PREFÁCIO A BELEZA SUJA José Carlos Barros Procurar um descentramento; um lugar de fora.

E procurar também cortar fios, ligações, aproximações. Até o olhar poisar nos objectos e devolver apenas o que os objectos mostram à superfície do que parecem ser. Acontece que esta (espécie de) máquina fotográfica tem uma memória por dentro: e quando a luz do flash ilumina os objectos, os eventos, ou antes mesmo do disparo, já as interrogações (e o desconforto delas) acompanham esse impulso, esse movimento sem retorno em direcção ao coração das coisas. Falo de uma poesia que parece decidir-se no território da sua própria impossibilidade; num conflito permanente entre ficção e realidade, entre concretude e fingimento, entre aceitação (desistência) e interrogação; entre milagre, revelação e, por outro lado, afastamento e reconhecimento da insuficiência do poema no desígnio de mudar o mundo. Nem sempre os títulos dos livros de poesia remetem para o seu universo temático. Neste caso, no entanto (e não obstante a primeira sensação de desconcerto), o título é já o enunciado, o resumo, do projecto que move o autor nesta busca (ou deambulação) pelas margens, por «um pequeno subúrbio/ onde os carros não passam», por lugares onde os terramotos apanham «pessoas que faziam amor» e «morriam de uma causa lenta e dolorosa» e onde (em vão?) se espera «a esperança/ de um próximo começo». Polishop é o nome de uma conhecida cadeia de venda de produtos milagrosos: cremes contra as rugas e a celulite (e as estrias), cintas vibráteis que resolvem os problemas das adiposidades abdominais, escadas de alumínio que ocupam apenas, num armário, o espaço de vinte centímetros, kits para desmontar variadores (seja lá isso o que for), artefactos que picam a cebola sem o incómodo prosaico das lágrimas. O título é a acertada metáfora deste universo de perdas, de desencontros, de impossibilidades (também de exaltações), de encenações – e, simultaneamente, de procuras, de rasuras (intervalos, fronteiras) entre o que é e o que poderia (deveria) ser. Há, nestes versos, o incómodo que reverte de um olhar irónico, altivo, desarmado, livre, sobre as armadilhas do quotidiano, sobre o desconcerto das relações humanas (sentimentos, moralidade), sobre a normalidade, assim interrogada, de supostos inquestionáveis códigos de conduta; sobre o logro das aparências; um olhar (às vezes apenas fotográfico, neutro) a trazer à superfície o lixo, a sujidade, as partes por unir, a incompletude, a impossibilidade de chegar a um lugar e de ocupá-lo por inteiro; onde, por indiferença (por desistência, por cansaço), «as pessoas sobrevivem quando alguém morre». O título do livro é a metáfora do mundo retratado nestes versos: a vida, o quotidiano, olhados de cima, de fora, como se tudo se desenvolvesse já num território de pechisbeque, de prometidos paraísos a pilhas, de felicidade anunciada a prestações. Os produtos da Polishop – a ilusão do mundo perfeito, a promessa da alegria, as virtudes do consumismo, os

consequentes ruídos do anúncio, da frase, da publicidade erigida a realidade concreta – parecem ser tudo o que temos quando (como algures se dirá neste livro) o tempo é de montarmos o circo e fazermos de conta. E por isso, num outro poema, se fala do político que cola, nas paredes, os seus próprios cartazes, confrontando-se com o logro do que ele mesmo anuncia (como num produto que a Polishop venderia em horário nobre para curar as varizes). Nem sempre os poemas deste livro, na sua aparente dispersão temática e formal, parecem fazer parte de um conjunto lógico, coerente, de peças que vão encaixando até mostrar o retrato inteiro que (por um momento) não adivinhávamos nas suas partes desligadas. Mas este é um livro de poesia, mais que uma recolha de versos e poemas: essa aparente dispersão (que nos ilude pelas inusitadas imagens, pelas incursões aparentemente exteriores ao poema, pelo salto – que se revela ser contiguidade – entre o poema lírico mais extenso e a concisão do aforismo, pelo encadear de reflexões sobre a arte poética ou a crua descrição dos estilhaços do quotidiano) revela-nos, aos poucos, um pano inteiro onde os diferentes (múltiplos) fios não cerziram mais que pedaços desatados. Há algo (há muito), nestes versos, de surrealidade, de sobressaltada transfiguração das imagens, de re-leitura, de re-interpretação, de deflagração às vezes sem um centro reconhecível que possa acudir-nos. É certo: porque a linguagem não se desliga nunca dos temas e do universo que procura servir: esse universo de perplexidade e desencanto onde já nem é possível regressar ao ponto de partida nem caminhar a partir de nenhum ponto. Porque nos perdemos no lixo das coisas, na «beleza suja» em que nos distraímos e afastámos de nós mesmos, entre logro e fingimento, entre imagens (falsas) cujo sentido já nem chegamos a interrogar. Servida por um rigor que busca na palavra o sentido exacto e último das coisas, esta poesia (a deste livro) confronta-nos com o mundo que vivemos tantas vezes sem exigirmos dele o que está por detrás (ou além) do lodo e do imperceptível milagre de um tempo anterior (antigo) em que era possível acreditar: «éramos tão novos (…), bebíamos veneno para dormir». É por aí que esta poesia nos leva: pelo incómodo sobressalto; pela convicção de que é preferível bebermos veneno para dormir, de que é indispensável amarmos «o amor quando nasce», do que nos sujeitarmos à impossibilidade de nos sentarmos a uma mesa do Majestic ou de «soltar os cães dentro dos poemas de amor».

