Os Maias A obra-prima de Eça de Queirós, publicada em 1888, é uma das mais importantes de toda a literatura narrativa portuguesa

. Vale principalmente pela linguagem em que está escrita e pela fina ironia com que o autor define os caracteres e apresenta as situações. É um romance realista (e naturalista) onde não faltam o fatalismo, a análise social, as peripécias e a catástrofe próprias do enredo passional. A obra ocupa-se da história de uma família (Maia) ao longo de três gerações, centrando-se depois na última geração e dando relevo aos amores incestuosos de Carlos da Maia e Maria Eduarda. Mas a história é também um pretexto para o autor fazer uma crítica à situação decadente do país (a nível político e cultural) e à alta burguesia lisboeta oitocentista, por onde perpassa um humor (ora fino, ora satírico) que configura a derrota e o desengano de todas as personagens.

Inserção do Autor na sua Época

Não só de inserção, mas até de imersão apetece falar neste caso. Imerso na substância cultural da sua época, dela impregnado e alimentado, assim surge Eça de Queirós em tudo quanto deixou escrito. A crítica tem insistido com significativa frequência nesta intima relação do escritor com a sua época, que ele nitidamente reflecte nas atitudes de pensamento e de sensibilidade, ao mesmo tempo que a critica, às vezes com um jeito melancólico de distanciamento. Aliás, logo essa consonância com o tempo que vive, essa atenção ao acontecer e pensar do mundo seu contemporâneo, constitui um dos aspectos em que a personalidade do escritor melhor coincide com a mentalidade do seu tempo. O intelectual da segunda metade do século XIX, com efeito, vive agudamente a consciência da história; dir-se-ia que é o primeiro a ter, da aventura humana sobre a terra, uma larga visão, dinâmica e panorâmica; é um espirito atento ao fluir e refluir do devir histórico, e a cada momento busca, como o mareante que faz o ponto do navio, situar-se no largo mar do tempo. A história é o grande tema e o grande problema da cultura europeia oitocentista. E neste aspecto, o fino artista da palavra, sem ser historiador, revela-se mais integrado no clima cultural do seu tempo do que os outros que o foram. Porque não se trata de fazer história, mas de sentir a Historia. E na obra de Eça de Queirós domina, de modo incontestável, a historicidade das cenas, das personagens, das situações. Ninguém como ele para surpreender com agudeza a cor da época, o estilo inconfundível de um momento de vida, seja ele a lendária grandeza das eras

homéricas, ou o tempo- decorrido havia escassos trinta anos- daquela fantástica Coimbra onde se esboçava a primeira reacção contra «as literaturas oficiais», e que o humor e a saudade do romancista atira para uma distancia quase tão mítica como a da formosa ilha de Ogígia. Um escritor autêntico- é óbvio- não adere «de fora para dentro» a uma tendência, mesmo dominadora, da época em que vive. E se, como vimos, Eça de Queirós sintoniza de modo perfeito com o século XIX no penetrante sentido do tempo histórico, isso deve-se, em larga medida, à própria qualidade do seu espirito, extremamente sensível à especificidade das coisas, àquilo que, pela boca de Fradique, ele chamava «as linhas exactas, o verdadeiro contorno da realidade», ou o «exacto, real e único modo de ser» de cada fenómeno. O sentido dos estilos- na mais ampla acepção do termo- tão peculiar da obra queirosiana, é assim ao tempo tendência de uma personalidade de artista e tributo pago ao historicismo absorvente desse século XIX em que tão profundamente imergiu. Este historicismo surge alias como corolário do vasto movimento de ideias, espécie de explosão cultural a que o século assiste. As ciências da natureza descobrem então, com Darwin e Haeckel, para não lembrar senão dois nomes indispensáveis, perspectivas insuspeitáveis sobre a origem e a evolução da vida; as ciências do Homem, a antropologia, a sociologia, a filosofia, algumas recém-criadas, lançam o europeu na devassa do passado humano, na busca das origens, ou na dedução das leis que se supõe regerem as sociedades. No plano artístico, a descoberta ou revalorização de motivos que o Romantismo aflorava sem chegar a aprofunda-los –tudo isso aliado às novas praticas políticas e às novas técnicas que aceleram o movimento editorial, intensificam a escolaridade e assim contribuem para uma decidia democratização do saber –vai criar, ao longo do século, uma espécie de deslumbramento, quase a idolatria da chamada cultura. Também neste aspecto Eça de Queirós se insere harmoniosamente na sua época –pois a cultura não só condiciona, como é natural, a sua criação artística através das vastas leituras e várias influencias que recebeu, mas é em si mesma um tema e um problema constantemente retomado na sua obra. Eça desperta, por assim dizer, para a vida literária, sob o signo do romantismo. E esse signo o marcará toda a vida, através da diversidade de encontros e descobertas intelectuais que irá realizando. Ao leitor menos prevenido poderá parecer paradoxal que isto se diga de um escritor que se define como mestre e de certo modo iniciador do realismo em Portugal; se não participou na ofensiva contra Castilho, em 1865, respirou pelo menos o ambiente espiritual onde se gerava esse ataque; de um escritor, em suma, que pertenceu à chamada «geração de 70». Mas o próprio Eça, alem do testemunho indirecto que nos deixou, reiteradamente afirma, ao longo da sua vida, a importância que no seu destino de artista teve o Romantismo, não tanto enquanto estética literária como enquanto sensibilidade, atitude perante si mesmo e perante o mundo. Aliás, para se compreender o alcance desta afirmação aparentemente paradoxal –que o grande realista ficou afinal sempre marcado pelo Romantismo- necessário se torna ter presente a complexidade do momento em que o nosso autor se inicia nas leras: Romantismo e Realismo/ Naturalismo não se sucedem, naturalmente, de forma rigidamente delimitada; e naqueles anos do

meio século XIX justamente coexistiam na Europa formas extremas de inspiração romântica com afirmações cabais de um novo sentido para a literatura e a arte em geral. Importa por outro lado observar que «o romantismo continha em germe o realismo». A escola de Coimbra não foi a principio uma aberta reacção anti- romântica; aquela geração, a de Eça, vivia ainda o culto de muitos valores românticos –o idealismo, a visão simbólica da Historia, o mito da alma nacional, tão presentes em Teófilo e Antero. De realismo (termo que em França surgira pela primeira vez em 1843 e que o êxito- escândalo de Madame Bovary (1857) definitivamente consagrara) quase não se fala ainda, em toda aquela Questão de Bom- Senso e Bom Gosto. Os mentores do grupo denunciam, sim, o alheamento acéfalo em que a literatura portuguesa se mantinha dos grandes problemas do seu tempo, mergulhada ainda, como dizia Balzac a respeito do romance da sua época, nas mélancolies langoureuses de 1820 ou nas exagérations colorées de 1830 – numa palavra, no que esses jovens consideravam estafados lugares- comuns da maneira romântica. Aquela geração não recusava, antes pelo contrário reconhecia e estimava a herança genuína do primeiro romantismo português; admirava a naturalidade elegante e o nacionalismo esclarecido de Garrett (de quem Ramalho Ortigão ficaria devoto fiel) e a austera inteireza, o verbo solene de Herculano (a cuja influencia Antero pagou o seu tributo). Mas não ignorava que os tempos tinham mudado, que as letras pátrias tinham malbaratado a lição desses grandes mestres, e que urgia –como aliás aconselhavam todos os românticos desde Madame Stael, -fazer da literatura a expressão dos novos tempos. Nesse espirito de revitalização do Romantismo se deve entender a poesia juvenil se Antero, tanto as Odes Modernas (1865) como até em parta a recolha que só anos depois publicaria sob o titulo, já então critico, de Primaveras Românticas. Nessa poesia –daquela que Eça dizia ter-lhe ouvido declamar por certa noite de luar nas escadas da Sé Nova –o culto da energia e do esforço contra a melancolia paralisante, a esperança numa aurora de justiça e de verdade, a rebelião contra um passado de opressão e obscurantismo são a seiva que vem fazer reflorir numa sonhada primavera o velho tronco romântico, onde se corria então uma linfa débil de saudosismo e sentimentalidade deliquescente. Isto é, se aqueles jovens recusavam o romantismo postiço e arcaico de Castilho nem por isso eram, em 1860 ou 65, menos românticos: só que o romantismo deixara de se confinar, depois das revoluções de 1830 e 48, em França, ao lamento lírico da alma individual: animava-o um empenho de progresso, um largo humanitarismo proudhoniano, uma indignação huguesca contra todas as tiranias, uma crença ardente na Revolução e, já sob a influência de Comte, na Humanidade. Eça no entanto –e não é apenas o seu testemunho directo que o afirma, mas a sua obra daqueles anos que o revela –mantinha-se alheio a esse tipo de renovação. O seu romantismo daquela época (os anos em que planeia ou esboça as primeiras prosas que mais tarde chamaria «bárbaras» ) não é nem dos primeiros românticos portugueses, nem, evidentemente, o ultra-romantismo já cediço, a caduca e académica inspiração da «escola de Lisboa». Mas também não se identifica com o das Odes Modernas ou o das Tempestades Sonoras. Mais artista e mais divagante, mais ávido de novidade e de sensação do que qualquer dos outros, Eça vai haurir a sua inspiração em filões mais poéticos e descomprometidos do que as fontes austeras em que bebiam Antero e Teófilo (a filosofia

