ou talvez se flagelar como muitas

vezes fora obrigado a fazer no mosteiro, a fim de domar seu espírito rebelde?

Não conseguindo concentrar-se numa oração, pois terrível sentimento de culpa lhe

invadia a consciência, resolveu conversar com o bispo e pedir-lhe alguns conselhos.

Encontrando-o em seu gabinete particular, pediu permissão para entrar.

_Meu caro Giácomo! _ cumprimentou-o o bispo, largando o tinteiro e a

Tivestes uma excelente noite, suponho.

Giácomo corou fortemente.

pena.

_

_Ora, meu rapaz! Mas o que tens? Algo te atormenta?

_Senhor

Sim, Excelência

... ...

algo aconteceu ontem à noite e sinto que minha alma está

condenada ao inferno! _ desabafou, angustiado.

O bispo olhou-o piedosamente.

_Meu filho

...

Não

sabes o que dizes! Conta-me o que fizestes de tão terrível!.

Giácomo sentou-se pesadamente e baixou a cabeça, pois não tinha coragem de olhar

para o bispo.

 

Senhor, eu pequei! Eu pequei porque não resisti aos prazeres da carne!Fui enganado

por Satanás

..._

Murmurou, aflito.

_Não resististes aos

...

Mas o que dizes, padre? Porque não falas com clareza?

_É-me penosa a confissão de meus desatinos, Excelência!

_Mas estou aqui para ouvir-te! Como te ajudar se não confias em mim?

_Tendes razão, Excelência! Perdoai-me! _ limpando a garganta, ele

começou.

_

Rafaella, a moça que me auxiliou tão bravamente

...

Eu conspurquei vossa confiança,

Excelência! Seduzi vossa jovem e inocente criada e agora

...

agora sou indigno de carregar o

título que por tantos anos lutei ...

O bispo ouviu e finalmente entendeu, dando uma gargalhada. Giácomo olhou-o com

estupefação.

_Perdoa-me, meu jovem e inocente amigo! Primeiro: Rafaella está longe de ser uma

donzela e segundo, acredito que ela te seduziu e não o contrário! Depois, Deus haverá de

considerar a tua missão e o quão és importante para Sua Causa entre os homens. Acaso não

sabes que muitos são os clérigos que não obedecem ao dogma da castidade? Com tantos

nobres tomando para si títulos da igreja, achavas mesmo que seriam castos como o Cristo?

Giácomo ficou acabrunhado. Nunca pensara em semelhante absurdo! Como era

possível?

_Meu jovem rapaz! És novo e tuas experiências apenas começaram. Não se turbe teu

coração por algo tão

remediável!

Além do mais, se o Cristo perdoou à mulher adúltera e

disse que não pecasse mais, então

O

que não diria a ti, que és um servo de Deus?

Giácomo observou o semblante do homem que deveria orientá-lo a não mais pecar, a

perdoá-lo em nome do Senhor. Se ele o dizia, se ele lhe mostrava o quão pequeno fora seu

delito, então não deveria aceitá-lo? Afinal, não estava investido da autoridade necessária,

não era seu superior hierárquico?

Fosse para aplacar a consciência, fosse para sentir-se menos impuro, Giácomo

aceitou com alívio o argumento sofista do velho bispo. Homem conhecedor da natureza

humana, já vira muitas coisas e ignorara tantas outras, devia saber do que falava.

Giácomo suspirou e tentou sorrir.

_Eu aceitarei a punição, Excelência, e a cumprirei para redimir-me _ falou com

humildade.

_Tua punição será servir-me, meu amigo. Estás sob grandes transformações e tenho

para ti uma tarefa um tanto espinhosa. Deverás confrontar muitas vezes a tentação, de

todas as formas possíveis, e não te deixares sucumbir por elas _ tornou o bispo, dessa vez

em voz grave.

_Estarei sempre ao vosso dispor, Excelência.

_Sim, é o que espero de

E pegando um documento enrolado e muito velho, deu-o

ao padre.

O jovem segurou com cuidado o objeto e franziu o cenho.

_É muito antigo este pergaminho! O que devo fazer com ele, Excelência? _ perguntou

tomando muito cuidado para não danificá-lo. Ele venerava os documentos antigos como

aquele! Quando fora a última vez que vira algo semelhante?

_Isto, meu caro, é um documento encontrado no castelo de Mür. Está escrito em

língua antiga e é muito especial! Vamos, abra-o!

Giácomo sentiu um frisson. Cuidadosamente abriu o pergaminho.

_Oh ..._

murmurou, deslumbrado. Seus olhos brilhavam extasiados.

_Podes identificar a linguagem, Giácomo?

Ele fitou o clérigo, surpreso. O bispo o testava?

_Sim, eu posso. É aramaico, Excelência! Nada mais, nada menos.

_Sim, é aramaico. O idioma do Senhor! Contudo, existem sinais diferentes, algumas

palavras que não conhecemos

...

Talvez, tu as possas identificar.

_ Sim, com certeza, Excelência! Algumas destas palavras que somente vi iguais em

outros pergaminhos muito antigos que tive a oportunidade de

murmurava, admirado.

examinar... _

Giácomo

_Por certo não encontrarás dificuldade alguma em traduzi-lo, suponho ...

_Não, Excelência! Não me será difícil traduzi-lo. É esta a tarefa que me aguarda?

O bispo recostou-se da cadeira de espaldar alto. Conhecia o aramaico o suficiente

para saber que era importante o documento. Avaliando o jovem monge, percebeu que

Joseffo não fora tolo em decepcioná-lo. Talvez tenha enviado o melhor de seus pupilos,

apesar da pouca idade.

_Não, não é, meu amigo. Deverás partir para o castelo de Mür ainda hoje, agora

mesmo, aliás! Encontrarás os padres dominicanos à tua espera. E lá, saberás de mais

detalhes. O que te posso adiantar é que existem outros desses documentos entre os tesouros

dessa família. Cybelline, porém, os guarda a sete chaves! Nós os queremos! Desejamos

saber o seu conteúdo secreto. Os padres desconfiam de fórmulas mágicas repletas de

heresias, mas eu sei que não o são! Acredito que sejam coisas perigosas, conhecimentos

ocultos que não podem vir a domínio público! Tratados que poderiam prejudicar a Santa

Madre Igreja se caírem em mãos erradas! E o Papa os quer! Compreendes agora o que

deves fazer, Giácomo? Entrarás no castelo como confessor da rainha e terás oportunidade

de resgatar estes documentos!

Giácomo levantou-se, escondendo a desconfiança. Havia um mistério e pela aflição do

clérigo, era coisa muito, muito importante mesmo!

_Mas, Excelência! Como poderei incumbir-me de tarefas que me parecem fora de

minha capacidade e experiência? _ retorquiu com falsa humildade. Na verdade, sentia um

frêmito de prazer pelo que poderia conseguir do bispo. Pressentia o interesse acentuado do

velho gordo.

_Estás capacitado, Bernardone. Caso contrário, Joseffo não mo teria indicado. E este

será o teu sacrifício em nome de nossa causa! Depois, o confessor da rainha foi afastado e

mandado de volta ao condado. Cybelline solicitou-me que providenciasse outro confessor e

encontramos a oportunidade que precisávamos.

_ Excelência, quem é Cybelline?

_Cybelline era soberana em nação próspera, porém a cobiça mora no coração dos

entes mais queridos e seu irmão mais novo, Gregório, deportou-a e usurpou-lhe o trono

depois que o marido morreu misteriosamente. Parte da nobreza manteve-se fiel ao antigo rei

e seguiu-a até aqui, a Ilha de Mür. Os que não vieram de livre vontade, o fizeram a mando

do novo soberano. Cybelline está proibida de deixar a ilha e os soldados a vigiam para que

não fuja. Para garantir que a irmã não retornasse e exigisse novamente o trono, Gregório

tratou de enviar-lhe tudo o que lhe pertencia, inclusive permitiu que utilizasse o título de

soberana de Mür. Dizem que ela guarda grande fortuna em seus cofres secretos! De

Cybelline nada se duvida! Ela reina em Mür como se reinasse em suas próprias terras e seus

súditos a obedecem cegamente. Por isso terás que lhe conquistar a confiança com muito

cuidado. É uma mulher extraordinária e muito, muito esperta! Tentará envolver-te em sua

teia de admiradores, com certeza! Contudo, confiamos na tua fé e na vontade de servir ao

Senhor!

Giácomo ficou a imaginar que figura interessante deveria ser a rainha de Mür!

_ Giácomo, encontra os documentos para o nosso Papa! Então, serás devidamente

recompensado!_tornou o bispo.

Giácomo andou até as grandes janelas abertas para o pátio lá embaixo e ficou

analisando sua situação.

Qual o critério que utilizaram na escolha de sua pessoa? Haviam vislumbrado seu

espírito ambicioso? Sabiam, o bispo e Joseffo, o quanto ele desejava, ansiava mesmo, por

uma oportunidade como aquela?

Desde que entrara na casa do bispo, almejara cada peça, cada móvel, cada detalhe

daquela propriedade magnífica! E sabia que jamais possuiria algo semelhante pelas vias

naturais! Agora, via a oportunidade de finalmente ser alguém importante, de nunca mais

voltar para sua maldita e miserável cela no mosteiro de Luguiére!

Luguiére! E pensar que desejara ser um simples abade em tão

...

medíocre lugar!

_Se eu conseguir estes papéis que tanto almejais, Excelência

O

que estareis disposto

a dar-me em troca?

O Bispo fitou Giácomo com olhos de rapina. Agora sim, o padre estava mostrando sua

verdadeira face! Estavam falando a mesma língua, finalmente! Mais uma vez admirou

Joseffo por sua malícia e estranho senso de humor. O abade de Luguiére o conhecia bem e

sabia que para a tarefa que tinha em mente deveria selecionar um homem ambicioso como

aquele jovem de olhos escuros e insuportáveis!

_Olha à tua volta, Giácomo! Tudo o que tenho conquistei com minha devoção e

algumas coisinhas a mais! Sou um homem influente e poderoso em Mür! Mas nada sou em

Roma! Desejo um posto de Cardeal, meu caro! E se eu conseguir estes documentos, terei o

eterno agradecimento do Papa e também um posto definitivo na Igreja! Poderei inclusive

concorrer ao Papado!

_Sim, eu posso entender. Mas

...

e

quanto a mim? Terei também a minha parte? Almejo

servir ao Senhor e qual melhor lugar para isso que não aqui, em vosso castelo?

_O que queres dizer?

_Vossa Excelência será Cardeal e eu

...

serei

o novo Bispo de Mür. Afinal, não podereis

mesmo estar em dois lugares ao mesmo tempo, quando vos tornardes Cardeal!

O Bispo quase engasgou. Era mesmo muito ambicioso, o jovem padre!

_Sei que poderíeis interferir junto ao Papa para que isso se concretizasse, Excelência.

_ Completou Giácomo, voltando-se para o velho de faces vermelhas.

_Mas ...mas

não sei se será possível! Como poderei eleger-te?

_Nada impede que me torne Bispo, Excelência. Se o Papa o desejar...

_Verei o que posso fazer _ gaguejou o clérigo, escondendo a

indignação.

_Mas antes

deves concretizar a missão e obter sucesso. Poderás garantir-me?

_Sim, eu tenho certeza que poderei ajudar-vos, Excelência. Mas preciso de vossa

palavra. Caso contrário, voltarei ao mosteiro e continuarei vivendo como sempre vivi.

A timidez de Giácomo fora-se como por encanto. E a visão daquele homem não era

muito agradável ao bispo.

_Então, tens a minha palavra. Farei tudo o que puder para ajudar-te se conseguires o

teu intento. Partirás agora mesmo para o castelo de Mür, sem demoras. Concordas?

Giácomo fez uma reverência e ia retirando-se quando o bispo o chamou novamente.

_Giácomo!

_Pois não, Excelência?

_Cuidado com Cybelline! Poderás não escapar das redes dessa mulher. O seu povo a

chamava de rainha má! Ela vem da terra do gelo e frio é o seu coração tanto quanto seu

país! Não te enganes com as aparências!

Giácomo agradeceu e retirou-se.

Rainha má, pois sim! Ele talvez tivesse muito a aprender com ela! De qualquer

maneira, não tinha medo algum!

Caminhando pelos corredores, admirou ainda mais as riquezas que logo lhe

pertenceriam. Ao cruzar com Rafaella, sorriu-lhe e segurou-lhe o cotovelo.

_Mantenhas tudo muito limpo e bem cuidado, Rafaella. Quando eu voltar, serei teu

senhor! _ e tocando-lhe o queixo numa carícia ousada, caminhou até seus aposentos.

A jovem camareira ficou aparvalhada, vendo-o desaparecer dentro do quarto. Teria o

belo padre enlouquecido? Balançando a cabeça, abraçou mais os lençóis e retirou-se, com

calafrios pelo corpo. Não se sentia bem desde que acordara no leito do jovem Giácomo.

*

*

*

CAPÍTULO V

O castelo de Mür era uma imensa fortaleza cujos muros desciam pela encosta da

montanha onde havia sido construído. Datado do século XIII, fora reforçado para enfrentar

as tempestades e as invasões constantes dos piratas e dos conquistadores que vinham do

mar.

As ondas quebravam-se nas pedras e imensas torres subiam de dentro da propriedade.

Com portões de madeira maciça e um fosso ao redor, parecia mesmo intransponível.

Giácomo admirou a construção poderosa. Gostava mais da estrutura sólida dos

velhos castelos, mas não abdicava das belezas que encontrara na residência do bispo. Como

seria lá dentro? Teria a rainha má o mesmo gosto do clérigo ou seria tão dura quanto as

paredes de seus domínios?

Subindo pela ponte e atravessando o fosso agora seco, conseguiu bater nos gonzos do

imenso portão. Logo dois homens uniformizados com as cores da bandeira que tremulava

numa das torres e armados com lanças pontiagudas, abriram-no não sem o rangido das

dobradiças enferrujadas pela maresia.

A

__

quem devemos anunciar? _ perguntou um deles, barrando-lhe a passagem.

Cansado e ofegante pela caminhada, Giácomo não hesitou em responder-lhes.

_Giácomo Bernardone, frei Giácomo se preferirem. Sou o novo confessor da rainha,

enviado pelo bispo de Mür, como ela mesma o solicitou.

Olhando para a carroça mais abaixo, os dois homens duvidaram um pouco da

veracidade da informação.