NOTA: em 28 de Maio de 2010 a obra “Polishop”, de Tiago Nené, foi apresentada por José Carlos Barros no “Pátio de Letras”, em Faro.

POLISHOP click, dormem em simultâneo sobre as escarpas e sobre a sua beleza suja, interior ao sono, interior à chuva, colocam as mãos nos bolsos como se lá estivesse parte de uma incompletude que os completasse, consolidam a solidão inacessível, sentem o vento processar o seu rigor irregular nos pulsos rasgados, ouvem música petrificada, julgam que o ritmo e o movimento da cabeça os podem apartar, e por isso se intitulam apenas de ouvintes de música, click, nunca saberiam assinalar, por exemplo, nos negativos da presente sessão, os lugares íngremes das suas infâncias que se consolam e flagelam entre si. sobre eles disparo como se atirasse a matar sobre as suas ideias transumantes em direcção à trovoada oca dos meus olhos brancos. click, o crepúsculo carrega-nos, a confusão inicia-nos as fugas, todas as fugas, todas as horas que a bem ou a mal singram e quebram. quem me dera poder embriagar-lhes a sombra, desatar-lhes os nós da vida, poder vê-los andar de novo, e ficar aqui para sempre, neste fim de tarde, compensando a minha completa falta de rosto com a tripulação dos meus dedos fingindo sobre a máquina fotográfica.

METROPOLITANO [aos que sabem ouvir] no metropolitano do ouvido o ritmo da minha inconsciência: os subúrbios do poema que são mais seguros, o desperdiçar de sentimentos nas complicações de uma velha identidade, um método ludovico, o centro de uma cidade que anda sobre o seu congestionamento. [uma nova carruagem chega com destino ao braço esquerdo e a uma acção simples]. creio que ouvir pode ser falar com o ouvido, e falar com o ouvido pode ser devolver totalmente esse sentido. finalmente oiço o grito de munch, é encorpado, com textura de sílex, eternamente velho num ventre de silêncio, e não enterra quaisquer lamentos. [uma nova carruagem chega, sem destino]. fecho os meus olhos.

PERFÍDIA Incrível como se ama qualquer animal recém-nascido. por isso, ainda que em vão, amamos o amor quando nasce, esse animal que em criança alimentamos, e que um dia nos comerá o coração.

CORAÇÕES DE PLENILÚNIO
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa,/ as tâmaras, a voz da grande Kolthoum vinda de uma / janela num cântico apaixonado ao Nilo

Victor Oliveira Mateus a entrada secreta é breve como a abertura dos lábios meramente à PALAVRA. a necessidade de uma necessidade gera a incompletude que produz o néctar no coração feminino de plenilúnio. as folhas no ar conduzem borboletas inatmosféricas, o vento conduz o ódio que a criação retém num fio de silêncio atravessando a transparência oculta da matéria. a entrada da espera é breve e emancipa um segredo que ainda se funde nas membranas de uma tentativa assertiva e ovípara de coerência. esperar por ti é esperar que o primeiro final da história que ainda corre num só cateto te desiluda como um relógio que pára, um gato subitamente fusco, ou um verso mau do nosso poeta preferido.