com o seu mundo perverso e lânguido. sob o titulo Antero de Quental) esboçou a largos traços vivos o panorama do momento cultural em que decorreram os anos da sua formação coimbrã: «Cada manhã trazia a sua revelação. e creio que já Darwin. Por todos os botequins de Coimbra não se celebrou mais senão essa rainha de força e graça. Conhecer os princípios das civilizações primitivas constituía então. (que cita em primeiro lugar. a verde Erin. (. e Goethe. e Balzac. nas páginas tantas vezes citadas do In Memoriam de Antero (reproduzidas em Ultimas Páginas. seduziam-no o lirismo humorístico e doloroso de Heine (em tradução). um distintivo de superioridade e elegância intelectual. inteiramente desregrados e vãos. todavia. todo o amor se exala em canto – não houve moço que não planeasse um grande poema cíclico para imortalizar a Humanidade. vasto como o universo.. Era Michelet que surgia. lírico de raiz. as criações eternas de Mefistófeles e Margarida. e Heine. Coimbra de repente teve a visão e a consciência adorável da Humanidade. além do amor do exotismo colorido. escrito bons trinta anos depois da época a que se refere. fornece dessa época a visão entre irónica e internecida do homem maduro. talvez no seu inalterável amor pela evocação histórica). o amor à Irlanda.. por essa época. E como num meridional de vinte anos. o sentido épico da História humana. Mas é duvidoso que tivesse grande trato com a filosofia de Hegel. a Légende des Siècles e as Orientales de Vítor Hugo acordavam nele. por cima dos Pirenéus moralmente arrasados. se amara Elvira. «Nesse mundo novo que o Norte nos arremessava aos pacotes.. que evoca «de memória». como há pouco. tornado profeta e justiceiro de reis.. no Fausto de Goethe. displicentemente. este texto. largos entusiasmos europeus que logo adoptávamos como nossos e próprios: o culto de Garibaldi e da Itália redimida.. só veio realmente a ler anos depois em Lisboa. mãe dos santos e dos bardos. escrita (para ser publicada na Gazeta de Portugal) em 1867 –isto é. os doutrinadores socialistas franceses. E outro bom sinal do despertar do espirito filosófico era a nossa preocupação ansiosa das origens.e ainda recordo o meu deslumbramento quando descobri esse imensa novidade –a Bíblia! Mas a nossa descoberta suprema foi a da Humanidade. o jovem Eça deslumbrava-se sem duvida com a leitura do pitoresco e sugestivo Michelet. trabalhado já pela experiência da vida e dos livros. já é um louvável começo discorrer sobre ela em poemas mesmo pueris. e já. e Poe.. É na verdade bem diferente o tom em que. Mas nem por isso as suas leituras são menos insólitas e revolucionárias em relação à modorra literária nacional. a violenta compaixão da Polónia retalhada. fazíamos por vezes achados bem singulares: .». O próprio Eça. pisada pelo Saxónico!.) E ao mesmo tempo nos chegavam. no ultra-romantismo. os entusiasmos culturais da sua geração mais do que os seus próprios. ele mesmo o revela. vestida de cassa branca ao luar. porque se o fim de toda a cultura humana consiste em compreender a Humanidade.alemã contemporânea. a Humanidade. logo após a conclusão da formatura e saída de . Que encanto e que orgulho! Começamos logo a amar a Humanidade. as fantasmagorias de Poe.) Não éramos. como nos seus coetâneos. como um sol que fosse novo. a inspiração bíblica e profética de Herculano-Lamennais). na Carta já citada a Carlos Mayer. a esmeralda céltica. Com efeito. e quantos outros! (.. por instâncias de Antero). em Coimbra.. e Hugo. as teorias de Darwin ou a doutrinação de Proudhon (que. e Hegel e Vico e Proudhon. sem duvida.

os clássicos do passado.. por então o que vinha ao de cima e se moldava nas formas exuberantes e originais da sua prosa juvenil eram os sonhos dos grandes poetas românticos: os vastos quadros de pitoresco e difusa grandeza das origens. Goethe e Cervantes. purificadora e consoladora». e aos do seu grupo. João. as suas leituras favoritas desse tempo. os opositores que declara defrontar não são os escritores realistas. ao falar de clássicos e românticos.. a visão pampsiquista da natureza. ele e os seus amigos pertenceriam não tanto ao período romântico como à «família» dos espíritos românticos. S. naturalmente. No entanto. fosse pouco a pouco sendo decantada. nem mesmo os ultraromânticos de Lisboa: são. seduzira profundamente o .. em que se mistura o requinte baudelairiano da podridão. contemplativa e doente. como se de águas passadas se tratasse. á maneira do critico francês Sainte-Beuve que de certo já lera. (. o sentimento –vagamente haurido em filosofias orientais e doutrinas cientificas modernas apanhadas no ar –da incessante transformação da matéria. quando já em França se desencadeara o que se chamou «la bataille du Réalisme». que. «uma aurora serena. moderno. um gosto do macabro e do fúnebre. Isto é: naquele ano de 1867. ansiada. categorias universais do espirito humano: assim. as poéticas imaginações das mitologias nórdicas. Aí está como explica toda essa geração moderna. Rabelais. Dante. de que ainda não dá noticia. as fantasmagorias mefistofélicas. neste texto.. contra os quais se erguem os bardos dos novos tempos. Eça expressamente se inclui. o moço folhetinista evoca.. Nessa carta. A figura de Jesus Cristo. e embora toda a vasta aluvião cultural. sobretudo quando a primeira febre se chama Julieta e a última Margarida!». os seus entusiasmos de então (que. no dizer do autor.) Qual vale mais? Esta doença magnifica. aplicada à época e à figura de Cristo. parece ter em mente não tanto classificações de história literária como. Fosse como fosse. dizíamos. nas fileiras dos românticos. Mas. segundo o romancista afirmava em 1867. em que o autor e a sua geração são assumidos como personagens de ficção. clara. assim caoticamente derramada sobre ele na juventude. mais literária do que vivida. Renan. que o são e foram independentemente do momento cultural que vivem. nostálgica. Mas em breve outras influencias vieram sobrepor-se –sem as apagar em definitivo –às leituras apaixonadamente absorvidas nesta primeira fase. a darmos crédito a esta carta-folhetim tão exaltada e às vezes quase delirante. febril.. nessa carta. imensa. era para aqueles moços. sobretudo. curiosamente. com a sua Vie de Jésus (1863) revelou a Eça o caminho da reconstituição histórica e rigorosa. ainda não teriam mudado naquele curto espaço de tempo). ou a saúde vulgar e inútil. de uma serie de transmigrações que levam a alma a percorrer a escala dos seres criados. se quiser entender a evolução literária do jovem Eça e a influencia da cultura contemporânea sobre a sua formação. que se goza no clima tépido que vais desde Racine até Scribe? Eu prefiro corajosamente o hospital. e sedimentasse no espirito do moço escritor. e que deve ser lida na íntegra e reflectidamente. Eça de Queiroz. E tudo isto sobre um fundo de espiritualidade cristã. por pertencer a essa família de espíritos que se define em termos exaltados: «. de acordo com métodos positivistas. o humor negro de Heine e de Poe.Coimbra. eram os astros –Shakespeare. ainda um jovem escritor português se considerava vanguardista. importa sublinhá-lo.os que desceram às regiões românticas ficaram com a alma doente.

lançado assim a doutrina da «arte pela arte» . profundamente imbuído do seu sentido da História e do valor da cor de época. as interpretações e deturpações que esta sofreu ao longo do tempo são assim. vir a dar lugar. corresponde a mais uma dessas prontas respostas que a personalidade do escritor sempre deu aos estímulos da cultura europeia do seu tempo. fazendo da arte veiculo de doutrinação moral e política. projectando a religião na pura historicidade. Saturados de desabafos sentimentais como de declarações filantrópicas e revolucionarias. nas últimas décadas do século. sob o titulo de A Morte de Jesus. como contra a tendência (posterior sobretudo ao movimento revolucionário de 1830). historiador das religiões. empenha-se na reconstituição da Judia do tempo de Cristo. Tudo isto. com efeito. se atentarmos bem. e vemos o empenho na busca das origens. e depois incluídos nas Prosas Bárbaras. inerente à mentalidade positivista. Durante os anos de formação académica de Eça afirmara-se definitivamente em França a corrente estética conhecida por parnasianismo (em 1866 saía em Paris o 1º volume do Parnasse Contemporin –recueil de vers nouveaux).isto . Ao longo do século XIX. durante todo o século XIX. e. para atribuir à literatura uma função cívica. um tema que não perde a actualidade. no prefácio do seu livro de poemas Les Orientales proclamava a «inutilidade» da poesia. se exprime nesse oscilar entre fé e negação. se vem reflectir na obra de Eça de Queirós. o culto dos valores cristãos reencontrados em toda a sua poesia melancólica ombrear com o espírito «filosófico» dos enciclopedistas nunca de todo extinto. aplicado à interpretação histórica e critica do facto religiosa ao qual se nega toda a dimensão sobrenatural. Cristo. com a violência anticlerical. justamente sob a influencia de Renan (que poucos anos antes visitara também a Palestina) e da Salambô de Flaubert. busca de uma certeza factual que. a sua mensagem. instrumento de progresso e justiça social. o ódio à igreja instituição humana. dos poetas do Parnaso. De regresso da sua viagem ao Egipto. e logo empenho de reconstrução da Cidade de Deus. que lhe insulara o gosto da narrativa «arqueológica» de caracter ao mesmo tempo pitoresco e erudito. o virtuosismo poético que aparece como nota comum às obras. escreve as páginas brilhantes e nítidas das suas impressões do oriente. E não podemos deixar de observar que também neste aspecto –a leitura do Cristianismo e da figura do seu fundador –Eça nos parece bem integrado no seu tempo. nome então extremamente prestigiosa de hebraista. vemos a comovida espiritualidade dos românticos. escrevendo. a poesia das crenças primitivas. ressoador sensível de todas as vibrações culturais do seu tempo. vinha-se impondo na literatura francesa desde há algumas décadas: surgira em pleno romantismo como reacção tanto contra o lirismo confidencial. e a um desejo de renascença cristã. transbordante e fácil. em 1869. e logo nostalgia das crenças perdidas e aspiração a um bem que não é deste mundo. os jovens poetas de 1830 pretendiam restaurar o primado da beleza formal. «espontâneo» até ao desleixo. através de uma revitalização e actualização da vivência do Engenho.seu círculo de amigos no tempo de Coimbra. a sátira tremenda ao catolicismo romano sobretudo posterior à Contra-Reforma. O culto da forma. em outros aspectos bem diferenciadas. A admiração por Renan. a transcendência. Vítor Hugo. a um novo despertar para o mistério. dispense a fé. filólogo segundo os novos padrões de inspiração alemã. critica demolidora das instituições e dos costumes religiosos. uma série de folhetins publicados na Revolução de Setembro em 1870.

que se configuravam naturalmente na forma escultural. a evocação dos mitos e dos deuses mortos. cujo timbre é sem dúvida o apuro formal. e compreende-se que uma literatura inspirada pelo culto da ciência. A sua adesão à estética parnasiana. Não se pede ao poeta que seja panfletário nem demagogo. teve particular importância o desenvolvimento que as novas concepções vieram dar à investigação e critica histórica: como vimos está na ordem do dia a historia da humanidade. a partir do meio do século. para a literatura. o culto fanático da forma irrepreensível. tersa e máscula do verso parnasiano. tivesse o horror das ideias vagas expressas em formas descosidas e fáceis. vêm afinal ecoar as grandes inquietações intelectuais do século. cujo progresso fora espectacular. alheia a quaisquer preocupações de intervenção na vida prática. tomando como modelo as ciências da natureza. ele mesmo a descreve com a ironia e o distanciamento habituais («éramos assim em 1867»). traduzida em poemas cíclicos. em suma. que Eça risonhamente aponta como moda epidémica da sua geração. expressa numa rigorosa exigência de perfeição formal. Eça reflecte na sua obra o duplo pendor do século. a cultuar europeia. Mas. surgira das ruínas do Romantismo como sua derradeira encarnação. texto onde o eu do autor é tratado como personagem-comparsa. ao evocarem-se «os santos entusiasmos com que nós recebíamos a iniciação dessa Arte Nova. Assim. Ao longo de todo o restante século XIX veremos manifestarem-se na literatura europeia estes dois modos de conceber a arte: como busca desinteressada e gratuita de beleza. e como veículo de ideias e agente catalisador do processo histórico. a caminhada gigantesca da História. chegada. mesmo quando parece pretender limitar-se a uma objectiva e impossível analise da realidade. a pesquisa das suas origens e a explicação do seu processo evolutivo ao longo dos milénios (aquela paixão da Humanidade. o repúdio do sentimentalismo confessional. nos começos do segundo império. à idade cientifica. mas também instrumento de intervenção. exaltante aventura no mundo das formas. A admiração juvenil pelos grandes mestres do parnasianismo. segundo o pensamento de Comte. pelo menos expressão de um julgamento moral sobre a vida e os homens. que intervenha na vida prática –mas também não poderá ser um mero cinzelador de brincos verbais. de uma arte que valia apenas como criação de beleza. chegara-se. a pintura dos grandes movimentos de povos. a uma síntese destas duas tendências aparentemente opostas. Nos anos em que o nosso romancista iniciava a sua carreira literária. e que nos era trazida em Poesia pelos versos . que em certa medida parece corresponder a exigências íntimas da sua natureza: a literatura será para ele exigente busca da beleza. de certo modo. Théophile Gautier e Leconte de Lisli. A ciência torna-se uma nova fé. Penetrado pela mentalidade positivista que domina. ofereciam aos artistas grandiosos temas. o poeta sente-se interprete das aspirações e esperanças da Humanidade.é. A visão do passado humano. é uma expressão lírica desse pendor positivista). Baudelaire. e procurasse um verbo exacto. sobre o qual actua. e todas as disciplinas do saber aspiravam a organizar-se «cientificamente». aparecem como traços dominantes desse esboço. nítido e rigoroso. que em França. pela nova idolatria das leis e dos sistemas. a busca de uma beleza serena e marmórea. em traços levemente humorístico. na poesia parnasiana. na longa introdução à Correspondência de Fradique Mendes.

