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Estudo do fluxo sanguíneo na artéria aorta

N. Ferraz 1 , E. Queirós 1 , M. Duarte Naia 1,2 , A.A. Soares 1,3

1 Dep. Engenharias, ECT- UTAD

2 CEMUC, Dep. Física, ECT-UTAD

3 CITAB, Dep. Física, ECT-UTAD

Resumo

O objectivo deste trabalho é caracterizar o fluxo sanguíneo na crossa da aorta. Para tal, começamos por simular o escoamento do sangue em diversas condições com o objectivo de compreender o seu comportamento na crossa da aorta, com e sem aneurisma, e deste modo ilustrar e caracterizar as alterações de fluxo entre as duas situações e compreender as eventuais consequências. Para esta simulação foram seleccionados os códigos GAMBIT e o Fluent ANSYS.

Introdução

A circulação sanguínea está dividida em duas partes, sendo elas: (i) a pequena circulação ou circulação pulmonar, e (ii) a grande circulação ou circulação sistémica. A primeira é caracterizada pela circulação do sangue entre o coração e os pulmões, onde será oxigenado. A segunda, por sua vez, consiste no transporte do sangue do coração para o resto do corpo.

A aorta é a principal artéria do corpo e pode ser dividida em três partes sendo elas: ramo

ascendente, crossa da aorta(com as respectivas artérias: tronco braqueocefálico, carótida

comum e subclávia esquerda (da esquerda para a direita)) e ramo descendente. Quanto à sua geometria esta possui um ângulo de 180º na crossa e uma ligeira torção no ramo ascendente, o que vai ter influência no valor de WSS(Wall Shear Stress).

Contudo, existem problemas que podem dificultar o fluxo sanguíneo, alterando o seu comportamento normal, sendo o aneurisma um exemplo desses distúrbios.

O aneurisma é uma dilatação que ocorre nos vasos sanguíneos, podendo afectar todas as

artérias do corpo. No caso particular do aneurisma da aorta (ver Fig.1), o aumento do

seu tamanho pode ter como consequência a rotura do vaso, originando hemorragias

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internas. Há que referir que os aneurismas possuem coágulos sanguíneos que, através da sua deslocação, podem originar isquemia. [1]

da sua deslocação, podem originar isquemia. [ 1 ] Fig.1. Exemplo de um aneurisma na aorta

Fig.1. Exemplo de um aneurisma na aorta toráxica [2] .

Equações de governo e Métodos numéricos

Em engenharia, muitos problemas são tratados com recurso a equações diferenciais que são resolvidas numericamente tendo em conta as condições fronteira e as condições iniciais dos ditos problemas. Embora alguns problemas em engenharia possam ser tratados com fluídos não viscosos, esta aproximação não é valida para o caso do escoamento sanguíneo. No caso particular da aorta, sendo o sangue um fluído viscoso, as equações que descrevem o governo do escoamento sanguíneo são as equações de Navier-Stokes (N-S).

Estas equações descrevem a dinâmica do escoamento do fluído sendo não-linear, de segunda ordem, e baseada em equações diferenciais parciais. [3] Para um fluido incompressível são dadas por:

= + ,

(1)

onde é a massa volúmica do fluído,

a derivada total do vector velocidade, a

aceleração gravítica, o gradiente das pressões estáticas, a viscosidade do sangue e o laplaciano da velocidade.

Esta equação tem por base a segunda lei de Newton aplicada a um elemento de fluido sujeito às forças gravítica, forças de pressão e forças origem viscosas.

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Estas equações (N-S) traduzem a conservação da quantidade de movimento.

A

equação da continuidade traduz a conservação da massa e é dada por:

. = 0

(2)

É

importante referir que estas equações podem ser escritas em coordenadas cilíndricas,

o

que torna o cálculo mais simples e acessível, uma vez que as veias/artérias são

estruturas tubulares, ou seja , possuem uma simetria cilíndrica. [3]

Contudo, é difícil obter uma solução exacta das equações N-S para situações e geometrias particulares, pelo que a melhor aproximação é a sua solução por métodos numéricos.

O método numérico utilizado na resolução do nosso problema foi o método dos volumes finitos (FVM) um método de resolução de equações das derivadas parciais baseado na resolução de balanços de massa, energia e quantidade de movimento num determinado volume de meio contínuo. Este método é uma ferramenta muito útil a qual permite avaliar o comportamento de uma certa variável, numa determinada geometria. Assim sendo, começa-se pela divisão da nossa estrutura num número finito de pequenas regiões (volumes) que são restritas à geometria tetraédrica. Através deste método, os resultados que obtemos são a soma das contribuições de cada elemento, com a soma das forças aplicadas nestes. [4]

Neste sentido, a percentagem de erro associado à solução será tanto menor, quanto maior for o número de elementos definidos e menor o tamanho destes. [5] Contudo, o aumento do número de elementos aumenta exponencialmente o tempo de resolução, além de poder acarretar alguns problemas de convergência.