MAJESTIC e não há uma só repetição que se cruza com uma primeira vez, e alguém que deixa uma beleza em prol de outra, o desamor de um amor culpado, uma eternidade invertida, o cansaço invisível num homoponto. e não há uma dor que sobe aos dons, e um inverno rigoroso que é o pudor do verão [e talvez da primavera], e os líquenes de uma canção por gestos. e não há corações num frappé [é, porém, lindo o majestic] sobre uma travessa de uvas passando nas ruas dos dedos que emparedam o sangue oculto mas lilás sob o movimento dos astros da pele. e nenhum segredo desperdoa todo o tempo, e não retiramos as minas de tacto sobre o mapa da cidade, e nunca regressaremos aqui, antes dissolvemos agora o rasto do seu infinito. e diz oscar wilde que o inverno traz consigo a sabedoria, e eu ainda espero que vague uma mesa.

A DENSIDADE DOS SISTEMAS [aos perfeccionistas] o onde é demasiado denso para o quando, o quando é demasiado denso para o quem, o quem é demasiado denso para o o quê, o o quê é demasiado denso para o porquê. rejeitar as coisas que não tens é acender o rastilho do tempo que resta, a densidade comparativa dos sistemas destruí-los-á um por um: primeiro o espaço, depois o tempo, depois o facto consumado, depois as dúvidas e finalmente as explicações infundadas. - e nós? - nós acabaremos por subsistir no território da alma, sem densidade alguma.

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA [ensaio sobre celebridades] com as rugas escondidas de uma distância esticada, o útero mudo, uma língua fóssil, a emoção mortífera. o seu fruto é frígido, o seu todo tem as partes por unir. as alíneas do seu índice são duvidosas e a música que lhe enche o quarto é de vinil branco. o seu tempo não tem a densidade que o nome exige, apesar de ninguém o saber. dos seus olhos saem porcelanas, o seu inverno é subterrâneo, a sua história conta-se por carta. no seu exílio conheceu gente que traduziu goethe e hölderlin e lhes acrescentou versos por graça. os seus erros nunca couberam dentro de versos porque o seu coração sempre mudou com as novas grafias. nunca ninguém colocou um dedo que fosse nas suas feridas porque sempre as soube esconder fora dos locais do rosto. o seu sigilo tem a duração do olhar, e este, sem distinguir planos, descontinua a discrição dos movimentos dos outros. o seu infinito oscila na memória inconsciente, a sua água é vaporizada com as sombras do corpo contra a luz quente. o seu alheamento é um pequeno subúrbio onde os carros não passam e o passado das pessoas que lá vivem fica na grande cidade. a sua imaginação é solitária, a sua razão sempre extirpou a matéria fluida. as suas pétalas são autónomas em relação às flores, as suas cores envelhecem como se por esse facto deixassem de ser úteis. a partir de certa altura a sua natureza torna-se sonora e inexprimível, e as suas obsessões são indefesas e frágeis. rilke um dia escreve-lhe uma carta que veio devolvida e nela constava um poema escrito à mão e pingos de suor nocturno. todos os seus princípios eram oficialmente os seus fins, e o silêncio do público estranhamente o fazia notar ainda mais. até que ela morre, morre mais do que a lei da vida, e o seu abismo continua exuberante. apesar de ter vivido uma vida corrosiva, ela permanece como um protótipo, porque as pessoas não vêem as pequenas coisas, porque as pessoas não se revêem nos equilíbrios, porque as pessoas parecem sobreviver quando alguém morre, porque as pessoas apenas sabem ver ao longe.

O TERRAMOTO [a uma pessoa intemporal] querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor, pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa, pessoas que celebravam contratos com apertos de mão, pessoas com instrumentos na terra fértil, pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio. os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite, os que celebravam contratos perderam as mãos coladas, os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados, os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa, os que não tinham relógio escaparam ao tempo. meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem, sermos intensos é não respeitar causas e efeitos, espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja o efeito directo de um presente que ainda treme muito.

SUBMERSÃO [a uma pessoa demasiado especial para ser compreensível] sem desatar o nó de cegueira ou deixar cair o pano, direi que a submersão chegou ao ponto de nos acharmos dois estranhos sem tacto num dos milhares de pontos.de.vista do fim, esperando a esperança de um próximo começo.

AUNG SAN SUU KYI montemos o circo. façamos de conta. deixemos que o sonho acorde e confesse. sintamos todo o impacto de ver as palavras de pele tomarem forma e rédea de coisas lúcidas presas no desejo de um pequeno erro. o nosso coração é a nossa cabeça, e para sermos felizes, ou temos sorte, ou somos brilhantes. somos romeu e julieta, reféns perfeitos de todos os sonhos.

