Centro Educacional Juscelino Kubitschek Unidade Taguatinga – 2º Bimestre/2011

Apostila – Arte Cênica 1ª Série – Ensino Médio
ESTUDANTE: ____________________________________________________________________________________ TURMA: _________________ O Teatro Romano 1. Introdução O império romano foi um Estado militar. Antes de Augusto, os romanos eram guerreiros, depois de Augusto, governaram o mundo. O caminho desde a legendária fundação da Cidade das Sete Colinas em 753 a.C. até o império mundial romano é uma sucessão de guerras de conquista e, ao mesmo tempo, a legitimação de um nacionalismo fundamentado, desde os primórdios, no poder da autoridade. Até mesmo os deuses estavam sujeitos aos ditames do Estado. A localização de seus principais santuários não era determinada pela tradição, mas pela res publica. Antes das legiões romanas capturarem uma cidade inimiga, seus deuses eram requisitados numa cerimônia religiosa, a evocatio (chamado), para que abandonassem as cidades sitiadas e se mudassem para Roma, onde poderiam contar com templos mais grandiosos e maior respeito. Desse modo, o santuário de Diana foi deslocado da cidade latina de Arícia para o Aventino, e a Juno Regina dos etruscos foi “recolocada” no Capitólio, vinda de Veio. Da mesma forma, Minerva, uma sucessora da Palas Atena grega venerada na cidade etrusca de Falério, chegou a Roma, onde se juntou a Júpter e Juno como o terceiro membro da mais alta tríade de deuses romanos na colina do Capitólio. Roma ainda hoje a recorda, na Igreja de Santa Maria sopra Minerva, edificada século VIII. Os Ludi Romani, as mais primitivas das festividades religiosas oficiais onde se apresentavam espetáculos, também eram consagrados à tríade Júpiter, Juno e Minerva. Como disse Cícero, o segredo da dominação romana residia em “nossa piedade, nossos costumes religiosos e em nossa sábia crença em que o espírito dos deuses governa todas as coisas”. A religião do Estado havia se apossado da hierarquia dos deuses olímpicos da Grécia, com poucas mudanças de nomes, mas nenhuma modificação maior de caráter. Às margens do Tibre, como à sombra da Acrópole em Atenas, Tália, a musa da comédia, e Eutérpia, a musa da flauta e do coro trágico, eram as deusas padroeiras do teatro. O teatro de Roma fundamentava-se no mote político “panem et circenses” - pão e circo - que os estadistas astutos têm sempre tentado seguir. Tanto em suas características dramáticas quanto arquitetônicas, o teatro romano é herdeiro do grego. Como antes, em Atenas, esta era divide-se em um período de atividade dramático-literária e em outro, no qual as gerações seguintes esforçaram-se para criar uma moldura arquitetônica digna. No que diz respeito ao florescimento da literatura dramática de Roma, este período corresponde aos séculos III e II a.C., quando prosperaram as peças históricas e as comédias (em palcos temporários de madeira), e, no tocante ao período áureo da glorificação arquitetural da ideia de teatro, os séculos I e II d.C.

Teatro Romano - Antalya, Turquia (ima)

Panorama do teatro de Mérida

Teatro Romano O anfiteatro não pertencia aos poetas. Servia de palco aos jogos de gladiadores e às lutas de animais, para combates navais, espetáculos acrobáticos e de variedades. Quando a perseguição aos cristãos se iniciou com Domiciano, o sangue humano correu aos borbotões no Coliseu, no mesmo local onde multidões de cinquenta mil pessoas aplaudiam os atletas campeões ou os atores de mimos e de pantomimas. Seu teatro era o espelho do imperium romanum - para melhor ou para pior, e era muito mais um “show business organizado” do que um lugar dedicado às artes. 2. Os Ludi Romani, o Teatro da Res Pública Durante a mesma década em que Aristóteles descreveu a então inteiramente desenvolvida tragédia grega, Roma assistia a seus primeiros ludi scaenici (jogos cênicos),

