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ESTUDOS

CEDHAL

nova série -

n.

10

Família e vida doméstica

no

Brasil:

do engenho

aos

cafezais

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ESTUDOS CEDHAL - NOVA SÉRIE - n. 10

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Humanitas Publicações agosto/1999

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ISSN

ESTUDOS

CEDHAL

nova série - n.

10

Família

e vida doméstica

no Brasil:

do engenho

aos cafezais

1414-9419

Estudos CEDHAL • n . 10 • nova série • p. 1-54 • 1999

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1999 da Humanitas FFLCH/USP

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Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP Ficha catalográfica: Márcia Elisa Garcia de Grandi CRB 3608

Estudos Cedhal / Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina. Faculdade de Filosofia. Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. - - n. 1 (1986) - . - São Paulo: Humanitas / FFLCH/USP. 1986-

Nova Série a partir do n. 10 (1999)

ISSN 1414-9419

1. Demografia histórica I. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina

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e-mail: editflch@edu.usp.br Tel.: 818-4593

Editor

Responsável

Prof. Dr. Milton Meira do

Nascimento

Coordenação M . Helena G.

editorial

Rodrigues

Diagramação

M. Helena G.

Rodrigues

Capa

Walquir

da

Silva

Emendas Selma M . Consoli Jacintho

Revisão Jandira Albuquerque de Queiroz

CDD 304.6

1. Introdução

SUMÁRIO

2. A vida familiar nas plantações de cana

3. A família n a economia mineradora do século XVIII

4. A economia cafeeira e a família paulista n o século XI X

Bibliografia

Estudos

1.

CEDHAL

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FAMÍLIA

E VIDA

DOMÉSTICA

NO

BRASIL:

DO ENGENHO

AOS

CAFEZAIS*

INTRODUÇÃO

Eni

de Mesquita

Samara

o Brasil, desde o início da colonização, a família desempe- nhou u m papel fundamental, sendo possível entender melhor a nos- sa história po r meio desse rico viés. Sendo assim, é nossa inten- ção neste trabalho analisar as transformações que ocorreram na sociedade brasileira e também n a estrutura da família, em dife- rentes sistemas económicos, ao longo dos quatro séculos da His- tória do Brasil.

Na primeira parte, vamos focalizar as áreas de lavoura cana- vieira do Nordeste, durante os séculos XVI e XVII. Compunham esse cenário as famílias dos donos de engenhos, dos plantadores, dos agregados e dos escravos que, conjuntamente, formavam a socie- dade da época. Nesse universo, foi possível detectar diferentes pa- drões familiares que conviveram com o modelo patriarcal de famí- lia extensa.

Com o século XVIII, a mineração e a mudança do eixo econó-

mico para o Su l do país trouxeram novas realidades

para a vida

Este artigo contou co m a colaboração de Eliane Cristina Lopes e dos bolsistas CNPq : Janaina

Renato

Machado

Professora Associada do Departamento de História, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciên- cias Humanas da Universidade de São Paulo e Diretora do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina da Universidade de São Paulo, CEDHAL/USP.

Carneiro, Sandra Pinho Leite, Carolina Moreira do Vale, Fábio Borges de Aquino, Igor

de Lima e Regiane Augusto.

SAMARA.

£ni

de Mesqu/ta.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

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social e familiar brasileira. Com a urbanização, surgiu u m outro tipo de família, com u m caráter mais regional e democrático: a fa- mília mineira. Nessas paragens, era comum encontrarmos predo- minância de famílias nucleares, casais concubinados e filhos ilegí- timos. Era alto, também, o índice de solteirismo e o número de mulheres chefiando famílias.

Esse panorama, de algum modo, também se repetiu n a socie- dade paulista, durante o século XIX, especialmente nas áreas ur - banas. Ao lado disso, encontramos, nas zonas rurais cafeicultoras, um modelo de família patriarcal do tipo extenso, que, embora modi- ficado, era bastante semelhante ao da elite colonial canavieira.

Ê conclusivo, portanto, dizer que a família brasileira apresen- tou diferentes padrões quanto à estrutura e funcionamento ao lon- go do tempo, com diferenças marcantes por regiões, classes sociais e etnias.

Isso significa que o modelo genérico de estrutura familiar, denominado comumente de "patriarcal"e que serviu de base para caracterizar a família brasileira de modo geral, não pode ser consi- derado, a priori, como o único existente n a nossa sociedade.

Por outro lado, estudos e pesquisas mais recentes têm torna- do evidente que as famílias extensas do tipo patriarcal não foram as predominantes, sendo mais comuns aquelas com estruturas mais simplificadas e menor número de integrantes. Isso significa que a família apresentada por Gilberto Freyre, e m Cosa-grande e senzala, e descrita como característica das áreas de lavoura canavieira do Nordeste, foi impropriamente utilizada para identificar a família brasileira como u m todo.

Essa apropriação de u m conceito regional pela historiografia levou a que se fizesse um a ligação pouco pertinente entre família patriarcal e família extensa, que passou a ser sinónimo de família brasileira.

Com base nessa constatação, e entendendo ser mais especí- fico para o caso do Brasil trabalhar a questão n a perspectiva da pluralidade de modelos familiares, ê que pretendemos analisar os diferentes tipos de padrões existentes, buscando sempre resgatá- los a partir das transformações económicas que estavam ocorrendo do século XVI ao XIX.

8

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2.

A

VIDA

FAMILIAR

NAS

PLANTAÇÕES

DE

CANA

A descoberta do Novo Mundo insere-se no processo da expan- são comercial e da luta pela hegemonia entre as grandes potências da Europa, durante os séculos X V e XVI. Dessa forma, as Américas deveriam se organizar e funcionar economicamente, voltando-se para as necessidades dos mercados europeus. Era preciso que se produzissem mercadorias de alto valor comercial para exportar. Assim, no Brasil, implantou-se a grande lavoura, principal eixo da colonização, destacando-se, inicialmente, n a região Nor- deste, o açúcar. A introdução desse produto, n a Colónia, explica-se pela experiência anterior nas Antilhas e na Ilha da Madeira, aliada ao fato dos portugueses terem encontrado aqui as condições propí- cias para o seu cultivo. 1 Através da s sesmarias2, os donatários instalavam engenhos construídos com a ajuda de seus parentes próximos. Vale dizer que a Coroa Portuguesa concedia esses documentos a pessoas ligadas à nobreza, o u com posses suficientes para levar adiante o oneroso projeto da colonização. Dessa forma, os portugueses que aqui se instalaram aspira-

da Coroa n a legitimação tornaram-se abastados

senhores de engenho, donos de extensas regiões e formadores de famílias tradicionais. As grandes propriedades de terra eram conhecidas como fa- zendas o u roças, onde, além do cultivo de cana, havia a criação de gado e a agricultura de exportação, de produtos como gengibre e algodão. Nessas áreas de produção canavieira, as construções dis- tribuíam-se em três edifícios: a casa-grande, o engenho e a senzala e, frequentemente, a capela. Surgindo ao lado dos canaviais, a casa-grande, maior expres- são do latifúndio monocultor e escravista, constituía-se numa vas-

vam por títulos de nobreza e reconhecimento do se u status social. Nesse sentido, alguns

SCHWARTZ , Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo:

Companhia das Letras, 1988. p.

As sesmarias eram documentos de caráter medieval que encerravam a posse da terra recém-conquis-

tada.

31 .

9

SAMARA,

£ni

de Mesquita.

Família

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ta e sólida mansão térrea ou nu m sobrado de estilo sóbrio e im - ponente. Dispondo de beirais largos que faziam sombra sobre suas paredes de adobe e tijolo ou de pedra, com espessuras que variavam

de 50cm a

lm , era apropriada ao clima. Além disso, possuía va-

randas que protegiam contra a ação direta da luz e do sol. Azule- jos revestiam o interior, como o vestíbulo e o saguão, e os espa- ços vazios das fachadas, destinavam-se a defender a casa contra os ardores do clima. 3

O engenho era a porção que apresentava maiores proporções, pois abrigava todos os instrumentos necessários ã produção do açú- car. Muitas vezes, era repartido em vários edifícios, ora isolados ora contínuos. Assim, existia a casa da moenda, a casa das forna- lhas, a casa dos cobres, o tendal das forças, a casa de purgar e os galpões e áreas anexas. A senzala, por sua vez, era um a construção térrea que servia de moradia para os escravos. Estreitas e longas, não eram assoalhadas, sendo muitas vezes divididas em cubículos cobertos por telhas o u folhagens.

Olhando-se para a constituição e o funcionamento dessa empresa açucareira, podemos verificar a existência de duas partes distintas: a da plantagem da cana e a de seu beneficiamento, onde era transformada em açúcar. E m outras colónias portuguesas, a separação entre a plantação e a produção não existia. No Brasil, essa distinção não aparecia no século XVII, porém um a divisão pro- cessou-se ao longo da evolução da empresa agrícola açucareira, tor- nando possível um a especialização de funções.

Assim, houve o aparecimento de um a parcela significativa de indivíduos que se dedicavam ao plantio e à colheita da cana,

chamados de lavradores. Ser lavrador de cana era u m caminho para

a ascensão social, o que levava muitos colonos a adquirirem o u

arrendarem terras, objetivando o plantio da cana-de-açúcar. Os la- vradores não constituíam u m grupo social que concorresse com os senhores de engenho, eram um a gama variada de indivíduos pro- venientes de diferentes condições económicas e sociais, incluindo

1 AZEVEDO , Fernando. Canaviais e engenhos na vida política do Brasil. Ensaio sociológico sobre o elemento político na civilização do açúcar. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1958. p. 80. (Obras Completas, vol. XI) .

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desde grandes proprietários, bastante próximos dos detentores

dos engenhos, até roceiros e artesãos, que se aventuravam nos negócios do açúcar. E m sua maioria, no início do século XIX, cm Pernambuco, eram brasileiros de origem branca, pouco mescla- dos com mulatos. Entre 1680 e 1725, de 400 pessoas identifica-

das

como lavradores, apenas u m foi arrolado como pardo, no en-

tanto, já no final do século XVIII, em censos parciais de popula- ção, surgem menções a lavradores negros. 4

Entender o surgimento e a organização dessa camada da po-

pulação, além de ser importante para o estudo da economia do açú- car, revela que a polarização da sociedade colonial em duas catego-

rias fundamentai s - senhores e

uma gama variada de indivíduos que formavam grupos intermediá- rios, importantes para entendermos a complexidade social do Nor- deste açucareiro. 5

A hierarquia social da Colónia, por sua vez, estruturava-se de acordo com as posses: em primeiro lugar, vinham os senhores de engenho, donos do principal meio de produção; em seguida, apare- ciam aqueles ligados às atividades de agricultura e géneros de ex- portação e, por último, os camponeses que praticavam um a agri- cultura de subsistência. Encontramos, ainda, alguns trabalhadores autónomos, que se ligavam a essa economia agrícola comercial, como barqueiros, mercadores, artesãos, entre outros. Essa hierar- quia, por sua vez, explica o processo de formação de famílias nessa área e o tipo de trabalho que era executado nos distintos setores.

Em relação à produção do açúcar, teoricamente, era o senhor de engenho que cuidava desde o plantio da cana até a sua transfor- mação em melaço e "açúcar em barra" (rapadura), supervisionando todo o processo. Na prática, entretanto, era substituído pelo feitor- mor, devido à especialização que este possuía quanto ao plantio e à fabricação do açúcar.