GESTAÇÃO / POEM IN PROGRESS a ecografia morfológica está bem, as medidas estão certas, o poema está com um quilo e pouco e tem trinta e dois centímetros. daqui parece perfeito, sei que não tem hidrocefalia, nem lábio leporino, ou cataratas congénitas. eu vi-o mexer-se bem no fundo do seu pré-destino moral e todos os seus significados continuavam inteiramente livres, o seu autêntico deliberado, e os seus acontecimentos espantosos impondo ao sonho as excepções que ele necessita para ser credível. para a semana far-se-á uma amniocentese, e se porventura o líquido estiver contaminado, sou capaz de tomar pirimetamina, sulfadiazina e ácido folínico.

LICITAÇÃO
Pode um homem enriquecer a natureza com a sua incompletude? Manoel de Barros

não sei o que esconde o silêncio nunca o entendi talvez sirva para leiloar sentimentos sim, deve ser exactamente isso que acontece e a licitação mais baixa sempre vence.

CONCEITO
No vazio leve das miragens, esconde-se, / nas vindimas da noite, / o corpo dormente da eternidade que rebenta Maria do Sameiro Barroso

para viveres, lembra-te, só precisas de um conceito. e depois sabê-lo, sem contudo o decorar, e constatar que é impossível guardá-lo, porque digamos que é impossível guardar o que deve ser maior, bem maior do que o que somos. isso a vida, podes ir, tudo o resto é meramente científico e teórico. um dia encontrar-te-ás num tempo com o teu rosto velho, desaparecendo sobre todo o alimento do espaço que ainda cresce.

COTOVELOS SOBRE A MESA invisíveis luzes estão acesas. vejo o andré, o fundador, desintegrando as direcções do tempo sujo passível de ser reciclado em boa arte. o mário, o de vasconcelos, enfia a rosto na cabeça e engole as sombras disponíveis dos alimentos citadinos mas rugosos. o antónio, o de maria e o de lisboa, sorri como aparece na capa de um livro póstumo (consultem-no) e crê retirar aos poucos o ar aos insectos que circulam. do outro lado o alexandre, o de o'neill, ergue-se em direcção a uma das casas-de-banho de que o mundo, contiguamente, é feito. mas vendo bem as coisas, talvez segundo um intervalo quadrangular, este meu trabalho do olhar dirá apenas respeito ao meu poema. o que lhes interessará a eles é que uma vez chegados ao surrealismo reflexo do seu público anonimato cada um escreverá o seu.

HÍMEN DO TEMPO impossível, e nesse impossível uma forte sensação de possível, os poetas que morrem dentro de aves, os sons que se ouvem no ar, transformações de palavras, palavras de palavras. impossível, e nesse impossível uma última sensação de possibilidade, todo o tempo em simultâneo suspenso, consumido o espaço com a mesma aleatoriedade do sangue que narra.

03032007 no livro que me foi emprestado uma edição de poesia de novalis vinha uma nota muito ténue a lápis tremendo. dizia procuro o último livro de ruy duarte [de] carvalho - de que nunca li coisa alguma e encontro este, que procurei há dias sem encontrar. vinha datado e escrito assim: 03032007. não vinha assinado, nem a caligrafia pertence a quem mo emprestou. e estes factos, lentamente suspensos na superfície móvel da memória mais imediata, impuseram no mapa sem rios da minha leitura um sentido extremo de ficção real.

UM POEMA COM FORMA ESTRANHA alargar [anota aí] a imobilidade depois de ver a rapidez das sombras, uma [filma, filma isto] existência não expressa é mais verdadeira. só ele [tira a máquina da chuva] saberia como fazer passar o seu corpo por cima de si mesmo, por fora da música, do [que música é esta?] karma, sobre as nuvens [um, dois e terês] fixas de cor profunda [ele é o poeta dos íssimos, mas shiuuu] tudo o que lhe odeiam [ele tem trinta e nove de febre e toda a genialética] é tudo o que eles gostariam de ter, ele que sabe como resumir todo o silêncio a só um começo. [corta. repete]

JOHN UPDIKE morreu sem um critério rigoroso. não se poderá dizer que tenha sido a lei da vida ou a lei da morte ou uma derradeira e infinita composição da urgência. hoje morreu-lhe o corpo, morreu porque assim disseram os médicos, porque assim disse o seu pulso frágil como o equilíbrio da terra, e porque agora é o tempo que o respira. hoje morreu-lhe o corpo, repito em voz alta. e isso é tudo o que, da perspectiva da nossa memória incompleta, precisamos de saber.