Os programas utilizados para a implementação da análise numérica do fluxo sanguíneo foram o GAMBIT [6] e o Fluent [7] . O primeiro foi usado na construção do modelo geométrico da aorta e na discretização da rede, enquanto o segundo foi utilizado para resolução do problema, definindo para isso as condições de fronteira e os parâmetros característicos do escoamento (velocidade, viscosidade, entre outros).

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Estudo do fluxo sanguíneo na artéria aorta Fig.2. Imagem da geometria de uma bifurcação, obtida no

Fig.2. Imagem da geometria de uma bifurcação, obtida no GAMBIT.

Imagem da geometria de uma bifurcação, obtida no GAMBIT. Fig.3. Gráfico de resíduos obtidos no Fluent.

Fig.3. Gráfico de resíduos obtidos no Fluent.

Formulação do problema

de resíduos obtidos no Fluent. Formulação do problema Fig.4. Distribuição das velocidades obtido no Fluent. Para

Fig.4. Distribuição das velocidades obtido no Fluent.

Para a formulação do problema, há que ter em conta não só o tipo de fluído, como também o tipo de escoamento que este apresenta.

No nosso estudo, o regime de escoamento utilizado foi o laminar que apresenta um movimento contínuo onde as linhas de corrente são paralelas entre si. Considerou-se o escoamento como sendo estacionário e incompressível. No que respeita ao regime estacionário este caracteriza-se pelo facto de a velocidade e as propriedades termodinâmicas (pressão e temperatura) permanecerem inalteráveis ao longo do tempo.

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Por seu turno, um regime incompressível define-se por não existirem variações de massa volúmica.

Na formulação da geometria da crossa da aorta implementámos uma rede constituída por elementos de forma tetraédrica, com espaçamento de 0.1 cm, dando um total de 500000 elementos aproximadamente.

Quanto às propriedades do sangue, tais como a viscosidade e a massa volúmica, os valores utilizados foram de 1050 kg m -3 e 0.0035 kg m -1 s -1 , respectivamente. Importa ainda referir que como velocidade inicial de entrada consideramos 0.07 m.s -1 . [8]

Resultados obtidos

Para obter uma descrição realista e sem possuir uma solução física concreta, desenhamos a aorta a parti de uma imagem MRI (Magnetic Ressonance Image), da qual obtivemos a forma da linha central da artéria no espaço 3D. Posteriormente, construímos vários modelos por ordem crescente de complexidade de forma a obter uma boa descrição de uma situação real. Os modelos considerados foram os seguintes:

Modelo 1- Tubo com diâmetro constante gerado em torno da linha central;

Modelo 2- Tubo com diâmetro constante e com bifurcações direitas no arco superior;

Modelo 3- Tubo com diâmetro constante com bifurcações no arco superior

Modelo 4- Tubo com bifurcações orientadas e deformação na parte superior do

arco.

Os resultados obtidos nos diferentes tipos de geometria da aorta foram os seguintes:

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Modelo 1- Aorta sem bifurcação

na artéria aorta ∑ Modelo 1- Aorta sem bifurcação Fig.3. Distribuição de velocidades. Fig.4. Distribuição

Fig.3. Distribuição de velocidades.

Aorta sem bifurcação Fig.3. Distribuição de velocidades. Fig.4. Distribuição de WSS . ∑ Modelo 2- Aorta

Fig.4. Distribuição de WSS.

Modelo 2- Aorta com bifurcações direitas

de WSS . ∑ Modelo 2- Aorta com bifurcações direitas Fig.11. Distribuição de velocidades. Fig.12.

Fig.11. Distribuição de velocidades.

direitas Fig.11. Distribuição de velocidades. Fig.12. Distribuição de WSS. ∑ Modelo 3- Aorta com as

Fig.12. Distribuição de WSS.

Modelo 3- Aorta com as respectivas artérias: tronco braqueocefálico, carótida comum e subclávia esquerda (da esquerda para a direita)

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Estudo do fluxo sanguíneo na artéria aorta Fig.6. Distribuição de velocidades. F i g . 5

Fig.6. Distribuição de velocidades.

na artéria aorta Fig.6. Distribuição de velocidades. F i g . 5 . D i s

Fig.5. Distribuição de WSS.

Modelo 4- Aorta com aneurisma

o d e W S S . ∑ Modelo 4- Aorta com aneurisma Fig.9. Distribuição de

Fig.9. Distribuição de velocidades.

4- Aorta com aneurisma Fig.9. Distribuição de velocidades. Fig.10. Distribuição de WSS. Análise de resultados O

Fig.10. Distribuição de WSS.

