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A cidade

A cidade tem os seus medos

Tem a noite

E portas e muitas portas

De saída De entrada Na garganta da cidade

As escadas para o sótão

A claraboia com vista para o tejo

Vão e vêm as sombras cansadas com as mãos na algibeira Entram nas portas de entrada Fingem que dormem

E os sexos embrulhados em papel de parede

Descem e mergulham no pavimento encharcado

À porta de saída

Uma minissaia presa a um candeeiro

À porta de entrada

Um magala à espera de um cigarro

E na rua junto ao rio

Um automóvel abraçado aos silêncios de Belém

Olha com desdém para a minissaia

E

sorri ao magala

O

magala entra e senta-se

E

os silêncios de Belém

Acariciam-lhe as pernas até que a noite poise neles

E

os misture num fumo branco de medo

E

sémen

A

cidade tem os seus medos

Tem a noite

E portas e muitas portas

De saída

De entrada

A cidade é uma merda.

A escada da insónia

Sento-me na escada da insónia

E poiso a cabeça na almofada da solidão

Sobre mim os suspiros do jasmim

Que cambaleiam entre a noite e o sonho Sento-me e poiso a cabeça

E na escada da insónia um sorriso agarrado ao corrimão

Um pequeno sorriso de gaivota Com dentes de marfim

E

gravata às bolinhas…

E

a escada começa a subir

E

o meu corpo a minguar

Nos suspiros do jasmim.

A fogueira da vida

Tudo arde na fogueira da vida

E os sonhos cessam como as andorinhas

Após a primavera Tudo arde

Exceto na fogueira da vida

O sofrimento

Tudo arde na fogueira da vida

E tudo morre lentamente

No silêncio da noite

Evapora-se o mar nas manhãs de inverno

E à volta do pescoço do amanhecer

Crescem suspiros de solidão

Tudo arde na fogueira da vida Como uma árvore que tomba no chão

Ou uma simples lágrima que se desprende do rosto Magoado e triste da neblina Tudo arde

E tudo se renova na fogueira da vida

A fogueira da vida

Quando tudo à minha volta arde

E os pássaros e as árvores e os sonhos e o mar

Morrem quando acorda a noite

E tudo à minha volta arde

Na fogueira da vida Deixo de fazer sentido

Porque os pássaros e as árvores e os sonhos e o mar

Morrem

E a noite eternamente acordada

Sorri para a fogueira da vida

E os pássaros e as árvores e os sonhos e o mar

Saboreiam o veneno da saudade

A

garganta da morte

A

solidão dói

A

cabeça incha

O

corpo mingua

Sobejam flores de saliva Nos meus lábios de algodão Afina-se um fio de luz na garganta da morte

Onde abelhas sem asas brincam com as nuvens de ontem

E na água silenciosa da manhã

Mergulha o rio da saudade

A solidão constrói sorrisos

Nos cortinados amarrotados do corredor sem portas

O

teto desce até ao soalho

E

a dor da solidão

Enrola-se à cabeça inchada Suspensa no corpo invisível Sem portas Sem janelas

Ente o teto e o pavimento

O

corpo minguado desfaz-se em poeira

E

o vento a leva

E

o mar a engole

Na garganta da morte

A

janela da solidão

A

terra me engole

E

mastiga-me nos alicerces da noite

A

terra que se alimenta do meu cansaço

E

me enrola na solidão da tarde

A

terra me engole

E

o mar mistura-se nas minhas mãos

E

a maré dorme no meu peito

A

terra desfaz o meu corpo em pedacinhos

E

o vento

O

vento os semeia na ardósia da manhã

Como se eu fosse o musgo abandonado no pavimento Embebido em sombras Quando na montanha a tempestade agreste Entra pela janela da solidão

A terra me engole

A terra me prende ao cais onde barcos de papel

Poisam no sorriso de meninos de calções

E

sandálias de couro

E

das mangueiras

Desprendem-se papagaios de muitas cores Recheados de sonhos Abraçados a um mar invisível

A

terra me engole

E

de mim nascerão sorrisos

Palavras desconexas Penduradas nas nuvens do fim de tarde

A

terra me engole

A

terra alimentar-se-á dos meus sonhos impossíveis

E

de mim

E

de mim ficará a saudade

A janela do meu olhar

Estou triste

Muito triste

E ninguém para me ouvir

Ninguém e ninguém para me abraçar Estou triste Muito triste Sinto-me um pedacinho de merda Que toda a gente passa sem pisar

E toda a gente e toda a gente tem medo de tocar

Estou triste

Muito triste

E nem o vento e nem o mar entram pela janela do meu olhar…

A minha vida

A minha vida

São linhas cruzadas suspensas na tela da solidão Cores magoadas nas noites de tristeza

Quando abro a janela e nenhum sorriso à minha espera

A minha vida

A sombra complexa dos plátanos do outro lado da rua

A minha vida

Sem vida

Sem janelas

Nem telas

Nem cores…

A minha vida são linhas cruzadas suspensas na tela da solidão

Dois carris junto ao tejo

E um livro na mão

A minha vida

Sem vida

Sem janelas

A

minha vida quando se transforma em maré

E

engole os barcos da saudade

E

mastiga os papagaios de papel das tardes de Luanda…

A

minha vida

Maldita vida de linhas cruzadas Numa tela vazia sem janelas sem portas com cores magoadas

A minha vida acorrentada às sombras do tejo

Numa esplanada amarrotada em copos de cerveja

E miúdas de minissaia que apressadamente galgam o vinte e oito

Desaparecem entre as nuvens da madrugada

Acordam na claraboia do sótão da primavera

E é assim a minha vida

Uma merda complexa disfarçada de plátanos Do outro lado da rua

E uma esplanada amarrotada em copos de cerveja Evapora-se no púbis do tejo

A morte

Morri.

Morri, acreditava eu,

E dentro da caixa de sapatos onde habito

Com paredes de papel

E uma tampa de vidro,

Hoje, hoje não sol,

Morri, acreditava eu,

Acordei e não vi o meu corpo

E a janela do mar

Desapareceu,

E

eu,

E

eu morri,

Acreditava eu,

Morri,

E uma pedra vermelha poisou sobre a minha mão

De poeira azul,

Morri,

E

as paredes de papel da caixa de sapatos em chamas,

E

na tampa de vidro

Um plátano abraçado às lágrimas da manhã,

Morri,

Morri, acreditava eu,

E tenho saudades da janela do mar

Quando corria o cortinado e um sorriso vinha até mim.

A morte

A morte

Uma fechadura que se encerra Na porta de entrada da vida

A morte

Deitada sobre o alpendre da manhã Suspensa nos cortinados da lua

A

morte

O

sussurro do vento

Nas paredes metálicas do silêncio

A morte

Vestida de madrugada Na sombra das gaivotas Antes de acordarem

A morte

Quando duas retas paralelas se encontram no infinito

E

se beijam

E

se abraçam

À

morte.

A

noite é assim Triste Cansada Solitária

E

que a noite desce lentamente sobre o silêncio dos plátanos

Puxa de um cigarro

Senta-se no granito agreste da montanha

E que a noite desgostosa

Semeia beijos nos lábios da maré

E

abraços no sorriso doirado do pôr-do-sol

E

que a noite é assim Triste Cansada Solitária

Puxa de um cigarro

E perde-se nos suspiros do rio

Enquanto na montanha

A

criança dorme e sonha com malmequeres

E

que a noite desce

Lentamente sobre o silêncio dos plátanos Toca no rosto do rio

E do outro lado

Almada dorme como um pássaro desgovernado Como um pássaro sem asas Poisado no granito agreste da montanha

