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Sertão Sangrento: Luta e Resistência

Jovenildo Pinheiro de Souza

CAPÍTULO III

AÇÃO
Sertão Sangrento: Luta e Resistência
Jovenildo Pinheiro de Souza

“UM DIA É APENAS UM DIA,


POIS OS DIAS, DIAS SÃO.
UM DIA SERÁ TEU DIA,
VIRGULINO LAMPIÃO
TEUS OLHOS MÍOPES, TUA
CORAGEM E TUA MÃO
FICARÃO PARALIZADOS,
VIRGULINO LAMPIÃO

DE NADA ADIANTARÁ
AQUELA FORTE ORAÇÃO
QUE TE DEU EM JUAZEIRO
PADRE CÍCERO ROMÃO

A MORTE SERÁ TÃO GRANDE


QUE ATÉ MESMO A SOLIDÃO
QUE HÁ TANTOS ANOS TE
HABITA
SERÁ CORTADA A FACÃO”.

Carlos Pena Filho

LAMPIÃO NO JUAZEIRO DO PADRE CÍCERO

A visita de Lampião à cidade de Juazeiro, considerada como sendo “a Babylonia


do sertão do Nordeste “(Xavier, Beatos e Cangaceiros, pág. 55) 93, entre os dias 4 e 7
de março de 1926, pode ser considerada como sendo uma obra de arte da estratégia
político-militar. Num Nordeste convulsionado pela passagem da Coluna Prestes e
seus combates quase diários contra as forças legalistas e os Batalhões Patrióticos,
além da luta feroz travada entre os cangaceiros de Lampião e as volantes das polícias
estaduais, o quadro era de uma guerra total.

93
OLIVEIRA, Xavier. Beatos e Cangaceiros. 1ª ed. Rio de Janeiro, 1920, pág. 55.
Sertão Sangrento: Luta e Resistência
Jovenildo Pinheiro de Souza

Nessa conjuntura muito especial, formada por tantos interesses antagônicos e


num cenário de guerra onde o primeiro erro cometido poderia ser também o
último, Lampião teve que por à prova todos os seus “predicados que o celebrizaram
como um perfeito guerrilheiro” 94, além de demonstrar possuir a sagacidade
necessária para analisar a complexa situação em que estava mergulhado e dela tirar
o máximo proveito.
Apesar de ter sido convocado por Floro Bartolomeu através de uma carta com
o timbre do Batalhão Patriótico e à revelia do Padre Cícero, Lampião pesou
cuidadosamente os prós e os contra antes de dar início a essa etapa tão importante
da sua vida. Pode-se afirmar que Lampião soube aproveitar uma oportunidade única
e irrepetível para alcançar os seus objetivos nesta visita ao Padre Cícero do Juazeiro.
Estes objetivos podem ser resumidos em dois: ter um palco privilegiado para
apresentar-se como chefe militar de igual para igual com os outros chefes “legalistas”
e conseguir trocar suas velhas armas por outras melhores e mais potentes com as
respectivas munições.
Floro Bartolomeu já se encontrava muito doente, quando fez o convite a
Lampião e, assim, não teve oportunidade de encontrá-lo em Juazeiro. Dessa forma
coube ao Padre Cícero, pessoalmente, administrar as crises provocadas entre
algumas autoridades militares que queriam prender Lampião. Mesmo achando que
a presença de Lampião era, no mínimo inconveniente, o Padre Cícero não teve
outra alternativa senão garantir com o seu prestígio absoluto, a vida e a liberdade do
seu incômodo hóspede. Foi, realmente, este, um momento muito especial na vida
do maior dos cangaceiros.
Também para o Padre Cícero foi um momento muito difícil, principalmente por
não contar com a presença de Floro Bartolomeu, o homem que administrava estas
situações, bem ou mal. Dessa forma, o Padre Cícero teve que agir energicamente
para tentar demover alguns militares que queriam ajustar contas com Lampião
naquele momento, pois, afinal de contas Juazeiro era o Quartel General dos
Batalhões Patrióticos, que contava com quase mil soldados. Para estes militares, a
presença de Lampião era uma suprema afronta. Mas o Padre Cícero não cedeu,
garantido a integridade física de Lampião, durante sua permanência em Juazeiro.
Por outro lado, existia um surdo rancor e uma visível desconfiança em relação a
Lampião, por parte dos jagunços romeiros, veteranos das jornadas de 1913 e 1914,
quando sob as ordens de Padre Cícero e Floro Bartolomeu, defenderam o Juazeiro e
depois, numa viagem ofensiva, conquistaram a cidade de Fortaleza, capital do
Estado do Ceará, depondo o seu Presidente, Franco Rabelo. Para esses veteranos,
valentes até a temeridade, a vinda de Lampião à sua cidade sagrada e as longas