PARA O BEM E PARA O MAL [autobiografia] para o bem e para o mal / eu sou o tiago nené e nasci / dentro do meu corpo, muitos dias após o meu nascimento. / não posso mais ser outro, estou preso / ao solo de mim mesmo, perdi as clarividências que me pertenciam / quando eu próprio lhes era imensamente imperceptível. / para o bem e para o mal / o meu apelido não é comum, e morfológica / e espiritualmente me remete bem lá para o começo, / ao átrio das coisas novas e palpáveis / com o relevo móbil do coração bem saliente. / para o bem e para o mal / uso uns óculos ralph lauren com uma armação / castanho-escura e uma graduação de quatro, / repito, quatro dioptrias em cada olho. / porém, ainda há aqueles que me conhecem, ou conheceram, / sem óculos, com os olhos profundos directamente sobre / as suas almas furtivas, e os seus olhos densamente / sobre os meus, onde as minhas lembranças de ontem são / impressas nos poemas de hoje. / para bem e para o mal / eu sou de facto o tiago nené, / posso prová-lo, posso exibir o meu / bilhete de identidade, submeter-me a análises de sangue, / ou caminhar elegantemente sobre a rua. / e há quem ame e quem deteste, / quem ache simpático ou estúpido, / ou ainda quem me condene por soltar os cães dentro dos poemas de amor. / na verdade, / e para o bem e para o mal, / eu sou tudo isso, / mas se tivesse de me definir ou redefinir, diria / apenas que sou aquele que agora resume a vida / numa gorda miserável, / espremível como uma laranja / cujo sumo resultará muito azedo.

REFEIÇÃO COMPLETA talvez não queiras um amor absoluto, mas uma só refeição completa. podes comer-me as pernas, os braços, o fígado à florentina, e os dedos dos pés al ajillo, ou talvez encontres o peixe que vive dentro do meu sangue. não é verdade que assim morra, diz o livro que não podemos viver sem amor, e podemos morrer sem amor? o amor é o momento, e o meu amor é passivo, são as tuas hipocondrias nos meus órgãos, os teus dentes exemplares nas minhas praças e a misteriosa velocidade só de imaginar o que digo com a convicção e ordem com que o exijo. fá-lo, fá-lo, fá-lo, fá-lo. chegarás à côdea do meu coração de três dias lentos. afinal, não precisas de um amor absoluto, mas de uma só refeição completa.

O SONHO e cobri o rosto sem preterir as cores

ESPAÇO & TEMPO os lugares estão vivos quando conduzem a outro tempo

MAPPUGGHJE partiram aqueles que precisam de regressar

MOTS-VALISE incrível como são os olhos com sede os que deixam cair a água.

KARMA e duvidamos dos instantes mas não de todo o tempo, dos versos mas não da poesia. se alguém nos disser que o tempo parece uma cascata de céus acreditamos mais facilmente do que se alguém disser que nos ama. e acreditamos nos poetas, e não naqueles loucos que dizem que uma pessoa se mata muitas vezes se tiver muitos corpos. e duvidamos de certas palavras mas não de todas as combinações entre sílabas. acreditamos na geração do movimento mas não conseguimos sair do meio do caos. e acreditamos nos tiros que acabámos de ver partir mas não que estamos prestes a morrer.

O TRIÂNGULO DE SANGUE
As palavras / não dizem o mundo / dizem o desejo / de dizer o mundo Luís Ene

não fiques lento perante o imóvel, instala num triângulo de sangue uma pequena rua. deixa essa rua açoitar o sangue que corre parado no seu asfalto. não isoles os teus sentidos, não os atires como pedras. ninguém suspeita se apenas viveres segundo o rigor da tua arte. sê perpendicular às tuas fugas, corre e apaixona o mundo.

DOUBLE FANTASY
I just believe in me, Yoko and me, and that's reality. The dream is over, what can I say? The dream is over. John Lennon

deus é uma distância profunda sem corpos que a meçam. a minha presença é uma boca invulnerável à matéria. EU contraí a minha força e saúde militares, eu desenhei uma maçã no mapa-múndi e fechei os olhos com violência com o propósito de a engolir. a minha mão operou o impossível no sono feérico, nele clarificou as pontes destruídas entre os meus principais pensamentos e mais tarde haveria de se cruzar com um mark chapman de olhos vermelhos e o DOUBLE FANTASY debaixo do braço ouvindo a pestilância que vinha do dakota. está uma noite espontânea e o paul goresh não registará nada que neste momento só pergunte. a noite, digamos, é da cor da dança invisível dos dentes mudando de posição quando a boca se fecha para ESCUTAR apenas. cinco tiros rasgam o ar e o sonho acaba. a noite perdeu o túnel por onde passava a sua fantasia.