_Dois padres dominicanos chegaram antes de mim e me aguardam no castelo.

_Ah, sim! Eu me lembro! _ falou um

deles.

_Deixa-o entrar, Marco!

O homem chamado Marco abriu mais o portão, permitindo a passagem do padre.

_Por favor, alguém poderia buscar minha carroça? Meu cavalo está exausto da

subida e tenho algumas coisas que o Bispo mandou para a rainha.

Os dois fizeram uma careta, mas foram buscar o carro assim mesmo.

Bernardone prosseguiu meio sem saber para onde ir. Talvez a construção maior no

meio do pátio ...

Caminhava para lá quando viu os padres dominicanos vindo em sua direção.

_Irmão Giácomo! Sejas bem vindo ao castelo de Mür _ cumprimentou Ambrósio,

jovial.

_Vem conosco! Depois te levaremos até Cybelline!

Giácomo sorriu, satisfeito por encontrá-los finalmente.

Levando-o para um dos alojamentos, mostrou-lhe uma pequena sala com paredes de

pedra, uma mesa de madeira tosca e alguns bancos.

_Senta-te aqui e toma um pouco de vinho. Deves estar bastante cansado da longa

viagem! _ Ambrósio serviu-lhe vinho numa caneca amassada como a que usava em

Luguiére. E Giácomo recusou-a, lembrando-se do fato com desagrado.

Agora que experimentara as alegrias da fartura e do luxo, não tinha a intenção de

voltar aos velhos tempos.

_Sabemos que nossos alojamentos não são como os da residência do senhor Bispo,

mas temos que nos contentar com o que nos foi concedido pela graça de Deus! Somente o

fato de podermos repousar dentro dos muros do castelo já é uma grande vantagem _ Tornou

Ambrósio.

_Ora, mas não foi a rainha quem solicitou a presença de um novo confessor? _

estranhou Giácomo, dessa vez pegando a caneca.

_Sim, foi. Daí a dizer que morra de amores por nós

...

Ela na verdade não é muito

afeita aos dogmas da Igreja e seu país pode mesmo ser

considerado...

rebelde! Soubemos

que Gregório está bem inclinado a aceitar o protestantismo, esta doutrina herética, como

religião oficial de seu país. Por isso desconfiamos das práticas no mínimo incomuns. Às

vezes, durante as madrugadas, ouvimos coisas assustadoras. Os cânticos em língua

desconhecida e a fogueira, as danças vertiginosas e os gritos e risos que testemunhamos do

lado de fora dos portões são mesmo de arrepiar os cabelos!

_ Tens certeza do que falas, irmão Ambrósio? Em minha aldeia, também há danças e

fogueiras, mas nada a preocupar ...

_ Bem o sei, irmão Giácomo. As festas da colheita e tudo o mais. Mas não é a mesma

coisa. As palavras, os cânticos em língua estranha ...

_Pode ser seu idioma natal. Afinal, não são a rainha e seus súditos de país longínquo,

de hábitos singulares?

_Talvez... _

concordou

Ambrósio.

_De qualquer maneira, possuímos documentos

achados nos aposentos do castelo por uma fiel camareira, que nos entregou por acreditá-los

muito suspeitos!

Giácomo escondeu um risinho mordaz. As camareiras seriam criaturas do demônio,

afinal? Pareciam estar envolvidas em tudo!

_Bem, eu estou aqui e vim para cumprir minha missão. O que estiver oculto, eu

revelarei. Agora, desejo que me apresentes à rainha e que ela me destine aposentos onde

possa descansar. Estou me sentindo péssimo! Esta subida ...

Estêvão levantou-se e fitou-o profundamente.

Aquele homem definitivamente era assustador e seus olhos pequeninos pareciam os de

uma cobra, analisou Giácomo, cauteloso. Não confiava em Estêvão, era como uma ave de

rapina, sempre observando tudo.

_Vamos te levar ao teu destino, irmão Giácomo _ falou o homem e pela primeira vez

ouviu-se a voz soturna do dominicano.

_Irmão Ambrósio, padre Estêvão sabe falar! _ caçoou, mexendo com os brios do

clérigo.

Estevão lançou-lhe um olhar cortante e voltou-se para a saída.

_Deixa, Giácomo! Estêvão está sempre de mal com todo mundo _ riu Ambrósio,

batendo-lhe no

ombro.

_Para ele somente existem dois tipos de homens: Ou é um fiel

servidor da Santa Igreja ou o é do Diabo!

Os três dirigiram-se ao prédio principal e entraram numa ante-sala. Homens

uniformizados com calças curtas bufantes em vermelho, verde e dourado seguravam lanças

nas mãos e estavam por toda parte. Dois deles guardavam grandes portas de bronze.

Pararam frente a elas e Estêvão pediu a um deles que anunciasse suas presenças.

O guarda entrou e logo depois saiu, pedindo-lhes que o seguissem. Sentindo a porta

fechar-se às suas costas, Giácomo observou o interior do saguão. Caminhando ainda por

um largo corredor, entraram num imenso salão, que deduziram ser o de conferências, onde

a rainha receberia seus súditos e ministros.

Era esplêndido, como imaginara! Não tinha semelhança com a residência do Bispo,

mas possuía a atmosfera da nobreza, ostentando o orgulho de toda uma linhagem de reis e

rainhas! O brasão da família real fora bordado em uma bandeira que dominava a parede às

costas de um pequeno trono dourado e solitário. Um longo tapete, nas mesmas cores dos

uniformes dos soldados, ia do trono até à porta de entrada e belíssimos vitrais coloridos

enfeitavam as janelas que iam até o chão. Exceto pelo imenso lustre de ferro batido que

pendia do teto alto não havia mais adorno algum. Esta sobriedade era que realçava a

majestade do lugar.

As paredes, formadas por grandes blocos de pedra, estavam escurecida pelo tempo e

os vitrais permitiam a passagem da luz, desenhando mosaicos multicores sobre o chão

encerado. Armaduras de antigos cruzados, provavelmente pertencentes aos antepassados da

rainha, estavam dispostas em nichos ao longo das paredes laterais como soldados em vigília

constante, prontos a defenderem a soberana de Mür!

Uma construção antiga e poderosa, concluiu ele, admirado.

No trono não havia ninguém. Os guardas saíram e os padres ficaram perdidos na

imensidão. Sem saber que estavam sendo observados, continuaram ali, a esperarem que a

rainha se dignasse a recebê-los.

De repente, uma mulher pequena e de aparência insignificante aproximou-se.

_O que desejais, senhores? Já não vos mandei avisar que somente viessem quando

vos convocassem? _ falou ela, austera.

E Giácomo decepcionou-se. Não esperava uma criatura tão insípida para o título de

rainha má!

Os padres não se curvaram. Cheios de orgulho clerical, acreditavam que jamais

deveriam curvar-se, pois a Igreja estava acima dos homens comuns!

_Nós recebemos o aviso, majestade. Contudo, viemos a pedido de vosso novo

confessor, irmão Giácomo Bernardone falou Ambrósio.

_Meu confessor? E onde está ele? _ tornou ela extremamente desagradável.

Giácomo deu um passo à frente.

_Oh, então tu és o novo conselheiro espiritual

da... _

ela interrompeu-se.

_Cecília! _ Alguém chamou, de repente, assustando-os. A rainha sobressaltou-se e

inclinou-se até o chão, em deferência à mulher que entrara sem fazer qualquer ruído,

parando às costas dos padres.

Sem compreenderem o que acontecia, os três homens olhavam estupefatos a rainha

subserviente e a outra mulher de aparência orgulhosa.

Bernardone não pode esconder o agrado que lhe provocou o semblante da altiva

dama! Alta, esguia e loura, olhos azuis claríssimos e boca rosada repousada sobre uma

pele alva de textura macia, ela se movia com a graça de um cisne! Quem seria aquela

mulher tão impressionante?

_Podes ir, Cecília! Não preciso mais de ti.

_Sim, alteza! _ A “rainha” falou e retirou-se rápida, sem olhar para trás.

_Alteza? _ gaguejou Ambrósio. Jamais nenhum deles havia visto a rainha antes, por

isso explicava-se a confusão.

E Giácomo sorriu divertido. Era espirituosa e muito bonita a verdadeira soberana!

Enganara-os a todos!

_Sim, padre _ respondeu ela, e sem dirigir-lhes um olhar, foi sentar-se no trono

dourado. Somente então seus olhos pousaram nos de Giácomo.

Bernardone pode detectar um brilho curioso e ao mesmo tempo malicioso nas contas

azuis.

_Perdoai-nos, majestade! Aquela mulher fez-se passar por vós!_ desculpou-se

Ambrósio, desconcertado.

_Cecília é uma serva devotada e fiel. Sempre faz o que

voz macia.

mando. _

Ela completou em

_Então ...

_Deixemos de lado as conversas e falemos do que vos trouxe aqui. Ouvi dizer que

tínhamos um novo confessor. Onde está?

“E como é arrogante!” Refletiu Giácomo, um tanto divertido. Ele deu um passo à

frente e parou, apresentando-se com falsa humildade.

_Giácomo Bernardone ao vosso dispor, majestade. Eu serei vosso novo confessor.

De repente, ela riu. Um riso alto, sardônico, debochado. Ele ficou vermelho.

_Tu? Não me parece que já tenhas deixado o noviciado! Tens a idade de meu filho!

Por certo, o Bispo enganou-se ...

_Majestade, permiti discordar de vosso julgamento! Com uma aparência tão fresca e

juvenil jamais poderíeis ser minha genitora! _ Giácomo retorquiu, aproximando-se,

encantador.

A rainha fitou-o, envaidecida. Na verdade, ele a agradara desde o momento em que o

vira.

_Estás tentando seduzir-me, padre Bernardone? _ falou maliciosa, esperando

desconcertar o jovem padre.

_Alteza, por favor! _ repeliu indignado o padre

Estêvão.

_Sabemos de vossas orgias e

de vossos comportamentos escandalosos, até mesmo o Santo Padre já o sabe! Não queirais

envolver em vossas malhas pecaminosas um homem de Deus!

As faces da rainha coloriram-se de rubro, fazendo brilhar seus olhos gelados.

Levantou-se e Giácomo pensou que ela fosse agredir o velho Estêvão com o leque que

levava nas mãos. O que seria bem merecido, pensava Giácomo. O homem era também

arrogante e mais atrapalhava que ajudava. Porém, ela os surpreendeu com o riso

debochado, o mesmo riso alto e desagradável.

_Meu querido e ingênuo amigo! Sei bem o que dissestes ao santo Padre! Mas não me

importa! Não me importa mesmo o que pensas ou deixas de pensar. Não temo a Igreja, não

temo Roma! Somente temo a Deus, a quem deverei prestar contas de meus atos. Mas isso

será entre eu e Ele! E para frustração de todos, não deixarei que ninguém participe de meu

julgamento final. Sou rainha, sou uma mulher poderosa no mundo dos homens e tu, o que

és?

Giácomo jamais ouvira alguém se dirigir a um religioso de maneira tão

desrespeitosa! Muito menos a um inquisidor! Estava impressionado, e porque não dizer

satisfeito, com a coragem da rainha.

Rubro de cólera, Estêvão ia responder, quando Ambrósio resolveu interferir.

_Por favor, majestade! Eu vos imploro! Não cometeis mais um sacrilégio em nos

ofender! Viemos em paz para vos trazer o que desejáveis, um confessor! E o que quereis

mais de nós?

Estêvão conteve-se, guardando para si o rancor contra aquela que classificava de

demônio. Um dia ela pagaria por ofender a Deus com seu comportamento herético!

Giácomo achou que deveria advogar em causa própria.

_Majestade! Antes de julgar-me, dar-me-eis a oportunidade de vos provar minha

capacidade? Se acaso não desejardes mais meus humildes préstimos, partirei sem demora e

o bispo vos enviará outro em meu lugar!

Cybelline voltou-se para o jovem padre com curiosidade. Ele a agradava,

definitivamente. Observando-o, pensou que não seria desagradável ter alguém tão bonito e

inteligente à sua disposição. Depois daquele homem feio que lhe servira de conselheiro, este

era um presente dos deuses!

_Farei como me pedes, padre. Vou dar-te uma oportunidade. Não deves ser como

estes teus irmãos! São desagradáveis e vivem em busca de presas para mandar à fogueira!

Sabes por que ainda não fui condenada? Porque ninguém tem provas contra mim! Eles

falam, caluniam-me, mas jamais presenciaram nenhuma de minhas “orgias”!

_Majestade ...

_ tentou apaziguar Ambrósio.

_Não me importa o que tens a dizer-me, padre! Agora, desejo que me deixes a sós com

meu novo confessor. Preciso inteirá-lo de meus “ pequenos pecados” , afinal.

Consciente de seu poder, Cybelline manipulava a todos como queria, observou

Giácomo, completando as características de sua personalidade.

Ainda preocupado, porém aliviado por terem finalmente conseguido a concessão da

rainha, Ambrósio retirou-se juntamente com um inconformado Estêvão.

A sós com Cybelline, Giácomo preparou-se intimamente, não se intimidando com a

altivez da bela dama.

Andando à sua volta, examinando-o de alto a baixo, a rainha o testava. Depois,

mordiscando o leque com os dentes brancos, sentou-se no trono novamente e sorriu com a

malícia habitual.

_Quantos anos tens, padre?

_Vinte e cinco, majestade, _ respondeu ele.

_Vinte e cinco! És muito jovem! Mas sabes como galantear uma mulher. Deves ter

bastante experiência com os corações femininos, não?

_Na verdade, não, majestade. Sou um servidor de Deus,

senhora. _

tornou ele,

tentando manter-se

seguro.

_Somente saí do mosteiro de Luguiére para vos servir.

_Oh! Então, és puro e inocente!Estranho como não coras como os outros irmãos teus.

Será muito divertido provocar-te, padre! Sou muito, muito má! _ ela falava em tom de

troça._Acreditas

no que dizem sobre mim, “irmão” Giácomo?

_Nada sei sobre vós, majestade. Somente o que vi e ouvi desde que entrei nestes

aposentos. Depois, não cabe a mim o vosso julgamento. Sou vosso servo, majestade.

“Muito diplomático!”, pensou ela, não lhe escapando o leve tom de malícia ao

parafraseá-la. Levantando-se, aproximou-se dele novamente.