94
GUEIROS, Optato. Lampião (Memórias de um Oficial Ex-Comandante de Forças Volantes).
Recife, 1952, pág. 48.
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romarias formadas pelo povo à casa onde Lampião estava hospedado, além das
várias homenagens por parte das altas autoridades da cidade, a este chefe
guerrilheiro de apenas 27 anos de idade, pareciam um despropósito e um exagero.
Também neste caso, a autoridade de Padre Cícero bloqueou qualquer veleidade de
represália contra Lampião.
A Propósito da chamada Batalha de Juazeiro (1913) e a presença de Lampião
nesta cidade, em 1926, quando Juazeiro foi ameaçada de ser invadida pelas tropas de
Franco Rabelo, a epopéia de Canudos (1807 - 1898) foi revivida nesta cidade, através
de dois fatos simbólicos e representativos da história guerreira e popular do
Nordeste.
Primeiro fato:
Antônio Vilanova que tinha sido um dos mais próximos colaboradores de
Antônio Conselheiro, em Canudos, conseguindo escapar do massacre, veio
refugiar-se no Ceará, em Assaré. Quando eclodiu a revolta de Juazeiro, em 1913,
Floro Bartolomeu sabendo de sua experiência adquirida nos combates de Canudos,
convocou-o à sua presença e exigiu a sua colaboração na defesa do Juazeiro. Apesar
de recusar-se a combater nas fileiras das tropas dos jagunços, ele contribuiu,
decisivamente, na formulação de planos para a defesa da cidade. E, entre outras
coisas, “deve-se-lhe a idéia da construção dos valados que a crença exagerada dos
romeiros crismou para a história com o apelido de ‘ Círculo da Mãe de Deus ‘. Além
disso, ensinou a José Pedro, a Manuel Chiquinha, a mestre sapateiro Luís e a muitos
outros noções positivas e úteis de estratégia. Dele ressaltam-se, pois, estes dois
contributos à causa juazeirense: a tática e a imensa linha de valados com que a
cidade insurreta galhardamente se defendeu” 95
Segundo fato:
O Coronel Optato Gueiros, que durante vários anos comandou as Forças
Volantes de Pernambuco contra Lampião, relata no seu livro de memórias um fato
curioso e muito significativo. Segundo ele, as forças militares que atuavam na Bahia,
mais precisamente na região de Canudos, contrataram um velho de mais de 60 anos
para orientá-los naquela região inóspita. Este velho que passou a atuar nas volantes
em missões de busca, captura ou aniquilamento, tinha sido uma espécie de general
de Antônio Conselheiro, quando da guerra de Canudos e era conhecido pelo nome
de Pedrão. Ao rememorar as lutas travadas em Canudos e os insucessos das tropas
do exército brasileiro diante das mortíferas emboscadas dos jagunços canudenses.
Optato Gueiros chama a atenção para o fato de que Pedrão no comando de seus

95
MACEDO, Nortan. Floro Bartolomeu (O Caudilho dos Beatos e Cangaceiros), 2ª edição, Rio
de Janeiro, Ed. Renes, 1986, pág. 69.
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grupos guerrilheiros tinha usado “a mesma tática de Lampião contra as tropas


atacantes, daí a demora de tomada do bastião do Conselheiro”. 96
Ainda segundo o depoimento do ex-guerrilheiro Pedrão, confirma-se o fato de
que Lampião esteve por várias vezes visitando as ruínas de Canudos, onde, o
contrito, rezava novenas, tendo nas mãos um rosário e uma imagem de Nossa
Senhora da Conceição, do Juazeiro. Optato Gueiros também refere-se a outro
assunto muito interessante abordado por Pedrão. Trata-se de uma profecia de
Antônio Conselheiro prevendo a vinda de um grande cangaceiro vingador. Escreve
Optato: “O mesmo ex-fanático de Canudos, citou umas “profecias” de Antônio
Conselheiro, entre as quais, uma que julgava ele referir-se a Lampião, a qual
declarava que, dentro de 50 anos, haveria de surgir nos sertões do Estado do
Nordeste, um homem que, apesar de ser religioso, seria cangaceiro e daria o que
fazer a muitos governos”. 97
Lampião, o cangaceiro que Pedrão identificava como sendo aquele que tinha
sido profetizado por Antônio Conselheiro, chegou à cidade do Juazeiro no dia 4 de
março de 1926, ao entardecer. Foi uma entrada triunfal. Durante sua estada de três
dias, Lampião teve de administrar uma relação de amor e ódio entre a população e
algumas autoridades renitentes à autoridade do Padre Cícero, o qual também se
tivesse dependido de sua vontade jamais teria recebido Lampião em sua cidadela.
Aceitando as regras do jogo, Lampião resolveu tirar o máximo proveito de uma
situação que jamais voltaria a se repetir. Assim sendo, participou da farsa promovida
pelo Padre Cícero, que o nomeará, sem nenhuma autoridade real, Capitão; a seu
irmão Antônio, Primeiro-Tenente; e a Sabino, Segundo-Tenente. Fingindo aceitar
esta farsa, Lampião deu as cartas e ganhou o que mais ambicionava: armas
modernas e munições em grande quantidade. Do ponto de vista militar, este foi o
seu grande momento no arriscado jogo de intrigas e poder no Juazeiro do Padre
Cícero. do ponto de vista político, ele também demonstrou grande talento ao dar
uma entrevista, dirigida em duas sessões, ao famoso jornalista cearense Otacílio
Macedo, do Crato. Esta entrevista ficou justamente célebre e passou constituir-se
num documento importantíssimo nas crônicas do cangaço e, principalmente, de
Lampião. Alguns trechos da entrevista são ontológicos e merecem ser descritos. Ei-
los:
1. “Feitos os cumprimentos e apresentações, entramos de cheio nos assuntos
mais palpitantes da vida do facínora. Palestra inculta, mas desembaraçada,
Lampião expressa-se com acentuado respeito para com o seu interlocutor,
parecendo medir o efeito de sua palavras, ciente e consciente de sua
importância de grande homem às avessas”.
96
GUEIROS, Optato. Ob. cit., pág. 180.
97
GUEIROS, Optato. Idem, pág. 181.
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2. Contrastando com os homens de seu grupo, Lampião é de todos eles o de