mas também com a influência revigorante do mimo folclórico popular. Sempre escolhia assuntos que.). A inserção de canções com acompanhamento musical (cantica) confere a elas um toque de opereta. que eram seus personagens e heróis centrais). por Lúcio Ácio e vai até Asínio Pólio. na melhor tradição ateniense. que se apresentou com obras próprias. que foram representadas . instituíram-se outros jogos dedicados aos deuses (ludi). 254-184 a. se isso ajudasse a realçar o efeito. Mas Roma não era Atenas. Ao fazêlo. A moldura externa dada foram os Ludi Romani. atacava os políticos e nobres de sua época. a preocupação dos atores e da plateia era aplacar os poderes da vida e da morte. o jovem grego logo foi promovido de professor particular a conselheiro educacional e cultural.C. Trabalhou não menos com perícia do que com sorte no princípio da “contaminação”. os Cipiões praticaram a espécie de patronato das artes que. devem seu primeiro dramaturgo . e desde então celebrados anualmente em setembro. nas quais o próprio Lívio Andrônico participou como ator. Plauto aterrou com um salto na literatura mundial.C. não foram jamais encenadas no palco da Roma antiga. Os romanos anexaram a propriedade espiritual. Estes incluíam danças e canções. Plauto possuía suficiente prática teatral para selecionar as cenas mais eficazes de seus modelos.C. Gneu Névio. gerou uma rica safra de produções dramáticas. com quatro dias de espetáculos teatrais. em que seria igualado. O exemplo de Lívio Andrônico logo trouxe à cena o primeiro dramaturgo latino. Os romanos. mas conta-se que no decorrer de uma juventude cheia de aventuras ele perambulou pelo país com uma troupe atelana. chegando por fim. e também invocações religiosas dos deuses no espírito da misteriosa e sobrenatural fé dos etruscos. tais como os Ludi Plebeii em novembro. que se contentara em retaliar com 2 uma boa surra a desrespeitosa franqueza de Aristófanes. Desde o mais remoto início. daqueles que conquistaram. cantor e encenador.trouxe grandes honrarias ao autor. Mais tarde. Dessa forma. Comédia Romana Embora a tragédia e a comédia hajam iniciado juntas sua carreira nos palcos de Roma e originalmente tenham sido escritas pelos mesmos autores. mas também culturais.C. para o prazer de todos e para maior glória da res publica. a fabula praetexta (assim nomeada por causa da vestimenta oficial dos preteres. Os homens do Senado não eram como Cléon. como escravo. Roma também procurou organizar a arte do drama. da Campônia. Essas celebrações festivas deviam muito à família dos Cipiões. na verdade. iniciada por Quinto Ênio. por Terêncio . à cidade de Tarento. Assim como em Atenas a arte da tragédia e da comédia desenvolvia-se a partir do programa das festividades das Dionisíacas e das Lenéias. os mais altos funcionários e servidores da República. segundo o modelo de Eurípedes. em Utica. tanto quanto a terrena. e também por suas adaptações de tragédias e comédias gregas para o público romano.Lívio Andrônico. Ênio. o terceiro pioneiro do teatro romano surgiu na capital: Quinto Enio de Rudia. instituídos em 387 a. podiam ser suavemente transpostos para a visão de mundo racional dos romanos.COLÉGIO JK Apostila – Arte Cênica – 2º Bimestre/2011 1ª Série modestos espetáculos de mimo de uma troupe etrusca. Lívio Andrônico escreveu suas primeiras adaptações de peças gregas. identidades trocadas. passa pelo seu sobrinho e discípulo M. e morreu por volta de 201 a. arriscou todas elas com suas comédias.. Ele. na época de Augusto. o ator considerado “digno do coturno” (a bota alta da tragédia grega. em geral com algum aspecto didático. Escreveu. o velho centro comercial fenício. No domínio da tragédia. e a peste se alastrava pelo país. na época do imperador Augusto. com base no programa de suas festividades. ao longo da linha da fábula praetexta e da adaptação de temas gregos. nos Ludi Romani. Tália logo começou a se emancipar. Nessa época. especialmente as de Menandro. O século II a. uma das maiores e mais ricas das antigas colônias gregas no sul da Itália. Em 240 a. na era cristã. Deixando para trás o despretensioso repertório de sua experiência teatral anterior. para a rica casa dos Lívios. Em 204 a. em julho. cinco anos mais tarde. uma geração mais tarde. já que se estava no ano de 364 a. na Calábria. além de outra sobre o tema das Eumênidas. que outrora haviam dominado Roma. aos povos conquistados. Era popular tanto junto ao povo quanto aos aristocratas. não hesitava em encaixar os temas de várias peças. Névio foi o criador do drama romano.C. O primeiro grande poeta cômico de Roma alimentou a comédia romana não apenas com a sua própria obra. especialmente em Romulus sua peça mais famosa .o segundo grande poeta cômico romano. a Aneu Sêneca cujas nove tragédias remanescentes. mais tarde. não era um homem de muito estudo.que retrata a lendária fundação de Roma . entretanto. Uma tragédia e