Fazer o engenho funcionar, o u seja, "botar o engenho para moer" era u m ritual muito interessante: a casa-grande "enfeitava- se para os convidados a quem cabia, após o padre, lançar, ao lento

escravos -, n a verdade, escondia

4 FERLINI , Vera Lúcia Amaral . Terra, trabalho e poder.

5 Idem, p. 209.

11

São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 221 .

SAMARA,

Eni

de

Mesquita.

Família

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no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Escorria o

primeiro caldo que seria, dentro em pouco, o ferver da primeira meladura; enquanto o capelão, seguindo o crucifixo que levava o filho mais velho do senhor do engenho, ia aspergindo água benta e

latim, n a

'roxa'; da casa de bagaço vazia e varrida; do tendal o u da casa de

purgar

que arfava e bufava em respiros cadenciados e tudo movia, pare-

Benzia tudo" 6 . Os

escravos, por sua vez, recusavam-se a começar a trabalhar se não

ocorresse ta l

bebiam garapa antes de irem para a longa jornada diária da lavoura e do engenho.

O dia-a-dia nessas propriedades não era, entretanto, tão har- mónico e regrado. Muitos empecílios os senhores tiveram para começar a cultivar cana e produzir açúcar. Entre as muitas dificul- dades enfrentadas, principalmente pelos primeiros colonizadores, podemos destacar a carência de mão-de-obra. Diante disso, os nati- vos da terra foram utilizados, inicialmente, n a manutenção do en- genho. Não houve, entretanto, a interação esperada pelos portu- gueses por parte dos indígenas, o que levou à subsequente substi- tuição do braço índio pelo negro escravo. 7

Quanto a isso, sabemos que, para obter u m melhor apro-

cerimónia. Havia banquete n a casa-grande e esses

cendo u m cavalo a galope; caldeiras e bueiros.

Benzia cochos de cachaça; tachas; fornalhas; a máquina

bênção dos picadeiros, atestados de 'caiena', 'salangó' e

desenrolar das moendas polidas, as primeiras canas

veitamento e conseguir um a participação mais efetiva e lucrativa do indígena n a economia colonial, seja como fornecedor de ali- mentos, seja como trabalhador nos engenhos, os portugueses re- correram a três expedientes: a escravização, a aculturação e des- tribalização e a integração desses indivíduos como trabalhadores assalariados. 8 É importante ressaltar, entretanto, que essas es- tratégias não foram utilizadas de forma isolada e em tempos dis-

de modo a tirar

tintos. Foram aplicadas, sim, concomitantemente, maiores benefícios da mão-de-obra indígena.

6 AZEVEDO, Fernando, op. cit. p. 69-70.

7 Sobre o assunto ver: MONTEIRO , J . Os negros da terra: índios e bandeirantes nas origens. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

8 SCHWARTZ , Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos n a sociedad e colonial , op . cit .

p.45.

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O casamento foi outro recurso utilizado pelo Estado por- tuguês no sentido de integrar os indígenas às atividades dos en- genhos. Eram, portanto, permitidas as uniões entre índios livres, cativos e africanos, fossem ou não sacramentadas. Era um a forma de "moralizar" a vida nos plantéis, ampliando a disponibilidade de mão-de-obra.

Assim, as práticas matrimoniais indígenas foram preocupa- ção da Igreja durante muito tempo. Todo o esforço missionário con-

centrou-se em eliminar "as uniões poligâmicas a fim de transformá-

essas podiam servir

de base ao sacramento do matrimónio" 9 . Nesse sentido, não foram raras as vezes em que o casamento entre tios e sobrinhas, proibido pelas Leis Canónicas, era defendido pelos próprios jesuítas, quando conveniente para implantar a monogamia entre os índios.

Não podemos deixar de mencionar, também, algumas peculia- ridades da sociedade indígena e m relação ao convívio familiar. As- sim, um a de suas características marcantes era o forte sentido de coletividade, presente até mesmo nos momentos da escravização. Era frequente, portanto, famílias indígenas inteiras deslocarem-se, de acordo com as necessidades, para que permanecessem juntas no engenho. Desse modo, o chefe da família, uma vez escravizado, acar- retava a escravidão de sua esposa, filhos, irmãos e outros parentes.

Nessa sociedade, o trabalho das mulheres indígenas também foi bastante importante, uma vez que, n a divisão de papéis entre os sexos, as atividades produtivas, como a lavoura, eram de sua res- ponsabilidade. 1 0

las em uniões

monogâmicas, um a vez que só

Além desse, outro fator que podemos destacar em relação às índias é a sua participação no processo de miscigenação e de for- mação do povo brasileiro, sendo, no início da colonização, muito co- mu m a sua união com brancos e, posteriormente, com negros. Nesse sentido, a mulher gentia é, para Freyre, considerada a base física

da família brasileira. 1 1

* SILVA, Mari a Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. São Paulo: T. A . Queiroz/

Edusp,1984.p.31.

1 0 FREYRE , Gilberto. Casa-grande e senzala. Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 25. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987. p. 116.

11 Idem, p. 94.

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SAMARA,

fni

de

Mesquita.

E, se esse é u m aspecto bastante importante a ser conside-

a introdução d a mão-de-

rado n a formação da nossa sociedade,

obra escrava também foi fundamental, determinando a natureza das relações ali estabelecidas e, sem dúvida, influenciando a vida familiar.

Na verdade, esse conjunto de fatores provocou a instalação de um a sociedade do tipo paternalista, onde as ligações de cará- ter pessoal assumiram vital importância. A família patriarcal era a base desse sistema mais amplo e, por suas características quan- to à composição e ao relacionamento entre seus membros, esti- mulava a dependência da autoridade paterna e a solidariedade entre os parentes. 1 2 E não apenas as relações familiares dos gran- des proprietários rurais foram influenciadas por isso, ma s tam- bém, as famílias de seus agregados e escravos.

Os estratos inferiores agrupavam-se em torno dos senhores

rurais, pois assim poderiam viver com segurança e tranquilidade u m a vez qu e a riqueza, o poder, o prestígio e a su a força material os protegia contra arbitrariedades e injustiças. Formavam-se, assim, os chamados clãs rurais, com indivíduos ligados diretamente à ati- vidade canavieira, pequenos proprietários, vendeiros, comercian- tes das aldeias, mestres de ofícios, e outros que buscavam amparo

junto aos senhores de

No topo dessa hierarquia social, os senhores de engenho pro- jetavam um a imagem de nobreza e ostentação, sustentada princi- palmente pelo controle latifundiário e pela posse de escravos. Des- sa forma, ditavam os padrões sociais n a Colónia e procuravam vi - ver como fidalgos da corte portuguesa, usando vestuário luxuoso e adornos, com os quais até mesmo as escravas se enfeitavam. Sobre este assunto Frei Manoel Callado, observando a vida na alta camada da sociedade brasileira, escreveu: "as damas são tão ricas nas vestes e nos adereços, com que se adornam, que parecem 'chovidas em suas cabeças e gargantas as pérolas, rubis, esmeral-

engenho. 1 3

1 2

SAMARA , En i de Mesquita, k família brasileira.

História, 7 l).p . 10.

São Paulo: Brasiliense, 1983. (Coleçâo Tudo é

" VIANNA , Oliveira. Populações meridionais do Brasil: história, organização, psicologia. Bel o Hori - zonte/Niterói: Itatiaia/EDUFF, 1987.

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das e diamantes. Os homens não havia adereços custosos de es- padas e adagas, ne m vestidos de novas invenções com que se

não ornassem." 1 4 Procuravam, desta maneira, derio e um a "suposta superioridade" diante

da população da Colónia. Criticando essa suntuosidade da aristocracia rural brasilei- ra, Gilberto Freyre diz que eram habituais "grandes comezainas

por ocasião das festas; mas nos dias comuns, alimentação deficien- temente, muit o lorde falso passando até fome. Tal era a situação de grande parte da aristocracia e principalmente da burguesia colonial brasileira e que se prolongou pelo tempo do Império e da República. O mesmo velho hábito dos avós portugueses, às vezes guenzos de fome, ma s sempre de roupa de seda o u veludo, dois, três, oito escravos atrás, carregando-lhes escova, chapéu-de-sol

e pente" 1 5 .

contrapartida a essa suntuosidade das vestimentas e ade-

demonstrar seu po- de outras parcelas

Em

reços, os senhores não possuíam muito conforto doméstico. O mo- biliário era reduzido, sendo os móveis de formas retangulares e ro- bustas. Os mais importantes motivos decorativos não eram qua- dros, raríssimos nesse período, mas sim almofadas, tapetes de lãs e tecidos de seda.

Além do mais, a sociedade colonial, em sua maioria, era muito mal alimentada, um a vez que "tudo faltava: carne fresca de boi,

aves, leite, legumes, frutas (

téis

O pão foi novidade introduzida durante o século XIX. O

cardápio habitual dos tempos coloniais era "beiju de tapioca ao al- moço, e ao jantar a farofa, o pirão escaldado o u a massa de farinha de mandioca feita no caldo de peixe e de carne" 17 .

).

Fartur a só a de doce, geléias e pas-

"1 6 .

Idem, p. 24. FREYRE , Gilberto . Casa-grande e economia patriarcal, op. cit. p. 441. Idem, p. 39. Idem, p. 459.

senzala.

Formação d a família brasileira sob o regime da

15

SAMARA,

Fni

de

Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Gravura 1: O jantar

Fonte: DEBRET, Jean Baptist. Viagempitorescae

histórica ao Brasil. Trad. Sérgio Milliet.

2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1949. Prancha 164/7 e 8.

Nesse cenário que mesclava ostentação e simplicidade, ca- bia ao patriarca da família aristocrata exercer u m controle paternalista sobre os membros consanguíneos, demais dependen- tes, escravos e agregados. Devia-lhes proteção, que retribuíam com lealdade e obediência, já que o núcleo familiar congregava paren- tes distantes de status inferior, filhos ilegítimos, agregados, afilha- dos, escravos, todos assentados na grande propriedade fundiária, sobre a qual o senhor de engenho exercia poder e autoridade. 1 8

de vida

senhorial. Frequentemente, era o ponto de apoio para ampliar re- lacionamentos na política e na economia. Com o ideal patriarcal fortemente arraigado, família, nesse momento, implicava autori-

dade e hierarquia.

A família era, portanto, a pedra angular do modo

1 8

VIANNA , Oliveira . Populações

p.49.

meridionais

do Brasil:

16

história, organização, psicologia,

op.

cit .

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Apesar de destinada ao papel da submissão, a mulher bran- ca era elemento importante da estratégia familiar, compartilha- va do status do marido, dentro dos limites impostos pela socie- dade colonial. Exercia, igualmente, o controle doméstico dentro da casa-grande, responsabilizando-se pela honra da família, uma vez que esse conceito vinculava-se à conduta moral feminina.

Assim, enquanto as mulheres eram o principal elemento da

formação e perpetuação dos valores familiares, a propriedade era

a base da sobrevivência da linhagem. Propriedade e família esta-

vam, portanto, intimamente vinculadas à concepção do engenho, uma vez que todos os acontecimentos sociais, económicos e reli- giosos ocorriam dentro dos limites do próprio latifúndio. 1 9 Da nutenção da família dependiam a manutenção da linhagem e da propriedade.