Análise de resultados

O gráfico de resíduos ilustrado na fig.3. é o ponto de partida para a análise da solução numérica do nosso problema, ou seja, os resíduos são um critério técnico da qualidade da solução. Em princípio, quanto menor for o valor dos resíduos mais próxima a

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solução numérica estará da solução verdadeira do problema. Portanto, uma garantia para que a solução numérica seja boa é a convergência do gráfico dos resíduos.

Relativamente à análise de resultados, podemos dizer que no caso da aorta sem bifurcações, a velocidade apresenta poucas flutuações ao longo de todo o tubo (fig.5), sendo 0 m.s -1 na parede deste, uma vez que esta é a condição fronteira. Em relação à tensão de corte nas paredes (WSS), esta acaba por não sofrer variações significativas ao longo do tubo, contudo, apresenta maiores valores nas zonas onde o gradiente de velocidades é maior (fig.6).

No que diz respeito aos restantes modelos, podemos observar que, no gráfico de velocidades, os maiores valores se encontram na parte ascendente do tubo (ver figuras 7, 9 e 11). Tal é justificado pelo facto do caudal do tubo ascendente ser igual à soma dos caudais do tubo descendente com o caudal de cada bifurcação, verificando-se portanto o princípio de conservação da massa. Todavia, importa frisar que, no modelo da aorta com aneurisma verifica-se uma alteração no campo das velocidades comparativamente aos outros modelos (fig.9). Podemos ainda observar, que na figura da distribuição de velocidades da aorta com aneurisma, o menor valor de velocidades localiza-se na zona do aneurisma, situação que pode levar à formação de coágulos.

Quanto à distribuição de WSS e, como referido anteriormente, as figuras 8, 10 e 12 mostram que, associado aos maiores gradientes das velocidades estão os maiores valores de WSS, localizando-se na parte ascendente do tubo. No caso particular da aorta com aneurisma, podemos dizer que devido à presença desta anomalia a tensão de corte nesta tende a ser menor comparativamente aos outros modelos, o que pode levar à formação de coágulos devido à presença de menores gradientes de velocidade. No entanto, na proximidade do aneurisma, a WSS sugere ser elevada, comportamento que pode favorecer o aumento do volume do aneurisma e, consequentemente um aumento da tensão de corte que poderá levar à rotura do vaso. [9]

Conclusão

Este estudo apresenta limitações devido à formulação do problema ter como base a escolha do regime de escoamento laminar e estacionário, que não é necessariamente o regime que se observa no escoamento sanguíneo na aorta, sendo que os resultados

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obtidos, apesar de congruentes, não podem ser reportados para a realidade de forma segura, associados a uma situação real.

Dada à complexidade do problema em questão, a escolha deste regime deveu-se à sua facilidade de implementação, conservando algum realismo sobre a situação prática. Neste sentido, depois de entendido dos modelos aqui estudados, seria mais fácil avançar para um modelo ainda mais realista que usasse o escoamento transiente ou o regime turbulento e, eventualmente, pulsado. Porém, tal não nos foi possível dada a falta de tempo e meios técnicos para o realizar.

É, no entanto, de salientar que os parâmetros (dimensões da aorta, condições fronteira) usados nas simulações são realistas e que os escoamentos são caracterizados por um número de Reynolds 1 menor do que 2300, o que indica que os escoamentos são laminares. E como o escoamento na aorta é pulsado e periódico, então as soluções encontradas deverão caracterizar os escoamentos num dado instante no intervalo de tempo do período da pulsação.

Referências

[1] James Lee e David Zieve, “Abdominal aortic aneurysm”, A.D.A.M, Inc, 2009,

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmedhealth/PMH0001215.

[2] http://www.clinicasaadi.com.br/

[3] Lee Waite, Ph.D., P.E., Jerry Fine, Ph.D.,”Applied Biofluid Mechanics”, 198-202, McGraw Hill, 2007

[4] Scott Post, “Methods of engineering analysis(numerical methods)”, ME573, 2007

[5] Jennifer S.Wayne, Encyclopedia of Biomaterials and Biomedical Engineering, 1091- 1099, 2008

[6] © 2004 by Fluent, Incorporated, “GAMBIT 2.2 Tutorial Guide”, Setembro 2004

1 =

; substituindo =

. .

= 420

.

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[7]http://www.ansys.com/Products/Simulation+Technology/Fluid+Dynamics/ANSYS+F

LUENT

[8] Haugen. Bjorn Olav. [et al], “Blood flow velocity profiles in the aortic annulus: A 3- Dimensional freehand color flow Doppler imaging study”, Journal of the American Society of Echocardiography, p.328-p.333, Volume 15, nº 4, Abril 2002

[9] S.M. Abdul, Khader, Md. Zubair, Raghuvir Pai. B, V.R.K. Rao, S. Ganesh Kamath, “A Comparative Study of Transient Flow through Cerebral Aneurysms using CFD”,

2009

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