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SHOPPING CENTERS, CIDADES DE PORTE MÉDIO E CENTRALIDADE URBANA 1

André Felipe Vilas de Castro andrefelipevc@hotmail.com aluno de graduação FCT/UNESP- Campus Presidente Prudente Bolsista de Iniciação Cientifica FAPESP

RESUMO

Os shopping centers se configuram como algo extremamente recente em nosso meio dada a sua expansão na década de 1980. Vale ressaltar que o primeiro empreendimento surgiu em São Paulo, o Shopping Iguatemi, em 1966. Esses empreendimentos, criados nos Estados Unidos na metade da década de 1950, além de se apresentarem como exemplos de economias de aglomeração, geradoras de sub-centros comerciais intra-urbanos, são formas recentes de realização do consumo de bens e serviços, tendo a sua expansão notadamente em cidades de porte médio a partir da década de 1980. Desta forma, estes empreendimentos se configuram, de um lado, como um grande atrativo para grande parcela da população dessas cidades e das pequenas que ela polarizam e, de outro, como um grande definidor no processo de espacialização funcional e segmentação social, criando assim novas centralidades.

Palavras-chave:

redefinição

INTRODUÇÃO

shopping

centers;

centralidade

urbana;

cidades

de

porte

médio;

A crescente inserção dos shopping centers em cidades de porte médio paulistas tem

chamado a atenção para o estudo de como se dá essa apropriação do espaço , bem como

das redefinições engendradas por tais mudanças. Rearranjo dos fluxos e o surgimento de

novas centralidades são algumas alterações que esses empreendimentos promovem, mas

consideramos as principais. Desta forma, reconhecendo as diversas cidades e seus

múltiplos aspectos, teceremos subsídios para avaliar a estruturação dessas cidades, no

tocante à densidade de papéis econômicos, tanto comerciais como de serviços, na

expectativa de apreender os fluxos expressos pelas formas de circulação, levando em

consideração a posição que o tradicional centro desempenha em suas estruturas urbanas,

após a implantação desses grandes empreendimentos.

Deste modo, o foco principal deste estudo é suscitar aspectos para entender quais

papéis esses empreendimentos desempenham nas cidades de porte médio paulista com

intervalo populacional de 100 à 600 mil habitantes 2 , pautando-se em especial nas

redefinições que seu papel principal, o comercial, desempenham no tocante à alteração da

1 Geografia Urbana

2 Escolha tomada pelo pesquisador quando se fundamentou a pesquisa. Buscou-se assim a aproximação com o conceito de cidade média, que auxiliou no trato com as cidades evidenciadas neste estudo.

centralidade, espacialização funcional e segmentação social, ou seja, a geração de novos conteúdos e significados à cidade.

O SHOPPING CENTER NO CONTEXTO

O shopping center é um empreendimento que vem apresentando uma rápida expansão dentro do contexto das cidades médias brasileiras, em especial as cidades médias paulistas, que são pólos atrativos para a constituição de um mercado que consolide o crescimento desse tipo de empreendimento. Os números são expressivos e revelam que sua participação no mercado nacional movimenta algo em torno de 18,3% do varejo nacional e por 2% do PIB, sendo responsável por mais de 720 mil vagas de emprego (Associação Brasileira de Shopping Centers, - ABRASCE, 2010).

Quadro 1: Estado de São Paulo. Shopping centers. Evolução do faturamento dos empreendimentos 2005-2009.

. Evolução do faturamento dos empreendimentos 2005-2009. Figura 1 - Quadro de referência de faturamento dos

Figura 1- Quadro de referência de faturamento dos empreendimentos no Brasil Fonte: Gráfico extraído do sítio da ABRASCE- Associação Brasileira de Shopping Centers