cor mais ‘carregada’, aproximando-se mais do negro que do tipo comum do
caboclo do Norte. Descendente legítimo de tapuio, misturando-se-lhe na
pele a pigmentação do negro e o bronzeado do índio autóctone,
demonstrando nos gestos e nas atitudes uma desconfiança nativa, a astúcia
do selvagem e a impulsão do cossaco; alternando a vida com os atos de
barbaria extrema e surtos de extrema generosidade, o bandido parece gozar,
sobremaneira a curiosidade popular que o rodeia”.
3. “Os jornais disseram, recentemente, que o Tenente Optato Gueiros, da
Polícia pernambucana, tinha entrado em luta com o grupo, correndo a
notícia oficial da morte de Lampião.
„ O Tenente é um ‘corredor ‘; ele mesmo nunca fez diligência
de se encontrar ‘ com nós ‘, ‘nós é que lhe matamos alguns
soldados mais afoitos ‘.
„ E o Coronel João Nunes, comandante-geral da Polícia de
Pernambuco, que também esteve no seu encalço ?
„ Ah! este é um ‘velho frouxo, pior do que os outros...”
4. “A realidade é que Lampião, o homem fora da lei, perseguido pelos policiais
dos governos dos Estados do Nordeste, em nome da honra da família e do
sossego público, da propriedade privada e do direito da vida, enfim dos
princípios mais rudimentares da moral coletiva, estava no Juazeiro com a
confiança de que a calma de um cidadão que nada deve à Justiça ... e quase
com honras de triunfador”.
5. “Tenho conseguido escapar à tremenda perseguição que se movem os
governos brigando como louco e correndo como veado, quando vejo que
não posso resistir ao ataque, Além disso, sou muito vigilante e confio sempre
desconfiando, de modo de que dificilmente me pegarão de corpo aberto.
Tenho bons amigos por toda parte e estou sempre avisado do movimento
das forças. Um excelente serviço de espionagem, dispendioso, embora, mais
utilíssimo” 98.
Da estada de Lampião em Juazeiro do Padre Cícero pode-se tirar a conclusão de
que as experiências adquiridas nas incontáveis lutas populares e rebeliões ocorridas
no Brasil não estarão condenadas a serem esquecidas para sempre. No caso
específico deste episódio de Lampião em Juazeiro, percebe-se claramente um
vigoroso traço de união, saindo dos escombros de Canudos para os valores de
Juazeiro do Norte. A experiência da luta de Canudos,

98
MACEDO, Nortan. Ob. cit., págs. 139-148.
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travada pelos seus valentes jagunços, foi levada por Antônio Vilanova para que os
jagunços do Padre Cícero pudessem resistir ao assédio dos seus inimigos.
Por fim, na memória coletiva dos sertanejos, passada uma geração dos
acontecimentos de Canudos, nunca foi esquecida a profecia de Antônio
Conselheiro, a qual previa o surgimento de um poderoso cangaceiro. E o povo
sertanejo, diante de um quadro social de guerra e miséria, ao testemunhar e tomar
conhecimento dos fatos sucedidos em Juazeiro do Norte, na cidade de Padre Cícero,
de que Lampião tinha recebido uma verdadeira consagração popular, não teve
dúvidas de que a profecia de Antônio Conselheiro tinha-se concretizado. Pedrão,
um homem que sonhou, lutou e viveu intensamente este período, desde Canudos
até as campanhas ferozes e implacáveis contra Lampião, resumiu o pensamento do
povo do sertão sobre este assunto. O ex-“general” de Antônio Conselheiro, ao
meditar sobre todas estas histórias e baseado em suas experiências, não hesitou em
reconhecer que “o cangaceiro religioso de que falava o Conselheiro, só podia ser
Lampião”. 99

99
GUEIROS, Optato. Ob. cit., pág. 181.
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O COMBATE DE SERRA GRANDE

O combate de Serra Grande, travado entre Lampião e o seu grupo, no dia 26 de


novembro de 1926, contra quase trezentas praças da Polícia Militar de Pernambuco,
representou, sem dúvidas, a maior vitória de Lampião e do cangaço, durante quase
duas décadas de lutas. Neste combate, Lampião com pouco menos de cem
cangaceiros, divididos em três subgrupos, derrotou de forma cabal as três volantes
da Polícia Militar, comandadas por experientes e bravos oficiais. Sob o comando
geral do Major Teófanes Torres e do Tenente Higino Berlamino e Sargento Manuel
Neto e Arlindo Rocha, o efetivo militar não teve como impedir a “vitória estrondosa
de Lampião”, segundo a opinião do historiador Frederico Pernambucano de Mello.
100