_Sabes, meu querido confessor, que sou uma mulher muito só! Tenho necessidades

que não me são supridas! Meu coração clama por um amor, por alguém que me preencha o

vazio deixado por meu falecido esposo! Preciso de alegria, de diversão nesta terra morta e

árida! Tudo me foi tirado, arrancado: meus filhos, meu título, a vida de meu esposo, minha

corte e meu país! Compreendes? Não achas que devo dar algumas festas para distrair-me e

aos meus súditos, que me acompanharam tão devotadamente?

_Certamente que vos deveis alegrar, majestade. Contudo, nada sei sobre

vossas

festas!

Como posso dizer-vos o que vos convêm ou não?

Ela sorriu.

_Pois então, convido-te a testemunhar pessoalmente, padre! Poderás participar de

minhas festas quando quiseres! Amanhã, na lua cheia, faremos uma grande ceia e

convidaremos a todos! Quero que conheçam meu novo confessor! Poderás vir? Estarás

presente ao meu baile em tua homenagem?

Como negar-se ao desafio? Giácomo não era tolo.

_Sim, majestade, estarei presente. Contudo, temo envergonhar-vos, pois não possuo

nada adequado para uma ocasião tão especial...

_Oh, mas não há problemas insuperáveis! Pedirei ao Bispo que mande alguma coisa

para ti! Quero que fiques muito bem para que todos possam apreciar-te! _ A rainha parecia

muito satisfeita, alegre mesmo.

Giácomo achou que ela estava se divertindo bastante com sua pessoa.

_Como quiserdes, majestade. Agora, poderíeis pedir a alguma de vossas servas que

me mostrassem os meus aposentos? Estou cansado, afinal sou somente um homem,

infelizmente, e a viagem foi longa e exaustiva! Prometo que logo estarei recuperado,

bastando que me refresque um pouco. Então, poderei servir-vos dignamente, minha senhora!

Ele fora audacioso ao pedir a dispensa antes que ela o mandasse retirar-se, mas

Giácomo tinha a intuição de que a rainha não gostava de homens fracos e servis. Ela tinha

um temperamento forte e talvez precisasse de alguém que não se dobrasse a todas as suas

vontades.

Cybelline o fitou um longo momento e depois bateu palmas. Imediatamente uma das

camareiras de sua corte pessoal apareceu.

Uma jovem de beleza incomum, inclinou-se diante da rainha.

_Sim, majestade?

Giácomo ouviu música em seus ouvidos. A voz melodiosa da moça o envolveu por

inteiro. Olhando para ela, seu coração deu um salto no peito. Onde vira tal semblante?

Ela usava os cabelos presos, escondidos sob uma touca rendada, bordada com

pérolas pequeninas, o que lhe destacava o rosto em forma de coração. Graciosa e meiga,

possuía um brilho diferente nos enormes olhos de um verde escuro e misterioso. A boca

pequena emprestava-lhe um ar infantil e seu perfume adocicado invadia-lhe as narinas,

inebriando-lhe os sentidos.

Giácomo parecia sufocar tal a estranha emoção que o acometeu. Contudo, ela não o

fitou nenhuma vez e isso lhe trouxe estranho pesar.

_Alice, leva nosso novo confessor aos aposentos azuis. Quero que fique confortável e

manda alguém para servi-lo pessoalmente_ ordenou Cybelline, muito rude. E sua voz áspera

quebrou uma parte do encanto em que Giácomo estivera mergulhado.

_Os aposentos azuis? Mas

...

_ retorquiu a moça, porém logo se calou, enrubescendo

diante do olhar severo da

rainha.

_Sim, majestade, eu o farei imediatamente!

Ela levantou-se finalmente e com um gesto gracioso, pediu que ele a seguisse.

Giácomo fez uma pequena reverência para a soberana e seguiu a jovem. Ela andava à

sua frente e ele pode observar-lhe as curvas suaves. Alice parecia flutuar e chegara mesmo a

pensar que seus pés não tocavam o chão, tal a leveza de seus passos.

Chegando aos aposentos, ela abriu as portas de par em par e pediu que entrasse.

Alice não se dignara a olhar para ele nenhuma vez! Mantinha os olhos baixos o tempo todo!

Giácomo entrou e deslumbrou-se com a riqueza dos aposentos.

_Oh! _ murmurou baixinho, observando as paredes pintadas de azul muito suave.

Molduras em ouro enfeitavam-nas num trabalho delicado de artesão. Uma grande lareira

tomava quase toda uma parede e quadros antigos foram pendurados sobre ela. Candelabros

dourados, espelhos e móveis finos, tapetes e uma imensa cama com dossel compunham a

decoração. Um biombo oriental, parte com certeza dos tesouros trazidos pelos cruzados,

escondia uma arca de madeira finamente trabalhada por mãos habilidosas.

Muitas riquezas adornavam o quarto. E havia mais, muito mais!

_Se desejardes mais alguma coisa, padre, basta que toqueis este sino e logo virá uma

serviçal para vos atender. Enviarei um pajem que vos servirá de agora em diante _ falou a

moça com sua voz

melodiosa. _

Se não necessitais de minha presença ...

Estivera tão envolvido em observar as belezas do ambiente que esquecera-se por um

momento da bela jovem parada à porta.

_Não! Quero dizer

...

sim!_ ele falou num

impulso.

_Espera um momento, por favor!

Ela não pode esconder a expressão de desagrado. Giácomo percebera que ela não

gostara dele! Por quê?Estava contrariada a julgar pelos lábios apertados e as feições

contraídas pelo desgosto.

Ele procurou sorrir e aproximou-se, tentando envolve-la como envolvera a rainha.

_Algo em minha pessoa vos desagrada, senhorita Alice? O que fiz eu para vos

desgostar? Se vos ofendi, então vos peço que me perdoes!

A jovem enrubesceu. Não pretendia demonstrar os seus sentimentos tão claramente.

_Não há o que perdoar, padre. Não é nada convosco, por certo. Contudo, mesmo que

não caiba à minha insignificante pessoa aprovar ou não a escolha de minha mãe, julgo-me

no direito de não aprovar certas decisões.

_Referi-vos à rainha? Cybelline é vossa mãe? _Giácomo estava surpreso.

_Sim, padre. E estes aposentos pertenceram ao meu pai. Vou enviar-vos o camareiro.

Com a vossa permissão _ E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela retirou-se,

fechando a porta.

A rainha lhe dera os aposentos de seu marido! Era uma honra, certamente! Seu peito

encheu-se de satisfação. Cybelline gostara mesmo dele!

Ao contrário da jovem princesa!

Com que então Alice era a herdeira da soberana de Mür! Talvez a rainha fosse mesmo

o que diziam. Relegar a filha a condição de camareira ...

Suspirando, Giácomo Bernardone sentou-se numa poltrona próxima à lareira. Estava

começando a achar que as coisas não seriam tão fáceis quanto esperava. Mas a presença

de Alice no castelo fora uma agradável surpresa.

Olhando para as chamas a arderem, foi retirando um a um os adornos de suas vestes

empoeiradas. Estava cansado e muitas foram as emoções que o assaltaram desde que saíra

de Luguiére. O mundo era mesmo um lugar fascinante! E pensar que ficara preso tanto

tempo entre as paredes de um mosteiro!

O velho rancor trouxe-lhe à boca um gosto amargo. Culpava a mãe desconhecida por

ter ficado enclausurado naquele masmorra! Ela nunca o fora buscar!Seria filho sem mãe? O

a levara a abandoná-lo? Prometera-se não fazer mais perguntas que não podia responder,

mas algumas vezes era inevitável!

Respirando fundo, recostou a cabeça no espaldar e fechou os olhos. De repente,

sentia-se muito cansado! A viagem o esgotara mais do que acreditara.

Alice! Tão doce e suave! Uma pérola em meio aos porcos! Profunda impressão lhe

causara a beleza da menina. Quem poderia imaginar que viera do ventre de uma mãe

tão desprezível? ...

Giácomo adormeceu e não viu quando Alice retornou, trazendo-lhe roupas de banho e

o pajem que deveria servi-lo. Silenciosa, ela observou-lhe o semblante, sentindo um misto de

curiosidade e repulsa. Invadida por sensações penosas, retirou-se rapidamente, tentando

esquecer aquele rosto.

Alice não voltou a encontrar-se com Giácomo. Após uma acalorada discussão com a

mãe, a rainha mandou-a de volta ao seu país, pedindo ao irmão que a recebesse e lhe

arranjasse um casamento promissor. Afinal, era sua sobrinha e ele lhe devia isso depois de

lhe haver usurpado tudo!

A jovem partiu de navio, pela manhã, deixando para trás a ilha de Mür e o padre

repulsivo. Giácomo abalara-lhe as fibras íntimas do ser, provocando-lhe sentimentos

inexplicáveis. Pressentimentos ruins turbavam-lhe o coração.

*

*

*

CAPÍTULO VI

A noite ia alta quando Giácomo desceu para o salão principal. Desde o dia anterior

não encontrara a rainha nenhuma vez. Recebera do bispo como trajes para a recepção, uma

batina branca como a neve, uma faixa bordada com fios de ouro, um crucifixo incrustado

com pequenos rubis e uma capa aveludada que, certamente, custara muito ao Bispo

emprestá-la.

Giácomo admirava-se do quanto o homem queria que obtivesse sucesso em sua

missão. Estava disposto até a concede-lhe a honra de usar suas magníficas jóias!

Sorrindo com sarcasmo, Bernardone pensou na sede de poder que o velho bispo tinha!

Não se admirava, pois ele mesmo era um exemplo vivo do que o fausto podia fazer a um

homem! Apreciava, e muito, todos os requintes e regalias que agora podia usufruir. Seria

muito difícil contentar-se com a vida mesquinha do mosteiro novamente.

Naquele momento, resolveu que jamais poria os pés em Luguiére de novo! Jamais se

sentira atraído pelos ensinamentos do Cristo crucificado, com Sua vida de renúncias e Seu

sacrifício, muito menos por Sua coroa de espinhos e culto à pobreza!

Grande parte dos sofrimentos a que fora submetido no mosteiro originara-se de sua

revolta aos princípios básicos da fé católica romana. Não aceitava o holocausto dos cristãos

nos circos e nem o madeiro infamante onde Jesus fora crucificado! Ele era o poder e a

glória de Deus, era Seu Filho dileto! Como Se deixara morrer pelas mãos dos homens

quando com um simples gesto, ordenaria ao Seu exército de anjos que dizimassem os

inimigos? O culto ao sofrimento e a agonia, a renúncia aos bens materiais e o desprezo

aos pequenos prazeres do mundo eram coisas por ele incompreendidas, faziam parte de uma

crença da qual não compartilhava!

Contudo, se a Madre Igreja constituía-lhe o único caminho para a riqueza e o poder,

então faria o que fosse preciso, acreditaria no que lhe pedissem para acreditar contanto que

obtivesse o que desejasse!

Afinal, qual destino estaria reservado a um deserdado da sorte como ele senão morrer

de fome? Deveria ser grato ao Senhor por lhe ter proporcionado a solução para sua miséria

material!

Agora, com as vestes da hipocrisia clerical - inclusive o imenso anel de rubi que vira

faiscar no dedo do Bispo - descia as escadarias para a recepção que seria dada em sua

homenagem pela rainha Cybelline.

Giácomo parou um instante no último degrau e observou a quantidade de pessoas bem

vestidas, soberbas, a rirem e a divertirem-se no salão.

Com um sorriso satisfeito, juntou-se aos nobres de Cybelline, sendo logo levado à sua

presença.

Sentada no pequeno trono, a rainha estava deslumbrante com a coroa de esmeraldas

e diamantes a faiscar-lhe sobre a peruca extravagante. Usava um vestido branco bordado

com fios de prata e pequenos brilhantes. Seu brilho ofuscava assim qualquer de seus súditos,

como, aliás, seria de se esperar. Jamais uma dama da corte deveria rivalizar com a rainha

em jóias e enfeites e ela tomava todas as providências para que isso não acontecesse!

Cybelline, ao vê-lo, sorriu satisfeita e estendeu-lhe a mão para que a beijasse.

Giácomo pegou-lhe os dedos finos e encostou os lábios suavemente num cumprimento

audacioso.

_Meu caro padre! _ exclamou ela, deliciada, apreciando sua

elegância.

_Então o

bispo atendeu-me ao pedido! Estás muito bonito, se me permites a indiscrição.

_Nada que se iguale à vossa beleza, majestade!

_Não te disse, Ester? Ele sabe como agradar a uma dama! Pena que seja um homem

santo!

A mulher que se chamava Ester sorriu, concordando com a malícia de sua soberana.

As outras damas, todas muito jovens, fitavam-no deliciadas.

Giácomo sentiu-se vaidoso! Com certeza, as mulheres o apreciavam! Nunca tivera

noção daquela realidade antes, pois no mosteiro jamais entrara em contato com o sexo

oposto. Era tudo muito excitante! ...

_Vem, meu querido confessor! Fica ao meu lado. Quero mostrar-te que minhas festas

são muito confiáveis e nada de errado acontece dentro dessas paredes centenárias!

Giácomo sentou-se próximo à rainha e ficou a admirar a evolução das danças.

Realmente tudo lhe parecia natural e sem sombra das “orgias” que irmão Estêvão

dizia acontecer. Contudo, seus olhos não descansavam à procura de alguém. Onde estaria

ela? A jovem Alice não parecia participar do baile.

Algumas horas se passaram, o jantar fora servido e as bebidas mataram a sede dos

convivas alegres, porém, a jovem por quem Giácomo ansiava não aparecera.

Novamente de volta ao salão de baile, ele ainda a procurava com os olhos.

Finalmente voltando-se para a rainha, notou que esta estava alcoolizada, o que não o

surpreendia tal a quantidade de vinhos que ela havia ingerido.

_Não estaria faltando alguma de vossas damas de companhias, majestade?_

perguntou-lhe, finalmente.

_Oh, sim? E quem poderia ser? _ A rainha procurou os rostos conhecidos com os

olhos e encontrou a todos

especial.

ali.

_Não creio, meu querido! Não sinto falta de ninguém em

_Talvez de vossa filha, majestade. A senhorita Alice ...

_Alice? _A rainha fitou-o com

desconfiança.

_O que sabes sobre Alice?

_Nada, absolutamente! Não tivemos tempo para conversar _ Giácomo percebeu o

quanto fora

imprudente.

foram de vosso marido ...