uma comédia foram representadas. porém. Personagens cômicas. dirigido pelas autoridades. intriga e sentimentalismo burguês alimentam o mecanismo que conduz harmoniosamente suas comédias. Os modelos dramáticos de suas comédias foram as obras da Comédia Nova ática.. fiel ao exemplo de Aristófanes. nas quais se aventurava no campo das polêmicas locais e. da oportunidade de promover seus talentos e manter boas relações com seus próprios deuses. Graças a seu dom da Linguagem. acompanhadas de flauta. Plauto (c. 3. a corrente de escritores. A glorificação dramática da história de Roma por Névio. Sua escolha de temas dramáticos mostra o quão prudentemente ele mantinha sua posição no cabo-de-guerra da existência de um favorito. Plauto fez muito sucesso com suas primeiras três comédias. Pacúvio. Obteve fama com sua obra mais importante. um epos nacional intitulado Anais. Nos séculos III e II a. os Ludi Cereales e Megalenses (em homenagem à mãe dos deuses) em abril. nascido em Sarsina. e os Ludi Apoilinares. teve o cuidado de evitar assuntos controversos durante toda a sua vida. o teatro romano também era um instrumento de poder do Estado. Foi preso e exilado. peças como Aquiles e Alexandre. agora possivelmente com uma sola que a elevava algumas polegadas). então com trinta e cinco anos. seria associada ao nome do nobre Mecenas. pela primeira vez. Névio teve de pagar caro pela militância expressa em suas comédias.C. Lívio Andrônico foi trazido a Roma. juntamente com o direito de exibi-la em público. que ajudaram a fortalecer o renome mundial de Roma não apenas em assuntos militares.C.C.. a habilidade política de Roma se expressou no oferecimento.

o palco em si dava poucas despesas. o dramaturgo alemão do século XVIII. que no início eram sempre patrícios. Suas seis comédias traem já nos títulos aquilo que Terêncio buscava . O público ficava em semicírculo ao redor da plataforma. discute. em considerável extensão. com paredes laterais. Na frente do palco. o de um parasita em o Formião. porém. erguido por pouco tempo para uma ocasião e desmontada de novo. Embora os dramaturgos romanos tenham alcançado rapidamente seus modelos gregos. os méritos de Terêncio e sua influência no teatro posterior. Elas refletem não apenas o repertório de enredos e personagens da Comédia Nova ática. hoje mais conhecido como Terêncio (c. ele encontrou amistoso reconhecimento e apoio. Durante dois séculos. teve bastante sorte de encontrar um produtor influente. No círculo de Cipião Africano Menor. mas. cerca de um metro acima do chão. com sua experiência atelana atrás de si. precisavam ser tanto mais talentosos e versáteis. Até 150 a. Suas finezas dramatúrgicas. obviamente não nas questões organizacionais. Museo Nazionale). chegou à capital vindo de Cartago. Tirso de Molina e Lope de Vega.C. e Os Adelfos numa comédia de Menandro e numa de Dífilos. que retorna de um banquete amparado por um escravo (Nápoles. Gradualmente. Todas as seis peças de Terêncio pertencem ao período entre 166 a.COLÉGIO JK Apostila – Arte Cênica – 2º Bimestre/2011 1ª Série quando ele tinha aproximadamente cinquenta anos. perdidas e de novo encontradas. O refinamento urbano e perfeição formal de seus diálogos. Tanto Terêncio como Plauto. Plauto. deu lugar a um galpão de madeira. As comédias de Terêncio. Ao todo. Era importante que suas vozes fossem claras e tivessem bom alcance. “contaminavam” suas obras com duas ou até três peças já existentes. que levou todas as suas peças: o diretor teatral Lúcio Ambivius Túrpio. Shakespeare. Consistia em uma plataforma retangular de madeira. Publius Terentius Afer. Hrotsvitha von Gandersheim. os Menaechmi (Os Gêmeos) ganharam segunda imortalidade na Comédia dos Erros de Shakespeare. as personagens cuidadosamente desenhadas e seu desenvolvimento no curso da ação eram as coisas que Terêncio desejava ver apreciadas com a devida atenção. Seu senhor reconheceu os talentos do jovem e o emancipou.C.). que Molière. além das versões modernas de Jean Anouilh e Peter Hacks. (Miles Gloriosus). foi trazido a Roma como escravo. da arquitetura e das obras de construção. pelo menos. ainda era proibido sentar-se durante um espetáculo teatral. porém. o de uma sogra em Hecira e o de um eunuco em Eunuchus.. cujo acesso era feito por escadas de madeira laterais e com uma cortina que o delimitava ao fundo. Plauto criou um protótipo