A roda com dentes de marfim

Há uma roda cansada de girar Há um tempo sem tempo

E continua a caminhar

Há uma roda

Uma roda com dentes de marfim

E nos lábios um calendário de bolso

Há uma roda

E

eu

E

eu sinto-a dentro do meu peito

E

continua a caminhar

Uma roda dentada Cansada de girar

Há uma roda cansada de girar

E o raio da roda que não cessa de caminhar

Há uma roda

Uma roda dentro do meu peito

Desajeitada

Sem jeito…

Uma roda dentada

E

com dentes de marfim…

E

nos lábios um calendário de bolso

Há uma roda

E

eu

E

eu sinto-a dentro do meu peito

E

eu sinto-a dentro de mim

Desajeitada

Sem jeito…

A saudade do mar

Tenho nos braços As correntes de aço que me prendem Às nuvens da manhã

Deixei de usar relógio

E o calendário que adormecia na parede da cozinha

Pintei-o de negro

Os dias

E as horas

Morrem

E entretenho-me a olhar as correntes de aço

Que aos poucos mergulham na saudade do mar…

A viagem

Entre as ruinas da cidade

O mar sobe à copa das árvores

Um menino frágil sorri às gaivotas

Quando passam apressadas em direção ao silêncio invisível…

O menino perdido entre as ruinas da cidade

Extingue-se nas sílabas da manhã

Um poeta pesca palavras no rio da poesia

E

o poema escreve-se sobre as ruinas da cidade

O

poeta é um pescador

O

poeta escreve nos olhos do menino frágil

Que sorri às gaivotas

E do rio da poesia

Um barco atulhado com contentores de poemas Caminha sobre a copa das árvores Entre as ruinas da cidade

A viagem desenha-se na solidão da manhã

Abraço aos teus lábios de amanhecer

Abraça-me sem medo de me magoar Abraça-me como se eu fosse uma flor Ou um sorriso de mar… Não tenhas medo de me abraçar Não tenhas medo de me amar Abraça-me com amor,

Abraça-me aos teus lábios de amanhecer Com as tuas mãos de madrugada, Abraça-me antes de eu morrer… E que a noite fique cansada.

Acordar

Espero impaciente pelo teu acordar

E

que no final da manhã

O

teu lindo sorriso de odor a mar

Me abrace

E nos teus olhos

Desapareça a tempestade

E

cessem todas as dores

E

cesse a saudade

Acreditar

Porque desistem os pássaros de voar

E o rio de correr para o mar

Porque desistem as árvores de sonhar

E a lua do luar

Porque desiste a noite de me abraçar

E a estrela de me iluminar

Porque caminho sem caminhar

E deus se recusa a me olhar

Porque peço ajuda e ninguém me quer ajudar…

E

os pássaros

E

o rio

E

as árvores

E

a lua

E

a anoite

E

a estrela

E

o caminho

E

deus

Em mim deixaram de acreditar

Aos poucos

Aos poucos

Fogem de mim as palavras

E morrem todos os sonhos

Aos poucos cessam em mim os rios e as montanhas As árvores e os pássaros Aos poucos Escondem-se no mar as cinzas do meu corpo

E dos meus olhos os ramos da madrugada

Onde suspendo a minha cabeça

Aos poucos Morro em cada pedacinho de silêncio Nas linhas cruzadas de uma amarrotada folha de papel Onde embrulho as lágrimas da noite sem estrelas

Aos poucos

Fogem de mim as palavras

E as cores dos meus sonhos travestem-se de negro

Nos muros clandestinos da saudade

E aos poucos

Sinto que desapareço no interior do fumo da tarde Antes de adormecer

Depois de me olhar ao espelho

E

no meu rosto pequeninos grãos de areia

E

nas minhas mãos

E

nas minhas mãos fatias de xisto

E

migalhas de tristeza

Sobre a mesa de um jantar inventado

Poesia, poema, vida

As arcadas da cidade

Despejo os dias no contentor de aço Junto à porta de entrada do meu cansaço

Cozinho os dias na panela sobre o silêncio do mar

E o meu corpo que mergulha na algibeira da tarde

Entranha-se no vapor da solidão Despejo os dias no contentor de aço

E mesmo lá no fundo sinto os olhos do abraço

Nas lágrimas do jantar agrafado às arcadas da cidade…

E numa rua sem saída

Os lábios dos dias despejados

E numa rua sem saída

Os dias cozinhados.

As árvores do sonho

Construímos manhãs Nas árvores do sonho Dentro dos pássaros onde habitamos Junto ao rio emagrecido na garganta do mar

Construímos manhãs

E

pintamos o pôr-do-sol no teto do desejo

E

na montanha onde desenhamos flores

Brincam as tuas mãos suspensas no meu peito

Que acariciam os meus lábios Nas árvores do sonho

O

rio imaginário entra no teu corpo

E

na tua boca cresce um beijo

Nas manhãs construídas

Debaixo das nuvens transparentes de algodão doce Tu e eu olhamos a cidade que dorme

A construir manhãs na rocha dos sonhos

As árvores invisíveis

Morri,

Cessa o odor do meu corpo

Pendurado numa árvore invisível

E uma cidade imaginária

Com milhões de árvores invisíveis Voam para o mar,

Morri,

E todos os que me amavam

Morreram;

(trinta e três cachimbos e quatro mil e quinhentos livros) Que não me serviram de nada

Apenas que me amavam

E deixaram de me amar,

Morri,

E a cidade imaginária

Com milhões de árvores invisíveis Sobre o mar imaginário Olham o meu corpo

Que olha o odor do meu corpo

Pendurado numa árvore invisível,

Morri,

Morri sem perceber

Que sempre vivi sem viver… Vivi numa cidade imaginária com milhões de árvores invisíveis

E que deixaram de me amar;

(trinta e três cachimbos e quatro mil e quinhentos livros).

As estrelas da saudade

É em ti que escondo as palavras

Dos silêncios da manhã

É em ti que cerro os cortinados da solidão

Quando a noite me vem buscar

É em ti que os meus braços prisioneiros do mar

Brincam nas asas dos teus olhos Quando me sento junto ao rio

E

de ti vêm as estrelas da saudade

É

em ti que me deito

E

é de ti que crescem os sonhos e as nuvens e a chuva…

De ti bebo a poesia Quando em ti um jardim imaginário se deita na tua mão

E eu sem ti

Sou uma rocha magoada

Uma árvore que tomba na calçada

E

vens tu

E

me levantas do chão

E

sobre mim semeias a madrugada

As janelas do rio

Do silêncio amargo da tarde

Voos de gaivota poisam nos meus olhos

E trazem-me o mar

Do silêncio amargo

A pluma de um relógio

Que corre sobre a sombra de uma cabeleira postiça

O

travesti sorri

E

atravessa desequilibradamente as janelas do rio

O

comboio para Cascais encalhado em Cais de Sodré

E

o trasvesti sorri

No silêncio amargo da tarde

Como um parvo

Igual a mim Que olha pelas janelas do rio

E sorri

No silêncio amargo da tarde

O

travesti e eu e a tarde…

E

trazem-me o mar

E

trazem-me o mar

Voos de gaivota poisam nos meus olhos

E que difícil olhar o rio quando o rio dorme

Enrolado nos lençóis emagrecidos da madrugada

E o travesti encosta-se às janelas do rio

Onde eu fumo cigarros desordenadamente

E o comboio começa a crescer e desaparece em Cais de Sodré.

As lágrimas que caminham para o rio

Morrem as palavras Morrem os sonhos

E a manhã de outono…

Afunda-se a cidade

Na sombra que poisa nos meus ombros

E dos meus olhos

Acordam as lágrimas Que caminham para o rio

Um petroleiro desgovernado Despede-se da tarde

E as palavras e os sonhos e a manhã de outono…

Fogem da cidade.

As palavras

De que me servem as palavras Se eu não como palavras Não bebo palavras Nem fumo palavras

De que me servem as malditas palavras Que crescem na minha cabeça

Se eu não como palavras Não bebo palavras Nem fumo palavras

Malditas palavras que enlouquecem A minha pobre cabeça Se eu não como palavras Não bebo palavras Nem fumo palavras De que me servem as palavras?