A família patriarcal, portanto, bem como as inúmeras rela- ções que surgiam ao seu redor, constituía o contexto no qual se apresentava a propriedade e, desse modo, os conflitos relativos à posse de bens, que surgiam entre parentes, prejudicavam, em muito,

a sociedade rural. E m tais disputas, os ideais de família e sociedade eram postos em confronto direto com a base económica. Dessa for- ma, "ao sentirem aproximar-se a morte, pensavam os senhores nos HCUS bens e escravos em relação com os filhos legítimos, seus des- cendentes; os testamentos acusam a preocupação económica de perpetuidade patriarcal através dos descendentes legítimos" e mui - lu» vezes de seus descendentes ilegítimos. 2 0

ma-

'*

S( 'IIWARTZ ,

Slunrt. Segredos

internos:

engenhos e escravos na

sociedade colonial, op. cit. p. 243.

"'

l'UI!YUIi ,

Gilberto. Casa-grande

e senzala,

op. cit. p.436.

17

SAMARA,

Eni

de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Gravura 2: Um empregado do governo Fonte: DEBRET, Jean Baptist. Viagem pitoresca

saindo de casa com sua família e histórica ao Brasa. Trad. Sérgio Milliet.

2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1949. Prancha 2/5.

A principal preocupação dos senhores de engenho quanto à

propriedade era a sua manutenção, sentimento presente, essen- cialmente, no momento da herança. Nos casamentos por "dote e

arras", marido e mulher mantinham, separadamente, os bens com

a

qual entravam na união. Isso, entretanto, foi mais raro no Brasil.

O

que vigorou, preferencialmente, foi a comunhão de bens, onde

u m dos cônjuges, caso o outro viesse a falecer, ficava com a metade

da propriedade, excluída a terça.

O restante dos bens dividia-se da seguinte forma: dois terços

repartidos em partes iguais entre os filhos, desde que legítimos o u legitimados. Na ausência destes, eram beneficiados outros des- cendentes o u ascendentes e, por último, o Estado. A terça restan-

te podia ser legada em testamento, segundo a vontade do testador.

Eram dessas parcelas que saíam os donativos beneficentes, as alforrias de escravos e o favorecimento de u m filho ou afilhado.

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Como se pode perceber, ta l sistema não permitia maior flexibili-

dade n a repartição da herança e essa necessidade

mente, a propriedade entre os herdeiros sempre ameaçava a sua integridade. Nesse contexto, o casamento era um a estratégia importante, pois através dele era possível aumentar os bens e ascender social-

mente. Por isso, os senhores de engenho escolhiam os maridos para suas filhas baseados, principalmente, no princípio de igualdade pre- gado pelos moralistas da época. D. Francisco Manuel de Melo, em sua Corta de Guia de Casados dizia qu e "um a das cousas, qu e mais podem assegurar a futura felicidade dos casados, é a pro- porção do casamento. A desigualdade no sangue, nas idades, na fazenda, causa contradição; a contradição discórdia" 21 . Apesar dessa preocupação, n a prática, a desigualdade era co- mu m e mesmo aceitável. Era frequente encontrar mulheres jovens casando-se com homens muito mais velhos e comerciantes pobres unindo-se a moças abastadas, na falta de pretendentes à altura. Algumas vezes, entretanto, surgiam sinais de insatisfação nesses

parentes não hesitavam em re-

relacionamentos, sendo que "

correr à autoridade do governador para impedir tais enlaces" 22 . Nas famílias senhoriais era muito comum o laço endogâmico, concretizado a partir de casamentos entre primos de várias gera-

de dividir, igual-

os

ções o u de parentescos por afinidade, contraídos em batismos, cris- mas e casamentos. Uniões como essas e entre membros de dife- rentes famílias abastadas contribuíam para aumentar o patrimônio. Esse costume era tão visível nas famílias patriarcais do Nordeste canavieira que a viajante Maria Graham notou-o e concluiu que:

têm "

o seu lado ma u nos constantes casamentos entre parentes

próximos como tios e sobrinhas, tias e sobrinhos etc, de modo que os casamentos em vez de alargar as ligações, difundir a proprieda- de e produzir maiores relações gerais no país, parecem estreitá- las, acumular fortunas e concentrar todas as afeições nu m círculo fechado e egoísta" 23 .

2 1 MELO , D . Francisco Manoel de. Carta de Guia de Casados. Lisboa: Officina Croefbecchiana, 1651.

2

1

p.8.

SILVA , Mari a Beatriz Nizza da. Sistema

" GRAHAN , Maria. Diário

de uma viagem

de casamento

no Brasil

colonial,

op . cit. p. 69 .

ao Brasil.

São Paulo: São Paulo-Editora, 1956. p. 253 .

19

SAMARA

Eni

de

Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

A complexidade dessas relações na sociedade do açúcar, e

na colonial brasileira como u m todo, deu

rais", praticados tanto por homens quanto por mulheres. Aos ma- ridos eram permitidas relações extra-conjugais de qualquer es- pécie, seja com outras mulheres de sua mesma condição social, seja com suas escravas. Apesar da honra da família patriarcal estar vinculada com a virtude das senhoras, estas, muitas vezes, também cometiam adultério. Quando esse crime ocorria e era descoberto, a mulher poderia receber, legalmente, a morte pelas mãos do marido ultrajado. O adultério masculino, por sua vez, não era condenado pela sociedade, sendo um a prova de masculi - nidade. Assim, não podendo voltar suas frustrações sobre seus maridos, muita "sinhá" castigava as escravas que, porventura, se envolvessem com eles. Tais castigos implicavam em surras, maus tratos, humilhações, mutilações e, até mesmo, assassinato. Dessas uniões, consideradas "ilícitas", assim como o concu- binato, as ligações transitórias e a prostituição, nasciam filhos ile- gítimos que aumentaram a complexidade dessa sociedade. A Igreja Católica exigia que fossem batizados e, geralmente, tinham como padrinhos homens brancos, o que proporcionava, de certa forma, uma maneira de conquistar, futuramente, mais prestígio e ascen- são social.

Ávid a das crianças legítimas, por sua vez, transcorria junt o à família, desde que essa tivesse condições para criá-las. No entanto, a infância era u m período curto da sua existência. Sabemos, por descrição de viajantes, que por volta dos nove anos, estas crianças perdiam parte de sua vivacidade e espontaneidade, tornando-se ver- dadeiros adultos em miniatura, com olhares tristes e vestimentas soturnas. Para a elite, em dias de festas o filho "devia apresentar-se de roupa de homem; e duro e correto, sem machucar o terno preto em brinquedo de criança. Ele que em presença dos mais velhos devia conservar-se calado, u m ar seráfico, tomando a bên- "

margem a "desvios mo-

ção a toda pessoa que entrasse em

casa

2 4 .

2 4

FREYRE , Gilberto, op. cit. p. 420.

20

Estudos

CEDHAL

-n.

10-

nova série -

1999

Os pais exigiam que os filhos se dirigissem a eles chaman- do-os de "senhor pai" e "senhora mãe" e a obediência e respeito deveriam ser totais. Assim, somente "depois de casado arriscava-

se o filho a fumar em presença do pai; e fazer a primeira barba era cerimónia para que o rapaz necessitava sempre de licença espe- cial. Licença sempre difícil, e só obtida quando o buço e a penu-

gem da barba não admitiam mais

A educação dos filhos, quer legítimos ou ilegítimos, muitas

vezes não passava de rudimentos referentes à leitura, escrita e

aritmética. As primeiras aulas ocorriam em casa e eram ministra-

das, em geral, por u m clérigo ou u m parente próximo. Com

quência, a educação das meninas encerrava-se neste ponto. Um tradicional provérbio pode muito bem ilustrar essa questão, como observou o viajante Charles Expilly, "uma mulher já é bastante instruída, quando lê coerentemente as suas orações e sabe es- crever a receita de goiabada. Mais do que isso seria u m perigo para o lar" 2 6 .

Os meninos, quando chegavam à adolescência, iam para os colégios jesuítas, onde aprendiam Teologia e Latim, entre outras matérias. Como no Brasil, durante os séculos XVI e XVII não existia nenhuma universidade, os rapazes que quisessem avançar em seus estudos deveriam partir para Portugal.

E se esse era o quadro mais característico das famílias da

elite colonial brasileira, não podemos deixar também de mencio- nar que outras formas de organização familiar conviviam com esse modelo e integravam a nossa sociedade. É o caso das famílias dos agregados 27', dos plantadores de cana e mesmo dos escravos.

propriedade

do senhor de engenho, sendo, algumas vezes, formadas por mu - lheres solteiras com filhos. Era comum estas ajudarem nos servi- ços domésticos na casa-grande, ficando os homens, por sua vez,

demora" 2 5 .

fre-

Sabemos que famílias inteiras agregavam-se à

2 5

Idem, p. 421.

2 6 EXPILLY , Charles . Mulheres e costumes do Brasil. São Paulo: Cia . Ed . Nacional , 1935. p. 401 . 2 7 Os agregados eram homens livres e sem propriedade que não fora m integrados na produção mercantil propriamente dita, mas mantinham ligações co m o sistema, contribuindo e m parte para o seu sustento. Ver: SAMARA , Eni de Mesquita. O papel do agregado na região de Itu-1780 a

1830. In : Coleção p. 13-121.

Museu

Paulista.

Série História. São Paulo: Muse u Paulista/USP,

21

1977, v.

6.

SAMARA, £ni de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Estudos

CEDHAL

-n.

10-

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1999

responsáveis pela proteção das fazendas. Casados ou solteiros,

sozinhos o u acompanhados por outros

cravos próprios, esses elementos eram incorporados no dia-a-dia do núcleo doméstico, estando presentes nos momentos de defe- sa armada, nos desentendimentos e disputas políticas.

Como fenómeno socialmente aceito, a família agregada apa- rece, portanto, n a periferia da família patriarcal, gozando, muitas vezes, de um a situação privilegiada ou apenas "morando de favor". Qualquer que fosse a condição, entretanto, era certo que desenvol- via laços de serviços mútuos e de solidariedade, que resultavam

em auxílio, defesa e lealdade. 2 8

A partir disso, podemos dizer que os agregados desenvolviam dois tipos de relações familiares: as do tipo patriarcal, por participa- rem da família do proprietário, e as não-patriarcais, travadas den- tro de seu próprio núcleo familiar. A organização doméstica desse grupo, bem como a dos lavradores de cana, pautava-se, sempre que possível, pela complexidade, organização e estabilidade de relacio- namentos existentes n a família dos senhores de engenho. Essa era uma meta, u m modelo a ser atingido, mas que, n a maioria das vezes era prejudicado pelas dificuldades de casamento, a vida ins- tável e a precariedade das condições económicas.

espelharem n a família do se-

nhor, a falta de condições económicas, a instabilidade e a mobilida- de espacial dos agregados reduziam as possibilidades de uniões es- táveis, dando origem a outras formas de organização de famílias e domicílios.

