O livro Casa Grande & Senzala foi escrito no Rio de Janeiro por Gilberto Freyre publicado em 1981 pela editora

Brasil América. Quadrinizado pelo professor Estevão Pinto. Como sabemos, a colonização do Brasil foi realizada por portugueses que há cem anos exploravam os mares em busca de especarias. Ao aportarem no Brasil não viram tão grandes diferenças da paisagem que conheciam, tendo em vista que Portugal era mais próxima da África do que da Europa. O conhecimento dos trópicos ajudou os portugueses no processo de fenecimento de velhos costumes europeus, o que os ajudou a ter uma visão mais flexível. Visão essa que colaborou na adaptação à nova terra. Houve uma identificação cultural entre os portugueses e os nativos da terra, pois foi projetada nas índias a imagem da “moura encantada”, personagem mítico da cultura lusitana. Porém, a realidade brasileira era um tanto diferente dos desafios até ali enfrentados pelos colonizadores. A partir daquele momento ele não teria apenas como encargo o comércio, mas que construir e moldar uma nova sociedade baseada na agricultura, no trabalho escravo e na família estável. Só para citar, algumas das dificuldades: a substituição do trigo (europeu) pela mandioca (brasileira), as enchentes dos rios, as secas periódicas e diversas pragas que atrapalhavam a agricultura. Diferente do que era visto na índia (jóias, pérolas, rubis, sedas) no Brasil havia índios que dormiam de rede, caçavam, e trocavam o pau-brasil por algumas bugigangas. O investimento nas terras brasileiras se deu principalmente através da iniciativa particular de colonos europeus que estabeleceram aqui as primeiras moendas de açúcar, as primeiras plantas alimentícias, os primeiros instrumentos agrícolas etc. A presença portuguesa é marcada principalmente pela família rural que traziam como exigência aos colonizados a cristandade. Os hábitos alimentares do Brasil colonial se restringiram a poucas frutas, legumes raros, carne de boi má e em pouca quantidade. Tudo isso devido ao cultivo quase que exclusivo da cana-de-açúcar que através da Bahia, do Maranhão e do Pernambuco transformaram o país em uma grande monocultura. Houve grande miscigenação do homem branco português com a mulher indígena (ameríndia). Para citar alguns costumes herdados dos índios temos: o óleo vegetal, a rede, o processo de coivara, o preparo da mandioca e seus derivados, artesanatos como os da cerâmica, canoas, alguns tipos de pilões de pau, técnicas de pescaria e armadilhas para

Eles foram levados ao trabalho sedentário e sistemático. tetéia. fabricar vasilhas de barro. preparava alimentos e cuidava das crianças. Receberam como recompensa doenças motivadas pela mudança de costumes e pelo contato com o branco. o português substituiu-o pelo negro. Um bom exemplo da misturas das etnias na comida é a tapioca de coco (bananeira africana. as comidas oleosas. guiar os sertanistas. transportar toros de madeira. gordas ou ricas em açúcar também são de origem mourisca. o saci. O índio era especialista em abater árvores. embatucar. os indígenas foram submetidos ao trabalho escravo e forçado. caçar. Ao passo da não adaptação do índio ao engenho. Cabe aqui colocar que também somos herdeiros de costumes moura e mourisca. Um bom exemplo são os tapetes turcos. O Brasil. A educação concedida aos mais pequenos enraizou a nova cultura que pouco a pouco foi invertendo valores e garantindo sua consumação nas novas gerações. sem supostas divisões raciais. não recebeu apenas influências indígenas. destruindo assim tudo o que se opusesse à moral ou ao interesses dos dominadores. buscar água nos rios. pescar. que era considerado melhor por sua melhor adaptação do sistema colonizador no Brasil. A mulher indígena ocupava papéis importantes na economia da colônia. O uso de pimenta também era muito como no Norte do país. Passado o período das atividades jesuítas. Mas o modo de produção dos engenhos não se identificou com sua índole. sapeca.apanhar animais. a mãe-d’água entre outros. caipira. Há também o uso de azulejos nas residências característica típica da cultura árabe. A telha. entretanto. As culturas que estiveram no contato colonizador se chocaram no tangente aos jesuítas que educaram os colonos a maneira européia. Aqui cabe o jargão: “o açúcar matou o índio”. pipoca. As crianças eram educadas ao lado dos órfãos vindos de Lisboa. . as almofadas orientais e as esteiras que possivelmente são heranças da influência moura. mandioca indígena. Como a de tecer balaios e redes de algodão. Além das lendas e supertições como a do curupira. pereba. Além do uso da mandioca também era usado o milho de onde se podia extrair um tipo de vinho. coco asiático e sal europeu). as janelas de rótulas. O andar de pé descalço é um dos costumes atribuídos ao indígena que também nos deixou de herança várias expressões como: arapuca. o que causou a deserção de vários índios que largaram mulheres e filhos.