de avareza ingênua. Três portas . dois altos oficiais. vivem no teatro do mundo. mas no plano de fundo arquitetural para o espetáculo. a mentalidade de seu autor e do público para o qual escrevia. de Plauto sobrevive no Anfitrião de Molière e no de Kleist.C. 4. baseiase em duas comédias de Menandro. Do Tablado de Madeira ao Edifício Cênico O teatro romano cresceu sobre o tablado de madeira dos atores ambulantes da farsa popular. da mesma forma que Lívio Andrônico. o segundo dos grandes poetas cômicos de Roma. no presumível de sua morte. Bárbaro de nascimento.. por exemplo. Encarregavam-se do policiamento. cena de escuta bisbilhoteira. As datas registradas de suas estreias são 204 a. O Eunuco. em O Avarento. as condições externas do teatro ficavam muito atrás.C. O Anphitruo.quando ele estreou com Ândria nos Ludi Megalenses – e 159 a. Terêncio. Lessing. que servia de camarim para os atores. 201 (Cistellaria). Primeiramente. o palco primitivo foi se tornando mais bem adaptado às necessidades da arte dramática. Enquanto Plauto prestava atenção à conversa do povo e se apoiava fortemente no contraste entre ricos e pobres para suas situações cômicas. Seguia meticulosamente os modelos gregos. A responsabilidade pelo teatro em Roma cabia aos curule aediles.C. o palco não foi nada mais do que uma estrutura temporária. especialmente em papeis femininos. Terêncio procurava imitar o discurso cultivado da nobreza romana. nas quais os romanos foram sempre mestres. Inicialmente. . Elas também se tornaram a fonte inesgotável da comédia europeia. onde por fim a scaenae frons romana tomaria o lugar da skene grega. os ludi e os circenses. mais tarde envolveu no brilhante manto da haute comédie francesa. a proposta desse privilégio irritou o povo. Em sua Dramaturgia de Hamburgo. pelo menos em termos quantitativos de sua produção. uma estrutura de madeira coberta. entretanto. tomou parte pessoalmente na encenação de suas comédias. Quando Cipião Africano Menor sugeriu que poderiam ser colocadas cadeiras para os senadores e funcionários do Estado. Os hábeis entrecruzamentos de pessoas reconhecidas ou confundidas. 190-159 a. e os dramaturgos clássicos franceses e alemães adotaram as técnicas de Terêncio. 200 (Stichus) e 191 (Pseudolus). da supervisão de edifícios e vias públicas e respondiam pelo decurso harmonioso dos jogos. embora mais tarde o cargo tenha sido aberto a plebeus. vinte peças completas de Plauto subsistem. Lívio Andrônico e seus contemporâneos e sucessores tinham de arranjar-se com esses recursos primitivos.o estudo de caráter: o de um auto-atormentador em Aquele que castiga a si próprio. Não usavam máscaras e se distinguiam apenas pelas perucas. foi desenvolvida na época de Plauto para atender às exigências cênicas. Os edis (homens públicos) pagavam um subsídio público ao diretor do teatro (dominus gregis) para cobrir as despesas com atores e indumentária. os atores. táticas de ocultação e revelação de personagens e motivos tornaram-se exemplares. com uma cena típica da Comédia Nova: um pai furioso vai ao encontro do filho. Em Aulularia (O Pote de Ouro ou Comédia da Panela). não tornava fácil para o espectador descobrir a intrincada tecitura da ação. a cortina de fundo (siparium). 3 Relevo em mármore.

. situados de costas um 4 Teatro de Pompeu . Pompeu se impressionara muito com os teatros gregos durante suas várias campanhas marítimas e terrestres. dançarinas e gladiadores. dedicado à memória de seu Jovem sobrinho. Teatro de Marcelo Montanhas que explodem. Quanto menor era o palco. para os funerais de seu pai. A parede do palco é decorada com colunas e o auditório. 6. Por ordem de César. Ele havia construído um grandioso edifício. mas foi demolido após o final dos jogos. característica da construção do teatro romano. No alto. construído por volta de 80 a. mais tarde. e. as celebrações dos Ludi Romani estendiam-se por quinze ou dezesseis dias. de formato semicircular. para manter a moral nas fileiras romanas e entre os povos conquistados. Os assentos de pedra eram o lance de escadas que levavam ao santuário. Durante seu consulado em 55 a. teve de ser demolido. Reconstruções mostram que sua planta tornou-se. Consistia em dois teatros semicirculares de madeira. este teatro completo foi o primeiro a ter assentos para os espectadores. O teatro da Roma imperial queria impressionar.C. isto implicava