Não tornei a ler Baudelaire. o erotismo hipocritamente angelizado. como última e indesejável emanação do Romantismo.» . crítico e historiador literário de formação positivista.. e.que Antero de Quental e o seu grupo apresentavam como programa de renovação nacional. a beleza inédita e rara da Forma. Isto é. pelo menos subordiná-lo a novos objectivos. naqueles tempos de delicado sensualismo. e por isso bem adequada às aspirações do século.» Em 1871. a pintura do real pressupõe uma técnica perfeita e conduz assim à criação de objectos de beleza. contagiada que fora a literatura pelas ingentes preocupações do século «cientifico» e historicista. Eça repudia abertamente a ideia da arte pela arte. ao qual por então ataca frontalmente. cuja Histoire de la Littérature Anglaise se publicara em 1863. a retórica balofa dos lugares-comuns humanitaristas e patrióticos –em suma. e de outros menores. (. Essa pintura da verdade. a um julgamento de valor. que se desejava objectiva e imparcial. Mas estas preocupações de doutrinação moral e cívica. eis realmente. o Realismo opunha a pintura objectiva. e o romance de Gustave Flaubert Madame Bovary (1857). da política e da vida social: essa ideia era Revolução. melhor fui conhecendo os homens e as coisas. «alguns anos passaram. . em breve iria o jovem escritor.continua o romancista na citada introdução à Correspondência de Fradique Mendes»trabalhei. Como já fizera Proudhon. porque posta ao serviço daquela revolução –acção pacífica» .. Era o sentimentalismo plangente. de Coppée. de Baudelaire. Com efeito. todo o meu interesse e todo o meu cuidado!». Eça propunha que a literatura se inspirasse na mesma «ideia-mãe» que se ia impondo por toda a Europa nos domínios da ciência. implicitamente retomado pela condenação do vicio e pela exaltação proudhoniana do trabalho e da virtude. Perdi a idolatria da Forma. de Mallarmé. Mas esse culto da beleza. um dos paladinos do Realismo na pintura. defende um conceito de arte comprometida. A essa literatura enervante e empobrecedora. viajei. do meio e da circunstância histórica –e a partir desse conceito denunciava a inautenticidade da literatura que se cultivava então em Portugal e que de modo nenhum correspondia nem às características nacionais nem ao espírito da época.) A Forma. empenhada em surpreender a verdade sem imposturas. se não ultrapassá-lo. se condenavam a arte pela arte. conduzira no entanto. Na sua conferência O Realismo como nova expressão da arte. de Dierx. uma arte que busca retractar a autenticidade especifica de cada fenómeno necessita de meios de expressão extremamente aperfeiçoados. considerava agora a obra de arte como produto da raça. sob a influência de Proudhon. a «impostura oficializada». como exemplos dessa nova arte baseada na observação do real. capazes de captar e restituir com nitidez e relevo a realidade sentida no seu modo único e inconfundível de ser. como é sabido. que aliás. Eça apresentava os quadros de Courbet. ao participar no ciclo das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. influenciado pela literatura de Taine. não excluíam a exigência de apuro formal: pelo contrário. já na segunda geração parnasiana e nomeadamente em Leconte de Lisle aparece menos gratuito. contrariamente ao imoralismo que muitos lhe assacavam.de Leconte de Lisle. analítica e rigorosa do real –especialmente da sociedade contemporânea –a busca da verdade sem idealizações deformadoras nem indiscretas expansões de sentimento individual.

Só que. dans son action individuelle et sociale» E. dessa visão determinista que conduziria à criação do romance naturalista: nesta perspectiva. através de tudo. as leis fisiológicas ou sociais deduzidas da observação da realidade. política. por meio da historia narrada. enquanto Flaubert se recusa a aceitar que a obra de arte sirva de tribuna a qualquer doutrina –filosófica. moral ou outra –e. O inquérito a um meio social restrito. «Au bout». cujo subtítulo vale um programa: Histoire naturelle et sociale d`une famille sous le Second Empire. Dai a preferência pelo tema da hereditariedade – fatalidade biológica –que serve de espinha dorsal à longa série de romances de Zola Les Rougon – Macquart (1871-1893). Quando. denunciando os vícios e . a preocupação com a influencia exercida pela hereditariedade. ao fazer a apologia do Realismo. estas ideias tinham dado já em França abundantes frutos. o romancista tornava-se um agente do progresso da sociedade. incluindo a educação –são tributos pagos pelo jovem romancista à voga do naturalismo naqueles anos. o temperamento e o meio. e os primeiros volumes dos Rougon-Macquart. e ofuscados pelo requinte de uma expressão sabiamente trabalhada. os ataques daqueles que iludidos pela impassibilidade de cientista assumida pelo escritor ante o seu tema. A concepção de literatura expressa nesta conferência de 1871 virá em breve a ser ilustrada pelo escritor na sua criação romanesca. o espírito científico convidava à observação in vivo –de modo que . pedagógica da literatura. na sua conferência do Casino. faz da qualidade da expressão o primeiro cuidado do romancista –Eça. Eça publica a sua primeira narrativa de cunho realista. o naturalismo preconizava a criação do romance a que Zola chamava «experimental». dá naqueles anos a prioridade à missão social. por isso se França e por vezes já em Portugal. a Humanidade cedia o passo à sociedade. com o seu ardor e a sua viva receptividade. em França. Aliás. por influência de Taine. la connaissance scientifique. Entretanto. Eça aparece já tocado. «il y a la connaissance de l´homme. viam no Realismo um mero processo formal. dando assim a conhecer ao público a verdade sobre o homem e o meio. O naturalismo. sobretudo no caso português). Inspirado nas ciências da natureza. o conto Singularidades de Uma Rapariga Loira. divulgava-se. de raiz positivista. em 1873. como tema literário. escrevia Zola. mantém-se o empenho assumido pelo grupo das Conferencias de contribuir para a renovação da mentalidade portuguesa. condicionada de maneira decisiva por circunstâncias que lhe são exteriores. proclamado que «le but de l`art est le beau avant tout». E. já o realismo descomprometido e artístico de Flaubert ia desembocando no Naturalismo. com os irmãos Goncourt e sobretudo com Zola. a sociologia. a exaltação romântica que ainda lampejava nas grandiosas evocações históricas dos parnasianos ia-se apagando: a «questão social» avolumava-se a nova ciência que Comte fundara. intentará demonstrar a tese de que toda a conduta e destino humano são produto da fisiologia e do meio social. A este tempo. quanto ao espírito e quanto aos métodos. na esteira da literatura realista naturalista (é difícil delimitar com exactidão os dois termos. Eça lançou-se. a obra literária é determinada. e cujo objectivo consistia em verificar. Estava publicada quase toda a obra dos Goncourt. empenhado com o seu grupo numa tarefa de revolução cultural.

A literatura. “tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos factos e da experiência dos fenómenos o espirito não pode obter nenhuma soma de verdade. é certo. . são formidáveis empecilhos. os Basílios. mas os Acácios. num borrão a lápis: Eça apercebeu-se por certo do dogmatismo esquemático que as informava. que se propunha. jornalista ensaísta de mérito que havia de colaborar na Revista de Portugal. pelos meios experimentais. É desse ano o prefácio –de que só Padre Amaro. de uma ignorância retrógrada e de um sistema político inepto e corrupto. atribuía-as nesse tempo. cujo método experimental servia de modelo ao labor literário do autor dos Rougon-Macquart. escreve em 1878 a Teófilo Braga. é para Eça uma forma de combater e um acto de pedagogia: «.O Primo Basílio». «não está inteiramente fora da arte revolucionária. em carta a Rodrigues de Freitas.» Pela mesma altura.) Desde que se descobriu que há no mundo uma fenomenalidade única. As dificuldades que sentia em se confinar ao modelo do romance «experimental».» E deduz que só tem dois caminhos –ou regressar a Portugal. é todavia a grande evolução literária do século e destinada a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. um perfeito resumo social. Dir-se-ia que foram escritas num esforço de autoconvencimento. são uma bem bonita causa de anarquia no meio da transformação moderna. que ainda hoje méconnu e caluniado.. uma sociedade de convenção. Aí. tinha simplesmente de observar. em lugar de passar para os livros. por processos puramente literários e a priori. vou descrevendo.. talhada de memória. em lugar de imaginar. nas feições em que ele é mau por persistir em se educar segundo o passado». (. Amaro é um empecilho. Não terá sido por acaso que estas páginas ficaram inéditas. Na realidade. naqueles anos 70.. refrear o voo livre da imaginação. assumia o mesmo tema num tom mais decididamente militante: «o que importa é o triunfo do Realismo. na França republicana e socializante.estigmatizando os ridículos de um romantismo atardado. E conclui afirmando Claude Bernard. refugiar-se na «literatura puramente fantástica e humorística». os Ernestos.. em arte. ao afastamento em que vivia do Portugal que desejava retractar: «Longe do grande solo de observação. como do discípulo que repete a «sebenta» do mestre. para trabalhar «por processo experimental». como o positivismo é a forma experimental que toma a filosofia. médico e Biólogo contemporâneo. o romance. E concluía afirmando que o realismo «é um auxiliar poderoso da ciência revolucionária!» O romancista parece animado de uma confiança sem sombras na excelência da doutrina literária que então atingia o seu apogeu. depois de se defender da infundada acusação de ter plagiado o livro de Zola La Faute de l´Abblé Morret ( e foi essa a única parte que veio a publicar). O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno. Eça proclamava com desenvolta segurança a superioridade do naturalismo: «O naturalismo é a forma científica que toma a arte. o feitio literário do escritor que se estreara com os folhetins apaixonados da Gazeta de Portugal ficara sempre constrangido na gaiola estreita do determinismo positivista. merecem partilhar com o Padre Amaro da bengala do homem de bem. que a lei rege os movimentos dos mundos não difere da lei que rege as paixões humanas. creio.