SINFONIA DAS NUVENS eu acho que te amo, disse. como se o amor, o verdadeiro amor, admitisse algum tipo de dúvida.

CIDADE SUBJECTIVA e depois existe uma cidade subjectiva (sem casas) e observa-se no ar um copo de whisky gigante, ouvem-se vizinhos furtivos sobre a sede rígida, e emagrecem as palavras que riscam a parede, descreve-se a memória cautelosamente e sazonam-se as vozes que vão escurecendo num buraco de energia. e faz-se silêncio e não há luz na mão. [e o futebol não pára (um jogador vê o segundo amarelo e volta para o geral subjectivo)] e por fim, uma última corrida à tona de um semi-sono vivo, a solidão de um golo. nasce então o esquecimento de uma alegria (violoncesca) de noite, luzes e transpiração.

A HORA IMPLÍCITA [a uma pessoa que vive na direcção da sua vontade, em horas implícitas] todos os acasos são subterfúgios, por exemplo este silêncio é mais lento que a cabeça que o absorve, fendendo em mim uma página em branco. [e chove] foi preciso transformar-me em chuva para que as minhas lágrimas adquirissem a velocidade que condissesse com a condição antológica do meu estado. [e dá-se uma transfusão de estações do ano por detrás do branco da página] - um ajuste de contas é circundante, um abraço cheio comove os nervos dos braços vazios. através de mim passa o meu corpo, eu vejo-o, a carne é um gueto escuro, a sua sombra um centro falso sem gravidade, o equilíbrio deu à luz o intervalo que desliga a luz das palavras íntimas - espalho-me por cada sua raiz que me trouxe até aqui. [e começo de novo, e alimento-me de mim mesmo] ainda confundo poesia com amor e um amor nato e frio com um sorriso radioactivo e dolente, [só os ecos das palavras absolvem] e um sorriso radioactivo e dolente com a certeza absoluta e magnífica das coisas que dançam com submarinos no sangue [a morte ainda nos espera longe: dará uma vida poeticamente configurada uma morte lírica?] e no meio de tudo, [retomo], desse silêncio mais lento que o coração que o absorve, a ideia de que um homem inteligente jamais colocaria as coisas do seu ponto de vista. [e limpamo-nos um no outro] e regressamos na ficção da boleia do pensamento certeiro de alguém que passa no momento em que nos ocorre que seria suficiente fazer uso do potencial pandémico deste amor para acabar com tudo e impedir o regresso e o progresso. [e a nossa lembrança conjunta, no tempo justo e diurno, é a única que ainda cresce no jardim da memória. e a chuva cessa, o sol espreguiça, são seis em ponto, o frio de palavras inaudíveis escuta por entre a respiração ofegante de um corpo que rasteja devagar até mim.]

FAZ DE CONTA [a uma mulher bonita] faz de conta: que a festa acabou, a felicidade continua, e nós ainda escolhemos o vocabulário para nos cravarmos os dedos na pele móbil como o tempo que nos esquece sem fazer de conta, sem germinar ou colocar a nossa beleza conjunta na ambiguidade de uma boca maternal, sem umas mãos que nos exonerem da linguagem indiscutível, veneno azul, que nos aproxima os silêncios que hão-de vir e as artes materiais dos fármacos.

CAMPANHA o candidato não deve preocupar-se com certas questões, são quinze dias terríveis, e isto não é uma equipa de futebol. aqui não há artistas e ainda temos uma lacuna no terreno: não conhecemos nem a ti maria, nem o zé bois, nem boa parte da população de risco ao H1N1 e possivelmente resistente ao tamiflu. precisamos de mais gente, e o voluntariado está difícil nos dias de hoje. aqui todos têm opiniões, [o mandatário projecta-se dentro de si mesmo, por entre o silêncio que antes lhe esculpiu as feições] há uma técnica de comando e controlo, um yin e um yang, e temos uma auto-estima muito prodigiosa, fortemente disciplinados quanto à delegação de competências e dinâmica de grupo. por isso não entendo como é possível passar-se à noite de carro pelo concelho e ver-se o candidato a colar os cartazes.