As tuas mãos transparentes

Sinto as tuas mãos transparentes

Quando poisam no meu rosto invisível Sinto a tua voz Amarrotada nos gemidos da noite

E se fixam aos meus lábios

Quando uma pétala de rosa

Voa sobre o silêncio engasgado da madrugada

E

um rio solitário acorda em mim

E

sinto as tuas mãos transparentes

Que chapinham no rio As tuas mãos transparentes Quando ancoram no meu peito de rocha cansada

Da tua voz Os gemidos amarrotados da noite

Quando ancoram no meu peito de rocha cansada As tuas mãos transparentes

E

A

E

As tuas mãos transparentes Na vidraça do pôr-do-sol Quando em mim se erguem os plátanos que leem poemas junto ao mar

sinto

tua voz

sinto

O

rio solitário esconde-se nas tuas mãos transparentes

E

no meu rosto invisível

Sinto a tua voz

E no meu peito de rocha cansada

A vidraça do pôr-do-sol

Tomba na sombra dos plátanos

Que leem poemas junto ao mar

Ausência

Ausento-me da vida Com um sorriso

E silêncio nos lábios,

Cerro o livro dos solhos

E a luz da esperança extingue-se

Entre os braços dormentes do rio

E as asas de fogo do mar,

Deixo de ver a noite

E baloiçam as estrelas

No teto da solidão,

Ausento-me da vida Com um sorriso

E

silêncio nos lábios,

E

o meu corpo apodrece dentro da maré…

Barco fantasma

Há um barco estacionado no infinito Pacientemente à minha espera Há um barco com asas

E sorriso nos lábios para me levar

Há um barco zarolho

E com os braços a sangrar

Desejos nas paredes de vidro Impaciente para me levar

Há um barco estacionado no infinito Com âncoras de madeira

E pedras preciosas nos dentes

Um barco pacientemente à minha espera

Há um barco mendigo Sentado à porta da igreja Um barco para me levar Até aos confins do invisível

Há um barco com asas

E sorriso nos lábios para me levar

Um barco fantasma Doido nos corredores da enfermaria Que passeia e passeia e passeia Num cubículo de miséria

Bicha bolorenta da tarde

A bicha bolorenta da tarde

Passeia sobre os nardos da noite

Debaixo do braço um livro de poesia

A

noite come todos os poemas

E

a poesia morre na garganta do desejo

Evaporo-me

Transformo-me no livro de poesia Páginas e páginas e páginas em branco Poemas ocos Palavras cansadas de caminhar na relva Onde o corpo da bicha bolarenta dorme

E sonha

Evaporo-me

Dentro do desejo da garganta

E os poemas ocos comem-me

Evaporo-me

A

noite come os poemas

E

os poemas comem-me…

Saboreiam-me nas sílabas

E o sumo das minhas palavras

Alimentam a bicha bolorenta da tarde Percebo que não sou nada Não trabalho

E sou feliz dentro da bicha bolorenta da tarde…

Um livro de poemas vazio Meia dúzia de telas encarnadas

Penduradas na janela virada para o invisível

E

as escadas descem

E

o meu corpo feliz dentro da bicha bolorenta da tarde

Evapora-se.

Cidade imaginária

Caminho numa rua sem saída Dentro de uma cidade imaginária Uma cidade inventada Uma cidade com pulmões de solidão E garganta magoada Caminho numa rua sem saída Numa cidade sem madrugada Triste e nua Uma cidade inventada… Invisível Numa rua sem saída Numa rua sem calçada

Cigarro amarrotado

Noite

Um silencioso odor Suspenso num cigarro amarrotado Nos lábios de uma sombra

Na noite

Descem grãos de esperma De árvores invisíveis

E os pássaros imaginários

(Noite Um silêncio odor

Suspenso num cigarro amarrotado)

E os pássaros imaginários

Dançam nos seios da noite Até mergulharem no púbis das estrelas

Noite

E

o mar

E

o menino vestido de mulher

Que corre no silencioso odor Suspenso num cigarro amarrotado Até que a morte os separe

Até que a morte poise sobre a mesinha de cabeceira Abra silenciosamente o odor de um livro Suspenso num cigarro amarrotado Nos lábios de uma sombra

E a morte sorri ao menino

Vestido de mulher

Círculo de lua

Um círculo de luz

Poisa na janela da noite

E do meu corpo as palavras

Escrevem-se no espelho da lua

Oiço-te

Oiço os teus desejos misturados na auréola do poema

Oiço-te

Oiço o balançar das estrelas entre os teus dedos

E

nas tuas mãos o poema mingua

O

poema mingua no sedoso mel dos teus lábios…

Entra a noite em nós

E o teu corpo abraça-se ao pôr-do-sol

Compartimento dos sonhos

Vagueio miseravelmente no compartimento dos sonhos

E das teias de aranha da infância

Em Luanda

Pego no mar

E pinto-o na minha mão

Antes de acordar

Vejo-me sentado na marginal

Agachado na sombra de um coqueiro

À espera que o mar me venha buscar

Que o mar pintado na minha mão Sorria para mim

Sorria sem me acordar

Vagueio miseravelmente no compartimento dos sonhos

E das teias de aranha da infância

Em Luanda

Pego no mar…

E um papagaio de papel

Poisa sobre mim e sorri

Sorri sem me acordar.

Construção

(À Sarinha Maria)

Construo silêncios nos teus olhos

E

pinto desejos na tua boca

E

escrevo poemas nos teus lábios

Construo abraços nos teus braços

E desenho no teu corpo a manhã cinzenta

Engasgada na neblina

Construo nos teus olhos o mar Quando poisa na areia e incendeia Palavras que substituo por beijos Palavras que ardem na fogueira

Construo silêncios nos teus olhos

E

finjo adormecer sobre o teu peito

E

não consigo dormir

E

não consigo sonhar

Desejo

Desejo-te quando as páginas do teu corpo São folheadas pela minha mão

E os meus olhos leem

As gotinhas de suor da tua pele

Desejo-te quanto te transformas em poema

E

te deitas sobre o meu corpo

E

me abraças

E

dos teus lábios crescem as sílabas da tarde

Desejo-te quando o livro do teu corpo Dorme dentro dos lençóis da biblioteca

E

sobre ti todos os poemas

E

dentro de ti… Eu desejo-te

Desistir

Desistir quando as nuvens da manhã

Se alicerçam à montanha em solidão Desistir de olhar o mar

E brincar no rio

Desistir de lutar Baixar os braços na terra semeada de sofrimento

Desistir das palavras

E das árvores que tombam no chão

Desistir

Cerrar os olhos no cansaço do vento

Desistir de pintar Desistir de escrever Desistir de sonhar Desistir de viver

Se alicerçam à montanha em solidão Desistir de olhar o mar

Desistir de caminhar Sobre as sombras da noite Desistir da lua e do luar

E adormecer eternamente sem acordar

E

deixo de ser eu

E

levita o meu desgovernado corpo

Até à copa das árvores estacionadas junto ao rio Um cacilheiro em arrotos Finta as palavras do poema

E dentro do nevoeiro

Evapora-se pelo vórtice do desejo

O

poema desfaz-se em pedacinhos de sílabas

E

dos fluídos das vogais

Uma turbina zurra orgasmos na maré

A mecânica adormece as estruturas reticuladas em desânimo…

Que vagueiam nas ruas da cidade

E

aos poucos desistem de viver

O

meu corpo desgovernado

Na copa das árvores

Abraçado a integrais complexos

E

nas minhas mãos

E

no meu peito

A

noite enterra-se e dorme

E

deixo de ser eu.

E

vem a noite

E

vem a noite

E

come-me os olhos e os braços

E

come-me o coração,

E

transformo-me numa tela negra

Semeada de lágrimas

E

estrelas,

E

vem a noite,

E

tudo o que me pertence

Incluindo eu

Finíssimos grãos de poeira gatinhando no corredor

À procura de uma porta de saída,

À procura do dia.

Fingindo sonhar

Viver Viver acorrentado às nuvens da manhã Fingindo viver Fingindo sorrir nas entranhas da noite,

Viver Não vivendo Fingindo viver perto do mar… Viver acorrentado às nuvens da manhã,

Sem sonhos Sem vida Vivendo Fingindo sonhar…

Fios de luz

Já desci

Até onde tinha de descer

Daqui sei que não passo…

Aqui

Aqui onde estou sentado

O

olhar dos fios de luz rompe a escuridão

E

vagarosamente poisa em mim

E já desci Até onde tinha de descer Que mais me pode preocupar?