segue traçando as características herdadas do negro pelo povo brasileiro.)”. Por ser ativo e alegre ele acaba sendo um grande colaborador do branco na colonização do Brasil. como aplicar adjetivos como ‘indolente’ e ‘preguiçoso’ a alguém. esta recusa é. que se recusa a trabalhar como escravo. pesca etc. pois eles influenciaram bastante os colonizadores portugueses. caça. 16) Alguns negros trouxeram com eles a religião de Maomé. Ainda hoje a apreciação pelo bacharelismo e pelo anel no dedo com rubi ou esmeralda tem traços de sabor israelita. relutante. É interessante notar o antagonismo que se caracteriza nesses dois momentos históricos. acomodatício.Os judeus também deixaram fortes traços na cultura brasileira. por não servir mais aos fins dos colonizadores torna-se então descartável dando lugar ao negro que pode executar com maior maestria o trabalho do índio. (p. Everardo Rocha critica essa visão etnocêntrica no livro “O que é etnocentrismo” ao dizer: “Alguns livros colocam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. onde o índio. numa lavoura que não é a sua. ¹ Nota-se aqui que para o português colonizador. fácil. Um exemplo é o gosto pela atividade mercantil ou comercial. os da Guiné (excelentes para serviços domésticos) entre outros. de Pernambuco e de Minas Gerais (os mais ricos) importavam os escravos mais caros. para a riqueza de um colonizador que nem seque é seu amigo: antes. divertido. difícil. bisonho. o índio se apresenta nos momentos históricos diferentes de acordo com a necessidade da configuração social da colônia. No momento primeiro da colonização. os ardas (fogosos). chegando até a estabelecer ritos de tal religião aqui no Brasil. Já na passagem do nomadismo para a monocultura da cana-de-açúcar ele começa a ser encarado como triste e preguiçoso em comparação aos africanos que atendiam melhor a demanda das configurações econômicas e sociais. Eles eram considerados “superiores” por conta de sua cultura intelectual e científica aplicadas através de ofícios boticários e médica. muito pelo contrário. O negro desempenhou importante papel na colonização por serem eles também civilizadores dessa nova terra. suspeitoso ¹. foi caracterizado como: “altivo e forte no labor (transporte de madeira. Havia. Há a ideia coletiva de que as práticas de feitiçaria foram . sinal de saúde mental”. O negro caracteriza-se nesse contexto como alegre. Ora. Os engenhos da Bahia. assim como para o historiador que esboçou esse livro. O autor de Casa grande & senzala. um povo ou uma pessoa. confiante e contraste com o índio triste. vários tipos de negros como os angolanos (ideais para o trabalho bruto). no mínimo. O jargão de que o “trabalho era só para negro” é uma característica dos judeus que foram ótimos comerciantes de escravos. porém. onde o índio servia aos interesses colonizadores.