O gráfico acima revela a evolução do montante de faturamento dos shopping centers no Brasil e com base nos dados gerados pela ABRASCE, que tem um total de 200 filiados, revela que somente o Estado de São Paulo apresenta 131 estabelecimentos configurando aproximadamente 3.620.139 m² de Área Bruta Locável (ABL), somando 301.349 empregos diretos e indiretos. Para uma melhor visualização destes números, apresentamos uma tabela que sintetiza os dados para uma melhor compreensão. São aqui representadas as cidades que apresentam em sua estrutura urbana um ou mais empreendimento, e propomos a relação

entre a população total do município e a população total da região de influência desses municípios, pela área bruta locável de cada empreendimento, para melhor detalhar a oferta de metragem pela população e destacar quais são as cidades de maior presença dos shopping centers. Para a coleta de dados sobre a população da região de influência, utilizamos a Regiões de Influência das Cidades (2007) juntamente com o auxílio de uma ferramenta do site do IBGE, o IBGE Cidades, para verificar o número da população de cada uma dessas cidades para, no final, resultar no montante apresentado na quarta coluna da Tabela 1 (População da Região de Influência).

Tabela 1: Estado de São Paulo: Shopping Centers em cidade de 100 mil a 600 mil habitantes. 2011.

Cidade

 

Número de

 

Número de

Área Bruta Locável (ABL) dos Empreendimentos 5

Relação entre a população e a ABL.

principal

População

cidades da

População

Shopping Centers

do

Região de

Influência 2

da Região

(SC) 4

   

Outras

cidades da

município 1

de Influência

Cidade

R.I.

SC da

SC na R.I

Cidade

Cidades

(R.I.) 3

principal

cidade

principal

da R.I.

R.I.

 

principal

S.

J. dos

627.544

35

1.596.185

3

3

129.212,79

129.212,79

4,85

12,35

Campos

Ribeirão

604.682

53

2.464.971

2

4

70.846,00

104.539,56

8,53

23,57

Preto

Barretos

112.102

   

1

 

17.200,00

     

Franca

318.640

   

1

 

16.492,56

     

Sorocaba

586.625

43

1.773.437

2

4

74.453,35

113.453,35

8,00

15,63

Itapetininga

144.416

   

1

 

17.000,00

     

Itu

154.147

   

1

 

22.000,00

     

Santos

419.757

19

1.638.424

3

5

55.445,00

80.385,57

7,57

20,38

São Vicente

332.445

   

1

 

21.000,00

     

Guarujá

290.752

   

1

 

3.940,57

     

S.

J. do Rio

408.435

102

2.229.708

2

3

50.000,00

73.000,00

8,16

30,54

Preto

Araçatuba

181.579

   

1

 

23.000,00

     

Jundiaí

370.126

8

811.944

1

1

35.861,00

35,861,00

10,32

22,64

Piracicaba

364.571

16

784.949

1

2

27.800,00

43.230,70

13,11

18,15

Rio Claro

186.299

   

1

 

15.430,70

     

Bauru

343.937

27

908.094

1

1

19.372,00

19.372,00

17,75

46,87

Franca

318.640

17

594.589

1

1

16.492,56

16.492,56

19,32

36,05

Taubaté

278.686

9

557.197

1

1

27.638,71

27.638,71

10,08

20,16

Limeira

276.022

3

332.852

1

1

19.413,54

19.413,54

14,21

17,14

Marília

216.745

43

801.986

2

2

24.119,86

24.119,86

8,98

33,25

Araraquara

208.662

17

564.466

1

1

12.575,00

12.575,00

16,59

44,88

P.Prudente

207.610

56

877.457

2

2

31.844,17

31.844,17

6,51

27,55

Rio Claro

186.299

5

243.207

1

1

15.430,70

15.430,70

12,07

15,76

Araçatuba

181.579

43

742.690

1

1

23.000,00

23.000,00

7,89

32,29

Itapetining

144.416

6

232.119

1

1

17.000,00

17.000,00

8,49

13,65

a

 

Fonte: (1) IBGE CIDADES 2011

 

(2)

IBGE REGIC (REGIÃO DE INFLUÊNCIA DAS CIDADES) 2007

(3) IBGE CIDADES 2011

(4)

Dados obtidos nos sites dos empreendimentos (5) Dados obtidos nos sites dos empreendimentos Organização: André Felipe Vilas de Castro 26/05/2011