Que já desci tudo o que tinha para descer

E não tenho a quem me abraçar…

Flores parvas

Todas as flores são parvas

E parvas são as minhas palavras

Quando comidas por abelhas gananciosas Depois do almoço

Das flores parvas Nascem as minhas palavras parvas Que um parvalhão Semeia na ardósia junto à ribeira

E

eu

E

eu sou tão parvo como as flores parvas

Porque semeio as minhas palavras Porque sou eu o parvalhão Sentado numa pedra

A olhar as flores parvas e as abelhas gananciosas

A comerem as minhas palavras

Que substituíram por pão

Depois do almoço

Malditas flores parvas Que comem as minhas palavras

Parvas

Que eu semeei na ardósia junto à ribeira

Futuro

Amar-te-ei depois de eu morrer? Pergunto-me, Pergunto-me antes de adormecer…

Há um homem

Há um homem embriagado Numa rua sem saída Um homem cansado Da noite despida,

Há um homem abandonado Na cidade escondida Há um homem acorrentado Às maldades da vida,

Há um homem silenciado Nos sorrisos do vento Há um homem agachado Na fogueira do sofrimento,

Há um homem retalhado Pelas espadas da solidão Um homem enganado Pelo sonho e ilusão…

Ilhargas do infinito

No fim da rua sem saída Uma mesa e quatro cadeiras esperam por mim

Um rio amarrotado nas ilhargas do infinito me alcança Como se eu fosse um pássaro doente Ou uma criança Como se eu fosse a sombra do jardim Quando me olha e mente

E ao espelho da noite vejo a minha vida

Sem vida No fim da rua sem saída Três vultos invisíveis deitados na calçada Antes de adormecerem Fingindo viver Viver sem madrugada

Fingindo sentados nas três cadeiras

À roda de uma mesa ensonada

Sem vida no fim da rua

Sem saída

Sem nada

Inabilitado

Sou um inabilitado Sentado no banco de jardim Sou um plátano cansado Sou um barco encalhado

Nos sorrisos da manhã Sou um inabilitado

E que vagueia na garganta da montanha

Sou um plátano cansado

Sentado no banco de jardim Sou um inabilitado Que sonha com o mar…

E o mar foge de mim.

Insónia da noite

Metade de mim uma árvore despida na saudade

E a outra metade

Um rio que deixou de correr para o mar

E se perdeu nas curvas da montanha

Metade de mim uma nuvem engasgada na manhã Quando acorda a cidade

E a outra metade

Os silêncios da maré nos sorrisos da lua

Metade de mim um poema amordaçado Escrito na insónia da noite Quando sinto que na outra minha metade Os teus lábios se abraçam e cintilam junto ao mar

Insónia do amanhecer

Saberei caminhar

Depois de acordar?

E

quando descerem as estrelas

E

se entranhar a noite nos meus olhos…

Saberei eu descerrar o cortinado da miséria Depois de acordar?

Saberei escrever Nas pétalas do teu olhar?

Não sei se conseguirei caminhar

E descerrar…

A insónia do amanhecer

Janelas para o inferno

Estar só dentro de um cubo de vidro

E janelas para o inferno

Lá fora extinguem-se as árvores e os pássaros e o mar

E nas faces transparentes das paredes de vidro

Uma criança não se cansa de chorar Desistindo aos poucos de sonhar

Uma criança a ser engolida pela garganta do mar

Que se extingue juntamente com as árvores e os pássaros

E o cubo de vidro

Sorri quando lhe tocam e o acariciam

Que faz um louco dentro de um cubo de vidro?

E eu? O que sou eu comparado com um cubo de vidro

Ou com a criança que não se cansa de chorar… Ou com a criança que desistiu de sonhar?

E o que sou eu comparado com aqueles que acariciam e tocam

No cubo de vidro?

E

ele sorri quando lhe tocam

E

ele sorri quando o acariciam

Serei eu então o louco sentado dentro do cubo de vidro? Ou foi o cubo que enlouqueceu? Ou é a criança que está louca e chora junto às faces transparentes Das paredes de vidro?

E

se eu for o cubo de vidro

E

dentro de mim um louco sentado

A olhar a criança que chora junto às faces transparentes Das paredes de vidro Com janelas para o inferno Lá fora extinguem-se as árvores e os pássaros e o mar

Estar só dentro de um cubo de vidro

E

janelas para o inferno

E

ele sorri quando lhe tocam

E ele sorri quando o acariciam

E ele enlouqueceu no fundo do mar

Jardim da saudade

Converso com as vozes Que conversam comigo

E escrevo-lhes na calçada da noite

Sobre os lençóis de malmequer No jardim da saudade Converso com as vozes e oiço as árvores

Quando me sento no jardim da saudade

E

desenho gaivotas nas folhas cansadas dos plátanos

E

desenho as conversas das vozes

No sorriso do silêncio Antes de adormecer Sobre mim o ténue cortinado disfarçado de abraço

Que as vozes Semeiam palavras na terra árida da minha mão

E se deitam na charrua de aço

Que corre que corre que corre para o mar

E dos rochedos perplexos e nos rochedos agoniados

Pelo cansaço da manhã

As vozes Esqueletos travestidos de areia Atravessam o limite da lua

E desaparecem entre os pingos sedosos da chuva

As vozes calam-se e alguém as censura Dentro de um caderninho amordaçado no jardim da saudade

Jardim dos beijos

Oiço as tuas lágrimas antes de adormecer Poisadas silenciosamente sobre o meu peito Oiço a noite a crescer Quando o mar sem jeito

Quando o mar me entra pela janela

E se deita no teu corpo de poema

Oiço a noite a crescer nos lábios de um barco à vela No vento da minha cama

Oiço a noite nos teus olhos em palavras de sofrer Rasgando-te em desejos Oiço a noite a crescer

Quando o mar sem jeito galga a minha mão

E

no jardim dos beijos

O

teu amor acorda o meu coração.

Jardim fantasma

Deixei de ter tudo Na gaguez das palavras No sofrimento de um poema

Deixei de ter tudo

E hoje sou apenas uma sombra

Prisioneira na janela

E cessaram as manhãs

Que me visitavam

E traziam-me as palavras e as cores do oceano

Depois de a noite mergulhar no jardim fantasma

Na cidade imaginária Deixei de ter tudo

E percebo que nunca tive nada.

Lábios de amêndoa

Me encantam os teus olhos de amêndoa Suspensos nas alegrias da manhã Me encanto nos teus lábios de poema Sobre os meus braços

Deitados nas sílabas da minha língua Me encantam os teus olhos Me encantam as tuas mãos Sobre os meus braços

Dentro do meu corpo Na busca de um beijo Ou de um simples olhar…

Me encantam os teus olhos de amêndoa Suspensos nas alegrias da manhã Quando acordas E escreves no meu peito Com as tuas frases em desejo Que crescem das tuas mãos que me encantam

Nas alegrias da manhã Dos teus lábios de poema Dentro do meu corpo Na busca de um beijo Ou de um simples olhar… Escreves no meu peito; Amo-te.

Lábios em desejo

Constrói-se o poema erótico

Dentro da fogueira do púbis

E nas palavras que não consigo escrever

(porque sou mais estúpido que uma porta e insensível)

Essas

As palavras que saltitam nos lábios em desejo Nascem dois malmequeres com cabeça de abobora

Juntando à minha cabeça de abobora Perfaz três cabeças de abobora

E

um poema erótico

E

um púbis que se evapora

Nas árvores estacionadas junto ao mar Pergunto-me – E Agora?

(e porque sou mais estúpido que uma porta e insensível)

Cerros os olhos

E em pedacinhos a minha cabeça de abobora

Voa nos lábios acinzentados de gaivotas enjoadas

O

resto do meu corpo em migalhas de pão

(e

porque sou mais estúpido que uma porta e insensível)

Um candeeiro junto ao Tejo olha-me Como se eu fosse um mendigo à procura de abrigo…

Manhã de outono

Do espelho do guarda fato As folhas dos plátanos que se despendem da vida

Uma sombra de silêncio atravessa-me e corta-me em pedacinhos

E fico sem perceber o que quer de mim a manhã…

Do espelho apenas as lágrimas Um fio de luz que entra pela janela do mar

No espelho os pedacinhos de mim Que voam entre a parede e o soalho

Do espelho vejo-me agachado dentro do rio

A

semear sorrisos nos socalcos

E

as flores do meu quintal

Que brincam nas nuvens da manhã

Não chove

E

o sol desapareceu antes de acordar

O

rio leva-me para longe

E

na minha mão uma folha de plátano

E

da minha mão

O

espelho do guarda fato escondido nos meus olhos

A

manhã de outono

Simples quando adormece nas candeias da cidade

No chão das ruas abrem-se fendas

E no céu os poemas escrevem-se como gotinhas de água…

Que quando cair a noite Vão poisar sobre os pedacinhos do meu corpo

Medo do mar

Eu menino Mergulhava no medo do mar

Cerrava os olhinhos com os silêncios da tarde

E na areia fina do Mussulo

Descia até às profundezas da terra

E ficava lá até que a noite me acordasse

Até que as estrelas se acendessem Sobre a ilha

E levitando dentro do túnel da maré

Voltava a abrir lentamente os olhinhos…

E sentia os braços da minha mãe

Poisados dobre os pêndulos do meu corpo

Eu menino Mergulhava no medo do mar

Inventava amigos que brincavam comigo

À

sombra das mangueiras

E

o meu triciclo fartava-se da minha companhia

E

antes que chegasse a noite e me levasse para o mar

Eu corria eu corria eu… corria para as mãos dum boneco estúpido Que batizei de chapelhudo

E

hoje não tenho o mar nem medo do mar

E

hoje sei que amo o mar

E

hoje se fosse hoje não me escondia na areia fina do Mussulo

Hoje eu corria eu corria eu… corria até me cansar

Mentiras dentro de mim

Não vou esperar mais pelas manhãs de inverno E ignorarei eternamente a geada da noite…

Os rios e o mar e Luanda Mentiras dentro de mim,

Como tantas outras que cresceram E apodrecem no meu corpo.