_Somente disse-me que era vossa filha e os aposentos que ocupo

_Eram do “pai” de Alice, não de meu marido _ cortou a rainha com brusquidão.

Vendo que Giácomo desconcertara-se, riu aquele riso zombeteiro e

alto.

_És muito ingênuo,

padre! Ninguém poderia ocupar o lugar do meu marido. Afinal, era o rei! Qual homem

poderia assemelhar-se ao rei? Mas sou uma mulher saudável e jovem, como tu mesmo o

disseste. Precisava de alguém que me amasse, então, conheci o pai de Alice, um grande

navegador! E soube como navegar em meu coração durante dez anos! Mas depois, perdeu-

se no mar, numa de suas longas jornadas! Pessoalmente, agradeci a Deus tê-lo levado

embora. Já estava cansada de seus ciúmes absurdos! Eu, uma rainha, não poderia conceder-

lhe a exclusividade!

Giácomo compreendeu. A rainha era mesmo promíscua! Até que ponto irmão Estêvão

não estaria com a razão?

_Quanto a Alice, aquela jovem tola, eu a mandei de volta ao meu país. Seu tio, meu

irmão usurpador, cuidará dela e lhe arranjará um marido decente em sua corte!

Aquilo sim fora um choque para Giácomo Bernardone! Não conseguira esquecer-se

do rosto de coração da jovem camareira, filha da rainha má! E sabê-la longe de seu alcance

era um doloroso golpe. Tentando recuperar-se, escondeu seu desgosto sob uma máscara de

indiferença. A festa perdera o encanto e a rainha também. Apesar de ser uma bela mulher,

conservada em seus quarenta e quatro anos, não lhe tocava o coração.

Conforme as horas se passavam, menos conseguia esconder o enfado. Cansado de

tudo aquilo, Giácomo finalmente levantou-se e despediu-se da rainha, dizendo-lhe que a

festa estava muito bonita, mas que precisava recolher-se para suas orações habituais.

Cybelline ficou um tanto decepcionada, contudo nada pode fazer. Ficou observando

enquanto o atraente clérigo desaparecia na mole dançante.

Aborrecida, ela levantou-se pouco depois e mandou que seus súditos continuassem

suas danças. Ia recolher-se, pois já não era mais uma jovenzinha e precisava manter seu

sono de beleza! Todos riram do gracejo e abriram caminho para que ela e suas damas

passassem.

Do alto das escadas, Cybelline observou as pessoas rindo e bebendo, antecipando já

as orgias que realmente aconteciam durante a madrugada. Aquecida pelos vinhos, a turba

desvairada arrancava suas vestes e entregava-se a todo tipo de excessos. Na manhã

seguinte, os lacaios os expulsavam, bêbados e despidos, e limpavam o palácio. Como

acordava tarde, ela e suas jovens camareiras não viam qualquer resquício das loucuras da

noite. Era como se nada houvesse acontecido.

Mas Cybelline sabia. Ela mesma fora a criadora de tais hábitos “salutares”.

Costumava mesmo tomar parte nos “jogos” de sedução, mas agora não tinha disposição

para as festas. Somente um desejo estava em seu coração, em sua mente: conquistar o jovem

padre, o seu confessor. Queria corrompê-lo, torná-lo menos virginal! Queria que ele a

amasse com todo o fogo que antevia em seus olhos escuros e profundos! Ela era experiente.

Sabia reconhecer a tormenta na alma das pessoas, principalmente a capacidade de se

entregar às paixões que certos homens guardavam dentro de si. E Giácomo Bernardone era

um deles. Uma tempestade de emoções rugia dentro do clérigo, pronta para desabar em

tormentas alucinantes! Bastava que ela abrisse as brechas necessárias e ele não mais se

conteria.

A perspectiva era no mínimo desafiadora. E há quanto tempo Cybelline não sentia

aqueles arrepios de excitação diante de uma caçada esplêndida? Somente quando

conquistara Sir William tivera tantas emoções!

Ao passarem diante dos aposentos azuis, ela parou um momento e depois seguiu em

frente.

Ah, meu querido Bernardone, não tenho pressa! Haverá muito, muito tempo para nos

divertirmos!”, murmurou, rindo baixinho.

*

*

*

Em seus aposentos, Giácomo não conseguia conciliar o sono. Sentado numa poltrona

em frente à lareira, julgava ouvir gritos e gargalhadas vindas não sabia de onde. Já era

madrugada e parecia-lhe impossível que a festa continuasse até tão tarde!

Vestindo um roupão de seda macia, mais uma das “concessões” do velho Bispo, saiu

para os corredores. Observou as luzes bruxuleantes que faziam sombras nas paredes.

Cybelline não gostava de escuridão, por isso mantinha todas as velas acesas para que as

trevas da noite não tomassem o castelo.

Giácomo seguiu rumo às escadarias, ouvindo as gargalhadas de homens e mulheres

cada vez mais perto. Seria mesmo a festa? Estaria a rainha acordada àquelas horas da

manhã?

Parando no topo das escadas, o padre surpreendeu-se com as pessoas jogadas nos

degraus: corpos semi-despidos, mulheres lânguidas e risonhas, bêbadas, caídas nos braços

de cavalheiros antes tão distintos!

Descendo devagar, o clérigo constatara a orgia que irmão Estevão mencionara. Então

era verdade! Cybelline promovia mesmo festas extravagantes!

Desviando-se dos súditos embriagados, Giácomo a tudo observava em estranho

estado de espírito. Jamais imaginaria que aquelas pessoas aparentemente tão recatadas

pudessem entregar-se ao demônio e às suas investidas com tanto prazer e alegria!

Era impressionante como os seres humanos podiam ser imprevisíveis! À sua volta,

divertiam-se e bebiam os nobres e as servas, os lacaios e as damas, sem distinção de classe

social ou de hierarquia. Ironicamente, via-se ali o princípio da “igualdade, sem nenhum

preconceito”, um princípio cristão às avessas. Os homens equiparavam-se em suas mazelas!

Andando como um autômato até o trono da rainha, esperou encontrá-la também a

usufruir os “prazeres da carne” solidária aos seus súditos devassos, mas ela não estava

presente.

“Menos mal”, pensou. Ou não? O que lhe parecia pior? Compartilhar ou omitir-se?

Será que ela sabia o que acontecia em seu castelo? Ainda zonzo pela surpresa, Bernardone

sentou-se desrespeitosamente no trono e dali ficou a observar cada evolução dos corpos que

dançavam e se retorciam ao som dos alaúdes e flautins. Os músicos continuavam tocando,

impassíveis. Já estavam acostumados àqueles jantares absurdos e pareciam surdos e cegos,

imunes à devassidão!

Do alto dos degraus que separavam o trono da rainha da turba inconseqüente, o

clérigo estudava-os sem deixar-se envolver nas vibrações da paixão que enlouquecia a mole

dançante. Uma estranha frieza apossara-se de seus sentidos, como se aquilo também não lhe

fosse novo, como se já estivesse afeito àquelas cenas esdrúxulas.

Fora a surpresa inicial, não mais se chocava. Ao contrário! Depois de alguns

minutos, passara mesmo a apreciar a beleza plástica dos corpos desnudos e a forma com

que se entrelaçavam uns aos outros, com mórbida curiosidade.

O riso feliz das mulheres e os gritos dos homens o impressionavam.

Uma “dama” de azul ofereceu-lhe um cálice de prata contendo líquido vermelho,

vinho forte e encorpado. E ele o sorveu de uma vez, sedento! Logo, a mulher encheu-lhe

novamente taça e Giácomo tornou a beber, como para afogar o gelo de sua alma e aquecer-

lhe o sangue que lhe corria frio nas veias.

Desejava acordar seus instintos. Queria tornar-se humano, queria poder sentir a

paixão que movia aquelas pessoas! Almejava fazer parte daquela turba estridente e deixar-

se levar pela força da paixão que via naqueles homens comuns! Mas seus sentidos pareciam

amortecidos, anestesiados!

Por que não podia ser como eles? Por que se mantinha ali, no alto, inatingível, como

se não fosse feito de carne e osso?

Num ato desesperado, Giácomo segurou o pulso da jovem sentada a seus pés e

puxou-a para si. Os olhos dela queimavam, febris como duas brasas incandescentes.

Era muito bonita a rapariga! Tinha cabelos de fogo, olhos amendoados e a paixão que

podia vislumbrar neles atiçariam o desejo de qualquer homem! Tomou-lhe os lábios de

repente e beijou-a com sofreguidão, tentando despertar nele o amor!

Mas um rosto antepusera-se ao da ruiva. Era o rosto de Alice! Por que sortilégio

Alice estava a fitá-lo, acusadora? Por que, em nome de Deus, aquela menina o atormentava

tanto?

Fitando mais uma vez a mulher, apertou os olhos na tentativa de dissolver a imagem

da filha da rainha. Impaciente e irritado, Giácomo empurrou-a para o lado e levantou-se.

Quase a correr, deixou o salão e refugiou-se em seus aposentos.

Jogando-se de joelhos aos pés do leito, pôs-se a orar, tentando arrancar de seu peito o

estranho sofrimento que o apunhalava.

Quem seria Alice? Por que aquele rosto de anjo infiltrara-se em sua memória se

quase mesmo não a vira? Seria amor o que sentia? Aquela fixação, aquele sofrimento, seria

a manifestação do sentimento tão decantado pelos homens? Ou seria ela uma daquelas

bruxas que lançavam encantamentos, tornando-o seu escravo? Já ouvira falar de tais

mulheres que levavam à perdição os homens santos da Igreja! Homens que deixavam de ser

fiéis cumpridores de seus deveres para com Deus e entregavam-se à paixão e à loucura!

Não! Não Alice, cujo rosto assemelhava-se aos querubins pintados nos nichos da

capela de Luguiére!

Era preciso esquecê-la! Tinha uma missão a cumprir! Para ele, Alice não poderia

existir! No mais, ela logo se casaria na corte de Gregório, o rei! Suas vidas jamais se

cruzariam novamente! Portanto, nada havia a fazer senão arrancá-la de sua mente à força

de seus objetivos maiores: a riqueza e o poder!

Sim, tinha que concentrar seus esforços em conquistar a rainha devassa! Ela seria seu

salvo conduto para tudo o que desejava! Era uma bela mulher, talvez pudesse conquistar-lhe

o coração! Esqueceria a filha e seduziria a mãe!

Um pouco mais calmo, Giácomo deitou-se e fechou os olhos.

Tudo era lícito para alcançar seus objetivos! Ajudaria a salvar a Igreja, e por isso

Deus o recompensaria! Era necessário conhecer e aprender a controlar os homens! Ele fora

eleito representante, agente mesmo, do Senhor! E se fosse preciso integrar-se à humanidade

em seus defeitos e pecados, ele o faria!

Sim, Giácomo Bernardone seria humano também! E o Senhor estaria ao seu lado!

*

*

*

CAPÍTULO VII

Do tombadilho do navio, Alice observava as terras de sua mãe aproximando-se.

Ajeitou o capuz que lhe cobria os cabelos, pois o frio era cortante! Cybelline lhe dissera o

quanto era frio seu país, mas não esperava que fosse tanto! Podia ver a neve cobrindo os

picos das montanhas, refletindo a luz do sol! Uma ave cortou o céu muito claro e soltou um

grito melancólico!

“Pobre ave! Tão solitária quanto eu!”, pensou ela, admirando a beleza do vôo

rasante. Apesar do frio, era muito bonito o reino de Gregório I.

O que a esperava na corte de seu tio? Depois de tudo o que acontecera, seria possível

que ele permitisse sua entrada no país gelado?

Somente portava uma carta da rainha e nem mesmo sabia-lhe o conteúdo! Suspirando,

Alice rezou para que tudo se resolvesse a contento! Não conhecia seu tio, somente tinha

conhecimento de que havia deportado Cybelline e tomado o trono à força. Diante do que

sabia da própria mãe, não lhe parecia improvável que tivesse sido má regente!

A única coisa que podia fazer era esperar e entregar seu destino a Deus.

Saíra da ilha de Mür sem despedir-se de ninguém, nem mesmo da rainha! Ela não

viera ao cais ou aos seus aposentos. Soubera das ordens para partir através de uma das

damas de companhia.

Não fora surpresa que Cybelline quisesse se livrar dela. A mãe já a havia ameaçado

tantas outras vezes! E depois daquela discussão terrível, Alice não esperava nenhuma

complacência!

Alice nunca tivera uma mãe, na verdade. Cybelline a odiava por ter nascido e ter sido

o centro das atenções de sir William. Durante toda a vida, não se lembrava de um carinho

ou mesmo uma conversa amiga com a genitora. Um gosto amargo subiu-lhe à boca.

Lágrimas brilharam-lhe nos olhos esverdeados, a mesma cor das águas que envolviam o

barco.

A única pessoa que realmente a amara fora seu pai! E ele se perdera no oceano! Sir

William havia sido um homem atraente, forte e muito inteligente! Várias foram as ocasiões

em que a levara para navegar pelo oceano, por isso não sofria de enjôos. Depois de uma

das longas viagens em que não a levara, trouxera-lhe como compensação uma linda caixa

dourada contendo alguns documentos achados nas ruínas de um mosteiro que abrigara os

cruzados em missão pelo oriente. Seu pai gostava dessas aventuras! E não raro lhe trazia

coisas e objetos de épocas remotas! Mas ela não sabia o que significavam. Abrira-a somente

uma vez, mas não mexera em nada.

Como tudo que pertencera a Sir William, os papéis e livros antigos também foram

dados a ela. Mas àqueles em especial guardava-os na pequenina arca de ouro que levara

consigo.

Relembrando a lamentável discussão com a mãe, arrependeu-se pela falta de cuidado.

Contudo, a escolha dos aposentos azuis para abrigar aquele homem ...

_Mamãe, são os aposentos de papai! _Dissera, sentindo uma dor profunda no

coração.

Cybelline voltara-se para ela e a encarara com extrema frieza.

_Não permito que me chames de mãe! Tu te esqueces com freqüência de minhas

ordens! Somente o acaso gerou-te em meu ventre real! Agora, não permito que questiones as

ordens da rainha, ainda mais em frente aos meus súditos!

Alice, por mais que estivesse acostumada às palavras rudes da mãe, não ficou imune

ao sofrimento que elas lhe provocaram. As lágrimas correram-lhe pelo rosto, como se já não

tivesse chorado o suficiente.