amiúde pesadas frustrações para os poetas. erguem-se as íngremes empenas do templo de Vênus Victrix. Dominando todo o teatro como uma igreja medieval fortificada. foram acrescentadas outras duas entradas. eram a síntese e o exagero. mas que ainda não dispunha de nenhuma sala subterrânea para abrigar as jaulas de animais ou a maquinaria para erguer feras.o mais grandioso teatro dos imperadores flavianos . ironicamente. nas proximidades do Tibre. Nessa época. Foi construído por Pompeu. que no teatro de Dioniso em Atenas havia sido a condição de um culto religioso. Mesmo tardiamente. mais próximas umas das outras ficavam as portas.C. lutadores.. e assim Roma teve o seu primeiro teatro permanente. Como o palco era montado próximo ao circus e muitas vezes tinha de competir com corridas de bigas.C. amigo de Pompeu. O pano de boca que hoje faz parte de qualquer teatro do mundo.. O drama sozinho não oferecia campo suficiente para a exibição do poder e esplendor. em 58 a.C. tanto em questões de arte quanto de organização. abaixo do Capitólio. o imperador Nero assistiu sentado em seu lugar de honra apenas alguns anos antes de assistir ao incêndio da cidade do alto de seu palácio. o edil Emilio Scauro teve de curvar-se à lei que proibia a construção de teatros permanentes.. foi discretamente introduzido no ano 56 a.C.. Cinco anos após a morte de Terêncio. eram seguidas por “jogos” que forneciam diversões e sensações de todo tipo. O edifício foi terminado no reinado de Augusto e.. em 13 a. em 52 a. Brutos viajou a Nápoles a fim de recrutar “artistas dionisíacos” para os espetáculos teatrais greco-romanos que aconteceriam em todos os distritos urbanos de Roma. O Teatro na Roma Imperial O primeiro teatro de pedra romano deve sua sobrevivência a um ardil. tornou-se um pretexto diplomático no teatro de Pompeu. que podem também ser encontrados nas formas específicas do teatro romano. Usando de uma inteligente estratégia. situado na extremidade sul do Campus Martius (ainda é possível ver suas ruínas junto ao Palazzo Pio). Marcelo. é dividido em fileiras por dois grandes corredores e em seções em forma de cunha por escadas radiais ascendentes. ele precisava impressionar num império que abrangia desde o extremo norte da Germânia até as costas da África e a Ásia Menor. como os edifícios anteriores. chamada Casa em Chamas. Pouco tempo antes. depois de terminados os ludi. Antes de ser morto aos pés da estátua de Pompeu no ano de 44 a. ele afastou o perigo do teatro ser demolido depois dos jogos: acima da última fileira do anfiteatro semicircular. erguida por Escribônio Cúrio em Roma. ergueu um templo para Vênus Victrix. Um deles foi o anfiteatro de Pompéia.C. O segundo foi uma curiosidade teatral. o censor Cássio Longino construiu o primeiro teatro com colunas decorando a scaenae frons. num nível mais baixo (portae hospitaliae). O Anfiteatro: Pão e Circo Os dois traços característicos do Império Romano.C. O Coliseu . cenários e acessórios. para suas peças triunfais. Na verdade. mas. com trezentos e sessenta colunas e um auditório que abrigava oitenta mil pessoas. o auditório era fechado por uma galeria colunada e ornamentada com estátuas.. Esse expediente permitia aos atores entrar em cena vindos de cinco “casas”. em Roma. Júlio César autorizara a construção de um novo teatro de pedra. em 155 a. A presença dos deuses.. subsequentemente. em Roma. erupções vulcânicas e palácios que desabam sempre foram efeitos cênicos populares. O mesmo aconteceu com a caríssima estrutura de madeira erguida em 145 a. porém. O espetáculo recebeu aplausos entusiásticos. 5. Onde quer que as legiões romanas pisassem. por Lúcio Múmio.COLÉGIO JK Apostila – Arte Cênica – 2º Bimestre/2011 1ª Série davam acesso ao palco frontal por uma parede de madeira uma central (porta regia) e outras duas laterais. construído por Lúcio Cornélio Balbo. elas foram derrubadas por ordem do Senado. aliado e posteriormente adversário de Júlio César. uma casa realmente foi incendiada no palco.teve dois predecessores bastante díspares. a deusa da vitória.C. os romanos haviam testemunhado a inauguração de mais um teatro de pedra. obteve permissão das autoridades em Roma para edificar um teatro de pedra. Pompeu venceu.C. Numa fabula togata de Lúcio Afrânio. solução essencial para as cenas de rua de Plauto e Terêncio. presumivelmente por ordem de César.