Metade de mim

Metade de mim

Morta pela tempestade

A outra metade

Pendurada na parede de um quarto

Sem janelas Para o mar,

Metade de mim Carne podre Pedacinhos de cartão amordaçados No sangue da noite,

Metade de mim

Morta pela tempestade

A outra metade

Pendurada na parede de um quarto

Sem estrelas Sem luz Sem janelas Para o mar,

Metade de mim…

À procura do cadáver

Da metade morta pela tempestade Porque à metade pendurada na parede de um quarto Falta-lhe a metade

A vontade

A saudade

À metade de mim

Sem vista para o mar

Sem janelas para o corredor Depois de subir as escadas e alcançar a claraboia

Onde metade da metade de mim Dorme abraçada a uma gaivota

Muros de vedação

Sei que alguém me espera Numa esquina de rua Ou num poço dentro de um rio Sei porque o sinto

Quando caminho nas planícies adormecidas

E o meu corpo cola-se aos muros de vedação

Que separam a luz da noite

E

os tiros de solidão rompem o céu recheado de estrelas

E

fios de algodão

Caiem sobre os meus ombros

E prendem-me os braços à neblina

Numa esquina de rua

Alguém me espera Para me levar até à constelação mais distante Onde os livros são proibidos

E as palavras meras sementes de girassol…

O abraço da noite

Sabes que estou aqui Entre a janela e o mar Sou uma rocha que não se cansa de sonhar Sou um pássaro que não desiste de voar Sabes que estou aqui Entre a janela e o mar

Sempre pronto para te escutar Sempre pronto para te abraçar Sabes que estou aqui Entre a janela e o mar

Porque sou a noite abraçada ao luar

O barco de papel

Um barco de papel Cruza o oceano Um barco que nasceu

Das mãos de uma criança Um barco de papel Cruza o oceano

E o cordel

Que o amarra às estrelas

Balança

A criança olha-o e ele extingue-se

Nos lençóis da noite

E assim vim de Angola…

Vim de Angola num barco de papel Preso às estrelas penduradas no céu Construído por mim Eu em criança sonhava

E

do papel fazia barcos

E

papagaios…

E

o céu tinha muitas estrelas

Onde prendia os meus barcos de papel Onde guardava os meus papagaios de sorriso amarelo

E cruzava o oceano sentado debaixo das mangueiras…

Chamava pelo mar

E sentia o Mussulo na minha mão.

O beijo do girassol

Entre mim

E

o silêncio

E

o muro de cimento armado

Esconde-se o beijo do girassol Desce até à sapata

E quando toca na terra evapora-se nas sílabas da tarde

As horas de um velho relógio de pulso Cansam-se e começam a abrandar a marcha

Até se imobilizarem nas encruzilhadas da vida

E o tempo na mão de deus

Olha-o

Olha-me

E

cerram-se os cortinados da tarde

E

da janela o cheiro intenso a solidão

Que poisa nos lábios de pombas amestradas…

Os palhaços saltam o muro de cimento armado

E acariciam o beijo do girassol

Entre mim e o silêncio

O centro da eira

Não sei se está vento No meu corpo encalhado Se estou gordo Ou magro

Não sei se deva continuar a escrever Ou simplesmente me sentar Ver a manhã a morrer Nos braços do mar

Não sei o que são gaivotas Ou poemas de amar Sei o que eram almas mortas Na Rússia do Czar

E tal como Gogol

Pego na minha escrita

E

faço uma fogueira

E

tudo desaparece no centro da eira

O circo da vida

Habito num cubículo

Coberto de nuvens amestradas No baloiço da vida

A

trapezista saudade

E

a colega solidão

E

no chão preso às rochas domesticadas

Os palhaços

O ilusionista

Que de farrapos constrói avenidas

E

cigarros de enrolar

E

putas

E

cães

E

flores

Nas mãos dos palhaços

Na algibeira do ilusionista

O circo da vida

Quando a vida é um circo

E

eu

E

eu que sou puta

E

eu que sou cão

E

eu que sou flor

Saltito das mãos dos palhaços Para a algibeira do ilusionista.

O corpo de ferro

Do sonho acorda a noite

E as traineiras dentro do rio

Às cabeçadas contra as nuvens suspensas no teto da cidade

A

cidade acorda e mistura-se na sonolência de ruas sem saída

E

gaivotas que dormem junto a Belém

Oiço os sorrisos das traineiras

E os suspiros das gaivotas

Debaixo da relva entalada na garganta do jardim…

Um homem vestido de mulher

Agachado nas migalhas adormecidas na calçada

E um corpo de ferro

Vestido de traineira desce a Ajuda

E afunda-se no Tejo.

O cubo de vidro

No centro da galáxia

As tuas mãos prisioneiras no infinito Um orgasmo curvilíneo Dorme dentro de um cubo de vidro

E

as tuas mãos acariciam-no

E

às tuas mãos regressa a luz

Que à velocidade de trezentos mil quilómetros por segundo Evapora-se do cachimbo de Einstein Os uis e os ais do orgasmo curvilíneo Que fogem do cubo de vidro No centro da galáxia

Descem

Descem e escapam-se Escapam-se por um buraco de minhoca

E acordam sobre o silêncio do mar

Onde os teus seios de malmequer Esperam pelas tuas mãos Prisioneiras no infinito

Estará o criador dentro do buraco de minhoca?

E se o criador não passar de uma complexa equação matemática

Que dentro do buraco de minhoca Brinca com os uis e os ais do orgasmo curvilíneo Que fugiram do cubo de vidro No centro da galáxia?

No centro da galáxia

As tuas mãos prisioneiras no infinito Um orgasmo curvilíneo Dorme dentro de um cubo de vidro

E do buraco de minhoca

Vêm até mim as espátulas da noite recheadas de cereja e morango…

Cerro todas as luzes

E fecho todas as portas

E todas as janelas Sento-me sobre o cubo de vido No centro da galáxia E conto as carícias do vento que poisam no meu peito

O dia de me perguntar

Amar-te-ei quando os silêncios dos céus

Cessarem dentro da espuma enraivecida do mar

Pergunto-me

Amar-te-ei

Pergunto-me quando entro no espelho da manhã

E observo o meu rosto transformado em finíssimos fios de luz

Que se abraçam a uma gaivota em cio

O

sol desfaz-se em grãos de nada

E

eu pergunto-me se amar-te-ei

Quando cessarem dentro da espuma do mar Os silêncios dos céus

E

se o mar deixar de ser mar

E

se os finíssimos fios de luz do meu rosto

Transformarem-se em xisto pregado aos socalcos do douro…

E

se a manhã nunca mais for a manhã

E

se a manhã deixar de ser um espelho

E

se a manhã eternamente a porta de um cubículo

Sem janelas viradas para o mar Pergunto-me se amar-te-ei Quando um dia acordar

E

o meu corpo deixar de ser corpo

E

todas as flores serem desejos

E

todos os corpos pêndulos de orgasmos junto ao rio

Pergunto-me se amar-te-ei

Pergunto-me

Amar-te-ei quando os silêncios dos céus Cessarem dentro da espuma enraivecida do mar Não sei Se chegarei ao dia de me perguntar

O fim das minhas palavras

Sento-me

Cruzo os braços

E

espero que o tempo se alimente do meu corpo

E

quando chegar a noite

E

quando chegar a noite

Uma finíssima folha de poeira se alicerce nos meus olhos

E

todas as minhas palavras

E

todas as minhas palavras cessem

E

todas as minhas palavras morram

Na garganta do poema

Crucificadas nas mãos de um texto ficcionado

E toda a minha vida

Um número de circo sem sentido

Sento-me

Cruzo os braços

E dou-me conta que morri

O fim do poema

Será o poema

Amante do poeta?