TAXONOMIA a verdadeira taxonomia dos géneros remete-me para a obra de ilmar laaban, rumores claros ao arquivar o som. e eu escrevo, os vizinhos queixam-se da minha autonomia e independência sonora, do modo como bato os ovos e concebo uma omelete de som e cassandra. algumas pessoas circulam em mim descalças com os pés na água índigo, preocupadas com a estética de um discurso ilógico sobre os bunkers de uma identidade ocidental, pessoas experimentais que discutem a feminilidade em silêncio, não entendendo nunca o papel da tecnologia na poesia, o seu mestrado sobre a memória contemporânea dos meros corpos, e o elo perdido dos vanguardistas sem contextofobias porque os seus diplomas arderam noutros obstáculos biográficos. i must be free now i must be free now and should not hesitate i should go now but instead instead instead there's i mean há um século xxi por ensaiar e um futuro neo-determinista a colocar de costas para a minha performance pletórax. e eu bato, continuo a bater os ovos até ver uma gueixa a tocar shamisen e eu mato, e me uso comparativamente, doo-me como um revólver quente, e eu morro, e eu escrevo, e eu sinto.

POEMA DE BOAS-VINDAS AOS MOTARDS NA 28.º CONCENTRAÇÃO INTERNACIONAL DE MOTOS CIDADE DE FARO vêm em duas rodas, as vísceras sincronizadas com a mão direita, pensam que o futuro é tudo o que se esquiva ao passado. desmentem verdades absolutas, instalam fantasias no lugar de medos, transgridem regras em prol de uma verdade indecisa, picoteiam suavidades como dúvidas remotas, redefinem caminhos, nem sempre cientes do risco. a sua ilusão é redundante por opção, não precisam de falsificar a urgência porque a sua gravidade se perde por si só. pulverizam a cidade de faro pelo verão, o seu barulho incendeia um próximo regresso, enquanto o seu amor vem em pequenos monopólios. e selam abraços de cerveja multicolor com os seus olhos invisíveis, desaparecem tão rápidos quão ubíquos como um tiro de luz.

ÉRAMOS TÃO NOVOS
Despertei com a tua ausência tão mal sintonizada como sempre, / Como sempre repleta de café morno queimando os meus sonhos. Celia Léon

éramos tão novos, explodíamos por tudo e por nada, lembrávamo-nos de existir em cada pequena coisa, atendíamos telefones públicos, incendiávamos o silêncio com um grito, adorávamos que nos invejassem, bebíamos veneno para dormir. a memória era costeira e mecânica, havia búzios em nós, o som perfeito, esculpido de uma cidade esvaída, da tímida perspectiva do mar. e só o não saber nos marcava as horas, cada minuto desprendia os corpos mútuos, o repetido fim interrompido ia bebendo o resto do tempo.

PROTOCOLO kyoto, pulmões de ferro, picar o ponto a: delírios minúsculos, seguir a linha dos pássaros, feridas dissemelhantes, ruas emparedadas no interior dos teus canais, aproximações da inocência, distância entre sangues marítimos, respiração húmida do beijo frondoso, óculos de um gandhi-flipper ficcionado num olhar que ainda caminha, cintila numa cor oca de clarividência irresponsável, evidencia a árvore íntegra por cima do teu lábio fazendo o mar ciciar nos pulmões de ferro, na tua cabeça livre, no teu suave azul solúvel gotejando isenção, libertando substância subtil e dúctil das coisas meramente ténues, essas coisas, esse hábito volúvel, esse protocolo fragilmente feroz, fictício, nu, flora no interior do teu corpo ausente e frio.

TEORIA DO FIM [a Graciela Perosio] não sabemos o caminho de regresso / ao nosso começo. talvez nos tenhamos perdido / no infinito caótico da criação, o infinito no rosto que muda / noutro infinito que fica no sorriso que intui. / tirámos todo o silêncio / das entranhas da terra para saber que a nossa estadia mútua / é uma marioneta nos reflexos de um e de outro, /sendo que aqueles, os reflexos, estão condicionados pelos espíritos, signos, ou pela maneira peculiar e inata / de se comer uma laranja azul [mas isto, claro, é uma mera suposição]. não sabemos o caminho de regresso ao nosso começo, / é esta a questão. / talvez porque não seja o mesmo, o caminho, / talvez porque este não esteja exactamente no mesmo lugar e se tenha transformado num verso [num verso em linha recta], talvez porque o começo esteja noutro lugar ou tenha havido dois que se cruzaram, enlearam e perturbaram, ou talvez porque o fim tenha simplesmente mudado de lugar. [e tudo isto, claro, são meras suposições]