COLÉGIO JK Apostila – Arte Cênica – 2º Bimestre/2011 1ª Série para o outro. provavelmente nascido em Trier. Nessa época. os plebeus. Nas cerimônias inaugurais do novo Anfiteatro Flaviano. canções do tipo music-hall. sacerdotes e vestais. como nas obras de Sêneca. suportes nos quais se encaixavam os duzentos e quarenta mastros que sustentavam os toldos. era realizado sem que os espectadores dos dois auditórios precisassem deixar seus lugares. no declive que ele havia enchido com água. alvo favorito das gozações dos camponeses iletrados. e terminada em 80 d. era apresentada uma peça diferente em cada palco. à tarde. içados por marinheiros da esquadra imperial. como segunda parte do espetáculo. na derrota. Seus muros abrigaram tudo o que correspondia ao show e ao espetáculo no sentido mais amplo da palavra. O Coliseu. Em sua arena fechada. a ênfase na programação teatral já havia passado tão radicalmente do drama falado para o show de variedades que atores atelanos. haviam se encaminhado em bandos. Na época de Augusto. acrobacias. solistas espirituosos. que compensava seu desajeitamento com uma afiada astúcia. havíeis perdido apenas vossos bens e posses. formassem um anfiteatro.. Aplaudiam aqueles que tentavam ganhar popularidade no anfiteatro com grupos espetaculares de artistas. Salviano. Nenhum drama de qualquer mérito literário foi jamais apresentado no Coliseu. Cinco mil animais selvagens foram mortos nessa ocasião. como o malicioso Maccus. acusava seus conterrâneos de haver pedido ao imperador que restabelecesse os jogos de circo “como o melhor remédio para a cidade arruinada”: “Eu acreditava que.. O milagre técnico. e o filósofo glutão e corcunda Dossenus. na direção de Roma. O drama romano exaurira sua eficácia teatral com Plauto e Terêncio. músicos e bufões. Embaixo da arena ficavam os túneis com as celas para as jaulas dos animais. Embora a Igreja cristã tivesse repetidamente reprovado o povo por “negligenciar os altares e adorar o teatro”. a fim de formar o lago em cuja margem construíra seu palácio. os atores da farsa popular da cidade oscana de Atela. e a quarta galeria. Ao longo da cornija superior dos muros externos encontram-se. jogos na arena. aos quais se juntaram mais tarde também os intérpretes romanos profissionais. A construção do Coliseu foi iniciada em 72 d. na Campânia. O auditório podia ser coberto por toldos de linho. segundo se conta. aproximadamente cinquenta mil pessoas lotaram o auditório para as lutas de gladiadores e o açulamento e matança de animais. Já no século II a. maquinaria para o manejo de decorações e . apresentavam-se lutas de gladiadores. A segunda galeria acomodava a nobreza e os oficiais. À rusticidade de suas máscaras grotescas correspondia à robusta irreverência de seus diálogos improvisados. números equestres e espetáculos com animais eram montados para divertir um público que vinha ao teatro com nenhuma outra qualificação que não fosse a de ser consumidor. os dois teatros eram virados para que. o bondoso Velho Pappus. As comédias e tragédias de seus sucessores eram artigos válidos apenas para o dia. É teatro que quereis. foi erguido no local que Nero incendiara. o imperador F1aviano Vespasiano. o roliço e simplório Bucco. a fim de protegê-lo contra o sol e a chuva. palhaçadas. Sob o governo de Domiciano. Mas o declínio do poder imperial romano havia diminuído o brilho do seu teatro. jônico e coríntio. ou. na primeira galeria ficavam os lugares de honra dos senadores e oficiais. pelo sucessor de Nero. Coliseu Romano mudanças de cenário. Os atores atelanos. mimos e atores de pantomima tinham pouco a temer na competição com atores dramáticos.C. intermezzi aquáticos. para o norte. a terceira os patrícios romanos. quatro galerias acomodavam os espectadores. Esquetes curtos. como também os encanamentos necessários para inundar a arena quando os espetáculos de batalhas navais (nau-machiae) estavam no programa. alternadamente. com colunas de estilo dórico. A popularidade de um novo cônsul crescia ou decaía com os espetáculos teatrais que organizava ao tomar posse do cargo na época do Ano Novo. incitamento de animais e bufões.C. que se estenderam por cem dias. a intervalos breves e regulares. cuja senilidade era objeto das mais crueis mordacidades. mas eu não sabia que havíeis perdido também vosso juízo e bom senso. Parece também ter havido uma colunata reservada às mulheres. a Casa Dourada. juntos. se achavam distantes do gosto de um público inteiramente sintonizado com corridas de bigas. os romanos não queriam ter nenhuma experiência intelectual marcante no teatro. Pela manhã. sempre derrotado. o sangue cristão correu no anfiteatro. dentro. revistas. é circo que exigis do governo?” Coliseu Romano 7. Queriam o show. Seu repertório modesto se apoiava em meia dúzia de tipos.. tinham 5 A construção externa se ergue em quatro poderosos pavimentos. primeiramente conhecido como Anfiteatro Flaviano. belos animais. num podium elevado. Além do camarote imperial. A Fábula Atelana O declínio do drama romano e a extinção da comédia abriram as portas do teatro estatal romano para uma espécie rústica de farsa conhecida como “ábula atelana”.C.