_Perdoai-me, majestade

...

_ murmurara, a mão trêmula espalmada sobre o estômago.

_ Contudo, pela memória de meu pai, eu vos imploro que não acolheis o padre Bernardone

em seus aposentos!

A rainha deu um riso alto e curto.

_Estás a zombar de mim, Alice! O castelo me pertence e darei os aposentos que quiser

a quem desejar! Giácomo ficará sim nos aposentos de teu pai. Ele está morto, será que

ainda não te conformastes? Deixa de tolices! Pareces uma criança rebelde e mimada!

_A memória de meu pai não vos é cara, majestade, porque vosso coração é de gelo e

não podeis amar a ninguém! _dissera ela, profundamente

magoada. _

Jamais retribuístes o

amor e a dedicação que ele vos devotava! Vós o levastes à morte ao mandá-lo àquela

terrível viagem!

Cybelline ficara rubra de indignação. Vencendo a distância entre ela e a filha,

desferiu-lhe um tapa no rosto. Somente então Alice pode perceber o que dissera.

Imediatamente postara-se aos pés da rainha, pedindo que a perdoasse pela insensatez.

Mas Cybelline sabia dentro de si que a filha tivera a coragem de dizer a verdade. Seu

coração somente conhecera um amor: o rei, seu marido. E ele morrera misteriosamente!

Alice não tinha idéia de seu sofrimento, do que passara nas mãos de seu irmão! Não sabia

do destino de seus outros filhos, que lhe foram arrancados dos braços! Por isso não podia

amar a jovem à sua frente. Tinha medo de que, se entregasse seu coração, não suportasse a

dor de também perdê-la! Cybelline tinha sim um coração de gelo!

A rainha era muito jovem e ingênua quando se casara com o rei! Acreditava mesmo

que poderiam viver o amor que os unia e esquecer-se do povo que aguardava pelo soberano

para resolver os problemas que assolavam o reino. Isolavam-se com freqüência e deixavam

para o primeiro-ministro os deveres que lhes competiam. Somente quando a revolta

instalou-se entre a população e o caos dominava o país é que se deram conta, tarde demais,

do que acontecia.

Henry, seu amado marido, morrera de uma hora para outra de uma doença

misteriosa e fatal e ela se vira na condição de única regente! Pouco depois, seus filhos, um

par de gêmeos, foram-lhe arrancados dos braços maternais para que pudesse cumprir suas

obrigações sem distrações. Amargurada, enfurecida com a tirania do irmão mais velho,

Cybelline deu asas ao seu temperamento irascível e vingativo, até então desconhecido dela

própria. Espalhando o terror e a intolerância, começou por executar os líderes da revolta,

sem deixar-se sensibilizar pelos apelos de quantos desejavam salvá-los, alegando em suas

defesas a fome e a peste!

A confusão tornou-se insuportável e Cybelline deu origem ao apelido do qual jamais

se livrara : a rainha má!

Ela não se importava, somente dava cordas ao seu ódio provocado pela perda de seus

entes amados! E prosseguia com as ações absurdas, dando festas ignóbeis onde a orgia

tomava conta, num desrespeito total à moral e aos bons costumes.

Gregório I, não suportando mais os desatinos da irmã que manchava o trono de

grandes reis, mergulhando-o em ignomínia, organizou um golpe e tomou para si o poder,

restabelecendo à força e ferros a ordem. Mandou que Cybelline se retirasse para a ilha de

Mür, antiga possessão do reino, e levasse parte da corte devassa consigo. Lá, poderia reinar

e fazer o que quisesse, contanto que não saísse jamais, a custa da própria vida!

Uma rainha não deveria amar, nunca! Era o que pensava a rainha, contudo

interessara-se por William, um cavalheiro da corte inglesa, um navegador! E ela o amara,

ainda que à sua maneira! Mas não poderia ser responsabilizada pelo fracasso da malfadada

viagem! Isso não!

Respirando fundo, Cybelline decidira. Estava na hora de a filha voltar à corte e

aprender a se comportar como uma princesa, talvez futura rainha, algo que ela nunca

soubera ser! Casar-se-ia com um nobre de estirpe, coisa que faltava em Mür, onde somente

havia devassos e interesseiros. Gregório poderia ser usurpador, mas não se negaria a

receber a sobrinha. Ela nada tinha a ver com a briga entre ambos. E depois, ele morria de

medo que a irmã voltasse e requisitasse o trono de uma hora para outra.

_Tu, Alice, és rebelde e precisas aprender a ser uma verdadeira dama! Falhei em tua

educação, falhei em fazer-te compreender a extensão de teus deveres. Vai para o teu quarto

e somente saias de lá quando eu mandar.

Alice olhara ainda um instante para a mãe, mas baixara os olhos e retirara-se. A

rainha ficara no salão, sentada em seu trono. Um reino de mentira para uma rainha também

de mentira!

Sobre o que reinava? Refletira Cybelline, na ocasião. Sobre uma ilha pequena e

pedregosa com súditos que não valiam uma moeda de cobre!

A amargura toldara-lhe a visão. Nessas horas, tinha vontade de morrer! A filha a

incomodava, era a lembrança de seu passado, precisava livrar-se do fardo que ela

representava!

E ela livrou-se. Alice estava no tombadilho do navio para o provar!

Um destino incerto, uma vida também desconhecida ...

O que a esperava no país de sua mãe? Voltava a questionar-se

CAPÍTULOVIII

A carroça sacolejava sobre as pedras do caminho e Giácomo segurava firme as

rédeas do cavalo fogoso. Ele entendia que o pobre animal estivesse louco para exercitar-se,

mas naquele momento, tinha que mantê-lo na linha. Estava a caminho da residência do

bispo para uma entrevista. O clérigo mandara chamá-lo com certa urgência e ele sabia do

que se tratava. Deveria fazer um pequeno relatório de como andavam as suas buscas.

Já há seis meses Giácomo entretinha a rainha. Ela o solicitava para tudo, a todo o

momento! Estava mesmo sentindo-se cansado da companhia da soberana. Contudo, as

caçadas e os jogos com os falcões o agradavam um bocado.

Os padres dominicanos foram convidados a se retirarem e ele os tranqüilizara

dizendo que não havia porque ficarem tão temerosos, pois o que acontecia no palácio eram

somente inocentes jantares e recepções. A rainha não seria um demônio e nem tinha parte

com ele! Se algo acontecesse, ele os avisaria imediatamente.

Livre da presença dos incômodos padres, Giácomo pôde vestir-se um tanto mais à

vontade e usufruir as benesses da vida no castelo. Contudo, não se deixava enganar pela

falsa paz. Os dominicanos inquisidores tinham seus meios de se fazerem presentes. Já

mesmo identificara a mulher que roubara os documentos da rainha e contara ao bispo sobre

as “festas”.

Comentando com Cybelline sobre suas suspeitas, ela tratou de mandar a serva à

aldeia com uma missão duvidosa. No caminho, a infeliz fora assaltada por bandidos de

estrada e perecera sob a adaga de um deles.

Giácomo bem sabia quem seriam os bandidos! Isso demonstrava o jeito especial que

Cybelline tinha de livrar-se de quem a incomodava

...

ou traía!

Mais alguns jantares e recepções foram dados em sua homenagem e ele participara de

todos! Depois, durante a madrugada, descia de seus aposentos e juntava-se à turba

enlouquecida, usufruindo o vinho e as belas mulheres que o serviam com prazer.

Cybelline não sabia de suas escapadas noturnas, ao menos era o que Giácomo

acreditava.

“Ah, Cybelline, Cybelline!”, pensava ele, com um suspiro de enfado. “Até quando o

atormentaria com suas confissões nada convencionais?”.

Ela o atiçava com as descrições picantes e censuráveis de seus “pecados” originais,

durante as tardes em que se encontravam na capela para o ofício sagrado. Muitas vezes

sentia o suor descer-lhe pela testa ao ouvir os relatos detalhados dos amores da rainha!

Nas horas em que se via livre da sua presença estafante, divertia-se com alguma

jovem camareira disposta a ajudá-lo a passar seus dias mais agradavelmente! Tudo com

muito sigilo, claro! A soberana jamais deveria saber!

Lembrou-se com um sorriso mordaz da audácia de Cybelline quando finalmente

resolvera que era hora de seduzi-lo.

Após recolherem-se, pedira que o chamassem aos seus aposentos. Giácomo, vestido

com robe sobre o camisolão, tentava imaginar o que dera na rainha para pedir seus

conselhos àquelas horas.

Entrando nos aposentos de Cybelline, onde jamais pusera os pés, estranhou a

iluminação fraca e o perfume adocicado das especiarias do oriente. Demorando um pouco

para acostumar os olhos à penumbra, compreendeu finalmente a ajuda que ela desejava.

Deitada sobre o leito enorme e majestoso, a rainha o esperava vestindo um

transparente traje de dormir que mostrava todo o esplendor de seu corpo belo. Os cabelos

louros e soltos esparramavam-se sobre os travesseiros de penas de ganso e os olhos

brilhantes fitavam-no, maliciosos.

_Preciso de ti, Giácomo Bernardone! _ falou ela, com voz

orações, mas de teus abraços!

suave.

_Não de tuas

Giácomo parou próximo ao leito e avaliou a mulher que tinha diante de si. Era o

passo definitivo para a sua conquista. Esperara por isso todo o tempo que estivera ali. Por

que hesitava?

Era a imagem de Alice! Sabia que se tivesse a mãe, jamais poderia ter a filha!

Contudo, Alice não havia partido? Não ia se casar com algum príncipe? Então ...

Sacudindo a lembrança que atrapalhava seus planos, sorriu complacente e sentou-se

no colchão macio. Cybelline abriu os braços convidativos e ele os aceitou sem remorsos.

Sim, era o passo definitivo! Conquistaria o amor e a confiança da rainha e depois o ...

seu reino!

*

*

*

CAPÍTULO VIII

_Padre Bernardone, que prazer em rever-te! _ cumprimentou o bispo, num falso

arroubo de satisfação.

_E eu em rever-vos, Excelência _ também retribuiu Giácomo no mesmo tom

malicioso.

_Senta-te, meu

caro.

_Apontando a cadeira em frente à escrivaninha, o próprio bispo

alojou-se confortavelmente em sua poltrona. Depois de servir-lhe ele mesmo um cálice do

melhor vinho da Itália, o homem o fitou perscrutador.

Se Giácomo era novo na “diplomacia clerical”, o mesmo não se poderia dizer do

bispo, homem sagaz e inteligente.

_Bem, meu caro Giácomo

...Quais

são as novidades que tens para mim? Afinal, já se

passaram seis meses de tua permanência no palácio e deves ter colhido alguma informação

interessante.

Giácomo pousou cuidadosamente o cálice sobre o tampo da mesa.

_Sim, eu tenho, Excelência. Contudo, acredito que não seja o que desejais

...

ainda.

_Como não? Não tivestes tempo suficiente para convencer a rainha ou mesmo

procurar alguma pista?

_Eu procurei, Excelência! Eu procurei! Porém, o castelo é imenso e há muitas

passagens secretas que somente a rainha deve conhecer! Até onde pude investigar, nada foi

encontrado! Tendes certeza de que existem mesmo

tais...documentos,

Excelência?

Giácomo não mentia. Procurara fervorosamente cada centímetro do castelo e

concluíra que somente a rainha poderia lhe dar as informações. Contudo, nada conseguira

da soberana fútil e teimosa. Cybelline estava sendo um osso duro de roer! Solicitava-o

agora mais do que nunca, quase não lhe deixando tempo livre!

Levara um susto quando ela penetrara em seus aposentos por uma porta secreta que

não sabia existir! Assim, ficava mais fácil encontrá-lo a qualquer momento, tirando-lhe a

privacidade. Se fosse esposo da rainha, diria que ela o estava sufocando!

_Mas é claro que existem! Ou não te teria mandado ao palácio! _ O bispo levantou-

se, tentando conter a

irritação. _

No mais, o que descobristes sobre a rainha? Ela é mesmo

bruxa e promove festas demoníacas?

Giácomo, conhecendo o caráter nada virtuoso do bispo, imaginou o quanto o velho

não se divertiria nos “encontros fraternos” de Cybelline.

_Não, Excelência. A rainha é uma mulher discreta, nada sabemos sobre essas...orgias.

No mais, suas confissões somente a mim pertencem, bem o sabeis, senhor.

_É claro! Não desejo que quebres o voto de silêncio, longe de mim tal despropósito.

Mas o Papa

Ele

está a atormentar-me por notícias, irmão Bernardone! E preciso dizer-lhe

alguma coisa!

Giácomo riu com cinismo.

_Dizei a Sua Santidade, Excelência, que o que precisa ser feito, está sendo feito.

Agora, será que eu poderia examinar melhor aquele fragmento que tendes em vossos

arquivos? Sinto enorme curiosidade em saber do que se trata!

O Bispo o fitou com desconfiança. Deveria dar ao padre os papéis? Será que ele o

estava enganando e já encontrara os outros documentos? Decidiu que não os mostraria de

novo, ainda não.

_ Meu amigo, eu sinto muito, mas já os entreguei ao Santo Padre! Se eu soubesse o

que desejavas ...

_ ele mentiu, fingindo pesar.

E Giácomo, que não era tolo, não se deixou enganar.

Levantando-se, preparou-se para encerrar a entrevista.

_Excelência, preciso ir-me. Se demorar, a rainha ficará aborrecida e poderá impedir-

me inclusive de continuar minhas incursões pelo palácio. É preciso conquistar a confiança

de Cybelline, e não é fácil a tarefa, bem o sabeis!

O Bispo o fitou longamente.

_Tenhas cuidado, meu caro. Cybelline não é o que aparenta! Apesar do que dizes,

ainda acredito nas impressões dos dominicanos!

Ele bem o sabia! A rainha ainda era capaz de surpreendê-lo! Se o Bispo soubesse um

terço do que ocorria no palácio...

Até ele mesmo seria condenado ao inferno se o que fazia não fosse por uma causa

maior. Para Giácomo, os fins justificavam os meios. Tornara-se mensageiro de Deus e tinha

uma missão a cumprir de suma importância para a permanência da Igreja do Senhor! Não

fora o próprio Bispo que o dissera?

Sem mais a acrescentar, despediu-se do velho clérigo.

