Você está na página 1de 192

Jocelino Alves de Freitas

o Cristo da periferia 
ª Edição 2006

Editora DPB Gráfica e Editora Wunderlich Curitiba - PR

moc.topsgolb.airefirepadotsirco.www 

O Cristo da Periferia.indd 1

27/11/2007 09:36:05

Copyright © 2006 by Jocelino Alves de Freitas Todos os direitos desta edição reservados a Jocelino Alves de Freitas. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, ou de parte do mesmo, sob qualquer meio, sem autorização expressa do autor.

Freitas, Jocelino Alves de O Cristo da periferia / Jocelino Alves de Freitas. — Curitiba : Wunderlich, 2006. 192 p. ; 21 cm ISBN 85-88890-13-5 1. Literatura brasileira - Paraná I. Título. CDD (21ª ed.) B869.35
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Bibliotecária responsável: Mara Rejane Vicente Teixeira

Projeto Gráfico: Marco Antonio Levandovski Preparação de texto e Revisão: Jocelino Alves de Freitas Editoração Eletrônica: Erik Osmar Ferreira (Wunderlich) Capa: Jocelino Alves de Freitas Marco Antonio Levandovski Erik Osmar Ferreira Impressão e Acabamento: Gráfica e Editora Wunderlich
.

Depósito legal na Biblioteca Nacional

DPB Editora Rua Padre Anchieta, 2004 - Apto. 1503 - Curitiba - Paraná - Brasil Fone: (41) 3026-7112 - e-mail: dpbassessoria@hotmail.com Publicado em 2006 Impresso no Brasil - Printed in Brazil

2

O Cristo da Periferia.indd 2

27/11/2007 09:36:05

Dedicado à minha esposa, Nárima, primeira leitora e incentivadora. Ela leu, riu, chorou, viveu com emoção cada momento do nascimento desta obra.

3

O Cristo da Periferia.indd 3

27/11/2007 09:36:05

4 O Cristo da Periferia.indd 4 27/11/2007 09:36:05 .

a saga para a publicação. em meados de 2005. estava pronto. não comentaram. Infelizmente não chegamos a um acordo. Os capítulos iniciais foram ‘recheados’ com mais detalhes. José Carlos Farah. Passou por uma revisão técnica . sem perder a essência.e por inúmeras outras. mas está muito curto! Outros amigos concordaram que o final deixava margem a muito mais história.feita por Sergio Garschagen . se você leu a versão original não terá dificuldade em começar a partir do capítulo 40. Outros. aborda com elegância uma questão polêmica. Farah leu o “Cristo” e lançou uma crítica importante: O livro é bom. que elogiaram o livro e me incentivaram a publicar. seguindo o tortuoso caminho que atormenta qualquer escritor desconhecido. presentear meus amigos com a versão eletrônica do livro. no qual o narrador começa uma longa caminhada para entender a mensagem do Cristo da periferia (sugiro apenas que releia o capítulo 31. então. Em compensação. Resolvi. Após o registro no Escritório de Direitos Autorais enviei para várias editoras. não tão técnicas. O fato é que recebi alguns incentivos e comentários importantes. O livro nasceu nas férias de 2002. feitas por mim mesmo. exatamente um mês depois de começado. talvez por educação. Começou. que escreveu “O Homem do Pinto Pequeno”. Muitos o leram e elogiaram. mas suas palavras de apoio jamais serão esquecidas. descrição de locais e cenas.através de Luiz Rorato -. pois foram introduzidos detalhes importantes para 5 O Cristo da Periferia. o trabalho de ampliação da obra. mandou o original de seu livro. Em 23 de janeiro de 2003. que foi logo em seguida publicado.e da Editora Sagaz . A partir desses comentários comecei. apesar do título engraçado. Tive boa receptividade da Editora Alcance . que é superada pelo amor. Li sua obra e tive oportunidade de fazer alguns comentários. O livro dele é muito bom e. Todas as pessoas que estavam em minha caixa de correio receberam um e-mail com o texto.indd 5 27/11/2007 09:36:05 . então.Palavras do autor “O Cristo da periferia” é uma realidade.através de Rossyr Berny . mais precisamente no dia 23 de dezembro. Portanto.

indd 6 27/11/2007 09:36:05 . pois traduz minhas divagações. na pessoa do grande Marco Antonio Levandovski e do talentoso Erik. mas um apanhado de poesias intitulado “Na Rota do Amor”. todas três ‘fãs de carteirinha’. o mesmo prazer que tive ao 6 O Cristo da Periferia. Consultoria e Empreendimentos Culturais. na leitura. Foi então que apresentei o livro recém-escrito. Mas quando leu “O Cristo da periferia” concordou que se trata de um livro de maior porte e não uma obra religiosa. da DPB Assessoria. jovem editor de 80 anos de idade. o livro é bom. Um belo dia. que escrevi sem grandes pretensões em outro momento de minha vida. editor e grande admirador dos poemas do Wilson Rio Apa. No começo Salomão. através dos pensamentos e investigações do repórter fictício. que tomou as rédeas desta publicação e foi o agente integrador entre mim e o editor. À minha irmã Simone e minhas filhas Nadine e Marine. Enfim. São mais dezoito capítulos de busca e de crescimento interior. que sempre foi portador de palavras de incentivo e. meu carinho eterno. Este livro é uma crítica social traduzida num romance envolvente. esta é a história e a apresentação de “O Cristo da periferia”. Até por isso o título original “Cristo na Periferia” foi modificado. meu grande amigo Antônio Fonseca Hortmann ligou dizendo que seu amigo Salomão Daitzchman. o livro a que o Salomão tivera acesso não era o “Cristo”. uma lição de vida e de otimismo. chegamos finalmente ao lançamento. Espero que vocês tenham. lera meu livro e queria publicar. Pois bem. pois queria mesmo era publicar “Na Rota do Amor”. capa e impressão de Gráfica e Editora Wunderlich. não se interessou muito. meu eterno agradecimento. com participação e incentivo de muitos amigos. Para minha surpresa. às vésperas do Natal de 2006. com um final surpreendente.a continuidade do romance). companheiro das saudosas caminhadas matinais no Parque Barigüi. Não duvide disso!” A esse amigo. composição. dizia: “Meu Príncipe. Tenho que agradecer a participação decisiva de meu amigo Antônio Hortmann. que narra em primeira pessoa. nos momentos de angústia. Sua mensagem é dirigida a membros de qualquer religião.

pois começava a escrever e ia assistindo para ver onde a história chegaria.escrever. que dizia ser apenas o primeiro espectador de seus livros. Contrariando toda a boa técnica. Pude constatar pessoalmente a veracidade das palavras do Jorge Amado. Apenas me lancei ao trabalho e deixei que os personagens traçassem os seus próprios destinos. E assim fiz eu.indd 7 27/11/2007 09:36:05 . não tracei um plano de obra. Jocelino Alves de Freitas 7 O Cristo da Periferia.

8 O Cristo da Periferia.indd 8 27/11/2007 09:36:05 .

Ficam aí brincando e não se preparam para a vida.indd 9 27/11/2007 09:36:06 . desastres. com raiva daquele menino atrevido que me tratou como um velho fora de forma. veio parar perto de mim. Ademais era um tema que não se esgotava naquela semana e poderia ficar para outra edição se não coubesse nesta. Uma tragédia teria o maior destaque. Os repórteres de destaque tinham fotógrafo e motorista. com um sorriso. mesmo com um emprego. apressado como sempre. camareiros. Eu trabalhava sozinho e ainda tinha que usar meu próprio carro se não quisesse tomar ônibus. provocou: . Em países do primeiro mundo uma pessoa pode trabalhar numa profissão modesta e viver dignamente. pais que matam os filhos. Como repórter novo eu sabia que não conseguiria uma matéria de capa tão cedo. Tenho amigos que vivem no exterior e estão formando um belo patrimônio trabalhando como lavadores de pratos. Ele não era mais criança. devia estar trabalhando ao invés de ficar ali brincando na rua. pensei. Filhos que matam os pais. Por isso as pessoas se tornam marginais. Ou então arranjam um emprego que não lhes garante o sustento. mandou que eu investigasse um tal ‘Cristo da periferia’ por ser uma matéria que se podia encaixar em qualquer espaço que sobrasse no fechamento da edição. ou outras  O Cristo da Periferia. Depois roubam e matam para poder ter as coisas.Você ainda consegue chutar uma bola sem tirar o joelho do lugar? Chutei meio desengonçado. Envolto nesses pensamentos nem percebi que uma bola. O chefe de redação. Mas o chefe tinha seus preferidos e eu devia estar satisfeito por ter um emprego. Estacionei e desci do carro. Um dos meninos falou comigo de longe e. qualquer tema poderia ser mais interessante. Triste realidade a dos brasileiros. jogada por alguns moleques que brincavam na rua. E continuam marginalizados. assaltos. pensando na reportagem que devia fazer. até com capa. seqüestros. sempre à beira de um ataque de nervos.

mas evitei mancar para não ser gozado pela molecada. com aquelas sombras azuis sobre os olhos e o batom exageradamente vermelho. dava para perceber que os moradores tinham um padrão de vida um pouco melhor que os das outras casas. porque o meu chefe faz de mim “gato e sapato”. Alguns jamais voltam. suspeitei que o veículo estivesse com o marido no trabalho. . Os 0 O Cristo da Periferia.profissões menos dignas dos diplomas que conquistaram aqui no Brasil. sem nenhuma opção de lazer. pois era só seguir a numeração das ruas e das casas para chegar ao destino. ou assistindo quem jogava. sempre com matérias pouco ou nada interessantes. Embora igual às outras. vôlei. A cerca simples havia sido substituída por um muro. São profissionais que desistiram da profissão antes mesmo de começar. Cheguei à casa. vendo as pessoas e encontrando os amigos. pois a maquiagem estava muito carregada. organizando os pensamentos. que me olhava com ar de deboche e curiosidade. Deixa isso pra lá. quando eu tiver liberdade para escolher as matérias que escrevo. O joelho doía um pouco. pois não voltaram a jogar. Até mesmo as praças eram numeradas e distribuídas de forma harmônica na vila. Com casas tão pequenas não era normal receberem visitas. Isso facilitava a localização. Qualquer dia ainda vou fazer uma reportagem sobre isso. A cobertura prolongada até o muro propiciava uma pequena garagem. gastava o tempo ali mesmo jogando futebol. mesmo depois que devolvi a bola. agora tenho que pensar na reportagem! – falei comigo mesmo. Aqui não é qualquer trabalho que assegura um rendimento decente. Levam a esperança de conquistar um bom dinheiro e voltar para começar suas carreiras condignamente.Vocês sabem onde mora a Dona Irene? Com facilidade descobri o endereço.indd 10 27/11/2007 09:36:06 . mandando-me para todos os lugares. Embora não houvesse nenhum carro no momento. Fui recebido com alegria pela Dona Irene. que parecia estar esperando visita. ou simplesmente caminhando ao redor da praça. A Vila Nazaré era um daqueles conjuntos habitacionais com ruas numeradas e casas iguaizinhas. proporcionando um pouco de diversão para aquela gente pobre que. Hoje não posso nem pensar nisso.

 O Cristo da Periferia. Enquanto servia um café. graças a muito empenho e dedicação. mas exigia dele dedicação integral. Isso lhe garantia um bom salário. Por baixo do pó-de-arroz dava para ver uma mulher de quarenta e poucos anos. tentando parecer requintada. e pensava em ter sua própria confecção. Já comprara algumas máquinas e pretendia construir uma edícula nos fundos do pequeno terreno. num espaço que a mim pareceu não caber nem mesmo o minúsculo canteiro de salsinhas que estava plantado ali. Dona Irene me contava que o marido trabalha numa indústria há quinze anos e. conseguiu ir galgando cargos e chegar a encarregado. Com um orgulho indisfarçável contou como o pobre homem era chamado a qualquer hora do dia ou da noite para resolver problemas na fábrica e. também. Mas na cabeça e na empolgação da Dona Irene aquele espaço iria abrigar um grande salão. como ela pôde deixar o emprego de costureira.brincos combinavam com o colar de pérolas falsas. meio inadequados para ficar em casa. que agora estava aproveitando um pouco a boa sorte que a vida lhe reservara.indd 11 27/11/2007 09:36:06 . com dezenas de empregados. com o semblante marcado. Invejei a sua capacidade de ser feliz com tão pouco e de se realizar dentro das pequenas oportunidades que tinha. que a deixariam ainda mais “rica”.

mas achou que daria uma boa matéria. Ela. A versatilidade que tem um jornalista. Uma reportagem sobre um maluco que pensa que é Jesus era tudo o que eu precisava para me arrepender de ter feito a maldita faculdade de jornalismo. Ele é carpinteiro e vive de pequenas empreitadas que faz. O menino era muito pequeno. Mesmo com um telefone saindo quase de graça. Encantava-me a magia de levar 2 O Cristo da Periferia. mas assumiu as ferramentas do pai e conseguiu entregar todas as encomendas. As coincidências dos nomes dos pais e. Os vizinhos passaram a consultar Emanuel sobre seus problemas e as pessoas confiavam muito nos seus conselhos. viúva. Depois de algum tempo o menino começou a demonstrar uma cultura maior do que era normal naquele lugar. repórter ou apresentador. a conta do consumo inviabilizava esse luxo para a maioria dos moradores da vila. Dona Irene me falou com riqueza de detalhes como a Dona Maria e o filho Emanuel. Eles vieram de Belém do Pará há alguns anos e sofreram muito com a morte do Seu José. que foi difícil não sair dali correndo e pedir demissão daquele emprego ridículo. Não que ela acreditasse que aquele menino fosse a reencarnação de Jesus. quase uma criança. que pode trabalhar em qualquer lugar.2 Mas o motivo que me levou àquele lugar não foi a vida da Dona Irene. Mas o meu espírito de liberdade tinha que falar mais alto. Enquanto ouvia aquela mulher falando ia me dando uma raiva tão grande do meu chefe. Com a nota que tirei no vestibular eu poderia ter feito administração. do nome da cidade em que nasceu tinham levado Dona Irene a ligar para a redação e pedir uma reportagem. também. trabalha como diarista e também lava roupas durante a noite para conseguir pagar a prestação da casa e sobreviver.indd 12 27/11/2007 09:36:06 . foi um fator decisivo na minha escolha. que pode ser redator. Depois de tomarmos o café ela começou a contar que havia ligado porque era a única que tinha telefone nas redondezas. levavam a vida. contabilidade ou qualquer outro curso que me garantisse um emprego monótono num escritório. seus vizinhos.

Depois tomaria alguns depoimentos de vizinhos. deixaram-se levar pelos mesmos sonhos. Desse jeito eu cumpriria meu papel de repórter medíocre com uma ótima reportagem sobre um assunto medíocre. Quando não se tem opção a gente faz o que é preciso fazer.indd 13 27/11/2007 09:36:06 . Também me influenciaram fatores menos nobres. Só não me contaram que eu acabaria trabalhando numa revista de segunda linha. como o fato de um dos homens mais ricos e poderosos deste país ser um jornalista. Roberto Marinho. disputando a vaga com centenas de jornalistas que. que construiu um verdadeiro império da comunicação. que colocaria defeito em meu trabalho e mandaria fazer as reportagens mais inúteis que já vi na vida. como eu. de qualquer lugar do universo. Eu faria umas fotos e uma entrevista rápida.a notícia a todas as pessoas. Ouvi tudo o que a Dona Irene tinha para contar e pedi para me apresentar a Dona Maria e seu filho Emanuel. Não me contaram que iria trabalhar com um chefe estressado. com destaque para a vaidosa Dona Irene e a reportagem estaria pronta para ocupar o espaço sem destaque que o chefe me reservava quando não tinha nada melhor para publicar. 13 O Cristo da Periferia.

Tinha um ligeiro sotaque que a mim pareceu nordestino. Mesa. Entre um varal e outro as duas iam conversando. como a me perguntar se havia ali alguma santidade. a Dona Irene contando que havia trazido um repórter para falar com o “Jesus” e a Dona Maria querendo saber mais detalhes. cadeiras. Acho que até hoje ainda não consigo distinguir. Por um instante fiquei olhando para ela. abrindo o portão e entrando como se fosse sua casa. dizendo que já estava diante de mim e informando que seu filho não estava em casa. O semblante abatido não escondeu os belos traços. sofisticado demais para aquela casa tão humilde. mas seu jeito de falar não pareceu diferente do das pessoas vindas do Nordeste e que vivem muito tempo aqui no Sul. mas dá para perceber que não são daqui. Gentilmente convidou-me a entrar em sua casa. que fica no Norte. que cobria seu corpo. apesar do lenço. e do avental. que chegou como íntima da família. mas sem nenhuma maquiagem. Quando Dona Irene finalmente chegou onde estávamos. Todos os móveis da casa pareciam ter sido feitos pelo filho da Dona Maria. também de uns quarenta e poucos anos. como Dona Irene. Confesso que eu não sabia diferenciar o jeito de falar nortista do nordestino. Ela não se preocupou com o meu olhar e continuou conversando com a amiga através dos varais. O lugar era muito humilde. O mesmo ocorria com 14 O Cristo da Periferia. pois eram de um mesmo padrão. saí do meu transe momentâneo e perguntei se havia um lugar onde pudéssemos conversar um pouco. Fui entrando logo atrás da Dona Irene.indd 14 27/11/2007 09:36:06 . uma mistura de casa e oficina de carpinteiro. balcão. Logo surgiu diante de mim uma senhora. sofá.3 Chegamos à casa da Dona Maria. Num lugar pequeno como aquele não tardaria a encontrá-la. Sabia que ela viera de Belém. que escondia seus cabelos. Eu ia acompanhando a conversa e buscando encontrar a “Nossa Senhora” no meio daquela confusão de varais. com varais de roupa por todo canto. poltronas e mesa de centro eram talhados num mesmo estilo. Não têm aquele sotaque carregado.

não. Numa pobreza como a nossa Ele é a única esperança. 15 O Cristo da Periferia.Não. Ele só diz a essa gente que ninguém precisa de uma igreja para chegar a Deus. Sinceramente eu pensava da mesma forma.Olha moço. Eu mesma acredito nele. ele não fundou nada. .as molduras dos quadros de natureza morta espalhados pelas paredes. mas não podia dizer isso a ela. Todo mundo sabe como terminou a história de Jesus. pois jamais imaginaria que alguém pudesse se interessar por uma história inventada por uma gente pobre e sem cultura. claro.Dona Maria. mas vou à igreja porque tenho muito respeito pelo padre e pelas outras pessoas que vão lá. .Olha. o povo tem uma necessidade muito grande de acreditar em Deus. Isso. aquele ambiente poderia ser encontrado em qualquer casa ou apartamento de bairros nobres. Eu preciso escrever algo extraordinário sobre a sua história. pedindo que contasse porque as pessoas estavam dizendo que seu filho era o Cristo. Nunca disse a ele que o povo não precisa de igreja.Mas o que seu filho tem a ver com isso? Ele fundou alguma igreja? . Eu não quero ver meu filho perseguido nem crucificado. Durante a entrevista Dona Maria se mostrou surpresa com a minha presença ali. Não fosse pelas dimensões reduzidas da sala. Apenas anotei o comentário e continuei a conversa. Ele pensou nisso sozinho e fala tão bem que consegue convencer muita gente. Eu não gosto dessa história de dizerem que o meu filho é Jesus. se o chefe reconhecesse o meu talento e parasse de me dar matérias “chinfrins” para fazer. Na igreja já perguntaram isso. A senhora não tem nada a me dizer? . quando comprasse.Foi não senhor. . a senhora não está ajudando muito. Acho que é melhor o senhor não escrever nada e deixar a gente em paz. Faço parte da Legião de Maria. Eu rezo todos os dias e vou à missa nos domingos. moço. mas eu não ensinei essas coisas a meu filho. Talvez eu tivesse encontrado ali o marceneiro ideal para mobiliar o meu apartamento.E foi a senhora que ensinou isso a ele? . Nenhuma mãe quer isso para seu filho.indd 15 27/11/2007 09:36:06 . .

Só o que ela não sabia era que aquela história ridícula também agredia a minha auto-estima profissional. esperando que se acalmasse. ele avisou pro dono que a madeira era fraca. Depois de algum tempo em silêncio consegui balbuciar uma pergunta. Como carpinteiro devia fazer a estrutura de madeira que suportaria o telhado. é exatamente isso que vou escrever. dizendo que foi alarme falso. As lágrimas correndo por aquele rosto bonito me engasgaram as palavras e. eu me calei diante dela. A casa era alta. mais uma vez. amanhã virá outro para fazer as perguntas que eu não fizer. O dono da casa comprou material muito ruim. e eu não o quero perder.Como foi que o seu marido morreu? . Minha vontade era encerrar o assunto e voltar para a redação. Eu estava igualmente constrangido de estar ali fazendo aquela reportagem. avisou sim. Meu José não teve culpa. eu não quis lhe ofender. seu moço. Se não existe nada de extraordinário na vida do seu filho.Mais uma vez eu concordava com o que ela dizia. meu José e aquelas madeiras fracas.Desculpe. Mas conhecendo o chefe eu sabia que ele iria ligar para Dona Irene para tomar satisfações e esta lhe diria para mandar um repórter mais habilidoso. Ele avisou pro dono que não ia agüentar. morro abaixo.indd 16 27/11/2007 09:36:06 . se é que isso era possível. Meu filho é tudo que me restou depois que o José se foi. ele me disse antes que aquilo ia cair. ele e o telhado todo. Ele estava trabalhando na construção de uma casa.Eu não posso fazer isso. Se eu for embora agora. colocando defeitos no meu trabalho e me tornando mais medíocre ainda aos olhos dele. Prometo que vou escrever somente o que eu ouvir. Quando colocou as telhas ficou pesado demais e ele caiu lá de cima. e ficava num barranco. . esperando que eu me acalmasse. 6 O Cristo da Periferia. Então eu não tinha outra saída senão anotar o depoimento da Dona Maria e levar a reportagem adiante. É que essa história tem me preocupado muito ultimamente. Parecia até que lia meus pensamentos. . . Dona Maria. pois cumpro ordens. Nem quero lhe fazer perder o seu emprego. meu José e aquelas telhas. Depois poderia fazer uma matéria sobre a ignorância popular.Foi há dez anos.

Eu era só uma menina. No mesmo instante ele pegou as ferramentas do pai e começou a trabalhar. Na sua condição de vida parecia uma vitória permanecer viúva. Seu filho nasceu em Belém. de portas e janelas. Era o senso jornalístico fazendo diferença no meu trabalho. Ela dizia ao José que eu não sabia fazer nada. Eu o conheci poucos dias antes das bodas. Desde aquele dia não faltou comida na nossa mesa. depois do enterro do José. Não pedia ajuda nem para carregar peças mais pesadas que ele. Havia muitas coisas paradas porque o José deixou tudo esperando. Não fosse a força de seu filho ela teria se casado com qualquer um que se propusesse a mantê-la. Faz dez anos que o Emanuel é o homem desta casa e eu não precisei casar de novo. Eu morria de vergonha e ele também. Falava sempre em tom agressivo. Pela primeira vez senti que fizera uma pergunta certa na hora certa.Meu filho tinha treze anos. mas nossos pais eram amigos. Nem parecia uma criança. Eu escutava ele serrando e martelando o tempo todo. não é mesmo? Como foi o seu casamento? . eu quero voltar um pouco mais no tempo. O José já era um homem feito. Que ele era homem feito e que ela não ia permitir que me maltratasse. Quando chegamos em casa. Eu lavo roupa e trabalho como diarista. Nosso namoro era na presença da minha mãe. que era muito mimada. não faltaria pretendente. porque sozinha eu não conseguiria me manter.. como se estivesse brigando com alguém. Nossas famílias moravam longe. enquanto ele construía o telhado daquela casa onde perdeu a vida. Bonita daquele jeito e com dez anos a menos. . Daí arranjaram nosso casamento.Como foi a sua vida depois disso? . O orgulho que tinha de seu filho fez com que Dona Maria parasse de chorar. Seu moço. Que ela ia persegui-lo pelo resto da vida se soubesse que não cuidava 17 O Cristo da Periferia. Ele já trabalhava com o pai aqui em casa. que não estava pronta para casar. mas é ele quem sustenta esta casa.Dona Maria. Falava com um brilho nos olhos que parecia que ia explodir de tanta alegria. na fabricação de móveis. que falava mais que nós dois.indd 17 27/11/2007 09:36:07 . o Emanuel me abraçou e disse que a gente ia dar um jeito de sobreviver. o menino entregou todas as encomendas.

Mas ele ficou ali. Ainda não estava no tempo de nascer. até o dia do nosso casamento.indd 18 27/11/2007 09:36:07 . pois sabia que aqui no sul os parentes que vieram estavam se dando bem. Meu pai matou um boi e convidou toda a vizinhança. O doutor do postinho disse que eu e o José tínhamos que fazer uns exames no hospital de clínicas.Não. . mas era um bebezão grande. . O que o José conseguia ganhar ia pro aluguel e a gente comia com o que sobrasse. aqui nós descobrimos o que era sofrer de verdade. A colheita não deu e ele teve que vender a criação pra não morrermos de fome. Tive medo que desistisse. No primeiro ano ele vendeu um trator e pagou. numa terra que ganhou do pai dele. mas aqui não tinha quem socorresse.E por que vocês saíram de Belém? . Com o dinheiro da venda o José pagou as dívidas e com o que sobrou ele comprou as passagens. Só depois disso meu pai deixou o José me levar pra casa.E a senhora não teve outros filhos? . dava pra pedir ajuda a um pai ou irmão. mas a gente nunca teve tempo nem dinheiro para tomar o ônibus e ir lá. A parteira se surpreendeu com a facilidade com que ele nasceu. não ter filhos sem precisar tomar remédio era até uma bênção. Daí não teve mais jeito. tivemos que vender a terra e tentar a sorte em outro lugar. seu moço. . E depois. nem parecia que eu era tão nova. na condição que a gente vivia.bem de mim ou se ele me deixasse. 18 O Cristo da Periferia. porque Emanuel nasceu oito meses e meio depois do casamento. ele teve que semear no arado puxado por boi.Foram três dias de festa depois do casamento. lindo. Acho que engravidei na primeira noite. nem parecia o primeiro filho.O José trabalhava na lavoura. Foi uma graça de Deus quando construíram esta Vila Nazaré e nós paramos de pagar aluguel. No segundo ano o trator fez muita falta. sempre dava pra matar um frango. Passamos uns anos ruins e ele não conseguiu colheita suficiente para pagar o financiamento da semente. Tudo que precisava tinha que comprar e cadê o dinheiro? Lá no norte sempre havia uma horta. Depois que o Emanuel nasceu eu nunca mais engravidei. Parecia que ela não queria que ele casasse comigo. firme. Seu moço.E como foi o nascimento do seu filho? . um leitão.

Parecia que a minha entrevista estava encerrada. Uma vida normal. O chefe decidiria o que publicar. Foi assim que ele construiu esta carpintaria e passou a pegar encomendas. Hoje ele é conhecido aqui na Vila Nazaré por Jesus ou Emanuel. Eu não sabia como iria traduzir a emoção daquela mulher tão sofrida no pequeno espaço que tinha na revista.Irene. Meu papel era escrever e fotografar.Então tudo não passa de uma brincadeira? De um apelido? . . . Até ali não havia nada que justificasse a publicação.indd 19 27/11/2007 09:36:07 . Dona Maria havia me dado todas as informações de que necessitava para provar ao chefe que o chamado era alarme falso.Desde que nós viemos morar aqui na Vila Nazaré o povo já brincava com isso. Não vale a pena encher a cabeça do moço.Maria.Quando foi que começaram a chamar seu filho de Jesus? .  O Cristo da Periferia. Não valia a pena prosseguir na investigação.. Mas por que ele tinha que morrer? A gente estava indo tão bem. Dona Irene sentiu que eu não ia perguntar mais nada e percebeu que ficaria desmoralizada se eu saísse dali naquele momento. E ainda com esse nome de Emanuel. Por precaução resolvi anotar tudo.Sim. Brigava com os meninos e acho que por isso o apelido pegou. mas nada digno de uma reportagem. José e Maria que vieram de Belém. o filho só pode se chamar Jesus. No começo o Emanuel se importava. E ainda não havia falado com o filho. por isso não teve dificuldade em assumir quando José morreu. O assunto que me levou à Vila Nazaré estava definitivamente esclarecido. conte a ele sobre o Alcides! . responde como o chamam.O José já tinha perdido a esperança de ser chamado pela Cohab. Depois de algum tempo ele deixou do emprego só pra se dedicar às empreitadas e à carpintaria. O Emanuel cresceu ajudando o pai. Era apenas a segunda entrevista da reportagem que eu nem sabia se seria publicada. sofrida como a de toda família que migra do norte para o sul. Alguma tragédia. Pela primeira vez interferiu e disse: .. As lágrimas voltaram-lhe aos olhos. A sinceridade daquele depoimento me comovia. Com o dinheiro do aluguel ele pagava a prestação da casa e ainda sobrava. isso foi uma coincidência.

Ninguém precisa de intermediário para falar com seu pai. Quando o Alcides abriu os olhos. dizendo que Jesus o havia curado.4 Quem é o Alcides? . Dona Maria respondeu: .perguntei curioso. seu moço. .E o que o seu filho diz disso? . . E esse povo acredita nisso. disse que ele devia acreditar que ia abrir os olhos e estaria curado. que já era esperado que ele voltasse a ver. Ele não fez nenhum milagre. O povo fica trazendo doente pro meu Emanuel curar. Nunca mais ele voltou à escola.Claro.Seu filho estudou até que série? . moço.Ele diz que não pode curar ninguém. ele só disse pro homem acreditar que podia.E o Alcides foi ao médico depois disso? . como se ele fosse o Cristo ressuscitado. foi só isso. e começou a gritar. a beijar os pés do Emanuel. que cada um pode curar a si próprio. Um dia ele estava contando essa história ao Emanuel e o meu filho perguntou a ele porque então não voltava a enxergar naquele momento. Ele tinha um problema na vista e não enxergava desde que sofreu um acidente. Deus é pai dele como é pai de cada um de nós. O Emanuel só precisou mandar o pobre fechar os olhos e colocar os dedos sobre eles. pois já havia entrevistado Dona Irene e ela não havia mencionado nenhum Alcides. Não deu mais. moço. Tudo parecia ser um problema psicológico do Alcides.E ele vai à igreja com a senhora? 20 O Cristo da Periferia. Emanuel disse para ele fixar o pensamento. Os médicos diziam que ele não tinha problema nenhum e que voltaria a ver a qualquer momento. .Quando o pai morreu ele estava na sétima série.Alcides é um homem que mora aqui perto. . Mas o Alcides continua dizendo pra todo mundo que foi Jesus quem curou ele. não. ele viu o meu filho sorrindo pra ele. O doutor disse a ele que era só uma questão de tempo.indd 20 27/11/2007 09:36:07 .

moço. .Posso falar com o seu filho? Ele está trabalhando agora? . Quando ele era menino ia sempre comigo. Ele vive lendo. Bíblia para mim só existia nos filmes do cinema. Eu mesmo não havia lido a bíblia nenhuma vez. Então eu não podia me aprofundar no assunto que Dona Maria havia começado. Ele diz que os padres não podem responder as perguntas dele. Eu disse a ele para ir falar com o padre.E qual era essa missão. Ele dizia que tinha muito trabalho..Não. . Mas uma coisa era certa: eu não podia encerrar a reportagem sem antes entrevistar o tal Emanuel e o ex-cego Alcides. Mas ele já leu a minha bíblia várias vezes. Só assim o Emanuel poderia cumprir a sua missão.Ele não disse não. Mas depois disso ele voltou a sorrir. Sempre que eu preciso vou procurar no quarto dele. Não é difícil encontrá-lo.indd 21 27/11/2007 09:36:07 . nunca mais ele voltou a freqüentar a igreja como fazia antes. Deve estar aí pela rua.Mas a forma como a senhora disse que ele fala de Deus não me parece com alguém revoltado. Disse que havia entendido porque Deus tirou o pai dele.Não vai não. mas ele não quer. mais até que um padre. Ele tinha quinze anos e nunca mais eu vi o meu filho triste. Ele já fez as pazes com Deus faz tempo. Mas depois que o José morreu ele ficou muito revoltado. Até coroinha ele foi. Se quiser pode voltar aqui mais tarde que ele volta 2 O Cristo da Periferia. mas eu não entendo.Meu filho não guarda mágoa. Neste ponto tropeçamos na minha própria ignorância. daqueles que só aparecem na igreja quando tem casamento ou batizado. pois sei que está lá.Um dia eu estava dormindo e ele veio me acordar. mas eu sabia que estava revoltado com Deus. . . Era porque o José já tinha cumprido a missão dele neste mundo. . O pouco que sabia era como católico não praticante. Ele entende da bíblia mais que eu. Ele tenta falar comigo. Dona Maria? . não.E ele voltou a freqüentar a igreja? .Ele não está trabalhando hoje.E como foi isso? . A vida do José já estava esgotada para Deus e era preciso que ele se fosse. .

Sinceramente eu não gostaria de estar naquele lugar depois do pôr-do-sol.para jantar. Não o convido para comer conosco porque não temos nada especial.indd 22 27/11/2007 09:36:07 . Agradeci e saí. 22 O Cristo da Periferia.

filho da Dona Maria? . Você conhece o Emanuel. obrigado. um pouco velho para estar jogando futebol na rua com aqueles moleques.Como está o joelho? Eu nem lembrava mais do incidente da minha chegada. Os moleques haviam parado de jogar futebol e estavam conversando perto do meu carro. Tinha que agir rápido. como um repórter. mais preocupado em ver se meu carro ainda estava com as calotas do que encontrar o tal Jesus Emanuel. Quando cheguei perto do carro e vi que ainda estava inteiro senti um alívio muito grande. como se eu fosse um palhaço. 23 O Cristo da Periferia.O Jesus está bem na sua frente! Fiquei ali. .Vocês o conhecem? Podem me dizer onde posso encontrá-lo? Os meninos não paravam de rir. . me despedindo dela e da Dona Irene.5 Saí da casa da Dona Maria sozinho. eu tinha que pensar rápido. Se isso ocorresse o carro ficaria na garagem e eu teria que andar de ônibus até pagar o prejuízo. em meio às gargalhadas de seus amigos. que me olhava com um sorriso. olhando com surpresa e curiosidade para aquele homem à minha frente. Depois de conhecer a sua história compreendi que ele tinha o direito de se divertir um pouco.Eles conhecem! . o carpinteiro. Aquele que brincou comigo quando cheguei voltou a provocar: . Quando eu já estava pronto para ir embora um deles me falou: .respondeu apontando para os amigos.indd 23 27/11/2007 09:36:07 . Felizmente nada havia acontecido. A prestação já me custava muito e eu não podia ter despesas adicionais.Está bem. Era quase da minha idade. Como ele poderia saber do meu problema? Como sabia que eu tinha esse defeito se não havia nada de sobrenatural nele? Precisava lembrar de perguntar isso a ele. Mas a pergunta foi conveniente. Imediatamente pensei no meu joelho. Mas. que me olhavam com ar de ironia. pois eu precisava achar o Jesus da Vila Nazaré e aqueles meninos deviam conhecê-lo. O joelho já não doía.

respondi. Paulo. Isso não é um milagre? .indd 24 27/11/2007 09:36:07 . . . A entrevista nem havia começado e eu já estava em desvantagem. .Estou aqui porque sou repórter e gostaria muito de conhecer a sua história . Na faculdade aprendi que o repórter deve conquistar a confiança do entrevistado. mas como você soube antes de eu falar? . de responder perguntas com outras perguntas.Foi assim que soube do meu problema no joelho também? . Eu vi o jeito como você desceu do carro. como se estivesse segurando para não tirar do lugar. Que mudança é essa? Como ele sabia da minha contrariedade? Como poderia adivinhar? Será que a minha expressão ao chegar me denunciou tanto assim? Mas e quanto ao meu joelho? Ele estava me intrigando cada vez mais.É você quem está dizendo.Eu olhei para você e achei que se chamava Paulo. Meu nome é Emanuel.É sim. Acho que fui convincente..Então você é o Jesus da Vila Nazaré? O homem que faz milagres! . Eu devia medir muito bem as palavras para falar com ele. você desceu com a mão no joelho. com o joelho foi diferente. . Parece que a ironia com que conduzi a conversa inicialmente estava se virando contra mim. . Parece que meu interlocutor era bom na arte de usar as palavras.Não.Como você sabe o meu nome se eu ainda não o disse? . Era um gesto típico de quem tem problema no joelho ou ligamento. 24 O Cristo da Periferia. Não sei como isso aconteceu.Me contaram que você fez um cego voltar a enxergar. A roupa simples disfarçava uma mente privilegiada.Você está muito crédulo para quem chegou aqui tão contrariado. Vou responder a todas as suas perguntas. deve responder as suas perguntas com a mesma sinceridade que espera que sejam respondidas as que vai fazer.Seu nome não é Paulo? Você tem cara de Paulo. .É um prazer tê-lo aqui. Mesmo com a pressa que estava. porque Emanuel me estendeu a mão. É normal que o entrevistado o questione.

. Você pode ser o que quiser. Pode ser um grande repórter. Parece que uma voz sopra o nome das pessoas no meu ouvido.Você promete muito para quem tem tão pouco . Mas isso não acontece sempre.Algumas vezes sim.Você adivinha os nomes das pessoas somente pelo seu jeito? . ter motorista. isso é bobagem.E você atribui esse “sopro” a alguma causa sobrenatural? A algum anjo? .provoquei.Você pode fazer o que quiser. . .Respostas rápidas e convincentes. . Só não explicavam como um pobre carpinteiro havia desenvolvido tanta percepção. Basta um pouco de observação e atenção aos sinais que estão à sua volta. Basta um pouco de concentração. fotógrafo. .Não. como se conhecesse meus pensamentos. Paulo! 25 O Cristo da Periferia. Entrei no carro e saí dali. basta um pouco de observação e atenção. Mais uma vez eu o desafiei e fiquei com cara de bobo.Minha mãe não lhe disse que nunca faltou comida em nossa mesa? De que mais eu preciso? Mais uma vez ele me desmontava e respondia uma pergunta com outras que eu não sabia responder. Em cada frase revelava algo de mim. como se soubesse dos meus anseios e inquietações. Aquele Jesus estava ficando cada vez mais intrigante. Ele me acenou como se dissesse: Até amanhã.indd 25 27/11/2007 09:36:07 .Eu posso fazer isso? . Qualquer um pode fazer isso.

Bom dia. O que eu estaria perdendo? Se participava da reunião como todos os repórteres. Envolto nesses pensamentos nem percebi que o chefe falava comigo. Ninguém naquele jornal era mais atento do que eu. Um fotógrafo.indd 26 27/11/2007 09:36:08 . motorista. Parece que é alarme falso. . quero que vá lá e entreviste o Cristo e o cego. você vai 26 O Cristo da Periferia.Chefe. bastava um pouco de observação. Enquanto ouvia os relatos sobre as matérias principais. Parece que as promessas do Cristo da periferia não eram tão fáceis de serem alcançadas. Eles falavam todos ao mesmo tempo. senhor Paulo! Pela terceira vez. . enquanto caminhávamos para a sala de reuniões. Pegue o endereço com a minha secretária. . eu gostaria de voltar à Vila Nazaré hoje. pensei nas palavras de Emanuel. assistente. informantes. por que não conseguia o respeito do chefe? Por que me sentia tão pequeno diante daquela gente? Uma matéria de capa era o meu sonho. ninguém. eu estava pensando nisso. enquanto todos esperavam minha resposta: . será que o senhor poderia nos dar a honra de falar como está a reportagem sobre o Cristo da periferia? . de que eu podia ser o que quisesse.O homem fez um cego enxergar? E você diz que é alarme falso? Geraldo.Ótimo! Então quero que você vá visitar uma mulher que diz ter uma pata que criou um cachorrinho. Paulo.Ah! Desculpe chefe. Da porta já foi gritando com os repórteres principais para saber como andavam suas reportagens. se o senhor não se importar. Ontem eu entrevistei a informante e a mãe dele. Nem à igreja ele vai. de atenção.6 O chefe entrou na redação com o mau-humor de sempre. pois eu não conseguia ver de que modo um pouco de observação e atenção poderiam me ajudar. O homem não tem nada de Cristo. Quero entrevistar o Cristo e um homem que voltou a enxergar.

Ter um assistente para ligar e mandar verificar todas as pistas que eu imaginasse. Mais uma ótima reportagem sobre um assunto inútil. Uma entrevista técnica evitaria que eu fosse surpreendido novamente com respostas em forma de perguntas. Queria dizer que precisava fazer mais investigações. pelos informantes. acrescentei as fotos da câmera digital e passei para o arquivo de matérias acabadas. Perder a reportagem foi o cúmulo da incompetência. mas disse logo que era um alarme falso.Alô! Câmbio! Terra chamando o astronauta Paulo! Era o chefe gritando em meu ouvido. Pegou-me distraído de novo. Os repórteres se apóiam muito neles para que suas reportagens tenham sucesso. Tirei umas fotos e voltei para a redação. Fui à casa da pata que criou o cachorrinho e fiz a entrevista com a dona. A vantagem de cobrir matérias assim é que você faz tudo em pouco tempo e ainda pode se dedicar a outras tarefas da redação. Agora eu não teria mais esse problema para entrevistar uma pata e um cachorro. Digitei a matéria. Fiquei por ali olhando o trabalho dos assistentes.ver a pata que criou o cachorro. Não passei anotações da conversa que tive com Emanuel porque não fiz e não considerei aquilo uma entrevista. mas uma conversa pessoal. prontas para edição. Pode seguir uma pista com certeza. A 27 O Cristo da Periferia. também. Eu sonhava ser um repórter de primeira linha.indd 27 27/11/2007 09:36:08 . . São eles que checam as informações que são passadas por quem está na rua e. Eu estava distraído justamente quando o chefe perguntou sobre o meu trabalho. Um repórter que tem um assistente pode descobrir uma pessoa ou um endereço sem precisar voltar à redação. Agora ficava à disposição do chefe para ocupar qualquer espaço que sobrasse na edição. Pretendia terminar um roteiro das perguntas antes de ir até lá. entregar as anotações e recebê-las digitadas. Passei as entrevistas da Dona Irene e da Dona Maria para o Geraldo e peguei o endereço da pata com a secretária do chefe. Precipiteime e acabei escalado para mais uma reportagem medíocre. Passe as anotações do Cristo para o Geraldo! Mais uma vez saí da reunião como um idiota. obter todas as informações que precisasse sem retornar à redação. pois sabe que há alguém pensando com ele e mapeando todos os seus passos.