chegando até a gerar rivalidades e verdadeiras guerras entre famílias. 2 Avaliação da obra . contudo. do caipora. pratica comum no Brasil colonial. Era de se imaginar que sentissem saudades do tempo de moleque. Uma grande personagem na mistura de culturas foi a ama negra que adaptou canções portuguesas às condições regionais. Quando a criança brasileira começava a andar. Havia castigos como beliscões e puxões de orelha para os garotos que saíssem da linha. foi ele que apesar de tudo cantou trabalhando. Os meninos aos sete anos já eram educadíssimos chegando até a falar em Latim e recitar em francês. Os africanos também adoravam um bom conto. Havia também a promiscuidade das modinhas antigas dos sinhôs/moços com as mulatas da senzala. Os negros de serviços domésticos eram tratados de melhor forma. A grande contribuição negra para o regime alimentar brasileiro se deu nas comidas hoje conhecidas como brasileiras. na cozinha. entre os próprios negros havia hierarquias e divisões. cantou nas plantações. vatapá. que eram criados dentro das grandes propriedades do engenho. Estudavam em internatos e usavam roupas formais. também colaborou com suas ervas milagrosas. nos tanques de lavar roupa. abará. canjica.trazidas pelos africanos. O negro. São elas: caruru. O casamento entre pessoas da mesma família era uma pratica comum na colônia. são exemplos. acaçá. ou seja. O senhor de engenho se dava ao luxo do ócio saindo de casa raras vezes apenas para comparecer a igreja ou quando ia a festas ou danças. do boitatá entre outras. O negro trouxe alegria para a melancolia do português e a tristeza do índio. Dessa união geraram-se vários filhos ilegítimos. A muitos escravos era dado o direito de participar das festas de confraternização dos casamentos que duravam cerca de uma semana. mocotó. lhe era atribuído um moleque para que brincasse com ele. Lendas como as do saci-pererê. arroz-de-coco. pamonha. Os escravos assumiam todas as atividades eram “as mãos e os pés do senhor de engenho”. pão-de-ló de arroz e de milho etc. uma história de Trancoso. em todos os lugares. porém antes elas também vinham de Portugal. As meninas logo cedo estavam de casamento arranjado. angu.

do povo à raça. com um modo de produção diferente. em um espaço que hesita no arrojo da obra de Gilberto Freyre. O que quero mostrar é que o índio era auto-suficiente. . por uma imposição social e cultura. Do modo como o livro apresenta. O autor trata a colonização do ponto de vista portuguesa utilitarista. 1984). Porém. Os colonizadores massacram o povo indígena com uma cultura diferente.Casa grande & senzala traça um panorama que vai da língua à geografia. A formação étnica e histórica do Brasil merece uma atenção crítica e dialética que avalie todas as faces. de modo simples e claro nos passou uma visão do Brasil colônia que é recorrente nas salas de aula e nos livros didáticos. O índio se vê invadido por uma cultura diferente da sua. não fugindo muito do padrão de crença brasileiro a cerca da sua própria formação. da personalidade à família. onde cada povo desempenhou um papel claro e definido na colonização do Brasil. Porém ele não é a simples soma de algumas características colhidas ou doadas de cada povo. (Everardo Rocha. Que trabalhava para se alimentar e alimentar sua tribo e não para gerar excedente e riqueza. Com certeza houve conflitos e resistências. Porém em vários trechos da obra ele avalia a cultura portuguesa como “superior” e “desenvolvida” traços esses que não correspondem a uma visão histórica aberta e abrangente. Gilberto Freyre poderia ter traçado um retrato mais justo da configuração que formou esse país que hoje conhecemos como Brasil. Ressaltando os pontos positivos e as características herdadas de vários povos pelo nosso país. Pode-se até se falar em etno-genocídio. e indígenas de dormir em redes e tecer artesanatos. Isso abalou seriamente o que poderia ter sido uma contribuição indígena para a formação do povo brasileiro. sejam elas ameríndias. até parece que os índios não poderiam ser o que eram se não houvesse portugueses. Uma análise da colonização do Brasil corre o risco de ser etnocêntrica se não levarmos em conta as particularidades da vida negra. que toma como referência o mais forte. A total desconsideração do branco português em relação a ameríndio e ao negro africano. No que tange a uma demonstração simples e clara a cerca da colonização. que considera todos os lados dos acontecimentos. É obvio que o Brasil é fruto de diversas etnias e culturas. Traçar com fidelidade o Brasil colônia em suas características mais peculiares e particulares não deve ter sido tarefa fácil para Gilberto Freyre. com um modo de vida diferente. indígena e portuguesa. européias ou africanas. como os costumes negros de cantar e de dançar. ele saí-se muito bem.

BIBLIOGRAFIA .mitos e crenças que o brasileiro tem de sua própria história e de sua própria cultura como um todo.

1981. . – São Paulo. O que é etnocentrismo. Editora Brasiliense 11ª Ed. Casa grande & senzala: quadrinizado pelo professor Estevão Pinto. 1994. ROCHA. Editora Brasil América – Rio de Janeiro. Gilberto. Everardo.FREYRE.

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