A derrota da Polícia Militar diante de Lampião foi atribuída a alguns “equívocos”


táticos. Mas, o que ressalta de imediato é o desequilíbrio emocional dos oficiais que
comandavam a tropa. Enquanto Lampião escolhia o local e a hora para dar início ao
combate, os oficiais incorriam no erro capital de subestimar o adversário, além de
renunciarem a toda prudência e sensatez.
Cegos de ódio, tombaram gravemente feridos, logo no início do tiroteio, os
Sargentos Manoel Neto e Arlindo Rocha. O Tenente Higino Berlamino, à custa de
muito esforço, conseguiu evitar que Lampião e os seus cangaceiros tivessem
“acabado com duzentos e noventa e sete homens, de sede e na bala, dentro da Serra”
101
.
Do ponto de vista de Lampião, talvez tenha sido melhor para ele que, ao invés do
aniquilamento total da tropa militar, o que teria transformado o boqueirão da Serra
Grande num grande cemitério perdido dentro das caatingas, as tropas tivessem
debandado sem rumo e sem comando.
João Gomes de Lira, que participou dos acontecimentos, resume o que
significou este combate. Escreve ele:
“O tiroteio da Serra Grande foi o maior travado na campanha contra Lampião
em Pernambuco. Teve duração de oito e quarenta e cinco da manhã até cinco e
quarenta e cinco da tarde. Foi uma peleja com muita dificuldade. Soldados
desorientados sacudiam seu armamento, como todo equipamento fora, e, de serra

100
MELLO, Frederico Pernambucano de. A Tragédia dos Blindados - Um Episódio da
Revolução de 30 no Recife. Recife, FUNDARPE, 1991, pág. 70.
101
LIRA, João Gomes de. Lampião (Memórias de um Soldado de Volante). Recife, Companhia
Editora de Pernambuco (CEPE), 1990, pág. 353
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abaixo, descia o mesmo como um relâmpago. Muitos foram cair em Vila Bela,
Triunfo, Custódia, Flores, Afogados de Ingazeira, Lagoa de
Baixo (Sertânia), Rio Branco (Arcoverde), Salgueiro, Floresta e muitos outros
lugares” 102.
Os militares tiveram vinte e quatro baixas, treze feridos e onze mortos. Os
cangaceiros não tiveram nenhuma baixa.
Pode-se imaginar a comoção que esta derrota, representou para o Governo do
Estado e para alta oficialidade militar. E também o que terá representado para os
sertanejos a chegada nas cidades e vilas de dezenas de soldados estropiados,
assombrados e desmoralizados pelo “fogo devorador”. 103
Respaldado em sua vitória total no campo de batalha, Lampião redigiu e enviou
ao Governador Interino de Pernambuco, o Dr. Júlio de Melo, uma carta com a
seguinte proposta:
“Senhor Governador de Pernambuco
Suas saudações com os seus.
Faço-lhe esta devido a uma proposta que desejo fazer ao senhor para evitar
guerra no sertão e acabar de vez com as brigas ... Se o senhor estiver no acordo
devemos dividir os nossos territórios. Eu que sou Capitão Virgulino Ferreira
Lampião, Governador do Sertão, fico governando esta zona de cá, por inteiro, até as
pontas dos trilhos em Rio Branco. E o senhor, do seu lado, governa do Rio Branco
até a pancada do mar. Isso mesmo. Fica cada um no que é seu. Pois então é o que
convém. Assim ficamos os dois em paz, nem o senhor manda os seus macacos me
emboscar, nem eu com os meninos atravessamos a extrema, cada um governando o
que é seu sem haver questão. Faço esta por amor à Paz que eu tenho e para que não
se diga que sou bandido, que não mereço. Aguardo sua resposta e confio sempre.
Capitão Virgulino Ferreira Lampião, Governador do Sertão”. 104

102
LIRA, João Gomes de. Ob. cit., pág. 365.
103
LIRA, João Gomes de. Idem, pág. 351
104
MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião - seu tempo e seu Reinado. 2ª ed., 3º vol., Rio de
Janeiro, Editora Vozes Ltda., 1985, pág. 154.
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LAMPIÃO: RETIRADA E REFÚGIO

Todos os estudiosos da vida de Lampião são unânimes a afirmar que o ataque a


Mossoró, no dia 13 de junho de 1927, foi uma operação guerreira, no mínimo,
desastrada. Uma série de equívocos culminou numa derrota para Lampião. Os
principais equívocos cometidos por Lampião, segundo os estudiosos, podem ser
resumidos nos seguintes:
a) comando compartilhado,
b) desconhecimento do terreno,
c) distanciamento de suas fontes de suprimento.

No que se refere ao compartilhamento do comando das operações, estranha-se


o fato de que Lampião, tão cioso do seu valor como estrategista e tático, tenha-se
deixado influenciar por um aventureiro medíocre e falastrão, como Massilon Leite.
O fator desconhecimento do terreno contribuiu, decisivamente, para o fracasso da
operação, sendo também de se estranhar este descuido de Lampião, pois ele jamais
tinha incorrido neste erro inadmissível em um chefe militar. Por fim, o
distanciamento das fontes de suprimento deixou-o numa situação difícil quando
teve que percorrer longas distâncias contando com o acaso e saques para
reabastecer seu grupo.
Diante de tais erros, não se pode estranhar que o ataque a Mossoró tenha
terminado em derrota e fuga. As táticas equivocadas, baseadas numa apreciação
irreal do objetivo a ser alcançado, terminaram por conduzir à derrota. Beneficiando-
se destes erros, cometidos por Lampião, o Prefeito da cidade, Rodolfo Fernandes,
comandou a resistência satisfatoriamente.
Luiz da Câmara Cascudo, ao elogiar a atitude do Prefeito, não esconde seu
entusiasmo, afirmando o seguinte: “Surgira o HOMEM, providencial-necessário de
Carlyle, polarizador incomparável da Energia... organizando a defesa,
arregimentando dedicações, improvisando e reunindo armamentos e munições,
enfrentando a incredulidade que negava o perigo aproximado, sacudindo os tíbios,
encorajando os fracos, comunicando, contagiando, irradiando a confiança, a Fé, a
convicção da invencibilidade aberta, transformada em fortaleza inexpugnável” 105.