deverão primeiramente abandonar sua profissão”. O diretor e ator principal de uma troupe de atores e atrizes de mimos era chamado de archimimus. a partir de 22 a. A partir de 173 a. entretanto. Staatliche Museen). e a favorita dos Césares e do povo romano.C. A mima e dançarina que exibia sua flexibilidade acrobática na Florália. Mimo e Pantomima Ao contrário dos atores atelanos. Relevo em marfim de trier. era mais popular junto ao público do que ele próprio. com guizos na roupa. Embora haja sobrevivido à tragédia e à comédia.atrever-se a homenagear a deusa da natureza em flor despindo suas vestes. “Pode haver algo mais ridículo do que o Sannio”. A pantomima foi a estrela teatral das resplandecentes festividades do Egito sob o governo dos Ptolomeus. Quando Nero se deu conta de que o pantomimo e dançarino Páris. os gestos zombeteiros. As atelanas tiveram seu período áureo no século I a. Um astro da pantomima podia. o folgazão da Commedia dell’Arte. o Velho. as pantomimas passaram regularmente a ter o acompanhamento musical de uma orquestra de muitos instrumentos. numa plataforma de tábuas ou na scaenae frons do teatro. A improvisação exigia um equilíbrio muito preciso no fio afiado da palavra. careteiros. Como as peças satíricas da Grécia. Pilades era grego.. “para ajudar os espectadores a secar as lágrimas”. Foi graças a Pilades que. Nos Ludi Romani. um apelido que parece ter sobrevivido no Zanni. como a usada pelo Arlequim. conforme coloca um dos escoliastas de Juvenal. grotesco às apresentações de peças históricas sérias e às tragédias nos Ludi Romani. seu favorito e confidente íntimo. o mimo e a pantomima. houve tamanho protesto popular que ele foi obrigado a logo revogar a sentença e chamá-lo de volta do exílio. Dois homens de classes e origens completamente diferentes salientaram-se em Roma como escritores de “textos” para o mimo: o nobre Décimo Labério e o ator Públio Siro. Aproximava-se a grande era das pantomimas. era como os romanos chamavam os mimos. de sua mimesis. os mimos romanos não usavam máscaras. Os mimos representavam à beira da estrada.C. (Berlim. negou tanto ao mimo quanto à pantomima qualquer direito à redenção cristã em seu livro De spectaculis. O bobo vestia uma roupa de retalhos coloridos. se ela seguiria um texto literário ou se seria improvisada. A arte da pantomima é universal. o Sínodo provincial de líberis (Elvira). com a voz. um festival de primavera que durava vários dias. disse Cícero depreciativamente. especialmente na época dos imperadores e das competições por seus favores.farrapos.e tinha de poder . O mimo usava apenas uma sandália leve nos pés. como eles próprios o eram . tornaram-se uma ocasião para a arte teatral “íntima”. Sua linguagem sem palavras fala aos olhos.. Foi deixada ao critério do ator individual. século IV d.C. Mesmo o discurso era apenas um acessório. Seu papel mais brilhante era o de Agamenon. proteção imperial. o combativo oponente “de todas as perversidades pagãs do mundo corrompido”. desde o princípio. O presbítero cartaginês Tertuliano.C. . Quando o imperador Augusto baniu de Roma o pantomimo Pilades. Mais tarde. em Granada. É por isso que a arte da pantomima se espalhou de Roma para todas as regiões do império. E em 305 d. como os das pessoas que representavam. quando os dramaturgos romanos Pompônio e Nóvio resolveram dar forma métrica à farsa rústica e repleta de obscenidades. os Ludi Florales. que diferia do cothurnus do ator trágico e do socuts do comediante.ou seda e brocados. sua versatilidade e sua arte da imitação em resumo. davam um final cômico. e até mesmo com todo o seu corpo”. Mimo no papel de encantador de serpentes. também eles ficaram sujeitos à maldição da Igreja Cristã nascente. O mimo foi. A roleta do aplauso e da fama podia trazer o triunfo ou o aniquilamento. Usavam as roupas comuns dos homens e mulheres das ruas . declarou: “Se os mimos e pantomimas desejam se tornar cristãos. O mimo não necessitava de nada mais do que de si próprio. Marfim romano tardio. Saniones. superaram todas as outras formas teatrais. uma retaguarda alegre.C. oriundo da Alícia.COLÉGIO JK Apostila – Arte Cênica – 2º Bimestre/2011 1ª Série sua própria função nos festivais de teatro estatais. perder sua popularidade da noite para o dia. Era a essa arte de rir e provocar o riso que o mimo devia a sua popularidade em Roma. 8. na arena. Atores e atrizes de mimo foram celebrados e cortejados. o único gênero teatral em que a participação da mulher não era um tabu. quando conseguiam os favores de algum patrono rico. a farsa atelana perdeu terreno para o mimus na época dos últimos imperadores. dez anos antes do reconhecimento do cristianismo como a religião oficial do Estado romano. Especializou-se na pantomima trágica. ele tinha permissão para estender sua cortina branca através da cena e apresentar suas pilhérias nos intervalos entre as tragédias e as comédias. porém. na Ásia Menor. Em sua época. “que ri com a boca. e um chapéu pontudo. seguros da 6 Atriz da pantomima romana tardia segurando uma máscara trifacial. A arte do teatro havia se transformado na habilidade do intérprete. Era ele quem supervisionava a peça e determinava seu desenvolvimento. é a irmã de todas aquelas que têm exercido o atemporal ofício de agradar aos homens.. que podia . o rosto. mandou decapitá-lo sem cerimônias.