Pela análise da tabela 01, podemos ver que a distribuição de shopping centers nas cidades médias paulistas é bastante variada, deixando clara a presença de cidades que apresentam somente um único empreendimento, e de outras que são dotadas de mais de um empreendimento na sua estrutura urbana. Pela análise da tabela podemos primeiro calcular a relação entre o número de habitantes da cidade e a ABL e, posteriormente, o número de toda a população que compõem a região de influência, também pela ABL dos empreendimentos, para assim chegar a resultados que expressam a relação entre demanda potencial e área destinada a esse tipo de comércio e serviços, uma vez que se define a área bruta locável como uma área que corresponde à soma de todas as áreas disponíveis para a locação nos shopping centers, exceto quiosques e as áreas comerciais de propriedade de terceiros 3 . Podemos destacar aqui duas cidades que sintetizam bastante diferenças, como é o caso de São José dos Campos e Bauru. São José dos Campos apresenta (3)três shopping centers que somam 129.212,79 m² de abl e uma população de 627.544 habitantes, que na relação com a abl dos empreendimentos, resulta em um índice de 4,85 hab./m². mas que, na mesma relação, agora com o total dos habitantes da região de influência do município, 1.596.185 habitantes, o resultado se mostra na proporção de 12,35 pop./m², índice relativamente pequeno na comparação do restante das cidades. Já para Bauru, a situação se faz contrária, com 343.937 habitantes no município, 908.094 habitantes para as 27 cidades da sua área de influência e 19.372,00 m² de abl d o Bauru Shopping, o índice para o município é de 17,75 pop./m² de abl e de 46,87 pop./m² para a área de influência, se mostrando como a cidade de maior índice na tabela 01. É preciso atentar que a oferta de metros quadrados de área bruta locável para Bauru se mostra escassa para a quantidade de habitantes do município, e ainda mais escassa se tomarmos como referência as suas áreas de influência. Em relação ao crescimento acentuado deste tipo de empreendimento no Estado de São Paulo, é preciso atentar para o papel que estes estabelecimentos exercem no que tange à configuração dos centros urbanos. Na perspectiva de criação de novos mercados, acirram-se a concorrência de atração tanto de investidores, que buscam o melhor lócus para investir na abertura de um ponto comercial, e da clientela, que é influenciada por um local que melhor lhe ofereça condições ideais de união do bem estar na hora da compra, aliando

3 Definição extraída da Incorporadora General Shopping Brasil. Disponível em www.generalshopping.com.br.

comodidade, conforto e segurança, esta proporcionada pelo ambiente monitorado, tendo em vista a “ágorafobia” (BORJA, 2005) perpetuada nos meios urbanos modernos. Ainda que somente estes fatores propiciem um maior concentração dos shopping centers nas cidades de médio a grande porte, e inegavelmente nas metrópoles, outros fatores corroboram para essa inserção, como a proposta da diversificação em oposição à especialização de produtos e serviços, encontrando sua base econômica na economia de aglomeração e nessa diversificação de produtos que confere a complementaridade de serviços que atendam especialmente às demandas da classe média brasileira (MONTESSORO, 1999). Seu maior poder estruturador decorre da sua habilidade de apresentar uma variedade de comércio e equilíbrio se opondo ao centro especializado das cidades. Deste modo, o seu mix e a variedade de lojas, contemplam uma maior gama de ofertas de produtos, com as mais diversificadas lojas, o que garante uma maior atração de consumidores (MONTESSORO, 1999). Ainda segundo a ABRASCE, desde o final dos anos de 1990, os shopping centers vêm passando por uma reestruturação de layout, que dentre as principais mudanças, apresentam novas configurações que incrementaram ainda mais a demanda para o consumo, adequando-se à padronização deste tipo de estabelecimento por todo o mundo. Outro diferencial apontado pela ABRASCE é o recente conceito de empreendimento no Brasil, esse chamado de open mall, que apresenta luz natural e lojas abertas para ruas e jardins naturais, conferindo uma aproximação com o meio natural na tentativa de menorizar seu aspecto plástico de ambiente. É importante atentarmos que ao tecer idéias sobre esses empreendimentos, é necessário também fazer uma breve síntese sobre a morfologia das cidades. Segundo Montessoro (1999), a análise e a interpretação da cidade não podem ser desvinculadas de uma avaliação das transformações na dinâmica de produção e de crescimento das mesmas. As cidades concentram os mais diversos meios de produção e de pessoas que vivem em sociedade e que produzem nelas os espaços de produção, consumo, lazer e os espaços residenciais, que no somatório de suas realizações engendram o processo de (re)produção do capital. Para melhor elucidar essas idéias, Carlos (1994, p. 84) explica-nos que a cidade tem sido analisada como concentração de população, instrumentos de produção, necessidades, atividades, serviços, infra-estrutura, reserva de mão-de-obra e (sobretudo) mercadorias. Sobre esta situação, recorremos ainda a Montessoro (1999) quando denotamos que cada porção do espaço urbano comporta um tipo de atividade que define seu preço e que a posteriori determinará o seu uso, relacionado com as próprias estratégias de localização que se apresentam, de modo intenso nos grandes centros urbanos, metropolitanos ou não, mas