105
FERNANDES, Raul. A Marcha de Lampião - Assalto a Mossoró . Editora Universitária -
UFRN, Coleção Mossoroense, 3ª edição, Natal, RN, 1985, pág. 18.
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Retirando-se de Mossoró, começou para Lampião um dos seus períodos


delicados, no qual os erros deveriam ser descartados, sob pena de ser exterminado.
É o período da busca de um refúgio, de um santuário. Para a efetivação deste plano
ainda deveria transcorrer um longo período de mais de quatrocentos dias,
entremeados de deserções, mortes e combates quase diários contra as forças
policiais de vários estados nordestinos.
Para administrar um situação tão difícil e adversa, com os adversários tentando
dar-lhe um xeque-mate no campo de batalha, Lampião passou a corrigir
drasticamente os seus erros. Descartou qualquer parceria no comando e assumiu
total responsabilidade pelas ações do grupo, rumou para terras conhecidas, para
retomar a iniciativa no campo de luta e procurou ativar a sua rede de informantes e
coiteiros. Mesmo assim, as dificuldades chegaram várias vezes a um ponto limite.
Os primeiros passos de Lampião, depois da retirada de Mossoró, foi tentar
escapar rapidamente da armadilha em que ele mesmo tinha se metido. Marchou
então para o Ceará, margeou o Jaguaribe e rumou para Pernambuco, combatendo
quase todos os dias. Três meses depois do frustado ataque a Mossoró, Lampião,
“com apenas nove companheiros, percorria, praticamente, sem se deter, o sertão de
Pernambuco e as áreas vizinhas dos Estados do Ceará e de Alagoas, acossado pelas
forças volantes. Os cangaceiros passavam por um período aflitivo, às vezes passando
de dois a três dias sem beber água, exceto aquela conseguida sugando-se caules
descascados de xiquexique” 106.
As atribulações de Lampião, nessa marcha em busca de refúgio mal tinham
começado. Por mais onze meses o quadro não se alteraria, numa rotina mortal:
combates, mortes, deserções, fome, sede e mais combates. Por esse tempo, o grupo
de Lampião já estava bastante reduzido, com menos de dez cangaceiros que
percorriam incessantemente todos os quadrantes dos sertões nordestinos, traçando
num mapa um roteiro assombroso e, aparentemente, sem lógica. Numa dessa
caminhadas, Lampião voltou ao Ceará e aí, no dia 27 de março de 1928, travou-se o
combate na fazenda Piçarra, sendo mortalmente ferido um dos homens de
confiança de Lampião, Sabino Gomes de Góis.
Por fim, depois de uma ”luta titânica” 107, que teve a duração de um ano, dois
meses e quinze dias, Lampião atravessou o Rio São Francisco, pisando, finalmente,
em território baiano, o quadro não recordava em nada Lampião em seus dias de
glória. Escreve ele: “Eram apenas 5, esfarrapados, esfomeados, estropeados, mais

106
FERRAZ, Marilurdes. O Canto do Acauã - A Luta das Forças Volantes contra os Cangaceiros.
2ª ed., Recife, Editora Rodovalho de Guias Especiais Ltda., 1985, pág. 300.
107
GUEIROS, Optato. Lampião (Memórias de um Oficial Ex-Comandante das Forças Volantes).
Recife, 1952, pág. 101.
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mortos do que vivos” 108. Também Optato Gueiros é da mesma opinião. Ele escreve
que quando Lampião chegou à Bahia, o seu abatimento físico e moral “eram tais
que, os soldados das
volantes falavam mais de capturá-lo à mão do que abatê-lo, fosse quais fossem as
conseqüências”. 109
Depois de ter sido submetido a terríveis pressões por parte das volantes e de ter
sido levado quase ao colapso físico e moral, seria de esperar que Lampião deixasse o
cenário por um longo período, tentando fingir-se de morto. Mas, não. Uma vez
mais, Lampião surpreendeu a todos, renasceu de suas próprias cinzas, em território
baiano, tendo por fundamento “o seu valor pessoal, a sua extraordinária inteligência,
as suas invejáveis qualidades de estrategista nato”. 110
Dois militares, que tiveram destacadas atuação no combate a Lampião e a seu
grupo, não escondem o seu espanto ao relatarem a rapidez como Lampião passou
da extrema decadência para um extremo prestígio entre a população do sertão
baiano. Ele passou a ser chamado pelos sertanejos de o HOMEM, não no sentido de
carlyleano do termo, mas sim no sentido de alta responsabilidade, como se fosse um
santo ou um conselheiro. Abaixo, transcrevemos o testemunho de dois militares,
Optato Gueiros e João Gomes de Lira, sobre a perfeita integração de Lampião com a
população sertaneja, numa região aparentemente - só aparentemente -
desconhecida.
Optato Gueiros:
“Conquistou Virgulino quase todos os habitantes das caatingas, tratando-os com
extrema bondade e esbanjando prodigamente o dinheiro de que se apossara...
Tornou-se Lampião para aquela gente, no que fora o Padre Cícero, no Juazeiro, para
os seus crentes. O seu nome sinistro não foi mais pronunciado, agora era conhecido
por - “o Homem”” 111
João Gomes de Lira:
“Diante do grande conceito que os baianos deram ao chefe Lampião, tornou-se
ele naquele Estado um homem fanatizado. Logo alguns sertanejos o classificaram de
um homem santo, o chamavam de Santo; outros passaram a chamá-lo de ‘ o
Homem ‘. Quando um sertanejo programava uma festa ou um adjunto qualquer na
sua casa, os convidados procuravam logo se já havia ele convidado ‘o Homem ‘, caso
108
FONTES, Oleone Coelho. Lampião na Bahia. 1ª ed., Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1988,
pág.16.
109
GUEIROS, Optato. Ob. cit., pág. 162.
110
CARVALHO, Rodrigues de. Lampião e a Sociologia do Cangaço, Rio de Janeiro, s.d. , pág.
379.
111
GUEIROS, Optato. Ob. cit., pág. 102.
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não tivesse convidado, fosse convidá-lo para vir garantir aquelas reuniões. Dizia ser
ele o Governo do Sertão. Que tudo no Sertão tinha que passar por suas mãos”. 112
Tinha Lampião, por essa época, 31 anos de idade.