Eu não consegui dormir. Não passei isso ao Geraldo.. como está o caso do seqüestro do banqueiro? Inácio. óbvio. as notícias esportivas saem até o fechamento da edição? Ou teremos que publicar uma nota dizendo: ‘desculpem a nossa incompetência’? O chefe. eu estava. nosso correspondente de guerra fez contato? Cristina. .. . Fiquei até a madrugada digitando e revisando as anotações.Mas.Ah! Chefe. Roubaram o carro dele logo que chegou à vila e só agora ligou avisando.indd 28 27/11/2007 09:36:08 . porque ele devia me achar um idiota. Talvez por isso estivesse tão distraído.. eu daria tudo para ver o chefe falando com ele. Consegui minha reportagem de volta.Você já terminou de editar a matéria da pata que criou o cachorro? . Para falar a verdade. ao chegar em casa. o senhor estava falando comigo? Desculpe. saiu gritando com todo mundo. e a conversa com o Emanuel me fez sentir assim. eu digitei também os trechos que lembrava da conversa que tive com o “Messias” e ainda preparei algumas perguntas para a entrevista técnica.. . .Ótimo! O Geraldo perdeu o carro com todas as anotações.Então quero que vá até a Vila Nazaré e entreviste o Cristo e o cego. mas tinha pouco tempo.Sim. pois estava muito impressionado com a conversa que tive com Emanuel.. . já falou com o pessoal de Brasília? Patrícia. Você guardou cópia das anotações das entrevistas que fez com a Virgem e a informante? .redação inteira estava olhando para mim com um sorriso de gozação. Mais ainda. eu.O Geraldo está na delegacia. onde está o meu café? Afonso. Fiz isso no dia anterior. elas já estão digitadas. Vá logo e não seja assaltado. pois 28 O Cristo da Periferia.. Se fosse o meu. o Geraldo. Assaltaram o Geraldo. Eu gostaria de ver como o Geraldo se sairia com ele.Sim senhor. como todo mundo na redação.. Fiz isso quando. Carla. Minha sensibilidade da véspera tinha fundamento.. estaria perdido. Agora! . estressado. Ainda bem que ele era um repórter dos bons e o seu carro devia estar segurado. Tive sorte de transcrever as entrevistas para o computador.

como de costume.falei sozinho. Os carros ficavam sempre sob a sombra. Era uma construção antiga. A área de estacionamento. Só não pode deixar que seu entrevistado fuja das perguntas questionando você. Do aspecto antigo da casa só restara a fachada. Paredes foram removidas. toda uma parafernália de tubulações foi colocada para adaptar a velha casa aos avanços do mundo moderno. Como eu não tinha dinheiro para pagar um lava-car com freqüência. e as grandes peças do andar superior. considerando a pressa que o chefe nos impingia. Além disso os passarinhos também faziam a festa e os carros levavam as lembranças desses passarinhos. um velho casarão num terreno enorme. A garagem devia ser a única peça do casarão que não havia sido modificada. eu tinha alguns panos no porta-luvas para limpezas de emergência. O encanamento e a fiação elétrica foram substituídos. ainda caíam aquelas sementinhas que manchavam a pintura. era delimitada por canteiros nos quais havia árvores centenárias muito frondosas. Vários anexos foram construídos. além das flores. Contudo. O escritório da revista ficava no centro da cidade. departamento de pessoal e 2 O Cristo da Periferia.os dois pensam muito rápido. que o Emanuel domina com tanta facilidade . onde funcionavam a administração. Embora trabalhasse no centro da cidade meu carro sempre estava cheio de folhas. minhas folgas eram dedicadas a lavar o carro.Preciso aprender essa técnica de responder perguntando. muitas vezes saí com o carro todo marcado com as fezes dos passarinhos. pois sua missão é ouvir e não falar. mas este foi logo avisando que não tinha tempo para pensar nessas bobagens e quem não estivesse satisfeito podia estacionar na rua ou num estacionamento pago. deve deixar bem claro que sua opinião não é importante naquela entrevista. Pior era na primavera quando.indd 29 27/11/2007 09:36:08 . O carro do chefe era o único que cabia na garagem original da casa e.Você ganha tempo para pensar se faz com que o interlocutor responda suas perguntas. Como homem precavido. Se você é o repórter. estava sempre limpinho. . à frente. janelas trocadas. por isso. Seria legal ver o chefe perdendo o rebolado diante de um carpinteiro que só estudou até a sétima série. . uma bela lareira que foi toda restaurada. Uma vez um repórter tentou se queixar ao chefe.

Seria muito egoísmo pensar assim. que queria os resultados sem se importar se eu ia ou não tomar multas para chegar ao local. fora da hora do ‘rush’. No andar térreo. A Vila Nazaré ficava a trinta minutos da redação. As pessoas têm que se conscientizar de que não se deve andar rápido. Era preciso tomar cuidado para não exceder o limite de velocidade. onde ficava a garagem. eu não conseguia deixar de me impressionar com o lugar. Fui saindo do centro da cidade e o trânsito melhorando. Os passarinhos também haviam deixado lembranças. Mas também não se podia colocar em risco as vidas alheias só porque eu estava com pressa. Naturalmente. Entrei na Vila Nazaré. O chefe estacionava nos fundos. Cheguei ao meu carro e o encontrei todo coberto pelas pétalas das flores que caíam naquela época do ano.contabilidade. As pétalas foram caindo pelo caminho. Que incoerência essa necessidade de andar rápido com tantos bloqueios que nos são impostos. Embora já houvesse estado lá. que fez aquela meleca com as fezes que um passarinho havia depositado bem no meu vidro. Acionei o limpador de pára-brisa. pois o Geraldo havia perdido muito tempo. desvalorizando o veículo. pois manchavam a pintura se secassem. Pensei em fazer uma reportagem sobre isso. se podia encontrar a redação propriamente dita. passada a recepção. mas sair a tempo. com uma escadaria imponente que levava à administração. usando uma mangueira que os empregados se cotizaram para comprar. não tive tempo sequer de fazer a limpeza superficial que fazia quando tinha tempo. pois em horários de congestionamento poderia demorar mais de uma hora para chegar lá. Mas como o chefe exigiu que eu me apressasse. Saí com o carro como estava. Para essas havia solução. Por ser um bairro 30 O Cristo da Periferia. graças aos assaltantes. essas divagações não interessariam ao meu chefe. contrastando com a paz aparente da primeira parte da casa.indd 30 27/11/2007 09:36:08 . o problema eram aquelas que caíam na lataria. só para a Prefeitura arrecadar mais com multas. pois a cidade estava invadida por radares. O segredo é sair com antecedência para chegar ao destino sem exceder o limite de velocidade. Sua chegada era prenúncio de turbulência e cobranças a todos os empregados.

que eu não devia estar ali. Era como se me lembrassem. Teria que ser rápido se quisesse concluir minha missão naquele dia.em formação não havia vegetação. o que me impedia de trafegar depressa no interior da Vila. 31 O Cristo da Periferia. Nem ligavam para a presença do carro. Do contrário teria que pedir mais tempo ao chefe e isso poderia me custar novamente a perda da matéria. Certamente os caminhoneiros não ligavam para isso. mesmo porque havia pessoas que caminhavam na rua como se estivessem num parque. com isso. O antipó apresentava. transplantadas.indd 31 27/11/2007 09:36:08 . As árvores fininhas. eram o único verde que se via nas ruas e praças. pois vi dois ou três caminhões estacionados em frente a certas casas . muitos buracos. Olhei o relógio e vi que marcava três horas da tarde. um asfalto de baixa qualidade. que não suporta tráfego pesado. com um simples olhar. que quase lhes tocava as pernas. O asfalto era antipó. Com a cara que me olhavam dava medo até de buzinar.e também furgões de entrega fazendo o seu trabalho.deviam ser moradores .

Um problema não. . tipo havaianas. .Dá para ser mais específico? Como foi que Jesus o curou? . Cabelos grisalhos e sem corte. A velha técnica de responder com sinceridade as perguntas do entrevistado funcionou de novo. com móveis que pareciam ter saído de um antiquário. meus olhos demoraram a se acostumar. Abriu o portão e convidou-me a entrar. a barba por fazer. Com um jeito desconfiado. Eu era cego e Jesus me devolveu a visão. mas chegaria ao final do dia. Eu sempre imaginei que o filho da Dona Maria fosse um santo.Eu enxergava e fiquei cego depois de um acidente. como num depósito.Foi Jesus quem me curou.indd 32 27/11/2007 09:36:08 . dava a impressão de que tudo estava empilhado ali. Havia sido contratado para uma obra. ele admitiu que era o próprio Alcides.E como o senhor voltou a enxergar? . três meses e vinte e cinco dias sem enxergar.Então. Ela me informou que Emanuel não estava. Perguntei sobre o Alcides. Desde que o meu amigo José morreu ele sustentou a mãe como se fosse homem feito. . Quando eu era novo. Depois que eu disse que era repórter e estava ali para fazer uma entrevista com o homem que era cego e voltou a ver.7 Cheguei à casa da Dona Maria. que era cego. . Tudo revelava que ali morava alguém que não dependia da visão para se locomover. Aproveitaria o tempo para entrevistar o cego que voltou a enxergar.Ele mora aqui perto. Eu voltaria mais tarde. o senhor tinha um problema na vista? . As persianas horizontais fechadas deixavam o ambiente em penumbra. trabalhava 32 O Cristo da Periferia. A sala era muito pequena para os móveis. camisa de manga curta. O homem que me atendeu no portão parecia ser um aposentado. calça social um ou dois números menor que o tamanho dele e chinelos de dedo. Era uma casa muito escura. e ela me apontou a casa dele. perguntou o que eu queria com o Alcides. Foram quinze anos.O senhor nasceu cego? . Seu Alcides.

O médico não entendeu como eu fiquei cego. O Emanuel só tem vinte e três. Pelo menos os mais velhos. O José sempre levava o moleque aonde ele ia.E como foi que Jesus o curou? 33 O Cristo da Periferia.Ele me levou pro hospital.falou com ênfase e batendo a mão direita no peito a expressão ‘meu amigo José’. O pastor disse que Jesus viveu trinta anos como pessoa comum antes de descobrir sua santidade. ninguém tem um dedo de queixa do meu amigo José . Ele pode estar vivendo sua vida de homem comum. Um dia eu caí de um andaime e bati a cabeça no chão. eu já era cego. Pode perguntar pra todo mundo aqui na vila. igual ao Cristo. Às vezes a gente trabalhava na mesma obra e eu via que o menino era de bom coração. Não é porque ele morreu que eu estou dizendo isso. . . . deixando claro que considerava muito importante ter o pai de Emanuel em seu rol de amigos distintos.como pedreiro. que o conheceram.Não. igualzinho ao Nosso Senhor. eu desconfiava que o Jesus fosse santo. É claro que ele é Jesus. Depois disso eu fiquei aposentado e quando sarei já estava velho demais para voltar a trabalhar.E como foi que Jesus o curou? . mas eu tenho certeza que Ele é o Senhor Jesus Cristo que voltou a este mundo para fazer a Justiça do Pai Criador. Ainda por cima mora numa vila chamada Nazaré e trabalha como carpinteiro. O nome dele é Emanuel. Foi o José que me acudiu quando eu caí. Era um amigo pra todas as horas.O senhor trabalhou na obra em que o Seu José morreu? . Eu bati assim de lado . ele nasceu numa cidade chamada Belém. Então falei ao pastor que eu estava desconfiado de que o Senhor Jesus Cristo já havia voltado e que Ele vivia entre nós. Daí o doutor me deixou aposentado mesmo. .E como foi que Jesus o curou? . Além disso.indd 33 27/11/2007 09:36:08 . eu sou evangélico. Eu nunca vi uma pessoa tão direita e tão disposta a ajudar.Bem. o mesmo nome que o anjo Gabriel mandou Maria e José darem ao Cristo.e a batida atingiu o nervo do olho.disse apontando o dedo indicador para o lado direito da face .Como eu te disse. .

mas ela guardava tudo em lugar diferente e eu me atrapalhava na hora de procurar uma roupa pra vestir. A mulher foi a primeira a me deixar. Quando ficar famoso nem vai lembrar deste pobre cego. Dei graças a Deus quando a mãe deles se entendeu com o marido e voltou para a casa dela. eu era casado e morava aqui. mas coube todo mundo. Isso me incomodava muito.perguntei. Foi bom porque ela lavava minhas roupas também. mas eles parecem uns capetas. Seis meses ela agüentou. Ela não quis ir para a casa da mãe. Aleluia Jesus! . Precisava ver como as crianças me incomodaram. retomando o rumo da entrevista. Se vou pegar uma coisa e ela não está lá. Minha filha vivia lavando roupas e os varais eram estendidos lá fora. Ela é a segunda. três dela. Os filhos foram indo atrás dela. seis meses. No prazo de um ano eu estava sozinho. Nunca mais voltou. Outro dia uma filha minha se apartou do marido e veio morar aqui com meus três netos. tiravam do lugar. só depois é que me dou conta de que posso enxergar e procurar com os olhos.Quando sofri o acidente e fiquei cego. Como eu era cego. Então pensei: Vou falar com Ele e se Ele não me ouvir vou falar com a mãe Dele. Ele transformou água em vinho. um a um. Ninguém gosta de conviver com um doente. . três do meu filho mais velho e dois do terceiro. Então eu ficava aqui em casa prestando atenção para ouvir a voz dele quando passasse. Devia voltar em quinze dias. Deus que me perdoe por falar assim dos meus netos. Em dois mil anos deve ter adquirido muito mais poder. É apertado. Não quero mais ninguém morando aqui. mas eu me acostumei à solidão. porque não tem muito lugar lá e eu vivo sozinho aqui nesta casa em que criei cinco filhos. Os outros dois são solteiros e moram com a mãe deles. Então um dia 34 O Cristo da Periferia. pois tinha que ficar desviando quando entrava e saía de casa.indd 34 27/11/2007 09:36:09 . mas quando a mãe pediu.Eu estava com aquela idéia fixa de que o Emanuel era o Senhor Jesus. estragavam as coisas. com minha mulher e os cinco filhos. Pulavam por toda parte.. Ninguém sabe o que Ele fez na outra vida antes dos trinta anos. Eles vêm me visitar de vez em quando.Seu Alcides. Eu tenho oito netos. como foi que Jesus o curou? . Depois inventou uma viagem para a casa dos pais. adquiri o costume de guardar minhas coisas sempre nos mesmos lugares. gritavam.

tem piedade de mim!” Ele ouviu o meu chamado e perguntou o que podia fazer por mim. abrir os olhos e ver o Cristo Jesus ali olhando pra gente. Ele não me pareceu levar muito a sério essa santidade. Quando Ele mandou abrir os olhos eu abri. Ela tem medo dos desígnios do Senhor. mas nada do que eu fazia dava resultado. era tudo o que eu queria. eu acreditei porque tinha certeza de que Ele era o Senhor Jesus que estava ali. Eu sou um abençoado pelos céus. era só acreditar. Eu fui abençoado pelo primeiro milagre do Senhor Jesus Cristo. Eu disse que queria voltar a enxergar. Eu disse que desejava muito voltar a enxergar. desse jeito. Mas o que é a vontade da Dona Maria diante do Altíssimo? . Eu não tinha nenhuma dúvida de que iria abrir os olhos e ver a imagem do Salvador bem na minha frente. Foi a visão mais emocionante que alguém pode ter na vida. Ele dizia que eu só precisava de um pouco de atenção e concentração. podia enxergar se quisesse. era só tirar da cabeça qualquer dúvida de que isso era possível. É que a Dona Maria me disse que o seu caso foi apenas uma coincidência. . Rapaz. Seu Alcides. como se Ele estivesse tirando tudo de ruim que existia na minha cabeça.indd 35 27/11/2007 09:36:09 . Eu queria isso.Blasfêmia! Como você se atreve a duvidar do poder do Filho de Deus? . Quando cheguei aqui ele jogava bola 35 O Cristo da Periferia. queimando o meu cérebro.eu ouvi a voz Dele passando lá no meu portão e gritei: “Emanuel.Foi! Ele disse que eu podia fazer o que eu quisesse. dois mil anos depois do primeiro nascimento.Eu falei rapidamente com o Emanuel ontem.Eu não estou duvidando.O médico não lhe disse que poderia voltar a enxergar a qualquer momento? Não seria só uma coincidência? . .Foi então que ele fez o milagre? . Então Ele mandou que eu fechasse os olhos e colocou as mãos sobre os meus olhos. Eu senti os dedos Dele como se fosse um ferro em brasa. Era só me concentrar. com as mãos nos meus olhos. mas eu só ouvia a voz Dele. Foi isso que me aconteceu. . Mas não doía. Ela tem medo que o filho seja morto pelos poderosos. que quando abrisse os olhos eu voltaria a enxergar.A Dona Maria não quer aceitar a verdade. Havia muitas pessoas ao redor. era uma sensação de bem-estar.

depois. O Senhor vive entre nós! Pecadores. preparai-vos para a ira do Senhor! Agradeci a entrevista do Seu Alcides. Nunca vi tanto fanatismo. Uma vida santa é o que o Cristo espera de cada um de nós.Não. Ele vai jogar os pecadores no fogo do inferno e levar os justos para o Reino de Deus. Ele vive como homem porque. . Era um caso típico de fanatismo e auto-sugestão. Eu sou um abençoado dos Céus. me despedi e saí.Ele acredita.Ele ainda não tem consciência da Sua divindade. Isso só vai acontecer daqui a sete anos. mas ainda não chegou a hora Dele. que devemos esperar sete anos para conhecer a Sua glória. Muitas pessoas o procuraram. Ele irá julgar todos nós.indd 36 27/11/2007 09:36:09 . Glória a Deus! . De oração e arrependimento. Mesmo cego eu enxerguei o Cristo Jesus. “Vinde a mim os pequeninos!” Lembra? Você tem que ser como uma criança para entrar no Reino dos Céus. toda a sua tragédia e o milagre que atribui ao Emanuel. 36 O Cristo da Periferia. que será aqui na Terra mesmo. E não adianta fugir nem mentir.Ele fez mais algum milagre depois disso? . Acho que um milagre daqueles até eu faria se o sujeito pensasse que eu era Jesus. porque Ele está à espreita. É normal que Ele brinque com as crianças. no dia da Sua Glória. Se eu fizesse mais uma pergunta cética corria o risco de ser agredido. Mas ninguém tem tanta fé quanto eu. .E o seu pastor acredita que aconteceu um milagre? . Somente eu tive fé suficiente para ver o Senhor Jesus. pedindo um milagre. Ele diz que cada um pode fazer seus próprios milagres. Agora é tempo de oração. Ele diz que devemos respeitar a vontade do Senhor. Incrível como certas entrevistas a gente faz com uma pergunta só.com os adolescentes lá na praça. Só os bons vão conhecer o Paraíso. Eu perguntei como Jesus o curou e ele me contou toda a sua história de vida. O sol já estava se pondo e eu precisava voltar à casa da Dona Maria.

Quando é um traficante eles nem prendem. A gente não pode denunciar. Meu filho já está para chegar. Acabam se tornando cúmplices dos crimes que deviam reprimir. O rapaz saiu correndo para o outro lado e nem deu tempo da gente acudir. Eu não queria correr o risco de interromper a entrevista por causa da simplicidade da casa.Os ladrões estavam passando quando o rapaz parou o carro. O coitado teve que entregar a chave do carro. Quando prendem alguém eles levam para a delegacia. estupram e matam. Ele sempre manda o que a gente precisa na hora certa. Nem imaginou que eles queriam roubar. dão uma surra. Enquanto conversávamos chegou a Dona Irene e ofereceu a sua garagem para guardar o meu carro. Contou-me que um carro foi roubado ali pela manhã. 37 O Cristo da Periferia. É a lei do silêncio que reina aqui na Vila Nazaré. Os policiais ganham tão pouco que vendem a própria dignidade. Quando cheguei de volta. os documentos e todo o dinheiro que tinha no bolso. Depois eles fugiram dando tiros pra cima. Eles vendem os carros roubados para comprar drogas.8 Antes disso passei num mercadinho e comprei algumas frutas. .De vez em quando passa um carro da polícia por aqui. Foi perguntar alguma coisa e eles puseram um revólver na cara dele. mas não pude fazer nada. O traficante vai logo entregando um dinheiro pra eles. Comemos o pouco que tínhamos no almoço. Foi Deus que lhe mandou. Eu estava olhando pela janela. uma cesta básica e um frango assado. senão eles tocam fogo na casa da gente. .Agora eu o convido para jantar. Já não tínhamos mais nada para comer hoje. Dona Maria ficou muito emocionada com os presentes que levei. O senhor fique à vontade. tomam todo o dinheiro que o pobre tem no bolso e depois soltam.E a polícia não faz nada? . Também não queria constranger os donos da casa por não ter nada a oferecer. o relógio. Seu Paulo. .indd 37 27/11/2007 09:36:09 .

a gente já está acostumada. Meu marido só chega tarde da noite e a minha casa todo mundo respeita. mas aqui não tem garagem. 38 O Cristo da Periferia. Não vale a pena mudar daqui. O que a gente tem é muito aqui e pouco em outro lugar. moço. Essas palavras estavam virando receita de sucesso para mim. Atenção e concentração. o palhaço distraído da redação. Eles respeitam a casa da gente e a gente respeita eles. Por que a senhora e seu marido não se mudam? .Dona Irene. Para isso eu precisaria prestar mais atenção quando ele estiver por perto. Só naquele dia me pegou distraído duas vezes. a igreja. aprendendo o valor que tem uma vida simples. Aqui nós fizemos a nossa vida e esses meninos nós vimos nascer. os vizinhos. Pode guardar seu carro na garagem lá de casa que estará seguro.. Eu precisava lembrar de escrever aquelas palavras. Com o carro em segurança eu poderia entrevistar Emanuel com muito mais tranqüilidade. Isso podia ser muito útil quando eu fosse fazer uma reportagem sobre o tráfico e o submundo do crime organizado. nós estamos acostumados com a escola. Não tem perigo pra nós. A narrativa de Dona Irene foi muito elucidativa em relação à vida de pessoas honestas no meio de ladrões e traficantes. a senhora parece ter um padrão de vida melhor que o das outras pessoas daqui. Independentemente da santidade eu estava aprendendo a admirar aquelas senhoras. o mercado. Nossos filhos foram criados nesta vila.indd 38 27/11/2007 09:36:09 . Mas isso era matéria para capa de revista e eu só faria uma reportagem assim no dia em que o chefe parasse de me ver como o idiota de plantão. não. Fiquei agradecido com a oferta da Dona Irene. Não teve tempo nem de conhecer aquelas pessoas tão boas. Aqui é o nosso lugar. O coitado do Geraldo não teve a mesma sorte. A da Maria também.Precisa não.

Olhou para a mesa enquanto a mãe me apontava e contava a doação que eu havia feito.indd 39 27/11/2007 09:36:09 . ultimando os preparativos do jantar. sem saber o que responder. Ele me convidou para sentar e esperar enquanto tomava um banho. Eu era estudante e tinha um bom emprego num banco. precipitado como sempre. Bateu-me um desespero tão grande que eu já estava aceitando qualquer emprego. Mesmo quando descobri que o chefe era um estressado e que a redação era uma panela de pressão. Quando me formei e resolvi ser jornalista. Sorri e apertei a sua mão. cheio de sombras. . eu me resignei e me submeti aos gritos e à humilhação. Dona Maria estava na cozinha. Lembro muito bem de quando saí da casa de meus pais e fui morar sozinho. Como era possível viver daquele jeito? Como alguém podia ver a despensa vazia e saber que haveria comida na próxima refeição? Que fé era aquela que dava a certeza de que um estranho chegaria trazendo comida meia hora antes do jantar? Será que eles imaginavam que eu perdi a matéria e só estava ali porque roubaram o carro do Geraldo? Essa capacidade de viver do improvável era algo que eu não tinha. na qual criaram 39 O Cristo da Periferia. por medo do que o desemprego me levaria a fazer. Sentei e continuei assistindo a novela numa televisão antiga que tinha um sinal muito ruim. pedi demissão do banco.Bem vindo. Nem lembrava mais como era a imagem antes da TV a cabo. Paulo! Eu não te disse que na minha mesa nunca falta comida? Estávamos esperando por você hoje. Ele me estendeu a mão com aquele sorriso aberto. O emprego de jornalista não veio tão fácil quanto eu pensava e o dinheiro começou a diminuir. Se demorasse mais uma semana eu já estava devolvendo o apartamento e voltando para a casa de meus pais. Emanuel chegou em casa e beijou a mãe. Por isso nem negociei quando apareceu a oportunidade de trabalhar como repórter principiante na revista. Não que meus pais não me aceitassem de volta na casa deles. Moravam numa casa grande. até de bancário.

Como ele fazia aquilo? Como podia saber o que se passava em minha cabeça? . Sou o mais novo e único solteiro. eu estava distraído. mais resistente e teimoso. com o frango assado. não demonstraram ressentimento com a minha decisão precipitada. Pode parar de se desculpar tanto também! É a terceira vez hoje. embora não tenham concordado com ela. Hoje entendo que isso era imaturidade e insegurança em relação à desaprovação deles com minha saída de casa. fez um suco com as laranjas e. falavam com tanto carinho de mim para os parentes e amigos. sim.Pode. Aquele homem estava se transformando num grande mistério para mim. Paulo.cinco filhos.Terra chamando o astronauta Paulo! O jantar está servido. me tratavam tão bem quando ia lá visitá-los. Não gostaria de precisar da ajuda deles novamente. . usando as palavras de meu chefe naquela tarde. Como ele sabia disso? Dona Maria preparou um jantar com arroz. Você não tem culpa de nada. pensei que era a primeira vez que eu me desculpava com ele por estar distraído. mas naquele momento era importante para mim provar que a minha decisão era acertada e resistir até o último momento antes de dar o braço a torcer. Considerando as duas vezes com o chefe era a terceira naquele dia. Talvez meu pai até me emprestasse dinheiro se eu pedisse. mas finalmente aceitaram minha decisão. Posso usar seu banheiro? . me assustou. feijão e batatas fritas. Mas eu queria que ele e minha mãe sentissem orgulho de mim. Ao contrário. A voz de Emanuel em meu ouvido.Desculpe. Certamente a entrevista com ele iria tirar muitas das minhas dúvidas.indd 40 27/11/2007 09:36:09 . Por isso aceitava ser o bobo da redação. Por isso aceitava o tratamento que o chefe me dava. Enquanto lavava as mãos. Eles relutaram muito quando eu disse que precisava de um espaço e queria morar sozinho. 40 O Cristo da Periferia. o jantar estava completo. Despertei do transe de meus pensamentos. Essa necessidade íntima da aprovação deles me fez mais forte. Como pais maravilhosos que são. Emanuel sentou-se à mesa como se aquela fosse uma refeição normal para eles. Mais uma vez sorri sem saber o que dizer. que eu não pediria qualquer coisa a eles se não fosse a última alternativa.

mas eu imaginava que um pretenso filho de Deus fosse fazer uma oração antes de comer.indd 41 27/11/2007 09:36:09 . principalmente num dia em que não havia nada na despensa para comer e a refeição chegou na última hora. “passe as batatas”.Jantamos quase num silêncio absoluto. Percebi que já o estava chamando de filho de Deus. Era melhor deixar ele em paz e jantar quieto. Bem. Estranhei que ele começou a comer sem fazer uma oração. interrompido apenas por pedidos de “passe o frango”. Não que eu fizesse orações antes das refeições. todos nós somos filhos de Deus. 41 O Cristo da Periferia. ou com a Dona Maria perguntando se estava bom o tempero.

Tínhamos uma entrevista marcada e todos os obstáculos seriam removidos para ela acontecer.Quando você disse que queria fazer uma reportagem. Ainda bem que não estava respondendo com perguntas. eu falei que responderia a todas as suas perguntas.Você é que não entende.indd 42 27/11/2007 09:36:09 . mas sei o que devia acontecer. Ele estava dominando meu pensamento de novo.Eu sabia que você viria.Mas nós não marcamos esta entrevista. .0 Depois do jantar. . corre o risco de ir contra eles e quebra a cara. Este encontro estava marcado e você não poderia faltar. perdeu tempo e deve ter se aborrecido um bocado. . Eles tentaram mudar o que estava certo. É claro que voltaria hoje! . O chefe da redação escalou outro repórter para fazer esta entrevista. É só uma questão de tempo para perceberem. Comecei falando do Geraldo: .Você sabe o que aconteceu? Sabe o que eles pensam de mim? Como sabe? . Sentamos no sofá para a entrevista.Eu não prometi entrevista a seu chefe nem a outro repórter. Se não os vê. . . Eu não sei especificamente o que aconteceu. Esses são os sinais de que lhe falei ontem.Você não entendeu. Dona Maria recolheu os pratos e foi para a cozinha. Quebraram a cara.Quase que eu não venho hoje. Só me mandou na última hora porque o outro teve um problema. consegue vê-los. não falei? E você foi embora com muitas perguntas sem resposta. . lavar a louça. Se você presta atenção e se concentra. Era hora de partir para a entrevista 42 O Cristo da Periferia. .Mas o meu chefe mandou outra pessoa fazer a entrevista.Você e eu sabemos que você não é o que eles pensam. Foram contra o que não podia ser mudado. Se alguém foi contra isso. Ontem eu fui embora sem dizer que voltaria hoje. Sou um empregado e vou onde me mandam.

perguntei instintivamente. Sabia que ia quebrar a cara se fugisse do roteiro. perdem o seu tempo e o seu esforço. com todo o fervor. como se soubesse exatamente o que eu estava pensando.Sabedoria não é questão de escolaridade. A resposta era evasiva.As pessoas têm uma necessidade muito grande de se encontrar com Deus. Ficam doentes e não fazem nada útil. Pode explicar isso? . Qualquer possibilidade que vejam de atribuir divindade a algo. fugindo do roteiro. não se desgasta. Será que esse era um dos sinais de que ele falou? Será que eu estava prestando atenção agora? Pelo sim.Você demonstra uma sabedoria maior que o normal para a sua escolaridade. .indd 43 27/11/2007 09:36:10 . Esquecem de se concentrar e observar os sinais antes de agir. Se você vai a favor da vontade do mundo. As pessoas estudam para aprender as coisas dos homens. Mas eu já conhecia a sua habilidade no improviso. O que você tem a dizer sobre isso? . sentindo que ele esperava por esta pergunta. Não há escola que ensine isso. Tive vontade de abandonar meu roteiro e bombardeá-lo de questionamentos sobre aquela resposta. A sabedoria vem da percepção da interação do homem com o mundo. pois mostra uma aproximação das pessoas com Deus. mas ninguém ensina como o mundo quer que você aja. Você vai para a escola e aprende como os homens esperam que você aja. .Mas o mundo não é dominado pelos homens? . Às vezes é mais importante observar que agir. Isso não é ruim.técnica. continuei o meu roteiro. Aqueles que lutam contra o mundo. é usada pelos carentes de Deus. 43 O Cristo da Periferia. Mais uma resposta que abria margem para um leque infindável de outras perguntas.As pessoas dizem que você é a reencarnação de Jesus Cristo. Dava margem a diversas outras perguntas. Resisti bravamente.Os homens pensam que dominam o mundo. . Por isso cometem tantos erros. Saquei meu caderno de anotações e comecei com as questões previamente preparadas. Ao pensar assim. ou alguém. pelo não. Ele sorriu. esquecem de perceber os sinais que o mundo lhes dá. .

fugi do roteiro de novo. . o mundo todo gritava e ele não ouvia. A mulher foi embora e os filhos foram atrás dela. Mesmo assim me parou na rua e implorou piedade.Ele queria que Deus fizesse por ele o que deveria fazer sozinho. . Eu sabia que todos os sinais o mandavam voltar a enxergar.Mas ele é evangélico e pedia a Deus todos os dias para voltar a enxergar . um a um.Então você não admite que foi um milagre? Qualquer pessoa 44 O Cristo da Periferia. Eu devia saber que ele responderia desta forma. Mandei que fechasse os olhos e acreditasse no óbvio. Acho que fui cruel com ele. mas aproveitei a informação que obtive na entrevista da tarde. As preces foram atendidas há muito tempo e ele não teve coragem de virar a página. pois tirei a sua maior arma de compaixão universal. que acreditasse que não era cego. Não sei como aquele homem conseguiu ficar cego por mais de quinze anos. Os médicos diziam que ele não tinha nada. Todas essas perdas eram sinais de que ele devia voltar a ver. . Como eu poderia não ter piedade se o Alcides praticamente exigia que todas as pessoas se apiedassem dele? Então resolvi mostrarlhe o caminho. depois de traçar o roteiro da entrevista técnica. de dar um passo à frente. O médico já havia dito isso. numa demonstração de que havia rompido com o mundo. mas me contive. que para todos era óbvio.Você fez aquele homem cego voltar a enxergar? . .eu queria fazer uma pergunta bem mais picante. Precisava ouvir do próprio filho de Deus para acreditar.. Todos os sinais diziam que ele devia ver.Ele voltou a enxergar sozinho. É um caso gritante de alguém que não presta atenção aos sinais do mundo.Nós todos não somos? Bem feito para mim. Voltei ao roteiro sem tentar responder ou continuar o assunto. . Acostumou-se a ser vítima e não fez nada para virar o jogo. Mas ele insistia em continuar cego. Disparei uma pergunta-surpresa e recebi outra.Eu me compadeci dele.indd 44 27/11/2007 09:36:10 .E o que você fez por ele? .E você é mesmo o filho de Deus? . .

Engoli a vontade de metralhá-lo com perguntas sobre esses sinais. Isso é um milagre que qualquer um faz todos os dias. Só assim saberão se o mundo quer que permaneçam doentes. Emanuel sorriu e disse: . Ele paga um preço muito alto para estarmos aqui.A vida é um milagre. que lutar. mas como um pai escolhe um filho para morrer e outro para viver? Se todos somos filhos do mundo e ele escolhe que vamos viver. temos que prestar muita atenção. Veja quantas vidas são sacrificadas para que você continue vivo. Temos que nos concentrar. raticida. baraticida. A entrevista estava encerrada. Temos que perceber todos os sinais. Parece simples. teria procurado um psicólogo e não teria ficado tanto tempo cego. não podemos querer dominálo. A diferença entre ele e as outras pessoas é que ele não tinha doença alguma. Você tranca numa jaula animais maiores que você e que fariam um belo banquete se estivessem soltos.Por que a técnica utilizada com o cego não funcionou com os outros doentes que lhe procuraram depois? . Basta olhar em volta e perceber que você tem que trabalhar. . Você usa agrotóxico.indd 45 27/11/2007 09:36:10 . inseticida. Era o marido da Dona Irene chegando e reclamando sua garagem. verduras e legumes. As outras pessoas têm realmente um problema físico. Isso não significa que não possam ser curadas. Minha cabeça estava articulando uma centena de outras perguntas quando ouvi o som de uma buzina.Este é um sinal. inexplicável. Para saber isso elas precisam se concentrar. Se fosse rico. Elas têm que se libertar da pena que sentem de si mesmas. Ele opera todos os dias o milagre de escolher quem vive e quem morre. prestar atenção aos sinais do mundo.pode fazer isso? Por que ninguém fez antes? . que sobreviver. Você come carne. somos realmente privilegiados. Mas as pessoas só entendem como milagre aquilo que acham extraordinário. temos que aprender a entender os sinais. Você tem que ir embora se quiser continuar tendo 45 O Cristo da Periferia.Eu não curei o cego. Paulo. Talvez assim consigam fazer o que entendem por milagre. Você caça e pesca. Ele já estava curado. Não sabem que o mundo faz o milagre da vida. frutas. Então se o mundo resolveu que vamos sobreviver. As perguntas do meu roteiro haviam acabado. Você faz milagres todos os dias.

Sorri e me despedi. 46 O Cristo da Periferia.indd 46 27/11/2007 09:36:10 . Dona Maria já havia se recolhido. Fui embora com mais perguntas do que respostas. Mas com uma nova perspectiva de vida.carro.

De repente começou o alvoroço. Agora estou digitando as anotações. pelo menos. A gente se acostuma a comer “Miojo” e nem percebe a falta que faz um arroz com feijão. cada qual falando sobre um assunto. Cheguei cedo à redação e comecei a digitar as entrevistas do dia anterior. sempre falando no meio daquela confusão de gente maluca. O chefe passou em disparada rumo à sala de reuniões. coisa que não havia acontecido anteriormente.Chefe. para ver no que dava: . A voz do chefe se fez ouvir lá de fora e os repórteres mais velhos já começaram a falar com ele. aí fica bom demais. O fato é que eu estava disposto a prestar atenção aos sinais naquela manhã. Mas. Fazia muito tempo que eu não comia um jantarzinho tão gostoso. No meio do corredor resolvi misturar minha voz àquela turba. Emanuel podia não ser o melhor exemplo de homem de sucesso. Fiquei até meia-noite lá. Coitada da Dona Maria. que ia se levantando e seguindo atrás dele. Atenção e concentração eram as minhas metas. nem eu mesmo me ouvi no meio daquela bagunça. pois ficava tão ansioso para receber a minha missão que não prestava atenção quando o chefe falava com os outros. Então percebi que o chefe diminuía o ritmo da conversa 47 O Cristo da Periferia. A reunião prosseguiu e eu consegui entender em que muitos repórteres estavam trabalhando. resolvera ouvir o sinal que o meu corpo estava dando no fim da noite anterior. eu entrevistei o cego e o Cristo.indd 47 27/11/2007 09:36:10 . eu havia ensaiado o que ia responder quando ele perguntasse. mas com certeza era alguém que estava de bem com o mundo. Eu estava cansado e precisava dormir. Claro que ele não me ouviu. E quando Nossa Senhora desce do céu para cozinhar. Era uma confusão de vozes que só louco entenderia. eu não devia brincar assim com ela. Depois de dois dias envolvido com a matéria do Cristo. Estava disposto a ouvir o que mundo tinha a me dizer. Eu estava disposto a não ser tomado de surpresa quando chegasse a minha vez de falar.

indd 48 27/11/2007 09:36:10 . Os outros se calavam e assumiam um olhar de ironia. a gargalhada vinha em coro. Nunca mais faria o papel de retardado. quero isso digitado e editado até o meiodia. Carla. você já consertou a guilhotina? Bernardo. Agora eu entendia o que ocorria comigo. O chefe deu tarefa para todos e me deixou por último. E eu percebi um sinal.Muito bem. cadê o meu café? Antonio. Paulo. e estes se esforçando para tomar nota de suas palavras. aprendi a ser ouvido pelo meu chefe. Ele foi distribuindo as matérias sem importância entre os novatos. 48 O Cristo da Periferia. um de cada vez. Saiu correndo e a redação toda atrás dele. já se levantando: . quero o relatório de vendas da última edição em cinco minutos na minha sala. Será que eu era o mais retardado a seus olhos? Finalmente olhou para mim. Quando um era pego distraído. Parecia uma tarefa monótona falar com uma pessoa de cada vez.quando começava a falar com os principiantes. como se o chefe lhes dissesse que ia falar com os retardados. O desgraçado ouviu o que falei no meio daquela confusão.

eu mantinha meus ouvidos abertos e ia mapeando mentalmente a posição de cada repórter e o progresso de suas reportagens. Eu merecia ficar uma manhã na redação. dizia meu faro jornalístico. pois eu queria me concentrar exclusivamente na matéria em que estava trabalhando. Por isso preferia digitar em casa as entrevistas e chegar à redação com elas prontas para apresentar ao chefe. Tendo prestado atenção à movimentação da redação. Não é dia para acontecer nada importante. Fechava os olhos ao sinal mais óbvio que o mundo pode dar: respeite os limites do seu corpo.Maldito! Em plena quinta-feira? Numa revista semanal a edição está quase fechada na quinta-feira. a três quilômetros do aeroporto.2 A redação esvaziou num instante. Antes isso me incomodava muito. O mais importante para mim foi aprender a me concentrar no que estava acontecendo e não ser pego de surpresa pelos acontecimentos.perguntei à secretária que passava apressada com uma xícara de café. A voz do chefe se ouvia por toda a redação. . Com isso perdia horas preciosas de sono e chegava cansado ao trabalho. Parece que fiz algum progresso aos olhos do chefe: duas reportagens num dia só. O 49 O Cristo da Periferia. Ficaram apenas os assistentes e um único repórter. eu sabia que os repórteres principais estavam envolvidos com as matérias mais importantes da edição. Isso era uma bomba.Caiu um avião de passageiros aqui em Curitiba.O que aconteceu? . digitando as entrevistas do dia anterior. Isso não poderia ficar fora da edição nunca. . De repente um alvoroço intempestivo.indd 49 27/11/2007 09:36:10 . Nunca ouvi falar que um avião de passageiros tivesse caído aqui. eu. finalizando a matéria. . Enquanto digitava. Os assistentes falavam muito alto e não era difícil perceber o que faziam. Na cabeça do redator-chefe já está pronta a capa e todas as matérias principais.