E se o poeta despir o poema,

Sílabas para um lado, Vogais para o outro,

E se o poeta

Fizer amor com o poema?

E

se o poeta pegar nas palavras

E

se o poeta fumar as palavras

Antes de adormecer…

E

se o poema se masturbar nas palavras?

E

se às palavras nascerem asas

E

às abelhas poemas

E

aos poemas sombras de sémen…

Fodeu-se o poema Nas mãos do poeta.

O fogo dos meus braços

Ardem os meus braços

No silêncio magnético do cubículo onde me sento

E olho as nuvens suspensas no teto

Que descem e poisam no meu corpo,

Pensava que estava vivo

E

dou-me conta que morri

E

aos poucos

O

meu corpo traveste-se de cinza e pedacinhos de papel,

E

o vento me levará

E

o mar alimentar-se-á das minhas cinzas

Uma gaivota enrolar-se-á nos pedacinhos de papel que sobejaram do meu corpo…

E todas as minhas palavras deixarão de ser palavras,

Todas as minhas palavras Um silêncio magnético Que à velocidade da luz Caminharão sobre o teto do cubículo onde me sento…

O

mar e o desejo de amar

O

sol os rios e as estrelas

O

mar e o desejo de amar

O

céu cansado das minhas preces

E

desiludido com as minhas palavras

O

sol os rios e as estrelas

E

o teu corpo pregado ao silêncio do prazer

O

mar e o desejo de amar

Na minha mão antes de adormecer.

O palhaço

Sou um palhaço, Dizia ele às linhas do papel,

Sou um homem vestido de palhaço

E vivo confortavelmente numa barraca junto ao rio,

Sou um palhaço, Quando o espelho imprime o meu rosto encardido,

E eu vestido,

Dizia ele,

E eu vestido de palhaço,

Numa barraca junto ao rio,

Agachado na lareira da noite

A tremer de frio,

Sou um palhaço, Dizia ele às linhas do papel, Sou um homem vestido de palhaço… Confortavelmente numa barraca junto ao rio,

Já fiz de tudo.

De palhaço a malabarista,

Domador escritor pintor almeida jornaleiro… Até já fui carpinteiro, Nunca fui paneleiro,

E

um dia quero ser romancista,

E

agora,

E

agora sou palhaço,

Digo eu,

E vivo numa barraca junto ao rio,

Sou um palhaço, Dizia ele às linhas do papel,

Sou um homem vestido de palhaço

E vivo confortavelmente numa barraca junto ao rio,

Eu, nada faço

Porque sou um palhaço,

E às vezes pego num pincel

E cato abelhas com cio…

Sou um palhaço, Dizia ele às linhas do papel, Sou um homem vestido de palhaço… Confortavelmente numa barraca junto ao rio,

E quando vou na rua

Há sempre alguém que não se esquece de me recordar Que eu sou um palhaço,

E a gritar e a gritar e a gritar…

- Vê por onde andas seu grande palhaço!

E

eu caminho nos passeios

E

eu tenho de me desviar dos candeeiros

Semeados no centro dos passeios,

Porque outro palhaço, Digo eu, Semeou candeeiros No centro do passeio, Eu, nada faço Porque sou um palhaço, Apenas vivo confortavelmente Numa barraca junto ao rio.

O pescoço da manhã

Uma gravata de lâminas de barbear Prende-se-me no pescoço da manhã Olho o espelho Olho-me no espelho e não eu

E

malmequeres saltitam nos lábios da Gillette…

A

gravata de lâminas sufoca-me

E

os meus olhos começam a caminhar

Nas sandálias de couro

E nos malmequeres uma abelha

Que voa e voa e voa

E voa sem parar

Entra dentro do espelho

E a gravata de lâminas de barbear

Cada vez mais me aperta

E

sufoca

A

abelha geme dentro do púbis do espelho

E

quando a minha mão acaricia os lábios da Gillette

O

espelho finge que não me vê e evapora-se no pescoço da manhã…

O poço da morte

No poço da morte Eu e as palavras

Um homem treme de frio

E uma flor de olhos vendados

Procura o sorriso das nuvens

E o silêncio da vida

Eu

Eu deitado nas planícies do sol Eu acorrentado ao aço da maré

Quando o mar dorme dentro de uma caixa de sapatos

E

eu

E

eu no poço da morte

Muito feliz Muito contente Um homem treme de frio Numa rua da cidade Na margem do rio Eu e as palavras

No poço da morte Engasgado no voo da saudade

E no silêncio da vida

Um rio gagueja antes de abraçar o mar Eu e as palavras No poço da morte à espera de acordar

O quintal de Luanda

Amar Eu amo-te, Desejar Eu desejo-te, Muito, Como se fosses o mar de Luanda Que atravessava o meu quintal E adormecia no meu peito, Amar Eu amo-te, Desejar Eu desejo-te, Muito, Como se fosses um papagaio de papel Suspenso nos céus da minha infância… No quintal de Luanda.

O

teu corpo é o poema

O

poema escreve-se no teu corpo

E

semeio as sílabas dos meus lábios na tua boca,

O

poema entranha-se em ti

E

fios de luz enrodilham-se nos teus olhos,

Estarei louco? Será o amor a crescer nas palavras que escrevo no teu corpo? Ou o teu corpo é ou não é Uma finíssima folha de papel…

O

poema escreve-se no teu corpo

E

dos teus gemidos construo um livro,

O

teu corpo é ou não é…

O

rio da poesia onde pesco as palavras,

E

semeio as sílabas dos meus lábios na tua boca,

O

poema entranha-se em ti

E

fios de luz enrodilham-se nos teus olhos,

E

quando a noite entra pela claraboia do desejo

O

teu corpo é o poema,

E

não,

E

não estou louco!

Tu és o poema e o rio da poesia…

O

último desejo

O

último poema da noite

O

último cigarro

Uma luz seminua que se acende

E uma página do livro de Lobo Antunes

Poisa na minha mão

O último pensamento

Antes do último desejo…

“Titina” junto à porta sorri

E eu deixo cair a caneta

Sobre a noite que se desfaz como grãos de areia Nos lençóis encurralados entre as estrelas

E depois do último poema

Do último cigarro Depois do último desejo Cerro o livro Cerro a luz

Fecho a janela virada para o mar “Titina” adormece

E o meu último cigarro sobrevive

À solidão da noite

O

vazio das horas

O

vazio das horas

Quando rompem repentinamente Os dias ocos

E encharcados de solidão,

Penduram-se na janela As flores estupidamente mortas

Com pássaros estupidamente adormecidos, Estendo os braços Cerros os braços, Dou-me conta que estou vivo

E tal como ontem,

Anteontem

E amanhã…

Nada aconteceu

Nada previsto acontecer,

O vazio das horas

Quando rompem repentinamente Os dias ocos

E encharcados de solidão,

As flores estupidamente mortas

Com pássaros estupidamente adormecidos,

E

eu,

E

eu estendo os braços

Cerros os braços,

E

dou-me conta que estou vivo

E

sou um mecanismo

Composto por milhões de pequeninos mecanismos…

Que me fazem estender os braços

E cerrar os braços,

No vazio das horas

Quando rompem repentinamente Os dias ocos

E

encharcados de solidão…

E

é assim a minha vida.

Orgasmo metálico

O orgasmo metálico

Grita no aço da noite

A

roda dentada tropeça entre o veio de transmissão

E

o néon sibilado da maré

Sou feliz escrevo eu na espuma do mar Grita no aço da noite

O

petroleiro desnorteado

O

orgasmo metálico ouve-se

Sou feliz escrevo eu na espuma do mar

Grita e grita e grita e não se cansa de gritar

A roda dentada

Que não cessa de girar

Sou feliz escrevo eu na espuma do mar “És um parvalhão” sorri-me o petroleiro Entre os orgasmos metálicos

E o púbis enfeitado do céu

Quando no aço da noite Sinto as minhas mãos abraçadas a uma finíssima folha de papel

Escrevo

E

escrevo

E

escrevo Sou feliz na espuma do mar

Os orgasmos metálicos Comem o mar

E o petroleiro adormece dentro de uma caixa de sapatos.