Entretanto, quando aumentavam o patrimônio, desenvolviam padrões semelhantes aos estratos sociais mais altos, mostrando

uma possível correlação entre a base económica e o tipo de famí-

parentes, com o u sem es-

Isso significa que, apesar de se

lia. 2 9 Nesses

e muitos apresentavam relações de parentesco, amizade ou tra- balho com o dono da propriedade. Eram famílias de filhos casados o u viúvos, principalmente filhas, que continuavam morando com o pai, proprietário e senhor do engenho.

casos, geralmente, possuíam seus próprios escravos

Na sociedade patriarcal, os escravos podiam, também, ser

considerados um a extensão da família. E os

paravam-se co m um a série de obrigações, pregadas pelos religio-

sos, para que tratassem be m os seus cativos. Segundo J . Bencl,

clérigo jesuíta, "Missionário da Província do Brasil", essas obriga- ções traduziam-se em: Pão, Doutrina, Castigo e Trabalho. Pão para que não pereçam no seu fardo de cativo; Doutrina para encami- nhá-los no Be m e nos preceitos da Santa Madre Igreja Católica; Castigo para que não se habituem a errar com frequência e Tra- balho para que mereçam o Pão e não vivam n a ociosidade, prati-

cando más ações. 3 0

Mas, diferenças de tratamento existiam e estavam ligadas, principalmente, ao ambiente de trabalho. Os serviços internos eram mais amenos e os escravos que se ocupavam da casa pos- suíam um a vida melhor do que aqueles que trabalhavam n a roça. Charles Ribeyrolles, descrevendo os escravos responsáveis pelo serviços da casa-grande, dizia que "cada qual te m seu ofício, por curtas empreitadas. Tem suas distrações, suas intrigas, seus co- lóquios. E quando os senhores dormem, o que acontece frequen- temente, eles bocejam ou tagarelam. Vestem-se e comem me- lhor, são menos vigiados no trabalho do que muitos civilizados Pertencem ao castelo" 3 1 .

Os escravos que trabalham n a lavoura, "durante os três me- ses de moagem da cana e fabricação do açúcar, junho, julho e agosto e algumas vezes setembro, labutam dia e noite. Revezam- se de quatro em quatro horas, e somente os mais fortes se em- "

3 2 . Vestiam-se "com calças e

pregam no

camisas de algodão lavadas todas as semanas e renovadas duas ou três vezes ao ano. As mulheres recebem saias do mesmo pano,

e ainda, conforme o sexo, distribuem-se roupas de lã, camisas o u

camisolas. Tudo isso traz a marca e o número da matrícula" 3 3 .

senhores católicos de-

serviço das caldeiras

engenho

era quem mais impunha dificuldades. Era comum, portanto, que

Quanto à formação da família escrava, o senhor de

"'

BENCI , J. Economia

cristã dos senhores

no governo

dos escravos.

São Paulo: Editorial Grijalbo, 1977.

"

RIBEYROLLES , Charles. Brasil pitoresco: história, descrição, viagens, colonização, instituições.

2

8

Idem, p. 87.

1 2

2

9

Ibidem, p. 85.

"

Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1980. v. 2. p. 50. Idem.

Idem.

22

23

SAMARA, £ni de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

restringissem o universo social do cativo, mantendo-o n a fazenda o máximo possível. Isso limitava as oportunidades desses indiví- duos constituírem família, em decorrência da carência de parcei- ros e da presença de parentes consanguíneos. Assim, "o poder do proprietário podia expressar-se no impedimento às uniões, de- signações de parceiros, determinação da época do casamento e,

em última análise, n a

dificultava a formação da família escrava era a desproporção en- tre os sexos: u m grande número de homens para poucas mulhe- res.

Além disso, os senhores evitavam colocar numa mesma sen- zala, escravos que pudessem estabelecer alianças, dificultando a eclosão de revoltas dentro de seu engenho. Uniam, então, negros <le tribo s inimiga s e de línguas diferentes, be m como distancia - vam ao máximo mães, filhos e parentes próximos. Todavia, como os engenhos localizavam-se perto un s dos outros, durante a sa- fra, era comum que cativos de propriedades vizinhas se encon- trassem e com eles estabelecessem relações afetivas, tanto de amizade e companheirismo, quanto conjugais.

contra a união

separação das famílias" 3 4 . Outro fator que

Um dos maiores argumentos dos senhores

dos escravos era a promiscuidade sexual dos cativos, que os im - pediria de respeitar o casamento monogâmico. Quanto a isso, o esforço dos religiosos era incessante n a defesa do matrimónio le- gal. Para o jesuíta Benci, esse sacramento era sacro, pois conce- dia aos homens a reprodução da espécie, devendo, portanto, ser realizado mesmo sem a autorização do senhor. 3 5

Porém, antes de receberem esse sacramento, os escravos eram obrigados a se batizarem, convertendo-se ao Catolicismo. Muitas vezes, também acontecia de o senhor vender u m dos côn- juges para impedir que esses permanecessem unidos, o que era igualmente condenável aos olhos da Igreja, tendo em vista a in - dissolubilidade do casamento e a ação dos próprios senhores que, agindo desta forma, não permitiam que os escravos vivessem de maneira digna dentro do seio familiar.

Estudos

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nova série - 7999

Uma vez batizados e casados, os negros adotavam o nome de família dos senhores brancos, o que, para Gilberto Freyre, deve- se à "influência do patriarcalismo, fazendo os pretos e mulatos, em seu' esforço de ascensão social, imitarem os senhores bran-

Gravura 3: Casamento de negros de um a casa rica Fonte: DEBRET, Jean Baptist. Viagem pitoresca e histórica ao Brasa. Trad. Sérgio Milliet. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1989. Prancha 15.

No entanto, apesar dessas dificuldades, a historiografia re- cente mostra-nos que, ao longo do tempo, o escravo conseguiu cons- tituir famílias, com estrutura e laços duradouros, que resistiram à pressão das imposições dos proprietários. 3 7 Nesses casos, cor e ori- gem foram fatores que influenciaram os padrões de seleção de matrimónio entre os africanos. 3 8 Assim, os escravos nascidos no

 

FREYRE , Gilberto. Casa-grande

e senzala,

op . cit. p. 451 .

Ver MATTOSO , Kátia. Família

e sociedade

na Bahia

do século XIX. São Paulo/Brasília: Corrupio/

SCHWARTZ , Stuart. Segredos

internos:

engenhos

e escravos na sociedade colonial , op . cit .

CNPq, 1988.

p.314.

SCHWARTZ , Stuart. Segredos

internos:

engenhos

e escravos na sociedade colonial , op . cit .

BENCI , J. Economia

cristã

dos senhores

de engenho

no governo

dos escravos,

op . cit . p . 102.

p. 320.

24

25

SAMARA,

fni

de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Brasil preferiam casar com aqueles aqui já nascidos, embora se unissem também com africanos. Por tratar-se de um a sociedade hierárquica, onde eram pre- servados status, dignidade, riqueza, raça e condição, os casamen- tos mistos não ocorriam com muita frequência. E m decorrência disso, a miscigenação pode ser entendida como u m processo pa- ralelo que ocorria através de uniões esporádicas e de concubina- tos, que formavam outros tipos de famílias e descendências, ao lado das patriarcais, mais comuns entre os brancos proprietários.

Contudo, esse tipo de família, apoiada no modelo ideológico da

colonização, ditou as normas de conduta e de relações sociais a

serem seguidas, o que nos leva a

estabelecer um a estreita relação

entre a economia canavieira do Nordeste brasileiro nos século XV I e XVII, baseada no latifúndio e n a escravidão, e a formação da famí- lia patriarcal.

3.

A

FAMÍLIA

NA

ECONOMIA

MINERADORA

DO

SÉCULO

XVIII

Metais preciosos sempre foram fonte de atração, o que resul- tou em migração interna nas colónias e também em imigração dos "filhos do Reino". Nas fases de descoberta e desenvolvimento da ati- vidade, as chamadas áreas das "Gerais" atraíram contingentes po- pulacionais significativos, que buscavam, além do trabalho, aven- tura e enriquecimeto fácil. Ser minerador exigia, entretanto, tena- cidade, conhecimento de técnicas e disciplina no dia-a-dia do tra- balho, favorecendo, ao mesmo tempo, ambições pessoais e aspira- ções de mobilidade social.

Assim, durante os 60 primeiros anos do século XVIII, a corri-

da do ouro provocou, na Metrópole, a saída de

600.000 indivíduos, em média anual de 8 a 10 mil. E m 1770, cerca

aproximadamente

de 30 mi l pessoas ocupavam-se em atividades mineradoras, agríco- las e comerciais, sem falar dos escravos vindos da África e das zonas açucareiras em retração. 3 9

SOUZA , Laura de Mell o e. Os desclassificados

do ouro.

26

Ri o de Janeiro: Graal, 1982. p. 24 .

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Os bandeirantes iniciaram a conquista deste território, sen- do, portanto, os precursores nas terras mineiras. Essas, anterior- mente apenas ocupadas pelos índios, ao final do século XVIII, desdobraram-se em centros urbanos e trouxeram um a intensa ocupação quando ouro e diamantes foram descobertos. 4 0

A mineração pode ser dividida, então, em três períodos, defi-

nidos como expansão (1695-1726), estabilidade (1727-1753) c declínio (1753 em diante). 4 1 Durante os primeiros tempos, o fluxo migratório foi intenso e o contigente populacional era tanto luso quant o nativo. A extração era feita, inicialmente, ao longo dos rios, não acarretando grandes investimentos e nem tentativas de fixar moradias.

E m função

desse tipo de economia, que visava apenas a ex-

ploração, os mineradores esbarraram em sérios problemas de abas- tecimento para suas necessidades básicas. O ouro, facilmente en- contrado n o leito dos rios, chamado ouro de aluvião, atrai u parcela considerável de indivíduos para a região. Era necessário, portanto, haver alimento para todos.

A área, no início, era pouco habitada, carecendo de qualquer

infra-estrutura para prover a população, que aos poucos foi, natu- ralmente, estabelecendo-se ao redor dos veios fluviais. Os meios de comunicação e de locomoção eram extremamente precários, che- gando a ocasionar surtos de fome. Esse fato criou alguns impasses, levando os mineiros a saírem em busca de alimentos, o que prova- velmente ensejou novas descobertas. 4 2

Apesar de tudo isso, o desenvolvimento da atividade mineira transformou, radicalmente, o espaço n a região das Minas Gerais. Impulsionados pela necessidade administrativa e fiscal da metró- pole, edifícios públicos e ativo crescimento urbano foram implan- tados, marcando, significativamente, este período. 4 3

MATTOS , Odilon Nogueira de. A Guerra dos Emboabas. In: HOLANDA , Sérgio Buarque de (org.).

História

RAMOS , Donald. Mulhe r e família e m Vil a Rica de Ouro Preto: 1754-1838. Revista Estudos Económi- cos. São Paulo: IPE/USP, 1988. COSTA , Iraci De l Ner o da; LUNA , Francisco Vidal . Minas Colonial: economia e sociedade. São Paulo: Pioneira, 1982. p. 1-30.

op. cit. p. 297 .

Geral

da Civilização

Brasileira,

SOUZA , Laur a de Mell o e. Os desclassificados do ouro. op . cit .

27

SAMARA

Eni

de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Todas essas mudanças económicas deslocaram o eixo de comando da Colónia, fazendo com que o Nordeste açucareiro per- desse sua hegemonia. Minas, em 1720, tornou-se independente da capitania de São Paulo e a capital colonial transferiu-se, em 1763, da Bahia para o Rio de Janeiro, já que o pólo financeiro estava n a região mineradora.

O crescimento

populacional nas Minas foi sentido,

princi-

palmente, pela necessidade de aquisição de mão-de-obra

escra-

va, essencial

mente, o maior responsável pelo acúmulo de riqueza de senhores.