EPÍLOGO Impressiona que um escritor tão jovem produza primeiras obras tão especiais. Talvez imperfeitas (como todas), mas, sem dúvida, especiais. Recordemos que Tiago Miguel Serrano Pereira Nené (Tavira, Portugal, 1982) apenas havia publicado um livro em Portugal e poemas avulsos em revistas literárias de Espanha, Portugal e México. E especifico: a obra que tem em mãos o leitor versa sobre um dos temas poéticos por excelência: o homem situado dentro do espaço e do tempo. O normal nos poetas jovens, talvez devido à sua aprendizagem, é que comecem com poemas onde o eu pessoal se confunde com o lírico e tratem temas menos substantivos como o amor passional. No entanto, Tiago aproxima-nos do espaço/tempo sagrado por excelência, os centros comerciais (ainda que virtuais). Talvez não sejam, na actualidade, estes centros, lugares que substituíram os templos. Lá, cumprimos os nossos rituais de consumo enquanto o tempo se demora. O que é o espaço, para Tiago Nené? Será um espaço arbitrário, caprichoso, ideal? Aventuro-me a responder que não, que o seu espaço tem por objecto o mais cruel do real quando se aproxima do Aberto segundo a concepção de Rilke. Talvez não seja assim quando nos diz: desaparecendo / sobre todo o alimento/ do espaço que ainda cresce. O poeta concebe o espaço, como o faria Ana Hatherly, como um território-tempo que contém toda a luz do mundo, intervalo por onde desliza o pensamento imaginando imagens numa cosmovisão de sentimentos, paixões e arrebatamentos. Porque o poeta, ainda que duvide, nunca é neutral com as palavras, e somente através de imagens entra em comunicação com o indizível. Segundo Bachelard, a função fenomenológica da imagem poética é a sublimação que opera mediante a mesma e que se expressa pela abertura de um estilo único: “captar a imagem do ser na mesma brevidade efémera de sua ontologia”. Não será esse o preciso sentido do poema que inaugura o livro onde o autor se confessa coleccionador de imagens graças a uma câmara fotográfica? Ainda que em última instância nos confesse que “a confusão inicia-nos as fugas /…/ todas as horas que a bem ou a mal singram e quebram. / quem me dera poder embriagar-lhes a sombra, desatar-lhes os nós da vida”. Uma parte do nosso universo é luz, mas tal não significa que haja vida. Para o poeta do algarve Tiago Nené, um espaço está vivo se conduzir a outro tempo, o que é dizer o contrário do que acontece nos centros comerciais: esses espaços que atrasam o tempo e para ele se iluminam com uma luz difusa, uma luz eléctrica que não produz sombras. Mais do que templos os poetas nos fazem lembrar túmulos, mausoléus ou velórios. E daí o diabólico e o numinoso, que é quase o mesmo, destes espaços. Talvez estejamos dentro de um espaço sem hímen, onde o tempo suspenso nos diz: “está num não-lugar. Ainda que sorria por o estarmos a filmar para sua segurança, actue como se nada fosse, controle as suas emoções e não se esqueça de passar pelo duty free…” Ante esta situação o poeta busca essa plenitude impossível de conseguir. Talvez inspirando-se no poeta brasileiro Manoel de Barros, busca a sua “incompletude” através de um processo que consiste em desaprender: desaprender oito horas por dia ensina os princípios. Assim se nos revela outra parte essencial deste livro que nos fala da ânsia de plenitude, da fome lato sensu, entendendo por fome “essa falta espantosa do ser, esse vazio que tortura, essa aspiração, menos à utópica plenitude que à simples realidade” (Amélie Nothomb). Num estilo febril, com quarenta de febre, omitindo maiúsculas em nomes próprios e depois de ponto final (e que falta faz, não somos tão importantes quanto isso), o poeta trata de descobrir as zonas de espanto do espaço, do amor, da comida, do tempo nos seus começos e no seu fim, febril como a caótica viagem de um anti-herói do nosso tempo, febril como uma má digestão que perdura demasiado tempo. Esperemos que Tiago Nené não demore muito a oferecer-nos novos poemas em próximos livros. Jack Landes Huelva, 30 Outubro de 2009

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