Ele caiu num mato. . ou contar com uma equipe extra.Preciso de um repórter.chefe teria que abortar uma matéria.Posso levar minha câmera e ir fazendo umas fotos até que o fotógrafo chegue. Também peguei um gravador. Uns trinta passageiros. . Imediatamente liguei meu celular em viva-voz com a redação. mas é pequeno. Ele falou tantas coisas profundas e eu tinha que taquigrafar.É um avião da FAB. Se estivesse gravando poderia ter feito mais perguntas em menos tempo. fabricação da Embraer.Preciso de um fotógrafo! Quem está mais perto do aeroporto? Os assistentes começaram a teclar desesperadamente os números dos telefones dos fotógrafos. O chefe me olhou surpreso. As asas estão quebradas e perdeu o bico. Quem está mais perto do aeroporto? . É de passageiros. gritei: . melhor. Paulo. se alguém terminar esta digitação. 50 O Cristo da Periferia.Posso chegar lá em vinte minutos. mas o habitáculo dos passageiros está inteiro. o que está esperando? Não esqueça a câmera! E vocês o que estão olhando? Voltem ao trabalho! Quero um fotógrafo lá o quanto antes.. . Devo ter levado uma dúzia de multas até chegar ao aeroporto.gritou com os assistentes para que contatassem os repórteres por telefone. continuou gritando.indd 50 27/11/2007 09:36:10 . A câmera e o caderno de anotações na mão. . não acreditando que eu estava ali e. Voei pela porta da redação no mesmo instante em que o chefe me falou para ir. meu carro nunca correu tanto. mas não conseguiu.Carla! Traga mais um café e termine de digitar as entrevistas do cego e do Cristo. que funcionou mais cedo.. bem perto de um campo. atento. Estou vendo muitos sobreviventes. O avião está quase inteiro. Usando a técnica de falar na confusão. Algumas poltronas se soltaram do assoalho. Um repórter não pode fazer tudo sozinho. que me fez muita falta na entrevista com o Cristo da Vila Nazaré. . você tem dezenove minutos. Não respondeu. Duas pessoas estão mortas. Parece que o piloto tentou chegar ao campo. Tem muitas ambulâncias aqui. Cheguei lá em quinze minutos.

Meus ouvidos estavam ligados na voz do chefe. eu com um sorriso indisfarçável no rosto. com a certeza de que fui ouvido. no meio da confusão de vozes. Corra para a redação e prepare um texto para publicar. Ilza. Agora só precisava escrever o que vi. Entregue o gravador e a câmera para edição. como está o texto? Quero editar a matéria ainda hoje. O Paulo fez tudo sozinho. pois eu não queria perder nenhum detalhe do que estava acontecendo. .Veja esta foto! E esta! Tenho que publicar! Ninguém mais conseguiu pegar esses detalhes! Carla. . mas acho que não vamos precisar de mais nada. Então chegou o fotógrafo e ouvi a voz do chefe ao telefone: . já tenho um fotógrafo aí. Quando os outros começaram a chegar. Dediquei-me ao máximo. Escreva tudo o que viu.indd 51 27/11/2007 09:36:10 . como se fizesse uma reportagem dessas todos os dias. diga para o fotógrafo trazer o que tiver feito. colocando as fotos “online”. como está a digitação dos depoimentos? Paulo.Em meia hora estará pronto. Fiz uma fotografia desse momento.gritamos eu e a Carla ao mesmo tempo. Na redação entreguei o gravador para a secretária do chefe e conectei a câmera digital ao computador. Comecei imediatamente a escrever um texto. o chefe me orientando sobre detalhes a atentar. Não sei por que eu pago uma fortuna a esses incompetentes. chefe! .Paulo. prestei atenção em cada detalhe. Entrevistei e fotografei o comandante dos bombeiros e o responsável da Infraero. O celular ligado direto e a redação fazendo perguntas a todo instante. Enquanto estava no local do acidente eu me concentrei ao máximo.Fui passando todas as informações que podia. Fui um dos primeiros repórteres a chegar ao local. já não havia mortos no local e os feridos eram apenas os menos graves. À medida que ia falando clicava o botão da câmera para captar o máximo possível de imagens. Eu já havia entrevistado uns dez sobreviventes. 51 O Cristo da Periferia. Vai para a capa. Observei quando os peritos da aeronáutica tiraram a “caixa preta” dos destroços.

Fiz isso com todo o empenho e. tenha recebido um sinal e pudesse evitar o ocorrido. fui logo disparando meu planejamento. Também tem um passageiro que perdeu o vôo. à clareza do texto e à nitidez das fotos. Era o relato mais impressionante da tragédia. mas isso não estava ao meu alcance. A esta altura eles já devem ter ouvido a gravação dos últimos momentos do piloto. Preparado para isso. A reportagem de capa. Esse é um sinal que não me foi dado. Mas o sinal para mim só veio no momento de cobrir o acidente. Talvez o piloto. apenas relatei o que vi. me deu o status de repórter de primeira linha. enquanto todos começavam a falar ao mesmo tempo. .o sofrimento e a morte daquelas pessoas me servindo de trampolim profissional. por isso. Se pudesse evitaria o acidente. estava pronto para colher os frutos do meu trabalho.indd 52 27/11/2007 09:36:10 . Não gostei muito disso. . Eu não fiz mal a ninguém. Sou um repórter e fui utilizado como tal. Muitos telejornais pediram permissão à revista para publicar as minhas fotos.pensei . com fotos e textos. Posso ir à aeronáutica e ver como vai a investigação da causa do acidente. Talvez algum passageiro tenha perdido o vôo na última hora. No domingo almocei com meus pais e levei de presente uma revista com a minha matéria na capa. Minha missão era estar na redação no instante em que o chefe precisou de mim. Posso entrevistálo. 52 O Cristo da Periferia.Chefe. mas tenho certeza que mesmo os sobreviventes e os parentes das vítimas vão guardar a revista como documento histórico.13 A semana seguinte começou diferente para mim. ou alguém da torre de controle de vôo. Senti que havia conquistado admiração de uns e inveja de outros. Eles não pouparam elogios ao meu trabalho. Não podemos baixar o nível! Era o chefe gritando desde a entrada. podemos explorar um pouco mais a queda do avião. Que ironia .Batemos o recorde de vendas. O pessoal me olhava diferente quando cheguei à redação. antes de receber uma missão que não me agradasse.

qualquer um também poderia. já posso usar o meu computador? Saiu em disparada. Os novatos me olhavam com ar de respeito e gratidão. pois a reportagem sobre ele sairia de um “canto de página” e receberia um lugar melhor. A auto-estima dos repórteres de primeira linha estava abalada porque eles perderam a capa da última edição para um novato.Nem bem sentou na sala de reuniões o chefe me olhou e disse: . Carla. faça isso. e nem tampouco perguntar se ele pretendia fundar uma nova igreja. A troca de capa no último momento causou uma sobra de matérias na semana anterior. Paulo. O espaço dos veteranos havia sido invadido por um “foca” e eles não gostaram nada disso. Mantenha-me informado. O chefe diminuiu o ritmo da conversa e passou a falar com os novatos. A reportagem sobre o Cristo da periferia não foi publicada. quero que você encorpe um pouco mais a matéria sobre o Cristo da Vila Nazaré. Se eu pude fazer aquilo. No fundo de meu ser eu sentia vontade de contar a ele como os seus 53 O Cristo da Periferia. mas a possibilidade de voltar a falar com ele me empolgou. O interessante é que eu não estava preocupado em ir até a Vila Nazaré para fazer as perguntas que ficaram no ar quando encerrei repentinamente a entrevista. Fiquei tão empolgado com a minha primeira reportagem de capa que nem percebi a falta da matéria que me tomou metade da semana anterior. Descubra se ele quer fundar uma nova igreja.Paulo. com toda a comitiva atrás. Ligue para o nosso correspondente em Belém e peça para ele tirar algumas fotos do lugar onde o “Jesus” nasceu. Não sei até que ponto isso interessava a ele. O chefe passou as matérias “chinfrins” e já estava levantando quando me olhou e disse: . Estavam mais atentos. Continuou falando com todos. Eu tinha material para uma meiapágina. quem sabe até para uma página-inteira. O ar de ironia e a disposição para rir de qualquer bobagem já não eram tão visíveis. Se precisar.indd 53 27/11/2007 09:36:11 . não era tão importante pegar o endereço da casa em que nasceu em Belém.Ótimo. cadê o meu café? Alfredo. O meu sucesso estava sendo vantajoso também para o Emanuel. Ficou muito boa e não vamos queimá-la num canto de página. cada um sobre o seu assunto. faça mais entrevistas e mande tirar mais fotos.

como a concentração e a atenção revolucionaram a minha vida em menos de um dia.conselhos haviam funcionado comigo. 54 O Cristo da Periferia.indd 54 27/11/2007 09:36:11 . como foi importante para mim ouvir os sinais do mundo e agir de acordo com eles.

Eu o vi na praça.Então eu vou até a praça. quando eu vinha voltando do mercado. e quando eu voltar a gente faz a fotografia. ver se o encontro por lá. porque era a primeira vez que isso ocorria.Obrigado. Vou até lá falar com o Emanuel. Seu Paulo. Não quero sair de qualquer jeito na revista. Ela folheou ansiosa. Assim eu tomo um banho e ajeito o cabelo.Meus parabéns. quando muito. Depois deu um sorriso como quem pensou que se eu fui capaz de conquistar minha primeira capa com a queda do avião.Tudo bem. Saí rindo da minha própria desfaçatez. sem pressa. procurando a reportagem com a sua foto. pois não havia razão para publicar mais que uma foto dela. Preciso de mais uma fotografia sua.14 Estacionei o carro na garagem da casa de Dona Irene. Acho que ela se sentiu diminuída. . Agradeço à senhora por permitir que eu use a sua garagem mais uma vez. . a segunda podia ser com o Emanuel (e ela ao lado dele). Se o chefe 55 O Cristo da Periferia. Um tanto contrariada.Melhor pra mim.Então o senhor espere que eu vou me arrumar.indd 55 27/11/2007 09:36:11 . Está bem assim? .Ele não está lá. Na verdade. ela me ouviu dizer que a fotografia da capa e a cobertura do acidente foram feitas por mim e que eu estava muito contente. . Estou muito feliz pelo reconhecimento do meu trabalho. . A senhora se arrume à vontade. Quando a senhora estiver pronta. mas também porque a revista mandou um repórter inexperiente para atender ao seu chamado. pode ser? . pode me chamar ali na casa da Dona Maria. É bom saber que a gente está sendo entrevistada por um repórter importante dentro da revista. Dona Irene. Expliquei que a queda do avião havia feito com que a matéria ficasse para a próxima semana. Entreguei a ela um exemplar da revista com a minha reportagem na capa. o pedido de uma nova fotografia foi só massagem no ego da Dona Irene. não só porque a matéria do seu interesse foi adiada. .

livrando-me do braço que me imobilizava. Você não tem vergonha de sair de casa com tão pouca grana? E essa chave de carro? Cadê o teu carro? Fala senão eu te meto uma azeitona na testa! Tem cartão de banco na carteira dele? Veja aí! Tem? Vamos dar uma voltinha de carro com o magnata aqui. de frente para a rua. otário. virou-se e ergueu a camisa para que eu visse que estava armado. como se buscasse ajuda ou uma fuga. sem que eu conseguisse perceber o que exatamente havia mudado.Tira o relógio. Mesmo assim ela pediu um tempo para se preparar. que também levantaram as camisas para mostrar que estavam armados. Eu que 56 O Cristo da Periferia. não havia mais o que arrumar. Ficava a poucos metros da casa de Dona Irene. de uns dezessete anos de idade.Ainda não é hora dele morrer. Acho que eu não tinha uma gota de sangue na cabeça quando Emanuel puxou minha mão. somente seria mencionada no texto.indd 56 27/11/2007 09:36:11 . O magnata tá precisando. De repente um rapaz.não tivesse aumentado o espaço dificilmente apareceria. enquanto os três me cercavam. né? Cala boca. Eu caminhava em direção à pracinha onde conheci Emanuel. passou correndo por mim e. Olhei para trás. Devolve as coisas dele! A voz conhecida que falava com tanta autoridade era de Emanuel. e vi dois outros meninos da mesma idade. que se aproximava tranqüilamente de nós. Não tem correntinha? O que é isso aí na sua mão? Máquina de foto e gravador? Boa. Tiago. . meio de lado. otário. parou de correr. Fiquei parado. passa pra cá. . é? . apertando o meu pescoço. Um dos meninos ainda me segurava por trás. em seguida. como se assistisse uma partida de futebol. Me dá a carteira e esvazia os bolsos falou aquele que havia passado à minha frente. ocorreu o mesmo e eu fiquei quase uma hora esperando para ela vir “arrumada” posar para a foto. Tiago tirou a arma da minha cabeça e guardou-a na cintura. Também ri porque a mulher estava completamente enfeitada e maquiada.Passa a grana aí. Da primeira vez que a fotografei. assustado. Vamos passar num caixa automático pra pegar um dinheirinho. como se assalto fosse a coisa mais normal do mundo. Fala logo onde parou a caranga! Fala. desgraçado! Quer morrer. senão te apago. enquanto o tal Tiago encostava a ponta do cano do revólver na minha testa.

molhando o ombro do meu salvador. Não me faria pobre o suficiente para roubar alguém. . Paulo.Pô Jesus. Que mundos diferentes ocupamos! Que realidades tão conflitantes nos afastam tanto assim? . Como eles conseguiram me dominar com tanta facilidade? Por que me assustaram tanto? Tudo o que eu tinha comigo naquele momento não faria deles ricos o suficiente para parar de roubar.Claro que não. Eu só cumpro o meu papel. o cara é magnata. deixando apenas as lágrimas correrem pelo rosto. Os meninos devolveram os meus pertences.Não os condene. Como se fosse normal ouvir os pensamentos alheios. não julgo ninguém. quase desmaiado.Este magnata trouxe comida para a minha mãe sem ninguém pedir nada. Eu não conseguia pronunciar uma única palavra.indd 57 27/11/2007 09:36:11 .estava completamente pálido. Mesmo assim ele conversava comigo como se estivéssemos dialogando. 57 O Cristo da Periferia. eu com pensamentos e ele com palavras. É a realidade deles. Paulo.Não me julgue. com aquele sorriso estampado. crianças armadas. as pernas tremendo. Quem pode ser condenado por viver sua própria realidade? Como ele fazia isso? Emanuel falava comigo como se lesse meus pensamentos. Messias. como se não tivesse problemas. Que domínio era aquele que demonstrou sobre os marginais? Será que era líder de uma quadrilha? . abracei o Emanuel e contive um choro convulsivo. Você acha justo tomar alguma coisa dele? . . Aí magnata! Foi mal. Olhando para eles mais calmo me pareceram crianças. Eu não sabia que era esse o cara.

15
Sentamos numa rampa gramada, que servia de arquibancada em volta do campo de areia, que estava no centro da pracinha. Tiago e seus amigos brincavam com uma garrafa de plástico, como se fosse uma bola de futebol. Corriam e driblavam feito crianças. De repente um deles chutou a garrafa para o centro da quadra, sacou o revólver e começou a atirar nela. Os outros dois também sacaram suas armas e ficaram atirando na garrafa de plástico, até que estivesse completamente destruída. A cada tiro eu me retraía, encolhendo os ombros e fechando um pouco os olhos. Emanuel ria muito, tanto das brincadeiras sem graça de seus amigos quanto da minha cara de assustado. - Você também anda armado? - consegui fazer uma pergunta falada, e não apenas pensada, pela primeira vez desde que nos reencontramos. - Sou um carpinteiro. Não preciso de arma para fazer o meu trabalho. - Você está dizendo que o trabalho deles é roubar? - De certa forma, sim. - Como assim? Como pode comparar criminosos com trabalhadores? Com pessoas honestas que trabalham para se sustentar? - Lembra do que eu falei sobre as vidas que são sacrificadas para você sobreviver? O mundo quer que esses criminosos, como você os chamou, sobrevivam também. - Eu não estou falando de matar animais e plantas. Estou falando de gente. Eles queriam me matar! - E quem disse que o mundo sacrifica apenas vidas irracionais? Quantas pessoas morrem todos os dias? Quantos você viu sofrer e morrer na semana passada? Esses meninos querem sobreviver. No mundo deles só existe uma forma de ter as coisas: tomando de alguém. A sua vida não é importante diante dos desejos deles. - Mas como pessoas com esse pensamento convivem numa sociedade como a nossa? Que sociedade marginal é essa em que você 58

O Cristo da Periferia.indd 58

27/11/2007 09:36:11

vive? - A sua sociedade também não se importa com a vida dessas pessoas. Aqui somos condicionados a sofrer em silêncio. Se você tem um emprego, deve se contentar com o que ganha e trabalhar em silêncio. Se não tem, deve passar fome em silêncio, deve morrer em silêncio. Estes meninos representam a revolta dos cordeiros. Não sofrem calados. Eles reagem, tomam tudo o que precisam. São a prova viva de que o modelo social dito civilizado não é justo. Eles insistem em sobreviver. - Mas você foi criado no mesmo modelo social que eles e não faz as mesmas coisas para sobreviver. - Ninguém é igual a ninguém. O mundo me deu uma outra forma de sobreviver. Deu-me uma habilidade que eles não têm. E deu a eles habilidades que eu não tenho. Cada um sobrevive com as habilidades que tem, inclusive você. - Você disse que o outro repórter que veio aqui foi assaltado porque não viu os sinais e foi contra o mundo. Depois da nossa entrevista eu tenho prestado atenção aos sinais do mundo. Qual foi o sinal que eu desrespeitei hoje para ser assaltado? - Nenhum. Aquele assalto foi um sinal para você. Nada de ruim podia acontecer, mas você precisava de um sinal para prestar atenção nesses meninos. Você estava tão preocupado com o meu modo de vida, que esqueceu de notar que ao meu redor tem gente muito mais interessante que eu. - E o que há de interessante num bando de assaltantes? - Você não está se concentrando nos sinais. Se fizer isso, irá contra o mundo e vai quebrar a cara. O mundo quer que você olhe para eles. Se virar as costas perderá seu tempo e sua energia. E eu posso não estar por perto da próxima vez que o mundo mandar esse mesmo sinal para você. Entendi o que ele queria dizer. Não gostei, mas entendi. Só não entendia como ele enxergava isso com tanta clareza se não admitia santidade.

59

O Cristo da Periferia.indd 59

27/11/2007 09:36:11

6
- Posso tirar umas fotos de vocês? - Pra que foto nossa, magnata? Quer mostrar pros home, é? - Não. É que eu estou fazendo uma reportagem sobre o Emanuel e queria colocar os amigos dele. Vocês são amigos dele, não são? - O Salvador é gente nossa. Ninguém mexe com ele aqui na vila. Se mexer nós apaga. - Vocês acreditam que ele é santo? - Você andou falando com o cego malucão? Aquele doido fala pra todo mundo que ele é Jesus. Pra nós ele é gente fina. É o nosso Jesus porque a gente só se dá bem quando vai por ele. O homem é piradaço. Ele não cheira nada e tem umas alucinações esquisitonas. Ele arranca as palavras da cabeça sem a gente falar nada. - Ele faz isso comigo também. Posso tirar a foto? - Espera a gente cobrir a cara, magnata. Não quero que venha tiragem aqui na vila me buscar por causa dessa foto. Só tô te dando mole porque tu é chegado do Messias, senão essa máquina já tinha virado pó. Não sei o porquê, mas já não tinha medo das ameaças de Tiago. Eu sabia que estava fazendo o que devia ser feito. O gravador estava ligado e ele estava me dando uma entrevista sem perceber. Os outros não falavam, só riam e faziam o que Tiago mandava. - Por que vocês andam com o Emanuel se ele não é como vocês? - Ele é igualzinho a nós, só que tem o trampo dele, que é diferente do nosso, tá ligado? Todo mundo aqui na vila olha a gente de olho torto, só porque roubamos. O Jesus não, ele nunca olhou torto pra nós. Ele entende a gente. Ele fala as coisas que a gente entende. Ele entende as coisas que a gente fala. Nunca ninguém disse que a gente tem mais é que roubar mesmo. Só ele disse isso. - Vocês nunca tentaram aprender uma profissão, arranjar um emprego? 60

O Cristo da Periferia.indd 60

27/11/2007 09:36:11

onde ser preso é só mais um risco do negócio. Meus camaradas aqui vão poder cheirar tudo que quiserem na faixa. Essa sociedade marginal marcha paralelamente à sociedade constituída.Muito bem. Eles não tinham o menor respeito por valores humanos como vida e patrimônio. mas suas regras não são escritas.respondi ao Emanuel. mas quase acostumado a isso e não querendo interromper a linha de raciocínio. no meio da bufunfa. mandando vir o pó e controlando os pontos de venda. ela segue leis milenares e fatais: a lei do mais forte e a lei do silêncio. 6 O Cristo da Periferia. Os sinais vão guiá-lo.Nós já temos uma profissão.Acho que interpretei. Só não sei como o mundo pensa que vou conseguir fazer isso . Esse conflito de sociedades tinha que ser denunciado e achei que era isso que o mundo queria de mim. como se tivessem algum golpe urgente para praticar. Daí. Aquelas que existem estão superlotadas e são vigiadas pelos mesmos policiais despreparados e mal remunerados. um novo conceito de mundo. Não há um líder. Um dia ainda vou arranjar um emprego numa firma dessas de carro forte. . percebendo que ele havia lido meus pensamentos de novo. Policiais despreparados e mal remunerados estão permitindo que se crie uma nova sociedade na periferia. Paulo. somos ladrões. . Até um trabalho honesto soava como golpe. Vejo que você interpretou corretamente o sinal que recebeu hoje. tá ligado? Um dos outros dois marginais cochichou algo no ouvido de Tiago e os três saíram correndo. Não há cadeias para prender tanta gente..indd 61 27/11/2007 09:36:11 .Não se preocupe. encho um carro daqueles e compro uma boca de fumo só pra mim. . Lembrei do relato da Dona Irene sobre como a polícia lida com esses marginais. Daí eu fico só no poder. quando estiver lá dentro. É só estar atento e concentrado. eu detono a cabeça de todo mundo. A cabeça deles era mesmo doentia. sim.

. .disse eu. afinal? .Você diz que não é Cristo. a sua revista.Eu não entendo .Sabe sim. tudo fica gravado na sua história. Nada acontece sem que o mundo saiba ou permita ou determine. .Mas isso são meios de comunicação de massa. Quem é você.indd 62 27/11/2007 09:36:11 . o rádio. voltando a usar minha voz para nossa comunicação. O mundo mandou sinais de que eu deveria ser um elemento de ligação entre as duas sociedades. Você também recebeu esses sinais. Estou dizendo que o mundo manda e recebe sinais de tudo que acontece.Exatamente.Sou um fruto do mundo.17 . mas sem essa frescura de julgamento.É mais ou menos assim.Entendo. Eu não desenvolvi isso.Então você admite que é o Messias? Sabe tudo o que se passa e vai julgar a todos? . de tudo que se pensa. .Então o Alcides está enganado sobre isso? . enquanto caminhávamos pelas ruas estreitas. Não sei coisas que aconteceram onde eu não estava. Fui criado nesta ambigüidade entre a sua sociedade e a daqueles meninos. o que faz.. os jornais. As pessoas contam histórias.Na verdade. Diz que não tem poderes sobrenaturais. É como o livro do juízo final que tem naquele filme do. Então você é tão sobrenatural quanto eu.Ele é um fanático religioso e você tem que perdoar os excessos que 62 O Cristo da Periferia. .. só nasci assim. . O que você pensa. Você recebe notícias o tempo todo. a televisão.. . mas se comporta como tal. Está querendo dizer que o mundo tem uma grande central de notícias que conta tudo o que penso e o que faço? . não. . mas lê o pensamento das pessoas. O Alcides não lhe disse que o Messias está à espreita? .Mas eu não leio os pensamentos.

sinalizando aspas. .E como será.É isso mesmo.O universo é Deus.Não dessa forma que você imagina. . Então o julgamento. O mundo é Deus. Aproveita a fé do Alcides para cativar mais fiéis e aumentar o “rebanho” . .Eu não entendi. E Jesus estará entre nós. não há nenhum conflito nisso.comete por isso.Deus é tudo. Não do jeito que você viu no filme. É o universo e o grão de areia. Por isso não o levam a sério. além de cego.Deus não virá em carruagem conduzida por estrada de fogo dos céus.Você está fundando uma nova religião? 63 O Cristo da Periferia. É o grande e o pequeno. . onipotente e onipresente.Você fala do mundo com um conceito de ser vivo.indd 63 27/11/2007 09:36:12 . Esse não é o conceito que as religiões têm de Deus? . de que os justos viveriam para sempre no paraíso ao lado do Pai. .Então você está dizendo que não vai haver juízo final? .Afinal. Até o pastor da sua igreja o trata com a benevolência reservada aos dementes. As pessoas acham que. ele ficou louco. pois os outros não se atreverão a julgar senão os próprios atos. então? . é o mundo ou o universo? Quem é Deus? . Viverão para sempre na memória daqueles que os amaram. o concreto e o abstrato. . A cegueira desenvolveu nele a capacidade de sentir os sinais do mundo. . o juízo será feito por cada um em relação a si mesmo.Mas isso não conflita com o conceito de um Deus universal? .disse fazendo um gesto com os dedos indicadores e médios das duas mãos.Como uma folha vai compreender a árvore? Você não deve tentar compreender Deus. mas a sua cabeça não é capaz de decifrá-los. Basta saber que você é parte Dele. .Mas todos se surpreenderiam se soubessem as verdades que ele fala. que está ligado intimamente a Ele. E os mortos reviverão na aliança que Deus fez com os homens. Mas ele consegue perceber muitos sinais. . A redenção virá quando os homens entenderem que Deus está dentro deles e a necessidade de encontrá-lo for tamanha que cada pessoa o perceba.

Nossa vida é tão curta que não aprendemos a ouvi-lo. porque aquilo que ele estava falando era muito profundo e eu não conseguiria lembrar se não anotasse. Vamos lá pra casa que a mamãe preparou uns “bolinhos de chuva” deliciosos para nós dois. Diga ao seu chefe que eu não estou inventando nada .Claro que não. mas isso seria ridículo. 64 O Cristo da Periferia.Eu repito tudo depois para você anotar. Pensei em sacar meu caderno de anotações e taquigrafar tudo o que havia dito. Nesse momento percebi que a fita do meu gravador havia acabado. absolutamente inadequada. .. O mundo sempre existiu.respondeu demonstrando que sabia que aquela pergunta. Ele deu um daqueles sorrisos de compreensão e falou: .indd 64 27/11/2007 09:36:12 . porque não avisei que estava gravando a conversa. Bateu-me um desespero. me havia sido encomendada.Só estou falando de coisas que sempre existiram.

que ficou pronto neste instante. . uma saudade do meu tempo de criança. quando eu fazia essas disputas com meus irmãos. tão responsáveis.É que seus bolinhos são tão gostosos. envaidecida. disputando com Emanuel. pronto pra comer. Eu estava com vontade de comer bolinho de chuva naquele dia e fiz um pouquinho de massa pra fritar. Eu só faço estes bolinhos nos dias em que ele não tem obra pra trabalhar. Dona Maria ao lado satisfeita pelo prato vazio em questão de minutos. Uma vez eu resolvi fazer num dia em que ele estava trabalhando longe. Elogiei e Dona Maria. até que o prato estivesse vazio. . Agora eu reencontrava a alegria de ser criança ali. tão distantes. No final estávamos os dois de boca cheia e dando risadas. Ele disse que sentiu o cheiro. Disse para eu não perder tempo com modos e comer rápido. que já estava nos esperando com os bolinhos quentinhos. mas parecia que estavam na minha vida desde que nasci. pois ela já havia comido enquanto fritava. numa casa simples da periferia. Parecia uma criança feliz. Entrei no clima e fui comendo. Senti uma paz tão grande. mãe. como se fôssemos dois irmãos.18 Chegamos à casa da Dona Maria. .Emanuel sorriu para a mãe e piscou para mim. sentado ali à mesa. mas como é que alguém vai sentir um cheiro aqui lá do outro bairro? Emanuel ria muito das histórias da mãe. O tempo passou e nos tornamos adultos. senão o filho me tapeava e comia tudo sozinho.É verdade. com uma mãe e um irmão que conheci uma semana antes. enquanto comia os bolinhos. Acho que meu filho sente o cheiro de bolinho de chuva. É só eu fazer que ele aparece na hora. Seu Paulo. 65 O Cristo da Periferia. mandou que comêssemos tudo.indd 65 27/11/2007 09:36:12 . Seu Paulo. Quando eu vi o Emanuel já estava aqui dentro de casa. Provei um deles e era mesmo uma delícia. que eu largo tudo que estiver fazendo pra vir comê-los . um a um. certo de que eu sabia como ele sentia o cheiro dos bolinhos de tão longe.Pode sentar.

indd 66 27/11/2007 09:36:12 . Aquelas fotos eu sabia que não iria publicar. em várias poses. Depois tirou uma minha com a Dona Maria e outra minha com a Dona Irene. Então Emanuel tomou a câmera da minha mão e quis tirar uma foto minha com a mãe e a vizinha. pois eu não trocaria aqueles momentos por nada neste mundo. Ainda bem que Tiago não roubara a câmera. 66 O Cristo da Periferia. Aproveitei para fazer uma sessão de fotos dos três. mas as guardaria com carinho em meus arquivos pessoais.Dona Irene. Então entregou a câmera para a Dona Irene e pediu uma dele comigo e também outra dele comigo e a mãe. chegou pronta para a fotografia. A boa vizinha nem podia imaginar todas as coisas que aconteceram enquanto se arrumava.

 A matéria sobre o Cristo da periferia ficou tão boa que ocupou quatro páginas da revista.indd 67 27/11/2007 09:36:12 . minhas reportagens eram dignas de destaque. Ademais. Também ganhei destaque com as matérias complementares sobre o acidente com o avião. casas sem energia elétrica. sendo tão temperamental. água e esgoto. Pessoas com a pele muito queimada pelo sol e castigadas pelo rigor da fome e dos poucos recursos. o chefe podia me colocar em desgraça a qualquer tempo. fazia minhas fotos e. As reuniões com o chefe já não eram tão divertidas para os antigos. Nosso correspondente em Belém mandou fotografias ótimas do lugar onde Emanuel nasceu. antes que outra revista botasse os olhos no meu trabalho e me fizesse proposta melhor. apesar de todos os seus problemas. A admiração dos novatos também. Quando o chefe me escalava para um trabalho o cochicho no lado dos “tubarões” era visível. Eles eram mais cobrados. Nada de patas que criavam cachorros ou coisa parecida. Agora eu já estava sendo escalado para matérias mais importantes. pois ainda ganhava pouco e trabalhava sozinho. Pior para mim era quando o chefe me usava como exemplo para eles. ainda assim. a fome rondando ao gosto da colheita. ganhava muito menos que eles. Eu sabia que os seus elogios ao meu trabalho eram só uma conveniência para “baixar a bola” dos figurões. Eu fazia questão de me comportar como um novato. Um mundo bem diferente da Vila Nazaré. Eu nem podia deixar que subisse. Eu trabalhava sozinho. sem deixar que o sucesso me subisse à cabeça. os repórteres 67 O Cristo da Periferia. com meu próprio carro. Em contrapartida o sorriso do lado dos novatos era notório. Olhando aquelas imagens. Além disso. dava para entender porque os pais dele preferiram vir tentar a sorte no sul a permanecer por lá. Incrível a pobreza que acompanhou o Cristo desde o nascimento. Sobre este detalhe do salário eu esperava que ele fizesse justiça logo. O ódio dos repórteres de primeira linha por mim aumentou.

sete anos depois. o seu Cristo está em todos os noticiários e nós fomos os primeiros a divulgá-lo. Está na hora de repetir a dose. Também vieram cartas de fanáticos. que juravam fidelidade ao novo Messias. depois de pronto. Um mês depois da primeira reportagem o chefe falou. prometendo ser seus discípulos quando ele fosse iniciar o martírio. Apesar de mencionar que Emanuel negava qualquer santidade. 68 O Cristo da Periferia. mereceu quatro páginas. Nem preciso dizer o furor que o anúncio de minha próxima capa causou na redação. Não havia um único dia em que não se visse a imagem ou se ouvisse o nome de Emanuel. Mandei um “motoboy” fazer uma entrega especial de um exemplar da revista na casa da Dona Maria e outro na casa da Dona Irene. Todos comentavam como um assunto de canto de página havia me dado tanta sorte. Entreviste os líderes religiosos que estão falando sobre ele. revistas. Duas semanas depois ele aparecia numa reportagem de televisão. que revelavam que ele estava longe do que se podia entender por uma pessoa comum.Paulo. Minha reportagem abriu os olhos da sociedade para Emanuel. Quero que consiga uma entrevista exclusiva e fotos inéditas. Em pouco tempo a polêmica sobre a sua santidade era assunto nacional. Jornais. o Cristo da periferia. mas a maioria das cartas comentava sobre a polêmica lançada. Chegaram cartas de elogio à qualidade da pesquisa e da reportagem. a reportagem deixou no ar algumas evidências. Antes da publicação já havia conquistado espaço maior e. outras. Será a capa da próxima edição se não tivermos um fato-surpresa até quinta-feira. muitas cartas chegaram à redação comentando a matéria sobre o Cristo da periferia. Na semana seguinte duas revistas concorrentes publicaram matérias sobre Emanuel. como líder religioso que atentava contra Deus e tudo que está escrito na bíblia.indd 68 27/11/2007 09:36:12 . como o depoimento do cego e o poder de adivinhar pensamentos. Durante a semana seguinte. Não havia meio de comunicação de massa que não entrasse na discussão. no meio do turbilhão de vozes da redação: . Algumas cartas o qualificavam como um líder criminoso e.antigos que se achavam o máximo. rádio e televisão debatiam o assunto.

indd 69 27/11/2007 09:36:12 . que seria capaz de abordar o assunto sob um aspecto mais amplo? Todos acreditavam que era porque o chefe era supersticioso e queria repetir a receita de sorte. mas eu sabia que isso era mais um sinal: o mundo queria que eu voltasse a ver Emanuel.Agora ia para a capa e o chefe escalou o mesmo novato para continuar a matéria. 6 O Cristo da Periferia. O chefe havia aprendido a não ir contra os sinais. com ou sem superstição. Por que não escolhia um repórter mais experiente.

Desde a entrada da rua já dava para ver uma pequena multidão que se aglomerava diante da cerca da casa de Dona Maria. eu pensava como quase pedi demissão por causa de nossa primeira conversa. Não que eles peçam. porque sei que vai ter fotografia ou filmagem. 70 O Cristo da Periferia.Todo dia vem repórter aqui.E quem é que vai contratar Jesus Cristo? Depois que ele saiu na revista não é mais contratado para obra nenhuma. Eles vêm aqui em busca de uma bênção especial do Emanuel. então. Enquanto ela falava.Mas com tanta gente. o que faz ali? . da repercussão que a minha reportagem havia causado na vida da Vila Nazaré e. Veja quantas muletas e cadeiras de rodas estão jogadas no quintal da Maria. Dona Irene me contou. Todo mundo que vem falar com ele traz uma coisinha para comer.Ele diz que as pessoas não estão doentes. Não são todos os doentes que saem curados. . Nem encomenda tem mais na carpintaria. E outros vêm somente pedir conselhos.E essa gente toda. como se ele fosse um padre.indd 70 27/11/2007 09:36:12 . Para alguns ele diz que estão doentes mesmo e que devem se conformar com seus defeitos. . . . cuja fotografia estava na revista.A maioria é lá da igreja do Alcides cego.20 Parei o carro em frente à casa de Dona Irene e ela veio correndo abrir o portão para mim. Precaução para serem lembrados no juízo final. também. Vêm também alguns doentes em busca de cura. Eu não pensei que um telefonema meu pudesse provocar tanto barulho. De manhã eu já me arrumo. na vida dela. Insiste em dizer que não faz milagre algum. mas acho que querem mesmo é mostrar que estão orando muito. mas acho que as pessoas ficam orgulhosas do Cristo comer o que foi doado por elas. quando é que ele trabalha como carpinteiro? .Então ele voltou a fazer milagres? . Mas a Maria está com a despensa cheia. Seu Paulo.

como quem abraça um irmão que não vê há muito tempo.Não! Que que é isso. Estava à sua espera desde que recebi o sinal .A senhora está arrependida de ter começado isso tudo? . Da rua dava para ver a parede da casa. Seu Paulo? Eu estou contente por ter chamado o senhor aqui. . ouvindo pacientemente o que lhe falava uma mulher de idade. mas estou feliz em vê-lo novamente.disse ele. Quantas mudanças estou vendo. Entrei no quintal da casa de Dona Maria e a primeira coisa que notei foi a falta das roupas no varal. Evitei pensar que eles tivessem me usado para conquistar uma vida melhor. Entrei na casa e vi Emanuel sentado.Também recebi o sinal de que deveria voltar aqui. cumprimentando-me com um abraço. 71 O Cristo da Periferia. que beijou suas mãos e se retirou com um olhar agradecido. Emanuel teria usado sua imensa inteligência para ganhar dinheiro de verdade e não simples doações de comida. Agora venha comigo. .Que bom que você não demorou.. Não sei por que tive que voltar. pois eu conhecia aquelas pessoas e sabia que não davam valor a coisas materiais. . Tenho muitas perguntas. Ele segurava suas mãos e falava com ela com aquele sorriso de quem não tem problemas. mas Nossa Senhora também. Pelo jeito não era só Jesus que não era chamado para trabalhar.Pode fazer suas perguntas no caminho. coisa que era impossível das outras vezes em que estive ali. Percebeu minha presença e sussurrou algo aos ouvidos da mulher. Do contrário. Eu acho que o mundo precisava saber que o Emanuel existe.indd 71 27/11/2007 09:36:12 . Os ensinamentos dele são muito bonitos pra ficar só aqui na vila.

tirando os sapatos e pondo os pés na água. Olhei para trás e vi a Dona Maria fazendo um gesto para que fossem embora.pois não pratico exercícios desde que estourei o joelho . As pessoas que esperavam ficaram olhando como se estivessem acostumadas a ver o Cristo sair correndo feito um louco. A mata era densa perto do arame e mais rala no interior. no qual só passava uma pessoa de cada vez. com um repórter atrás dele. Agora ele já não corria. Ao lado da vila havia um matagal cercado com arame farpado. 72 O Cristo da Periferia. com os bofes de fora. Quando se distanciava muito. também passou com habilidade. embora as copas das árvores escondessem o sol. onde ele parou e me esperou. escondida no meio das árvores. Ele parou na margem e sentou-se. Chegamos a um riozinho que corria límpido sobre uma piscina de pedra. Emanuel falou comigo. sentindo um alívio nos pés com aquela água gelada. comigo cansado atrás dele. deixando passar apenas algumas réstias de luz. cheio de miseráveis e bandidos. Venho aqui sempre que preciso de paz e isolamento. Ao me aproximar eu pensava que fosse falar alguma coisa. sinalizando para eu passar. que deviam ter centenas de anos. Depois que passei. parava e me esperava chegar perto. . correndo pela porta e pelo portão. sem que eu precisasse segurar o arame.2 Ele saiu em disparada. Fiz o mesmo. Ele era muito rápido. Depois que relaxei e recuperei o fôlego.a câmera. apenas andava rapidamente pelo carreirinho estreito. Quando cheguei perto. mais novo e estava em melhor forma física que eu. Difícil acreditar que um lugar daqueles estivesse a poucos metros de um bairro pobre.indd 72 27/11/2007 09:36:12 . o gravador e as chaves do carro batendo como sinos de natal. Corremos até os limites da Vila Nazaré. voltava a correr. mas não falava. .Este é o meu refúgio. Olhei ao redor e me encantei com a beleza do lugar. Eu ia atrás. depois pelas ruas da vila. Existiam ali árvores enormes. pôs o pé num fio de arame e puxou o outro com a mão.

Não vinha de dentro da minha cabeça. como se a luz do sol estivesse falando comigo. é tudo. Então eu ficava aqui uma boa parte do dia. entende? Tudo vem como um pensamento. ele falou comigo de verdade. Ele continuou falando.Mas quem falou com você? O mundo? Deus? .É a mesma coisa. Paulo.. A informação vem na minha cabeça como se eu tivesse um canal de informações ligado o tempo todo.Quando saiu a primeira reportagem eu passei a vir aqui com mais freqüência. . Minha casa passou a ser visitada por repórteres e romeiros.O guardião é meu amigo e não se importa que eu venha aqui. Mas desta vez eu ouvi uma voz que parecia um trovão. o universo.. Não convinha fazer nenhuma pergunta. . Senti que era uma honra ser levado ali e permaneci em silêncio. Então comecei a fazer perguntas. .E o que Ele disse? 73 O Cristo da Periferia. Cheguei a passar noites aqui. eu estava muito cansado para pensar no que perguntar. escutando o que ele tinha a me dizer. da copa daquelas árvores. de onde tirava tanto equilíbrio. O dono é tão rico que nem sabe o que tem. imediatamente. É isso o que os homens estão fazendo com os paraísos: transformando em dinheiro. eu falava com as pessoas sobre os sinais do mundo. Deus é o mundo. sobre se concentrar e prestar atenção no que ele quer de cada um. . e não estava chovendo. O guardião mantinha afastados os intrusos e ninguém sabia que eu estava aqui. Vai ficar ainda mais rico e este paraíso vai deixar de existir. Eu ouvi a sua voz. na semana passada. . Até que. Ademais. Um dia ele vai vender este terreno para a Cohab fazer mais um conjunto habitacional. Ele ia falar espontaneamente. A voz de Emanuel saiu embargada nas últimas palavras e lágrimas derramaram de seus olhos. em silêncio.Como assim ouviu a voz? Você não ouve sempre? ...Entendi.Não é isso. Eu ouço o que o mundo fala porque leio os seus sinais. Quando estava em casa. transformando em infernos. Vinha do alto. nenhuma observação.indd 73 27/11/2007 09:36:12 . Mas quando eu estava aqui eu só ouvia.

e você é meu filho amado!” Ele ficou ali quieto. quem era ou o que era. Foi quando a mesma voz respondeu: “Eu sou o que sou. olhando para o lugar de onde disse ter vindo a voz sobrenatural. sem saber o que dizer ou pensar. Forte demais para ser de qualquer homem.. Eu fiquei a seu lado.indd 74 27/11/2007 09:36:13 . mas o sol resplandecia entre as copas das árvores. perguntando quem estava falando. 74 O Cristo da Periferia. Depois lembrei que a voz era muito forte para ser de um moleque. Parecia um trovão.A primeira coisa que ouvi foi: “Meu filho amado!” Levei o maior susto. Então eu gritei. Olhei ao redor procurando o moleque que havia feito aquela brincadeira comigo. olhando para ele.