Assim, podemos dizer que, n a América Portuguesa, os se- nhores do ouro recorreram ao braço escravo. Porém, isso não sig- nifica que houvesse um a ordem interna única e maior simplifica- ção nas categorias sociais. Ao contrário, a mineração n a colónia brasileira foi u m fato dinâmico, atraindo populações das mais va-

riadas origens

na, com um a estrutura complexa de trabalho. No século XVIII, a elite da terra dedicava-se a explorar ouro, mas também tinha ne- gócios diversificados, fazenda e criação. A preferência pelo cativo deveu-se ao sistema implantado e à afluência de mão-de-obra

africana para a área. Testemunhos do início do século XVIII, como o de Antonil,

são ricos e m descrever esse universo e também os tipos sociais atraídos para essas localidades: afirmava esse viajante que "cada ano, vem nas frotas quantidade de portugueses e de estrangeiros, para passarem as minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos, pretos e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura de toda a condição de pessoas:

homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares, clérigos e religiosos de diversos institutos

muitos dos quais não tem no Brasil convento

meio utilizado para a extração mineral e,

provavel-

alguns

e provocando a instalação de um a sociedade urba -

nem casa" 44 .

Os trabalhos nessa área não exigiam grande habilidade téc-

nica, e de imediato o ouro foi retirado dos rios com

aparelhagem

4 4

ANTONIL , André João. Cultura p. 263-264.

e opulência

do Brasil.

28

2. ed. São Paulo: Cia . Ed . Nacional, s/d.

Estudos

CEDHAL

-

n.

10 -

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1999

mínima, dependendo o resultado da quantidade de escravos. Com

a escassez do produto, abriram-se catas nos tabuleiros e logo os

exploradores começaram a subir pelas encostas dos morros. As tarefas empreendedoras que o ouro de montanha exigia revela- ram-se incompatíveis com o nomadismo dos primeiros tempos c, já no final da segunda década do séc. XVIII, organizava-se a so- ciedade, com um a estrutura bem mais definida. Mineradores le- vantaram seus casarões e estruturaram os povoados. 4 5

onde igual-

mente se fixava o comércio. 4 6 As habitações eram de pau-a-pi- que, com telhados de folhagens (palmeira, sapé ou palha). Com

o desenvolvimento e enriquecimento da região, as paredes das

casas foram rebocadas por dentro e por fora, pisos de madeira ou pedra foram colocados e telhas substituíram os telhados de

Esses povoados surgiam em torno de capelas,

sapé.

Varandas e sacadas foram requintes que vieram mais tar-

de. 4 7

Ao mesmo tempo que essas transformações se processavam

na arquitetura, a produção bruta de ouro foi elevada, sendo a região das Minas responsável por 70 % da produção da colónia, no século

XVIII. O sistema colonial, por sua vez, co m o fisco, a tributação so-

bre os escravos, o sistema monetário implantado e as importa- ções, consumiu a maior parte dessa riqueza, convivendo sempre com u m saldo financeiro bastante negativo.

Estudiosos têm apontado para o caráter específico da for- mação mineira, em comparação com outras áreas da colónia bra- sileira nessa época. Vida urbana, diversificação de atividades, pre- sença mais forte do Estado, maior flexibilidade social, criação de redes económicas integradas com interdependência regional e for- mação de mercado interno, seriam, portanto, as principais carac- terísticas dessa região.

determinante

para a concessão de terras para a exploração mineral. Aos propri-

Nesse contexto,

o escravo era considerado

4 5

COSTA , Iraci De l Ner o da; LUNA , Francisco Vidal . Minas Colonial:

economia e

sociedade, op . cit .

p. 14 em diante.

4 S

LIM A JÚNIOR , Augusto de. A capitania

das Minas

Gerais.

Bel o Horizonte/São Paulo: Itatiaia/

Edusp, 1978. p. 75.

4

7

BOXER , C. RA Idade de Ouro do Brasil. São Paulo: Cia . Ed. Nacional, 1963. p. 60.

 

29

SAMARA

Eni

de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

etários com doze escravos o u mais, concedia-se um a data intei-

ra 4 8 e os que possuíam menor

ças e meia por cativo. Nas análises estatísticas dos arraiais mineiros, predomina- vam os proprietários de poucos escravos, sendo mais raros os se- nhores de grandes escravarias. Nesse conjunto, chama a atenção o

forro como dono de outros cativos, indicando maior possibilidade de sair do cativeiro, por liberdade concedida ou comprada com pecúlio próprio, aos poucos acumulado no trabalho das minas. Na cidade mineira de Vila Rica, em 1804, por exemplo, a pre- sença de escravos estava registrada em 40,9 % dos domicílios. Os agregados, por sua vez, apareciam em 29,6%. Computando-se os lares que abrigavam escravos ou agregados, encontramos a cifra de 54,4%. 4 9

número teriam direito a duas bra-

A relação senhor-escravo nesse contexto era, muitas vezes,

mais flexível, pois o primeiro, sem dúvida, dependia da boa vontade

do cativo n a

contrado. Por outro lado, a vida urbana e a concentração de habi-

origens variadas tornava o ambiente n a região mais pro-

pício aos desvios de conduta do que à obediência da norma. E, para

conter os "excessos", Igreja e Estado não pouparam esforços.

Esse conjunto de fatores refletiu nos padrões demográficos, no aumento da pobreza e no desenvolvimento de formas alternati-

tantes de

descoberta e n a honestidade em entregar o ouro en-

vas de trabalho e de organização dos domicílios. Solteirismo, concu-

binato, ilegitimidade e u m número

fiando famílias passaram a compor o quadro social desse período,

significativo de mulheres che-

em Minas Gerais.

A partir desse panorama socioeconómico, é bastante fácil com-

preendermos que a vida nessa região transcorreu, essencial- mente, nas cidades. Dessa forma, a estrutura familiar patriarcal de moldes extensos, bastante presente no Nordeste açucareiro, apareceu muito pouco, apresentando-se somente entre as famí- lias abastadas. Dentre os mais pobres e remediados, predomina-

4 8 Data era uma extensão fixa de terra concedida para a exploração mineral . 4 9 COSTA , Iraci De l Ner o da. Vila Rica: população (1719-1826) . São Paulo: IPE/USP, 1979. p. 164-

165.

30

Estudos

CEDHAL

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10-

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1999

vam unidades simples e nucleares. Mas, mesmo assim, podemos

dizer que a formação social mineira caracterizou-se pela igualda- de, constituindo famílias com baixo índice de miscigenação nos casamentos, tornando a mesclagem de raças e grupos socioeconómicos u m processo paralelo.

A grande quantidade e diversidade da população propicia-

va essas relações, consideradas pecaminosas pela Igreja. Assim, na sociedade mineira, foi frequente o interesse do Estado em nor- matizar a vida religiosa, moral e, consequentemente, familiar. Nes- se sentido, a Metrópole, com a intenção de manter a paz social da colónia, incentivava os casamentos. No entanto, não conseguiu concretizar com sucesso essa prática, pois as uniões oficiais não aconteciam habitualmente, visto que o concubinato, entre bran- cos, negros e mulatos estava plenamente difundido.

Impossibilitado de regularizar a sociedade mineradora, o Es- tado conseguiu o apoio da Igreja que, por meio das Visitações Ecle-

siásticas, procurava controlar a vida dos habitantes. As Visitações que ocorreram por todo o século XVIII, intensificaram-se entre 1720

e 1770. De 1721 a 1802, foram realizadas 53 visitas e o período de cada Visitação variava de u m mês a u m ano.

A burocracia eclesiástica, chefiada pelo visitador, investi-

gava mais de quarenta práticas consideradas criminosas, dentre as quais estavam presentes o concubinato, o incesto, a usura e a sodomia. Após o recolhimento das denúncias, fazia-se, nos bis- pados, os julgamentos e pronunciavam-se as sentenças n a pre- sença de todos. As punições compreendiam multa pecuniária aos praticantes do incesto, dos jogos, da venda de quitutes nos tabuleiros, da alcovitagem e do concubinato, sendo esta última, a prática que mais dízimos rendeu à Igreja. Apesar disso, o Clero foi igualmente incapaz de propagar, como queria, o casamento dentro dos moldes oficiais e religiosos.

E isso, sem dúvida, refletiu no processo de formação de famí-

lias, pois nos domicílios viviam casais, casados o u não, e seus fi -

domicí-

lio. Os matrimónios, por sua vez, não implicavam, necessariamen-

n a formação de um a nova casa, sendo que indivíduos solteiros

ou com prole instalavam-se nos fogos já formados por parentes ou

te,

lhos, ou solteiros que se juntavam para morar nu m mesmo

31

SAMARA. Fni de Mesquita.

amigos. Assim, eram comuns os fogos múltiplos que agregavam vários núcleos familiares. Esses lares eram habitados, principalmente, por solteiras, viúvas e abandonadas, que se sustentavam com atividades comer- ciais, prostituição e aluguel de suas residências para práticas amo- rosas. 5 0 Tal quadro, explica-se, em parte, pelas dificuldades económi- cas e sociais da época. A escassez do ouro e a decadência d a mine- ração, em meados do século XVIII, causaram constantes movimen- tos da população, que migrava de u m lugar para outro, transfor- mando o quadro das relações familiares, especialmente, nos lares menos abastados. 5 1 As famílias formadas a partir dos concubinatos eram, igual- mente comuns e, por sua vez, não se diferenciavam do modelo pretendido pela Igreja com o casamento legal. Os relacionamen- tos familiares ilícitos, denominados de vivência em "portas a den- tro", foram marcados, portanto, pela estabilidade, coabitação e existência de filhos assumidos. Essa situação torna-se mais evidente quando analisamos a organização das famílias escravas. Consideradas distintas das fa- mílias dos livres e libertos, possuíam particularidades e eram sus- tentadas por fortes laços de relacionamento. 5 2 Essas uniões ocor- riam por vontade dos cativos ou interesse dos proprietários, que precisavam de valorização social e pensavam também n a reprodu- ção.

É com base nessa diversidade que podemos dizer que existi- ram três categorias de famílias para a sociedade mineira do sécu- lo XVIII: as independentes, a dos agregados e a dos escravos, seguidas de todas as suas sub-categorias. 5 3 Os resultados quan-

5 0 VAINFAS, Ronaldo. Moralidades brasílicas: deleites sexuais e linguagem erótica na sociedade

escravista. In : NOVAIS , Fernando A . (coord.). História da Vida Privada. Cotidiano e vida privada na

América portuguesa. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 254-255.

1 1 FIGUEIREDO , Luciano. Barrocas famílias: vida familiar e m Minas

Gerais no século XVIII . São Paulo:

Hucitec, 1997. p. 138.

5 2 LEWKOWICZ , Ida. Herança e relações familiares: os pretos forros nas Minas Gerais do século XVIII .

In: SAMARA , En i de Mesquita (org.). Revista Brasileira de História. Família e grupos de convívio,

op. cit. COSTA , Iraci De l Nero da. Vila Rica:

população (1719-1826). op . cit. p. 156.

32

Estudos

CEDHAL

-n.

10-

nova série -

1999

titativos mostraram que as independentes apareciam em maior número, vindo, a seguir, as famílias de agregados e escravos, res- pectivamente.

Quanto à composição desses lares, podemos dizer que pre- dominavam nas Minas, no início do século XIX, os domicílios sim- ples. Vejamos, por exemplo, em Vila Rica, no ano de 1804, 43,87% do total de fogos eram nucleares, 5,53% ampliados e 3,54% múl- tiplos. 5 4 O número médio de pessoas em cada residência, por sua vez, não ultrapassava a faixa dos 5 indivíduos.