que vem se ampliando nas cidades de porte médio, cuja participação relativa na composição dos mercados consumidores se apresenta em contínuo e acentuado crescimento. Mudanças nos arranjos locacionais aliadas à disseminação do uso do transporte particular e melhoria no sistema de transporte coletivo redefinem a trama de circulação intra- urbana. Além disso, as atuais formas de atuação do sistema financeiro, marcado pela fluidez corrente de papéis juntamente com a transferência de capitais, ensejam a atual dinâmica do meio urbano marcada, sobretudo, pela satisfação das necessidades humanas materializadas sobremaneira nas formas de compra e venda de mercadorias. Neste contexto, os shopping centers surgem como uma estratégia mercadológica simbolizada pela modernidade (MONTESSORO, 1999). Segundo Pintaudi, (1989, p. 13), “o shopping center ganha sua materialidade no espaço geográfico, mas antes ele é fruto de transformações ocorridas no âmbito da troca de mercadorias em nossa sociedade”. E sobre essa prerrogativa de análise do equipamento, Pintaudi (1998, p. 15-16) ainda ressalta que:

Shopping Center significa um empreendimento imobiliário de iniciativa privada que reúne, em um ou mais edifícios contíguos, lojas alugadas para comércio varejista ou serviços. Distinguem-se uma das outras não somente pelo tipo de mercadoria que vendem (o tenant mix, planejado pela empresa prevê a presença de várias lojas do mesmo ramo para permitir a compra por comparação), como também por natureza distinta (lojas-âncora e lojas de comércio especializado e serviços que podem ou não pertencer a redes). A estrutura e funcionamento do empreendimento são controlados por um setor administrativo, necessário para o funcionamento eficaz do Shopping Center, o quê significa dizer que é o setor cuja responsabilidade é zelar para reprodução do capital da empresa. Além disso, está a presença de um parque de estacionamento, cujo tamanho depende do porte do empreendimento e da sua localização. Historicamente, esse é um fenômeno característico (ainda que não necessário) das sociedades capitalistas monopolísticas.

Essa nova forma de comércio consolidou-se em diversas partes do mundo e se divide em seis diferentes tipos (CLEPS, 1997, apud MONTESSORO, 1999 p. 35-36), apresentando-se como: regionais, grandes empreendimentos que atraem consumidores de outras áreas e têm grande abrangência; comunitários, que atraem uma menor parcela de consumidores, e já apresentam em sua estrutura lojas-âncoras, supermercados e áreas de lazer; de vizinhança, que têm os moradores dos bairros próximos como seus maiores freqüentadores, shopping especializados, que apresentam um determinado setor de varejo; outlets, que apresentam lojas de fábrica, perfazendo grandes descontos no preço final das mercadorias e, por último, festival centers, que são voltados principalmente ao lazer, com praças de alimentação, cinemas e lojas de brinquedos, ou seja, há um tipo de shopping para cada nicho específico de clientela, buscando atrair cada vez mais um contingente maior de pessoas. Essa perspectiva é a de Pintaudi (1999, p 33) quando afirma que a consolidaçã o

deste equipamento está imbuída por uma simbologia que traduz os desejos expressos pela necessidade de consumir cada vez mais. Com isso, Koehl (1990, p.5) analisa que o shopping center expressa a mais nova forma de comércio, a bem sucedida união do consumo e lazer dentro das cidades configurando as diferentes mudanças nas formas de organização do comércio e da