Mas eu não sou santo. você os interpreta. Não cabia uma solução racional em sua mente privilegiada. mas nada funcionara. mas não obteve resposta. Recusava-se a ser santo. Tentou conversar várias vezes. tinha que ajudar as pessoas desesperadas. .Não contei isso a ninguém ainda. não há motivo para continuar se comportando como um doente. Sempre tentava dar um pouco de consolo aos desesperados.22 Enquanto caminhávamos de volta para sua casa. Para ele era tudo lógico como uma equação matemática: “Você vê os sinais. porque isso ia contra tudo que havia dito até então.indd 75 27/11/2007 09:36:13 . Isso é lógica. Emanuel não via como milagres o que fazia. A voz não se repetira. Você não está doente. Paulo. ele dava essa ajuda. os pensamentos e as palavras daquele dia. A partir de então. Contou-me que voltara todos os dias ao local e tentara repetir os movimentos. No fundo do coração ele sentia que tinha que falar com todos que o procuravam. Como posso falar com essas pessoas? Não posso enganá-las dizendo que sou o que esperam que eu seja. Meu amigo parecia estar indignado com as coisas que os sinais lhe diziam. Mas o que Ele quis dizer com “Você é meu filho amado”? Acaso não somos todos Seus filhos? Por que Ele não fala isso a todas as pessoas? 75 O Cristo da Periferia.” Mas aquela voz não tinha explicação. não tem nada de místico. não falara com ele. E àqueles que só precisavam de uma ajuda para se convencerem de que não estavam doentes. Não quis fomentar os fanáticos. porque eu não sou. . Mas eu sentia que isso o angustiava. havia dedicado grande parte do seu tempo a receber as pessoas que o procuravam. Mas os sinais estavam mais claros depois daquele dia. Emanuel me contou que aquelas foram as únicas palavras que ouviu. fazendo-as deixar muletas e cadeiras de rodas. Ajuda que as libertava de traumas e psiquismos.

meu amigo. nunca fiquei doente. porque a doutrina já foi ensinada e vem sendo estudada e debatida há dois mil anos. Agora estou com medo. deveria ser para cobrar a conta. As religiões fazem verdadeiras 76 O Cristo da Periferia. embora tenha permanecido sério. Eu falava às pessoas sobre os sinais que para mim eram tão claros. Era muito humano.indd 76 27/11/2007 09:36:13 . Sou alguém de carne e osso e não um Cristo ressuscitado. nunca quebrei um braço ou perna. Seus pais eram humanos e ele levava uma vida que achava normal. Emanuel havia recebido um contato divino e estava indignado. Nunca me faltou nada.como aquela que o ex-cego imaginava . A fé se transformou numa mercadoria muito rentável. Não sou bom nessas coisas de religião. você devia estar feliz por Deus ter falado com você. Paulo. Isso soava muito engraçado para mim. Não surtiria o mesmo efeito se ele voltasse dois mil anos depois e vivesse num bairro pobre. Apesar de Emanuel ser intelectualmente privilegiado eu jamais imaginaria Jesus voltando ao mundo daquele jeito. Na verdade eu estava muito acomodado com a vida que levava. Pensei que a minha missão era essa. Ops! Esqueci do seu poder de ler pensamentos. com muito medo. Na minha cabeça cabia mais a volta triunfal . Não seria nada original. mas acho que a volta Dele deveria ser mais contundente..Emanuel.Você já pensou no que o Alcides cego diria? “Eu não disse? Ele é o filho de Deus! Deus o chamou de filho amado!” E eu não teria sossego nunca mais. Veja a despensa da minha casa.do que essa repetição intempestiva e despropositada. . né? Ele mesmo riu comigo. Outro em seu lugar estaria contando para todo mundo. comportando-se como um adolescente rebelde. Está cheia sem eu trabalhar nem pedir nada a ninguém. Não havia motivo para se repetir a história. Já viu um Cristo com medo? Ridículo. Mas como dizia ele mesmo: “Como uma simples folha vai entender a complexidade da árvore?” . Capaz até de quererem me vestir com uma túnica e um manto como os da época de Cristo. droga. . Eu não conseguia imaginá-lo de outra forma.Não ria de mim. Eu tenho vinte e três anos. Eu quero ser um jovem da minha idade.É muito complicado.

Queria que eu começasse a dizer às pessoas que elas precisam falar mais sobre Ele. mas fiquei feliz em ouvir. Um elogio com crítica. entrevistando um “Cristo da periferia” seria uma fórmula ideal para encher esta vila de gente comentando o assunto. Esquecem de salvar o mundo presente. e nós dois ficamos ali no meio da rua. eu sabia que minha vida ia mudar. . Depois disse: . O pior é que tiram de quem nada tem. depois. Mas você não aceita isso e se revolta com Deus por ter aparecido e dito: “Olá. pois vale muito mais dinheiro. Não é todo dia que se dá uma bronca no filho de Deus e Ele gosta. Pensei que fosse ficar ofendido com o “puxão de orelha”. Isso não rende. mas Ele achou engraçado. Então ele me disse: . mas você está parecendo um filho de mãe solteira que encontra o pai depois de vinte e três anos e diz: “Desculpe.Olha. mas gosto do seu jeito de analisar os fatos.pensei no meio de nossas gargalhadas.Quando você apareceu pela primeira vez e eu recebi um sinal para responder a todas as suas perguntas. Sou melhor em fazer perguntas do que em respondê-las. Um jornalista quase da minha idade. Falei a você sobre os sinais e. dizendo que é o filho de Deus. vieram muitos outros. cretino. agora não quero saber de você na minha vida!” Emanuel soltou uma gargalhada gostosa.indd 77 27/11/2007 09:36:13 . .Gosto do seu jeito de pensar. É mais vantajoso para eles negociar uma vaga no paraíso. apaixonado pela profissão. Emanuel. rindo como se eu tivesse contado uma ótima piada. E eu obedeci. Às vezes você se atrapalha com as palavras. Aquilo era um elogio. Como posso freqüentar uma igreja que faz isso? Qual é a igreja que não pede doações? . E neste momento estou pensando em muitas delas. contagiante.fortunas para as igrejas e seus dirigentes. Eu não queria os olhos da mídia sobre mim. mas o Mundo queria. Em nome de Deus os líderes religiosos recebem doações. eu sou seu Pai!” Desculpe.Ele riu mais ainda com esse meu pensamento. Você recebeu um contato divino. sou um repórter em início de carreira. que os vão afastando daquilo que deveriam fazer. Isso muda tudo o que você dizia sobre não haver nada sobrenatural em sua vida. todos 77 O Cristo da Periferia. Os fanáticos passam fome para dar dinheiro aos hipócritas.

Pode escrever sobre a indiferença das pessoas para com a minha mensagem. mas para a mensagem que traz. dos excluídos.indd 78 27/11/2007 09:36:13 . para perceberem que havia uma sociedade paralela. E eu dizia para eles olharem ao redor. Por isso chamei você de volta. Pode contar sobre a minha visão. Precisam saber pelo meio mais doloroso que eles existem e que o Mundo quer que sobrevivam. sobre esta polêmica boba. 78 O Cristo da Periferia. Não se deve olhar para o mensageiro. Você tem que escrever mais sobre mim. Ninguém se preocupa com os pequeninos. só querem saber se sou o Messias. Dizia para prestarem atenção aos sinais. Porque você entendeu a mensagem e mudou sua vida prestando atenção aos sinais de que lhe falei. . para olharem para este lugar e para todos os lugares do mundo. seus amigos e os milhares de iguais a eles. Você não olhou apenas para mim. E os olhos deles ficaram somente sobre mim. não tem? Acho que agora tem muita coisa para escrever. olhou também para a mensagem que lhe entreguei. uma sociedade dos miseráveis.E o que você espera de mim agora? . Eu sou como um mensageiro.Espero que você siga os sinais. Pode contar sobre o meu conflito. As outras pessoas precisam encontrar Tiago.perguntando a mesma coisa.

entre uma pergunta e outra dos repórteres afoitos.indd 79 27/11/2007 09:36:13 . O meu amigo chegou sorrindo para todos e ficou conversando com as pessoas que se aglomeraram em volta Dele. . esperando por Ele.. Alguns outros fotógrafos e cinegrafistas também estavam por ali e fizeram o mesmo que eu. Tem até quem se chame Jesus. repetindo as mesmas perguntas: .Você é mesmo Jesus Cristo? .Como você explica essa série de coincidências entre você e o Cristo? . Agora precisava tirar mais fotos e entrevistar líderes religiosos. Era mesmo engraçado lembrar disso. . Aproximei-me e o cumprimentei. de tudo que o Mundo quer que aconteça. Olhando aquela cena vi o quanto eu havia sido privilegiado. . Chegamos à casa de Emanuel e a multidão ainda estava lá. sou o Emanuel.23 Eu já tinha a entrevista exclusiva que o chefe mandou fazer. Vi o Alcides cego por ali.Mas ninguém fez milagres como você. Ele me cumprimentou com cara de “Eu não te disse?” Nisso se aproximou de nós um senhor usando terno 79 O Cristo da Periferia. Tinha minha entrevista exclusiva.Muita gente nasceu em Belém e se chama Emanuel. Saquei minha câmera e comecei a fotografar.Você está dizendo que o mundo tem vida própria?.Eu não fiz milagres. .Os sinais de tudo que acontece. . Pensei ter visto Emanuel sorrir para mim quando pensei nisso. Cada pergunta era feita por um repórter diferente.Que sinais são esses? .. Repórteres falavam com Ele. incitando os seus companheiros de fé. As perguntas iam se repetindo. Apenas segui os sinais do Mundo. tinha um fato exclusivo para publicar e poucos minutos antes eu estava dando palpite no relacionamento entre Emanuel e Deus.Não.

mas as costeletas grandes. até o comprimento da ponta da orelha.E ela faz parte de alguma congregação maior? . de modo que o templo ocupava todo o terreno. no que fui atendido prontamente. Esta igreja é independente. o que salientava suas marcas de expressão. Segurança demais para a “casa de Deus” – pensei. Uma vez lá dentro. .E como surgiu a sua igreja? . as fiz perto de todos os detalhes de segurança do seu templo. Era uma casa como as outras da vila.Pedi para fazer umas fotos do pastor e.Não. removendo vários cadeados que fechavam a grade de ferro que protegia o prédio. surrada pelo uso. Seus cabelos eram pretos e curtos. mas com um topete que chamava atenção. Não ficava longe da casa do ex-cego Alcides. aproveitando sua vaidade. Acho que o pastor estava ali para divulgar a sua igreja e. claro. Afastamo-nos um pouco da confusão e pedi para conhecer o templo. Tinha mesmo um jeito de pastor de igreja evangélica de bairro pobre. Sentamos num dos bancos e ali fizemos a entrevista. principalmente quando sorria e evidenciava os pés-de-galinha. Cumprimentei-o com um aperto de mão e senti que tinha as mãos ásperas. mas bem castigada pelo sol.Surgiu da necessidade de alguns irmãos de louvar ao Senhor 80 O Cristo da Periferia. mas o telhado havia sido levantado e as paredes retiradas.indd 80 27/11/2007 09:36:13 . mas aparentava ter mais de sessenta. aumentar a arrecadação do dízimo.Há quanto tempo existe a sua igreja? . Nas pontas das costeletas pequenos nichos de pelos grisalhos denunciavam a tintura dos cabelos. O pastor abriu a porta. Aproveitei a oportunidade para pedir uma entrevista. que o Alcides apresentou como sendo o pastor da sua igreja. . Apesar do traje parecia uma pessoa bem simples e a roupa um tanto quanto fora de moda.e gravata. formando um salão grande para os padrões do lugar. com colarinho esgarçado. A pele branca.Minha igreja tem já sete anos. Nós não somos vinculados a nenhuma congregação maior. bem diferentes das mãos dos padres e pastores de igrejas maiores que conheci depois. Era um homem de uns cinqüenta e poucos anos. A barba bem escanhoada. percebi que o imóvel tinha um sistema de alarme com sensores de presença e grades em todas as janelas. . .

. desde que seja uma roupa decente.O senhor. como pastor. dos perdidos que Jesus Cristo condenará no dia do juízo final. .com maior observância dos mandamentos do evangelho. cuidando da igreja de noite.O senhor mora aqui? . Ainda trabalhei lá por mais um ano. Se a entrevista já estava começando assim. Depois esta casa foi toda reformada e ampliada para abrigar o templo de Deus.Na outra igreja o senhor também era pastor? .indd 81 27/11/2007 09:36:13 .O senhor acredita que o Emanuel seja a reencarnação de Jesus? . eu era apenas um servo de Deus. como se fossem homens. . . Nesse dia não vai adiantar se arrependerem. Eu trabalhava numa firma de construção como mestre-de-obras. Ainda bem que meu gravador estava ligado. porque vai haver choro e ranger de dentes.Mas o senhor não acha que as mulheres têm o direito de escolher como querem se vestir? .Quando fundamos a igreja. Então os irmãos se cotizaram e conseguiram ajudar o pastor a comprar uma outra casa para sua família morar. A primeira cura que ele fez foi num 81 O Cristo da Periferia. esta era a minha casa. Vários dos meus fiéis foram curados por ele.É claro.Não. tem mais algum emprego? . Não pode é querer infringir a Lei do Altíssimo. do anticristo. Algumas até usavam calças compridas. Os devotos sustentam esta humilde casa e esta casa sustenta a minha. Um mundo de mulheres que se vestem como homem – e de homens que se vestem como mulher – é o mundo da besta. a seqüência prometia mais demonstrações de fanatismo. Depois o número de fiéis foi crescendo e o Senhor foi precisando de mais espaço. Era normal encontrarmos mulheres e filhas de irmãos com os cabelos curtos. pensei. A igreja que freqüentávamos estava se tornando muito permissiva. Cada mulher deve ter liberdade para usar o vestido ou a saia que quiser. .Não só acredito como tenho provas inquestionáveis. como se Deus as tivesse feito para serem homens.Não. que não exponha seu corpo como se fosse uma messalina. Meu emprego é conduzir as ovelhas do Senhor.

porque o Seu José está morto. . Como o senhor explica essa diferença? . outros vieram depois. é porque sabe que aqui se observam os Seus mandamentos.Deus me revelou isso num sonho.Mais que isso. . Mas se Ele escolheu morar perto da nossa igreja. Eu também não quero que Ele faça isso. eu já disse aos meus fiéis. Atribuo essa bênção a uma estrita observância dos preceitos do evangelho do Senhor Jesus Cristo. Ele não é filho de uma virgem. Iríamos louvar o Cristo em qualquer lugar que Ele estivesse.Eu não converso com Ele. No fundo eu já sabia que o filho do Homem estava entre nós. Dona Maria esconde esse segredo desde que concebeu Emanuel.E como é a voz de Deus? 82 O Cristo da Periferia.Há quanto tempo isso acontece? .fiel da minha igreja que era cego e hoje enxerga. quando Ele quer mandar algum recado para os seus fiéis.Mas se é um segredo. . Ele sabe que a mãe é católica e.indd 82 27/11/2007 09:36:13 . . . Ele depositou este segredo em minhas mãos para acalmar minhas ovelhas.Ele é o filho de Deus. vai ver que Ele também não vai à igreja católica. como o senhor sabe disso? . Alguns me seguiram de imediato.Está dizendo que conversa com Deus? Que Ele lhe conta segredos? Como isso acontece? . eu não disse isso. Mas se você reparar. .Por falar nisso.Isso é um segredo que somente a Dona Maria guarda. . Isso acontece somente em ocasiões especiais. Ela era virgem e José não a tocou antes de Jesus nascer. não quer que Sua mãe fique triste.Ele já veio à sua igreja? . Nenhuma mãe quer ver o filho sofrer.E a que o senhor atribui esse fato? Será porque a sua igreja está localizada próxima da casa dele? .A primeira vez foi quando Ele mandou deixar aquela igreja impura e preparar o caminho para a volta do Messias. Ela morre de medo de ver o filho morrer aos trinta e três anos. E o filho de Deus respeita a Sua mãe. por isso. Ele é quem fala comigo quando quer.

. Por isso ele diz que não é o Cristo.Deus me avisou que Jesus em breve voltaria.O dízimo é uma ordem de Deus. Só acreditei quando o Senhor Jesus Cristo curou a cegueira do Alcides. Nada disso é mais importante para Deus do que o Seu filho. Se você paga.Esta casa está aberta para os filhos do Senhor que queiram encontrar a salvação.Está me dizendo que Jesus está mentindo para nós que não é santo? .Quando foi que o senhor soube que Emanuel era o Cristo? . Você ficaria uma eternidade ouvindo aquela voz.Como eu disse. E Ele devolve em dobro tudo o que a Sua igreja recebe. pois Cristo nos espreitava.Mas e os que não podem pagar o dízimo. ajuda a manter a casa do Senhor.Ele fará um deserto surgir se for preciso.. Ainda faltam sete anos para o início do Seu martírio.É uma voz suave como a brisa da manhã. .Blasfêmia! Como se atreve a falar assim do filho de Deus? Ele ainda não tem consciência da Sua divindade. mas devíamos ficar atentos.Porque Emanuel não admite que é Jesus? . como se fosse um coro de violinos. que uma vida de obediência ao evangelho seria a porta de entrada do paraíso. pois o diabo tem muitas faces. . . 83 O Cristo da Periferia. . .indd 83 27/11/2007 09:36:14 . Eu sabia que Jesus estava por perto e recomendei a meus fiéis que estivessem em alerta. Estava ficando cada vez mais difícil fazer perguntas àquela torre de ego. Isso só vai acontecer quando Ele estiver com trinta anos de idade. Vai passar quarenta dias no deserto e voltará como o filho de Deus.E o que devemos fazer durante estes sete anos? . O cego Alcides contou a história de Emanuel. . Ele não quer magoar a mãe. A terra ficará árida e os animais morrerão. .Entendo. Uma voz que transmite paz. Era parecida com a de Jesus. o que devem fazer? . Uma vida de obediência e abnegação é o que Ele espera de nós.Mas no Brasil não há desertos.

A casa do Senhor estará sempre de portas abertas a qualquer repórter. Se você não tem fé nisso. porque Ele exige uma demonstração da sua fé antes de lhe dar qualquer coisa. Emanuel tinha razão quanto aos objetivos financeiros daquela igreja. Eu só não imaginava que o nome de Deus fosse tão usurpado.Ouvi isso do próprio Deus. E pode indicar meu nome para os seus colegas que queiram fazer uma entrevista. agradeço a sua disposição em me receber aqui na sua igreja e a gentileza em responder as minhas perguntas.Quem nada dá. 84 O Cristo da Periferia. pastor. . . jamais entrará no reino de Deus. Um retrato fiel do abuso da fé.indd 84 27/11/2007 09:36:14 . Tinha a minha entrevista e isso era o que importava. Saí daquele lugar aborrecido. Estarei sempre às ordens.Tem certeza que é assim que funciona? Uma pessoa que não tem o que comer deve dar o que não tem para poder receber as graças de Deus? . nada tem. Ninguém é tão pobre que não possa ajudar a casa do Senhor. .Bem. Volte quando quiser.

Eu já estava com a matéria quase pronta quando lembrei das palavras de Emanuel. Atribuíam os milagres de Emanuel à ignorância da população da periferia. Quadrangular. nas igrejas Batista. Estas três religiões não quiseram dar opinião sobre a santidade de Emanuel. Krishna ou Maomé. focando a matéria na polêmica sobre a santidade dele e esquecendo da sociedade paralela. Emanuel não falou em Deus. Ninguém aceitava a idéia de um Jesus repetido. Aceitei isso pacatamente e não explorei melhor o assunto. Simplesmente falou do Mundo. O bispo católico que me atendeu na cúria disse que a sua igreja não acredita numa volta de Jesus que seja diferente daquela descrita no livro do apocalipse. Que matéria ridícula estava fazendo? 85 O Cristo da Periferia. Falando com eles. Deu vontade de jogar todo o trabalho fora. que se deixava enganar por falsos profetas. Jeová. que está presente em todas as religiões. Que burro eu fui. que ele queria que fosse vista. que me disse que as pessoas estavam olhando para o mensageiro e esquecendo da mensagem. tinha menos importância entre os depoimentos dos líderes religiosos. Óbvio demais. O budismo e o islamismo não admitem a existência de Jesus como filho de Deus. É claro. Eu estava fazendo o mesmo que todo mundo. pude conhecer a filosofia e a história de cada religião. Assembléia de Deus e Universal do Reino de Deus. A entrevista com o pastor. pois não admitem a santidade do próprio Jesus. embora longa. protestantes.24 Nos dias seguintes entrevistei líderes religiosos católicos. como os outros. respeitam a sua imagem de ícone do Cristianismo. a casa de todos nós. Os judeus não aceitam Jesus como o Messias mas. O mundo não pertence a esta ou aquela religião. Buda. judeus. até por falsos Cristos. mas o respeitam como profeta ou ícone do Cristianismo. Esta também foi a tônica dos depoimentos dos líderes evangélicos que entrevistei. budistas e muçulmanos.indd 85 27/11/2007 09:36:14 . Perguntei aos entrevistados sobre a mensagem trazida por Emanuel e nenhum dos depoimentos abordou o conflito de sociedades e os sinais do mundo.

artistas de circo arriscando a vida em arcos com facas e fogo. mas para mim estava um lixo. que imploravam por um trocado para comprar comida. Peguei a câmera e o gravador e voltei para as ruas. Há também trombadinhas. Estou com fome. Meus irmãos e eu saímos para pedir. e se não lhe déssemos o que comer iria furtar e assaltar. . . que estava vivo. cegos. golpistas. Podia até agradar o chefe. A sociedade paralela estava ali. ainda uma criança. Não tem comida na minha casa. Sentei num banco de praça e fiquei ali. . Perdi a concentração e fugi do foco que eu devia dar ao assunto. Retratei todas essas pessoas que insistiam em sobreviver. que clamavam.Eu moro muito longe. não precisava ir até a Vila Nazaré para enxergá-la. Em cada esquina há mendigos. porque o mundo queria que ele sobrevivesse. mesmo sem saber que mostrava. derrotado por mim mesmo. todos pedindo esmolas.Tio. crianças. Melhor ficar na rua do que passar fome e apanhar em casa. músicos tocando. prostitutas. Fotografei toda essa gente.Tem uma moeda ou não? Dei uma moeda a ele e saí correndo para a redação. que já havia visto os esboços e escolhido as fotografias. como aquele menino que me pediu uma moeda. . que me mostrou. Desempregados se acotovelam em frente aos cartazes com anúncios de emprego.Me dá uma moeda. tem uma moeda? Despertei do meu transe com um menino de rua. Esse mundo de 86 O Cristo da Periferia. menino? Cadê seus pais? . Meu pai está desempregado e bate na minha mãe. Nas praças há pastores pregando. e ele sem saber o que se passava pela minha cabeça. que estava parado em frente a mim. Na manhã seguinte o chefe iria fechar a edição e minha matéria estava um “lixo”.Onde você mora. Este era o sinal que eu acabara de perceber. traficantes e cafetões. Fiquei olhando com cara de bobo para aquele menino. que era sobrevivente de um pai desempregado e agressivo que deixava uma criança pedir esmolas nas ruas. debaixo do nariz de todos.indd 86 27/11/2007 09:36:14 .Saí para a rua atordoado. mulheres com crianças no colo. desolado.

Coloquei os fones do gravador e digitei as dezenas de entrevistas com “excluídos” que jamais imaginaram aparecer numa revista. Depois volte aqui para fecharmos a edição. que lá do corredor já gritou: . até o clímax da chegada do chefe. enquanto todos seguiam o chefe até a sala de reuniões. 87 O Cristo da Periferia. Já era tarde da noite quando voltei para a redação e carreguei o computador com as fotos que tirei.indd 87 27/11/2007 09:36:14 . que eu quero ver isso. fazendo uma associação com as palavras de Emanuel. Paulo. Acir. como fechou o dólar? Fui para casa e dormi com roupa e tudo.Boa idéia.Eu fiz um adendo na matéria. Retratei a sociedade paralela que o Cristo quer que olhemos. Acho que o vigilante falou a ele que passei a noite trabalhando. Comecei a escrever sobre tudo que havia visto e ouvido. Só percebi que havia amanhecido quando os raios de sol bateram nos meus olhos pela persiana entreaberta e o vigilante apagou as luzes. Paulo? A matéria não estava pronta? O chefe sabia de tudo o que acontecia na redação. aquele ditador já foi deposto? Pedro. Vá dormir um pouco e tome um banho. No meio da confusão de vozes respondi: . Meus colegas de redação foram chegando e a mistura de vozes começando. Carla. Quando sentamos o chefe comentou: . chefe. Estávamos esquecendo disso. cadê o meu café? Abra a matéria sobre a sociedade paralela que o Paulo fez durante a noite.miseráveis e excluídos era o mundo para o qual Emanuel queria que olhássemos. Era para esse mundo que eu iria apontar com minha matéria. Eu estava exausto.O que você fez aqui a noite inteira. A redação inteira começou a falar ao mesmo tempo.

inclusive o padre e o bispo. Pensei nas pessoas que entraram em minha vida nos últimos dias. embora estivesse muito calor. As pessoas se acostumaram tanto com a presença de gente assim que fecharam os olhos. Um é perseguido pela polícia e odiado pela sociedade. O calor lá da cidade era amenizado ali pela sombra das árvores e pelo frescor da água em meus pés. porque foi um instrumento da cólera divina. por um caminho muito estreito. Queria aproveitar aquele lugar que estava condenado a desaparecer. É como se fossem transparentes. Não dava vontade de voltar para a cidade.indd 88 27/11/2007 09:36:14 . com os pés na água corrente. olhando para cima. O padre e o bispo foram parar no purgatório. não olha nos olhos do outro que limpa o vidro do seu carro com aquele pano 88 O Cristo da Periferia. Fiquei ali deitado na pedra.25 Eu estava caminhando pela mata. O mestre-de-obras interesseiro que virou pastor e melhorou de vida cobrando dízimo dos miseráveis. Lembrei do menino que pediu uma moeda e me abriu os olhos para o submundo que existe no coração das grandes cidades. Um tira de quem tem e o outro de quem não tem. os ouvidos e os corações para elas. Você não olha nos olhos do menino que pede uma esmola. É como no Auto da Compadecida. Assim eu via Tiago e o pastor: como no conto de Suassuna. mas no próprio interesse. de Ariano Suassuna: o cangaceiro assassino mandou matar todos que estavam sendo julgados. Tiago e seus amigos bandidos. Qual deles estaria melhor aos olhos de Deus? O que reza ou o que rouba? Que incoerência. mas o bandido vale mais aos olhos de Deus que o pastor. De repente cheguei à piscina de pedra onde Emanuel ouviu a voz de Deus. mas foi o primeiro a receber o perdão de Jesus Cristo. Não dava vontade de voltar para o meu mundo. que me era familiar. para pagar pelos pecados que cometeram em nome de Deus. Tirei meus sapatos e meias e pus os pés naquela água gelada. As copas das árvores eram tão frondosas que a luz do sol não feria meus olhos. o outro é respeitado pela sociedade e considerado um homem de Deus.

. que criam os filhos sozinhas. para essa sociedade paralela que o mundo abandonou. Sol forte do meio-dia. As mães são obrigadas a deixar os filhos em creches ou trancados em casa para irem trabalhar e ajudar no seu sustento. se sujeitando a qualquer homem que possa pagar para possuí-la. tomam vários ônibus e trabalham duro o dia todo.E como vou fazer isso? Como quer que eu faça isso? O que quer que eu faça? Como posso mudar o mundo sozinho? Fale comigo! Fale comigo! Fale comigo! Acordei chorando. porque nem mesmo o trabalho árduo pode garantir o sustento de suas famílias. um mundo de corpos e não de almas. Ela envolve pessoas que se levantam de madrugada. Você fechou os olhos para essa gente. Então essa sociedade paralela é maior ainda. Mas qual será a solução. Comem em marmitas ou bandejões sabendo que aquela será a única refeição do dia. mas tinha que aproveitar a oportunidade e comecei a perguntar: . Lembrei imediatamente do que Emanuel ouviu naquele mesmo lugar. E o que me diz do desempregado ou do velho que vem com uma receita suada na mão pedindo ajuda para comprar remédio? Ou um litro de leite para o filho? Ou uma passagem de ônibus? Você fechou seu coração para essa sociedade de miseráveis. meu Deus? Dar esmolas não resolve o problema e nem diminui a miséria. vindo das copas das árvores. . “Fale a eles dos meus pequeninos! Fale a eles dos meus pequeninos!” 89 O Cristo da Periferia. Fechou os olhos para a menina ou para a mulher madura que vende o próprio corpo nas ruas.Fale a eles dos meus pequeninos! A voz soou como um trovão.Qual é a solução. meu Deus? Qual é a solução? O estado de repouso de meu corpo não correspondia ao tormento de minha consciência.indd 89 27/11/2007 09:36:14 . suado.sujo e pede uma moedinha. Aquela voz ecoava na minha cabeça como se fosse um sino. Emocioneime muito. A gente vê relatos de pessoas que ganham mais pedindo esmolas do que se estivessem empregadas. nem mesmo olha para os olhos do palhaço que aproveita o sinaleiro fechado para fazer malabarismo na sua frente. num mundo-cão. Existem mães solteiras ou separadas. vestido. gritando.

Preferiu tratar a matéria sobre a sociedade paralela como um artigo novo. e ao fundo. O texto da capa também foi mudado. do outro lado da rua. A capa estava perfeita e a matéria ganhou mais quatro páginas centrais. O título passou para: “Eu não vim para salvar os justos!” E o texto secundário dizia: “Enquanto as igrejas discutem a sua santidade o Cristo da periferia segue fazendo milagres e pedindo que olhemos para a sociedade paralela. que pensei que nunca seria publicada. Era a imagem de um flagrante que peguei num semáforo fechado. com uma montagem de outra ao fundo. Parecia que o chefe havia participado de todo o meu trabalho.indd 90 27/11/2007 09:36:14 . acrescentando foto minha com eles. É claro que não esqueci de mandar exemplares 0 O Cristo da Periferia. Na frente do carro um palhaço fazia malabarismo com pinos incandescentes. Quem me odiava passou a odiar mais ainda e quem me admirava ficou mais fã ainda. O chefe caprichou num editorial inspirado e elogiou o meu trabalho e a amizade que fiz com Emanuel e sua mãe. Antes ele havia escolhido uma foto de Emanuel segurando a mão de uma doente e olhando para a câmera com aquele semblante de serenidade que só ele tinha. com um menino pedindo esmola ao motorista do primeiro carro parado. Quando cheguei de volta à redação já estava no “painel da capa” a mesma foto em tamanho menor.” Eu não teria feito melhor. O número de assinaturas novas pela internet e pelo 0800 triplicou. Mas a foto da capa foi mudada. Salvamos a edição em apenas uma noite. se via uma prostituta que fazia ponto na esquina. associado à matéria da capa. Anunciantes de peso passaram a cotar preço de espaço nas páginas publicitárias. O pessoal do departamento comercial me adorava. O chefe não quis mexer no texto que já estava pronto e ele achava muito bom. Isso era inédito na história da revista. Na semana seguinte veio a notícia de mais um recorde de vendas. A revista esgotou nas bancas e tivemos que providenciar uma edição extra. Finalmente recebi um aumento de salário.26 A edição teve que contar com quatro páginas a mais.

Se chegassem perto da cerca o guardião os expulsaria com tiros de sal. Logo no domingo começaram a chegar mensagens pela internet. Certamente todas elas publicariam na semana seguinte reportagens sobre a sociedade paralela. pois a próxima edição dedicaria um bom espaço para mostrar o sucesso desta. Na segunda-feira vieram as cartas e telegramas.indd 91 27/11/2007 09:36:14 . A reportagem jogou um balde de água fria em todas as religiões. Não os pintei de forma tão pantomímica quanto o pastor. Mas a grande polêmica foi instaurada. a maioria elogiando o trabalho jornalístico e apoiando nossa opinião sobre o assunto. mas deixei bem clara a sua indiferença com relação à mensagem de Emanuel. Jamais imaginariam que estava tão próximo. A notícia da edição extra agitou a redação. aos milhares. Mais uma vez saímos na frente e estávamos ditando moda para as outras revistas. Foi um dia perdido para a próxima edição. que meu fôlego era curto assim. Achei que procurariam no alto de alguma montanha ou coisa parecida. Eu não enfoquei as entrevistas na sociedade paralela. Acho que o pastor da Vila Nazaré deve ter querido me matar. Mas isso não assustou o chefe. pois não estávamos acostumados a pensar em edições prontas no começo da semana. sobre o conflito das religiões e sobre a exploração dos falsos líderes religiosos. sem dúvida.para o Emanuel e a Dona Irene. Todas tentariam uma entrevista exclusiva com Emanuel e fariam de tudo para encontrar o seu local de retiro espiritual. as dos líderes religiosos indignados com a imagem que pintamos deles. que fiz questão de manter em completo mistério. mas todos foram perguntados sobre o que achavam da mensagem transmitida por Emanuel e todos deixaram bem claro que estavam acompanhando a sua trajetória pelos meios de comunicação. Mas as mensagens mais contundentes foram. pois pintei bem do jeito que o vi. como um caricato espertalhão. pois jamais viraram as costas  O Cristo da Periferia. Depois acusaram a revista de não haver interpretado corretamente o que disseram. um fanático radical que tentava aproveitar a fama do vizinho ilustre para encher os bolsos. dizendo que tive que perder o fôlego para chegar lá. deixando transparecer uma desconfiança muito grande de seus propósitos. pois as acusamos de ficar discutindo santidade enquanto Emanuel se preocupava com seus fiéis.

Organizações não governamentais aproveitaram a atenção da mídia para divulgar os seus trabalhos. Não sei se é pretensão de minha parte. ou aderirem a programas já existentes. Aqueles que eu acusei de virarem as costas para eles foram os primeiros a criar programas para combate à fome e à miséria. Bastou selecionar algumas delas e publicar antes dos protestos. algo como: “Não concordo com o que você disse. O mais interessante em tudo isso foi que ninguém explorou muito a visão de Emanuel. Parecia que o plano de Emanuel estava funcionando. mas ele sabia o que aconteceria desde que me autorizou a publicar os segredos que me confiou. Era como se a denúncia do descaso com a população carente e a existência da sociedade paralela tivessem tomado a atenção de todos e a notícia que devia ser uma bomba passou quase despercebida 2 O Cristo da Periferia. Os outros líderes que me deram entrevista deviam estar “mexendo os pauzinhos” para neutralizar os efeitos da publicação. mas respeito o seu direito de dizer o que pensa. Preparei as respostas para publicar na seção de cartas da próxima edição. Revistas.indd 92 27/11/2007 09:36:14 . pois as milhares de cartas de apoio que recebemos eram a prova viva de que acertamos em cheio com a matéria. Fazia parte da vontade do Mundo e nós sabíamos disso. Não foi difícil. jornais e telejornais anunciavam todos os dias a criação de programas públicos de apoio à população carente. mas percebi em pouco tempo uma redução no número de pedintes nas ruas do centro da cidade.para a população menos favorecida pela sorte. Nunca se debateu tanto sobre a sua condição social. Dona Irene devia estar feliz em posar para tantas fotografias e dar tantas entrevistas. Mas os principais beneficiados foram os menos favorecidos pela sorte. esperando que você respeite o meu!” Conforme previmos. o assunto foi destaque nas outras revistas e jornais durante a semana seguinte. Fiquei pensando em como Emanuel devia estar sendo assediado. O pastor devia estar tendo muito trabalho para explicar as grades e alarmes da sua “casa de Deus”. como aquele iniciado pelo sociólogo Herbert de Souza nos anos noventa. ainda que de uma maneira bem singela. As respostas em geral versaram sobre os critérios utilizados nas entrevistas e os princípios de liberdade de opinião que devem reger os órgãos de imprensa.

Se bem que eu não estava escrevendo sobre a visão. Se ele ouvisse de verdade. saberia o que dizer. mas sobre a sociedade paralela.indd 93 27/11/2007 09:36:15 . que recebeu diretamente. principalmente daquela voz que ecoa em meus ouvidos até hoje. Curioso que eu não ouvi nenhum violino. devo ter mesmo sido influenciado pelo que ele me disse e associado isso à entrevista do pastor. Se eu me assustei ao receber uma mensagem em sonho. Fico pensando no susto de Emanuel. Incrível a clareza com que lembrava de cada detalhe. Deve ter sido fruto do envolvimento que tive com o caso. que disse que recebia mensagens de Deus em sonhos. Mas Deus me mandou falar sobre os pequeninos e era isso que eu estava fazendo. Pensando logicamente. imagino ele.de quem deveria cair com todas as armas contra o “Filho de Deus”. como disse o pastor. 93 O Cristo da Periferia. chegando a passar a noite toda escrevendo sobre ele. a voz de Deus me pareceu um trovão e não um coro de violinos. Lembrei do meu sonho.

A partir dali não restou nenhuma dúvida sobre a minha capacidade profissional.indd 94 27/11/2007 09:36:15 . Às vezes pensava em visitá-lo. Durante algumas semanas ainda trabalhamos com matérias complementares do Cristo da periferia e da sociedade paralela. mas o trabalho sugava todo o meu tempo e eu acabava não indo. motoristas e fotógrafos sempre que quisesse. Se for algo interessante faça uma reportagem curta. pois meu plano era ser correspondente internacional. fiquei tranqüilo por saber que o Mundo não permitiria que nada acontecesse ao seu filho amado. Com parte do aumento contratei um professor para desenferrujar o meu inglês. Mas. no meio da reunião: . Eu me envolvi com outras matérias. comer os bolinhos da Dona Maria. Um dia o chefe falou. Fiquei 94 O Cristo da Periferia.Paulo. tem suas próprias regras e exige o que quer de nós. O Mundo. cadê o meu café? Adolfo. Eu podia usar os assistentes. que me ajudaram a chegar aonde cheguei. mas os assuntos foram perdendo a repercussão naturalmente e não se falou mais sobre eles. a casa do seu amigo Cristo sofreu um atentado. Com mais estrutura meu trabalho passou a ter mais qualidade e minhas reportagens muito mais subsídios. mas nunca esqueci das lições de Emanuel. ver como ele estava. isso era um sinal de que ele queria me ver. mas convém você passar lá e ver o que aconteceu. Por que alguém tentaria matar Emanuel? Ele não fazia mal a ninguém.27 A minha segunda matéria de capa e o sucesso comercial e editorial da revista me promoveram definitivamente à condição de repórter de primeira linha. pensando bem. sem esperar que tenhamos tempo. Aquela vizinha ligou avisando. Passei a ganhar como os melhores repórteres e foram colocados à minha disposição todos os recursos jornalísticos da revista. O assunto já saiu da pauta. contudo. será que a sua matéria sobre os poços de petróleo em chamas fica pronta antes que apaguem o incêndio? Minha avó de noventa anos já teria acabado se eu tivesse pedido a ela para fazer a reportagem. Carla. Levei o maior susto. De qualquer modo.

Apresentei os meus companheiros . Meu filho havia saído para o lugar de oração dele. que as pessoas vinham sem a gente chamar.feliz em receber o sinal.fotógrafo e motorista . feito a uma altura de mais de dois metros do chão. onde estavam? . foram os traficantes que espantaram todas as pessoas daqui. Então eles expulsaram todo mundo. Eles só não mataram ninguém por Deus mesmo. Daí eles deram esse tiro na minha parede que passou raspando nas cabeças das pessoas.e perguntei a razão daquela mudança. as mãos geladas.Meu filho recebeu um recado deles que era pra parar com essa agitação aqui na vila. na parede da frente da casa.indd 95 27/11/2007 09:36:15 .Eles têm armas aqui como se fosse um exército. mas foi pra cima. Daí alguns deles entraram aqui e 95 O Cristo da Periferia. Estranhei a falta de gente e a presença dos varais cheios de roupas. . .Eu estava lá dentro. Seu Paulo. Fiquei assustado com aquele estrago enorme e pensei em qual arma seria capaz de fazer um estrago daquele tamanho.E a senhora e seu filho. Eles atiraram até com metralhadoras. Eu ouvi aquela gritaria e os tiros. Então eles vieram dar um jeito. meio molhadas e enrugadas de tanto mexer na água. O fotógrafo começou a trabalhar. cadeiras de rodas. Seu Paulo. Dois carros cheios de homens armados. tava espantando os clientes. Tinha gente doente aqui. Era um buraco de uns trinta centímetros. Emanuel mandou dizer que não chamava ninguém. Só esse que fez o buraco foi pra baixo. . Cheguei à Vila Nazaré na van da revista e indiquei a casa de Emanuel ao motorista. Eles enfrentam até a polícia se quiserem. Eles não estavam gostando de muita televisão e reportagem por aqui. Eles disseram que essa gente toda nas ruas da vila estava atrapalhando o negócio deles. Dona Maria veio me receber no portão com um abraço. gente com muletas. Olha o que eles fizeram na minha parede! Ela nos mostrou um buraco na parede da casa.Ah. . Eles atiraram pra cima e as pessoas começaram a gritar e correr desesperadas. mas por cima das nossas cabeças.Mas por que eles fizeram isso? Vocês disseram alguma coisa contra eles? . Seu Paulo.

pois não era seguro um carro de reportagem ficar parado na frente da casa por muito tempo. eles me avisaram que não queriam mais multidão aqui em casa.E onde ele está agora? . Foi o jeito que encontrou de ajudar esse povo. Ele recebe os recados e vai nas casas. Depois disso Dona Maria pediu que fôssemos embora. .E o que o Emanuel diz disso? . Disse que eu poderia voltar à noite para falar com Emanuel.Ele está visitando os doentes nas suas casas. só mesmo com paredes de concreto para se proteger. Quando todo mundo saiu. Se bem que. Entraram nos carros e foram embora. Saí dali indignado com o poder paralelo da sociedade marginal. mas não faria nada sem saber o que Emanuel pensava disso. .Meu filho não se assusta com nada. Um sinal de que não vai ser fácil mudar este mundo. que da próxima vez eles iam atirar pra matar.mandaram todo mundo sair e ir embora. Vendo uma invasão como aquela dava até para entender porque a “casa de Deus” era tão protegida. Ele disse que isso é só mais um sinal.indd 96 27/11/2007 09:36:15 . com as armas que os bandidos tinham. 6 O Cristo da Periferia. o que o Mundo esperava de mim. Como era possível uma organização criminosa influenciar a vida de toda uma comunidade? Tinha vontade de denunciar aquela arbitrariedade. mas deveria vir com meu carro e estacionar na garagem da Dona Irene.