Com relação à quantidade de filhos, os lares independentes e

etária dos 35-44

de agregados possuíam a média de filhos, n a faixa

anos, de 2,41 e 2,13, número bastante distante dos escravos que

sustentavam índices menores,

por volta de 1,44%. 5 5

Nas Minas Gerais, como em toda a colónia, os domicílios com- postos por muitos ou poucos membros primavam pela rusticidade, simplicidade e pobreza. Assim, as moradias dos homens pobres e livres, no campo e na cidade, consistiam em pequenas choupanas, construídas com a técnica da taipa de pilão, com apenas u m ou dois cómodos, nos quais dormiam, trabalhavam e preparavam os alimentos. 5 6 Desse modo, até o século XVIII, nas casas das famí- lias com poucas condições económicas, as salas de estar trans- formavam-se, à noite, em quarto de dormir. E sempre apresenta- vam-se acompanhadas de quintais, onde a família cultivava hor- tas e pomares para a subsistência. Nesses locais também cons- truíam galinheiros e currais para a criação de alguns animais do- mésticos que lhes fornecessem produtos como ovos e carne. 5 7

No entanto, a falta de conforto doméstico não era um a carac- terística exclusiva dos lares menos abastados. Nas casas mais ri - cas era comum a existência de imensas salas com poucos móveis para preenchê-las, falta de objetos para enfeitar os cómodos, ou mesmo, quadros para decorar as paredes, quase sempre nuas.

5

4

Idem, p. 164.

5

5

Ibidem, p. 158.

5

6

ALGRANTI , Leila Mezan. Famílias e vida doméstica. In : NOVAIS, Fernando A. (coord.).

História

da

Vida

Privada.

Cotidiano e vida privada na América portuguesa, op . cit .

" SOUZA , Laur a de Mell o e. Os desclassificados

do ouro.

op. cit. p. 144.

33

SAMARA,

Eni

de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Cabia às mulheres cuidar da casa e dos afazeres domésti-

cos cabia às mulheres, ficando com os homens o sustento da fa- mília e a supervisão dos negócios. No entanto, ne m sempre foi possível, entre os casais, preservar esses espaços. Assim, mulhe- res viam-se forçadas pelas circunstâncias, de pobreza o u viuvez,

a trabalhar para fora, não como afirmação de u m empreendimen- to pessoal, mas levadas pela necessidade.

Portanto, era prática corrente as mulheres ocuparem-se em pequenos comércios, sustentando seus parceiros ou, n a ausência do marido, administrarem a casa e os negócios. Outras, solteiras e sozinhas, proviam a sua própria subsistência e a da prole ilegítima, que muitas vezes, devido à extrema pobreza, era abandonada.

Quanto a isso, sabemos que, apesar dos esforços das Câmaras para contornar o problema dos expostos, no período de decadência da exploração aurífera houve u m aumento do número de crianças en- jeitadas. A situação se tornou tão gritante que, em Vila Rica de Ouro Preto, no ano de 1761, foram nomeados inspetores para vigiarem as solteiras mulatas e negras grávidas, tentando assegurar que elas manteriam seus filhos. Aparentemente, as brancas, nessa mesma condição, não foram colocadas sob a mesma vigilância. Esse esforço não surtiu o efeito desejado e, em 1763, um a legislação considerou essas mulheres como prostitutas e todos os habitantes foram obriga- dos a delatar os casos de abandono de bebés, sob pena de serem mul- tados. Tais esforços igualmente falharam. 5 8

O padrão demográfico de mães solteiras no século XVIII conti- nuou no século seguinte. A prole, em geral, era menos numerosa

do que entre as casadas e, quando chefiavam domicílios, viviam em famílias menores, com menos agregados e escravos. Quanto aos grupos raciais, em Vila Rica, no ano de 1804, sabemos que

casadas eram brancas e 23 % eram da elite. 22 % eram brancas e apenas 7,4% eram da

elite. É evidente, que o número de brancas entre as mães soltei-

ras era

res casadas.

status que as mulhe -

u m terço das mães

Das mães solteiras

menor e que estas possuíam menos

RAMOS , Donald. Mulhe r e família e m Vil a Rica de Ouro Preto: 1754-1838. Revista

cos,

op. cit.

34

Estudos

Económi-

Estudos

CEDHAL

-

n.

10-

nova série -

1999

Essa presença significativa de mães solteiras desmistificou

a descrição que tantos viajantes do século XI X deixaram sobre as

mulheres trancadas, longe dos olhos curiosos de estrangeiros, cuja

imagem era real somente para aquelas de posição económica e familiar elevada. As pobres viviam numa outra realidade, traba- lhando para su a própria subsistência e de sua família.

Gravura 4: Negra tatuada vendedora de caju Fonte: DEBRET, Jean Baptist. Viagem pitoresca e histórica ao Brasa. Trad. Sérgio Milliet. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1949. Prancha 47.

Como se pode perceber, a realidade multifacetada das Minas Gerais, no século XVIII, determinou formas distintas de se viver e de organizar famílias. O movimento constante da população, o espí- rito de aventura e a busca do enriquecimento fácil deram u m to m característico a essa sociedade, criando hierarquias próprias e dis- tintas das áreas de lavoura canavieira do Nordeste. Por outro lado, fica difícil dizer que houve u m padrão de família determinante para essa área, já que a vida urbana e a complexidade social ali existen- te, associada aos padrões demográficos característicos, propicia- ram a existência de diferentes tipos de uniões ilegítimas e de con-

35

SAMARA,

Eni

de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

cubinato, que muitas vezes substituíram os casamentos. Mulheres

trabalhadoras chefiavam famílias, enquanto homens solteiros e ca-

sados ia m para

as novas frentes económicas nas zonas de fronteira.

4. A ECONOMIA

CAFEEIRA

EA

FAMÍLIA

PAULISTA

NO SÉCULO

XIX

O Brasil, durante grande parte do século XIX, permaneceu

envolto numa economia que manteve sua estrutura colonial, à base da grande lavoura e do braço escravo. No plano político, podemos

dizer que o País procurava seguir o modelo europeu. Económica e socialmente, entretanto, mantinha-se hierarquizado, a partir de

uma pirâmide que tinha

fundiária, que se estabelecia nos quadros dirigentes, e n a base, a massa de escravos. Entre essas duas camadas circulava um a gama

variada de homens livres, que se dedicavam ao cultivo em peque- nas propriedades, ao comércio e às ocupações informais. Nesse período, o café tornou-se o maior produto de exportação nacional e, nas províncias de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo, as lavouras cafeeiras substituíram, progressi- vamente, as vastas superfícies antes tomadas pelo cultivo da cana- de-açúcar, já em declínio.

O ritmo da expansão ganhou impulso com a instalação da cor-

te portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, tendo sido, um a primei-

ra fase, marcada pelo desenvolvimento das lavouras no Vale do Paraíba, em São Paulo, principalmente, a partir da década de 30 do século XIX, alcançando escala comercial para exportação. Até 1820, a região de São Paulo era considerada um a das menos férteis da província. Produzia, essencialmente, "com maior ou menor abundância, arroz, feijão, milho e farinha de mandio-

em seu ápice um a minoria branca lati-

ca

muitos legumes e frutas; fabrica-se aguardente de cana-de-açú- car (cachaça); cria-se gado vacum, porcos, muares , carneiros e, sobretudo, cavalos" 5 9 .

chá, pouco café, pequena quantidade de algodão e fumo,

(

)

"

SAINT-HILAIRE ,

Auguste de. Viagem

à província

de São Paulo.

São Paulo: Livrari a Martins Ed. ,

1972. p. 184.

36

Estudos

CEDHAL

-

n.

10-

nova série -

1999

Considerados arrojados e empreendedores, os lavradores

de fatores pouco favoráveis para

iniciarem o cultivo do café, assim como a falta de conhecimentos técnicos e de capitais. Por outro lado, o seu desenvolvimento con-

tou, também, com a disponibilidade de terras cultiváveis e estatu- tos legais que regiam a ocupação. Tornou-se possível, então, mono- polizar extensas áreas para o seu cultivo, cujo tamanho chamava a atenção dos viajantes estrangeiros, como salientou Martius, em 1817, ao admirar os cafezais viçosos nas cidades de São João Marcos, Valença, Vassouras e Resende, ostentando 100.000 a

500.000 pés. 6 0

tiveram que enfrentar

um a série

O crescimento das áreas de cultivo e a expansão da produção para o mercado externo tornaram-se significantes a partir de 1830, quando o produto passou da cifra de 19,6% das exportações brasilei- ras, em 1822, para 28,6%, em 1831. Carregado no lombo dos burros, para atingir o porto de Santos, o café representou quase a metade do valor das exportações, em meados do século XIX, alcançando 61,5% em suas últimas décadas. 6 1 E, sem dúvida, esse progresso mudo u a paisagem, o perfil dos habitantes e as formas de organização dos núcleos domésticos e das famílias.

Essa excepcional expansão cafeeira exigiu u m maior contin- gente de mão-de-obra escrava, que foi transferida dos canaviais do Nordeste, um a vez que a extinção do tráfico negreiro, em 1850, di - ficultou a aquisição de escravos fora do ambiente brasileiro. Assim, na segunda metade do século XIX, a população escrava encontrada na Bahia não passava de 15% da população total, muito abaixo dos 35,3% registrados em 1808. 6 2

E m São Paulo, a região que proporcionava mais possibili- dades para a plantação e o cultivo do café foi o Vale do Paraíba do Sul . Sustentáculo da economia no período imperial, foi nesse local que a planta encontrou solo e clima bastante propícios para ter excelente rentabilidade n a colheita.

SPI X e MARTIUS .

1981.

Viagens

pelo

Brasil,

1817-1820.

São Paulo/Belo Horizonte: EDUSP/Itatiaia,

HOLANDA ,

Difusão Europeia do Livro, 1960. Tomo II, v. 4, p. 119.

MATTOSO , Kátia. Família e sociedade na Bahia do século XIX. op. cit. p. 22 .

Sérgio Buarque de (org.) . História

Geral

da Civilização

Brasileira.

2,ed. São Paulo:

37

SAMARA,

Eni de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

E foi exatamente nessa área que se originou a paisagem

um a sede se estabelecia

rancho coberto

de sapé, não distante dos abrigos dos negros. Assinalam o local escolhido para as derrubadas recentes, 20 a 30 alqueires de chão,

Quando muito. Depois de alguns anos o pomar, a horta e, mais tarde, a residência senhorial com seus jardins, os salões imensos e as diminutas alcovas, sempre pródiga em hospitalidade. Ela se orna com o decorrer dos anos, com os espelhos de moldura dou- rada, os lustres de cristal, os serviços de porcelana e as camas francesas com cortinado, a prataria fina, os móveis pesados de madeira de lei" 63 .

típica das fazendas de café. No início, próximo a um a corrente fluvial. Era u m

"

simples

Eram residências de taipa de pilão, que apresentavam um a faixa-fronteira, formada pelo alpendre central, ladeado pela ca- pela e, provavelmente, pelo quarto de hóspedes. Atrás desse con- junto, em dois andares, havia um a sucessão de dormitórios e, na Parte central, um a sala às vezes repartida em dois. A cozinha e as instalações sanitárias ficavam, geralmente, n a parte dos fundos. 6 4

arqui-

tetonicamente muito parecida com as existentes no Nordeste e em Minas Gerais, regiões de grande utilização de mão-de-obra escrava. Assim, a senzala "era constituída de um a sucessão de cubículos, geralmente bem cordeados, isto é, alinhados sobre um a Plataforma, com telhado corrido, nu m só nível" 6 5 .