Reclama hoje ao mesmo tempo a direcção intelectual e a direcção moral das sociedades. Aliás. Para o final do século. vinha associar-se em muitos espíritos um desgosto da civilização contemporânea. Este desgosto da hipercivilização. entra em crise como a doutrina filosófica que o inspirava. E o excesso de cultura acumulada. por sectores socioprofissionais –concedia a si próprio. destituída da categoria de quase religião que o contismo lhe dera. enquanto arduamente persistia na intenção de realizar uma obra (as Cenas Portuguesas ou Cenas da Vida Portuguesa) que correspondesse ao modelo naturalista de estudo da vida contemporânea. a busca do mistério. ele se esforçava por subalternizar (no caso do humorismo)ou abafar mesmo (no caso da fantasia). A Relíquia e a maior parte dos contos postumamente publicados em volume. remedeio. Era sem dúvida prodigiosa a transformação operada nas condições da vida material pelos novos inventos. na teoria poética dos . que naquela época. com a irisada fantasia e o humor inimitável. marcada pela arrancada do progresso técnico. o matemático Poincaré afirmava humildemente que a ciência «é antes de mais nada uma classificação. a civilização moderna. O espírito humano tendia cada vez mais a procurar fora da ciência as respostas para a inquietação que o trabalhava. Por outro lado. As suas qualidades de fino observador combinam-se aí. eram na realidade constantes da sua personalidade de artista. limita-se a ser «um sistema de relações». acelerara-se prodigiosamente no último quartel do século e abria agora perspectivas insuspeitadas sobre a complexidade do universo: a luz da ciência. à medida que se erguia. como queiram os positivistas. Mas. sob a influência dominadora da atmosfera cultural que respirava. mas enquanto os benefícios da transformação não atingiam os mais desfavorecidos da fortuna. aparecia aos espíritos requintados como uma detestável ameaça de vulgaridade e monotonia. considerava como «refúgio». em lugar de esperar dela. As certezas positivistas eram abaladas cada dia pelas descobertas feitas sobretudo nos domínios da física e das matemáticas. não tardaria que os ventos da cultura europeia virassem. o naturalismo. a fim de realizar cabalmente o programa de escola. Assim escreveu O Mandarim. escrevera o físico Berthelot. aos 33 anos. marca muitas das páginas de Eça de Queirós na última fase da sua carreira.» Agora. uma maneira de aproximar factos que as aparências separam». algumas fugas de fantasia e humor. o progresso servia apenas para acentuar de forma clamorosa as desigualdades e injustiças sociais. os milhões de páginas impressas sobre todo o divino e todo o humano despertavam o sentimento de que nada mais havia a dizer de original e de novo. O avanço da ciência. «A ciência». nas pausas desse trabalho sempre interrompido e sempre exasperante. um renovo de idealismo que se afirma. expressão literária do positivismo. a fuga a um que se vai estandardizando. que no meado do século conduzira ao orgulhoso sentimento de confiança nas leis imutáveis da natureza e no homem que as soubera deduzir.A fantasia e o humor que. uma verdade definitiva da qual surgira no futuro a felicidade e a concórdia entre os homens. A esta despromoção da ciência. sentimento tão característico do fim-de-século. soprando já de feição àquelas tendências do seu feitio de artista. numa rara síntese. uniformizadora e descaracterizadora. revelava cada vez melhor a imensidão dos problemas e o carácter provisório dos resultados. A literatura reflecte a rejeição do positivismo e do cientismo. «é a benfeitora da Humanidade.

. que de longe lhe acenava ainda. aquele onde é mais notável a viragem: «É uma outra e renovada ansiedade de descobrir. saturado de racionalismo e de experiências culturais. sob qualquer forma. de achar um principio superior que promova e realize no mundo aquela fraternidade de corações e igualdade de bens.. os motores explosivos e a série dos éteres não bastam a calmar e a dar felicidade a estes corações moços. dá numa das suas crónicas reunidas do volume póstumo Notas Contemporâneas. relatar a aventura interior do europeu moderno.)». O mistério.) A simpatia. A ciência não faltou. tão cheia de graça e de luminosos ímpetos. da nova sensibilidade que desperta. no final do artigo.» Embora se limite a descrever. O resultado é que o homem começou a aborrecer-se monumentalmente e a suspirar por aquela outra companheira tão alegre. o fonógrafo. vão todos para o romance de imaginação (. expulsou duramente a pobre e gentil imaginação.. alguma garantia da prolongação da existência. demora-se no aspecto religioso. apenas se apossou dele. (. domínio eleito da observação naturalista. esta geração nova sente a necessidade do divino. a simpatia lhe foge irresistivelmente para a segunda. enfim. O próprio romance. esta reacção (. a não ser em teoria). a verdade é que. E um dia não se contém. onda ambos tinham tentado voos tão deslumbrantes. todo estabelecido sobre documentos. que já muito antes.esta reacção não é somente tentada contra a política.. fortemente abalada: «O positivismo científico (. Positivismo e Idealismo. às promessas que lhe fez: mas é certo também que o telefone. ágil e penetrante fixado. tão inventiva.. a sós com a sua esposa clara e fria. E. na geração nova.simbolistas. (. proponha como esperança para o homem futuro uma fórmula conciliatória de razão e imaginação.e. a sua fé naturalista apresenta-se. alguma coisa mais do que força e matéria. renunciando à verificação de leis da fisiologia. findou (se é que alguma vez existiu. é certo. de observação positiva. que nem o jacobinismo nem a economia política podem já realizar. as potências do inconsciente. o arrepio do sobrenatural sob formas diversas (desde um neocristianismo místico e contemplativo até ao espiritismo. tal como a tem criado o positivismo científico.) Em suma.. na arte. mas contra a estrutura geral da sociedade contemporânea. arromba . como a da geração nova. se alastra. pela busca de uma transcendência de que o real sensível não é mais do que imagem ou «correspondência».. o movimento a que assiste.) considerou a imaginação como uma concubina comprometedora. neste complicado universo. estamos assistindo ao descrédito do naturismo. numa carta de Paris. o panorama. A crónica. o favor. vai. . Sobre todas as formas da actividade pensante se revela. O romance experimental.. e o situe apenas na «geração nova». de quem urgia separar o homem. fechou o homem num laboratório. lhe apontava para os céus da poesia e da metafísica.) «Em literatura. saciar a sua fome de absoluto de novo desperta.. observava o declínio do naturalismo em literatura. como puro observador.. no prazer ou no transcendente. Eça. pela teosofia e pelo ocultismo) atraem cada vez mais os espíritos.. de dar ao dever uma sanção mais alta do que a que lhe fornece o código civil. queira ou não queira. que busca. a razão. passando pelas religiões orientais. depois de examinar os mesmos efeitos em diversos ramos da actividade intelectual. e de achar. Ao bater os cinquenta anos. para além do túmulo. embora.. o maravilhoso. tem a data de 1893: «. em muitos casos.

. se instala no Ramalhete. o lugar cada vez maior concedido nas suas páginas à emoção. . Os Maias . A acção inicia-se no Outono de 1875. com quem larga a vaguear de novo pelas maravilhosas regiões do sonho. e deles partilhando com a pronta resposta da inteligência e do gosto: também ele. à ternura. em sintonia com o seu tempo. com a negreira Maria Monforte. à demonstração de teses e à «anatomia dos caracteres» . O filho – Carlos da Maia – viria a ser entregue aos cuidados do avô. sensível como sempre aos movimentos que agitavam o século.» Continuava bem actualizado.tudo isso revela em Eça o progressivo afastamento do padrão naturalista e a impregnação pela atmosfera antipositivista. A obra romanesca dos últimos anos documenta bem a evolução que o escritor sofrera. altura em que Afonso da Maia. sem no entanto perder a respeito dele a lucidez crítica e o empenho profundo de o compreender.a porta do laboratório (. do mito e do símbolo.. de certo modo. O seu único filho – Pedro da Maia – de carácter fraco.de quem nunca mais se soube o paradeiro. espiritualista do final do século.Resumo A acção d' Os Maias passa-se em Lisboa. Os temas de lenda e poesia. da lenda.Maria Eduarda . Mas a esposa acabaria por o abandonar para fugir com um Napolitano. resultante de uma educação extremamente religiosa e proteccionista. arrombara a porta do laboratório e saíra para o largo espaço livre da fantasia. Conta-nos a história de três gerações da família Maia. de quem tem dois filhos – um menino e uma menina. casa-se. ao humor tingido de desencanto.) e corre aos braços da imaginação. de que se impregnou. nobre e rico proprietário. XIX. a renuncia ao programa de doutrinação cívica e revolucionaria. Do século em que não se limitou a viver: do século que absorveu. a religiosidade ingénua assumida numa atitude esteticizante (a fazer pintura dos primitivos medievais). levando consigo a filha . na segunda metade dos séc. após o suicídio de Pedro da Maia. contra a vontade do pai.

que lhe diz: .Miss Sarah. ao receber a notícia morre de desgosto. Entretanto. e Carlos. e procura Carlos. Essa mulher era Maria Monforte – a mãe de Maria Eduarda era. que julgava ser mulher do brasileiro Castro Gomes. Contudo. Carlos envolve-se com a Condessa de Gouvarinho. parte para o estrangeiro. Afonso da Maia. Seguindo os hábitos dos que o rodeavam. como médico a governanta . Crítica Social . Os amantes eram irmãos. Carlos seguiu-a algum tempo sem êxito. agora rica. Começam então os seus encontros com Maria Eduarda. a relação – incestuosa – com a irmã. dizendo que Maria Eduarda não era sua mulher. O romance termina com o regresso de Carlos a Lisboa. Carlos regressa a Lisboa. através de uma carta enviada por Dâmaso Salcede. onde se vai rodear de alguns amigos. portanto. Ao tomar conhecimento. chega de Paris um emigrante. e o seu reencontro com Portugal e com Ega.Carlos passa a infância com o avô. em Medicina em Coimbra. que depois irá abandonar. Carlos não aceita este facto e mantém abertamente. segundo ela lhe disse continha documentos que identificariam e garantiriam para a filha uma boa herança. após a formatura. portanto. o maestro Cruges. Dâmaso Salcede. entre outros. Maria Eduarda. passados 10 anos. podia ficar com ela. vai correr o mundo. ao Ramalhete. Euzébiozinho. Castro Gomes descobre o sucedido. Alencar. como o João da Ega. formando-se depois. Carlos chega mesmo a comprar uma casa onde instala a amante.."falhamos a vida. Um dia fica deslumbrado ao conhecer Maria Eduarda. mas sim sua amante e que.. menino!". Sr Guimarães. que diz ter conhecido a mãe de Maria Eduarda e que a procura para lhe entregar um cofre desta que. para se distrair. mas acaba por conseguir uma aproximação quando é chamado por Maria Eduarda para visitar. visto que Castro Gomes estava ausente. também a mãe de Carlos. o velho avô.