Mas seus salários não eram suficientes para alugar imóvel num bairro nobre. porque Emanuel andava tão ocupado que não creio que poderia me atender. Ela ainda não conhecia o meu carro novo. Desta vez estava mesmo assustada. Balas perdidas eram comuns. Nunca os bandidos do lugar haviam entrado numa casa de pessoas inocentes. onde fui recebido 97 O Cristo da Periferia. Ademais. Se seus pais saíssem da Vila Nazaré. Em pouco tempo eu iria comprar meu próprio apartamento. Já tínhamos tido uma conversa sobre a violência do lugar num outro dia. mas eu não queria correr riscos desnecessários se Dona Irene cedia sua garagem com tanta presteza. Dona Irene abriu logo o portão. pagando aluguel. Se saíssem dali perderiam a vantagem de serem conhecidos de todo mundo e estariam sujeitos a toda sorte de crimes. cumprimentando-me calorosamente quando desci do carro. teriam que morar em outro lugar da cidade. Agora ela e o marido estavam pensando seriamente em mudar de casa.28 Buzinei e Dona Irene veio ver quem era. Teriam que continuar morando num bairro de periferia. mais seguro. O problema eram os filhos que ainda moravam com eles e não podiam morar na zona rural. Estava acostumada com o velho carrinho popular com motor de mil cilindradas. Só teria que mudar os planos em relação aos móveis. O aumento que recebi deu para comprar um carro melhor. Quando viu que era eu. pois trabalhavam e estudavam. Dona Irene contou sobre o atentado à casa de Dona Maria.indd 97 27/11/2007 09:36:15 . Mais uma vez era a segurança dos filhos que prendia Dona Irene à Vila Nazaré. O marido já tinha tempo de trabalho suficiente para se aposentar e estavam pensando em trocar a casa por uma chácara. Despedi-me dela e fui à casa da Dona Maria. Nunca haviam atirado numa parede propositadamente. ninguém gosta de ter um carro roubado. mas tiros propositais nunca haviam ocorrido. Este tinha seguro. mesmo que tenha seguro. com motor mais potente e muito mais acessórios.

Sei que temos uma jornada difícil pela frente.Era para o povo. Ela e o filho estavam me esperando com a mesa posta para jantar. Eles não têm o direito de fazer o que fizeram. eu entendi imediatamente o sinal. Por isso aconteceu tudo o que você já sabe.brincou. três pratos sobre a mesa. . Paulo. eu fiquei indignado com essa interferência na sua vida. homem de Deus? . Ninguém se machucou. .Não é bem assim. mas vamos enfrentá-la com serenidade. .E para quem era o sinal. Então o Mundo quis que o povo soubesse que chegou a hora de deixarem prosseguir minha missão. Não sei como sabiam que eu ainda não havia jantado. Depois do jantar Dona Maria recolheu os pratos e eu perguntei a Emanuel sobre o incidente com os traficantes.Você disse que deve prosseguir sua missão. .indd 98 27/11/2007 09:36:15 . deve ter saído correndo sem precisar da minha ajuda . Acho até que algum doente. mas me tratou como se mantivéssemos contato diariamente. mas confesso que estava com saudade da comidinha caseira da mãe de Emanuel.Calma.com muita alegria.Mas Emanuel.Ora.E que jornada é essa? 98 O Cristo da Periferia. mas respondi dizendo que não podia fazer nada se o povo continuava me procurando.mas não precisa reportagem sobre isso. . Não podem proibir as pessoas de virem aqui. .Foi mais um sinal . Paulo! O buraco na parede a gente conserta. . Fazia algum tempo que não nos víamos.Mas que sinal é esse? Que sinal mais estranho para quem não precisa disso! Não dava para mandar um sinal mais simples? . que precisava de estímulo para acreditar que não estava doente.respondeu . você não entendeu que o sinal não era para mim? . Todos os dias recebemos sinais. Então já sabe exatamente o que vai acontecer daqui em diante? . O Cristo da periferia estava tranqüilo e demonstrou muito bom humor enquanto jantávamos.perguntou fazendo-me sentir um idiota por não entender onde ele queria chegar. Quando os traficantes mandaram me avisar que o povo estava atrapalhando os negócios. meu sincero amigo.

E quando ou onde isso vai acabar? . . entre elas você.Por que você está falando no plural? A missão não é só sua? . . mas para o caminho. Estou chamando você para largar tudo e vir comigo. Veja quantas pessoas vamos ajudar. como Jesus Cristo? .E quem vai com você? . Mas sempre vamos encontrar um abrigo.indd 99 27/11/2007 09:36:15 .Você não deve olhar para o fim da jornada. Temos que sair dos lugares aos quais estamos habituados.Mais ou menos assim.Primeiro precisamos escapar das raízes. Eu não vou partir sozinho. Vai acabar onde o Mundo quiser que acabe.É. . Só que o mundo de hoje é bem diferente. . .  O Cristo da Periferia.Não.Não.Eu? . um pedaço de pão. na Vila Nazaré. as pessoas são frias. um agasalho. Nossa mensagem tem que ser levada a muitos lugares.Sua mãe vai com você? . .Então você vai virar um nômade. ela é nossa.Algumas pessoas que estou chamando para me seguir. A missão dela é aqui..

Vá para casa e escute o que diz o seu coração. Aquela era a última coisa que eu esperava ouvir. Por isso 00 O Cristo da Periferia. O chamado de Emanuel deixou-me confuso. Agora as coisas estão ficando boas.falei atordoado. contudo. ainda não recomposto do susto. . de satisfação da alma. . Você tem capacidade de se concentrar e perceber os sinais do Mundo. que é muito mais árduo. mas conseguia entrar na minha cabeça. Emanuel. mas cuja realização é bem maior em termos de emoções. não estou. Esta é uma daquelas encruzilhadas da vida em que se tem que escolher um caminho. Como quer que eu largue tudo? .Nem eu. Você é que está enganado. .Não diga nada.E o que você tinha quando isso tudo começou? O Mundo respeita a sua vontade. Então eu jamais imaginaria que minha presença interessasse a ele fora da revista. . Já passara pela minha cabeça a impressão de que ele usava a mim e à revista para divulgar os seus pensamentos. outro será escolhido e você voltará à sua vida normal. o estão chamando para um outro caminho.Não sei o que dizer . Se você quiser pode dizer não. Paulo. Você não é apenas um repórter. Não sei de que forma. . Os sinais. Ele testou você e está satisfeito com as suas respostas.Você está confundindo as coisas.Mas eu tenho meu emprego.falei suado. fazendo-me escrever o que queria. Voltei para casa atordoado.indd 100 27/11/2007 09:36:15 .Não. Se você recusar o convite.2 . Mas a sua missão não é curar ninguém. Comprei um carro novo e estou pensando em comprar um apartamento.Mas eu não sei fazer milagres. Sou apenas um repórter . O Mundo respeita a sua vocação de comunicador e quer você para ser um elo de ligação entre as sociedades. Você é um excelente repórter e pode continuar sua carreira pelo resto da vida. .

. Por que então me sentia um intruso? Por que tudo ali me inspirava uma despedida? O que Emanuel estava pensando? Como podia imaginar que deixaria tudo para segui-lo? E ele ainda me dizia que não era o Messias. interrompido por pesadelos 0 O Cristo da Periferia. Será que largar tudo significaria deixá-los também? Adormeci com estes pensamentos e tive um sono horrível. que não era o filho de Deus. A minha companhia fora da revista era algo que eu jamais imaginei que fosse pedir um dia. algum pescador? Pensei nos meus pais.falei em voz alta. Cheguei em casa e não consegui dormir. Nunca os vira tão felizes.Quantos será que ele convidou? Será que convidou o bandido Tiago? Será que chamou alguma prostituta. num monólogo despreocupado com interlocutor. Podia até imaginar meu pai falando com os amigos. ou mesmo se algum vizinho estava ouvindo do outro lado das finas paredes do pequeno apartamento. Fui eu que montei cada móvel. comprei cada peça de decoração.Desgraçado. Ficava dizendo que seu nome era Emanuel. Eles estavam orgulhosos de mim. que não fazia nada de extraordinário. Parecia que se realizavam com o meu sucesso. pintei as paredes. De repente eu senti que era um estranho em minha própria casa. mostrando as capas da revista e as outras reportagens que eu havia feito ultimamente. eu não teria o menor constrangimento em ir com ele.Por que não foi chamar algum Pedro? Não sabe que Paulo não era um dos doze? . não admitia nem mesmo que fazia milagres. por que fazer isso comigo? . Como será que os dois reagiriam se eu largasse tudo e fosse conquistar o mundo com um cara que diziam ser a reencarnação de Jesus Cristo? Certamente pensariam que eu estava me achando a reencarnação de algum apóstolo.não soube o que dizer. Mas negava. fiquei quase sem palavras. . Eu não podia dar esse desgosto a quem sempre me dera tudo o que estava ao seu alcance.indd 101 27/11/2007 09:36:15 . Se dissesse que era. Nem parecia que eu morava naquele apartamento desde que saí da casa de meus pais. Minha mãe devia estar insuportável entre suas amigas de bingo. Imaginei a decepção dos dois.

com meus pais. Eu não suportava a idéia de decepcioná-los, de abandoná-los. Tinha medo que morressem e eu não estivesse por perto. Apesar da noite mal dormida acordei mais atento do que nunca. Esperava um sinal que me dissesse se eu deveria ou não aceitar o convite de Emanuel. Minha razão dizia que aquilo era loucura, mas meu coração acreditava sinceramente nas palavras do Cristo da periferia. Acho que o Mundo queria me testar, pois não mandava um sinal sequer, nem de que deveria aceitar, nem de que deveria recusar. Se eu tivesse um casamento ou uma namorada nem hesitaria em recusar o convite. Mas até nisso meu coração estava vazio naquele momento. Não tinha compromisso emocional com ninguém, nem mesmo um affair. Desde que o último namoro terminara de forma conturbada dediquei-me somente ao trabalho e um amor não me fazia falta. Fazia dois anos que minha namorada resolvera trocar-me pela carreira. Estudávamos na mesma faculdade, mas ela estava um ano à minha frente. Devo a ela grande parte do meu diploma, pois passamos noites inteiras estudando e fazendo trabalhos. Saí da casa dos meus pais pensando em preparar o caminho para nos casarmos. Ela passava mais tempo no meu apartamento do que na casa dos pais e isso me fazia sentir muito bem. Quando se formou e foi convidada para trabalhar na Itália, pensei que era um prenúncio de sucesso para ela e para mim. Um emprego remunerado em euros e uma casa em Gênova seriam os primeiros passos para o casamento dos sonhos. Ela procurou emprego por seis meses e não conseguiu nada, a não ser algumas matérias como free-lancer. De repente recebeu o convite de uma amiga que já estava na Itália se dando muito bem na profissão. Faltavam seis meses para me formar e eu disse a ela que esse tempo passaria depressa, que deveria aceitar o convite e ir preparar o caminho para o nosso casamento. Ela então aceitou, mas, quando faltavam alguns dias para embarcar, disse que não gostaria de deixar um compromisso aqui no Brasil, que queria começar vida nova sozinha, sem nenhuma obrigação comigo. Levei o maior susto, pois eu apostava tudo naquela relação. Nunca mais ouvi falar dela e, sinceramente, jamais me interessei em saber nada que lhe dissesse respeito. A mágoa foi muito grande. Desde então não tivera envolvimento sério com ninguém. Parece que até nisso o Mundo preparou 02

O Cristo da Periferia.indd 102

27/11/2007 09:36:16

o caminho para que eu estivesse livre para aceitar o convite de Emanuel. Mas ainda restava meu emprego. Ainda restavam meus pais. Não era fácil largar tudo e partir numa aventura irresponsável e inconseqüente. Pensei em pedir férias, mas a menina do departamento de pessoal disse que eu só poderia sair em férias depois que completasse um ano no emprego, e o chefe ainda tinha mais um ano para marcar a data, a critério dele. Pedi uma licença de trinta dias, mas o chefe não autorizou. Então tentei o último recurso: fui falar com o chefe e contei a ele da possibilidade de fazer uma reportagem especial, com um repórter convivendo diuturnamente com o Cristo da periferia. O chefe não gostou da idéia e me deixou como única alternativa pedir demissão. - Esse assunto já esgotou para publicação em revista, Paulo. Como eu disse, comporta apenas uma nota ou outra. Se você quiser escrever mais sobre ele saia e escreva um livro. Eu estava encurralado. Esperei tanto para arranjar um bom emprego, passei meses sendo tratado como um idiota e, na hora em que consegui o respeito profissional e passei a ganhar melhor, me vem o Emanuel com uma proposta do Mundo para eu largar tudo. Isso me tiraria do que era absolutamente certo e me jogaria no duvidoso, ou melhor, no absolutamente improvável. Estava decidido: Eu não iria com Emanuel. No dia seguinte passei na casa dele para dar a minha resposta. Dona Maria veio me receber no portão com um abraço. Quando perguntei do filho, ela disse: - Partiu esta manhã com os escolhidos, Seu Paulo. Ele só estava esperando a sua resposta, mas parece que o senhor resolveu não ir, não é mesmo? Então eles se foram. Estranho! Eu estava ali para dar a resposta e ele já sabia da minha decisão. Esse Emanuel me intrigava cada vez mais. Com certeza ainda nos encontraríamos. Enquanto eu olhava para a Dona Maria com os pensamentos tumultuados pela decisão que tomei, uma voz inesquecível ecoou em minha cabeça, com o mesmo pedido que eu já havia recebido: - Fale a eles dos meus pequeninos! 103

O Cristo da Periferia.indd 103

27/11/2007 09:36:16

Dona Maria continuou impassível, como se não ouvisse o que eu ouvi. Mas aquelas palavras continuaram badalando como um sino em meus ouvidos, e ainda vêm à mente quando penso no que me aconteceu naquele dia.

104

O Cristo da Periferia.indd 104

27/11/2007 09:36:16

Então Jesus disse a seus discípulos que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. Só então entendi o sinal que recebera. Parece que o Mundo. como ele chamava. então. Fui chamado pelo Cristo da periferia e me apeguei aos valores materiais. pegou pesado com o cara e disse que ele precisava vender tudo que tinha. pois qualquer decisão que tomasse seria aceita como a escolha de um caminho numa encruzilhada. Fez milagres. Para os padrões dele eu era rico mesmo. Lembrei de uma passagem que vi num filme infantil: Um homem muito rico se aproximou de Jesus e perguntou o que precisava fazer para entrar no reino dos céus. gosta de deixar as pessoas com decisões complicadas para tomar. com os conflitos pelos quais me fez passar. O último sinal que recebi foi a repetição do pedido: “Fale a eles dos meus pequeninos!” Isso me deixava com uma obrigação. Meu conforto era a promessa de Emanuel.30 Voltei à minha vida de repórter. Eu me senti como a versão moderna desse cara. Deve ter se divertido muito com a minha dúvida. O cara “amarelou” na hora. mas com uma sensação de perda muito grande. Emanuel sempre me disse que não era Cristo. mas mesmo assim agiu como um. que o meu lugar era mesmo ali. gosta de uma brincadeira de vez em quando. 105 O Cristo da Periferia. doar o dinheiro aos pobres e seguir Jesus por onde Ele fosse. da sociedade paralela. Durante todo aquele tempo não percebera que Deus queria que eu permanecesse no meu emprego. leu pensamentos e saiu pelo mundo chamando as pessoas para um novo modo de vida. pois tinha coisas que ele só poderia ter se roubasse muito. de que eu poderia continuar minha carreira com tranqüilidade. Jesus. Eu devia usar minha profissão para falar dos pequeninos.indd 105 27/11/2007 09:36:16 . Embora não fosse rico. Mas eu tinha que ser submetido a um teste para ver se estava mesmo decidido em meu caminho. o bandido Tiago me chamou de magnata porque eu tinha um carro popular e uma conta no banco.

não mudou a necessidade da maioria das pessoas. Em pouco tempo Emanuel ficou famoso como curandeiro no bairro. eu soube que partiram para o interior. daquelas que ainda são privadas de boas escolas. a sociedade paralela. Um ou outro jornal. de vez em quando. pois proporcionaram a criação de diversos programas de melhoria das condições de vida da população de baixa renda. entretanto. O povo continua doente e desdentado. depois. pois ele não queria ficar conhecido como curandeiro ou milagreiro. tanto pelo lado da fé quanto pelo lado dos bandidos e traficantes. sempre buscando os bairros menos favorecidos. de cidade em cidade. porque o Mundo quer que sobreviva. As mudanças que a reportagem provocou foram importantes. Depois disso ele e seus discípulos vagaram pelos bairros da periferia. Será que chegará ao seu destino? Será que chegará ao coração das pessoas? 06 O Cristo da Periferia. pois atingiram domínios alheios. que entendessem os sinais do Mundo. Queria que as pessoas o vissem como um mensageiro. Esta é a mensagem de Emanuel.indd 106 27/11/2007 09:36:16 . permanecendo o tempo que fosse permitido que ficassem. Andaram pelos municípios da região metropolitana e. Isso. Em pouco tempo foram expulsos do bairro. de laboratórios e remédios. mas não esquecido. de postos de saúde.Não demorei a ter notícias de Emanuel. publicava uma nota ou matéria curta sobre seus feitos. Ele saiu da Vila Nazaré e foi morar num outro conjunto habitacional da periferia. Um ou outro repórter sempre o encontrava e vinha comentar comigo. Isso era estranho para mim. pois todos sabiam do prêmio “melhores do ano” que ganhei pela reportagem que fiz sobre Ele e a sociedade paralela. Ele e seus seis discípulos dormiam no chão durante a noite e recebiam as pessoas doentes durante o dia. numa casa abandonada.

Estou feliz por ter ficado no Brasil para conhecê-la. Minha vida afetiva também mudou muito. Se eu não tivesse sido rejeitado pela outra. então. em pouco mais de um ano. pois fiz minha carreira sozinho e somente depois 107 O Cristo da Periferia. Começamos a sair juntos depois do expediente e. eu era um dos mais respeitados jornalistas da cidade. apenas nos acostumamos com a presença um do outro e nossa relação durou enquanto foi conveniente. Dei sorte de estar na redação no momento em que chegou a notícia da queda de um avião perto dali. já estávamos casados. Quando ela viu a oportunidade de uma vida nova.indd 107 27/11/2007 09:36:16 . certamente teria ido morar na Europa e poderia estar infeliz ou separado. Quando comecei a trabalhar na televisão conheci uma repórter que já trabalhava lá. depois de onze anos de carreira. com salário bem melhor. mas depois percebi o quanto isso foi bom para mim. como repórter. quando minha noiva me deixou para ir viver na Itália e não quis manter o compromisso. De repórter logo passei a apresentador de telejornal e. não pensou duas vezes. que me fez ver o amor por outro ângulo. Fui convidado. Então encontrei uma pessoa adorável e sincera. em pouco tempo. No começo só me davam para fazer matérias sem nenhuma expressão. cheguei a âncora e redator-chefe no mesmo telejornal em que comecei sete anos antes. Iniciei numa revista de segunda linha. mas meu coração estava pronto para amar sem que eu percebesse. Embarcou imediatamente. Foi a minha primeira capa. para trabalhar na televisão. pois agora enxergo claramente que não nos amávamos. que me fez esquecer aquele medo inconsciente que eu tinha de ser rejeitado outra vez. Naquele tempo fiquei muito magoado. Minha ascensão coincidiu com o crescimento da própria revista no meio jornalístico e. Pensei que seria mais difícil me apaixonar novamente depois da experiência traumática que tive em meu relacionamento anterior. sem pensar nas conseqüências de sua decisão em minha vida.31 Minha vida mudou muito desde que comecei a carreira no jornalismo.

pois é nosso maior patrimônio. Sempre nos ensinou a dar valor a tudo o que temos. Às vezes passávamos semanas inteiras conversando pelo telefone e pela internet. que criou seus filhos com um bom padrão. Isso possibilitou sua ascensão a repórter internacional rapidamente. Mas o governador e o prefeito eram convidados do Dr. Também conversávamos nas 108 O Cristo da Periferia. Jordão. principalmente porque ela vivia viajando para fazer matérias no exterior. muito influente e sempre envolvido em campanhas eleitorais. um menino esperto. como se eu fosse um velho conhecido. estavam presentes todos os nossos parentes e amigos. Falava fluentemente inglês. Ao contrário. o Bruno. Jordão. Até o prefeito e o governador vieram me cumprimentar. conservando-o com honra e caráter. Foi uma cerimônia muito bonita.de consolidada foi que conheci a mulher ideal. O resto ficou por conta da sua competência e da qualidade do seu trabalho. O pai de Graça. patrocinou um jantar. Graça é uma pessoa encantadora. um simples representante comercial. Não quisemos ter mais filhos porque eu e ela passamos muito tempo na redação e quase não podemos estar juntos os três.indd 108 27/11/2007 09:36:16 . hoje com cinco anos de idade. italiano e espanhol. Bem diferente do meu pai. no Clube Curitibano. A única influência do pai em sua carreira foi a indicação para um estágio na televisão. desde cedo se acostumou a batalhar pelo próprio sustento. A partir daí galgou todos os degraus por seus próprios méritos. Eu e Graça nos casamos na igreja de Santa Terezinha. Dr. Claro que já conhecia muitos lugares. mas sem muito luxo ou extravagância. para quinhentas pessoas. quando era estudante. sem depender do pai. que tem uma indústria na Cidade Industrial de Curitiba. Não estou dizendo que Graça foi criada sem esses valores. principalmente aos amigos e ao nome. Meus irmãos vieram com suas famílias ver o casamento do último irmão solteiro. Minha mãe estava muito emocionada e meu pai orgulhoso. Tinha gente importante lá. Sua criação num ambiente abastado não fez dela uma pessoa prepotente. É a vantagem de ser repórter da televisão: você entra nas casas e acaba fazendo parte das famílias sem sequer conhecê-las. mas apenas enaltecendo meu pai. Tivemos um filho. o que também ajudou na sua escalação para reportagens no exterior. francês. profissionalíssima e honesta em tudo o que faz.

tomadas que ela fazia pelo satélite. a mãe teve que frear um pouco a carreira para se dedicar a essa experiência fantástica que é criar uma vida nova. Convites não faltaram. graças a isso. Depois que saí da revista passamos a ser amigos. pois nunca teve coragem de largar a revista para tentar a sorte num outro veículo de comunicação. Graça tentava suprir isso com conexão por webcam todos os dias. Com isso eu tive mais oportunidades profissionais que ela. Sempre que tínhamos necessidade de alguma troca de informações conversávamos com sinceridade. alguns investimentos. Construímos uma bela casa. mas já estava acostumado a ele. antes de entrar no ar. pois acho que é muito mais competente que eu. Aprendi muito com ele. com nosso filho. Às vezes me via como meu primeiro chefe: absolutamente nervoso e falando com todos ao mesmo tempo. Independentemente de ser casada comigo. um ser vivo com vontade própria e com uma personalidade que nos surpreende a cada dia. Acho que ele se realizou em mim. Por isso 0 O Cristo da Periferia. O pequeno Bruno era quem mais sentia a falta da mãe quando ela viajava. Quando ele nasceu. pois é muito bom no que faz. Então ele projetou em mim os sonhos que não realizou pessoalmente. O trabalho na redação era estressante. enfim uma vida boa. Ela poderia trabalhar em qualquer lugar do mundo. alguns imóveis alugados. Tudo o que faz é bem feito. Faltou a ele segurança para abandonar aquilo que havia lutado tanto para conquistar: uma revista de primeira linha. Muitos deles ela já conhecia e me levou para compartilharmos. Assim podíamos estar juntos apesar da distância. respeitada pela seriedade e credibilidade de seu jornalismo. bons planos de aposentadoria programada.indd 109 27/11/2007 09:36:16 . Com nosso sucesso profissional conseguimos formar um bom patrimônio. além de muito carinho quando estava em casa. que justifica todo o nosso esforço. pudemos viajar para conhecer vários lugares do mundo. a alegria de sermos uma família feliz. Conseguimos tirar alguns dias de férias juntos todos os anos e. Ainda bem que a tecnologia evoluiu bastante nos últimos anos. é uma das melhores repórteres que conheço. pois é a eficiência em pessoa. sem ajuda de ninguém. compramos outras no campo e na praia. Rimos muito das nossas experiências passadas.

como se visse a si próprio trinta anos mais jovem. àquele velho mestre. mesmo abrindo mão de seu melhor repórter. pois pagavam muito bem e. mas para mim parece que sempre trabalhei para prestar contas àquele velho chefe. Você tem talento.me apoiou tanto para mudar quando fui convidado para trabalhar na televisão.indd 110 27/11/2007 09:36:16 . Depois de alguns instantes falou: . Eu entrei na sala dele e falei rapidamente. 0 O Cristo da Periferia. Mais do que o apoio. filho. Justifiquei dizendo que era uma proposta atraente. depois de dizer como estava minha matéria daquela semana. na próxima edição. aquela declaração de admiração ao meu talento me comoveu. Deixe que eu cuido de tudo aqui.Vá em frente. Ele parou de falar por um instante e me fitou como se olhasse através de mim. seria um novo desafio na minha carreira. como ele mesmo me falou posteriormente. Acho que foi a primeira vez que vi o chefe parar de pensar. que fui chamado para um emprego na televisão. ainda. Tive outros chefes. por um instante.

32
Freei bruscamente o carro para evitar atropelar um maluco que atravessou correndo a rua. Ele veio correndo a pé, de uma via lateral, e nem olhou para os lados para atravessar a pista. Parecia até que estava fugindo de alguém. Infelizmente o carro que vinha na pista ao lado não teve a mesma percepção que eu e atropelou o homem, arremessando seu corpo alguns metros à frente. Num acidente o cérebro funciona muito mais rápido que o normal e as coisas parecem acontecer em câmera lenta. Tive tempo de ver o corpo do homem rolando sobre o capô do carro, amassando-se contra o pára-brisa e, após a parada do veículo, voar e se espatifar no asfalto como se fosse um saco de cereais jogado por um estivador. Na minha vida de jornalista vi muita gente morta, mas uma tragédia assim, ao vivo, eu jamais presenciara. Estacionei e corri para prestar socorro à vítima. Era muito importante verificar os sinais vitais e imobilizar o homem até que o socorro chegasse. Para isso eu já estava com o telefone celular na mão, pronto para acionar o serviço de resgate do corpo de bombeiros. Cheguei à vítima quase ao mesmo tempo que o atordoado motorista que a atropelara. O homem estava esticado de bruços no chão, respirando ofegante, o rosto deitado sobre os braços dobrados como um travesseiro. Tomei a dianteira da situação, pois o outro motorista estava pálido como um cadáver e parecia mais precisar de ajuda do que estar em condições de ajudar. Virei a vítima, que continuou com os braços encobrindo o rosto e respirando ofegante. - Não se mexa - falei - o socorro já está a caminho. O homem estava vivo e isso foi um grande alívio para mim e para o outro motorista. Percebi que usava roupas muito simples, que o cabelo não tinha corte, a barba estava por fazer. Parecia um andarilho, que devia estar fugindo de alguém por causa de algum pequeno furto. Mas não carregava nenhum volume, o que me fez pensar que poderia ser um assaltante. Revistei instintiva, mas discretamente o seu corpo, fingindo procurar alguma fratura, mas na verdade 

O Cristo da Periferia.indd 111

27/11/2007 09:36:17

procurando uma arma. Nada. Nem mesmo um documento ele levava. - Como é seu nome, amigo? - perguntei. Ao ouvir minha pergunta ele tirou o braço de sobre o rosto e agarrou minha gravata, puxando-me para perto. Pensei que fosse me dizer o nome, mas disse apenas, com uma expressão de quem sentia muita dor: - Ele está morto! Não entendi o que ele disse. Sinceramente fiquei tonto com o terrível mau hálito do sujeito, que não devia visitar um dentista havia muito tempo. - Eles o mataram. Eles tiveram coragem de matá-lo de novo. Uma mão com luva me puxou para longe do pobre miserável, enquanto ele chorava compulsivamente, dizendo palavras desconexas. Era um paramédico que me afastava da vítima, enquanto outro já lhe colocava um protetor de pescoço, para evitar lesão da coluna cervical. Logo veio um terceiro com uma maca. Estavam passando pelo local e não precisaram ser chamados. Colocaram-no na ambulância e saíram em disparada, sirene estridente ligada. Dei meu cartão de visita ao homem que atropelou o coitado, oferecendo-me como testemunha para comprovar num tribunal, se fosse preciso, a sua impossibilidade de evitar o acidente. A polícia já estava por ali fazendo o levantamento. Deixei o local pensando na fatalidade acontecida. Quem seria aquele miserável? Será que tinha família? São pessoas como aquela que morrem e são enterradas em valas comuns. Se não aparecem parentes, seus corpos são doados para universidades, onde são cortados e costurados pelos estudantes de medicina em experiências científicas ou aulas práticas. Aquele coitado teve sorte de sair vivo, mas podia estar com alguma hemorragia que o levasse à morte. Pela sua aparência dava para ver que não tinha plano de saúde. Certamente o serviço público de saúde não faria muita questão de preservar sua vida se isso dependesse de algum procedimento mais complexo. Pensei no que me disse. Devia estar delirando pela morte de algum amigo. É normal que bandidos se matem uns aos outros. Vejo isso quase todos os dias no telejornal que apresento. Se ele estava sem documento 2

O Cristo da Periferia.indd 112

27/11/2007 09:36:17

só podia ser um bandido e estava fugindo para não ser morto como seu amigo. Só não entendi o que quis dizer com “mataram ele de novo.” Devia ser alguma alucinação do pobre homem.

113

O Cristo da Periferia.indd 113

27/11/2007 09:36:17

Esta mulher me conhece até pelo brilho dos olhos. Um apresentador tem que ser também um artista. Fiz um esforço muito grande para não demonstrar que eu não estava bem. percebeu que eu não estava bem. Acordei sobressaltado. tomar outro banho e trocar de roupa. Ainda bem que a minha equipe é eficiente e eu só precisei deixá-la trabalhar. pois deve dar as notícias sem demonstrar seu estado emocional. Nisto sou muito exigente e não seria eu quem quebraria esta regra. Se não iria ao ar. Não seria honesto gastar o dinheiro da televisão com uma notícia tão corriqueira quanto aquela. Era madrugada ainda e meu coração batia rapidamente. Concluí que não é bom que jornalistas sejam parte das notícias.33 Cheguei atrasado à redação. pois estava todo suado e sujo de sangue. principalmente. Pensei em usar minhas fontes para descobrir em que hospital foi internado. pois diminuiu minha produtividade. Olhando-me no espelho vi um homem experiente. Só Graça. porque quebrou minha concentração. Levantei e fui ao banheiro.indd 114 27/11/2007 09:36:17 . Eu não conseguia tirar da cabeça aquela cena do homem rolando sobre o carro e voando até cair no chão. Atropelamentos acontecem com freqüência e não interessam a ninguém. o jornal não iria ao ar. não só pelo tempo que fiquei parado mas. que estava de folga naquele dia. mas desisti. eu não poderia desperdiçar o tempo da redação. minha mulher maravilhosa. Se dependesse da minha presença de espírito. Antes de seguir para o trabalho tive que voltar para casa. parecendo querer saltar do peito. pois assistiu ao jornal e me sentiu sem o brilho nos olhos que sempre vê. Quando cheguei em casa perguntou o que eu tinha naquela noite. O acidente daquela manhã foi responsável pela confusão do meu dia. Contei o que aconteceu pela manhã e ela entendeu o motivo pelo qual eu não estava bem. parecendo ter mais 114 O Cristo da Periferia. Naquela noite o jornal saiu como tinha que sair. O problema foi que a minha quebra de concentração prejudicou o trabalho.

Depois daquele vôo que não acabava nunca. Pensei no sonho que me tinha feito acordar daquele jeito. caí com o rosto no chão. Fui à cozinha tomar um copo d’água e voltei para a cama. mas suas palavras confusas agora pareciam claras como o dia. De repente eu já não era mais a vítima. Num instante vi toda minha vida passar diante dos olhos. Estava meio morto. Só que no meu sonho era eu quem havia sido atropelado. Dentro de pouco tempo eu estaria grisalho como o Cid Moreira.Tiago! 115 O Cristo da Periferia. Estava socorrendo e virando o corpo daquele homem e vi o seu rosto. já não senti seu hálito fedorento e pude olhar bem em seus olhos. antes que ele tornasse a cobri-lo com os braços. Dormi ainda impressionado pelo acidente. Era assim que estava o miserável que eu havia socorrido. Quando ele descobriu o rosto e começou a falar do amigo morto. embebido em sangue. Os cabelos brancos começavam a aparecer. Aqueles traços não me eram estranhos. Coloquei os braços entre meu rosto e o chão e os senti encharcar em sangue.indd 115 27/11/2007 09:36:17 .do que os meus trinta e seis anos. meio vivo. mas não sentia dor alguma. Aquele homem estava maltratado pela vida e pelo acidente. completamente ensangüentado. Por isso acordei de sobressalto com um nome em minha cabeça: .

Um dia os traficantes o mandaram parar de receber multidões na sua casa e ele saiu pelo mundo fazendo “milagres”. Será que aquele lugar ainda existe? Depois desse dia ele abandonou a profissão de carpinteiro e passou a se dedicar somente a ajudar as pessoas carentes com apoio espiritual. Recebi muitos “sinais do Mundo”.indd 116 27/11/2007 09:36:17 . uma profissão que não exige maiores habilidades. Os cabelos. eu conseguia entrevistas exclusivas e informações privilegiadas diretamente da fonte. pois entendia os sinais do mundo e somente seguia o que esses sinais diziam. Acompanhei sua trajetória de perto. Por algum tempo tive notícias dele mas. Tinha a pele enrugada e muito queimada pelo sol. Ele era considerado por muitos como a reencarnação de Jesus Cristo. Mas confesso que fiquei em dúvida diante do convite. apresentavam entradas muito acentuadas. Lembrei de Emanuel. Nem penso no que teria me acontecido se tivesse aceitado a proposta. as notícias foram rareando e nunca mais eu soube de seu 6 O Cristo da Periferia. Devido a essa confiança. pois era bem mais novo que eu e agora parecia mais velho. como ele chamava. que prenunciavam uma calvície. pois era um repórter iniciante e ele confiava em mim de uma forma especial. Imagino que não teria nada do que tenho hoje. pois fazia coisas inexplicáveis. numa piscina natural sobre um piso de pedra. naquela época.34 Toda aquela história me veio à mente quando lembrei da fisionomia de Tiago. Para ele as coisas que fazia eram normais. e disse que ali ouviu a voz de Deus. O interessante era que ele tinha uma inteligência excepcional e não aproveitava isso para ganhar dinheiro. o ladrão que tentou me assaltar dez anos atrás. Uma vez Emanuel me levou a um lugar maravilhoso no meio do mato. Eu realmente estava impressionado com Emanuel e com a coerência do que dizia. Morava numa casa humilde da periferia e trabalhava como carpinteiro. depois que saiu da cidade. com muitos fios grisalhos. Quando teve problemas com os traficantes propôs que eu largasse tudo e saísse com ele pelo mundo. que havia impedido o assalto. O tempo foi cruel com ele.

. . certamente estaria preso ou morto.vocabulário 117 O Cristo da Periferia. Você é a minha vítima mais famosa. De assaltante virei apóstolo de Cristo e agora estou aqui.disse com voz baixa. . Belo estrago conseguiu o seu amigo.Sim. Eu o tenho seguido nos últimos dez anos por este mundo.É.disse-me o médico ao telefone. hein? . Aprendi muitas coisas com ele. um braço. pulmão furado e um traumatismo craniano. em tom de surpresa. reconheceu-me imediatamente e tentou sorrir.. Quando parei diante dele. que deviam ter sido raspados.Vejam só quem resolveu aparecer! O magnata da tevê . ainda sob efeito de sedativos. Pela descrição de Tiago e do acidente meu amigo soube imediatamente de quem eu estava falando. Deve fazer uns dez anos.Você ainda lembra de mim? – Perguntei. Se não fosse por ele eu ainda seria um ladrão. ou um traficante. dez anos! Minha vida mudou muito nesse tempo.Você está falando do Emanuel? .Não sei o que significa essa palavra que você falou . todo quebrado. . depois do trabalho. Sempre que te vejo na televisão eu lembro daquele dia em que quase te assaltei. À noite. Telefonei para o Hospital do Trabalhador e falei com um amigo que é médico e estava de plantão na noite anterior. além da clavícula.. Vejo que você não mudou só no vocabulário. . . todo engessado e com a cabeça enfaixada. uma perna. escondendo os cabelos. Acho que já tem uns bons anos. Ele estava numa enfermaria com seis camas. algumas costelas. . não tem? . Teve que operá-lo às pressas porque apresentava sintomas de hemorragia interna em decorrência das fraturas. O homem morreria se não tivesse tido a sorte de receber socorro imediato. .E como não lembrar? Todos no hospital vêm me ver porque sou o cara que você salvou no acidente.Que bela mudança.paradeiro.Vai ficar algum tempo impedido de andar porque fraturou também a “bacia”. Não era horário de visitas mas a enfermeira abriu uma exceção porque me conhecia da televisão.indd 117 27/11/2007 09:36:17 . passei no hospital para falar com Tiago. Não foi difícil descobrir em qual hospital Tiago estava internado.Poxa.

É bem melhor ter um coração magnífico numa tapera.Foi na cadeia. mas algumas pessoas se indignavam com as coisas que dizia.Eu não entendo. Se dependesse dele. . Isso não tem lógica. pararem de ir aos templos externos.Então foi por isso que o prenderam? . Deus aprecia muito mais os humildes do que os soberbos.Eles o mataram! . . .Então era mesmo dele que você estava falando quando foi atropelado?!? Como foi que isso aconteceu? .Eu sei.indd 118 27/11/2007 09:36:17 . Ele havia nos avisado que viriam prendê-lo.mas tem muita coisa boa em mim.Mas por que o mataram? Ninguém tem esse direito! Quando foi isso? .O motivo que eles deram foi a invasão de casas desocupadas e o curandeirismo. Quando me contaram que ele estava morto. Eles o torturaram muito.Ele está morto! . mas não reagiu quando o algemaram e puseram no camburão.Mas ninguém pode ser preso por expressar suas crenças religiosas.Mas por que ele foi preso? . .falou com os olhos se enchendo de lágrimas .Como está o Emanuel? Eu gostaria de vê-lo outra vez. mas ele parecia não se importar com isso. eu saí 118 O Cristo da Periferia. Jesus me mostrou isso.Foi ontem. A polícia não prende alguém sem um motivo..Ele não fazia mal a ninguém. esta é a verdade. Deve haver mais alguma coisa por trás dessa prisão. . As igrejas têm muitos adeptos. Ele dizia para as pessoas pararem de pagar o dízimo. . Acho que foi por isso que o prenderam.Prenderam porque ele estava esvaziando as igrejas. Ele também sabia disso. . . até dentro da polícia. não haveria religiões. Eles já haviam avisado para o Jesus parar de ficar curando as pessoas por aí. De nada adianta um coração de pedra num templo magnífico. porque o verdadeiro templo está em seus corações. E o Emanuel perturbava a existência desses que só querem o dinheiro do povo. .

indd 119 27/11/2007 09:36:17 . despertou em mim uma vontade imensa de encontrá-lo novamente.  O Cristo da Periferia. e não posso ir ao velório do meu mestre. A conversa com Tiago. Tiago voltou a chorar e eu preferi deixá-lo a sós com a sua angústia.correndo desesperado e fui atropelado. todo quebrado. Infelizmente só poderia vê-lo morto. Agora estou aqui. Quando falou sobre o velório de Emanuel. Eu iria ao enterro. me veio à mente o mesmo pensamento. sua devoção a Emanuel.

indd 120 27/11/2007 09:36:17 . Quase me perdi no caminho. Algumas pessoas estavam em frente à casa. só pessoas aglomeradas e conversando. muitas cercas foram trocadas por muros. Antes pareciam arbustos que insistiam em sobreviver aos ataques dos vândalos. Mas Emanuel estava longe de ser uma pessoa convencional. porque era noite e fazia muito tempo que eu não ia lá. vão 20 O Cristo da Periferia. Eu assisto o jornal todos os dias só para vê-lo. Continuava com a mesma maquiagem carregada. Dona Irene. desde ontem.Seu Paulo. com dois andares e uma construção nos fundos. A vida às vezes nos afasta das pessoas que gostamos. Na vila as casas foram modificadas.35 Cheguei à Vila Nazaré. Dez anos se passaram e eu estava ali de volta. A casa de Dona Maria. Ela não havia mudado nada. As árvores das ruas e praças estavam enormes. parecia ter parado no tempo. . -É bom que ele passe por uma autópsia. Ao entrar na casa não havia nenhum caixão. Ele era muito bom e não merecia morrer. O senhor ficou rico e esqueceu de nós. ainda não entregaram para a mãe enterrar. . é bom vê-lo de novo pessoalmente. Dona Irene estava por ali e veio me abraçar. mas muito amável. pois estava igualzinha. A casa de Dona Irene estava ampliada. Pensei que ia encontrar um velório aqui. inclusive naquele lugar onde Emanuel ouviu a voz de Deus. Outros conjuntos habitacionais foram construídos ao redor. Eles levaram para o Instituto Médico Legal e. com os pensamentos voltados para os momentos felizes que vivi naquela casinha humilde e para a tragédia que me trazia de volta ao lugar. Deve andar muito ocupado. Se foi torturado. Que pena que tenha precisado morrer o Emanuel pra o senhor voltar aqui. ainda que morto. revelando seu bom coração.Pois é.O corpo não chegou ainda. o que me fez pensar que o velório transcorria normalmente. mas eu guardo boas recordações da senhora e deste lugar. contudo. Entrei cumprimentando as pessoas que acenavam como se me conhecessem. .