Na sede da fazenda encontramos também a senzala,

"

HOLANDA ,

Sérgio Buarque de (org.) . História

Geral

da Civilização

Brasileira,

op . cit . p. 90-91.

M

Ver sobre o

assunto: LEMOS , Carlos A . C. Historiada

casa

brasileira.

São Paulo: Contexto, 1996.

6 5

SAIA , Luís. Morada Paulista.

3,ed. São Paulo: Perspectiva, 1995.

38

Estudos

CEDHAL

-

n.

10-

nova série -

1999

Gravura 5: Habitação de negros

Fonte: RUGENDAS, Johann Moritz. Viagem pitoresca

através do Brasil

3.ed. Belo

Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1989. v. 8. Prancha 4/5.

sobretudo de

mineradores decadentes, pequenos comerciantes e donos de ter- ras, definiram novas hierarquias e padrões sociais de refinamento e maneiras aristocráticas condignas com sua posição.

Mas, no século XIX, São Paulo não sofreu apenas transfor- mações económicas. Modificações nos planos jurídicos e instituci- onais também deram vida nova às relações mantidas pelos indiví- duos, dentro e fora do círculo familiar. Entre essas podemos citar: o fim do sistema de sesmarias, substituído pela compra de terras; a valorização do critério - posse de terra - para votar e participar n a Assembleia Legislativa, n o lugar do status de "homem bom" ; aboli- ção do sistema de milícias; extinção do morgadio; declínio das as- sociações o u corporações; a Lei de Terras, que estabeleceu preços

A casa e a figura do fazendeiro,

proveniente

39

SAMARA,

Eni

de

Mesquita.

elevados para as

isso fez co m que a província e seus habitantes lançassem mão de outras formas de vida para acompanhar esses novos horizontes. Ao crescimento económico seguiu-se um a ampliação nas responsabilidades e n a importância política da região e, mais es- pecificamente, da cidade de São Paulo. Sede administrativa da capitania desde 1693, São Paulo tornou-se, no século XIX, centro de importância social, política, económica e cultural. Devido, essencialmente, ao crescimento da atividade cafeeira, São Paulo passou a ser ponto de encontro das rotas comerciais, urbanizando-se e orientando-se, cada vez mais, para o comércio. Concentrava, em seu núcleo, u m contingente populacional varia-

do, que exercia um a série de atividades ligadas à produção agrícola,

propriedades e a abolição da escravidão. 6 6 Tudo

em grande, média

vida dos paulistas transitava entre o rural e o urbano. Assim, era costume, entre os fazendeiros do café, possuir duas residências,

uma n a fazenda, n a qual

cidade, para onde viajava periodicamente a fi m de tratar de assun-

o u pequena escala, e ao comércio em geral. A

vivia a maior parte do tempo, e outra n a

tos políticos e participar de

eventos sociais. 6 7

Gravura 6: Família de plantadores indo para a cidade Fonte: RUGENDAS, Johann Moritz. Viagem pitoresca através do Brasil. 3. ed. Belo Hori- zonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1989. v. 8. Prancha 3/17.

6

6

KUZNESOF, Elizabeth A. A família na sociedade brasileira: parentesco, clientelismo e estrutura social (São Paulo, 1700-1980). In : SAMARA , En i de Mesquit a (org.) . Revista Brasileira de Histó- ria. Família e grupos de convívio, op . cit. p. 37-63 .

6

1 METCALF , Alida . Family and frontier in colonial Brazil (Santana de Parnaíba, 1580-1822). Berkeley: University of Califórnia Press, 1992. p. 93.

40

Estudos

CEDHAL

-n.10-

nova série -

1999

Aos domingos, era muito comum que as cidades se enches- sem de pessoas para venerar o santo da paróquia. João Maurício

Rugendas, viajando pelas terras brasileiras, deparou-se com esses acontecimentos, para os quais "as famílias dos colonos chegavam de todos os lados. Os homens vêm a cavalo, as senhoras igualmen-

te, o u em liteiras

festas da Igreja são celebradas com muito aparato: há fogos de arti- "

fício, danças e espetáculos

Internamente a residência da cidade não diferia da rural. Era muito simples, podendo se resumir a umas poucas molduras pinta-

das de cores vivas em volta das portas, janelas e tetos. Os móveis

eram igualmente rústicos e

Mesmo com esse intermitente vai-e-vem da população, en- tre o campo e a cidade, São Paulo era a localidade mais populosa da Província, com 21.933 habitantes, segundo o Censo de 1836. 7 0 Esses indivíduos espalhavam-se em seis tipos básicos de domicílio: singulares, desconexos, nucleares, extensos, aumen- tados e fraternos.

Os dados censitários mostram que os fogos nucleares eram

os mais comuns, somando

Compunham-se somente do casal o u

bestas o u escravos. As grandes

conduzidas por

68 .

em número reduzido. 6 9

34,5 % do total

deste

de casas, em 1836. com prole. Viúvos e

solteiros com filhos também formavam famílias e domicílios, mas, no geral da cidade, o número médio de pessoas por casa era pe- queno, variando entre u m e quatro elementos. 7 1

aos nucleares, di -

ferenciando-se

tral d a família, ma s não ultrapassavam 1,2% dos fogos. Outro tipo

de domicílio, os aumentados, com parentes, agregados e

vos, representavam 25,2%. Os singulares, formados por um a só

pessoa, chamam a atenção, pois perfazem

Os domicílios extensos

assemelhavam-se

por incluírem membros exteriores ao núcleo cen-

escra-

10,6% do total. Os de-

3.ed. São Paulo: Martins Fontes,

1941. p. 145. Sobre a questão do mobiliário ver MACHADO , Alcântara. Vida e morte do bandeirante. São Paulo/ Belo Horizonte: EDUSP/Itatiaia, 1980. SAMARA , En i de Mesquita. As mulheres, o poder e a família (São Paulo, século XIX). São Paulo:

RUGENDAS , João Maurício. Viagem pitoresca

através do Brasil.

Marco Zero/Secretaria Estadual de Cultura, 1989. p. 21. SAMARA , En i de Mesquita. A família brasileira, op . cit. p. 17.

41

SAMARA, £n/ c/e Mesgu/ta.

Família

e vida doméstica

no

Brasil: do engenho

aos

cafezais.

nominados desconexos, sem laços d e parentesco, com chefe pre- sente e apenas agregados o u escravos, representavam 27,7%. 7 2

Os agregados, por sua vez, estavam presentes numa signifi- cativa quantidade de domicílios paulistas, eram 328, o u seja, 21 %

do total de

ção desses indivíduos também diferenciava-se nas zonas rural e

urbana. Nas cidades apareciam, entre os ajudantes de alfaiate, costureiras, tecelãs e negociantes. Na s áreas rurais ajudavam nas tropas e n a lavoura, preenchendo o s espaços de sobrevivência

deixados pelos escravos.

Na sociedade paulista, a presença d a escravidão não pôde ser

fogos registrados no recenseamento de 1836. A atua-

7 3

esquecida, pois os escravos estavam e m

zo pelo trabalho manual e a necessidade de mão-de-obra, principal- mente no campo, determinavam a su a integração aos núcleos do- mésticos. 7 4 As atividades que desempenhavam, no entanto, eram diferentes no campo e na cidade.

35,2 % dos fogos. O despre-

Na economia urbana, especialmente no setor informal, a con- tribuição das mulheres, e dentre elas as escravas, foi fundamen- tal. Nas famílias abastadas da zona rural cafeeira, as tarefas que

nas casas mais humildes eram desempenhadas pelas esposas (ama- mentar, cuidar das crianças nas doenças, cozinhar, tecer, vestir),

ficavam

lheita do café estas também exerciam u m papel importante, pois "a mão das mulheres é mais rápida que a dos homens. Cada negra

pode colher sete

Na zona urbana, voltavam-se para a venda em tabuleiro, para o atendimento no pequeno comércio e para as atividades domésti- cas, o que tornava sua presença marcante, servindo, inclusive,

para o sustento de muitos proprietários. 7 6

a cargo das cativas. Segundo Charles

a oito alqueires (treze

Ribeyrolles, n a co-

litros) de café por dia" 7 5 .

7 2

Ve r SAMARA , En i de Mesquita. As mulheres, o poder e a família (São Paulo, século XIX). op . cit .

p.34.

7 3 SAMARA , En i de Mesquita. Famílias e domicílios e m sociedades escravocratas. In: História e Popu- lação (Estudos sobre América Latina). São Paulo: Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados, 1990. p. 177.

7

4

Idem, p. 176.

7

5

RIBEYROLLES, Charles, op. cit. p. 51 .

7 6 DIAS , Mari a Odil a Leit e da Silva . Quotidiano e poder na São Paulo do século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1984.

42

Estudos

CEDHAL

-n.

10 - nova

série -

1999

Integrados às famílias dos proprietários, prestando os mais variados tipos de serviços, os escravos em São Paulo tiveram maior

acesso ao casamento religioso do que os do resto do País. No entan- to, no que tange à su a família, podemos dizer que as estruturas familiares não foram diferentes das que prevaleciam no restante do Brasil e "quando as condições de vida dos escravos permitiama formação de relações sociais com um a certa continuidade no tem-

po

respeito a sexo e família, não há como caracterizar a prática do escravo, e muito menos seu sistema de normas, como 'desregra- dos' ", como faz a historiografia tradicional. 7 7

O importante é pensarmos que as condições em que viviam e

se organizavam estavam bastante vinculadas aos seus proprietá-

rios e ao fato de

na sociedade paulista, um a diversidade considerável n a estrutura dos núcleos domésticos.

Entre a elite persistia, principalmente, o modelo de família patriarcal extensa, à semelhança das áreas de lavoura canavieira do Nordeste, e essa permanência é sentida entre as outras cama- das da população, apesar do domínio de famílias nucleares com pou- cos integrantes.

Diante disso, é possível estabelecer algumas relações entre a atividade de base económica, o status social e a organização das famílias e dos domicílios. Aquelas, com estrutura mais complexa, predominavam nos fogos ligados à lavoura ou ao comércio e, em especial, entre indivíduos brancos e de melhor situação financei-

ra. E m São Paulo, por exemplo, o fato de existir u m maior número de famílias nucleares com poucos membros deveu-se à grande in - cidência de lavradores que, em pequenas propriedades e com pro-

dução mais restrita, bilidade de comprar

eles optavam po r esse tipo de união. E m suma , n o qu e diz

(

)

estarem n a área urbana o u n a rural, já que havia,

trabalhavam junto com os filhos, n a impossi- escravos. 7 8

SLENES , Robert. Lares negros, olhares brancos: história da família escrava no século XIX . Revista Hrasileira de História. São Paulo, v. 8, n. 16, marVago. 1988. p. 192-193.

SAMARA , En i de Mesquita . As p. 40.

(São Paulo, século XIX). op . cit .

mulheres,

o poder

e a família

43

SAMARA,

£ni

de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Gravura 7: Uma senhora brasileira em seu lar

Fonte: DEBRET, Jean Baptist. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Trad. Sérgio Milliet.