112
LIRA, João Gomes de. Lampião (Memórias de um Soldado de Volante). Recife, Companhia
Editora de Pernambuco (CEPE), 1990, pág. 420.
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CORONEL JOÃO NUNES: UM PRISIONEIRO ILUSTRE

O episódio no qual o Coronel João Nunes, então na reserva, foi aprisionado pelo
“Capitão” Virgulino Ferreira, no dia 30 de novembro de 1930, na sua fazenda, no
município pernambucano de Águas Belas, tem sido motivo de muitos embaraços e
versões desencontradas por parte dos estudiosos do assunto.
A historiadora Marilurdes Ferraz, por exemplo, uma especialista da história
militar de Pernambuco, tenta amenizar o impacto causado por esta audaciosa ação
militar de Lampião. Segundo a sua versão dos acontecimentos, o aprisionamento
deste personagem tão importante teria ocorrido quase que por um acaso. Lampião
teria ficado muito surpreso ao descobrir a verdadeira identidade militar que caíra
em suas mãos e, constatando que João Nunes tenha sido um ex-comandante da
Força Pública de Pernambuco, resolveu libertá-lo, sem impor condições, “quando se
viu em segurança para evitar maiores problemas com o bando”. 113
Completando esta versão, a historiadora deixa transparecer que Lampião teria
poupado a vida do Coronel para não atrair a ira das forças policiais, segundo ela,
mesmo que Lampião “tivesse optado por seu extermínio, teria guardado de João
Nunes a imagem de um homem corajoso que não se deixou tomar pelo temor da
morte iminente e que se mostrou altivo diante das ameaças sofridas. Ao ser
interpelado, naquela ocasião, se não se arrependeria de ter combatido os
cangaceiros, respondeu-lhes que não, pois havia cumprido o seu dever e se tudo
começasse de novo tornaria a fazê-lo do mesmo modo, pois era, antes de tudo, um
soldado”. 114
Existe outra versão do acontecimento, descrita por João Gomes de Lira, um ex-
militar, veterano das forças volantes que combatiam Lampião. No seu livro,
Memórias de um Soldado Volante, relata como aconteceu o episódio do
aprisionamento do Coronel João Nunes, na sua fazenda Sueca, no município
pernambucano de Águas Belas.
Depois de escrever a chegada de Lampião, a prisão de um irmão do Coronel e
mais alguns detalhes, ele chega ao ponto crucial do acontecimento, que foi o
interrogatório, sem violências, ao qual foi submetido por Lampião. Escreve ele:
“Tudo o que o cangaceiro perguntava, respondia sem titubear.

113
FERRAZ, Marilurdes (Rog.). Lembrai-vos Companheiros. - Polícia Militar de Pernambuco
(1825-1991). Recife, Gráfica e Editora Liceu Ltda., 1991, pág. 140.
114
FERRAZ, Marilurdes. O Canto do Acauã - A Luta das Forças Volantes contra os Cangaceiros.
2ª ed., Recife, Editora Rodovalho de Guias Especiais Ltda., 1985, pág. 322 - 323.
Sertão Sangrento: Luta e Resistência
Jovenildo Pinheiro de Souza

Não gaguejava. Nem pensava para responder, tudo o que o Capitão perguntava”. 115
Encerrado o interrogatório do Coronel João Nunes, Lampião ordenou a retirada
rumo ao Estado de Alagoas. Levava consigo o ilustre prisioneiro.
O Coronel foi libertado alguns dias depois, para enorme surpresa de seus
familiares, os quais “já não o esperavam mais. Consideravam-no morto nas caatingas
de Alagoas ou Bahia”. 116
A decisão de Lampião em não matar o Coronel João Nunes está envolta em
mistérios. Respeito ao velho inimigo, medo de represálias devastadoras por parte
dos militares, pedidos de cangaceiros do próprio grupo de Lampião, enfim, são
várias hipóteses levadas em consideração por partes dos estudiosos do assunto.
Mas, não pode obscurecer o impacto psicológico que este fato acarretou no
ânimo do Coronel João Nunes. Ser libertado por seu implacável inimigo de tantos
anos, sem sequer um arranhão, deve ter perturbado um pouco o velho militar. Por
parte de Lampião, o seu gesto de clemência para com o seu inimigo vencido
representou, sem dúvidas, um ato propagandístico de grande efeito entre a
população e mesmo entre os militares.
Mais uma vez, Lampião demonstrou que as fronteiras estaduais não
representavam nenhum obstáculo intransponível à sua audácia e às “suas
indiscutíveis qualidades táticas de um gênio militar inaproveitado”. 117
O Coronel João Nunes sobreviveu a este episódio 41 anos, vindo a falecer em
1971, aos 91 anos de idade.