A crónica de costumes da vida lisboeta da Segunda metade do séc.o fracasso da Geração dos Vencidos da Vida. o diletantismo que impede a fixação num trabalho sério e interessante. os próprios erros e falhas. Carlos falha com uma ligação incestuosa. concepções do mundo. dirigir e simbolizar toda a vida do país. e dizer "Tudo culpa da sociedade". geração potencialmente destinada ao sucesso. corporizada em certos tipos sociais. estas duas personagens. é um espaço social. a época do Romantismo. A Mensagem A mensagem que o autor pretende deixar com esta obra. Assim. XIX desenvolve-se num certo tempo. Lisboa é o espaço privilegiado do romance. representantes de ideias. É através do paralelo entre duas personagens . políticas. em Paris. e o Episódio Final: Passeio de Carlos e João da Ega. que Eça vai fazer a crítica social. Destacamos os mais importantes: o Jantar do Hotel Central. Mas não foi isso que sucedeu e é este facto que o escritor pretende evidenciar com o episódio final . projecta-se num determinado espaço e é ilustrada por meio de inúmeras personagens intervenientes em diferentes episódios.Pedro e Carlos da Maia. estas personagens representam os males de Portugal e o fracasso sucessivo das diferentes correntes estético-literárias. Lisboa é mais do que um espaço físico. É neste ambiente monótono. a Educação. Vários são os episódios utilizados pelo autor para mostrar a vida da alta sociedade lisboeta. o Sarau do Teatro da Trindade. etc. apesar de terem tido educações totalmente diferentes. tem uma intenção iminentemente crítica. Pedro falha com um casamento desastroso. representam também épocas históricas e políticas diferentes. onde decorre praticamente toda a vida de Carlos ao longo da acção. Por outro lado. concentrar. que Eça concretiza a sua intenção. sem qualquer projecto seriamente útil. a Imprensa. que consiste em desculpar sistematicamente. Fracasso este que parece dever-se. costumes. a atitude "romântica" perante a vida. mentalidades. o Jantar dos Gouvarinho. Pedro. amolecido e de clima rico. e seu filho. O carácter central de Lisboa deve-se ao facto de esta cidade. da qual sai para se deixar afundar numa vida estéril e apagada. mas às características do povo português . que o leva ao suicídio. não às correntes em si. a Corrida de Cavalos. falharam na vida. Simbolismo . a Geração de 70 e das Conferências do Casino. em que domina a ironia. Note-se que ambos.a predilecção pela forma em detrimento do conteúdo.

A "gravidade clerical do edifício" demonstra a influência que o clero teve no passado da família e em Portugal. os seus membros agora transformados dão-lhe uma forma monstruosa fazendo lembrar Maria Eduarda e monstruosidade do incesto. a profanação das leis humanas e cristãs. está muito relacionado com o modo como Eça via o país. Os seus aposentos simbolizam o carácter trágico. O quintal do Ramalhete. os evangelistas.o seu nome é simbólico.é o reflexo do ideal reformista da Geração de Carlos. o início e o fim da acção principal. (no último capítulo) coberta de ferrugem simboliza o desaparecimento de Maria Eduarda. levadas a cabo por Carlos. enegrece com a fuga de Maria Monforte. dos sentimentos que leva e traz.Maria Eduarda e Maria Monforte. Afonso da Maia é uma figura simbólica . tem uma simbologia trágica. o quadro com a cabeça degolada é um símbolo e presságio de desgraça. No Ramalhete. Esta estátua marca então. Os dois faunos simbolizam o desastre do incesto decorrido entre Carlos e Maria Eduarda. Carlos irá ser o último Maia . introduziram o luxo e a decoração cosmopolita. a religião e os trofeus agrícolas o trabalho: qualidades que existiram um dia na família (e no Portugal da epopeia). pormenor que parece simbolizar o desafio sacrílego dos faunos a tudo quanto era grandioso e sublime na tradição dos antepassados. mostra-nos também que o tempo está mesmo a esgotar-se e o final da história d' Os Maias está próximo. tal como o é Ega.o nome do último Stuart. No primeiro capítulo a cascata está seca porque o tempo da acção d' Os Maias ainda não começou. a imagem deixada pelo Ramalhete. Este choro simboliza também a dor pela morte de Afonso da Maia. Tal como o país. No último capítulo. cheio de recordações de um passado de tragédia e frustrações. . A estátua de Vénus que. na Toca. abandonado e tristonho. No final um partiu o seu pé de cabra e o outro a flauta bucólica.note-se a ironia em forma de presságio. uma reforma da casa (ou do país) para uma nova etapa . o fio de água da cascata é símbolo da eterna melancolia do tempo que passa. simbolizam uma nova oportunidade.Os Maias estão incrivelmente repletos de símbolos. as obras de restauro. Também o armário do salão nobre da Toca. escolhido pela mãe. Ela é também símbolo das mulheres fatais d' Os Maias . No último capítulo. Agora. No quarto de Maria Eduarda. Carlos é um símbolo da Geração de 70. Os guerreiros simbolizam a heroicidade. também sofre uma evolução. tal como o de Carlos . em plena crise do regime. Por oposição. esta designação e o emblema (o ramo de girassóis) mostram a importância "da terra e da província" no passado da família Maia. também eles caíram no "vencidismo".

Já o vermelho da vila Balzac é muito intenso. portanto. todos os aposentos melancólicos e frios. o que sugere o poder e o prazer das relações incestuosas. são árvores que pela sua longevidade. Mas também. a morte instalou-se no país. Note-se que as paredes do Ramalhete foram sempre sinal de desgraça para a família Maia. a aparência e a realidade. significam a vida e a morte. No início o Ramalhete não tem vida. o que. nas alterações sofridas pelo Ramalhete. indicando a dimensão essencialmente carnal e efémera dos encontros de amor de Ega e Raquel Cohen. povoados de símbolos cromáticos: a cor vermelha tem um carácter duplo. a profanação das leis humanas e cristãs. O cedro e o cipreste. parece simbolizar o carácter animalesco do relacionamento de Carlos e Maria Eduarda. é como que um renascimento. tudo deixa transparecer a realidade de destruição e morte. despertam a sensibilidade à sua volta. simbolizam a amizade inseparável de Carlos e João da Ega. Não é difícil lermos o percurso da família Maia. símbolo de uma paixão possessiva e destruidora. tudo tem um carácter lúgubre. Os aposentos de Maria Eduarda simbolizam o carácter trágico. finalmente. Maria Monforte e Maria Eduarda são portadoras de um vermelho feminino. o símbolo da paixão excessiva e destruidora. vida e morte. Os Maias estão também. torna-se símbolo da esperança e da vida. portanto. indicando a paixão ardente. espalham a morte. Carlos introduz a chave no portão com todo o prazer.No final. portanto. a força que se torna fraqueza. anunciando a velhice (o Outono). Morte prefigurada pela cor negra. desde logo. a estátua coberta de ferrugem. deitando as últimas gotas de água. o divino e o humano. a tragédia abate-se sobre a família e eis a cascata chorando. foram testemunhas das várias gerações da família. O vermelho é. Mãe e filha conjugam em si estas três cores: elas são. A morte instala-se nesta família. a proximidade da morte. . No Ramalhete todo o mobiliário degradado e disposto em confusão. O tom dourado está também presente. E se os Maias representam Portugal. a estátua de Camões é o símbolo da nostalgia do passado mais recuado. Constatamos que a simbologia d' Os Maias possui uma função claramente pressagiosa da tragédia. em seguida habitado. o símbolo da mútua aceitação e entrega.a chave torna-se. Na primeira vez que lá vão. A Toca é o nome dado à habitação de certos animais. da segunda vez ambos a experimentam .

Passamos agora. às suas caracterizações: Personagens centrais: Afonso da Maia Caracterização Física Afonso era baixo. Sendo as personagens centrais Afonso da Maia. Cruges. Pedro da Maia. E as personagens tipo João da Ega. Cingimo-nos portanto. o nariz aquilino e a pele corada. um D. às personagens principais e a algumas personagens tipo que consideramos importantes para o desenrolar da acção. A sua cara larga. Carlos da Maia. Como dizia Carlos: "lembrava um varão esforçado das idas heróicas. Alencar. de ombros quadrados e fortes. Eusebiozinho e Sr Guimarães. maciço. Caracterização Psicológica . Duarte Meneses ou um Afonso de Albuquerque". Maria Eduarda e Maria Monforte. Condessa de Gouvarinho. Craft. Conde de Gouvarinho. muito curto e a barba branca e comprida. O cabelo era branco.Personagens As personagens intervenientes na acção d' Os Maias são cerca de 60. Dâmaso Salcede.

Era alto. Eça de Queirós dá grande importância à vinculação desta personagem ao ramo familiar dos Runa e à sua semelhança psicológica com estes. Não se lhe conhecem defeitos. murcho. é de uma enorme cobardia moral (como demonstra a reacção do suicídio face à fuga da mulher). opinando sobre a necessidade de renovação do país. Ama a natureza e o que é pobre e fraco. Falha no casamento e falha como homem. Mais tarde. Tinha assiduamente crises de "melancolia negra que o traziam dias e dias. olhos belos – "assemelhavam-no a um belo árabe". com as olheiras fundas e já velho". O bigode era arqueado aos cantos da boca. dedica a sua vida ao neto Carlos. Tem altos e firmes princípios morais. pele branca. de ombros largos. pequena e aguçada no queixo. olhos negros. castanha escura. O seu único sentimento vivo e intenso fora a paixão pela mãe. Pedro é vítima do meio baixo lisboeta e de uma educação retrograda. Pedro da Maia Caracterização Física Era pequenino. Caracterização Psicológica Pedro da Maia apresentava um temperamento nervoso. lendo com o seu gato – Reverendo Bonifácio – aos pés. Apesar da robustez física. Enquanto jovem adere aos ideais do Liberalismo e é obrigado. Tinha barba fina. pelo seu pai. cabelos negros e ondulados. Carlos da Maia Caracterização Física Carlos era um belo e magnífico rapaz. bem constituído. Caracterização Psicológica . quando descobre os amores incestuosos dos seus netos. a sair de casa. ele tinha uma fisionomia de "belo cavaleiro da Renascença". Já velho passa o tempo em conversas com os amigos. fraco e de grande instabilidade emocional. Valentia física.Provavelmente o personagem mais simpático do romance e aquele que o autor mais valorizou. É generoso para com os amigos e os necessitados. Como diz Eça. Morre de uma apoplexia. instala-se em Inglaterra mas. amarelo. face oval de "um trigueiro cálido". regressa a Lisboa para casar com Maria Eduarda Runa. falecido o pai. É um homem de carácter culto e requintado nos gostos.