2. ed. São Paulo: Martins Fontes,

1949. Prancha 2/6.

A idade do chefe é outro fator importante quando

analisamos

a composição familiar. Entre os mais jovens, a estrutura do domicí- lio é mais simples, com poucos integrantes e maior incidência de

parentes colaterais e ascendentes.

duos acima de 60 anos, pois nessa fase possuem poucos filhos nas casas e maior número de escravos e agregados. 7 9

Contrariando, portanto, a imagem típica da família patriar- cal brasileira, composta por muitos filhos e parentes sob u m mes- mo teto, em São Paulo u m número significativo de casais não tinha filhos, 48,7%, contra 51,3% que possuíam prole e, mesmo entre estes, a quantidade de filhos era bastante pequena. Ao que tudo indica, as condições socioeconómicas interferiam n a estabi- lidade dos laços familiares, e indivíduos com menos posses, em

Isso também ocorre com indiví-

Idem, p. 42.

44

Estudos

CEDHAL

-

n.

10-

nova série -

1999

geral, apresentavam famílias menos definidas e maior número dc

filhos ilegítimos. 8 0

Observamos também, nas primeiras décadas do século XIX, que a família nuclear compunha-se de poucos integrantes, 8 1 o que era sustentado pela realidade paulista oitocentista, com um a eco-

nomia ainda incipiente, n a qual o espaço de sobrevivência era res- trito. Assim, a marginalização, a pobreza e a falta de mão-de-obra

de

escravos e agregados aos fogos. Por outro lado, essa incidência de famílias simplificadas pode ser entendida, também, pela alta fre- quência do celibato.

É interessante, no entanto, observar que a vida urbana apro-

ximou as famílias, fazendo com que, numa sociedade paternalista como a de São Paulo, laços de solidariedade e de dependência fos- sem bastante comuns, ligando as famílias e os indivíduos entre si, formando um a extensa rede de relações sociais.

escrava impossibilitavam a incorporação de u m número grande

A partir dessa complexa trama de laços, que se

estabeleciam,

muitas vezes, fora do âmbito familiar, podemos dizer que celibato e

possi-

bilitando a existência de famílias legítimas e ilegítimas. Desse modo, era bastante comum, n a realidade paulista do século XIX, encon- trar indivíduos que viviam completamente solitários o u acompa- nhados por seus filhos ilícitos. Eram homens o u mulheres, soltei- ros com filhos, que ao invés de conviverem em casa com parentes ou afilhados, preferiam cercarem-se de escravos ou agregados. 8 2

Celibato e concubinato, por sua vez, aliados a outras práticas consideradas "desviantes da moral", como o adultério, a prosti- tuição e as ligações transitórias, justificavam a alta incidência de filhos ilegítimos. Essas crianças, reconhecidas ou não, eram nor- malmente protegidas por seus pais ou parentes, senão em vida, com certeza n a proximidade da morte, com algum beneficio dei- xado em testamento.

concubinato deram um a nova tónica às relações familiares,

""

Ibidem, p. 39.

"

SAMARA , En i de Mesquita. A estrutura da família paulista no começo do século XIX . Museu

da

Casa Brasileira.

São Paulo: s/ed., 1981. p. 29-38.

" 2 SAMARA , En i de Mesquita. A família brasileira,

45

op. cit. p. 19.

SAMARA

fni

c/e Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

Na sociedade paulista oitocentista, a grande presença de celibatários e de casais morando sob o mesmo teto, sem a benção do matrimónio, leva-nos a tecer algumas considerações sobre o

assunto. Assim, podemos dizer que havia um a íntima relação en- tre casamento, cor e grupo social. As uniões legais ocorriam, por- tanto, dentro de u m círculo muito limitado e estavam sujeitas a certos padrões e normas que agrupavam os indivíduos social- mente em função de sua origem e posição socioeconómica. 8 3 As- sim, a elite branca, preocupava-se em manter o prestígio e a esta- bilidade social, procurando limitar os matrimónios mistos quanto

à cor, desigualdade de nascimento, honr a e riqueza, o qu e difi-

cultava encontrar u m parceiro. 8 4 E, neste ponto, o modelo se as- semelha aos padrões encontrados no Nordeste durante os sécu- los XV I e XVII, com diferenças em relação ao tamanho das famí- lias e algumas alterações nas relações de género.

No entanto, pela importância da família legítima nessa socie- dade, o casamento ocupou lugar estratégico, e até mesmo os co- merciantes portugueses lançavam mão desse recurso, casando-se

com moças de famílias paulistas tradicionais, o que possibilitava a

sua rápida integração

união legítima só se fazia, entretanto, sob o consentimento pater- no, sendo comuns aquelas que ocorriam entre parentes, até o quarto grau de afinidade. Esses casamentos consanguíneos visa- vam, sobretudo, a preservação das fortunas e a manutenção da linhagem e da pureza de sangue. Assim, eram, frequentes, desde o período colonial, uniões de tios e sobrinhas e primos entre si.

n a esfera político-econômica local. 8 3 Um a

Além desse tipo de família legítima, existia outro que se cons-

tituía ilegalmente, apesar das pressões da Igreja em sacramentar as uniões. Eram casais, frequentemente mais pobres, que se dis-

tanciavam

culdades materiais, unindo-se livremente, como marido e mu -

do matrimónio, por falta de pretendentes o u por difi-

"•'

*4

SAMARA , En i d e Mesquita . As mulheres,

p.

Idem, p. 87.

KUZNESOF , Elizabeth A . A família na sociedade brasileira: parentesco, clientelismo e estrutura social (São Paulo, 1700-1980). SAMARA , En i de Mesquita (org.). Revista Brasileira de História. Famíliae grupos de convívio, op. cit. p. 45.

o poder

e a família

(São

Paulo,

século

XIX)

o p

ci t

125.

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lher,

número significativo, compunham u m outro tipo de estrutura fa- miliar, procriando e mantendo seus filhos ilegítimos. Assim, por exemplo, muitas agregadas viviam maritalmente com homens solteiros, separados ou viúvos, sem que isso resultas- se em uniões definitivas o u mesmo segurança para a sua prole. Essa situação, sem dúvida, constituiu u m outro tipo de família, na- turalmente incorporada aos domicílios locais. 8 6 Fosse legítima ou ilegítima, o certo era que a mobilidade es- pacial da população alterava frequentemente a composição das fa- mílias. Maridos se ausentavam por motivos económicos, filhos ca- sados passavam a ter residência própria e mesmo os menores, bas- tardos o u não, saíam do âmbito doméstico para aprender u m ofício. Casamento, escolha do cônjuge, dedicação a um a atividade ou profissão eram decisões tomadas sempre com base n a ordem do pai. E, principalmente entre a elite, as crianças dirigiam-se aos pais como "senhor pai" e "senhora mãe" ou "Vossa Mercê". Dessa forma, "com as cabeças reclinadas e mãos entrelaçadas, elas pe- diam a bênção a seus pais, mas eram proibidas do contato físico com o patriarca" 8 7 . A educação ficava a cargo da "mãe preta", de governantas estrangeiras, padres e internatos, o que distanciava pais e filhos, cada vez mais. Entre os mais pobres, a presença dos filhos n a família era muito importante. Tendo papéis bastante definidos, trabalhavam com seus pais desde pequenos, ajudando a aumentar a capaci- dade de trabalho e de sustento do domicílio. Essa cooperação dos filhos ocorria até o momento em que estes se casavam e saí- am do lar para constituir suas próprias famílias. Por isso, era co- mum que os pais não incentivassem os filhos a se casarem muito jovens. 8 8

Apesar disso, a prole, legítima ou ilegítima, tinha direitos garantidos por lei, principalmente com relação à sucessão dos

sem receberem a benção sagrada do sacramento cristão. E m

SAMARA , En i de Mesquita. A família

LEVI , Darrell E . A família

METCALF , Alida . Family and fronúer in colonial Braz.it (Santana de Parnaíba, I5K0-IK22). op.

cit. p.

brasileira,

op . cit. p. 36.

Prado.

São Paulo: Cultura, 1977. p. 27.

126.

47

SAMARA,

Fni

de Mesquita.

Família

e vida doméstica

no Brasil: do engenho

aos

cafezais.

bens. Assim, a terça normalmente ficava com os segundos, ca-

bendo aos demais os dois terços da meação. A divisão dos bens, entretanto, acarretava grandes discórdias entre os membros da

família, principalmente Na falta do pai, o

tras pessoas especialmente designadas para preencher o seu lu - gar e, consequentemente, detentoras desse direito. Um a vez viú- vas, deveriam justificar, legalmente, u m comportamento moral exemplar para assumir a chefia da família e a tutela dos filhos. Nessa situação, as mulheres geralmente continuavam sozinhas, cuidando das crianças e dos negócios deixados pelo marido. Es- tes, por sua vez, quando perdiam suas esposas, costumeiramente arrumavam um a agregada ou chamavam um a irmã solteira para cuidar da casa.

É importante destacar, igualmente, a chefia feminina de do-

micílio, que aparecia em maior número, especialmente na zona

urbana. E m

Santana de Parnaíba, por exemplo, o censo de 1820

mostra-nos que no campo haviam 512 homens (81%), chefiando seus domicílios e apenas 75 mulheres (31%) nessa situação. Na área da cidade, entretanto, os números se invertiam, sendo 118 homens (19%) e 170 mulheres (69%) atuando como cabeças do lar. 9 0

Essa imagem da mulher trabalhadora, atuando como chefe

de domicílio, cuidando do lar

e dos filhos era muito comum n a

São Paulo do século XIX, assim como ocorria nas Minas Gerais do final do período colonial. Do mesmo modo, havia u m grande nú- mero de mulheres ligadas a um a série de atividades informais:

doceiras, engomadeiras, cozinheiras, costureiras, rendeiras, te- celãs e "donas" de pequenas indústrias domésticas. 9 1

no caso dos abastados. 8 9 pátrio-poder estendia-se à viúva ou a ou -

Esse panorama, ao que tudo indica, foi predominante nas vilas e cidades brasileiras, ao final do período colonial e no Impé- rio, caracterizando-se pelo aumento gradativo da população fe-

Idem, p. 95.

METCALF ,

Alida . Family

andfrontier

in colonial

Brazil

(Santana

de Parnaíba.

1580-1822).

op .

cit.p. 146.

SAMARA , En i de Mesquita. As mulheres, o poder e afamília (São Paulo, século XIX). op . cit. p. 110.

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minina, associado à migração masculina para as novas frente» pioneiras em busca de oportunidades económicas. Nas áreas ru - rais predominavam famílias extensas, com integrantes variados,

agregados e escravos. Também famílias de pequenos lavradores, cujos proprietários, com seus filhos, trabalhavam, conjuntamen-

te, n a lavoura.

Concluindo, podemos dizer que, ao longo de quatro séculos da nossa história, diferentes tipos de atividades corresponderam

a formas variadas de trabalho e de organização familiar, sendo

impossível falar de u m padrão único de família brasileira. Fica

evidente, também, que não apenas a economia foi u m fator

minante n a estrutura da família, mas há que se considerar, igual- mente, a situação socioeconómica, a raça e a condição. Cabe ain- da observar que, apesar das características regionais apresenta- das ao longo do tempo, as famílias e domicílios conservaram tra- ços de solidariedade e a perpetuação de redes de relações entre indivíduos inseridos numa sociedade do tipo paternalista, como

a brasileira.

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