115
LIRA, João Gomes de. Lampião (Memórias de um Soldado de Volante). Recife, Companhia
Editora de Pernambuco (CEPE), 1990, pág. 469.
116
LIRA, João Gomes de. Ob. cit., pág. 470.
117
CARVALHO, Rodrigues de. Lampião e a Sociologia do Cangaço, Rio de Janeiro, s.d. , pág.
105.
Sertão Sangrento: Luta e Resistência
Jovenildo Pinheiro de Souza

A BATALHA DE MARANDUBA

Em princípios de janeiro de 1932, na fazenda Maranduba, no sertão do Sergipe,


Lampião repetiu o fato militar da Serra Grande, em 1926, ao derrotar uma
numerosa força militar, integrada por famosos combatentes contra o cangaço.
Na opinião de um desses destacados militares, o Tenente Manoel Neto, da força
pernambucana, em Maranduba “ele nunca tinha visto tanta bala como viu ali” 118. A
intensidade do tiroteio travado entre Lampião e o seu bando e as forças militares foi
de tal intensidade que um contemporâneo dos acontecimentos registrou o fato de
que “uma coisa que foi muito comentada e com curiosidade, foi que no local em que
aconteceu o fogo de Maranduba, durante vários anos, das árvores e dos matos
rasteiros não ficaram folhas. Tudo era preto, como se tivesse passado um grande
fogo. As árvores ficaram completamente descascadas de cima abaixo, de balas” 119.
Tal como ocorrido em Serra Grande, Lampião preparou uma emboscada com o
objetivo de liquidar, de uma só vez, todo o efetivo militar. Mais uma vez, os chefes
da força policial subestimaram a competência de Lampião e acreditaram que a
superioridade que detinham em homens e armas seria um fator de desequilíbrio na
batalha.
Alguns historiadores tentam minimizar a vitória obtida por Lampião depois de
uma feroz batalha, admitindo, apenas, de que, no final das contas, houve “perdas
humanas tanto entre os cangaceiros como entre as forças volantes, porém com
maior prejuízo para estas ...” 120.
Para que se tenha uma idéia do que representou esta batalha para ambos os
lados e para a história das lutas sociais do Nordeste, dois pontos devem ser
ressaltados:
O primeiro ponto importante refere-se à participação, nesta batalha, dos
aguerridos e temíveis nazarenos (Vide Capítulo III). Os nazarenos, uma força
policial dedicada em tempo integral na busca e, se possível, destruição de Lampião e
seu bando, já eram lendários nos sertões nordestinos, por suas ações militares. Nesta
batalha participaram sob o comando do Tenente Manoel Neto.

118
LIRA, João Gomes de. Lampião (Memórias de um Soldado de Volante). Recife, Companhia
Editora de Pernambuco (CEPE), 1990, pág. 512.
119
LIRA, João Gomes de. Ob. cit., pág. 515.
120
FERRAZ, Marilurdes. O Canto do Acauã - A Luta das Forças Volantes contra os Cangaceiros.
2ª ed., Recife, Editora Rodovalho de Guias Especiais Ltda., 1985, pág. 330.
Sertão Sangrento: Luta e Resistência
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O segundo ponto a ser destacado é que, apesar da longa, dolorosa e sangrenta