Sob o reinado do imperador Flávio Domiciano. O batismo. o cristianismo não havia sido apenas perseguido pelos imperadores romanos.baseou-se em circunstâncias históricas bastante reais. A máscara do asno. Mas os mimos se apegavam obstinadamente a temas cristológicos. Genésio foi vítima dessa perseguição. sem reclamar. mas ridicularizado pelos mimos. Uma religião cujo Redentor sofrera. também em alguma cidade da Ásia Menor. A peça terminou em horrível seriedade. estava fraca demais. BERTHOLD. Genésio. que expressava de forma visível a conversão ao cristianismo. ocorreu o seguinte incidente: o imperador julgou que a costumeira representação do mimo do chefe dos bandidos.COLÉGIO JK Apostila – Arte Cênica – 2º Bimestre/2011 1ª Série 9. à esquerda um homem ergue seu braço numa saudação. História Mundial do Teatro. e abaixo se lê a inscrição: “Alexamenos adora seu Deus”. Margot. 2000. através de Roma e Sizâncio. Uma figura com máscara de asno está na cruz. Zombava-se daquilo que. Cabe conjecturar que era um escravo a quem os outros ridicularizavam por ser cristão. sugere que o graffito seja baseado num mimo cristológico. Alguns mimos zombadores convertiam-se à nova fé. e o mesmo se diz do mimo Ardálio. como comprovam decisões dos concílios da Igreja que. um ano mais tarde. representa a paródia de uma crucificação. que data do século II ou III. M. símbolo da sátira cômica desde a mais primitiva Antiguidade. O caso mais famoso dessas conversões foi o do ator 7 .até criar uma nova forma de teatro própria . Parodiava-se aquilo que não se conseguia entender. no palco. era um tema. Em 275. que era crucificado no final. São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Perspectiva. monges ou freiras. até a Idade Média. O mimus é como uma linha que vai dos primórdios da Antiguidade. proibia que os mimos entrassem no palco como padres. Domiciano fez com que o crucificado fosse despedaçado por animais selvagens. na Capadócia. História Mundial do Teatro. o mimo Porfírio tornou-se cristão convertido em Cesárcia. o ridículo e a fé. destinada aos criminosos comuns. em outros aspectos. estava além da compreensão da massa. Essa garatuja primitiva. e a Igreja fez dele o santo padroeiro dos atores. já que não era protegida pelo Estado. a morte mais desonrosa. Um singular registro pictórico. no qual o intérprete de Cristo tenha tido que usar uma máscara como símbolo evidente de escárnio. Mimo Cristológico A severidade com a qual a Igreja Cristã se opôs a todas as formas de spectaulum por mil anos . o primeiro a derramar sangue cristão no Coliseu. Laureolus. com seu cerimonial característico. Fonte Bibliográfica: BERTHOLD. Era tão familiar ao homem da rua quanto ao erudito em sua mesa de estudo. 2000. O que podia ser mais tentador do que incorporar a figura do “cristão” à lista de tipos tradicionais? O mimo não fazia diferença entre parodiar os deuses antigos e expor ao ridículo os seguidores de uma nova fé. no reinado de Diocleciano e na época das mais severas e cruéis perseguições aos cristãos. Desde seus primeiros dias. estava de qualquer maneira destinada ao escárnio da população. descoberto nas paredes de uma casa na Colina Palatina. O mimo adulava igualmente os governantes e o povo. fornece provas das conexões entre o mimo e o martírio. que se converteu em Roma no ano de 303. Ele ordenou então que o papel título fosse dado a um criminoso condenado. já no decorrer do segundo milênio após a expansão do cristianismo no mundo ocidental.

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