sociedade como já foram ditas anteriormente. Mudanças desse escopo, quando ocorrem são conceituadas como reestruturação urbana, segundo Moraes e Costa apud Davidovich (1989, p. 76), este processo: “[…] diz respeito a transformações territoriais que decorrem do processo de valorização capitalista do espaço, enquanto movimento de contínua construção/destruição/reconstrução de criação

e recriação. Isso nos faz crer que a reestruturação dos espaços urbanos impõe a análise de um processo de reconstrução e renovação da cidade, que corrobora as novas lógicas capitalistas, valorizando e (re)utilizando novas áreas. Segundo Gaeta (1988, p. 24):

Os shoppings centers, observada sua aparência e estrutura de funcionamento, apresentam diferenças importantes frente ao comércio já organizado nas áreas centrais. A escolha do ponto e as externalidades adquirem um outro significado. A diferença começa pela própria localização pois, normalmente os shopping centers estão distantes da área central e das ruas principais de comércio.

São os diversos usos do solo e as novas lógicas capitalistas que refletem o que Csaba (1989, p. 129) considera:

O tempo de trabalho despendido na produção do espaço é socialmente

validado indiretamente e ao nível agregado através do consumo das mercadorias produzidas por sobre o espaço como um todo. A correspondente transformação dos espaços dá origem a novos níveis de pagamento pelas localizações contidas nesse espaço e que serão

ocupadas por novos processos individuais (na mercadoria, na quantidade e

na técnica) de produção.

Essa nova dinâmica do espaço, essa transformação da cidade, dos conceitos de proximidade e distância do tradicional comércio de rua naquele centro de outrora não mais são os preconizadores da circulação da mesma, enfatiza Pintaudi (1999, p.35) quando comenta que surgem os novos centros comerciais, perfazendo uma ampliação do setor comercial e de serviços em novos pontos o que acaba por gerar a ampliação das respectivas atividades, ocasionando a supervalorização dessas áreas e a geração de novas

centralidades, inferindo decisivamente no mosaico da estrutura urbana com as modificações

e criações dos novos fluxos, redefinindo assim a própria (re)produção espacial e as novas relações sociais. Vale ressaltar que o processo apresenta uma dinamicidade bastante ímpar, ou seja,

a reestruturação urbana considera a (re)utilização dos espaços de acordo com o processo

de valorização dos mesmos, isto é, áreas que abrigam diversos usos em um certo período podem, muitas vezes, serem objeto das estratégias monopolizantes do capital, redefinindo o paradigma da centralidade urbana. Sposito (1998, p. 29) considera que

O processo de concentração econômica dos grandes grupos, que atuam no

setor comercial e de serviços e daqueles que atuam no setor da produção imobiliária, implica novas escolhas em termos de estratégias econômicas e locacionais, que se expressam na estrutura urbana, mudando as relações entre o centro, as áreas pericentrais e a periferia.

Atinente a este aspecto, as estratégias locacionais, colocadas em práticas pelos agentes de produção do espaço urbano envolvidos com a implantação desses grandes equipamentos comerciais e de serviços, produzem novos fluxos que são propiciados pela acessibilidade, fator este relevante nas escolhas locacionais, podendo ou não ser vencidas pela melhoria nos transportes coletivos, o que é compensado pela disseminação do uso do automóvel, quando a fluidez não é propiciada pelo sistema de transporte público. Ainda em relação ao centro, a redefinição da centralidade urbana revela mudanças na reestruturação da cidade, pois modifica o crescimento do tecido urbano atribuindo ao mesmo novas articulações espaciais, Sposito (1996, p. 115) destaca que:

A extensão dessas dinâmicas impõe novas formas de centralidade, uma

recomposição contínua da estrutura interna das cidades, mas sob certos aspectos uma homogeneização das territorialidades intra-urbanas de diferentes cidades. Há, no entanto, níveis de especificidades que devem ser estudados, a partir de cada formação sócio-espacial, e de conjuntura econômica.