campanha contra Lampião e da experiência militar adquirida, mais uma vez os
chefes militares deram provas de que sua inteligência sempre ficou abaixo dos
arroubos da valentia. A raiva, a fúria e a arrogância foram confrontadas com o
sangue-frio, a paciência e a inteligência de Lampião. Rodrigues de Carvalho chegou
a afirmar, analisando estas e outras batalhas que Lampião tinha praticado “façanhas
de deixar muito curso do Estado Maior com água na boca” 121.
No caso específico de Maranduba, o historiador Rodrigues de Carvalho não
hesita em afirmar que, apesar da superioridade em homens e armas, por parte das
forças militares, Lampião demonstrou uma superioridade tática sobre seus
adversários. Escreve ele: “E a verdade deve ser dita: quem primeiro abandonou o
campo de luta foi a força” 122. E, mais adiante: “O fato é que durante a extensão da
tremenda refrega, que foi por toda a tarde, pode dizer-se sem medo de cometer
injustiça, o domínio da situação pertenceu ao ardiloso facínora. Estava todo o
tempo, como se diz vulgarmente, serrando de cima” 123.
O cangaceiro Angelo Roque (Labareda) que participou nesta batalha, em
depoimento prestado a Estácio Lima e publicado no livro O Mundo Estranho dos
Cangaceiros, descreve o que aconteceu, neste dia, no seu linguajar típico:
“... Nóis cheguêmo na caatinga de MARANDUBA, pru vorta di maio dia, i
tratemo di discansá i fazê fogo prôs dicumê, i nóis armoçá. Mas a gente num si
descôidava um tico, i nóis sabia qui as volante andava pirigosa. Inquanto nóis
discansava, botemo imboscada forte, di déiz cabra pra atacá us macaco qui si
proximasse. Nóis cunhicia us terreno daqueles mundão, parmo a parmo. Us macaco
num sabia tanto cuma nóis. Todos buraco, pedreguio, levação, pé di pau, pru perto,
nóis sabia di ôio-fechado, i pudia tirá di pontaria sem sê vistado. Nisso, vem chegano
u’a das maió macacada qui tivemos di infrentá. I us cumandante todo di dispusição
prá daná: MANUÉ NETO, qui us cangacêro tamém chamava MANÉ FUMAÇA,
ODILON, EUCRIDE, ARCONSO i AFONSO FRÔ. Tamém um NOGUÊRA.
Nesse bucadão di macaco tava u Capitão ou Tenente LIBERATO, du izérto. Dizia
us povo qui ele era duro di ruê. I era mesmo. Brigava cuma gente grande, i marvado
cumo minino. Mas porém, valente cumo u capêta. Di nada sirvia a gente gostá i tratá
com côidado um mano qui êle tinha na Serra Nêga. Essa FORÇA toda dus macaco
si pegô mais nóis na MARANDUBA. Nóis era trinta e dois cabra bom. U Capitão
Virgulino tinha di junto, nessa brigada, us principá cangacêro: VIRGINO, IZEQUIÉ,
ZÉ BAIANO, LUIZ PÊDO i seu criado LABAREDA. Dus maiorá só fartava

121
CARVALHO, Rodrigues de. Lampião e a Sociologia do Cangaço, Rio de Janeiro, s.d. , pág.
107.
122
CARVALHO, Rodrigues de. Ob. cit., pág. 104.
123
CARVALHO, Rodrigues de. Idem, pág. 104.
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Jovenildo Pinheiro de Souza

mesmo CURISCO sempre gostô di trabaiá sozinho, num grupo isculido di


cangacêro, mais DADÁ. Briguemo na MARANDUBA a tarde toda i nóis cum as
vantage cumpreta das pusição, apôis us macaco num pudia vê nóis. A volante di
NAZARÉ deve tê murrido quaji toda. Caiu, tamém, matado di u (a vêis, um dus
FRÔ, qui si bem mi alembro, foi u AFONSO. Cumpade Lampião chegô pra di junto
do finado i abriu di faca a capanga dêle, i achô um papé qui tinha iscrito um decreto
dizeno qu ele já tinha davo vintei quatro combate cum u cumpade Lampião. Veio
morrê nu vinte i cinco. A valia qui tivemo nessa brigada foi us iscundirijo. Morrero,
aí, trêiz cangacêro i trêiz ficô baliado. Us istrago qui fizemo nessa brigada foi
danado ! Matemo macaco di horrô !” 124.
Do depoimento de Labareda e de outros testemunhos da batalha de Maranduba,
alguns pontos devem ser destacados:
1. O completo conhecimento que Lampião e os cangaceiros tinham do terreno
onde foi travado o combate.
2. A competência tática de Lampião em contraposição à incompetência dos
chefes militares.
3. A participação dos nazarenos, comandados pelo Tenente Manoel Neto, um
veterano nas lutas contra Lampião e o cangaço.
4. As baixas entre nazarenos: seis mortos e oito feridos.
5. As baixas entre os cangaceiros: três mortos e quatro feridos.
6. Um detalhe importante: as tropas militares eram superiores em número, na
proporção de três para um.
Enfim, a batalha de Maranduba constituiu-se num acontecimento invulgar na
história recente do Nordeste. Na opinião de Rodrigues de Carvalho, este combate
pode ser considerado como sendo o mais “renhido e porfiado de todos os cheques
armados desta controvertida campanha contra o banditismo no eixo Sergipe-Bahia.
Foi uma chacina horrível pelas deploráveis conseqüências que tivera para as forças
legais empenhadas no combate. O número de baixas fatais foi muito grande,
exagerado mesmo, em relação ao número de combatentes empenhados na refrega”
125
.
Diante da tragédia que significou esta derrota das forças militares diante de
Lampião e seu grupo, a historiografia oficial tenta minimizar o fato. O Capitão João
Bezerra, personagem central do nebuloso episódio de Angicos, no seu livro de
memórias, ao referir-se ao episódio de Maranduba, afirma apenas que neste local foi

124
LIMA, Estácio de. O Mundo Estranho dos Cangaceiros (Ensaio Bio-Sociológico), Salvador ,
Editora Iapoã Ltda, 1965, págs. 264-265.
125
CARVALHO, Rodrigues de. Ob. cit., pág. 101.
Sertão Sangrento: Luta e Resistência
Jovenildo Pinheiro de Souza

travado um “encarniçado combate com grandes perdas de parte a parte entre


mortos e feridos” 126. Quase a seguir, duas páginas adiante, ele retifica a sua
informação, dizendo que Lampião tinha sido “destroçado em Maranduba” 127.

126
BEZERRA. João. Como dei cabo de Lampião. 3ª ed. Recife, Editor Massangana. 1983, pág.
167.
127
BEZERRA. João. Ob. cit., pág. 169.

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