Lá fora, encontrou irmão Estêvão, que o fitou com estranho e sombrio olhar. O

homem parecia saber de tudo o que se passava, embora parecesse impossível. Fanático e

intolerante, ele não hesitaria em mandá-lo para a fogueira! Sentindo-se incomodado com o

padre obscuro, subiu apressadamente na carroça e guiou-a em direção ao castelo.

Os muros de Cybelline haviam se tornado seu refúgio contra os olhares e

especulações indiscretas dos dominicanos.

Ah, Cybelline! Tu estás condenada para sempre, e sem perdão! Ainda mais agora

que seduzistes um emissário do Senhor!”, murmurou para si mesmo, com um riso arrastado.

Quem seduzira quem?

A verdade era que Giácomo refestelava-se cada vez mais nos pecados da luxúria!

Perdera-se no ópio das paixões carnais e talvez tivesse decido demais ao charco. Era

possível que não conseguisse mais emergir do lodo em que se chafurdara!

Conseguiria viver sem o luxo e o conforto que a rainha lhe proporcionava?

Conseguiria abdicar dos prazeres que aquela mulher sem moral lhe oferecia?

Nem mesmo a lembrança vaga do rosto de Alice fazia mais efeito! Nem ela e o

sentimento que lhe inspirara um dia conseguiam impedi-lo de entregar-se aos excessos!

Não seria ele o verdadeiro condenado?

Não pedira para sair de Luguiére e nem para ser emissário divino, um verdadeiro

soldado tentando resgatar o Santo Graal!, defendia-se. Estava ali porque impuseram a ele a

tarefa monumental!

Deus seria o único culpado por retirá-lo de sua cela humilde e jogá-lo à toca dos

lobos! O Pai conhecia suas limitações mais do que ele próprio, como julgá-lo agora?

Se Deus não o condenava, porque temer o julgamento dos homens?

Dando de ombros, não pensou mais no assunto. Agora havia outra prioridade.

O Bispo escondera o pergaminho e não desejava que ele o lesse. Mas não fora para

isso que se dirigira até Mür? Para tomar conhecimento e traduzir os pergaminhos? Muito

estranho o comportamento do sacerdote!

Giácomo queria aqueles papéis, agora mais do que nunca! E trataria de pegá-los!

Talvez Cybelline o auxiliasse na empreitada. Sabia o quanto o velho gordo apreciava uma

jovem gazela, ele não o enganava, não mais. A ingenuidade fora-se com sua entrada nos

muros do castelo. Giácomo vivera naqueles meses mais do que vivera em seus vinte e cinco

anos de existência. A malícia e mordacidade da rainha o haviam contaminado e olhava a

fundo as criaturas! Bastava fornecer-lhes a ocasião e eles mostravam toda a podridão a

qual Cristo se referira em seu Evangelho: “Vasos caiados por fora

...

”.

Sim, Cybelline o ajudaria, com certeza!

E era assim que pensava o jovem padre! Media a todos por si mesmo e absolutamente

não acreditava nas boas intenções dos homens!

*

*

*

CAPÍTULO IX

Alice entrou na sala particular de audiências do tio.

Sentado no trono em veludo vermelho e espaldar alto, Gregório observava a jovem

sobrinha caminhar até ele, graciosa como um cisne. Admirou-lhe a elegância e a tez pálida.

Esperou que parasse à sua frente e se inclinasse para então se levantar e pegar-lhe a mão

delicada.

Afastando-se do trono e dirigindo-se a uma das imensas janelas que davam para o

pátio interno dos aposentos particulares do rei, Gregório pensava em como dizer à sobrinha

o que pretendia.

_Minha doce e querida Alice! Cada vez que te vejo, impressiono-me mais ao constatar

o quanto crescestes. És agora uma bela mulher!

_Obrigada, majestade. Estais sempre tentando animar-me! _ falou ela, com voz

musical. Apesar das palavras do rei, estava cautelosa. Já havia percebido que quando o tio

a chamava para uma conversa particular, alguma coisa muito ruim estava destinada a ela.

_Não digo nada que não seja verdade! Alice, querida, sabes que já estás na idade de

te casares e constituir uma família para o bem de tua linhagem! E atendendo aos pedidos de

minha irmã, tua mãe, julgo que não deves mais te demorar na escolha de teu pretendente.

Sabes que o conde d’Ex. deseja contrair núpcias contigo. O homem está encantado e não

deseja esperar mais por tua resposta! Por isso, decidi que deves casar com ele o quanto

antes, querida!

Alice ficou rubra. O conde d’Ex! Dentre todos que poderia ter escolhido, ele seria o

último! Estava claro que o tio desejava uma aliança segura com o reino de França! Ou não

teria escolhido o conde, tão velho e mesquinho!

_Meu senhor, deixai-me ainda a escolha daquele que me partilhará a vida, eu vos

imploro! Não posso casar-me com aquele homem! Eu não o suporto! Ele é

...

é muito velho

e ...

O rei parou, fitando-a e a dureza de seu olhar a fez calar-se.

_Dei-te oportunidades mil, Alice! E nunca escolhestes! Agora já está decidido. Aceitei

por ti e não posso mais voltar atrás! Será muito boa para nosso país uma união com os

franceses! Deves cumprir o teu dever como princesa e possível herdeira do trono!

Gregório não era muito diferente da sua mãe, apesar da dificuldade de

relacionamento e crueldade de Cybelline. Ele podia ser pior, muito pior! Cybelline ainda

permitia a ela algumas liberdades, mas seu tio era um tirano!

Estava aprendendo rápido! Ele já lhe dera chicotadas no lombo por muito pouco.

“A fim de discipliná-la”, era o que dizia. E ela passara maus bocados desde que

aportara no país de sua mãe.

Alice imaginou o quanto Cybelline não sofrera nas mãos de tal criatura! Agora, tinha

até medo de rejeitar as ordens reais. Por menos, Gregório poderia condená-la à morte!

Afinal, era filha de Cybelline!

Baixando a cabeça, Alice nada disse, porém, o rei sabia o quanto a desgostava o

casamento.

_Vês, Alice! Serás condessa d’Ex e dona de belos campos na França! O que te

desagrada? O conde é um excelente partido. E depois, não há mais nada a fazer a não ser te

preparares para cumprir a tua missão.

Alice nada podia dizer. O que fazer a não ser acatar as ordens do tio tirano?

_Sim, majestade. Eu compreendo e farei o que me ordenais. Mas

...

nunca vos

esconderei o meu desagrado, meu tio. Agora, com a vossa permissão, gostaria de retirar-

me.

Gregório sentiu muita pena da pobre moça, contudo, para todas as coisas eram

necessários sacrifícios.

_Não desejas saber quando será o teu casamento?

_Oh, sim ...

é claro_ ela respondeu sem alegria. A palidez acentuara-se em seu

semblante abatido e seus olhos marejados não se atreviam a fitar o tio.

_Em duas semanas. Teu esposo tem que partir urgentemente e não poderá esperar

mais.

Alice apertou os lábios e assentiu com a cabeça.

_Estarei preparada, majestade.

_Podes ir, Alice.

E ela foi-se carregando o fardo do desgosto sobre os ombros.

Gregório acompanhou-a com o olhar, sentindo no fundo o pesar pelo destino de sua

bela sobrinha. Não fosse o fato de estar casado com a insípida Maria e Alice ser sua parenta

consangüínea, ele a teria tomado por esposa. De qualquer maneira, uma aliança com a

França seria vantajosa para seu reino.

Voltando para o salão, sentou-se novamente no trono e continuou a despachar. O

primeiro ministro lhe mostrava os documentos que exigiam sua atenção e os súditos, os

nobres e os outros ministros também tinham suas exigências. Reinar não era fácil, mas ele

não abdicaria do trono por nada no mundo!

*

*

*

CAPÍTULO X

Giácomo seguia a rainha em mais uma caçada. Seus exercícios não tinham fim! A

soberana era incansável!

Com o magnífico falcão pousado em seus dedos delicados, Cybelline esperava que

soltassem o pobre pombo para que sua ave o atacasse. Ela gostava de ver os vôos rasantes

do belo animal enquanto pegava sua presa.

Tirando a venda de couro dos olhos do falcão, Cybelline o instigou a voar em busca

de seu prêmio. Rindo deliciada, observava a soberba ave atingir as alturas e depois

mergulhar velozmente contra o indefeso pombo.

Giácomo sentiu um arrepio ao ver o quanto a rainha apreciava tais investidas cruéis.

Seria ela mais sombria e terrível do que ele próprio?

_Oh, meu Giácomo! Como gostaria de ser aquela ave! Deus mão me deu asas, mas

deu-me poder! Contudo, adoraria singrar os ares e depois mergulhar no infinito azul ...

_E pegar suas presas com garras afiadas, majestade?

_Tu o dissestes, meu caro! Tu o dissestes. Talvez sim, talvez não. Se me tivessem dado

asas, o que poderia fazer para defender-me a não ser atacar? Não gostaria de ser uma

andorinha ou um pombo medíocre! Tu gostarias, meu Giácomo? _ A rainha o fitou,

maliciosa. Bem sabia o que se passava na alma do padre. Ambos eram muito, muito

parecidos!

Giácomo riu suavemente.

_Tendes razão, majestade. Conheceis a alma dos homens como ninguém! Sabeis que

não me contentaria com menos do que vós!

_É uma afirmação perigosa, meu amigo! Acaso trocamos de lugar? Serei eu tua

confessora?

Giácomo retraiu-se. Vez por outra, era pego em situação melindrosa. Precisava

cuidar-se ou Cybelline poderia descobrir seus planos. Então, conhecendo-a como conhecia,

estaria perdido!

_Talvez sim, talvez não, majestade _ disse-lhe repetindo-lhe as

palavras.

_A manhã

está muito bonita, agradável mesmo! Talvez devêssemos continuar nosso passeio até a beira

do lago, minha rainha. Poderíamos nos divertir um pouco ...

Vendo o sorriso atraente e sugestivo de Giácomo, a rainha não pode resistir.

Entregava cada vez mais seu coração àquele homem! Por mais que fizesse, não conseguia

impedir-se de amá-lo como jamais amara alguém em sua vida! Encontrava-se a mercê da

forte personalidade de Giácomo e isso era muito perigoso! Mas como impedir que seu peito

batesse mais forte ao vê-lo ou mesmo quando a tomava nos braços?

Amava-o! Queria gritar, mas guardava para si o sentimento que certamente poderia

prejudicá-la um dia! Precisava manter-se em guarda contra o sofrimento de perdê-lo! Não

poderia suportar que Giácomo Bernardone a deixasse!

Aproveitando o convite, ela aquiesceu e esporeou seu cavalo, partindo num galope

enlouquecido. Giácomo observou-a um instante, admirando-lhe a desenvoltura e seguiu-a

com a mesma impetuosidade. Ela aquecia-lhe o sangue, era um estímulo, um laivo de vida

em sua monótona existência!

Amava-a ao seu modo, sabia disso. Mas amava a si mesmo em primeiro lugar!

*

*

*

Cybelline estava deitada sobre a relva macia, os cabelos soltos espalhavam-se em

madeixas douradas e os olhos brilhavam como duas contas azuis. Seu sorriso era quase

doce, entregara-se com sinceridade aos carinhos de Giácomo e naquele momento, não se

importava com nada. Não era rainha, era somente uma mulher desejosa de ser amada!

Brincando com uma pequenina flor em seu nariz, Giácomo a fazia espirrar de vez em

quando. Divertindo-se em atormentá-la, ele continuava a passar-lhe a flor sobre a pele

clara.

_Minha bela madona! _ murmurou ele,

_Até quando poderemos burlar

os vossos compromissos ou vossos guardas? Até quando manteremos em segredo o nosso

romance?

_Até quando eu quiser, Giácomo! Não sabes que posso fazer o que quiser e que todos

os meus segredos são meus? Meus súditos são cegos e mudos e nada ouvem se eu não quiser

que ouçam!

_E não temes que alguém te traia, Cybelline?

_E quem poderia? Não há nada que possam fazer fora desta ilha e os padres não

podem queimar-me em suas fogueiras. Quanto a Deus

...

o

morada, meu querido Giácomo!

inferno será nossa próxima

O semblante de Giácomo anuviou-se. Parou de brincar e sentou-se. Com os braços

apoiando-se nos joelhos, pôs-se a refletir.

_Cybelline ...Amas-me

como te amo? _ perguntou, de repente.

A rainha sentou-se também, ajeitando-se o melhor que pode. Os dedos tremiam e os

cabelos caiam-lhe na face, encobrindo sua expressão indecisa. Fingindo tirar alguns

gravetos que se prenderam em seus cachos, ela pensava no que responder.

Giácomo pegou-lhe o queixo e a fez fitá-lo. Ela não gostava quando ele a submetia ao

seu olhar negro e hipnotizante.

_Amas-me, Cybelline? tornou ele, impaciente.

_Sim, Giácomo! Amo-te, amo-te com todo meu coração! _ ela murmurou desistindo de

manter-se distante e inalcançável. Não resistia ao seu toque, ao seu beijo, muito menos ao

brilho de seus olhos magnéticos e estranhos!

Abraçando-o, ela ocultou o rosto em seu pescoço.

_Sim, amo-te! Nunca amei ninguém, bem o disse minha filha Alice antes de partir!

Mas amo a ti! Hoje sei! O que senti por meu esposo, não era amor, mas apenas uma paixão

de menina!

Giácomo apertou-a num abraço forte e fechou os olhos, escondendo sua satisfação.

_Eu sinto o mesmo, Cybelline! Quisera que não fosse verdade, que Deus me perdoe,

mas amo-te do fundo de minha alma! _ Giácomo mentia. Era necessário que ela acreditasse

nele.

Cybelline pegou-lhe o rosto entre as mãos e sorriu, os olhos molhados demonstrando

toda a alegria que sentia.

_Ninguém jamais irá nos separar, meu belo padre! Nem mesmo Deus! Porque nosso

amor será mais forte do que tudo! Sou tua para sempre, Giácomo! És bruxo, enfeitiçaste-me

e agora não sei viver sem ti!

Giácomo estava exultante. Conquistara a rainha e também sua confiança. Depois,

porque negar? Ela o agradava muito! Claro que continuava tendo seus casos fortuitos,

encontros sigilosos com belas raparigas da própria corte que também não resistiam aos seus

encantos. Mas a rainha era o prêmio maior e mais difícil.