é "flor de uma civilização superior. Destaca-se na sua personalidade o cosmopolitismo. Não foi devido a esta mas falhou. Eça manteve sempre esta personagem à distância. o egoísmo. Maria Eduarda Caracterização Física Maria Eduarda era uma bela mulher: alta." Uma vez descoberta toda a verdade da sua origem. e pareceu-lhe perfeito. Carlos fracassou. a sensualidade. Era bastante simples na maneira de vestir. e esta personagem afasta-se discretamente de "cena". quase sempre de escuro. por causa do meio onde se instalou – uma sociedade parasita. a fim de possibilitar o desenrolar de um desfecho dramático (esta personagem cumpre um papel de vítima passiva). fútil e sem estímulos. de que Carlos é um bom exemplo. o gosto pelo luxo. Mas também devido a aspectos hereditários – a fraqueza e a cobardia do pai. e diletantismo (incapacidade de se fixar num projecto sério e de o concretizar). . Maria Eduarda é então delineada em poucos traços. mas e ao mesmo tempo. Amigo do seu amigo e generoso. "Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome dela. sensual mas delicada. ao contrário das outras personagens femininas Maria Eduarda nunca é criticada. faz relevo nesta multidão de mulheres miudinhas e morenas". condizendo bem com a sua beleza serena. "com um passo soberano de deusa". de gostos requintados. bem educado. bem feita. para quem tudo o que viesse de Maria Eduarda era perfeito.Todavia. Eça quis personificar em Carlos a idade da sua juventude. apesar da educação. o futilidade e o espírito boémio da mãe. curiosamente. "divinamente bela. chega-nos através do ponto de vista de Carlos da Maia. Ao contrário do seu pai. em parte. o seu passado é quase desconhecido o que contribui para o aumento e encanto que a envolve. o seu comportamento mantém-se afastado da crítica de costumes (o seu papel na intriga amorosa está cumprido). com um curto decote onde resplandecia o incomparável esplendor do seu colo" Caracterização psicológica Podemos verificar que. loira. é fruto de uma educação à Inglesa.Carlos era culto. a que fez a Questão Coimbrã e as Conferências do Casino e que acabou no grupo dos Vencidos da Vida. ociosa. É corajoso e frontal. A sua caracterização é feita através do contraste entre si e as outras personagens femininas.

pernas de cegonha". progressista e crítico. Guimarães . a culpada de todas as desgraças da família Maia. excêntrico e excessivo.o democrata Sr. Era o Mefistófeles de Celorico.Carlos Eduardo. É uma personagem contraditória.com documentos que poderiam identificar a filha a quem Personagens Tipo: João da Ega Caracterização Física Ega usava "um vidro entalado no olho". sarcástico do Portugal Constitucional. excêntrico. concebe grandes projectos . cargas de negros para o Brasil. Fê-lo por amor. tinha "nariz adunco.Maria Monforte Caracterização Física É extremamente bela e sensual. Leviana e imoral. e abandonando o marido . com a filha. punhos tísicos.Pedro da Maia . É leal com os amigos. Era o autêntico retrato de Eça. Morto Tancredo. Amigo íntimo de Carlos desde os tempos de Coimbra. Apaixonou-se por Pedro e casou com ele. Maria Eduarda. Caracterização Psicológica João da Ega é a projecção literária de Eça de Queirós. Caracterização Psicológica É vítima da literatura romântica e daqui deriva o seu carácter pobre. nunca revelou as origens. Desse casamento nasceram dois filhos. noutros tempos. onde se formara em Direito (muito lentamente). Por um lado.e o filho . Costumavam chamar-lhe negreira porque o seu pai levara. A mãe era uma rica viúva e beata que vivia ao pé de Celorico de Bastos. Havana e Nova Orleães. Tancredo. Deixa um cofre a um conhecido português . Sofre também de diletantismo. o colo ebúrneo". em parte. Tinha os cabelos loiros. num duelo. leva uma vida dissipada e morre quase na miséria. levando consigo a filha. por outro. exagerado. anarquista sem Deus e sem moral. caricatural. é. Boémio. não por maldade. "a testa curta e clássica. romântico e sentimental. pescoço esganiçado. Mais tarde foge com o napolitano.

também ele teve a sua grande paixão . Caracterização Psicológica Era voltado para o passado. vem viver para Lisboa e torna-se amigo inseparável de Carlos. corrompido pela sociedade. Tinha um bigode encerado e uma pêra curta. Como Carlos. fina e doce. É ele que diz a verdade a Maria Eduarda e a acompanha quando esta parte para Paris definitivamente. Conde de Gouvarinho Caracterização Física Era ministro e par do Reino. um bruto com a sua mulher. Traí o marido.Raquel Cohen. Fala de um modo depreciativo das mulheres. bem feita. Tem lapsos de memória e revela uma enorme falta de cultura. Ega. Caracterização Psicológica É imoral e sem escrúpulos.literários que nunca chega a executar. Envolve-se com Carlos e revela-se apaixonada e impetuosa. é casada com o conde de Gouvarinho e é filha de um comerciante inglês do Porto. nariz petulante. É a ele que o Sr. . Condessa de Gouvarinho Caracterização Física Cabelos crespos e ruivos. Não compreende a ironia sarcástica de Ega. acaba por perceber que ela é uma mulher sem qualquer interesse. É juntamente com ele. que Carlos revela a verdade a Afonso. com Carlos. Terminado o curso. revela-se em eterno romântico. Carlos deixa-a. Guimarães entrega o cofre. Revelar-se-á. Questões de dinheiro e a mediocridade do conde fazem com que o casal se desentenda. encarna a figura defensora dos valores da escola realista por oposição à romântica. Nos últimos capítulos ocupa um papel de grande relevo no desenrolar da intriga. um falhado. pele clara. Representa a incompetência do poder político (principalmente dos altos cargos). demasiado fútil. olhos escuros e brilhantes. sem qualquer tipo de remorsos. Na prática. mais tarde.

Caracterização Psicológica Conheceu a mãe de Maria Eduarda. cobarde e sem dignidade. a si próprio. que lhe confiou um cofre contendo documentos que identificavam a filha. Guimarães Caracterização Física Usava largas barbas e um grande chapéu de abas à moda de 1830. provinciano e tacanho. o início e o fim dos amores de Carlos com Maria Eduarda. A ele e ao tio se devem.Dâmaso Salcede Caracterização Física Era baixo. Representa o novo riquismo e os vícios da Lisboa da segunda metade do séc. que se retracta. o mensageiro da trágica verdade que destruirá a felicidade de Carlos e de Maria Eduarda. Alencar Caracterização Física . tem uma única preocupação na vida o "chic a valer". gordo. Era sobrinho de Guimarães. Filho de um agiota. Sr. respectivamente. É dele também. é presumido. Caracterização Psicológica Dâmaso é uma súmula de defeitos. como um bêbado. Mesquinho e convencido. portanto. a notícia contra Carlos n' A Corneta do Diabo. XIX. Guimarães é. que revela o envolvimento de Maria Eduarda com Carlos. O seu carácter é tão baixo. "frisado como um noivo de província". É dele a carta anónima enviada a Castro Gomes. só para evitar bater-se em duelo com Carlos.

numa versão caricatural da Questão Coimbrã. românticos bigodes grisalhos". pianista com uma pontinha de génio". e sob o nariz aquilino. É desmotivado devido ao meio lisboeta . mas que representa a formação britânica. Era demasiado chegado à sua velha mãe. em toda a sua pessoa "havia alguma coisa de antiquado. era amigo de Carlos e íntimo do Ramalhete. o protótipo do que deve ser um homem. "um diabo adoidado. Simboliza o romantismo piegas. Não tem defeitos e possui um coração grande e generoso. entre naturalistas e românticos. Defende a arte pela arte. Caracterização Psicológica Era calvo. "olhinhos piscos" e nariz espetado. Craft É uma personagem com pouca importância para o desenrolar da acção. maestro. Eça serve-se desta personagens para construir discussões de escola. O paladino da moral.Tomás de Alencar era "muito alto. Segundo Eça. longos."Se eu fizesse uma boa ópera. É o poeta do ultra-romantismo. olhos encovados. espessos. Era também o companheiro e amigo de Pedro da Maia. Cruges Caracterização Física "De grenha crespa que lhe ondulava até à gola do jaquetão". quem é que ma representava". a arte . com uma face encaveirada. Caracterização Psicológica Maestro e pianista patético. de artificial e de lúgubre".

levando pancada continuamente. pensando com rectidão". era o primogénito de uma das Silveiras . Amigo de infância de Carlos com quem brincava em Santa Olávia. de hábitos rígidos. e com quem contrastava na educação.senhoras ricas e beatas. tristonho e corrupto. para se distrair. mas enviuvou cedo. Procurava. coleccionador de "bric-a-brac". "sentindo finamente. É culto e forte.como idealização do que há de melhor na natureza. Também conhecido por Silveirinha. bordéis ou aventureiras de ocasião pagas à hora. Casou-se. . Eusebiozinho Eusebiozinho representa a educação retrógrada portuguesa. molengão. Cresceu tísico. Inglês rico e boémio.

Acção N' Os Maias podemos distinguir dois níveis de acção: a crónica de costumes . provocando a catástrofe consumada pela morte do avô. que justificam a existência de título e subtítulo nesta obra. donde se conclui que a sua paixão não foi condicionada pela educação.morte de Afonso e separação de Carlos e Maria Eduarda. torna a relação entre Carlos e Maria Eduarda uma relação incestuosa. e as reflexões de Carlos e Ega. Na intriga secundária temos: a história de Afonso da Maia . acarretado pelas revelações do Guimarães. e a intriga . . enquanto que o subtítulo . São. A sua ligação amorosa foi comandada à distância por uma entidade que se denomina destino. A peripécia verificou-se com o encontro casual de Maria Eduarda com Guimarães. Carlos é o protagonista da intriga principal.corresponde à crónica de costumes.época de instauração do Liberalismo e consequentes contradições internas. nem pela hereditariedade. com as revelações casuais do Guimarães a Ega sobre a identidade de Maria Eduarda. O título .Os Maias . Teve uma educação à inglesa e tirou o curso de medicina em Coimbra. aliás.acção fechada. a história de Pedro da Maia e Maria Monforte . A acção principal d' Os Maias.acção aberta. sobre a identidade de Maria Eduarda. a separação definitiva dos dois amantes.Episódios da Vida Romântica . O reconhecimento.Os Maias corresponde à intriga. Na intriga principal são retratados os amores incestuosos de Carlos e Maria Eduarda que terminam com a desagregação da família . nem pelo meio. estes dois níveis de acção.época de reacção do Liberalismo ao Absolutismo. A educação de Maria Eduarda foi completamente diferente. e com as revelações a Carlos e Afonso da Maia também. a história da infância e juventude de Carlos da Maia . desenvolve-se segundo os moldes da tragédia clássica peripécia. que se divide em intriga principal e intriga secundária. reconhecimento e catástrofe.época de decadência das experiências Liberais.