Os cigarros em desejo

Procuro a cidade

Na algibeira da manhã

E na caixa de sapatos onde habito

Encosto-me às paredes de vidro

Que circundam o espaço exíguo dos meus sonhos

A cidade perde-se no silêncio do rio

Gaivotas amestradas

Brincam junto às bichas que buscam engate nas sombras de Belém

E sinto entre os dedos da minha mão invisível

Os cigarros em desejo Quando olham do outro lado

A outra cidade enfeitada de luzes e lágrimas

Sento-me contra os candeeiros pregados à gaguez da tarde Oiço na calçada os muros amarelos que ardem e desaparecem

E tal como os meus cigarros em desejo

Junto às bichas que buscam engate nas sombras de Belém Ardem os muros ardem as árvores… Tudo arde na algibeira da manhã e na caixa de sapatos onde habito

Os dias e as noites

Há dias intermináveis Com horas intermináveis Segundos intermináveis Há dias com noite e noites sem dia Intermináveis Os dias e as noites

Os olhos do medo

Masturba-se a cidade Dentro dos candeeiros de néon

As ruas incham nas sombras da noite

E

nos orgasmos de fome

O

desejo do homem vestido de mulher

Que vagueia sobre as migalhas de suor que se desprendem das árvores

(Tenho medo da noite Medo das estrelas Da lua

E

dos rios que correm para o mar) – grita ele

O

desejo do homem vestido de mulher

Que busca as minguas moedas de euro na algibeira amarrotada

E

cinzenta

E

deserta na confusão das luzes suspensas nos olhos do medo

A

fome cresce e multiplica-se

Nas pétalas das flores escondidas dentro dos candeeiros de néon

E nos orgasmos de fome

Masturba-se a cidade

E o homem vestido de mulher sorri

Quando a garganta do medo come a noite

E os desejos das migalhas de suor

Correm nas veias travestidas de um cacilheiro

O

homem sorri

E

dorme nas asas cansadas do amanhecer

Os poemas da noite

Retiro do teu corpo

As palavras com que construo os poemas da noite Pinto os teus desejos

E desenho os teus gemidos

Na tela dos lençóis de seda Onde poisas o silêncio dos teus lábios

E guardas religiosamente

As nuvens da manhã Que são as tuas mãos… Retiro do teu corpo As palavras com que construo os poemas da noite

E

quando grito Amo-te à janela virada para o mar…

O

teu corpo mistura-se no meu

Os teus desejos

E os teus gemidos

Na tela dos lençóis de seda Saem da janela virada para o mar

E transformas-te em maré

Os teus lábios de amanhecer

Aos teus lábios de amanhecer Peço um desejo Que a manhã depois de crescer Na minha mão acorde um beijo,

Aos teus lábios de amanhecer Um abraço se alicerça ao teu olhar Um sorriso vai nascer Nas gaivotas que brincam no mar,

E

voam sem parar

E

voam nos desejos da tempestade

As gaivotas que brincam no mar,

Que nos teus lábios de amanhecer Cesse a saudade

E todos os dias de sofrer…

Os teus olhos de amanhecer

Dos teus lábios Um finíssimo fio de espuma Se mistura no mar Dos teus lábios Em desejo Uma barcaça não desiste de navegar

E

dos teus sonhos nos teus lábios

O

sorriso de recomeçar

Em cada manhã

A cada luar

Dos teus lábios

Oiço as palavras engasgadas na areia que poisa no teu corpo

E

se dilata nas mãos de um jardim com flores

E

abelhas

E

muitas cores

E

no desejo de quando acordares

As flores

As abelhas

E as cores

Iluminem os teus olhos de amanhecer

Palavras parvas nos meus olhos parvos

Dentro da garganta dos sonhos

Uma língua de fogo incendeia o meu corpo

E

das minhas mãos desprendem-se malmequeres

E

botões de rosa

E

palavras desconexas que se perdem no vento

E

palavras parvas nos meus olhos parvos dão vida aos poemas

Que semeio nas paredes escuras do corredor da morte Sento-me sobre uma pilha de livros

E

rezo

E

esqueço-me que a fogueira consome os meus braços

E

esqueço-me que na garganta dos sonhos

Um fio de luz prende-me à vida e não me deixa partir

Dentro da garganta dos sonhos Pinto o mar na digestão da solidão

E os sonhos engolem as minhas cinzas

Engolem as minhas palavras Engolem o mar que pintei na digestão da solidão

E rezo

Rezo que das minhas cinzas cresçam poemas

E das minhas mãos os malmequeres e os botões de rosa

Subam ao céu

E repousem junto a um buraco negro

Longe muito longe infinitamente longe Onde as minhas palavras parvas e os meus olhos parvos

Brincam de mão dada a duas parvas retas paralelas

Parede de betão

Lâminas de solidão rompem o meu peito cansado

E na minha mão as flores selvagens da montanha

Dormem profundamente ao som da manhã desalinhada

A porta virada para o mar cerra-se e uma parede de betão

Prende o meu olhar Deixo de ver o mar

E

imagino-o a correr nos meus braços

E

pinto-o na parede de betão

Que me proíbe de ver o mar Que me proíbe de brincar com o mar

As lâminas de solidão rompem o meu peito cansado

E espero pela chegada da noite

Abraçar-me com toda a força às rochas sonâmbulas

E

esperar que a maré me venha buscar

E

me leve

E

me absorve e misture nos seus desejos

A

solidão dói

Mas não existe pior dor

Que estar junto ao mar

E

não o conseguir abraçar

E

ser proibido de o ver

Porque uma parede de betão prende o meu olhar

Pergaminhos do desejo

Uma cidade extingue-se no orgasmo da fome Nas ruas as árvores gemem

E

um rio cansado de viver

E

de correr para o mar

Esconde-se entre os pergaminhos do desejo Deixo de existir

Evaporo-me no orgasmo da fome Tal como a cidade

E

o rio

E

o desejo

Há silêncios sobre a mesa ao jantar

Quando o mar engole o rio

Deixo de existir Deixo de caminhar Deixo de viver

Uma cidade extingue-se no orgasmo da fome Nas ruas as árvores gemem

E

um rio cansado de viver

E

de correr para o mar

Deixo de existir Deixo de caminhar Deixo de viver

E a cidade arde quando acorda a noite.

Pingos de luz

Pingos de luz

Descem das nuvens de néon

E da manhã o relógio pendurado na sala

Com tosse Engasgado na solidão deste sábado triste Neste sábado amarrado aos pingos de luz

Uma flor embalsamada

E que de morte natural desapareceu na primavera

Entra-me pela janela

E ressuscita como um livro de poesia

Que arde cansativamente na fogueira da solidão

Pingos de luz

Pingos de luz Descem das nuvens de néon

E pareço uma pedra atirada por uma criança

Contra as asas do mar

O

mar engole-me

E

desço das nuvens de néon

E

desço transformado em pingos de luz

E

desapareço nas lágrimas da flor ressuscitada…

Poema amordaçado

Há em ti Uma canção de saudade Um poema amordaçado Há em ti Uma noite perdida na cidade Uma noite a um rio acorrentado,

Há em ti Os gemidos de um espelho em sofrimento E que se move imensuravelmente para o mar Há em ti dentro de ti O silêncio do vento Antes de acordar.

Poema orgânico

Lanço à terra As palavras do poema

Um jardim de malmequeres Vai alimentar-se Das palavras do poema

E o poema

Deixa de ser poema

O poema é o húmus

Na garganta da terra…

À hora do jantar,

Cada sílaba

Um grão de fertilizante Cada palavra Que alimenta a semente Saiu do poema…

E sobre o meu cadáver vão crescer malmequeres,

Alimentados por poemas

À hora do jantar.

Prisão

Roubaram-me o sorriso

E acorrentaram-me à solidão

Fizeram das ruas um corredor sem juízo

E das janelas um sonho sem coração

Roubaram-me o mar

E as palavras que tinha para escrever

Fizeram das ruas um cemitério sem luar

Fizeram das ruas uma noite para esquecer Roubaram-me o amanhecer

E a vontade de amar

Roubaram-me o sorriso

E acorrentaram-me à solidão

Fizeram das ruas um corredor sem juízo

E das janelas uma prisão

Retas paralelas

Sonhos…

Retas paralelas que se abraçam no infinito Pedacinhos de cor Que voam em direção ao pôr-do-sol

E caiem sobre a dor do oceano

Sonhos…

Retas paralelas

Suspensas nos lábios da noite

Retas

E

sonhos

À

conquista do infinito

E

caiem

E

caiem sobre o mar.