. e veio me abraçar afetuosamente. né? Matarem o coitado.Disseram que ele escorregou. Dona Maria. . Ele tinha trinta e três anos. Ao me ver deixou de lado o coador. é mesmo! Que homem predestinado ele foi. aqui eles são a justiça. Não é verdade. Diante de um pedido tão emocionado.Claro que não. meu Deus? Dona Maria falava em voz alta e suas perguntas ecoavam por toda a casa.descobrir como foi que morreu. . eles vão levar três dias pra liberar no IML. Os responsáveis por isso terão que prestar contas à justiça. Por favor. Seu Paulo. mexeu com os poderosos da fé e foi torturado até morrer.Veja o senhor. Seu Paulo. Estava com um semblante muito abatido. Liguei 2 O Cristo da Periferia. o que fazia parecer que tinha muito mais idade. Seu Paulo. mas através de mim. O senhor é estudado. .A Maria está lá na cozinha. traga o corpo do meu filho pra eu velar.Eu estou precisando enterrar o meu filho. mas ela parecia uma velhinha cansada. Se ninguém importante pedir. pra eu chorar perto dele.Se o corpo dele foi para o IML vão descobrir a causa da morte. . que judiação. Devia ter sofrido muito nos dez anos que se passaram desde que a vi pela última vez. bateu a cabeça e morreu. Eu não tinha resposta para nenhuma das suas perguntas. Não estava falando comigo. com lágrimas correndo pelo rosto.indd 121 27/11/2007 09:36:17 .Oh. Os traços bonitos ainda estavam em seu rosto.Tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar? A senhora está precisando de alguma coisa? .Só se for a justiça de Deus. . não tive como recusar. Pois nem na hora da morte escapou das coincidências com Jesus Cristo. Mataram o meu filho! E onde está ele agora? Onde está o corpo dele? Onde está o espírito dele? E as coisas que ele falava? Por que Deus deixou matarem ele? Por quê. Veja só que maldade fizeram com o meu filho. O senhor acha que precisavam matar ele? . no qual passava um café. . .Meu Deus. Quer vê-la? Entrei na cozinha e deparei com Dona Maria. Mataram ele. é famoso.

Estamos com um problema sério em relação ao corpo do seu amigo. . pois conhecia alguém no IML e já foi fazendo contatos enquanto eu dirigia para lá.Olá. esperando a liberação de seus mortos. por quê? . . Passei pelas pessoas que estavam do lado de fora.para minha esposa e contei o que aconteceu.Porque o corpo dele sumiu! 22 O Cristo da Periferia. mas os amigos e familiares disseram que foi torturado até a morte.Chame-me de Marta. Ela me deu uma boa ajuda. Levou-me até uma sala. onde uma médica me recebeu solícita. . Quando cheguei já estavam me esperando. . sou a Marta. e cheguei ao balcão. .Eu sei disso.Não pode. Disse que ia demorar mais ainda para chegar em casa. É um prazer conhecê-lo pessoalmente.É o que dizem. Pelo que eu ouvi falar a polícia diz que ele escorregou e caiu. . Não precisei dizer nada porque uma pessoa já abriu a passagem na lateral do balcão e me convidou para entrar. amiga da Graça.indd 122 27/11/2007 09:36:18 . Doutora Marta.Prazer em conhecê-la. mas eu não posso fazer a necrópsia.

Eu sugeri a participação de algum funcionário e você disse que não foi isso. como se os contornos da figura tivessem sido produzidos 123 O Cristo da Periferia. eu fiquei em pé e quase caí sentado de novo.Eu não sei. Ele foi trazido para cá e colocado numa sala. . Quando ela terminou de abrir o lençol e apontou para ele. é isso? . Marta? Você está me dizendo que a polícia o escondeu. Já haviam me dito que o caso era de suspeita de violência policial. Eu repudio esses policiais que se consideram juízes e carrascos. não é isso.Como sumiu. Levantou-se e foi abrindo-o sobre uma maca que se encontrava ao lado. Se você não sabe o que aconteceu. então? .Não.36 . Eu observava os seus movimentos nervosos. . o que está acontecendo aqui? Eu estou levantando hipóteses e você as está descartando como se tivesse certeza de que não houve uma invasão.indd 123 27/11/2007 09:36:18 .Então foi alguém aqui de dentro que o escondeu? . onde esperava que eu terminasse outra necrópsia para examiná-lo. O lençol estava marcado com uma imagem de homem.O que aconteceu. ele não estava mais lá. Sabia que não ia demorar a tocar o telefone. com este ou aquele delegado ou político pedindo para influenciar no meu laudo.Não.Afirmo com isso! Colocou sobre a mesa um lençol dobrado. Paulo.Então conseguiram burlar a segurança e levaram o corpo que já estava aqui? . Mas quando mandei trazerem o corpo. Era uma mancha marrom. . Estava disposta a examinar minuciosamente aquele corpo.Marta. estranhos para uma legista. como um sudário.Não. sentado na cadeira em frente à escrivaninha. como pode afirmar o que não aconteceu? . .

que esteja no corpo e não seja da vítima. Tirei o lençol e a maca estava tostada. não sei o que pensar. como se o corpo ainda estivesse sob ele. Marta? Como ele sumiu? .Isto que você está me dizendo é fantástico. quando ele descobrisse alguma matéria inédita. em corpos que queimam sem qualquer agente externo. Bem. ou um inseto pousar. Um bom artista levaria semanas para obter aquela precisão com um pincel e tinta. ou qualquer outro fator que influencie no resultado do exame. Dava até para reconhecer a fisionomia de Emanuel.por um ferro quente. É uma daquelas macas metálicas. . Fazia muito tempo que eu não apresentava uma reportagem pessoalmente. Enquanto o repórter tomava as informações. Eu já ouvi falar em autocombustão.Quando o enfermeiro avisou que ele havia sumido. com a marca das costas do homem. eu fazia as gravações e mandava o cinegrafista filmar 124 O Cristo da Periferia. eu cheguei e vi o lençol esticado. E ajudando-o com o furo jornalístico eu ficava em crédito para o futuro. eu corri até a sala e vi a maca com este lençol sobre ela. Até que a revista chegasse às bancas eu já a teria levado ao ar. dez anos atrás. mas aquele era um assunto ao qual eu estava tão ligado que não dava para deixar de me envolver. Os enfermeiros me contaram. igualzinho. . Sinceramente.indd 124 27/11/2007 09:36:18 . O lençol a gente põe por cima só para evitar que algum novo elemento se misture ao cadáver antes do exame. Pode cair ou sair alguma coisa. Ele não produziu chama. Mas esse corpo foi transformado em luz. que a gente usa aqui. Era como se alguém tivesse tirado o corpo e se dado ao trabalho de recolocar o lençol ali de novo. Examinei bem de perto e vi que não era possível que alguém tivesse feito aquilo manualmente. como uma forma. Sempre trocávamos essas gentilezas quando isso não prejudicava nossos patrões.Como foi isso. Liguei para a redação e mandei vir uma equipe de reportagem. pois a imagem era rica em detalhes. pode dizer quem foi o autor.Eu só fiquei sabendo disso depois que ele sumiu. por isso o lençol não virou cinzas. foi chamado de Cristo da periferia? . Você sabia que o corpo era do homem que. Também liguei para o meu ex-chefe e sugeri que mandasse uma equipe. pois era sábado e a edição dele já estava fechada. Às vezes até um fio de cabelo. Não faria nenhum mal dividir com ele a notícia.

cada detalhe do lugar, portas e janelas por onde alguém pudesse retirar ou esconder um corpo sem ser percebido. Mas o que mais me impressionava era o sudário e a maca. Aquilo corroborava toda a tese dos que afirmavam que Emanuel era o Messias. Imaginei o que diriam o cego Alcides e o seu pastor. Talvez eles próprios pudessem ser suspeitos de haver tirado o corpo dali. Eu não sabia o que pensar. Minha cabeça dava voltas e voltas. Tudo era estranho e tudo me impressionava. Terminei a reportagem e deixei uma pessoa ali para as providências finais, no aguardo de mais alguma informação. Mandei a equipe ir à Vila Nazaré tomar depoimentos e levar um recado meu para a Dona Maria. O filho dela havia voltado para o Mundo - como ele chamava Deus - e não havia corpo para enterrar. Já era madrugada e eu precisava dormir um pouco. Fui para casa apenas para deitar, porque não consegui dormir. - Meu Deus. Ele veio ao mundo e eu o rejeitei. Não atendi ao seu chamado.

125

O Cristo da Periferia.indd 125

27/11/2007 09:36:18

37
Amanheceu e eu ainda estava acordado. Era domingo e não precisava levantar cedo para trabalhar. Tomei café mais tarde, com Graça e o pequeno Bruno. Depois ficamos conversando, eu e ela, sobre o desaparecimento do corpo de Emanuel. Era difícil para ela, como repórter, acreditar na idéia sobrenatural que o caso sugeria. Eu mesmo não acreditaria se não tivesse visto aquele lençol e a maca. Lembrei da capacidade que Emanuel tinha de me desconsertar com respostas em forma de perguntas. Agora, depois de morto, me deixava uma porção de perguntas sem respostas. Como eu queria ter falado com ele mais uma vez, saber como tinha sido a sua vida nos últimos dez anos, se tinha ouvido a voz de Deus outra vez, enfim, saber como havia conseguido sobreviver todo esse tempo. Lembrei da indignação dele quando ouviu a voz de Deus. Foi a primeira vez que aconteceu alguma coisa que não sabia explicar. Mesmo os milagres que fazia, ou o fato de ler os pensamentos, eram para ele coisas normais, pois ouvia os sinais do Mundo e tudo era colocado em sua cabeça como se fosse uma conexão de internet. Por isso não admitia qualquer santidade ou sobrenaturalidade no que fazia. Mas, quando ouviu a voz de Deus, balançou em seus conceitos, principalmente porque a voz dizia: “Você é meu filho amado.” Isso o colocava em conflito com tudo o que dizia. Era incoerente, também, que Cristo voltasse para repetir uma história, pois isso seria inútil. As teorias cristãs dizem que Jesus só voltará no dia do juízo final. Então Emanuel repudiava qualquer fanatismo, mesmo porque tinha pai e mãe conhecidos, sem qualquer hipótese de concepção pelo espírito santo. Mas, quando ouviu a voz e foi chamado de filho amado, admitiu pela primeira vez a possibilidade de haver algum objetivo divino em sua existência. Dona Maria, a mãe, pediu que eu deixasse o filho dela em paz para viver uma vida normal, pois não havia nenhuma diferença entre ele e qualquer outra pessoa. No fundo ela morria de medo 26

O Cristo da Periferia.indd 126

27/11/2007 09:36:18

que o filho passasse pelo martírio de Jesus Cristo. Emanuel foi tudo que restou depois que o marido morreu num acidente. Pena que as coincidências, que sempre o perseguiram, levaram-no à morte, com a mesma idade de Jesus. Não crucificado, mas torturado até a morte. Almoçamos num bom restaurante e, depois, convidei Graça para ir comigo até a Vila Nazaré. Eu precisava ver como estava Dona Maria depois da notícia do desaparecimento do corpo de seu filho. Imaginei que estaria arrasada e indignada com o sumiço, pois era mais fácil acreditar que o corpo fora escondido para proteger os criminosos que o mataram. Minha mulher também pensava assim. Sinceramente, eu preferia que ela visse tudo de perto, para dar uma opinião isenta, pois eu estava visivelmente envolvido emocionalmente. Não tinha a menor condição de analisar friamente o caso. Depois dali eu queria que fosse comigo falar com a amiga dela, Marta, para ver o sudário e a maca. A médica também ficou muito impressionada com o que aconteceu. Como cientista era obrigada a buscar explicações lógicas para todos os fenômenos. Como legista devia investigar sinais ocultos que denunciassem qualquer tentativa de fraude. Tenho certeza de que ela era a pessoa mais indicada para fazer todos os tipos de testes para explicar o que aconteceu no IML. Estava indignada porque não havia nada na maca: nem cinza e nem sangue, nem mesmo um fio de cabelo ou outro pêlo qualquer que pudesse ser submetido a um teste de DNA. Eu só queria ver como ela ia administrar essa possibilidade de estar diante de um fenômeno sobrenatural, um verdadeiro milagre. Devia estar como eu, com a fé gritando de um lado e a razão do outro. A gente vive num mundo materialista, lógico demais, competitivo demais. Não tem lugar para uma fé irrestrita. A idéia de oferecer a outra face parece tão absurda quanto improvável. A promessa de uma recompensa futura, um paraíso somente depois da morte para quem viver uma vida de resignação, não convence a maioria das pessoas, inclusive eu. Por isso me tornei um católico não praticante e acredito que Marta também passou pelos mesmos conflitos. Deixamos o Bruno na casa da mãe de Graça e seguimos para a Vila Nazaré. Ele adorava ficar com os avós, que faziam todas as suas vontades. 127

O Cristo da Periferia.indd 127

27/11/2007 09:36:18

indd 128 27/11/2007 09:36:18 . mas eu pude notar uma paz muito grande. me disse: . prestava amparo apenas material. Do lado de Graça.Nem percebeu quando saímos. Surpreendentemente não estava abatida como no dia anterior. ainda no portão. Convidou-nos para entrar e sentar mas. como se tivesse sido confortada de uma forma muito especial. sequer trazendo a criança para conhecer os avós. Seus olhos ainda estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. o único neto era o Bruno. Havia mais pessoas do que no dia anterior. Respondia a diversas ações mas. talvez por ser um domingo e a maioria dos moradores do bairro serem operários.Ele não morreu. que se aproveitava dessa exclusividade para ficar ainda mais manhoso. mas tinham outros netos e dividiam as atenções. Bruno era o único neto. Dona Maria veio nos receber no portão. Estes tampouco se interessavam em conhecer os filhos das moças. Para eles. não se preocupava em casar ou reconhecer os filhos cujas paternidades as oportunistas de plantão imputavam a ele. Ele está vivo! 128 O Cristo da Periferia. Apresentei minha mulher e ela também a beijou com um carinho que cativou no mesmo instante. com aquele abraço gostoso de mãe. Chegamos à casa de Dona Maria e o alvoroço estava armado. pois o irmão. playboy assumido. que eu já havia esquecido. que têm folga nesse dia. que acusavam de ‘pistoleiras’ tentando dar ‘golpe da barriga’ no irresponsável do filho. mesmo na única que perdeu. Meus pais também o agradavam.

Eu o vi hoje pela manhã. mas eu desmaiei. ele não estava mais ali. Eu só pensava em onde estaria meu filho e pedia a Deus para perdoar os homens que mataram ele.indd 129 27/11/2007 09:36:18 . . desmaiada? . Olhei para ver quem estava perturbando minha oração. Então ouvi a sua voz dizendo: “Não é a senhora que diz que quem crê em Deus não morre nunca?” Seu Paulo. Dona Maria. fingindo que estava morto. .38 Depois de nos sentarmos e tomar o café. Quando o dia amanheceu eu fui chorar no cemitério. Quando acordei. porque pensei que a polícia tivesse dado um sumiço no corpo dele. só o contorno do seu corpo. Seu Paulo. porque eu não tinha essa capacidade. 2 O Cristo da Periferia. Seu Paulo.Quando recebi o seu recado. Mas eu tenho certeza que era ele. Quando eu estava lá ajoelhada nem vi ele chegar perto de mim e tocar no meu ombro. . Meu filho está vivo.Então. de costas para o sol. até agora não me perdôo porque eu desmaiei.Está dizendo que ele ressuscitou? .Ouviu. Fiquei aqui chorando.Como assim? Pode explicar isso direito? .Não. eu me desesperei. o que a senhora me disse lá no portão? Será que eu ouvi direito? . que uma mulher que estava por ali serviu. sim. Ele estava em pé. eu tenho certeza que ele não morreu. que era onde eu ia botar o corpo do meu filho. Eu queria abraçar o meu filho e encher ele de beijos. junto ao túmulo do meu José. Então ele precisava se esconder e não podia ficar cuidando de mim desmaiada.Mas por que ele apareceria para a senhora e a deixaria ali. era sim. ao lado do pai. Imagino que ele deve ter conseguido fugir.Eu também não consigo entender isso. por isso não dava para ver seu rosto. porque a polícia podia vir prendê-lo. perguntei: .

. fazendo acreditar que estava morto. por fim. Vieram acudir quando me viram caída. pediu para falar com os empregados que haviam manuseado o corpo de Emanuel. Para falar a verdade todos duvidavam dessa hipótese. Perguntei a todos. onde Marta nos esperava com o sudário e a maca. olhou todas as portas e janelas e. No fundo eu sabia que ela estava investigando a tese de Dona Maria. fazendo perguntas e examinando o lençol e a maca minuciosamente. Seria uma boa forma de fazer com que parassem de agredi-lo. Graça estava muito curiosa para ver aquelas peças. no IML. Mas é preciso que ele apareça. Posso contratar um advogado para providenciar isso. Eu sei que era ele. eu fico feliz por seu filho estar vivo. seria fácil se levantar e sair andando quando ninguém estivesse olhando.Dona Maria.E havia outras pessoas por perto? Alguém mais o viu? . pois um corpo fica duro depois de morto. de que ele havia se fingido de morto para poder fugir. sei sim. que veio quando viu minha mulher descendo do carro. Talvez ela estivesse certa. Nenhum dos empregados havia examinado o corpo. Ninguém sequer imaginou que aquele homem estivesse vivo.Quando eu acordei havia muitas pessoas ao redor de mim. Depois do que ouvimos de Dona Maria o seu instinto jornalístico ficou ligado. Despedimo-nos de Dona Maria e de Dona Irene.. Ela queria conhecê-la pessoalmente. Será que nós podemos fazer alguma coisa para ajudar neste momento? Imagino que devamos ir à polícia e garantir que ele possa reaparecer sem ser preso. Fomos para o IML. Tenho certeza de que vamos encontrá-lo. mas ninguém viu ele não.indd 130 27/11/2007 09:36:18 . Depois. Depois pediu para ver a sala onde o corpo foi visto pela última vez. Depois que chegamos foi ela quem conduziu a conversa com Marta. Vou pedir a todos para saírem por aí e procurá-lo.Eu não sei onde ele está. como se aquela fosse uma de suas reportagens. Mas e o sudário? E a maca? Como explicar aquilo? . embora já a conhecesse da televisão. Seu Paulo. sendo jogado de um lado para o outro sem 130 O Cristo da Periferia. Emanuel era tão impressionante que eu não poderia descartar a hipótese de ele conseguir parar a respiração e os batimentos cardíacos. pessoas que estavam visitando outros túmulos. pois o advogado vai querer vê-lo.

mas apenas por poucos minutos. ficou ainda mais intrigada.disse Marta . ele se desintegrou por irradiação e depois se reconstituiu em outro lugar. Questionamos Marta sobre a possibilidade de alguém parar os batimentos cardíacos e a respiração.mas. Nenhum homem vivo conseguiria ficar parado sem se proteger das movimentações que são feitas com seu corpo dentro do IML. simulando morte. Como poderia alguém provocar aquelas manchas no lençol e na maca e depois ser visto vivo? .maiores cuidados.indd 131 27/11/2007 09:36:18 . se o homem foi visto vivo. Não é possível permanecer morto por tanto tempo quanto Emanuel permaneceu. Ela nos disse que algumas pessoas conseguem fazer isso. de alguma forma. porque isso provocaria uma desoxigenação irreversível do cérebro. Esse seu amigo deve ser um extraterrestre! 131 O Cristo da Periferia. Quando Marta soube que a mãe havia visto Emanuel vivo.Não sei o que aconteceu . só posso pensar que foi uma alucinação ou.

Todo o material fotográfico era de dez anos atrás. que agora estava trancado a sete chaves no IML. Universidades do mundo inteiro queriam examiná-lo. Fiz um retrospecto da evolução da sociedade paralela nos últimos dez anos. por onde andou. A revista do meu ex-chefe saiu com uma foto antiga de Emanuel ao lado de outra foto de seu rosto no sudário. O interessante foi que não havia uma imagem recente dele. porque houve uma comoção mundial em torno do sudário. vivo ou morto. Esse relacionamento 132 O Cristo da Periferia. Parece que ele propositadamente ficou todo esse tempo longe do foco das câmeras. O telefone da redação não parava de tocar. Apesar dos programas criados.” Eu aproveitei a volta de Emanuel à mídia para falar sobre a sua mensagem. Senti por não reencontrar Emanuel com vida. em que desaparecia e deixava um lençol com a sua fisionomia estampada. o número de pobres aumentou e a sociedade continua convivendo com uma grande parcela de exclusão social. sobre como as pessoas deviam estar atentas aos sinais do mundo. mas a sociedade é incompetente para criar um modelo social mais justo. Houve reação da polícia. se ouviu outras vezes a voz de Deus. que permita vida digna para a maioria da população.39 Na segunda-feira a matéria foi ao ar. umas pessoas dizendo que haviam visto Emanuel vivo. que negava a morte por tortura. Até um mágico famoso criou um truque baseado no fato. A reação foi bombástica. O secretário de segurança afastou o delegado e instaurou sindicância para apurar o caso do desaparecimento do corpo. se assumiu sua santidade. O mundo continua dando sinais de que essa gente vai sobreviver. Temi por sua segurança. As igrejas negaram crédito ao caso. Aguçava-me a curiosidade saber como ele viveu. Surgiram dezenas de teorias para explicar o que aconteceu. com o título: “Procura-se. outras dizendo onde o corpo estava enterrado. A casa de Dona Maria foi novamente assediada por dezenas de repórteres. A matéria recebeu projeção internacional.indd 132 27/11/2007 09:36:19 . mas isso foi só oficialmente.

mas passou a agir conforme a Sua vontade. falta de Deus. que fosse morto. Ele predisse este sucesso. por não estar perto para evitar que fosse preso. infinitamente insignificante. Jamais vi uma pessoa tão “humana” e ao mesmo tempo tão sobrenatural. De repente senti uma necessidade enorme de Deus em minha vida. Já não importava quem era Emanuel. como se o meu todo fosse nada sem Ele. mas como viveu e o que fez. Imaginei como as pessoas se sentiram quando Jesus foi morto. Senti minha vida vazia apesar de todo o meu sucesso. De repente eu me senti infinitamente pequeno. crucificado sem qualquer pecado. 133 O Cristo da Periferia.indd 133 27/11/2007 09:36:19 . não como discípulo mas como amigo. como uma folha caída diante de uma árvore. Senti falta de fé em mim. Ele negava que fosse o filho de Deus e agia como tal. Lamentei por não ter estado mais próximo dele. Indignou-se por ouvir a voz do Pai.dele com o extraordinário era o que mais me havia impressionado no passado.

Uma vez instalados em Paris. impossível de ser localizado. levando apenas a roupa do corpo. Para falarmos ao telefone eu deveria ligar para o apartamento de Paris e um sofisticado equipamento de rastreamento e triagem direcionaria a chamada para um telefone celular especial. nem mesmo a agência que os tiraria do país. Ela havia voltado às pressas de Paris para buscar o Bruno. Atrás de nós estavam três seguranças. deixariam o apartamento do pai de Graça num táxi. só superado pelo medo que sentimos depois dos acontecimentos desagradáveis que vivenciamos. Se outro equipamento tentasse rastrear a ligação. mas nunca em tais circunstâncias. Beijei-os e acompanhei com os olhos enquanto passaram pelo detector de metais e sumiram pelo corredor em direção ao embarque. Eu estava acostumado a ver minha mulher partir em viagem.40 O avião taxiou na pista lateral do aeroporto Afonso Pena. Graça e Bruno embarcariam sem previsão de volta e eu sabia que era a melhor coisa a fazer. mas era incômodo o sentimento de quebra de privacidade. Para essa remoção meu sogro havia contratado uma agência internacional de segurança. Dois guarda-costas os acompanhariam até Paris e permaneceriam até constatarem que estavam em segurança. contratados pelo meu sogro para nos proteger naquela situação delicada. Meu coração estava angustiado. como se fossem fazer compras.indd 134 27/11/2007 09:36:19 . por uma questão de economia. Sabíamos que eram necessários. O Principado os receberia como se fossem exilados políticos. onde permaneceriam com nomes trocados. auxiliando na segurança planejada pela agência. depois do atentado na escola. seria induzido a 134 O Cristo da Periferia. O plano era que deixassem Paris tão logo os seguranças brasileiros retornassem. No shopping embarcariam num carro com vidros escurecidos e seriam levados a Mônaco. pois ninguém aqui deveria saber do seu destino definitivo. Graça estivera somente por três dias no Brasil e não havíamos tido um minuto sequer de paz. Esta sabia apenas que seria substituída por agentes locais.

Essa operação havia sido contratada a preço de ouro. O Dr. mais até que o trabalho. A gota d’água. recebi um telefonema depois e fiquei muito assustado. causando um transtorno enorme para a televisão. Por isso não pensamos duas vezes quando o Bruno foi ameaçado. que teve de mandar um repórter substituto às pressas. mas não achei correto aceitar. No começo eram meros telefonemas me aconselhando a parar de falar no caso. Jordão havia contratado o mesmo esquema montado para Graça e Bruno. Todas as nossas conversas eram monitoradas e. Vi que não estavam blefando quando disseram que podiam atingir minha família. Pensando nisso a agência contava com diversos destinos alternativos. mais até que nós mesmos. para não contar detalhes dos locais que visitasse ou de pessoas que conhecesse. Graça pediu licença no emprego. Mas a segurança do nosso filho era mais importante que tudo. Se eu saísse de cena. Só sei que era muito para o meu padrão de vida. 135 O Cristo da Periferia. eles mudavam de endereço em questão de poucos minutos. Pensei até em largar tudo e ir com eles. Nem imagino quanto dinheiro meu sogro gastou para colocar a filha e o único neto em lugar seguro. se algo comprometedor fosse dito. mas isso tornaria muito fácil a vida dos malditos assassinos de Emanuel. Tudo porque não acreditei nas ameaças que recebi quando passei a investigar o caso do Cristo da periferia. Depois tentaram me jogar para fora da estrada. Assim poderíamos descobrir quem estava tentando localizá-los. Foram no mesmo avião e Graça teve oportunidade de passar a ele todas as informações sobre o escritório de Paris. Difícil seria controlar o Bruno. Imagino como foi difícil para ela ter de deixar o trabalho que tanto prezava. foi a explosão de uma bomba num latão de lixo da escola em que meu filho estudava. fomos orientados a não fazer qualquer referência ao local em que estivessem durante nossas conversas ao telefone. Na verdade o meu sogro queria que eu fosse com eles e permanecesse escondido. Mesmo com tanto aparato de contra-espionagem. sendo também rastreado e identificado. Por isso dispensei o segurança que me acompanhou do aeroporto até a televisão. contudo. ninguém mais denunciaria os seus desmandos.concluir que estavam em algum lugar de Paris. felizmente fui hábil e consegui fugir.indd 135 27/11/2007 09:36:19 . simulando um acidente.

Está tudo bem? . . acabei tropeçando nos verdadeiros motivos daqueles que o mataram.E o que é tão importante? . Lembrei do dia em que sua casa foi atacada por traficantes da Vila Nazaré. Os ensinamentos de Emanuel me haviam tornado uma pessoa forte e eu não aceitava a idéia de simplesmente calar.Não dá pra ser durante o almoço? . no refeitório da televisão. . Tive longas conversas com o ex-bandido depois que saiu do hospital. chefia? . E quando cheguei bem perto de desvendar esse mistério. Ao invés de sentir-se ameaçado. deu-me a certeza de que estava no caminho certo. nem me curvaria a tantas injustiças. 136 O Cristo da Periferia. que foi seu seguidor mais dedicado. Tiago! .Entra. Mas na busca dessa fascinante história. contou-me sua trajetória depois que deixou a Vila Nazaré.indd 136 27/11/2007 09:36:19 .É que o Emanuel apareceu lá na vila. Eu queria contar uma coisa estranha que aconteceu ontem à noite. isso me fortaleceu. o caso se tornava mais intrigante.Com licença. que não queriam mais que recebesse tanta gente. . porque o movimento de fiéis prejudicava a venda de drogas.Tudo em cima. A vida de Emanuel era um incrível quebra-cabeça que eu queria montar.estranhei a presença dele em minha sala logo pela manhã . Morreu porque enfrentou de queixo erguido as injustiças que denunciava.Agora que Graça e Bruno estavam a salvo eu iria enfrentar os meus inimigos com a melhor arma que tinha: a palavra! Não me calaria diante das ameaças. Cada vez que encontrava uma nova peça. A exemplo do que aconteceu com Emanuel. Contratei-o como contra-regra e almoçávamos juntos ao menos uma vez por semana. passei a receber ameaças. Emanuel viu naquilo um sinal de que era tempo de prosseguir em seu destino.É que eu achei que era importante te contar. Tiago. A partir daquele momento passou a mexer com gente bem mais poderosa que os traficantes do bairro pobre.

Peraí. O Marcos respondeu que.41 .Não. Tiago! Explica direito essa história.Não é isso. Jesus disse à samaritana – nos últimos meses meus conhecimentos cristãos haviam melhorado um pouco.A gente tava numa lanchonete lá na praça.perguntei surpreso. Então o cara perguntou se não nos lembrava mais ninguém.” . Pensamos que ele havia chegado em nossa mesa porque a gente não tava tomando bebida alcoólica.indd 137 27/11/2007 09:36:19 . por que não estão continuando a minha obra?” . dizendo umas coisas que lembraram o nosso mestre.. Claro que pagamos. com os olhos marejados.O que você está dizendo? . Eu lhes darei a água que sustenta a alma. . . Então chegou um cara e perguntou se podíamos pagar uma água. sentando-me e indicando a cadeira para que se sentasse. Daí o cara perguntou: “Mas se vocês lembram de mim.É que apareceu um carinha lá. Foi então que começou com uma conversa estranha. . mas era? Afinal.tentei recuperar o fôlego.Na hora o Pedro pescou a frase e disse que era da Bíblia.Ele disse assim: “Vocês me dão essa água que mantém o corpo. Como é que uma pessoa que morreu pode aparecer na vila? . tudo que se falava de Jesus lembrava nosso mestre. para nós.Isso é bíblico. também o convidamos para sentar. que suava ao contar. Quem beber dela não terá mais sede. Ele tá mortinho.Emanuel não morreu? . eu. quem apareceu lá? .Que conversa? . .perguntei enquanto servia água para mim e para Tiago. entende? .Como era esse cara? Como estava vestido? . morto recentemente. 137 O Cristo da Periferia. Mas ontem à noite apareceu lá na Vila Nazaré. Emanuel. não entendo! Como é que não era ele. mas era. o Pedro e o Marcos. Não era ele.

mas ninguém percebeu isso.” E ele deu uma gargalhada que era a do próprio Emanuel. Igual a qualquer cara que você vê na rua. Perguntamos ao Toninho e aos outros caras que estavam no bar.Era um cara normal. Sabe aqueles dentes branquinhos? . nem os caras que jogavam sinuca.. que quando o vi naquele carinha. O 138 O Cristo da Periferia. Ninguém viu. pensei em tudo que um repórter faria naquela situação. Viramos a vila de cabeça pra baixo e não o encontramos. chefia. Se era mesmo o Emanuel.E mais alguém o viu brilhando? . Nossas bocas não conseguiam pronunciar uma palavra. Mas agora fico pensando que talvez tenha sido apenas uma impressão nossa. . Parecia ter uns trinta.. numa beca normal. Nunca vi tanta semelhança.Ele perguntou por que vocês não estão continuando a sua obra. pensaram igual a mim. pois eles também queriam que o mestre estivesse vivo. Deixamos o cara lá.. Eu não dormi a noite toda. Tinham que perguntar o que queria dizer. Pelo menos foi a impressão que nós tivemos: ele estava brilhando! Ficamos igual a três tontos. Os três bobões saíram correndo. Já pensou. mas o seu sorriso era tão branco que impressionava. O Toninho.Ninguém. Acho que eu desejava tanto ver o mestre. sentado na lanchonete. Parecia que saía uma luz de dentro da boca e dos olhos. chefia. pensei nisso e resolvi voltar. pois ninguém mais viu isso. trinta e poucos anos.Pior que não. não o viu sair. se for mesmo verdade? Se o nosso Jesus estiver vivo? . . Não é que o cara estivesse brilhando como uma lâmpada. Quem era. Eu fui o único que ainda consegui dizer: “Moço.indd 138 27/11/2007 09:36:19 . me assustei e enxerguei o brilho do sorriso dele como se fosse do corpo todo.E vocês não perguntaram se era ele mesmo? . Eu tive a impressão de que todo o corpo dele brilhava por debaixo da roupa. não brinca com isso não. Mas depois que disse aquilo o corpo dele começou a brilhar. Com o Pedro e o Marcos deve ter acontecido a mesma coisa. O cara não estava mais lá. esquecendo que Tiago não era um. Pedro e Marcos também voltaram. . dono do bar.Mas vocês perderam a oportunidade de falar com ele.Quando eu estava a uns dois quarteirões.

Os agentes que me foram apresentados tinham as respostas bem decoradas. ninguém teve coragem nem dom para prosseguir dizendo todas as coisas que ele dizia. Depois da explanação técnica de Marta. fora de 139 O Cristo da Periferia. Em pouco tempo voltei à delegacia e pedi mais uma entrevista com o delegado. Por causa de Emanuel coloquei minha família em perigo. anunciando que era mais uma mentira.era realmente surpreendente. como parecia que iria ocorrer na sindicância. Mas essa visão de Tiago e seus amigos . O alerta batia em meus sentidos como um sino. com fratura craniana que o levou à morte. como se a entrevista comigo fosse um ensaio para a sindicância da Corregedoria que deveriam responder. Atribuí a visão de Dona Maria aos devaneios de uma mãe desesperada e emocionalmente abalada. Depois de ouvir os agentes e visitar a cela onde supostamente havia ocorrido a queda de Emanuel. Ele sempre dizia que não estaria aqui por muito tempo. pedi para ver as outras celas e entrevistar os outros presos. senti que estava escondendo alguma coisa. Quando fui falar com o delegado titular da delegacia em que foi morto. Um bom repórter sente quando uma situação está armada para parecer outra. Todos haviam sido libertados ou transferidos num prazo de apenas três dias.indd 139 27/11/2007 09:36:19 . é uma vergonha. Meus sinais começaram a dar alerta quando fui informado que um vírus de computador atacara o sistema e era impossível saber quem eram os transferidos e para onde haviam sido levados. à minha pesquisa particular.Isso é duro de dizer. Que devíamos continuar a obra começada por ele. mas nenhum dos seguidores teve coragem de continuar o que Emanuel fazia. Era um homem alto. Surpreendentemente não havia nenhum preso que estivesse no local no dia do incidente. como já me dissera em nossas conversas anteriores . Tudo estava muito certinho na delegacia. Só não imaginavam que eu não estava disposto a encerrar o caso com simples evasivas. Recorri. a médica legista. A notícia era realmente surpreendente. fiquei convencido de que ninguém poderia prender a respiração e interromper os batimentos cardíacos por tanto tempo. ninguém mais o vira. Desde que Dona Maria disse ter visto o filho no cemitério. chefia.que também eram seguidores de Emanuel. Mas. então.que quis dizer com isso? .

com ar de quem não entendia porque eu ainda queria fazer perguntas.Então estava hospitalizado? .Não.É verdade. . fiz um levantamento junto à Secretaria da Administração e descobri que a sua equipe é praticamente a mesma há alguns anos. Porque isso acontece? . Ele foi tocaiado quando fazia busca de drogas numa favela. Dois deles morreram no tiroteio. o meu grupo de agentes de confiança me segue. Mas a equipe básica permanece comigo. pois ele não dispunha de muito tempo. 140 O Cristo da Periferia. Mesmo assim procurei ser cordial. No braço esquerdo um relógio Rolex e.Depois disso os três morreram? . Eram três elementos. . quase na totalidade. .E os responsáveis foram presos? . .Ele caiu na cela.O outro já havia sofrido um acidente. Os delegados costumam levar suas equipes consigo a cada transferência. Recebeu-me bem à vontade.Sim.Doutor. pois usava uma camisa de seda fina.Minha pesquisa informa que um dos seus agentes morreu em serviço. Uma corrente muito grossa de ouro podia ser vista em seu pescoço. houve uma tentativa de fuga. Ele morreu antes de chegar ao hospital. acompanhando-o onde quer que o senhor vá. no direito.Só por curiosidade. se tudo já havia sido dito na entrevista anterior.Sim. Seu rosto inchado e estilo bonachão lhe davam uma aparência de prosperidade e soberba.indd 140 27/11/2007 09:36:19 . Fraturou o crânio. Não houve conversa preliminar. embora direto. Poucos dias depois da prisão. ou pede transferência para outro local. como foi o acidente que ele sofreu? . apertamos os líderes do tráfico e eles entregaram os assassinos. Foi muito triste porque era jovem e tinha filhos pequenos. . Quando eu mudo de delegacia. . . quando sua equipe estava numa cidade do interior. . Só um ou outro resolve permanecer onde está. uma grossa pulseira de ouro.Isso é normal. bem acima de seu peso ideal.E o outro? Não tentou fugir? . Usava camisa listrada e calças com suspensórios.forma. Foi uma morte trágica.

Com a gritaria. Coincidência. quase aos empurrões. .Você está me acusando. Como não me intimidei e coloquei no ar os resultados das minhas investigações e a gravação da minha expulsão da delegacia. . Eu e o cinegrafista fomos expulsos do lugar. 141 O Cristo da Periferia.respondeu.Os relatórios que li indicam que.indd 141 27/11/2007 09:36:19 . primeiro contra mim. eu comparei as estatísticas e descobri que as incidências aumentam quando sua equipe passa pelos lugares. perguntando o que eu estava insinuando.Isso acontece em qualquer delegacia! .. ocorreram mortes de detentos em situações suspeitas. . . nas últimas cinco delegacias pelas quais sua equipe passou. Depois desse dia comecei a receber telefonemas ameaçadores.Quedas e fugas são normais. impaciente.o delegado começou a transpirar. não? A mesma causa da morte do Cristo da periferia. Você deve saber disso .De fato. ante o olhar ameaçador de toda a delegacia. cara? O delegado levantou-se da cadeira e passou a gritar comigo.. . depois contra a escola de meu filho. quase gritando. Vocês são recordistas em mortes de detentos por tentativa de fuga e quedas dentro de celas. vieram os atentados. antes que me prendesse por acusação sem provas. agentes invadiram a sala e o seu chefe mandou que me tirassem da sua frente.Ah. afrouxando a gravata. na estrada..

Pensei em fazer uma matéria com uma entrevista exclusiva. ficasse perto dele. Assim poderia falar à vontade.indd 142 27/11/2007 09:36:19 . A sua nova aparência podia ser resultado de cirurgia plástica. na qual ele apareceria com a imagem distorcida eletronicamente. se ele voltara a se aproximar dos seus. não quis deixar meus inimigos sem uma novidade para temer. talvez. Eu precisava encontrá-lo para combinar como seria a sua apresentação e denúncia de seus algozes. sem risco de ter seu novo rosto conhecido por seus perseguidores.42 Tudo mudava com a possibilidade de Emanuel estar vivo. eu não cometeria o mesmo engano de expô-lo. vivo ou morto” deve ter provocado uma movimentação tão grande dos que queriam vê-lo morto. Afinal. A matéria da revista. para ver se já poderia falar com seus amigos sem ser delatado. fazer a cirurgia plástica. para que pudesse viver num lugar seguro. com o título “Procura-se. colocando toda aquela corja de assassinos na cadeia. Eu precisava desvendar aquele mistério e. caso Emanuel reaparecesse. se ele estivesse realmente vivo. com proteção do Estado. dando um jeito de me chamar. Dei a ele meu número de telefone celular e recomendei que. Talvez aquela aparição momentânea fosse um teste dele. com o rosto modificado. Pedi a Tiago que avisasse seus amigos e que guardassem sigilo sobre o ocorrido. Afinal. era porque estava sentindo a pressão reduzir. Agora que estava voltando. Ele e sua mãe receberiam uma pensão vitalícia. Depois pediríamos amparo do Programa de Proteção de Testemunhas. protegêlo e garantir que prestasse depoimento em segurança. Por outro lado. era importante para mim que soubessem que eu não estava cedendo a suas pressões para parar de divulgar notícias 142 O Cristo da Periferia. recomeçaria a caçada e seus algozes poderiam localizá-lo antes de mim. podendo viver com identidades novas em qualquer outro lugar que escolhessem. Eu não queria divulgar a notícia de que Emanuel estava vivo. que o obrigou a desaparecer e. Se isso acontecesse.

por mais de cinco dias – anunciando novidades para breve sobre o caso do Cristo da periferia. Contudo. Certamente não compreenderia como isso acontecera. como subsídio para um pedido de quebra desse sigilo. não poderia usá-la numa reportagem. Isso manteria o caso em aberto e protegeria Emanuel. Eu queria dizer a ele que descobrira suas ligações com lideranças religiosas dadas a cobrar dízimos altíssimos de seus fiéis. Para isso era importante encontrar um Promotor de Justiça que não estivesse comprometido com os interesses das lideranças religiosas.indd 143 27/11/2007 09:36:20 . Não contava que pudesse cruzar seu caminho uma pessoa tão surpreendente. então. mediante alegação de sigilo fiscal. pois jamais se suspeitaria que a testemunha fosse a própria vítima. Isso podia ser verificado pelas declarações de rendimentos dessas igrejas nos últimos anos. como essa informação me havia sido passada de forma confidencial. Uma testemunha bombástica mudaria o rumo das investigações. Divulguei. mas ficam na cabeça de quem ouve. Quando me expulsou de sua sala. pois seria facilmente retirada de qualquer processo. exatamente por ser a mais importante. 143 O Cristo da Periferia. o delegado ficou sem ouvir minha maior descoberta que. Ri sozinho ao imaginar a cara do delegado ao receber a notícia de que Emanuel estava vivo. deixei para revelar por último. Ela deveria ser usada. sim.sobre os motivos que teriam levado Emanuel à morte. uma notícia de fim de edição – daquelas que são ditas em apenas cinco segundos. A atuação de Emanuel em suas ‘clientelas’ estava diminuindo a entrada de dinheiro. Era gritante a diminuição depois que Emanuel chegara aos bairros onde mantinham seus principais templos.

abra o porta-malas.43 . depois de me abordar num semáforo.Por favor.Se me disserem o que estão procurando. Ao descer do carro. sacar o estepe como se procurasse algo.Estava no seu carro. um deles com um pacote de papel nas mãos. dizendo: . sem qualquer razão aparente. Foi quando os quatro que revistavam o interior do carro vieram ter comigo. De repente. O senhor tem registro ou permissão para portar esta arma? . Enquanto me dirigia à parte de trás do carro. com os documentos que eu lhe entreguei nas mãos. determinando que estacionasse e desligasse o motor.disse o policial. todos me agarraram. no qual pude ver o cabo de um revólver. O que estava com meus documentos esperou até que eu abrisse o porta-malas.abriu o pacote.indd 144 27/11/2007 09:36:20 . . afaste-se e abra o porta-malas.respondeu secamente.respondi. passando a revirar o tapete.falei esboçando um protesto. . dirigindo-se para trás do veículo para verificar a placa.O que é isto aqui? .É o que veremos! . sem ser ouvido ou atendido por qualquer dos cinco. tendo o troglodita 144 O Cristo da Periferia. um outro policial surgiu ao meu lado. vi que eram cinco policiais. os documentos do carro e a sua habilitação . .Não faço a menor idéia .Não. . talvez eu possa ajudar . Por favor. senhor. . Aquele que me pediu para descer não permitiu que eu fechasse a porta. . Sem dizer mais nada. policial? . não estava no meu carro! Eu nunca vi essa arma antes afirmei enfaticamente ao policial que estava me acusando.Preciso revistar o interior do seu veículo.Por favor. outros três policiais abriram as demais portas.Algum problema.