"como um ar de quarto de bailarina". Deve referir-se como importante espaço exterior Sintra.a sua relação incestuosa com a irmã. palco de vários encontros. É em Lisboa que se dão os acontecimentos que levam Afonso da Maia ao exílio. o escritório de Afonso. Em Santa Olávia passasse a infância de Carlos. portanto. Em Coimbra passam-se os estudos de Carlos e as suas primeiras aventuras amorosas. Interiores Vários são os espaços interiores referidos n' Os Maias. que tem o aspecto de uma "severa câmara de prelado". é em Lisboa que sucedem os acontecimentos essenciais da vida de Pedro da Maia. quer à relação amorosa dos protagonistas. destacamos os mais importantes. É também para lá que este foge quando descobre a sua relação incestuosa com a irmã. . O próprio resolve a sua vida falhada com a fixação definitiva em Paris. Pedro e Maria vivem em Itália e em Paris devido à recusa deste casamento pelo pai de Pedro. O estrangeiro surge-nos como um recurso para resolver problemas. e os jardins. o quarto de Carlos. quer relativos à crónica de costumes. Espaço Físico Exteriores A maior parte da narrativa passa-se em Portugal. Maria Eduarda segue para Paris quando descobre a sua relação incestuosa com Carlos.Os Maias . o espaço social e o espaço psicológico.O Espaço N' Os Maias podemos encontrar três tipos de espaço: o espaço físico. No Ramalhete podemos encontrar: o salão de convívio e de lazer. Afonso exila-se em Inglaterra para fugir à intolerância Miguelista. e é também lá que decorre a vida de Carlos que justifica o romance . mais concretamente em Lisboa e arredores.

contemplação de Afonso morto. . as reuniões na redacção d' A Tarde. o Hotel Central os hotéis de Sintra. São ainda referidos outros espaços interiores de menor importância como o apartamento de Maria Eduarda. como espaço psicológico. Destacamos o jantar do Hotel Central. o luxuoso consultório de Carlos que revela o seu diletantismo e a predisposição para a sensualidade.ambientes fechados de preferência. É referido também na obra. a Toca. a redacção d' A Tarde e d' A Corneta do Diabo. após o incesto. reflexões de Carlos sobre o parentesco que o liga a Maria Eduarda. chás. um lugar de relevo. O espaço psicológico permite definir estas personagens como personagens modeladas. soirés. as corridas do Hipódromo. Espaço Social O espaço social comporta os ambientes (jantares. Destacamos. onde actuam as personagens que o narrador julgou melhor representarem a sociedade por ele criticada . espectáculos). no jardim. por razões de elitismo. o Teatro da Trindade. bailes. nova evocação dela em Sintra. reflexões e inquietações após a descoberta da identidade de Maria Eduarda. o Grémio. a alta aristocracia e a burguesia. que desvenda os labirintos da sua consciência. visão do Ramalhete e do avô.as classes dirigentes. que reflecte a sensualidade de João da Ega. etc. A Toca é também um espaço interior carregado de simbolismo. o Sarau Literário no Teatro da Trindade . Ocupando também Ega. Quanto a Ega. a casa dos Condes de Gouvarinho. É sobretudo Carlos. que revela amores ilícitos. Santa Olávia. o sonho de Carlos no qual evoca a figura de Maria Eduarda. O espaço social cumpre um papel puramente crítico.A acção desenrola-se também na vila Balzac. os jantares em casa dos Gouvarinho. Espaço Psicológico O espaço psicológico é constituído pela consciência das personagens e manifesta-se em momentos de maior densidade dramática.

Esta primeira parte pode considerar-se uma novela introdutória que dura quase 60 anos. Ega se encontra com Carlos em Lisboa. uma estrutura complexa na qual se integram vários "tipos" de tempos: tempo histórico. meses e anos vividos pelas personagens.data em que Carlos abandona o Ramalhete existe uma tentativa para que o tempo histórico (pouco mais de um ano da vida de Carlos) seja idêntico ao tempo do discurso . Tempo Histórico Entende-se por tempo histórico aquele que se desdobra em dias. o tempo concreto da intriga compreende cerca de 70 anos. como vemos. N' Os Maias. educação. veio com o avô instalar-se definitivamente em Lisboa. após a formatura. mas. Assim. tempo do discurso e tempo psicológico. O último capítulo é uma elipse (salto no tempo) onde. Assim. referir-se aos antepassados do protagonista (juventude e exílio de Afonso da Maia. pelo contrário. o tempo histórico é dominado pelo encadeamento de três gerações de uma família.para tal Eça serve-se muitas vezes da cena dialogada. Tempo do Discurso Por tempo do discurso entende-se aquele que se detecta no próprio texto organizado pelo narrador.Carlos. reflectindo até acontecimentos cronológicos históricos do país.Tempo Este romance não apresenta um seguimento temporal linear. Pelo processo de analepse.cerca de 600 páginas . aproximadamente. casamento e suicídio de Pedro da Maia. passados 10 anos. . ordenado ou alterado logicamente. alargado ou resumido. se destaca relativamente aos outros. e à educação de Carlos da Maia e sua formatura em Coimbra) para recuperar o presente da história que havia referido nas primeiras linhas do livro. apresentadas por meio de resumos e elipses. Esta analepse ocupa apenas 90 páginas. cujo último membro . até parte do capítulo IV. Do Outono de 1875 a Janeiro de 1877 . o discurso inicia-se no Outono de 1875. A fronteira cronológica situa-se entre 1820 e 1887. o tempo histórico é muito mais longo do que o tempo do discurso. concluída a sua viagem de um ano pela Europa. o narrador vai. data em que Carlos. Na obra.

pela destreza e mestria com que o autor conta o romance. terminada a longa noite. O advérbio toma. Por exemplo. é o tempo filtrado pelas suas vivências subjectivas.". derivando-os dos adjectivos. Assim. o impressionismo. De facto. É o caso de "agora o seu dia estava findo: mas. É o tempo que se alarga ou se encurta conforme o estado de espírito em que se encontra. Relativamente aos substantivos e adjectivos. pela originalidade do tema mas também. na companhia de João da Ega. ou. Estética Os Maias distinguem-se no quadro da literatura nacional não só. frequência da hipálage (transposição de um atributo de gente para a acção). portanto. a obra de Eça contem muitos mais adjectivos do que substantivos. tanto a crítica social. Carlos. já no final de livro. No romance. na noite em que se deu o desaparecimento de Maria Monforte e o comunica a seu pai. O tempo psicológico introduz a subjectividade. funções de atributo e a sua acção alcança o sujeito ou o objecto. bem patente. Os adjectivos tem uma função musical e rítmica completando a linha melódica da frase.. quando recorda o primeiro beijo que lhe deu a Condessa de Gouvarinho. o que põe em causa as leis do naturalismo. contempla. o sujeito para segundo plano. Uma visão pessimista do Mundo e das coisas. após a sua chegada de Paris. ficando. embora não muito frequente. o velho Ramalhete abandonado e ambos recordam o passado com nostalgia. caracteriza-se pela frequência de construções impessoais. passadas as longas horas. uma vez que o efeito é percepcionado independentemente da causa. Eça ampliou o número de advérbios de modo que a linguagem proporcionava. muitas vezes carregado de densidade dramática.. em Eça. é possível evidenciar alguns momentos de tempo psicológico nalgumas personagens: Pedro da Maia. ele penetrava outra vez naquela sala de repes vermelhos. É frequente o contraste substantivo concreto qualificado com um adjectivo abstracto ou viceversa. .Tempo Psicológico O tempo psicológico é o tempo que a personagem assume interiormente. como a intriga amorosa são valorizadas pelo rigor e beleza dos vocábulos utilizados. percepções de tipo diferente traduzindo ironia.

Renan com o seu ateísmo. A arte é posta ao serviço da ciência e daí o Naturalismo. Alphonse Daudet. outros com o romance naturalista. depois. Victor Hugo. conseguia impersonalizar a prosa narrativa dissimulando-se por detrás das suas personagens. positiva. o Realismo é uma reacção contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento. na literatura. É o rastilho da Questão Coimbrã à qual se seguem. Zola. e o escritor tem de escolher um ou outro. Da linguagem familiar à linguagem infantil. Este tipo de discurso permitia-lhe: libertar a frase dos verbos muito utilizados e da correspondente conjugação integrante (ex. permitia-lhe. proclama uma literatura arejada. É a crítica do homem. com uma natureza soalheira. Em Portugal agitava-se o mesmo sentido reformista em Coimbra (1860-1865). É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos para condenar o que houver de mau na nossa sociedade». As Conferências do Casino Lisbonens. Eça utiliza o estilo indirecto livre. da gestão dos tropos. viva. Flaubert e Baudelaire.O verbo oferece a alternância dos seus sentidos . O espírito analítico aguça o trabalho do observador. Nela faz referência aos quadros realistas de Courbet. comparações. Esta obra é muito rica em figuras de estilo. o que lhe concede um cunho particularmente queirosiano. Balzac e Zola. o socialismo de Proudhon vão determinar essa renovação que se opera na segunda metade do século XIX. Também o Determinismo e o Naturalismo de Taine e. É a análise com o fito na verdade absoluta. a tentar encontrar as respectivas causas. que. entre outros e. de descrever aspectos das coisas. aberta à observação e não propensa ao devaneio. O Realismo é anatomia do carácter. existem em maior ou menor grau todos os níveis de linguagem. Michelet e o seu anticlericalismo.e nas quais Eça pronuncia uma conferência com o título «O realismo como nova expressão de arte». exercem a sua influência nessa viragem que se opera. da epilepsia da palavra. matizada. É uma arte que . se fez sentir essa rajada ideológica de natureza social e política nas Odes Modernas (1865) de Antero e na Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (1864) de Teófilo Braga. também. uns com o romance realista e o Parnasianismo. substituindo o «eu» sujeito (subjectivismo) pelo objecto (objectivismo). onde uma falange de jovens devorava Proudhon. por isso. é a prescrição do convencional. adjectivações. Aliterações. Realismo A Questão Coimbrã está na origem de um renovação literária à qual a França deu o seu impulso. Sente-se a crise religiosa no positivismo de Auguste Comte. É a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção usando da inchação do período. personificações. Por outro lado. Com estes parâmetros. enunciando os seguintes princípios: «É a negação da arte pela arte. Faz-se eco de Boileau quando afirma «rien n'est beau que le vrai».próprio ou figurado. do enfático. se debruça sobre os factos a explicá-los. Renan. popular e também neologismos (exemplo: Gouvarinhar). N' Os Maias. em breve. objectivamente.: disse que). tal como o analista no laboratório. aproximar a prosa literária da linguagem falada. Estes podem invocar conceitos subjectivos múltiplos sem deixarem. do piegas. sã. enchem Os Maias do início ao final da obra.