_Giácomo, deixa a Igreja! Casa-te comigo e poderás ser rei!

Giácomo levou um susto. Deixar a Igreja? Mas por quê? Para quê? Por um reino de

fantasia, uma mentira? Cybelline não o conhecia! Queria poder, muito mais do que ela

compreenderia ou poderia lhe oferecer! A pobre mulher vivia num mundo de faz de contas e

acreditava que ele também se satisfaria com isso. Depois, quando ela se cansasse dele, como

se cansara do pai de Alice, qual seria de seu destino? Certamente também morreria,

provavelmente numa emboscada.

Não! Giácomo era esperto demais para deixar-se iludir daquela maneira!

Afastando-se dos braços de Cybelline, levantou-se e dirigiu-se às margens do lago.

Ela também se levantou e ficou observando-o com o cenho franzido. De repente, ele

voltou-se para ela com uma fisionomia angustiada.

_Dá-me tempo, minha querida! Dá-me tempo para me acostumar à idéia de

abandonar a Igreja, que tudo me ofereceu durante todos estes anos! Não consigo ainda

pensar em viver fora dos costumes e padrões que abracei por tanto tempo! Depois, tenho

uma missão, uma dívida de gratidão muito importante que devo terminar antes de retirar-me

em definitivo.

_Uma missão? E podes dizer-me qual é?

_Não, eu sinto muito! Mas talvez

...

Se

pudesses me ajudar, eu ...

talvez

acabar logo com ela e

então...

poderíamos nos casar!

eu conseguisse

Era uma cartada decisiva e arriscada! Pensara naquele momento na possibilidade.

Tendo Cybelline como aliada...

_E como eu poderia ajudar-te, meu amor? Faria qualquer coisa para ficarmos juntos

é só me pedir e eu conseguirei o que quiseres!

Seria possível que fosse tão simples? Giácomo tentava esconder a ansiedade.

Aproximando-se, pegou-a pelos ombros e tentou ser o mais convincente possível.

_O bispo mandou-me em busca de alguns documentos, Cybelline! Minha missão

consiste em levar estes documentos para ele o quanto antes! O Papa aguarda-os com

ansiedade!

_Documentos? Mas que documentos? Onde estão?

_Em teu poder, minha querida! Os pergaminhos estão contigo todo o tempo!

_Comigo? Mas

...

_De repente, a rainha afastou-se, olhando-o

desconfiada.

_Então é

por isso que estás aqui? Seduziste-me, Giácomo, por causa desses papéis?

Cybelline estava rubra. Havia decepção em sua expressão.

_Não! Não digas coisas que não são verdadeiras! Amo-te, Cybelline! Não estou

mentindo! Tenho uma missão sim, mas ela não incluía que nos envolvêssemos num

relacionamento condenável! O que diria o bispo se soubesse o que fiz? O que seria de mim

diante dos tribunais do Santo Ofício? Ou de ti? Poderia alegar feitiçaria, como muitos têm

feito, mas jamais faria tal coisa porque te amo e preferiria mil vezes sofrer as agruras dos

calabouços a envolver-te e fazer-te sofrer! Entreguei meu coração a ti, e não posso mais

tomá-lo de volta! _ Giácomo tentava por tudo convencer Cybelline da sinceridade de seus

sentimentos. A rainha ainda o fitava com desconfiança.

Num gesto bem pensado, Giácomo lançou-se de joelhos e baixou a cabeça, servil.

_Se duvidas de meu amor, Cybelline, corta-me a cabeça! Serei indigno de ti e traidor

sem perdão! Deveis cortar minha cabeça, majestade! Sois a soberana de Mür e para um

ladrão que vos roubou o coração, não há misericórdia!

Cybelline lutava contra si mesma. Será que ele a enganava e a fazia de tola? Seria o

amor de Giácomo verdadeiro? De repente, ele abraçou-lhe as pernas e enterrou o rosto em

seu ventre.

Cybelline enterrou os dedos nos cachos macios e negros, reconhecendo-se incapaz

de repeli-lo. Como poderia se o amava tanto?

_Meu pobre confessor! Estamos perdidos, condenados! O que devo fazer?

_Dar-me-ás um voto de confiança, majestade. É isso o que fareis. Deixai-me provar o

quanto vos amo!

_E como?

_Esquecendo-vos do que vos pedi agora há pouco! Queimai, destruí os documentos! E

então, podereis confiar em mim e em meu amor!

_Queimar? E tua missão? Não poderás dar cabo dela, então ...

_Sim, mas não importa mais! Diante da perda de vosso amor, nada mais importa!

_Giácomo! _ ela exclamou,

emocionada.

Acredito em ti, meu amor! E vou ajudar-te!

_Não posso privar-te de cumprir o teu dever!

Giácomo sentiu uma vertigem. O alívio foi tanto, que mal se sustentava nos joelhos.

Vira-se por um momento sem a cabeça sobre os ombros.

Ajudando-o a levantar-se, a rainha o fitou emocionada e depois o abraçou.

_Vamos voltar ao palácio. O dia foi muito cansativo e acho que estamos famintos! _

falou ela, tentando aliviar a

tensão.

_Depois, contar-me-ás tudo o que é preciso para que te

ajude! Não faço idéia do que pedes, mas se estiver em meu poder libertar-te da Igreja,

então o farei!

Giácomo beijou-lhe a mão agradecido e ajudou-a a montar. Vestindo a batina sobre o

traje de montaria, também subiu em seu cavalo e seguiram ambos para o palácio.

Uma parte de sua missão estava cumprida: convencer a rainha a dar-lhe os

documentos que não encontrara sozinho. A outra, era conseguir o que tanto almejava: o

bispado. Ou talvez algo muito, muito maior!

*

*

*

CAPÍTULO X

Alice olhava pela janela da sua residência, no Auvergne. Seu esposo, o conde d’Ex.,

ainda não regressara da viagem inesperada. Após casarem-se às pressas, os nubentes

dirigiram-se à propriedade do conde sem nem mesmo uma noite de núpcias.

Guilhaume esperava que ela compreendesse e garantira-lhe que assim que chegassem

ao Auvergne, teriam a noite tão sonhada por todas as donzelas! Ela se Lembrava de haver

suspirado de alívio. Ao menos não precisaria suportar o assédio do esposo por algum

tempo!

Ao chegarem, uma surpresa os aguardava. O velho conde fora chamado às pressas à

residência de sua mãe moribunda. Sofrendo mais aquele revés, Guilhaume mal lhe dirigira a

palavra. Ordenara que levassem a bagagem dela para dentro e depois partira. O criado

pessoal do conde fora quem a socorrera. Sem saber o que fazer, ficara parada diante das

escadarias do “petit Chalé”, como o marido chamava sua esplêndida residência, olhando a

carruagem desaparecer no horizonte.

Pegando suas coisas, o criado chamou a camareira e a governanta, Silvie, para

atender à madame condessa.

Generosa, Silvie acudiu-a e colocou-a a par de todos os fatos. Soubera através dela

que a mãe do conde já estava com noventa e oito anos e que não fora surpresa estar à beira

da morte. Guilhaume era o único homem de uma prole de seis filhos. Era certo que a mãe o

aguardasse para dar adeus ao seu único varão. Não, não sabia quando o senhor conde

voltaria, respondera-lhe Silvie na ocasião.

Acomodando-se como pode no melhor quarto da residência, Alice ia conhecendo seus

empregados. Ainda havia servos em sua propriedade, gente que vivia às expensas do conde,

à moda feudal! Eles plantavam e colhiam, entregavam queijos e frutas, porcos e galinhas,

em troca possuíam a terra em que viviam. O velho conde lhes dava sementes e montara um

armazém onde compravam ou trocavam por peças de tecido, sapatos e outros utensílios as

mercadorias que produziam. Silvie lhe dissera que era gente muito pobre e humilde,

absolutamente incapaz de viverem em qualquer outro lugar. Assim, o conde decidiu mantê-

los no sistema ao qual estavam acostumados há gerações.

Na opinião de Alice, era um arranjo muito conveniente para seu marido. Mantinha

trabalhadores ainda no regime de escravatura, propriamente. Naqueles tempos, não

impressionava encontrar quem ainda ficasse feliz com tal condição.

Depois de conhecer seus aldeões, procurou encontrar uma igreja onde pudesse orar

junto com sua gente simples. Assim se sentia mais perto de Deus, pois sua concepção do

Senhor era um pouco diferente da que os padres, em sua maioria, apresentavam. Lembrava-

se dos textos que lera, onde Jesus pregava a humildade, a simplicidade e que não se deveria

adorar aos bens materiais acima dos bens espirituais. Enquanto estivera com o tio, vira o

quanto os padres pareciam venerar mais a Mamon que a Deus! Por isso, não se sentia à

vontade diante das igrejas ornadas com pedrarias e tesouros que alimentariam uma

multidão de pessoas famintas!

Alice nada revelava de seus pensamentos. Poderiam dizer que estava tomada por

idéias demoníacas ou mesmo que se tornara seguidora dos heréticos huguenotes, como eram

conhecidos os protestantes na França.

Na aldeia, conhecera um padre que lhe parecera um homem honrado e temente a

Deus. Seus sermões eram muito bonitos e toda tarde ia à capela para orar e ouvir-lhe os

cânticos. As preleções cheias de fé davam-lhe esperanças e consolavam-lhe o espírito.

Alice fizera amizade com uma jovem da aldeia, chamada Brigitte. Ela era muito

alegre e espevitada e logo se puseram a conversar sobre diversos assuntos. Com ingênua

naturalidade, Brigitte perguntou como pudera ela casar-se com um homem tão velho e Alice

não mentiu. Fora obrigada ao enlace pelo rei, seu tio. E agora não havia retorno. O que

poderia ela fazer?

Com pena de Alice, a jovem ofereceu-lhe abrigo se um dia precisasse de sua humilde

casa. Alice sorriu-lhe e agradeceu muito, mas acreditava na fidelidade e no dever. Teria que

ser uma boa esposa para seu marido.

Entretanto, agora que se aproximava o momento em que reencontraria o conde, pois

ele lhe mandara uma mensagem avisando de sua chegada, sentia o desespero apertar-lhe o

coração. O que fazer? Como se entregar ao homem que tinha idade para ser seu avô?

O pensamento lhe provocou um arrepio de repulsa! Observando o horizonte além dos

limites de suas terras, esperava ver alguma coisa, algum sinal da comitiva de seu esposo. A

aflição era visível na forma com que seus dedos nervosos apertavam a cortina. A julgar pela

fisionomia, contudo, nada deixava transparecer.

_Madame, desejais que vos prepare um chá ou alguma outra bebida quente para que

vos alivie as tensões? _ perguntou Silvie, preocupada.

A governanta nutria pela jovem patroa uma singular afeição. Pudera observar o

quanto era bondosa e simples a sua senhora. E lamentava que ela tivesse caído nas garras

do velho conde! A menina não sabia, mas o homem era obsceno e mau! Tinha certeza de que

Alice não conhecia aquela faceta de seu marido. Pelo que sabia, a jovem condessa ainda

não tivera sua noite de núpcias, com a graça de Deus!

Estavam tão bem sem a presença do velho intratável! Por que teria ele que voltar?

perguntava-se Silvie, que vivia ali desde pequenina. E o que seria da condessa?

_Não, obrigada, Silvie _ respondeu ela com voz musical, embora

bem, não te preocupes comigo.

trêmula.

_Eu estou

_Sim, madame. O senhor conde deverá chegar logo mais à tardinha. Está a caminho e

ainda não podeis vê-lo. Por que a minha senhora não vai dar um passeio até a aldeia?

Poderíeis relaxar um pouco e conversar com padre Vincenzo ...

_Sim! Deste-me uma excelente idéia, Silvie! Eu irei até a aldeia. Por favor,

providencia um carro para mim? _ Alice sorriu mais aliviada.

Silvie atendeu prontamente. Gostava quando a patroa ficava feliz. A menina deveria

aproveitar o tempo que lhe restava de felicidade, pois quando o conde chegasse ...

E Alice partiu em direção a aldeia. Dirigia a pequena parelha com destreza e não

achara necessário fazer-se acompanhar por lacaios do conde. Dispensara-os por mais que

Silvie lhe tivesse alertado para os perigos da estrada.

Ao chegar à igreja, encontrou o padre a podar as rosas do canteiro. Ele a olhou e

cumprimentou-a com alegria. Gostava muito de sua nova pupila. Além de ser muito bonita,

tinha em seus olhos o verdadeiro encanto. Alice era doce e o brilho sincero e especial de seu

olhar atraía a todos que dela se aproximavam.

_Minha pequena condessa! Por certo não estaríeis com saudades de um velho padre

mimado por vossa atenção! _Vincenzo brincou, tirando as luvas de couro cru. Dando um

gemido, esticou-se e seus ossos

estalaram.

_Vede, madame! Estou tão velho que já nem

posso cuidar de minhas rosas! Logo o bispo terá que designar outro padre para nossa

paróquia.

_Não te aborreças com a minha visita, padre Vincenzo _ ralhou ela, descendo do

carro _E não estás velho como dizes! É somente o frio do inverno que se aproxima ...

_Sois bondosa, madame. Agora, vamos para dentro ou o frio de que falais congelar-

me-á os ossos!

_Sim, vamos! _Ela deu um pequeno riso, apesar da tensão no semblante.

O tom despreocupado com que ela falava não enganou Vincenzo. Ele pode perceber

que algo a perturbava.

Sentando-se num dos bancos toscos da velha igreja, ambos conversaram alguns

minutos sobre os problemas dos aldeões, mas logo o padre experiente fitou-a, inquisidor.

_Sei que não viestes aqui para falar dos porcos e galinhas ou das vacas que estão

dando pouco leite, que são os grandes problemas dessa gente simples. Por que, senhora

condessa, estais aqui a estas horas? O que aflige o vosso coração? Posso perceber que

grande angústia atormenta vossa alma.

Alice ficou em silêncio, pensativa. Depois, levantou-se e andou alguns passos.

Voltando-se para Vincenzo, perguntou de chofre:

_É errado uma esposa não querer

...

não

desejar que seu marido

...

É-me penoso falar

sobre tais assuntos, padre! Eu e o senhor conde

...

Não consumamos ainda nosso casamento,

já o mencionei antes em minhas confissões

...

_ Alice gaguejava envergonhada e mantinha os

olhos voltados para o chão.