O que me segurava por trás algemou meus punhos e puxou-me. . meu sogro. meu telefone celular caiu do bolso do paletó. Um deles enfiou a mão no bolso de minha calça. cocaína! Pela quantidade você é traficante.Vocês armaram isso para me prender! Vão se arrepender! . que mandaria o secretário de segurança punir exemplarmente os responsáveis pelo flagrante simulado. Em poucos minutos toda a cidade saberia da minha prisão arbitrária e da trama contra mim.Porte ilegal de arma e tráfico de drogas. Duvidei que voltasse a funcionar depois daquilo.gritei indignado. Senti. Você está enrascado. provocando uma dor enorme. sem saber o que fazer para sair daquela situação. sem que eu percebesse. Nenhuma delegacia central ficava a mais de dez ou quinze minutos da esquina em que me prenderam. o que estava com o pacote da arma deu-me um soco no estômago. no entanto. jogando-me no camburão que havia estacionado logo depois de mim. em tom de ironia.falou. Ele falaria pessoalmente com o governador. que logo sacou e disse. enquanto outros dois me revistavam. Ao me curvar pela dor. Tentei usar meu senso de direção mas.disse um outro. tentando pensar em quem chamar quando me fosse dado o direito de fazer um telefonema. Jordão. . fazendo com que se espatifassem pedaços para todos os lados. moço . contra o asfalto. Nisso. Meu agressor pegou-o do chão e voltou a jogar. perdi completamente a noção para onde me levavam. Ou então poderia ligar para o Dr. O interior do camburão era escuro e frio. Ao menos eu pensei sentir frio.que estava atrás de mim imobilizado meu braço. Pensei em ligar para a redação e pedir que mandassem uma equipe de reportagem para um plantão extraordinário. . pois tremia sem parar.Vai se explicar na delegacia! . ignorando meu urro de dor. que estavam indo longe demais do centro da cidade.Hum. colocando ali um volume. depois de algumas voltas em alta velocidade e com a sirene ligada. De fato. . bem próxima da televisão. com força. Minha cabeça girava. provocando uma dor insuportável. aqueles policiais não 145 O Cristo da Periferia.indd 145 27/11/2007 09:36:20 .

A porta foi aberta e percebi que estava num lugar completamente escuro. O corpo imóvel no chão da floresta. sem qualquer testemunha que pudesse delatar o crime do qual fui vítima. Senão eu te deixo fugir e passo fogo.indd 146 27/11/2007 09:36:20 .dizia aquele que me havia agredido e parecia ser o chefe dos demais.Onde estamos? Por que não me levaram para uma delegacia? Tenho direito a um telefonema! . Quando minhas pernas dobravam. traficante.Cala a boca. ainda algemado. A dor e o desespero eram tamanhos que desmaiei. agora com a sensação de que iria morrer. os que me seguravam impediam que caísse. para o interior do mato. por uma trilha muito estreita. Você é muito macho? Mostra sua valentia agora! . . Encolhi-me em posição fetal e protegi a cabeça com os braços. Quando os que me seguravam não suportaram mais meu peso.gritava inutilmente. Quem vai ter pena de um traficante armado? . parado à beira da estrada. 146 O Cristo da Periferia. . na escuridão da noite. a não ser as das lanternas que meus agressores portavam. Levantavam-me para que os outros continuassem batendo. Fui tirado com violência e arrastado. . Minha garganta já não conseguia gritar. já não reagindo aos chutes que recebia. enquanto os outros passaram a bater em meu rosto e estômago. em todas as partes do corpo. Quando chegamos a uma clareira encravada na mata.Você vai aprender a ouvir os avisos.sabiam com quem estavam mexendo.diziam enquanto me batiam como se eu fosse um saco de areia. dois deles me seguraram em pé. nem gemer. da qual não se via qualquer luz. Desacordei completamente. jogaram-me no chão e todos passaram a me chutar. O camburão parou e ouvi os passos dos soldados descendo pelas quatro portas.

ou de um vidro qualquer. Aqueles animais veriam com quem haviam mexido. Paulo. Segui o barulho e a brisa suave que vinha daquela direção. Eu já conhecia aquele lugar. . como também não me meteram medo algum.Onde estarão eles? Por que me deixaram aqui na mata? Não sabem que vou denunciá-los? . Calças arregaçadas e pés na água.indd 147 27/11/2007 09:36:20 . Parecia que as pancadas não só não afetaram meu corpo.pensei em voz alta.pensei.Anda logo. Estou aqui te esperando faz um tempão. . Tudo estava inteiro. tentando entender o que estava acontecendo. Passei a mão no rosto. formando piscina natural. Quem sabe uma água parada . . . sorrindo para mim. ouvi um barulho de água corrente. como se não tivesse levado a surra dos policiais. Agora precisava encontrar a estrada e conseguir uma carona até a cidade. como se a noite anterior jamais tivesse existido. ainda falando sozinho. O teto de galhos e folhas das frondosas árvores me protegia do sol escaldante. falando comigo mesmo.Meu Deus! É o lugar de retiro de Emanuel! Quase instantaneamente eu o vi lá. 147 O Cristo da Periferia. Quero ver meu rosto. que me recebia com um sorriso. Tira os sapatos e senta aí. Fiquei olhando boquiaberto para aquele jovem sentado. Obedeci instintivamente. Essa água fresquinha restabelece as forças de qualquer um. Cheguei rapidamente a um rio que corria sobre uma laje de pedra.Preciso encontrar um caco de espelho.Demorou.44 Era dia e eu caminhava pela floresta. tentando achar algum inchaço ou marca de sangue. O interessante era que eu me sentia muito bem. mas nada encontrei. Estranho como eu não sentia dores. Súbito. .

Eu pensei que você estivesse se referindo a Tiago e seus amigos.Vejo que você evoluiu em sua capacidade de fazer perguntas. . . Emanuel. então estamos mortos? . claro. Ninguém pode tirar as nossas lembranças.O fardado. Mas qual foi o sinal que eu desrespeitei? Eu estava fazendo tudo certinho. que alegria.indd 148 27/11/2007 09:36:20 . Tentando achar você para denunciar os agressores.Eu te avisei que poderia não estar por perto quando você voltasse a se recusar a ouvir os sinais do Mundo.Não me enrole. explica isso! Em que ano estamos? Somos pessoas ou espíritos? Que sinais eu deixei de ouvir? 148 O Cristo da Periferia. Como podemos estar aqui? . Até a roupa era a mesma que usava dez anos antes. e que diferença tem um bandido armado de um fardado? Qual é mais perigoso? . Eu sofri um bocado com a surra que levei e não estou sentindo dor alguma. mesmo corte de cabelo. Meus vinte e seis anos de idade novamente.. Emanuel. mas pelos policiais.Este lugar não existe mais. Olhei meu rosto na água da piscina natural e vi que estava dez anos mais novo. Agora os bandidos o pegaram. mas com aquela roupinha simples que usava quando era repórter iniciante na revista. lembra? . . Parabéns! .Ora. Estou morto? . nenhum fio de cabelo branco.Peraí. Seu sorriso era o mesmo. . ouvindo meus pensamentos.Você também está com a roupa de dez anos atrás! . Pois eles viraram seus seguidores. nem marcas de expressão.E o que Ele decidiu a respeito de nós? Estamos mortos ou vivos? .Sempre vai existir em nossos pensamentos. Não havia rugas. E eu não fui pego pelos bandidos. .O Mundo é quem decide quem vive e quem morre. Naquele momento percebi que Emanuel era o mesmo de dez anos antes.Mas se isto é só uma lembrança. Só então percebi que não estava mais de terno. nenhuma ruga.disse ele.

. 149 O Cristo da Periferia.indd 149 27/11/2007 09:36:20 .Calma! Uma pergunta de cada vez! Vou responder seus questionamentos um por um.

. .Está dizendo que aqueles homens eram mensageiros? . dizendo que eram meus. Porque o Mundo precisa de você e o 150 O Cristo da Periferia. Quais foram os que me levaram a um fim tão trágico? Porque eu precisei morrer por não tê-los ouvido? . . mas no paraíso verdadeiro: um lugar infinitamente maior e mais belo que este.Já vi que você não vai responder essa pergunta. neste paraíso de suas lembranças. . .Ah! O troglodita disse que agora eu ia aprender a dar atenção aos avisos. outros.respondeu de pronto.Isso! Ele disse: “Você vai aprender a ouvir os avisos!” Estava se referindo claramente aos sinais.Viu só? Você está discriminando a mensagem porque despreza o mensageiro. Nem todos trazem boas notícias. Exatamente como fez com o Tiago.Então eu morri? . .perguntei instintivamente. meu curioso amigo.Não. .E como um animal como ele pode saber dos sinais? . Tive até que tirar minha esposa e filho do país. .Eu não disse que você está morto. Alguns trazem avisos e. .Sim. me fazendo lembrar de sua capacidade de responder com outra pergunta.indd 150 27/11/2007 09:36:20 . a morte.E todos não morremos a cada dia? . . Se estivesse. o que aconteceu comigo? Por que vim parar aqui? Por que nos reencontramos? .Ora.perguntei chocado. quando eles tiraram você do camburão. Voltemos a falar sobre os sinais. não estaríamos conversando aqui.Você lembra o que foi que os bandidos fardados disseram antes de bater em você? . Estou falando da mata.Claro! Eles mostraram um revólver e um pacote com cocaína.45 .Então. Ele estava falando das ameaças anteriores que me fizeram.

Ouvir a voz do mundo que sopra em seus ouvidos.indd 151 27/11/2007 09:36:20 .E o que eu devo fazer? . mais uma vez. .está convocando. por mais absurdo que possa parecer. 151 O Cristo da Periferia. Seguir fielmente o que recomendar. como eu fiz há dez anos.Apenas se concentrar. .Quer que você retome a capacidade de ouvir e entender os sinais.E o que ele quer de mim? .

Estamos numa enfermaria-prisão.Tudo bem aí. amigo. coitado. Até mesmo presos têm direitos. preciso falar com ela. meu vizinho da cama ao lado. E é bem melhor aqui que na cadeia.46 Senti uma dor muito forte nos rins e fechei os olhos. Acho que você não entendeu direito. Logo chegou a enfermeira.Eu também tive uma queda como a sua. . vi paredes brancas em volta de mim. companheiro. .perguntou.Calhordas . Estava deitado numa cama de hospital e a dor se espalhava por todo o meu corpo. Não tem visita não. . Meu companheiro de quarto sorriu. . Meus familiares devem estar preocupados comigo. solícito.Meu Deus! Minha família sabe que estou aqui? Alguém veio me visitar? . Ninguém havia falado. . A gente tem direitos. não pode nada.pensei em voz alta. Os caras quebram a gente de pau e dizem que nos machucamos sozinhos.Você chegou há três dias. .Estamos presos. brincando.No Hospital do Trabalhador. .Cale-se! Cale-se! Cale-se! Aquela voz ecoou em meus ouvidos como um sussurro. . Tem um guarda lá fora. A gente não pode receber visita. parceiro? Quer que chame a enfermeira? . Chame a enfermeira. . Tá atordoado. Disseram que tentou fugir e caiu de um barranco. não pode usar o telefone.Pode sim. mas estavam dormindo.perguntei atordoado.Onde estou? . 152 O Cristo da Periferia. Havia mais dois prisioneiros-pacientes na enfermaria.Preciso dar um telefonema.Há quanto tempo estou aqui? . Quando os abri. Por isso está todo quebrado.Ih.indd 152 27/11/2007 09:36:21 . . .

Senti muito medo diante dessa declaração daquele homem.indd 153 27/11/2007 09:36:21 . Uma maca entrou empurrada por um enfermeiro. Achavam que você morreria.foi a única coisa que tive coragem de dizer. Tentei sonhar com Emanuel. que me pareceu ser a ante-sala do centro cirúrgico. eu te protegerei. Agora tenho que terminar o que foi mal feito. Empurraram a maca até um compartimento. Eram tão grandes que não demonstraram o menor esforço para me levantar. Minha úlcera está me matando.Imagino. Vou trazer um analgésico. Meu coração disparou quando vi que o policial era um dos brutamontes que me agrediram. . pois seu coração estava praticamente parado e sua respiração era quase imperceptível.. Sempre que acordava ouvia o sussurro. Tenho que matar você para que não conte como foi que se quebrou. O enfermeiro saiu e fiquei a sós com o grandalhão. .Sinto dores pelo corpo todo! . quase deitado sobre o meu peito. mas não consegui. Seus olhos estavam avermelhados. Se em situação normal eu não teria a menor chance contra ele. Eu queria ter matado você. seguido de um policial que me era familiar. erguendo-me pelo lençol. . Você teve uma queda e tanto. mas 153 O Cristo da Periferia. Os dois puseram a maca ao lado da minha cama e me jogaram nela.Não durmo há três dias. o sono interrompido por pesadelos. . Eu tinha certeza que você ia sobreviver.Não se preocupe. voltar à piscina natural. mas os meus colegas quiseram trazê-lo para o hospital com flagrante de porte ilegal de arma e tráfico de drogas.Então o belo adormecido acordou? . com um braço e duas pernas quebradas. Tomei o comprimido e dormi por mais algumas horas. como se estivesse drogado. O sussurro voltou a me soprar aos ouvidos: .Cale-se! Cale-se! Cale-se! Fui despertado pela batida da porta no armário que estava ao lado. Então o grandalhão olhou-me bem nos olhos.ecoou novamente o sussurro em meus ouvidos. muito menos naquelas condições. Diga só o que eu mandar.Cale-se! Cale-se! Cale-se! .

mandando eu me acalmar e permanecer calado. pois senti que me torturaria até a morte. . Não iria me matar antes que eu contasse o que queria ouvir. Mude sua vida e não volte a pecar.Senhor. seus olhos retomaram a cor normal e até seu hálito. ou tentar ser herói e resistir. Você não estava doente. que impregnava todo o ambiente. Nada. 154 O Cristo da Periferia. Fica a seu critério. Sinto-me como há muito tempo não sentia. Seu nariz estava a menos de um centímetro do meu. mas isso não me servia de conforto. Deus te ama e quer que você viva uma vida digna. me perdoe. apenas tinha um bom coração que se indignava com as maldades que você praticava e isso refletia em seu estômago. Não precisa se preocupar comigo. Depois do meu sonho com Emanuel. contudo. . De repente os olhos do homem se arregalaram. pois o bafo era horrível.Por favor. pois vai contar de qualquer jeito .Minha dor de estômago passou. Recebi ordem sussurrada para falar e as palavras brotaram de minha boca: .o sussurro me tranqüilizava. sem nenhuma dor. depois o corpo.indd 154 27/11/2007 09:36:21 . De fato. como se algo estranho estivesse acontecendo. Você pode dizer rapidamente e sofrer menos. Como eu não respondia. que seja um bom policial e proteja as pessoas que jurou proteger. por último a mão.disse o homem. . Foi afrouxando a mão que me apertava o pescoço e afastando-se de mim. Sua úlcera não existe mais. .Mas antes quero que você conte quem é a testemunha bombástica que pretendia apresentar e onde está essa pessoa. faria com que eu o entregasse. . tirando-me o ar.seu olhar era intimidador. pegou meu pescoço e começou a apertar. pois não será por meu testemunho que será condenado.Você está curado.Está perdoado. veja a que ponto cheguei! . Estou bem.perguntou. parecendo saber que não eram minhas aquelas palavras. primeiro o rosto. O que você fez? . não tinha certeza se ele estava vivo. Devia mesmo ter problema estomacal. pareceu ter melhorado. impressionado.

Era tão real.Cale-se! Cale-se! Cale-se! E eu nada poderia fazer diante da ordem que mandava calar. Era uma folha se resignando com a complexidade da árvore. mas ali eu fui protegido. Chamou o enfermeiro e me levaram de volta à enfermaria. Pelo jeito o Mundo sabia o que estava fazendo. mesmo diante das perguntas dos meus colegas de quarto. Tudo começou depois do coma e do meu sonho com Emanuel. Havia escapado duas vezes da morte e estava certo de que Emanuel estava influenciando diretamente nos acontecimentos. sem discutir os motivos. O sussurro que somente eu ouvia poderia ser considerado alucinação se não tivesse revelado o poder da cura. O que o sussurro pretendia com isso? Como eu poderia sair daquele lugar se não chamasse alguém e denunciasse o que me haviam feito? A resposta veio imediata a meus ouvidos: . que eram obras grandiosas demais para que um ser humano pretendesse ser seu autor. Levei em consideração o fato de que eu deveria estar morto naquele momento. salvou a minha vida. O jeito era esperar os acontecimentos. Minha sensação era de que eu passara a sentir exatamente o que ele sentira. Fiquei em silêncio absoluto. mas não estava entendendo nada do que acontecia comigo. como ele revelou em meu sonho. quando vira milagres se realizando através de suas mãos e de suas palavras.47 Eu estava mais assustado que o surpreso policial. Ele deveria saber. como eu sabia naquele momento. Naquele momento tomei a decisão de obedecer cegamente tudo o que fosse ordenado. Tinha que confiar e esperar. Prometi não acusar meu agressor. O mundo havia sarado o homem doente e. Não tinha coragem sequer de falar sobre o que havia acontecido.indd 155 27/11/2007 09:36:21 . A cura do policial que me torturava e aquelas palavras brotando de minha boca. privilegiado pelos sinais. com isso. Não dei sinal de fraqueza. Concluí que sozinho não era ninguém. uma peça num 155 O Cristo da Periferia.

Olhou-me como se já nos conhecêssemos e falou: . doutor. No dia seguinte veio um delegado tomar meu depoimento. Em meus ouvidos a voz mandava calar. . Quando acordou. Acho que não quer conversar com o senhor.Você está sendo acusado de porte ilegal de arma e tráfico de drogas. -Nenhum problema. interessada em saber a verdade. No dia seguinte entrou na enfermaria outro homem. . É verdade? Nada respondi. meu nome é Antonio Souza. O que diz em sua defesa? Nada respondi. moço – aconselhou em tom formal. como fiz com o delegado.Você está bem encrencado! Quando receber alta vai direto para o presídio.E está com algum problema de discernimento? . Está 156 O Cristo da Periferia.tabuleiro. O delegado que esteve aqui ontem nos contatou e disse que suspeita que você esteja com medo de prestar depoimento. Pode confirmar isso? Continuei impassível. ele falou comigo e com os colegas de quarto.Olá. .O médico falou que ele está lúcido. . Sou da Corregedoria Geral de Polícia. feliz por cumprir o seu papel. .Sabe da gravidade das acusações? São crimes inafiançáveis. recebi ordem para calar e nada disse a ele.Não precisa falar se não quiser. que pensei ser outro delegado. Pode apenas mexer a cabeça. surpreendendo-o. olhando-o para que soubesse que eu estava acordado e ouvindo todas as suas palavras. Contudo. apenas fiquei olhando para ele. . . Quero um defensor público respondi. . Ele chamou a enfermeira.Não vou contratar advogado. perguntando se minha língua tinha algum problema. Parecia ser uma pessoa honesta.Acho bom chamar seu advogado.Suspeitamos que você tenha sido vítima de um flagrante armado. Não quer se defender? Continuei calado. paletó e gravata.indd 156 27/11/2007 09:36:21 .

Eu soube que você foi visitado por um dos policiais que o prenderam. Ninguém parecia dar muito valor a um preso morto e desaparecido. Seu sogro falou com o Secretário de Segurança. Alguém o ameaçou? Você está com medo de dizer a verdade? Vamos! Balance a cabeça! Sim ou não? 157 O Cristo da Periferia. mas seu sogro disse que estão em lugar seguro. os olhos marejados. as ameaças. Uma lágrima escorreu de meus olhos. a existência de ameaças e agressões em casos nos quais policiais estivessem sendo investigados. mas ninguém me deu ouvidos. . contudo.Que bom! Começamos a nos comunicar. contar todo o ocorrido. Em meu íntimo a vontade era de gritar. sem manifestar qualquer emoção. Continuei calado. Não têm sentido essas acusações.indd 157 27/11/2007 09:36:21 . Tudo o que eu precisava fazer era contar àquele homem sobre as perseguições. .entendendo o que digo? Balancei a cabeça lentamente. responda. confirmando. O silêncio. olhando para ele. Por que ele veio aqui? Ele o ameaçou de alguma forma? Meu rosto parecia uma pedra. me era ordenado. muito menos para a Corregedoria.Não se preocupe. . Nunca havia tido antecedentes e isso soava suspeito a qualquer um que tivesse o mínimo de bom senso. numa cama de hospital. Agora precisamos tirar você daqui e levá-lo para um hospital particular. Estávamos procurando você há dias. Eu posso ajudar.Por favor. Sua família está bem. Não sabemos onde eles estão. Naquele momento lembrei de Graça e do pequeno Bruno.Você é um repórter famoso. O juiz só está esperando o seu depoimento para expedir o alvará de soltura. Soubemos dos atentados contra seu carro e a escola de seu filho. . a violência que sofri. Quando estava investigando o caso da agressão a Emanuel. Não era novidade para ninguém. Mas para isso é preciso que você conte o que aconteceu. cheguei a procurar a Corregedoria de Polícia. preso sob a acusação de porte ilegal de armas e tráfico de drogas. Agora o caso era diferente: eu era uma pessoa conhecida por meu trabalho na televisão e estava ali.

A lembrança das palavras de Emanuel me servia de consolo.indd 158 27/11/2007 09:36:21 .Nada do que ele disse foi capaz de me fazer falar. Eu deveria estar morto naquele momento. Portanto. Parecia que uma força bem maior estava comandando meus atos. mas meu coração lembrava que eu escapara duas vezes da morte certa. não era eu quem comandaria os meus atos doravante. 158 O Cristo da Periferia. Minha razão dizia que eu devia falar.

. Ademais. Deixe-me cuidar disso sozinho. . Jordão. Agora me pede para ficar fora? Está maluco? .indd 159 27/11/2007 09:36:21 . .É o advogado mais respeitado da cidade. Logo vai para um presídio se não se defender.Sabe nada! Se soubesse não estaria aqui. Foi professor de quase todos os juízes. Por favor. Não pode mergulhar assim numa matéria. Jordão! Eu sei o que estou fazendo . eu quero ficar aqui. um apresentador.Deixe o Bruno fora disso. . .Não estou mergulhando na matéria. Só acho que devo ficar por aqui. Vou mandar o advogado alegar insanidade.Você está louco? Quer ficar preso? . Falei até com o governador.contestei.Eu não quero que o senhor pague gente pra cuidar de mim.Você está louco mesmo.Dr. .Dr. Eu já lhe pedi para ficar fora disso.48 . Toda esta cidade estava a sua procura.Ficar fora? Ficar fora? Eu movi mundos e fundos pra te localizar.Pra quê? O que está investigando aqui? Você é um repórter. atenda meu pedido. Jordão. Pensava que estivesse morto. Sou bem grandinho para ficar escoltado por uma babá. você se importa? Como acha que ele vai ficar sabendo que o pai está preso porque não quis se defender? .gritava o meu sogro quando lhe disse que não aceitaria o advogado que contratou para me defender. . .Estou fazendo o que é preciso fazer. Dr.Mas você não ficará aqui por muito tempo. Depois 159 O Cristo da Periferia. Teria ficado com o segurança que pus à sua disposição e nada disso teria acontecido.E com seu filho. . Não precisa saber o que está acontecendo aqui. . .Não me importo com isso. Ele está em segurança. .Escute rapaz! Se você não se defender será condenado. Tira você daqui num instante. .

contudo. Até prefiro que não me vejam assim. Por pouco não pulei daquela cama e saí correndo. . O orgulho que sentiam poderia estar abalado. Meu sogro saiu cuspindo fogo com minha atitude. E quanto a Graça e o pequeno Bruno? O que pensariam de mim? Como meu filho seria visto na escola? De filho de repórteres famosos a um pai presidiário.Eu sei disso. Eu só entrei porque o Secretário de Segurança ligou pessoalmente autorizando. filho.não tem volta. Depois não diga que não avisei. Talvez nem fosse bom que voltasse. Como estava difícil seguir o chamado do Mundo. O ideal seria a mãe retomar o trabalho e permanecerem em Paris.indd 160 27/11/2007 09:36:21 . fora justamente quando Tiago tentou me assaltar dez anos antes. Pensei em meus familiares. pois eu não tinha esposa nem filho e minha carreira estava apenas começando. cruzou nossos caminhos outra vez. mesmo que estivesse seguro. Diga a eles que estou sendo bem cuidado aqui. Jogara fora mais uma oportunidade de sair dali. .Então lamento. Não entendia porque havia sido escolhido. Era uma mudança muito grande em minha vida. mas recusei. Você está sozinho agora. todos eles.Você tem consciência de que está preso? Seus pais e seus irmãos não podem entrar aqui para vê-lo. a única vez em que estive em perigo real anteriormente. Emanuel pediu que eu largasse tudo e o seguisse. todo quebrado mas livre. O destino. Dez anos antes teria sido bem mais fácil. . Talvez aquele encontro estivesse programado e eu apenas seguisse o inevitável. Por que justamente eu deveria herdar até mesmo os poderes de Emanuel? Estava ouvindo vozes e fazendo milagres. Escolhi minha carreira e família e não me arrependi. Eu também não me entendia. . que sofreu mais atentados desde que me envolvi novamente com o Cristo da periferia que em todo o período anterior. Significava que todas as situações complicadas que passei na vida estavam ligadas a 60 O Cristo da Periferia. Assim ele aprenderia bem o francês e ficaria longe do desconforto causado por mim.Não. Como meus pais explicariam um filho na prisão? Seria muito vergonhoso para eles. Pensando bem. Aceite o advogado.

Outros repórteres enfrentavam problemas e eu passava incólume por tudo.disse o meu colega de enfermaria. Todos diziam que eu conseguia ficar invisível quando era necessário. mas nunca fui agredido nem ameaçado. passando por seguranças e bloqueios. já estava longe daqui. Mesmo nas reportagens que fiz ao longo da carreira. .Se fosse eu.indd 161 27/11/2007 09:36:22 . . como se tivesse um passe livre para entrar e sair de qualquer lugar.Emanuel. sequer senti medo. Parecia que o mundo me havia protegido para o destino que traçou. que assistira à conversa com meu sogro.Cara! Tu é mesmo doidão . pois ninguém me impedia de conseguir uma boa entrevista. passei por lugares que eram considerados perigosos. 6 O Cristo da Periferia.

Álvaro Alvarenga não veio .disse o juiz. Calçava sapato mocassim marrom. em seguida os policiais encontraram em seu bolso um pacote com uma substância de cor branca em forma de pó. sendo perseguido 62 O Cristo da Periferia. Acho que já lhe disse que não vou mais nomeá-lo como defensor nesta Vara. . vestindo uma calça jeans desbotada e camisa surrada de manga curta. como se a bronca do juiz não lhe causasse qualquer espanto. pois o Dr. Acho que é porque a lista de defensores está em ordem alfabética e seu nome é o primeiro. vestiu uma beca tão desbotada quanto ele próprio e sentou-se a meu lado. mesmo porque não era uma pergunta. .Acho que terei de nomear outro defensor para o senhor. apenas um comentário do magistrado. então. . tendo os policiais encontrado em seu veículo um revólver calibre 38. Nada respondi.Dr. consta dos autos que na noite do dia quatorze de setembro o senhor foi parado numa operação policial de rotina. . olhando o relógio.indd 162 27/11/2007 09:36:22 . Era um mulato magro e tinha uma barbicha mal cuidada.49 O horário de inicio da audiência já havia passado e meu defensor ainda não chegara. preocupado em não atrasar a sua pauta. Senhor Paulo. Entrou rapidamente. consertado com fita adesiva. Não sei por que ainda insisto nisso. ocorrida na rodovia que liga Curitiba a Campo Magro. que após isso o senhor empreendeu fuga. Os cabelos crespos e sem corte até que combinavam com a barba. respondeu que não tinha registro de tal arma ou permissão para portá-la. adentrando na mata. que depois constataram ser cocaína. sem sequer me olhar. na quantidade de noventa e oito gramas. Estava sem terno. . Óculos de aro grosso. Nisso adentra uma figura que pouco se assemelhava a um advogado.Da próxima vez tomarei um ônibus mais cedo.Podemos começar. Está atrasado dez minutos. Álvaro.Foi o trânsito . o interrogatório do réu. ao ser questionado.dizia enquanto abria a pasta de couro mole com fivelas de cinto sobre a mesa.

sem saber direito o que fazer.perguntou o advogado. preso em flagrante delito. homem de Deus! . sendo então levado ao hospital. .Então. Mantive-me calado. .Não vai fixar fiança? .Senhor Paulo. Só não o faz porque não quer.Será que está entendendo as perguntas? . Que tal que ele é mudo? Daí não pode responder. já impaciente. .A audiência está encerrada! Fui retirado da sala pelos policiais que me escoltavam. O interrogatório é pessoal.Desembucha logo o que aconteceu! Não reagi. . . .Os crimes são inafiançáveis.indd 163 27/11/2007 09:36:22 . que em virtude da fuga caiu numa ribanceira. . atendendo ao comando que recebia.disse o advogado olhando para mim.Só estou defendendo meu cliente.Dr. não intervenha.inquiriu o juiz. Por favor.Então fala.comentou o defensor a meu lado. enquanto meu defensor coçava a barba. Álvaro. veria que o réu se recusou a prestar depoimento ao delegado. determino que o mesmo seja recolhido à prisão provisória desta Capital.Se o defensor tivesse chegado a tempo de ler os autos. doutor! Devia se preparar melhor para suas audiências! .pelos policiais. olhando para o juiz. . Concedo ao defensor prazo de três dias para apresentar defesa prévia. onde permaneceu até esta data.exclamou o juiz. . 163 O Cristo da Periferia. Devo adverti-lo que tem o direito de permanecer em silêncio. sofrendo diversas lesões e fraturas. onde permanecerá sob custódia até o julgamento definitivo da ação penal. O senhor confirma essas acusações? Permaneci quieto. . Contudo. quedando silente o réu.Será que ele é mudo? . . . a presunção será de que confirma as acusações.Não quer responder? . tendo o hospital informado que está lúcido e pode falar.

Somente eu não tentava provar inocência. apenas enfaixados. Se bem que eu não o havia ajudado em nada. Nem mesmo o irritante comando para calar eu ouvi. mesmo depois de receberem sentenças definitivas. Minhas dores aumentaram longe do hospital. pois os presídios não tinham vagas para recebê-los. Todos se diziam inocentes injustiçados. levou-me a pensar muito em minha vida depois do reencontro com Tiago. mesmo eu pedindo.indd 164 27/11/2007 09:36:22 . Como a vida podia ser tão frágil? Quem era eu. de Deus. preferindo ficar calado a despejar argumentos inúteis a ouvintes inexpressivos. pois os agentes penitenciários não me davam remédios. Desde a chegada fiquei sabendo de desentendimentos entre facções do crime organizado. Eu estava relativamente protegido em minha cela especial. afinal? Apeguei-me ao que construí. que dividia com três outros companheiros de infortúnio. Mesmo tendo cela especial.50 A vida na prisão provisória era horrível. a minha família. Tinha uma vida estável. no dia em que quase o atropelei. condenado. Confesso que me sentia revoltado por estar ali. fazendo com que fosse levado para aquele lugar. A instalação na cadeia de verdade. uma carreira de sucesso e perdi tudo em poucos meses. As pernas e o braço quebrados não estavam mais engessados. Nem mesmo o grande catedrático que meu sogro queria contratar me livraria daquela situação se eu não colaborasse. não podia dizer que o ambiente era suportável. 164 O Cristo da Periferia. Antes havia feito com que pedisse para ser defendido por um idiota que mal sabia abrir a boca e só levou bronca do juiz. Essa presença de criminosos perigosos tornava o clima do lugar muito carregado. vítimas de erros judiciais. ficando calado. Não ouvira mais o sussurro depois de minha chegada e estava ali por causa dele. pelo fato de ter curso superior e não estar. esquecendo que todas as pessoas estão suscetíveis a vontade do Mundo. Uma semana antes me impedira de apresentar defesa no tribunal. ainda. longe do hospital. Havia muitos condenados lá.

mesmo eu não sabendo onde estavam.indd 165 27/11/2007 09:36:22 . Ninguém mataria o filho. finalmente. Ou fazia ou o Mundo lhe tomaria o filho por outros meios. A idéia era obedecer cegamente.Jamais pude compreender a figura de Abraão sacrificando o próprio filho para atender a vontade de Deus. Entendi. A segurança deles era um fantasma que me atormentara antes da prisão. Meu silêncio nos depoimentos os levaria a pensar que conseguiram me calar sem matar. outros fariam. Eu perdera tudo. mas surpreendentemente ganhara confiança. Comigo na cadeia acabavam os seus medos. Já não culpava os policiais que me agrediram e prenderam. finalmente. O sacrifício lhe estava sendo pedido e a ele não competia entender os motivos. afinal. mesmo que lhe fosse determinado que acabasse com a vida de quem mais amava. ainda que recebesse ordem de Deus. irmãos e sobrinhos. nos acontecimentos. Eu estava vendo lógica. Mesmo confinado na pior situação de minha vida. O mundo dá livre arbítrio a todos para escolher seus caminhos. Eram pobres e ambiciosos. Minha fé aumentara. pois sabia que não haveria lugar onde pudesse esconder o filho do Mundo. Poucos sabem realmente utilizar essa liberdade para fazer o bem despretensioso. Certamente foram convencidos a me agredir com o pagamento de uma propina maior que seus salários. Era uma resignação na qual eu jamais acreditara. talvez piores. Por isso foi conveniente que a cólera de meus perseguidores fosse descarregada sobre mim. que Abraão só podia mesmo era atender a ordem recebida. inimigos da verdade absoluta acima dos interesses mesquinhos. Não tinha escolha. Havia protegido minha mulher e filho. entendendo a sua lógica. eu estava confiante. acreditando fielmente que os caminhos se abririam diante de mim como 165 O Cristo da Periferia. Emanuel havia dito para seguir os conselhos do Mundo. Graça e Bruno estavam seguros. pois eles também foram usados pelo sistema. Por isso tinha certeza de que estava mais protegido naquela cela de prisão do que em qualquer outro lugar. Eu sabia que estava ali por causa da armação planejada pelos inimigos de Emanuel. mas tinha consciência de que todos ao meu redor corriam perigo e eu não podia protegê-los. por mais absurdos que parecessem. Eu os segui e estava. Meu medo aparente punha em segurança todos meus outros parentes: meus pais. Aprendera a confiar cegamente. Se não fossem eles.

Disse que não deviam imaginar os motivos que me faziam estar ali. Jamais deveriam esquecer de suas palavras. Cada um era responsável por propagar os ensinamentos recebidos. extravasar o pensamento do repórter trancafiado. mas as palavras não. através dos escritos que minha mão ia criando. mas somente a carga com tinta. Eu sabia que tudo que escrevesse seria censurado antes de sair dali. pois eu estava bem. consegui ter acesso a papel e caneta. A narração prosseguiu. O importante foi que pude escrever. de seu exemplo e da verdade que sua existência entre nós representava. O sussurro havia voltado e estava ditando o que eu escrevia. pois os agentes penitenciários disseram que o tubinho servia para muitas coisas. percebi que escrevia coisas que eu não sabia.indd 166 27/11/2007 09:36:22 . Tinham consciência do poder e capacidade que Emanuel vira neles.o Mar Vermelho se abriu diante de Moisés. Por isso era importante escrever de uma forma que não impedisse a remessa. sem falar em culpa ou inocência. Por isso era importante que não se entregassem ao desânimo ou à falta de fé. não por mim mas através de mim. A carta foi se desenvolvendo como uma forma de orientação. chegar onde queria com minha visão do mundo através da palavra. se referindo a fatos ocorridos ao longo dos dez anos de pregação de Emanuel. Não era bem uma caneta. Começou recomendando que nunca se afastassem do caminho que trilharam com seu mestre. mas apenas acreditar que era a vontade de Deus. dando conselhos gerais e individuais. Em seguida escrevi outra carta. obra daquela inexplicável possessão. coisas que eu não sabia e tomei conhecimento somente ali. para consumir drogas e até virar arma. Quando comecei a redigir a carta. Bastava ter fé e seguir. Escrevi uma carta a meus pais pedindo que tentassem não se preocupar. pessoas sem valor para a sociedade mas preciosas para o Mundo. A caligrafia era minha. destinada a Tiago e seus amigos. Depois de alguns dias na prisão. 66 O Cristo da Periferia.

presenciei as revisões de vida de meus companheiros de cárcere. .. suas formas de pensar e eu anotava tudo quando voltava à minha cela. sem poder influir decisivamente nos acontecimentos. pois as conversas que se ouvia eram todas de técnicas criminosas e maneiras de praticar delitos sem ser preso. Depois de passada a fase inicial. podendo falar do amor. Gostaria de contar a sua história? . Veria que de provisória não havia nada. . Talvez quem deu esse nome devesse passar qualquer dia ali para uma visita. Mas estando ali. suas vidas. . ninguém. repetindo o que o sussurro dizia. Lá fora a vida fluía e eu estava ali. de como cada um pode ficar atento e ouvir os sinais. de abstrair o pensamento enquanto estava naquele lugar horrível. Eu queria mesmo era que ela fosse apagada e pudesse começar tudo de novo. Meu fígado está desmanchando e meu 167 O Cristo da Periferia. Era uma forma de me distrair. encarcerado. Entraria em cada lar.Sempre é tempo de recomeçar.. que alguém um dia disse que era uma prisão provisória.Agora não posso mais. Os presos contavam seus casos. Eu não entendia o que o Mundo queria de mim. Se estivesse solto teria um instrumento poderoso para difundir as idéias.. pois pretendia escrever um livro quando saísse dali.51 Tarde de sol no presídio. Por que me havia exposto a ficar num lugar onde só estava o pior da raça. através da televisão. onde minha capacidade de repórter em nada poderia ser útil.Você é o repórter que está bisbilhotando a vida de todos aqui para escrever um livro? .indd 167 27/11/2007 09:36:22 . . Na verdade era uma fábrica de bandidos.Sou eu mesmo.. quem me daria ouvidos? Ninguém. Você pode fazer isso agora mesmo . da amizade sincera. Aproveitava os momentos de convívio para tomar depoimentos. na qual todos tentavam convencer os demais de sua inocência. trancado e acusado de ser um criminoso.Minha história não merece estar em nenhum livro.respondi sabiamente.perguntou o sujeito com cara de poucos amigos. último reduto a que pode chegar a dignidade humana.

perguntou cético.respondi encerrando a conversa.Ele me curou! Me curou! Os outros presos olhavam com ar de desconfiança. Enquanto pensava só em mim os meus filhos cresceram e eu não vi. .Você viverá. O mundo quer lhe dar uma nova chance . Nesse dia terá de prestar contas do que fez com o presente que acaba de receber. .falei ainda conduzido pelo sussurro.Fui condenado a seis anos pelo ‘um cinco sete’ .Não enrolei .respondi.Está dizendo que é um santo milagreiro? . Consumi tanta droga que já não tenho mais saúde.Você enrolou ele legal! .Quanto tempo ainda vai ficar preso? . Seu fígado e seu pulmão estão novos. . Não criei meus filhos e eles estão cometendo o mesmo erro com meus netos. que significa assalto a mão armada. Sei que vou morrer antes de mudar qualquer coisa. .Acho que sim .A prisão está pirando você também? . Seu semblante pareceu mais saudável no mesmo instante. E não esqueça que ela um dia vai acabar.depois de algum tempo descobri que ‘um cinco sete’ é uma referência ao artigo 157 do Código Penal.pulmão parece uma bomba d’água. Como não poderia estar arrependido? . . Construa uma nova vida. onde devo ficar mais dois anos. Fazia 168 O Cristo da Periferia. provocou uma revolução na prisão provisória. Tenho trinta e quatro anos e já sou avô. que depois soube que se chamava Lázaro. Depois posso receber liberdade condicional.Rapaz.disse meu companheiro de cela.Claro.Você está arrependido de seus pecados? . Neste momento as suas doenças estão sendo curadas.gritava. Daqui a três meses vou para a colônia penal agrícola. que estava sentado próximo e ouvira tudo. você é um santo . Os olhos do homem se encheram de lágrimas.Estou aqui há nove meses. Mas não sei se viverei tanto tempo. . . No dia seguinte todos viram Lázaro aproveitar a tarde de sol para se exercitar como se fosse um atleta. Ele está curado mesmo. . Faça o que disse que queria fazer.Você só precisa estar atento aos sinais que ele envia. imaginando que o pobre coitado estivesse louco. A cura do preso.indd 168 27/11/2007 09:36:23 . . .

contudo. eu anotava suas histórias. Não demorou para que outros presos me procurassem pedindo cura para seus males. Eu aproveitava esse aumento na procura para colher mais depoimentos para meu livro. desarmar o coração antes de pedir milagres. me expôs e atraiu a atenção dos inimigos de Emanuel. O problema era que o mundo havia escolhido Lázaro por seu arrependimento.indd 169 27/11/2007 09:36:23 . Qualquer um que quisesse um milagre deveria estar sinceramente arrependido e disposto a mudar sua vida. Nenhum dos outros demonstrou arrependimento sincero e todos receberam somente conselhos para mudar a vida. Essa notoriedade. pendurava-se na barra. Mesmo que o Mundo não atendesse os pedidos de todos. Era isso que o sussurro dizia através de mim.flexões. levantava os pesos improvisados. 6 O Cristo da Periferia.