o meio ambiente em Os Maias. sugerindo os pensamentos de Carlos após a revelação de Ega. Carlos. moralizando. a captação das impressões pelos sentimentos. Os sectários de Castilho por um lado. São postos de parte os valores espirituais. vieram a terreiro lançar dezenas de opúsculos de cariz fortemente polémico e onde por vezes não . encontrar o clima científico motivador do comportamento das personagens. desejo. De francamente positivo o Realismo trouxe o enriquecimento e aperfeiçoamento da língua. que todo se desinfecta e calça luvas para efectuar uma operação. de experimentar. era apenas instinto. Pratica-se a rejeição do trabalho inventivo. estas duas posições não estão dissociadas nele. principalmente. Em 1865. Naturalismo Interessa ao naturalista. contrariamente ao vulgar matador de porcos que. do concreto pelo abstracto. da imagem.. mas não uma maneira especial de escrever» e Eça justifica determinadas situações nos seus romances .. Assim.a hereditariedade. é anulado o interesse pelo passado nacional. a objectividade. É evidente a apetência pelo pormenor descritivo. o escritor naturalista quando se debruça sobre a podridão social. Recebe também a influência de Zola e é naturalista Abel Botelho. o que leva à fuga do «eu». um grupo de jovens intelectuais coimbrãos vinham reagindo contra a degenerescência romântica e o atraso cultural do país. Questão Coimbrã Foi uma das mais importantes polémicas literárias portuguesas e a maior em todo o século XIX. embora. quando põe a nu os podres de uma sociedade que a arte dos clássicos e o sentimento dos românticos tinham deixado camuflados. em cujo posfácio o velho poeta António Feliciano de Castilho lhe fez elogios rasgados. L' ouvrage véritable est dans ce que l'on voit ». as pressões do momento em A Relíquia. No início dos anos 60. Seja. Afirma-se o impessoalismo. de ver. Eça mais um escritor realista do que naturalista. chegando ao ponto de propor o jovem poeta para reger a cadeira de Literatura no Curso Superior de Letras. Huret em Enquêtes sur l'évolution littéraire é «um método de pensar. Foi o suficiente para de imediato Antero de Quental lançar um violento ataque num opúsculo intitulado Bom Senso e Bom Gosto. o cosmopolitismo afirma-se. Diz Zola: «Cacher l'imaginaire sous le réel». Pinheiro Chagas publica o Poema da Mocidade. uma necessidade de saber. de reflectir. também. chafurda no corpo do animal. est une fabrication et de seconde main.reforma. No primeiro romance. com as suas mãos. com uma relevância especial no emprego do adjectivo. Talvez a imagem do escritor realista se assemelhe à do cirurgião. pois o Naturalismo como o definiu J. como a mãe. Também naturalista nessa obra é o realce que o autor dá ao subconsciente freudiano. e outros jovens por outro. de estudar. com novas formas de expressão. produto do meio. segundo o pensamento de Aain de Lattre «L'oeuvre.

com as quais chamou definitivamente a atenção da sociedade. formando o Cenáculo. O grupo reunir-se-ia depois na capital. liberal e progressista não se revia nos formalismos estéticos que grassavam nem naquilo que consideravam ser a estagnação social. Os homens da Geração de 70 tiveram possibilidade e. Nos anos seguintes. na historiografia. os membros do grupo foram definindo caminhos pessoais independentes. esta juventude cosmopolita nas leituras. pois. Oliveira Martins. Em 1865 é despoletada a chamada Questão Coimbrã. apetência de contacto com a cultura mais avançada da Europa como não se via em Portugal desde o tempo da formação de um Garrett e de um Herculano. manifestaram a vontade de modernizar o pensamento e a Literatura em Portugal. Teófilo Braga. sobretudo. a questão alargou-se a outras áreas como a cultura. como sucedeu mais tarde. ao ultra-romantismo instalado que António Feliciano de Castilho personificava.faltava o sarcasmo mordaz e o ataque pessoal. da filosofia e das próprias formas de organização social no país e em nações como a Inglaterra. a pretexto de uma obra literária de mérito discutível. aperceber-se da diferença que havia entre o estado das ciências. económica e cultural a que assistiam. Puderam. Guerra Junqueiro. que opôs o grupo. Em consequência. como Ramalho Ortigão e Camilo C. de certo modo. e dir-se-ia que esse gesto . Branco. o início de um espírito de modernidade nas letras portuguesas. O grupo fez-se notar a partir de 1865. Geração de 70 Assim se designa o grupo de jovens intelectuais portugueses que. e em 1871 organizou as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. Embora de origem literária. a política e a filosofia. a França ou a Alemanha. tendo Antero de Quental como figura de proa e de maior profundidade reflexiva. Antero suicidou-se em 1891. ora a outras. trilhando caminhos de certa forma divergentes. manifestaram um descontentamento com o estado da cultura e das instituições nacionais. Eça de Queirós. no ensaísmo e na política. na literatura e na crítica literária. com repercussões públicas dignas de registo. Juntos ou. à qual subjaziam grandes diferenças ao nível das referências estéticas mas também ideológicas. O seu inconformismo havia de se manifestar em diversas ocasiões. das artes. estes homens marcaram a cultura portuguesa até ao virar do século (se não mesmo até à República). Travou-se uma acesa polémica. ora dedicandose mais a umas actividades. primeiro em Coimbra e depois em Lisboa. pois esses jovens intelectuais (que foram o fermento da posterior Geração de 70). e integrando ainda literatos como Ramalho Ortigão. Ela marca. embora a atitude de crítica e de intervenção cultural e política se mantivesse. Jaime Batalha Reis e Guilherme de Azevedo. institucional. Esta refrega durou mais de um ano e envolveu nomes que já eram ilustres.

as conferências foram proibidas pelo governo. ficaram conhecidos (embora não com inteira justiça) pelo seu diletantismo. Vencidos da Vida Nome pelo qual ficou conhecido um grupo de onze intelectuais portugueses que tiveram destaque na vida literária e política do final do século XIX. sob a alegação que elas atacavam "a religião e as instituições políticas do Estado".simboliza o destino destes homens a caminho do final do século. Ramalho Ortigão. a partir da sexta. Encontravam-se para convívio intelectual e diversão no Tavares. António Cândido. Carlos Lobo d'Ávila. ficou o gérmen da modernidade do pensamento político. Conferências do Casino Conjunto de conferências realizadas em Lisboa em 1871 que surgiu aquando das reuniões do "Cenáculo" e que teve como impulsionador Antero de Quental. anunciado. no respectivo programa. Reuniram-se com certa regularidade entre 1888 e 1894. como as Conferências do Casino. . na Alemanha e na Inglaterra se fazia sentir. entre os intelectuais portugueses. Como um grupo. pedagógico e científico que na França. em desilusão progressiva com o país e o sentido das suas próprias vidas. Estes não eram. o marquês de Soveral. Visavam abrir um debate sobre o que de mais moderno. Eça de Queirós juntou-se-lhes em 1889. por um certo mundanismo desencantado. a nível de pensamento. De qualquer modo. social. se vinha fazendo lá fora. sinais de falta de profundidade intelectual. Este espírito revolucionário e positivista dominava a maioria da jovem classe pensante. como comprovam as abundantes realizações dos seus membros na política. só se realizaram cinco. Guerra Junqueiro. Das várias conferências previstas. na diplomacia. Bernardo de Pindela e o conde de Sabugosa. Esta proibição levantou uma enorme onda de protestos de novo encabeçada por Antero de Quental. Carlos Mayer. aliás. Aproximar Portugal da Europa era o objectivo máximo. Vários destes intelectuais estiveram associados a iniciativas de renovação da vida social e cultural portuguesa de então. na historiografia e na literatura. contudo. pois. o conde de Ficalho. Deste grupo faziam parte Oliveira Martins (autor da denominação Vencidos da Vida). Este é o ponto mais alto da Geração de 70. no Hotel Bragança ou na residência de um dos participantes.

Os Vencidos da Vida .

Presta provas para cônsul de 1ª classe. 1874: É transferido para Newcastle. É na Inglaterra que redige "O Primo Basílio" descrevendo a média burguesia Lisboeta. Parte para Évora. no Porto. é em Leiria que dá inicio à redacção de "O crime do Padre Amaro". "O Conde de Abranhos". 1884: "A Relíquia" e alguns comentários sobre a vida política mundial "Cartas de Inglaterra". é nomeado Administrador do Distrito de Leiria. 1879: Escreve. focando principalmente o clero e a pequena burguesia dos meios provincianos. simultaneamente. 1871: Participa nas Conferências do Casino. nasce na Póvoa do Varzim José Maria Eça de Queirós. 1878: É transferido para Bristol. 1855: Entra como aluno interno no Colégio da Lapa. Publica em folhetins no jornal Diário de Notícias. 1873: Visita os Estados Unidos em missão do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 1865: Representa no Teatro Académico e conhece Antero de Quental. Sai o primeiro número do jornal. o "Mistério da Estrada de Sintra". onde funda e dirige o jornal Distrito de Évora. 1861: Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. 1869: Visita o Oriente com o objectivo de assistir à inauguração do Canal do Suez. registando as suas impressões de viagem influenciado. Estas notas de viagem foram posteriormente publicadas no "Egito". Instala-se em Lisboa. em colaboração com Ramalho Ortigão. 1870: Este ano revela-se proveitoso para o escritor. ficando em primeiro lugar. sendo colocado em Havana como cônsul. aliás. por outros escritores que cultivavam esse género literário. em casa do pai. seus vícios e hábitos. "Cartas de Londres" . 1866: Forma-se em Direito. 1872: Como concorrera à carreira diplomática. Dentro da linha definida nesse estudo. .cheios de um tom satírico e sagaz. apresentando um estudo sobre "O realismo como nova expressão de arte". lançando igualmente de parceria com o mesmo autor "As Farpas". seu professor de francês. aceita a redacção de um jornal eborense.Bio e Bibliografia 1845: Em 25 de Novembro. Em "A Capital" é a classe liberal o alvo do seu humor irónico. publicados em jornais portugueses e brasileiros da época. cujo director era pai de Ramalho Ortigão e. 1880: "O Mandarim". 1864: Conhece Teófilo Braga. em França. analisando a sociedade portuguesa. o Distrito de Évora. 1867: Após a abertura do seu escritório de advocacia em Lisboa. 1885: Visita em Paris Émile Zola. 1883: É eleito sócio correspondente da Academia Real das Ciências. Regressa a Lisboa. vê-se obrigado a deixar o meio intelectual português. Profissionalmente.

revelando um humor caricatural que se mantém sempre actual. 1901: "A Cidade e as Serras". e para a época. os seus "Bilhetes de Paris". 1889: É nomeado cônsul de Portugal em Paris. irmã do 5º Conde de Resende. inovadora arte narrativa. "A Correspondência de Fradique Mendes" e "A Ilustre Casa de Ramires". na sua casa de Neuilly.1886: Casa com Emília de Castro Pamplona. Em 16 de Agosto morre em Paris. Eça de Queirós tinha-se tornado um dos nossos mais brilhantes escritores. Em plena Belle Époque. . seu amigo e companheiro na viagem realizada ao Oriente. 1902: "Contos". 1888: É transferido para Paris onde revela aquela que é por muitos considerada a sua obra-prima. em que retrata a aristocracia e a alta-sociedade lisboeta. recriando a figura de Fradique Mendes. impregnado de uma espectacular. "Os Maias". sendo a ironia a marca constante da sua obra literária. envia da cidade das Luzes para Portugal e Brasil. 1900: Dirige a "Revista de Portugal". "Cartas Familiares" e "Ecos de Paris". que na sua "Correspondência" revela um requintado cepticismo crítico. Assiste ao primeiro jantar dos "Vencidos da Vida". Os seus romances são portadores de um realismo corrosivo.

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