Retrato

(Aos meus amigos:

Aqueles que o são; Os que o fingem ser; Aqueles que têm medo de o ser;)

Há um espelho suspenso nos dias Que deforma o meu rosto

Há um espelho transparente que só existe na noite

E

me engole

E

me transporta pra o silêncio das estrelas

Há um espelho que me ama

Porque é um espelho invisível Porque ninguém o vê Porque não tem medo de escrever na geada da noite Eu amo-te

Porque o escreve em silêncio Para não ser recriminado por outros espelhos Há um espelho que deforma o meu rosto

E quando me olho nele vejo os riscos que crescem sobre a copa das árvores

Junto ao rio Numa rua sonâmbula e em lágrimas

Eis o meu retrato

Fabricado num espelho invisível Sem medo de mim Sem medo de me abraçar

E escrever na geada da noite

- Eu amo-te

Rio africano

(com um mês de idade precisei de uma transfusão de sangue e graças a um dador(a) Africano(a) consegui sobreviver; dedico-lhe este poema)

Há um rio africano

Que corre no meu corpo Há sangue africano Que caminha

E sonha

No meu corpo…

Há um rio africano Deitado na minha cama Entre o capim

E o mar de Luanda…

Há um rio africano Que me devolveu a vida

E me chama.

Rio vadio

As nuvens adoram-me

Desejam-me

As nuvens que poisam na minha cabeça

E

me cobrem

E

me escondem debaixo dos candeeiros da manhã

Desejam-me

E cobrem-me

As nuvens pintadas de negro Junto a um rio descolorido Sem estrelas Sem dezembro para sonhar As nuvens que poisam na minha cabeça

E

me escutam

E

me olham

E

desejam

Sem dezembro para sonhar Tenho as nuvens negras Junto a um rio descolorido

Vadio

Sonâmbulo amarrotado nos canaviais Me cobrem e olham e desejam e se fundem nas minhas mãos

As nuvens que poisam na minha cabeça.

Saudade

Saudade

Quando sobre o meu corpo envelhecido Poisa a tempestade

E de um rio cansado

Nuvens de néon chocam contra a solidão

E

a manhã agarrada ao muro de vedação

À

janela eu fico esquecido

E

mergulho nas mãos do poema ancorado

No poema fantasma que alimenta a saudade Quando sobre o meu corpo envelhecido Os meus olhos fingem ver a cidade Quando a cidade parece ter morrido

E

da tempestade acorda a harmonia

E

às flores regressa o amor das palavras com sentido

E

chovem gaivotas de fantasia

No meu corpo envelhecido

Se tenho amigos

Lamento desiludir os meus amigos (se tenho amigos) Mas detesto o natal

Odeio luzinhas suspensas em pinheiros

E não quero presentes

Nem ver o meu focinho Pendurado numa árvore virtual…

E por favor

Não me enviem mensagens

A desejarem-me um bom ano

Quando tenho a certeza

Absoluta

Que vai ser outro ano de merda

Lamento desiludir os meus amigos (se tenho amigos) Mas detesto o natal

E não gosto dos três Efes…

Fado

Fátima

E

Futebol

E

neste natal

Esqueçam por alguns dias Que eu existo Lamento desiludir os meus amigos (se tenho amigos) Mas detesto o natal

E odeio luzinhas suspensas em pinheiros…

Sem as palavras deixo de existir

As palavras que escrevo

São as sombras que sobejam da noite, As palavras murcham

E o peso da angústia alicerça-se em mim

Como um vulcão Dentro da montanha, As palavras que escrevo

São as sombras que sobejam da noite

E nunca mais regressam,

Ausentam-se no paralelepípedo da maré

E encostam-se à coluna vertebral

De um cargueiro em aflição,

Deixei fugir as palavras

E deus brinca com elas

Sobre uma mesa de mármore

E uma jarra de gladíolos,

As palavras que escrevo São as sombras que sobejam da noite, As palavras murcham

E

o peso da angústia alicerça-se em mim,

E

sem as palavras deixo de existir,

E

o peso da angústia

Sobre o meu corpo carbonizado pelo perfume das rosas Evapora-se entre os eucaliptos juntos ao rio.

Sémen da ortografia

Enrolado a mim

O

teu corpo onde escrevo poemas

E

a meio da noite

Leio com as minhas mãos… Os poemas que escrevi no teu corpo Com a esferográfica do desejo

Os malmequeres poisados sobre a mesa de cabeceira

Iluminam o teu corpo banhado nas gotinhas de poemas As sílabas gemem quando as minhas mãos lhes tocam

E se misturam no sémen da ortografia

(primeiro orgasmo literário)

Ser feliz

E

se eu me deitasse homem

E

acordasse pássaro

E

se eu me deitasse miserável

E

acordasse com algum dinheiro na algibeira…

Mas nem consigo acordar pássaro Nem tão pouco cresce dinheiro na minha algibeira

E vão dizer

- Dinheiro não é felicidade Ai que não é Claro que o dinheiro é felicidade

Experimentem pedir fiado um café Um maço de cigarros Ou na mercearia…

E

vão perceber a humilhação

E

vão perceber a alegria

Daqueles que escutam e olham

Um feliz sem dinheiro

O que interessa eu ser feliz

Se sou um miserável Se sou humilhado

Silêncio das palavras

Silêncio

O vazio prisioneiro numa mão encharcada de amanhecer

Depois de uma noite de insónia

No cais transparente onde poisam barcos envergonhados

E gaivotas marrecas

Silêncio

Nas palavras

Silêncio

Das palavras Um corpo de homem evapora-se dentro de um cubo de vidro Na meia-noite de um relógio caquético Construído de sucata

Silêncio

Nas palavras

Silêncio

Das palavras

E envelhece o dia

Na algibeira da noite

E

o cubo de vidro desfaz-se em grãos de tristeza

O

vendaval entra pela janela

E

todas as palavras em silêncio

E

todas as palavras de silêncio

Adormecem no cais transparente

Onde poisam barcos envergonhados

E gaivotas marrecas

Cessam todas as luzes e cessam todas as palavras

Silêncio

Das palavras

Silêncio

Nas palavras

Solidão do desejo

O

teu sorriso

O

meu sorriso

A

tua boca e a minha boca

Perdidos numa cidade Esquecidos numa calçada Frente ao rio…

O

teu sorriso

O

meu sorriso

Duas sombras travestidas de saudade Abraçadas à solidão do desejo Os teus lábios nos meus lábios

O

beijo

O

teu sorriso

O

meu sorriso

À

sombra de uma árvore

Sentados no amor

A

contar gaivotas

E

desenhar no vento silêncios de prazer

O

teu sorriso

O

meu sorriso

Sílabas magoadas No poema de sofrer Porque o teu sorriso e o meu sorriso São duas sombras travestidas de saudade

Abraçadas à solidão do desejo.

Toque mágico

Um toque mágico

Um simples sorriso nos lábios Um toque mágico Quando o pôr-do-sol Se abraça à maré

E o mar galga montanha acima,

Oiço a tua voz seminua

Na claraboia do meu desejo

Oiço-te

E com um toque mágico

Um beijo poisa sobre as mãos trémulas da noite

E

o mar,

O

mar galga montanha acima

E

oiço-te

Entre a janela e o cortinado Oiço a tua voz seminua

A pedir-me um toque mágico…

Ao cair da noite.

Um país que se afunda

Há um país que se afunda De nome Portugal Há um povo corcunda De tanto imposto Com desgosto De ler no jornal Que o país Portugal Poderá chegar ao natal Mas não passará de agosto Há um país que se afunda De nome Portugal Há um povo corcunda Nas mãos de uma EU desgovernada Incompetente E contente Há um povo corcunda No Portugal que se afunda Sem culpa de nada…

Uma rua sem saída

A vida

Um milímetro quadrado de escuridão Uma rua sem saída Dentro da cidade solidão,

A vida

Um centímetro de nada

A vida na vida

Um milímetro quadrado de escuridão Perdido na madrugada

A

vida

O

pular do coração

Numa rua sem saída…

Ai esta minha vida sem madrugada

A vida

Um centímetro de nada

A minha vida

Uma pedra de calçada Que corre para o mar Ai esta minha vida sem madrugada Que não se cansa de chorar.