Quando meu advogado fez perguntas. surpreendendo-os. essa era uma atitude comum de marginais experientes para 170 O Cristo da Periferia. no entanto. Ao seu lado um outro homem. com os dois policiais se sentando atrás. Meu advogado perguntou como foi que meu rosto ficou ferido. o Dr. Parecia até que eu era um assassino ou um devorador de pessoas. Ao meu lado estava meu defensor.indd 170 27/11/2007 09:36:23 . prontos para pular sobre mim ao menor esboço de tentativa de levantarme. Podia sentir suas respirações ansiosas. do outro lado. Álvaro. fazendo com que tivessem de correr pela mata para impedir a fuga. Respondeu que provavelmente eu havia batido o rosto dentro do camburão para tentar acusá-los de lesões corporais. com hematomas incompatíveis com a queda. Do contrário nem mesmo a superioridade numérica e física deles teria impedido que eu fugisse. que imaginei ser o promotor de justiça e. que me cumprimentou como se não lembrasse direito da minha fisionomia. Com riqueza de detalhes foi construindo uma história mentirosa sobre como eu havia sido preso. era estar algemado e escoltado por dois soldados gigantes. O policial se exaltou. Já devia estar acostumado. Fiquei novamente na presença do juiz que me mandou para a prisão provisória. O que mais me incomodava. pois nos últimos três meses havia sido meu único meio de locomoção. tendo que ser advertido pelo juiz. estranhando que um homem desarmado pudesse escapar de cinco policiais treinados e armados. como se eu fosse atacá-los a qualquer momento. Fui colocado numa cadeira e as algemas removidas. cada um com a mão na arma.52 Cheguei ao tribunal no humilhante camburão. disse que eu havia demonstrado muita habilidade e velocidade. Disse que eu só não consegui meu intento porque caí no barranco e quebrei as pernas. Era um dos policiais que havia me prendido. um datilógrafo em frente a um teclado e monitor de computador. sobre a arma e as drogas que encontraram comigo e minha tentativa de fuga. Então o juiz mandou entrar a primeira testemunha de acusação.

Em seguida foram ouvidos os outros policiais. Um a um. Embora se tratasse de testemunha de acusação.comprometer policiais honestos e tentar revogar a prisão.Se fosse tão honesto não estaria com uma arma e cocaína comentou. Perguntou se o mesmo havia participado da prisão de Emanuel da Silva. respondeu que não. Senti vontade de ajudar. mas recebi o mesmo comando sussurrado das vezes anteriores: . respondeu que não. Então o Dr. o maldoso policial. sem que jamais tivéssemos trocado uma palavra. todos foram confirmando a história mentirosa contada pelo primeiro.indd 171 27/11/2007 09:36:23 . testemunhas de acusação. Álvaro não caiu na provocação e perguntou se ele sabia que eu estava investigando a atuação da polícia. Até eu acreditaria neles se não tivesse acontecido comigo. de falar a ele para perguntar isso ou aquilo. O Dr. O Dr. disse ao juiz que não concordava com a dispensa da testemunha. um jornalista honesto e responsável que nunca tivera passagem pela polícia. ao contrário. nem sabia quem era. O promotor de justiça pediu ao juiz que dispensasse o seu depoimento. Insistiu no 171 O Cristo da Periferia. Álvaro se desmanchava em perguntas para tentar colocá-los em contradição mas. o Cristo da periferia. Então o Dr. Era o policial que eu havia curado no hospital. Meu defensor me surpreendeu positivamente. fez perguntas pertinentes e senti que empreendeu um grande esforço para tentar me inocentar. já poderia ser prolatada a sentença condenatória. Estava fartamente demonstrada a minha culpa e. como não havia testemunhas de defesa. Álvaro disse que eu não era um criminoso experiente. salvo pequenos detalhes. Outras vezes perguntava se eu queria que perguntasse algo. sua ausência devia ser interpretada como sinal de que não concordava com seus companheiros. De vez em quando me olhava e cochichava perguntando se era verdade o que a testemunha dizia. Álvaro me surpreendeu mais uma vez.Cale-se! Cale-se! Cale-se! A quinta testemunha de acusação não compareceu. irônico. . Sem que eu lhe dissesse nada. porque as testemunhas ouvidas foram unânimes em confirmar a denúncia. os depoimentos eram iguais e consistentes. Embora eu não tivesse ajudado em nada.

surpreendendo pelo raciocínio rápido. ainda que a testemunha comparecesse para confirmar os depoimentos de seus colegas.depoimento. somente para que não se alegue cerceamento de defesa. por ser primário. 172 O Cristo da Periferia. pois não havia muros. doutor. enquanto minha escolta recolocava as algemas e me conduzia de volta ao camburão. Se bem que não era muito provável que houvesse vaga no presídio para mais um condenado. determinando que o policial ausente fosse requisitado para seu comandante. Qualquer outro em seu lugar teria agradecido por não precisar ouvir mais uma testemunha de acusação. Cada dia que eu ficasse ali seria um dia a menos para cumprir no presídio. como Lázaro.disparou o advogado. onde os presos tinham uma sensação maior de liberdade. O juiz acatou o pedido do advogado e marcou uma nova data para audiência. logo seria transferido para a colônia penal agrícola. . .Vou deferir. Ele apenas se despediu de mim com um sorriso contido. no entanto. Nada falei ao Dr. mesmo que tivessem curso superior. bem como que fosse escoltado ao tribunal caso se recusasse a comparecer espontaneamente.E isso mudaria a sua sentença? . Pior do que está não fica. Ele. que diziam ser melhor que o presídio. pois os condenados não gozavam desse benefício. No mínimo ganharia mais algum tempo para mim na prisão provisória. Se desse sorte de pegar uma pena leve. Como gostava de implicar com meu defensor. Mas acho que o senhor está apenas insistindo em produzir mais uma prova para condenar o seu cliente. Álvaro. foi muito hábil em concluir que não tinha testemunhas de defesa e que a sentença seria condenatória de qualquer jeito. Meu defensor havia falado em sinais e captado claramente a mensagem de que o policial ausente deveria ser ouvido.indd 172 27/11/2007 09:36:23 .Então vamos ouvir o que o homem tem a dizer. mas devo ter deixado escapar um sinal de aprovação e admiração por sua atuação naquela audiência.É! Não mudaria nada. pedindo que o mesmo fosse conduzido para depor. . A estratégia também me garantia mais um tempo de cela especial. não deixou de fazer um comentário desairoso: .

tinha uma confiança tão grande de que a comida estaria lá na hora certa.Também já ouvi falar de você.Soube que quer falar comigo.Deixem ele passar. Curou o meu chegado Lázaro. que nem se preocupava em imaginar de onde ela viria. . O Lázaro disse que vocês são muito amigos .Você é o Carioca? .perguntei. e tirara tudo que eu tinha.Daí São Paulo. Todos pareciam dispostos a me livrar da prisão. Fiquei calado diante do delegado. Emanuel. que teria todos os motivos imagináveis para ser envolvida num flagrante forjado. Senti que o Mundo queria de mim uma entrega incondicional. seria capaz de traçar o meu futuro. É sangue bom. no entanto.fui delicado.53 De volta à prisão provisória.disse o homem baixinho entroncado. .Pois quero mesmo. gente fina. eu era uma pessoa de imagem pública. . . mas nada puderam fazer se não me defendi. Todos estranharam minha atitude. Vão querer matar um santo? . Esse era um exemplo de fé que eu deveria exercitar: a confiança cega. Nem eu sabia que estava escalado para ser o provedor daquela noite.É o seguinte. Como não tinha alternativa. A gente não se cruza por aí. As chances de me defender haviam se acabado no dia em que recusei a ajuda de meu sogro. que rompesse todos os laços de segurança e rotas de fuga. mas já ouvi falar de ti. . Afinal. chega aí . Lembreime do dia em que cheguei à casa de Emanuel com um frango assado e uma cesta básica. por trás dos dois negros mal encarados que protegiam a entrada da cela. de guiar os meus passos. Eu te chamei aqui pra avisar pra tu te 173 O Cristo da Periferia. . do corregedor e do juiz. meu caminho era esperar e confiar. Estava entregue ao destino e nada aconteceria por minha vontade exclusiva.indd 173 27/11/2007 09:36:23 . fiquei pensando em quanto tempo mais eu teria que permanecer recluso. Dona Maria não tinha mais nada na despensa. pois sabia que o Carioca era o maior chefão do tráfico por ali. Somente a força que me livrara duas vezes da morte.

. . Tua cabeça tá valendo dez mil.Como assim? Que homens do dinheiro são esses? .perguntei.Tem neguinho querendo te pegar. .Armar pra mim? .Sério? O que mais eles querem? Já conseguiram me prender e me calar. mas é perigoso pros homens do dinheiro. Tu não tá em cana porque tava na cola de uns caras? .Fica frio.Tu não faz mal.E você vai querer ganhar esse prêmio? . Por que não me deixam em paz? .o sotaque era um carioca bem carregado. .Agradeço a sua preocupação comigo.perguntei meio assustado com a notícia.falava como se me matar fosse a coisa mais natural do mundo. meu santo.Tá viva. Tô falando dos caras que mandaram armar pra ti.desabafei. . medindo as palavras para tentar descobrir o que ele sabia.indd 174 27/11/2007 09:36:23 . vai comer capim pela raiz.Mas por que alguém iria querer me pegar? Não faço mal a ninguém .Pois é! Esses caras querem te ver morto. Agora eles estão com medo dessa pessoa. .perguntei suando frio.Eu nem sei se essa testemunha está viva ou morta.É que tu disse que tinha uma testemunha que era uma bomba. mas ela não.Não entendi. Se estivesse morta os homens não iriam pagar pra arrancar de ti o nome dela. . . justificando o apelido. Só depois pode te apagar . não te faz de bobo não. sacou? . .Só te matar não garante o prêmio. Mas se descuidar com neguinho do lado de lá. mermão.É isso aí. mas Carioca não me deixou falar. Eu te chamei pra te avisar. mas vou dispensar a proteção.Ô São Paulo. Neguinho tem que te pendurar e arrancar o nome da testemunha.balancei a cabeça afirmativamente. . pois tu tá preso. Não é pra me matar que estão pagando dez mil? . . São Paulo. visivelmente transtornado. Aqui ninguém rela a mão em ti. . . 174 O Cristo da Periferia. Tu fica na proteção dos meus chegados que eu não deixo ninguém te tocar.cuidar . .

São Paulo. . Minha oferta taí e é de graça.Se eu estou aqui é pela vontade de Deus. Se ele quiser que eu morra. Se os camaradas te pegam. Eu. estou preparado . Só ouvi o boato.Tu tá doido..Pode me responder uma pergunta? . tá com muita raiva de ti. um prêmio de dez mil reais era excelente para qualquer preso. . Agradeci e saí. Se precisar é só chamar. Afinal.indd 175 27/11/2007 09:36:23 . mais assustado do que nunca. . . tu tá frito mermão. Seja quem for.Isso eu não sei.disse. Parei na porta da cela e voltei-me para o Carioca.Quem é que está pagando para me ver morto? . porque não foi comigo que negociaram. 175 O Cristo da Periferia.o danado do sussurro estava ditando essas palavras para que eu falasse. Mas tenho que admitir que é macho pra caramba.Pode falar . estava assustadíssimo. por minha vez.Tu é mesmo doido. visivelmente chateado com minha recusa de ajuda.

Não era fácil.54 Depois de passar a tremedeira por ter a cabeça a prêmio. Eu tinha certeza de que algum dos agentes poderia ser corrompido. Quanto ao perigo que corria. Que não colocaria ‘panos quentes’ e perseguiria o responsável até que fosse preso se algo me acontecesse. Ao menos estava treinando para confiar. Felizmente o diretor da prisão provisória era uma pessoa extremamente séria e fez uma reunião com todos os agentes.indd 176 27/11/2007 09:36:23 . mas eu tinha que me adaptar. que estava rodeado de capangas mesmo dentro da prisão. pois temiam que eu fosse atacado e a presença de Lázaro. Os agentes penitenciários aprovaram. Ninguém faz nada de graça. Certamente Carioca iria cobrar a proteção de alguma forma compatível com seu caráter criminoso. Isso eu soube através do próprio diretor. não atacá-la. pessoas que deviam proteger a população. Afinal. que me venerava. caso um de meus outros colegas de cela sofresse uma recaída e pensasse no prêmio oferecido pela minha cabeça numa bandeja. para recomendar que eu tivesse muita cautela e evitasse andar sozinho perto da facção oposta à 176 O Cristo da Periferia. eu fora preso por policiais corruptos. Bem ou mal ele representava uma das facções que lutavam para dominar o tráfico de drogas e eu não queria ter meu nome associado ao dele. Quem não aceitou quieto a minha recusa foi Lázaro. seria um trabalho a menos para eles. Não era conveniente que eu aceitasse a proteção oferecida por Carioca. Passou a ser meu fiel seguidor onde quer que eu fosse. o mundo já me livrara de situações extremas e eu aprendera a confiar nele. mesmo que fosse como seu protegido. entendi perfeitamente a atitude do sussurro. Afinal. Não dava para confiar num traficante de drogas. eu era acusado de tráfico e a associação com o crime organizado não me ajudaria. Conseguiu até ser transferido para minha cela. utilizando da influência de Carioca para colocar um preso sem curso superior numa cela especial. dizendo que estaria de olho em cada um que se aproximasse de mim. revelando sua preocupação comigo. que mandou que eu fosse levado à sua sala.

mas nunca interromper o tráfico. os traficantes inventavam outras. Quanto à existência de gangues ali dentro. mas esbarrava em diversos obstáculos para fazer daquele um lugar decente. Numa conversa informal. 177 O Cristo da Periferia. Devia estar tão acostumado a falar com gente que queria convencê-lo da inocência. que ficou até agradecido por eu não entrar no mérito do meu problema com a justiça. de modo que só se havia conseguido diminuir. disse que era um fenômeno decorrente da própria personalidade dos presos.aproveitei o encontro com o diretor para entrevistálo para o meu livro. O diretor aceitou minha esquiva. que resolvera me proteger mesmo sem eu aceitar sua oferta. disse a ele que preferia deixar o caso para ser decidido pela justiça. Toda vez que se descobria uma forma de ingresso.do Carioca. estava ali para cumprir sentenças e não para analisar crimes. De vez em quando um era descoberto. na medida do espaço disponível. Como eu já me sentia protegido pelo mundo. não demonstrei qualquer preocupação . que certamente eram os responsáveis pelo ingresso de drogas. mas isso só acontecia quando tinha ajuda da polícia militar. corrupção de agentes. Isso aumentava o poder de gente como o Carioca. contou-me como lidava com os problemas de falta de verba. mas a praga da corrupção se espalhava feito erva daninha. Apenas se controlava a rivalidade. Tive de ser hábil quando ele quis falar sobre os motivos que me levaram à prisão. era o ingresso de drogas. não acabando nunca. O ideal seria que pudesse fazer varreduras constantes em todas as celas. Era realmente um homem honesto. tráfico de drogas e organizações criminosas. mantendo distantes os rivais. O maior problema. O quadro de agentes mal dava para manter a mínima segurança por ali. que dominava seus colegas de reclusão pelo poder do vício.meus exercícios de confiança estavam surtindo resultados positivos . contudo.indd 177 27/11/2007 09:36:24 . Com educação. sendo impossível controlar a afinidade entre eles. E ainda havia os corruptos. mas com firmeza. Afinal. que não vinha se não houvesse rebelião.

Foi você que o chamou pra levar o safado de volta pro quarto.Mas eu posso matar você! .Pare de mentir. . Tinha compromisso. Percebi então que alguém estava ajoelhado. Paramos ao lado e elas não perceberam nossa presença. . Caminhamos em direção aos faróis acesos e percebemos que havia umas pessoas perto dos carros. O senhor disse pra não matar antes dele contar. Era como se não estivéssemos ali.disparou um tiro contra a cabeça do 178 O Cristo da Periferia.Eu não traí vocês! . .Eu não podia matar ele! Eu não podia matar ele! . . Deixou o cara vivo no hospital. Eu estava caminhando sozinho pelo corredor da prisão quando o encontrei e ele disse: . parecia o pátio de uma fábrica abandonada.Traiu sim! Não compareceu na audiência e despertou a atenção daquele defensorzinho de merda. Quando comecei a apertar o pescoço do cara chegou gente e eu tive que parar. todos sem uniforme. . desgraçado! O enfermeiro falou que não chegou ninguém. Olhando mais atentamente reconheci cada um deles.Então você pensou que poderia nos trair? . só dois carros estacionados num local ermo. .Não minta pra mim.indd 178 27/11/2007 09:36:24 . aos prantos.Mas eu não podia ir. com uma arma apontada para sua cabeça. Eram os soldados que me acusaram. . com a arma na mão apontando para sua cabeça. Ajoelhado estava aquele que eu curei e. Os outros só olhavam. o delegado bonachão que prendera Emanuel. Diga logo que você é um incompetente.falava o outro ajoelhado.Ele não contou o nome da testemunha. . sem nada fazer.Vem comigo! Você precisa ver isso! Instantaneamente fomos transportados para outro lugar.55 Naquela noite sonhei com Emanuel. Estava escuro.perguntou o delegado.

com cara de assustado. Pode descansar em paz. O diretor achou melhor você ficar na cela. morto no chão. 179 O Cristo da Periferia. Aquele soldado era minha esperança de liberdade. Eu esperava tanto do seu depoimento que estava tendo alucinações. Cumpriu a sua parte de homem honrado.Eu tentei ajudar! Acreditem em mim! Eu tentei de todas as formas.interveio Emanuel. dizendo que eu não deveria ter esperanças. mas você conseguiu se redimir e se transformou numa pessoa melhor. enquanto os olhávamos sem que nos vissem. vi uma cena surpreendente: Emanuel segurando o braço do homem em pé e todos os outros olhando para o corpo do mesmo homem. São Paulo! O clima está pesado lá fora hoje. quando as portas das celas foram abertas. O soldado falou. Senti pena do soldado morto. Ele me manteria ali enquanto quisesse. Acordei impressionado com a cena que acabara de sonhar. Entraram nos carros e foram embora. Era um sinal do Mundo.Você ajudou muito e será recompensado. Emanuel e o soldado afastaram-se um pouco. que estava perto.E você conseguiu . Ganhou uma vida nova e não teve tempo para aproveitá-la. Não deveria pensar em sair antes de sua permissão. Eu. Seu tempo neste mundo acabou. . Ele ficou em pé. No dia seguinte. . um agente penitenciário me impediu de sair.Você não.pobre homem. Naquele momento Emanuel avançou por entre os homens e pegou o morto pelo braço. Poderia ser somente um sonho. Talvez meu subconsciente estivesse divagando. Não. enquanto o assassino chutava o corpo caído para ver se estava mesmo morto. ajudando-o a se levantar. em tom emocionado: . . que caiu morto. mas em minha cabeça pareceu bem real.indd 179 27/11/2007 09:36:24 .

por precaução.Você vem comigo – ouvi a voz do diretor. Havia uma gritaria que não dava para distinguir. dando conta de que a polícia militar estava entrando na prisão provisória. . Com tantas denúncias de corrupção não seria de se estranhar se isso acontecesse.O que aconteceu? – retruquei. Era como se centenas de soldados ingressassem no local para conter uma rebelião. Em seguida ouvimos sirenes.56 . – O prêmio pela sua cabeça subiu para cem mil. achou prudente ficar comigo na cela. . Os presos estavam exaltados e parecia haver briga. dando a noção de aproximação. Meia hora depois da saída dos presos. Parece que já encontraram a testemunha que você escondia. Há um presídio inteiro querendo matá-lo. A porta da grade do corredor foi aberta. O diretor trazia um uniforme policial de meu tamanho. O que teria ocorrido? Lázaro também estranhou e.indd 180 27/11/2007 09:36:24 . escondi-me 180 O Cristo da Periferia. Achei estranha a notícia. sem tortura. mandando que ficássemos no fundo da cela.Não sei o que aconteceu. Não tenho mais como mantê-lo aqui. o barulho vindo do pátio dava a impressão de que algo diferente acontecia. voltados para a parede.Estão chegando reforços. Então coloquei o capacete que cobria boa parte do rosto. O som do batalhão em marcha aumentou. Só recebi ordem de segurar você aqui e te proteger. um escudo e um cacetete. como sinal de que não estávamos rebelados. Pouco depois da chegada da polícia militar ouvimos barulho de marcha. Felizmente as portas dos corredores haviam sido trancadas e estávamos protegidos ali. mas o agente não permitiu que olhássemos. para ter certeza de que o agente não estava mentindo e usando o nome do diretor. A coisa deve estar preta – disse o agente penitenciário. . Vesti rapidamente e recebi uma arma sem munição.

indd 181 27/11/2007 09:36:24 . A cela era bem mais confortável que a da prisão provisória. eu não tinha palavras para agradecer pela amizade e lealdade que demonstrou. Ao passar pelo pátio. Imaginei que o grupo do Carioca me protegeu enquanto a polícia não chegava. Quando finalmente fiquei só e a adrenalina baixou. pois estávamos numa situação de emergência. associei meu sonho ao que havia acontecido. Apenas o olhei ao sair. acenando com a mão e senti a emoção em seus olhos. vi que havia dois grupos separados. Contudo. Fui levado para a delegacia da Polícia Federal. por trás do cordão que isolava os presos. Não havia outros presos lá.atrás do escudo e comecei a marchar como os soldados. Quanto a Lázaro. Eu nada fiz para isso. sem que os outros presos suspeitassem da minha identidade. Eu estava sozinho. O Mundo colocava anjos protetores em meu caminho sem que eu fizesse ou pedisse nada. se o soldado era mesmo o que eu estava imaginando. Continuava preso. protegido por toda uma estrutura policial. por isso ela vinha espontaneamente. como se agradecesse pelo milagre que havia recebido através de mim. devia ter participado da prisão de Emanuel. sem qualquer negociação. Saí sem falar com ele. com 181 O Cristo da Periferia. Podia ter ocorrido como no meu caso. do outro lado a facção inimiga dele. Será que a testemunha a que se referiam era o soldado? Será que minha morte havia sido determinada porque pensaram que ele era a testemunha bombástica que eu prometia apresentar antes de ser preso? Mas ele não participara da prisão de Emanuel! Ou participara? Isso eu não podia saber. Num deles estavam os ligados ao Carioca. Eu jamais poderia pensar que um líder do crime organizado pudesse colocar a sua estrutura para me proteger. saindo com o pelotão que entrara para me resgatar. O sussurro me havia proibido de aceitar a ajuda. dando conta de que uma luta se travara ali. Nem mesmo a cura de Lázaro eu podia explicar. Sempre imaginei que a prisão de Emanuel fora feita por policiais civis ligados ao delegado bonachão. Depois que foi curado passaram a me chamar de São Paulo e a me proteger sem pedir nada em troca. cercado por todos os lados. Entre os dois grupos havia marcas de sangue no chão. pois ele não prestara depoimento. mas protegido.

Concluí que meu tempo na prisão provisória havia acabado. Fui direto do hospital para a prisão provisória.indd 182 27/11/2007 09:36:24 .Deveria aceitar a mudança e viver meu tempo no lugar em que o mundo havia me colocado. que já fizera o que deveria ter feito lá – embora não fizesse a mínima idéia do que era. Só que eu não passei pela delegacia. 182 O Cristo da Periferia. . Mais uma vez eu estava numa situação para a qual não havia contribuído com nada. Fui pivô de uma rebelião e nem mesmo sabia o motivo pelo qual o Mundo queria que eu ficasse preso.os militares prendendo e entregando à delegacia. Meu destino era mesmo o conformismo com os acontecimentos e obediência cega aos sinais que recebesse.

Contive por pouco o choro convulsivo. o juiz esclareceu que havia antecipado a data a pedido do promotor de justiça. Os agentes conversavam comigo como se eu não estivesse preso. foi feita comigo sentado num banco da viatura e não no camburão. A transferência. Para minha surpresa um deles pediu um autógrafo meu para sua coleção.57 Uma semana depois de minha chegada à polícia federal fui levado ao fórum. Agora compareceria diante do juiz com a certeza de que a testemunha que poderia me inocentar estava morta. Apenas as lágrimas correram de meus olhos. Mas eu havia optado por seguir os sinais do Mundo e iria para onde ele me levasse. no estacionamento de um 183 O Cristo da Periferia. por isso estranhei quando o carcereiro veio me buscar. concedendo-lhe a palavra. A delegacia não tinha sequer lugar para tomar sol. sentindo o peso de tudo que havia passado nos últimos meses. Começada a audiência. só vendo gente quando traziam comida. Por isso fiquei a semana toda confinado na cela. Sentia como se fizesse uma eternidade que estava fora da mídia. Foi um procedimento bem menos traumático que os anteriores. pois a cela em que estava não era adequada para longa estadia. Talvez o meu esgotamento fosse conseqüência dessa solidão. Nem mesmo o sussurro se apresentou para me dar alento ou fazer companhia. dessa falta de perspectiva. não havendo mais razão para que se aguardasse a data designada. Ainda não era o dia marcado para a audiência. com um tiro na nuca. pela primeira vez desde que eu havia sido preso.indd 183 27/11/2007 09:36:24 . Eu já nem lembrava que era apresentador de telejornal antes de ser preso. Senti calafrios quando ele confirmou que o quinto soldado responsável pela minha prisão havia sido encontrado morto. Só me restaria receber a sentença e ser transferido para um presídio. Este informou que a testemunha que deveria prestar depoimento havia sido assassinada na semana anterior. Aquele homem talvez não soubesse o resgate que estava fazendo de minha auto-estima.

Para minha grande surpresa. que pediu proteção especial para testemunhar. mas meras presunções não são suficientes para inocentar o réu.Doutor Antonio.Sim.O réu nunca teve qualquer envolvimento com a polícia e tudo indicava que fora detido num flagrante armado. forçando-o a calar. devolvendo a cor a meu rosto. se não há provas. não podemos levar em consideração o seu depoimento. . Queria prestar depoimento mediante perdão judicial de sua 184 O Cristo da Periferia. diante de fatos e circunstâncias verificados em outros processos daquela promotoria. depois de um atentado na escola do menino. Contudo. a testemunha que entrou na sala era o corregedor de polícia.Sim. . a corregedoria suspeitava que o réu estivesse sendo coagido a permanecer calado. . onde outrora funcionou uma grande indústria de tecidos.E que provas são essas? .Mas hoje temos muitas provas . Ocorre que o sogro do réu informou que ele havia tirado a esposa e o filho do país.E nessa qualidade o senhor investigou o presente caso? . que havia me visitado quando estava no hospital.falou o corregedor. . .As investigações continuaram e não chegávamos a nenhuma prova cabal. sou assessor do corregedor geral de polícia. Suspeitávamos que o policial que o visitou no hospital o tivesse ameaçado. A corregedoria encontrou alguma prova? . é verdade? .Faz sentido. fomos procurados por uma pessoa. .tremi ao ouvir isso do juiz.indd 184 27/11/2007 09:36:24 . o senhor trabalha na corregedoria.E qual a razão dessa suspeita? . Antes.Logo depois da última audiência desta ação penal.Mas se fosse isso ele não contaria em juízo? . o Doutor Antonio Souza. Depois do juramento de dizer a verdade começou a inquirição pelo juiz.Seria de se esperar. o próprio réu havia registrado queixa porque alguém o teria tentado jogar para fora da estrada. pois o senhor não presenciou os fatos .Então. era imperativo que fosse ouvida uma outra testemunha. .barracão abandonado na cidade industrial. .

Sim.participação nos crimes que denunciaria.indd 185 27/11/2007 09:36:24 . . juntamente com os outros quatro soldados.E a permissão foi concedida? . Nem que o soldado Cirineu estivesse vivo conseguiria impor sua versão à dos outros. . Com as informações prévias.A promotoria não tinha alçada para negociar perdão. pedimos quebra do sigilo bancário e telefônico dos outros soldados. . A testemunha foi assassinada antes que pudesse assinar o acordo de colaboração.Chamamos a promotoria de investigações criminais e pedimos permissão para fazer o acordo com a testemunha.Não deu tempo. . alem de troca de identidade com pensão vitalícia. .E o que foi feito? . para prender o réu com um flagrante preparado. 185 O Cristo da Periferia.Por isso o senhor está aqui. que espantosamente tratava os militares como subordinados.Seria um depoimento contra os quatro que temos.E o que descobriram? .E quem era essa testemunha? . .Mas descobriram algum crime nisso? . . um dos que prenderam o réu.E a permissão judicial foi concedida? . .Era o soldado Cirineu. . Ele disse que havia cometido uma grande injustiça para com o réu.Ele contou que foi contratado.E esse soldado Cirineu revelou o que sabia sobre esta ação penal? .Também pensamos isso. .E que injustiça foi essa? .Através das conversas telefônicas chegamos a um delegado de polícia. eu suponho. Tinha que pedir permissão judicial para negociar. . .Sim senhor. a quinta testemunha desta ação.Sim. Descobrimos que as informações do soldado Cirineu tinham fundamento.

. mas elas existem e já vou falar delas. disse que ele estava curado. Obtida a informação.O soldado relatou.O soldado relatou que estava sofrendo de dores gástricas. Então Cirineu foi contratado para ir ao hospital.E por que não o fez? . Não podíamos 186 O Cristo da Periferia.Eu não entendi direito.Entendo.. Dá a impressão de que esse soldado Cirineu sofreu uma crise psicótica.indd 186 27/11/2007 09:36:24 . Com a tensão pelo ocorrido com o réu.Milagre? O senhor há de convir comigo que essa história está ficando mirabolante.Então fale logo. começaram uma caçada por ele nesta cidade. estava sentindo muita dor. Mas o delegado queria saber quem era a testemunha que o réu escondia. não podíamos tomar medidas efetivas antes que o soldado Cirineu assinasse o acordo de cooperação. Reputamos a uma religiosidade momentânea do soldado. Não temos o dia todo. . O senhor ainda não apresentou nenhuma prova consistente. doutor. .Mas por que torturaria o réu? O queria saber? . Essa foi uma parte do depoimento que não compreendemos. Mas as escutas telefônicas continuaram revelando as relações estranhas entre os soldados e o delegado. deveria matar o réu. arrancar o nome e paradeiro da testemunha misteriosa. Ao contrário do que imaginávamos.Pois é.Tem razão Excelência. em conseqüência de úlcera que o acometia desde muito antes. O réu.Sim. Que milagre foi esse que salvou a vida do réu? . emocionado. . A partir desse dia. resolveu mudar de vida. que um milagre ocorreu naquele dia. porque ele estava fazendo acusações sérias contra a polícia. O soldado havia dito que foi ele que visitou o réu no hospital. .A prisão era para desacreditar o réu. .Isso não ajuda. não foi lá para ameaçar o réu. O senhor pode explicar? . . Quando tocou o réu a dor foi passando. o que torna o seu depoimento suspeito e fantasioso.Como eu disse. . talvez uma crise tardia de consciência. com palavras sábias. . mas para torturá-lo e matá-lo. Quando o soldado Cirineu decidiu romper com eles.

Todos foram muito resistentes ao interrogatório. ele não teve tempo de chegar à corregedoria. Acabou confessando. mas disparados com abafadores de som. o Cristo da periferia. Interceptamos a ligação de um dos soldados avisando ao delegado que haviam encontrado o traidor. mas o soldado Cirineu já não estava com eles. de onde eram geradas as chamadas. Queríamos resgatar o soldado antes que algo pior acontecesse. . com exceção do delegado.protegê-lo oficialmente. Naquela noite.Quando o delegado recebeu a ligação. um a um. Os soldados também não atendiam. Conhecendo essa informação e juntando-a às demais que tínhamos. Foram recolhidos ao quartel da polícia. para não levantar suspeita. Finalmente um deles atendeu o celular. Um colega falou com ele como se quisesse contar alguma fofoca do quartel. mas nos colocamos à disposição para recebêlo quando se sentisse em perigo. Alguns minutos depois os carros em que estavam foram vistos. três líderes religiosos. Acabamos descobrindo que estavam na cidade industrial. Com 187 O Cristo da Periferia. mas havia contradições. Depois dele os outros foram confessando. Este só confessou no dia de ontem. conseguimos obter a confissão de um dos detidos. Ouviu barulhos que pareciam tiros. o que o deixou em dúvida. Não tivemos outra alternativa senão interceptar os veículos e deter todos eles. pois não estavam em serviço e não tinham obrigação de atender telefonema do quartel. contudo. Mas quando chegamos à delegacia fomos informados que o delegado havia saído sem dizer para onde iria. cada qual numa sala separada.Então vocês sabiam do crime antes dele acontecer? Por que não o impediram? . Quando amanheceu foi até lá e encontrou o corpo de nossa testemunha. Imediatamente deslocamos nosso contingente para lá. Enquanto os interrogávamos as outras equipes vasculhavam a cidade industrial em busca do soldado Cirineu. O delegado não atendia o celular.indd 187 27/11/2007 09:36:24 . Um telefonema pela manhã confirmou nossos temores. Apontou os mandantes. o crime cometido contra Emanuel da Silva. mas já estavam voltando. Um guardião havia visto dois carros entrando na fábrica abandonada. também. mandou que o levassem à delegacia. Começamos uma busca desesperada.

tem alguma pergunta? . Diante da prova produzida e do pedido do promotor de justiça. O senhor quer perguntar mais alguma coisa à testemunha? .E precisa perguntar mais alguma coisa? . doutor! . Aceito isso como alegações finais. Vai pedir desculpas a ele? .O defensor tem a palavra para suas alegações finais. . Senhor promotor. . Concedo a palavra ao promotor de justiça para suas alegações finais.As suas alegações. . o senhor tem provas incontestáveis.advertiu o juiz.Eu estou alegando. . Excelência.Meritíssimo! Diante da prova irrefutável dos autos.cobrou o juiz. . Quero mais é que o senhor dê a sentença logo. Tem um pão-de-queijo delicioso na lanchonete aqui ao lado do fórum.Estamos dispensando suas máximas filosóficas. não percebeu? O réu chegou aqui como criminoso e era inocente. que ainda não havia dito nada naquela audiência. . .indd 188 27/11/2007 09:36:25 . 188 O Cristo da Periferia.Eu não. determinando que seja posto imediatamente em liberdade.Contenha-se. Álvaro. Ainda não sentenciei. absolvo o réu de todas as acusações.todos os depoimentos pedimos a prisão temporária dos religiosos.Não. esta promotoria requer a absolvição do réu em relação aos delitos relatados na denúncia. doutor! .Vamos acabar logo com isso antes que eu mande prender o advogado no lugar do réu. .respondeu o Dr. Passou três meses preso. .Pode prolatar a sentença agora? .Nunca se deixe levar pela impressão inicial! . que eu já estou com fome.Senhor advogado de defesa. tem pergunta? .Realmente. .Para a testemunha. .Foi isso que eu lhe perguntei. Quero levar o réu para experimentar.remendou meu valoroso defensor. doutor. O juiz da terceira vara criminal concedeu e os mandados foram cumpridos na manhã de hoje.

Era um Ômega novinho em folha. Graça e Bruno poderiam voltar para casa e eu queria enchê-los de beijos. Eu só quis aborrecer o juiz.Na verdade eu disse que atrasei por causa do “trânsito” e que da próxima vez tomaria um “ônibus” mais cedo. provavelmente adivinhando 189 O Cristo da Periferia. Nem sabia direito o que fazer ou para onde ir. Juízes precisam fazer exercício de humildade de vez em quando. Quase esqueci como era bom estar livre. A vontade era de subir num avião e ir ao encontro de minha mulher e filho.justificou sem que eu tivesse perguntado. que ele parou num estacionamento a duas quadras. Estava com muita saudade deles. tempo de recordar o nascimento de Jesus Cristo. pois minha vida acabara de recomeçar. Então eu os desafio a dizer que não posso ser simples e objetivo. .Não gosto que vejam meu carro.O senhor comprou um carro? Na primeira audiência disse que se atrasou por causa do ônibus. Álvaro. com vidros escurecidos. pois recebem o poder de julgar as atitudes de seus semelhantes. . A cidade estava toda decorada e o lusco-fusco do fim de tarde já permitia ver as luzes que iluminavam as fachadas de algumas casas e prédios. que fomos comendo enquanto me levava à casa de meus pais. Não falei que vim de ônibus. A esperança de uma vida nova em cada coração. O estranho era que havia um estacionamento em frente ao fórum. . Foram as primeiras pessoas que eu quis abraçar. Era época de Natal. Meu defensor me ofereceu uma carona. Prefiro que pensem que não tenho .indd 189 27/11/2007 09:36:25 . Estão acostumados a ver advogados posudos e cheios de palavras difíceis. para minha surpresa. Por isso alguns se acham mais importantes que as pessoas comuns.58 Saí do fórum acompanhado do Dr. Eu entendia isso como ninguém naquele momento. Depois da prisão de meus perseguidores. O carro do Dr. Álvaro. não era um carro simples como supus. Passamos na lanchonete vizinha e ele comprou alguns pães-dequeijo.

Em poucos segundos quem estava dirigindo o carro era Emanuel. Eu sou apenas o mensageiro. eles são a mensagem . surpreso e espantado com o que via.Desculpe se me espanto . Será que ele conhecia?. por que precisou de mim? .Eu nunca saí do seu lado. Ele sorria. . De repente a fisionomia do Dr. . a seu tempo e a seu modo. Dispensou até o anjo que foi mandado para guardá-lo: o segurança que seu sogro contratou.Mas se você tem tantos poderes. Sua alma é que estava em perigo.Porque desviando os olhos de mim. Fisicamente você sofreu. o corregedor Antonio. seu nariz afilando. se tem tantos recursos. Só foram usados para fazer a 0 O Cristo da Periferia. Arregalei os olhos.indd 190 27/11/2007 09:36:25 . Cada um deles. Suas feições foram mudando. o Carioca. protegeu você e intercedeu em seu favor. seus olhos mudando de cor e a pele clareando. meu amigo.meu pensamento. Você enfrentou problemas crônicos do Mundo e nem aceitou ajuda. como se nada de espantoso tivesse acontecido..Não são anjos em tempo integral. pois pensou que podia resolver tudo sem ajuda.mas as pessoas costumam gostar de mostrar seu sucesso. Álvaro começou a se transformar. Então foi preciso enviar um pelotão de anjos: o delegado que o visitou no hospital. .as palavras me surpreenderam. o diretor da prisão provisória.Estou falando da segurança da alma. o soldado Cirineu. os juízes olham para os réus. Então precisou ser afastado. pois eram de outra pessoa. . para sua própria segurança.Então era você o tempo todo? . .Na verdade foi você que precisou de mim.Como assim? -Para descobrir o que aconteceu comigo você estava trilhando um caminho perigoso.Segurança? Está dizendo que tudo o que passei nos últimos meses não foi perigoso? .falei . mas só o que podia suportar. o Lázaro. sua barba encolhendo. naturalmente. .. seus cabelos alisando.Como é que bandidos podem ser anjos? . Por que esconder um carro tão bonito e caro? .

em todos os cantos deste planeta. Cada coisa tem o seu tempo e você tem que aceitar isso.Eu tive a sorte de receber e compreender os sinais.Mas precisava tanto? Não dava pra mandar só uns sinais? Emanuel soltou uma gargalhada.E qual é o sentido da vida? . É isso que impressiona em seu caráter. . . que você falou. . . .E por que eu fui escolhido para fazer aqueles milagres? Por que passei por tantas experiências? . O mundo resolveu tudo sem que eu fizesse nada. Percebeu que tudo aconteceu na hora certa? Você até fez milagres.E eu só precisei ficar calado.Porque ainda não chegou o dia em que eles vão acabar. .Deus não escolhe os preparados.Então terá que viver um  O Cristo da Periferia. Ele renasce a cada dia nos cortiços.Você continua sendo muito espontâneo. Um dia será herdeiro de uma grande fortuna.Você é um homem de sucesso.insisti .Mas você . .Nunca morre quem conhece o sentido da vida. um iluminado. . Essa compreensão fez de mim um emissário do mundo. . Tudo o que aprendi me libertou do corpo. das armadilhas humanas. De quebra ainda teve muita gente que recebeu lição de vida através de você.indd 191 27/11/2007 09:36:25 . . da vida. tenho que repetir essa pergunta: Você é Jesus? .perguntou. Você é alguém muito especial e merecia conviver com os sinais. que experimentasse a instabilidade da vida.vontade do Mundo. . ouvir a vontade do Mundo. O mundo quis que você vivenciasse o outro lado. São Paulo! . enfim. dessas que você aprende em qualquer almanaque. .tem muito mais de Jesus do que qualquer outra pessoa. existam? .Todos nós somos um pouco de Jesus. mas prepara os escolhidos. O Mundo não gosta de dar lições triviais.Então você morreu? .Mas por que o Mundo permite que os problemas crônicos. nas mansões.Não descobriu ainda? .Emanuel.piscou.

Eu estarei em cada rosto. em cada esquina.sorriu. Receberá outras. em cada pessoa que cruzar o seu caminho. tenha paciência. 2 O Cristo da Periferia. .indd 192 27/11/2007 09:36:25 . sem que eu tivesse indicado o caminho. resigne-se. . .Fique tranqüilo . Não vá contra eles se não quiser quebrar a cara. .perguntei quando ele estacionou em frente à casa de meus pais.Melhor que isso! Você o conheceu! . Dê-lhes roupa e comida e estará me vestindo e alimentando.Verá sim. . será porque o Mundo quer que tenha.disse sorrindo. Se tiver algum bem. já fora do carro.brinquei.perguntei ao apertar sua mão.Você conheceu Jesus? . Mas nunca se esqueça que você não é dono de nada.pouco mais para perceber .Desde que não tenha que passar por tudo de novo . Ajude-os e estará me ajudando. Por isso é preciso estar atento aos sinais que o mundo mandará.respondeu antes de arrancar com o belo Ômega e desaparecer como num passe de mágica.Você já aprendeu esta lição. siga os sinais. . Se não tiver. Cuide deles e estará cuidando de mim.Ainda vou te ver? . .