Decorre desse aspecto, afirmar que a cidade se apresenta como um espaço descontínuo, e que o seu porte também exerce um papel preponderante na dinâmica da centralidade urbana uma vez que há uma enorme expressividade desempenhado pelo centro no tocante à estruturação da cidade. Desse modo, “a associação entre cidade e centro, e a idéia do centro da cidade como sua expressão maior estão presentes de forma marcante na sociedade ocidental.” (SPOSITO, 1996, p. 116) Sob essa perspectiva, podemos encontrar vários centros nas cidades, principalmente grandes e médias, os quais são desenhados pelas atividades que eles mais protagonizam, tais como financeiro, de lazer, de compras especificas, como roupas, calçados, móveis, eletroeletrônicos, etc. Esse processo é constituído sobre a „aquarela‟ da organização espacial das cidades, como Pintaudi (1999, p. 38) afirma, atribuindo para o reforço de novas áreas uma maior densidade de papéis, tanto comerciais como de serviços, fortalecendo os novos fluxos intraurbanos, que também são marcados pelo reconhecimento dos fluxos expressos pelas novas formas de circulação.

Em relação ao papel da circulação, o acesso mais fácil ao crédito juntamente com uma maior ascensão social da população e melhorias efetuadas no transporte coletivo resultaram em uma maior mobilidade das pessoas pelos vários cantos da cidade. Sob este aspecto, é importante destacar que “(…) a difusão do automóvel e as novas práticas de lazer favorecem as relações sociais, além de criar novos “nós” de circulação e dar um novo ordenamento ao espaço físico das cidades(MONTESSORO, 1999, p. 38). Essa mobilidade, como trata a referida autora, “transporta” a importância do centro, aquele que concentra as principais atividades, para novos espaços urbanos, muitas vezes mais próximos dos novos traçados do perímetro urbano. Sob esse viés, podemos falar de uma cidade fragmentada, na qual o aumento dos fluxos imateriais, aumento e melhoria da circulação marcada pelo desenvolvimento dos transportes, com uma maior e crescente segmentação social advinda das escolhas decorrentes de diversificados padrões de consumo da sociedade ampliam os papéis urbanos. As densidades tornam-se mais visíveis em novas áreas e não mais, apenas, na área central, área core da cidade, marcando assim a fragmentação das atividades econômicas no interior das cidades, como evidencia Montessoro (1999). Há de se ressaltar, também, que nesse sentido, o conceito de shopping center, é marcado sobremaneira por interesses do poder executivo municipal que objetivando a expansão e atração de novos investimentos para a sua região, apropriam-se das novas estratégias de ocupação urbana, apresentando-se como um anfitrião ao atrair maior demanda por tais empreendimentos em seus municípios, uma vez que o incremento no poder político-econômico que se faz no território com sua instalação é bastante relevante, e consigo as novas lógicas locacionais de atração populacional aliada à satisfação desta, se torna suprema no âmbito citadino (MONTESSORO, 2001).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As cidades de porte médio paulistas vêm apresentando ótimos índices de crescimento econômico bastante importante no papel de centralização da economia pelo interior do Estado de São Paulo. A essa importância se deve acrescentar o fato de serem as cidades melhores dotadas de recursos econômicos e atraentes para a realização de diversos empreendimentos imobiliários, movimentando e (re) definindo fluxos econômicos e alterando significativamente sua estrutura urbana. Os shopping centers se enquadram nessa nova dinâmica do imobiliário urbano, atendendo as demandas dos investidores do setor imobiliário dotando as cidades de novos espaços dinâmicos. Essa dinamicidade merece atenção, pois se enquadram como novas formas espaciais que vêm se materializar na difusão de inovações e compõem o quadro juntamente com os condomínios fechados e as vias expressas (CORRÊA, 2010).

Acrescente a este fato a importância dada ao impulso do consumo e o papel que representa hoje o comércio varejista, este “o elemento estruturador das formas de produção de mercadorias, entre elas a própria cidade, bem como das praticas sócio-espaciais” (PINTAUDI, 2010). Desta forma, este estudo versa sobre o papel preponderante destes templos da economia (PINTAUDI, 1989) na dinâmica do imobiliário urbano e vem a reforçar o papel que estes apresentam na redefinição das centralidades e dos fluxos nas principais cidades de porte médio paulistas, não deixando de atrelar a essas mudanças, o rearranjo do urbano na nova dinâmica que a cumulação do capital engendra.

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