Vincenzo suspirou, observando-lhe as mãozinhas nervosas a amassarem o pequeno

lenço. Aquele sim era um problema. E dos grandes!

_É isso o que temeis, condessa? Receais o retorno de vosso marido? Ou melhor

dizendo, a consumação do casamento?

_Sim, padre! Tenho horror só de pensar que

...

que

ele possa desejar-me! Eu ...

não

quero que Guilhaume me toque! Sei que estou pecando em não obedecer ao meu esposo, em

não honrar os meus deveres de esposa, mas mas

...

....

Conhecendo a fama do conde e a juventude e inocência de Alice, Vincenzo lamentou

profundamente. Todos sabiam à boca pequena das esquisitices do velho Guilhaume, dos

vícios e das torpezas de sua alma pecadora. Nunca discutia os desígnio de Deus, mas casar

uma criatura tão adorável com um velho moralmente doente ...

_Madame

condessa...minha

filha, eu não posso aconselhar-vos nada mais a não ser o

que já sabeis. Deveis sim obediência ao vosso esposo! E oro para que tenhais belos filhos

com os quais certamente Deus vos abençoará. Contudo, quero que saibais de uma coisa - e

por isso eu me responsabilizo como um pastor que deve zelar pelo rebanho do Senhor - se

acaso alguma coisa acontecer

...

digo, se o conde vos maltratar ou mesmo submeter-vos a

algum comportamento ultrajante, indigno de vossa virtude, deveis vir até mim! Eu vou fazer

o possível para ajudar-vos, seja no que for necessário!

_Padre! O que pode o senhor conde fazer-me que seja tão repugnante? _ Alice estava

aflita. Se antes temia, agora verdadeiro horror turbava-lhe o espírito.

_Nada, minha filha! Esquecei tudo! O senhor conde não há de fazer-vos mal algum,

mas

...

_ Vincenzo pesou as palavras com cuidado, já arrependido de haver começado

._

Se

acontecer alguma coisa, tereis em mim um amigo! É uma promessa, senhora condessa!

Alice tinha os olhos marejados. Beijou as mãos do padre e agradeceu-lhe a amizade.

O velho clérigo emocionou-se com aquela demonstração de carinho. Levando-a até ao

carro, falou-lhe ainda um pouco mais, procurando desanuviá-la. Quando Alice partiu,

Vincenzo sentiu um grande peso. Era como se estivesse mandando uma ovelha frágil à boca

do leão!

Mas Deus não haveria de permitir que o conde abusasse da inocência ou maculasse a

alma pura de Alice com seus hábitos indignos de um homem!

Pensando assim, Vincenzo entrou e diante do altar rústico, ajoelhou-se e orou pela

proteção de sua pupila.

*

*

*

Alice desceu da charrete observando apreensiva a carruagem parada no pátio. Seu

marido já havia chegado e ela não estava em casa para recebê-lo! O que haveria o conde de

pensar?

Subindo as escadas rapidamente, encontrou Silvie à sua espera. A governanta

mostrava-se nervosa.

_Senhora, por favor! Apressai-vos! O conde vos procurou por toda a casa e não me

parece num bom dia _ falou a mulher, aflita.

Alice deu-lhe as luvas e chapéu e seguiu para o gabinete onde Silvie dissera-lhe que o

marido estaria. Entrando cautelosamente, a jovem condessa aguardou que o marido

acabasse de abastecer o cachimbo com o fumo adocicado para cumprimentá-lo.

_Ah, então aí estás! _ exclamou o velho Guilhaume, contrariado. Aproximando-se da

esposa, olhou-a de alto a baixo, reprovando-lhe os cabelos levemente

desfeitos.

_Estás com

aparência calamitosa! Onde estivestes afinal, senhora condessa? Deverias estar aqui, a

espera de teu esposo!

_Perdoai-me, senhor! Eu

...

eu fui até a igreja e

...

_Igreja? Com mil demônios, o que fostes fazer na igreja a estas horas do dia? Ou será

que não fostes visitar o padre ...

O tom de Guilhaume era desagradável e seu hálito cheirava a rum! Alice sentiu o

estômago rolar, mas fez força para não demonstrar o desagrado.

_Fui ver o padre Vincenzo, meu senhor! Quem mais habitaria a igreja? Conheceis o

padre Vincenzo, não?

A audácia de Alice em defender a própria honra irritou ainda mais o velho.

_Ora, não me venhas com desculpas! Eu exijo respeito, sou teu esposo! De agora em

diante, somente sairás de casa sob minha autorização. Tudo o que fizeres ou venhas a

desejar fazer nesta propriedade deverás prestar-me contas primeiro, ouviste-me?

Alice o fitou surpresa! Não esperava tamanha tirania! Seu marido lhe parecia

impiedoso tanto quanto seu tio e pretendia tirar-lhe o pouco de liberdade que ainda possuía!

Como se naquelas terras tivesse muitas opções para divertimento. Com as faces rosadas de

indignação, cometeu a imprudência de responder ao esposo.

_ Não compreendo vossa ira e nem porque estou sendo punida, meu senhor! Nada fiz

que justifique vossa contrariedade. Depois, sou vossa esposa, não vossa prisioneira!

Ela não percebeu sequer o que a atingiu. Somente sentiu o ardor na face e então

compreendeu com horror o que havia acontecido. Vendo os olhos brilhantes do homem à

sua frente, afastou-se um passo para trás, com a mão na face em fogo. Ele a esbofeteara!

_Nunca me respondas, ouvistes? Jamais me respondas! Quando eu falar ou ordenar

qualquer coisa, deves ficar calada até que te dê permissão para retrucares, compreendestes?

_ O conde bufava e ela mal reconhecia o homem com quem se casara. O rosto gordo estava

vermelho e os olhos injetados e ele parecia que ia explodir de tanta cólera.

Amaldiçoando a sua incapacidade de conter o próprio gênio, o que fora a causa de ter

sido expulsa da ilha de Mür pela própria mãe, resolveu calar-se. Já conhecera a maldade

dos homens o suficiente.

Baixando a cabeça, esperou que ele terminasse seu discurso, permanecendo em

silêncio, esforçando-se para reter as lágrimas que queimavam em seus olhos.

Guilhaume conteve-se finalmente e afastou-se dela. Talvez o medo na expressão da

esposa o tivesse despertado. Pegando o cachimbo sobre a escrivaninha, deu uma longa

baforada, parecendo acalmar-se um pouco. O prazer era evidente em sua expressão ao

inalar a fumaça espessa e enjoativa.

_Agora que estou de volta e que tudo afinal me pertence por direito, tornei-me um

homem poderoso! Vou dar-te todas as jóias, todas as roupas e todas as regalias que

desejares, minha querida esposa! Faremos viagens espetaculares pelo mundo e serás a mais

bela condessa dentre todas as que habitaram o nosso castelo! Tua beleza e vigor matarão

meus amigos de inveja! Entendes agora a importância do homem com quem te casastes,

Alice? _ Ele voltou-se para ela e sorriu-lhe

maliciosamente.

_Sou um homem feliz,

finalmente! Minha mãe deixou-me todas as jóias, pratarias e bens que pertenciam a ela e

somando-se à minha pequena fortuna, tornei-me muito, muito rico! E hoje pretendo dar-te a

melhor noite de núpcias que uma jovem noiva poderia desejar, finalmente! Teríamos

consumado antes nosso casamento, não fosse o pequeno, mas feliz contratempo.

Alice estava estupefata com o modo frio e calculista com que ele falava da morte da

mãe! E não menos apreensiva ficou quando o viu pegar de sobre a escrivaninha o pequeno

chicote que usava para cavalgar. Ele acariciou o couro macio com cuidado e depois voltou-

se para ela com olhar sombrio.

_Acaso não andastes por aí a procura de algum jovem aldeão para curar-te solidão,

não é? _ perguntou, com a boca num ricto estranho.

Alice ficou rubra de vergonha.

_Meu senhor, eu vos imploro que me respeiteis como a esposa digna de carregar

vosso nome e que não me insulteis com comentários tão vis! _ Ela teve a coragem de dizer,

tentando manter a dignidade apesar do medo e da marca vermelha em seu rosto.

O brilho de seus olhos ficou mais intenso e a face rubra deixou-a mais encantadora. O

conde percebeu e admirou a inocência de sua esposa. Ele a queria muito! Desde que a vira

no palácio do rei, ele a cobiçara! Pagara grande soma por ela ao rei avarento e ainda

oferecera uma aliança política com aquele usurpador! Mas pretendia fazer valer à pena a

transação. Alice afinal lhe pertencia e não a deixaria escapar! Ensinaria à jovem esposa

todos os jogos do amor, todos os artifícios para agradá-lo e ele mal podia esperar!

Antes que Alice pudesse prever, o conde deu um salto e venceu a distância que os

separava, prendendo-a num abraço vigoroso. Não podia, não deseja mais esperar!

Repugnada, ela afastava os lábios da boca faminta, lutando para respirar.

_Por favor, deixai-me, senhor! _ dizia, mas ele não a

me! Os criados...Silvie...

ouvia.

_Eu

...

eu

preciso trocar-

O homem parecia ter enlouquecido e continuava a atacá-la, abrindo-lhe o vestido e

empurrando-a por sobre os móveis. No caminho, derrubavam objetos do chão até que ele a

jogou sobre o divã.

Sufocando sob o peso do imenso conde, Alice lutava para manter-se incólume,

tentando conter os avanços de seu marido. Quando ela pensou que estava perdida, a

governanta bateu à porta e logo entrou, deparando-se com a cena constrangedora.

O velho gordo havia perdido a peruca e mostrava uma careca reluzente que tentara a

custo esconder de todos. O sinal, pequeno ponto de veludo negro colado à face, como ditava

a moda nos salões, havia escorregado para o queixo.

A pobre Alice arfava sob o brutamontes que a agarrara.

_Perdoai-me, monsieur! _ gaguejou a

governanta.

_Mas

...

mas

precisamos saber onde

devemos colocar os baús que vieram da residência de vossa mãe, a senhora Antonieta ...

Silvie tinha a intenção de afastar o conde de sua senhora e o conseguiu. Com um

sobressalto, tentou recompor-se o quanto podia. O homem levantou-se e, mortificado,

percebeu a peruca no chão. Agarrando o objeto que mais parecia um animal enroscado,

recolocou-o na cabeça de qualquer forma. A peruca torta deixou-o ainda mais ridículo, e

sua figura tornou-se cômica como a de um bufão! Somente os anos de rígida disciplina

impediram Silvie de rir.

_Sim, certamente _ ofegou ele, constrangido. Puxando as mangas e ajeitando a gola

rendada, passou por ela muito ereto, tentando disfarçar o constrangimento.

Alice levantou-se, sorvendo o ar com dificuldade. Sentia que ia desmaiar sem o

oxigênio precioso. A governanta chamou a camareira e ambas desataram-lhe rapidamente

os laços do corpete. Depois de um copo de água, ela sentiu-se melhor, mas não menos aflita.

_Oh, Silvie! O que vou fazer? Não posso

...

não

posso ficar com o conde! Nunca me

pareceu tão

...

tão

terrível e mesquinho! Se ao menos não tivesse tentado me atacar daquele

jeito, poderíamos ter uma vida em comum, mas

...

_ De repente, as lágrimas represadas por

tudo que lhe havia acontecido desde que discutira com a mãe e se casara contra a vontade

caíram-lhe dos olhos como uma cachoeira de

amarguras.

_Não sei o que fazer!

Aflitas com a dor de Alice, Silvie e a camareira tentavam consolá-la. Contudo,

sentiam-se impotentes. Pelo que conheciam do conde, somente haveria de piorara situação

da pobre condessa. Guilhaume era depravado e mau! O que ele fizera não fora nada

comparado ao que estava acostumado e a senhora não fazia idéia do sofrimento que a

aguardava!

_Senhora! Deveis partir desta casa, da aldeia, enquanto ainda é tempo! _disse Silvie,

de repente.

_Partir? Mas

...

Como?

Para onde irei?

_Deveis partir agora, senhora! Levai o mínimo, somente o necessário e abrigai-vos

em casa de Brigitte! Amanhã, antes que o conde mande procurar-vos por toda a aldeia,

fugireis!

_Mas como posso fugir? Nem mesmo sei para onde ir! Tudo é estranho para mim,

Silvie!

_Agora somente tendes que partir e ficareis em casa de Brigitte! Amelie poderá ir

convosco. Depois, enviarei mais alguma coisa, quando estiverdes a salvo! Senhora, não

fazeis idéia do que vos aguarda! O conde irá destruir vossa bondade e conspurcar vosso

espírito! Ouvi o que digo!

Alice temeu o pior. Sim, podia pressentir a verdade! Precisava partir!

Levantando-se, pediu às duas que a seguissem até seu quarto e lá ajudassem a

guardar alguns pertences. Entre eles, estava o baú dourado que seu pai lhe legara.

_Porque vais levar isto, senhora? Não vai pesar em vossa bagagem? _ perguntou

Silvie.

_Não! Nunca partirei sem minhas relíquias, as únicas lembranças de meu pai! Vou

levá-lo comigo.

_Se é o que desejais, mas apressai-vos por misericórdia!

Levando somente o necessário, as mulheres esgueiraram-se pelos cantos até os

estábulos. Lá, pegaram novamente a charrete e puseram a bagagem nela. Pouco depois,

Alice partia da maison do conde rumo a aldeia.

Em casa de Brigitte, pediu para ficar aquela noite. A jovem adorou sua visita, contudo

ao saber que fugia do castelo, pediu ajuda ao padre Vincenzo.

Vincenzo, ao ouvir-lhe o relato, decidiu lavá-la para sua casa, atrás da igreja. Ele

dormiria na capela. No dia seguinte, Alice partiria para o convento de Santa Maria

Imaculada, com uma carta de recomendações.

E assim Alice partiu. Encontrou o convento com facilidade e instalou-se nele pelo

tempo que pode ficar. Após alguns meses, tornou-se mais uma das irmãs de caridade do

convento. Legando seu pequeno tesouro, mas mantendo consigo a caixa dourada, tornou-se

uma das noviças mais devotadas da casa. Seu nome mudara para não levantar suspeitas.

Não pretendia que a encontrassem nunca mais. Mudara de vida, renascera para o Cristo,

era uma nova pessoa. Parecia ter encontrado finalmente o seu lugar no mundo.