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demorou muito e foi o estopim para que Lucas saísse do armário. “Minha mãe me ligou e eu estava chorando. Em casa, fo- mos conversar, e ela novamente pergun- tou se eu era gay. Foi quando disse que

sim. A cena, então, foi a reversa: minha mãe, supercalma, me tranquilizando e dizendo que estava tudo bem e eu cho- rando semparar.” A mãe contou para o pai, que, pron- tamente, foi até o filho deixar claro o quanto tinha orgulho do homem que havia criado. “Desde então, o meu rela- cionamento com eles só melhora. Não precisei sair do armário porque meus pais sempre o deixaram aberto para o diálogo.” E, hoje, o próprio João Marcus

tratado como filho dentro da casa do namorado,

é

dois, durante uma viagem, conversaram sobre o que poderia acontecer caso bei- jassem outro homem. “Apenas disse que isso não nos faria gays. Voltamos e, um dia, aconteceu o beijo”, lembra João. Daí, teve início um relacionamento de quase três anos baseado na omissão: a exigên- cia do namorado era que ninguém ja- mais poderia saber. Mas a proximidade de uma relação é di- fícil demais de esconder. A família do ex- namorado de João descobriu tudo e ele se sentiu à vontade para se abrir com os pais, achando que não haveria consequências. João, então, ligou para a mãe dizendo que iria até Goiânia, cidade onde nasceu, para uma conversa séria. “Ela, muito ansiosa, me pressionou ao ponto de eu falar omoti- vo da ligação. Conteiqueera gay e ela des- maiou.” Ape- sar do susto, João foi até a capital goiana crente que te- ria uma boa conversa.“Foi

o pior dia da

minha vida. Eles não me abraçaram e as conversas se tornaram veladas, uma grande coisa não dita, na qual eles sa- bem de tudo,

mas não se fa-

la nada.” A si-

tuação não mudou muito desde então.Mas os pais aceitam o relacio- namento e tratam o namorado do filho de forma educada.“Não tenho nenhuma ne- cessidade de chocar nem afrontar nin- guém. Mas quero que meus pais e minha irmãsaibamlidarcomisso.” João tem certeza de que tomou a de- cisão correta ao sair do armário. Hoje, ele chega ao ponto de discutir os pro- blemas da relação com a sogra, além de participar dos almoços de domingo. “Até minha avó de 97 anos gosta do nosso namoro. Mesmo eu, que tive apoio familiar, acho que a melhor deci- são foi ter contado. Hoje, tenho, de fato, a vida que quero”, reconhece Lucas.

João Marcus teve medo da reação da família, mas encarou a sua homossexualidade comcoragem
João Marcus teve medo
da reação da família,
mas encarou a sua
homossexualidade
comcoragem

tamanha é a aceitação.

Mas, na fa- mília de João,

a história não

foi tão colori- da. Primeiro, pelo tempo em que o uni-

versitário ten- tou negar pa-

ra si que o de-

sejopelomes-

mo sexo pu-

desse existir.

Depois, pela

reação dos

pais. “Mesmo

quandocrian-

ça, já sentia um peso hete- ronormativo

que me obri- gava a ter ‘na- moradinhas’ na escola. Depois, percebi que meu sentimento em relação às mu- lheres era uma imposição — diferente

do que sentia pelos garotos”, diz. A ado- lescência trouxe namoros permeados por sentimentos fraternos, mas nunca arrebatadores como um amor de verda- de. Algo não estava bem daquele jeito e João sabia disso. Nesse tempo, uma amizade muito for-

te com um colega de escola começou a

fazê-lo repensar ainda mais o que sentia.

O amigo, típico pegador, era famoso na

escola por suas conquistas e não desper- tava qualquer dúvida quando à heteros- sexualidade. Cada vez mais próximos, os

ENTREVISTA//BETYORSINI

Toda forma de amor vale um livro

A jornalista Bety Orsini resolveu subverter a frase do escritor irlandês OscarWilde, que descreveu as relações homossexuais como “o amor que não ousa dizer o seu nome”.Ao escrever o livro Toda maneira de amor vale a pena (Editora Primeira Pessoa), ela reuniu 20 histórias de quem não quis esconder o que sente. Na obra, casais gays contam suas histórias pessoais e o quanto valeu a pena lutar pelo amor.

Por que contar histórias de quem resolveu assumir a própria sexualidade? O livro foi uma encomenda do editor Helio Sus- sekind. Ele achava que eu tinha o perfil ideal. Talvez porque eu goste muito de histórias de vida, de supera- ção e, no caso dos homossexuais, assumir a própria se- xualidade é sempre umcaso de superação e,muitas ve- zes, de amor. Toda forma de amor vale a pena, princi- palmentenos tempos atuais.

Como foi o processo de seleção dos personagens?

Foi difícil convencê-los a contar suas histórias? Foramindicações, dicas de amigos eideias pessoais. Nem sempre as pessoas querem contar suas histórias, commedo de represálias. É incrível como ser vítima de preconceitoaindadámedo.

Baseado nos relatos que você ouviu,acredita que es- se preconceito é difícil de vencer? Sim. As pessoas geralmente são cruéis com quem ousa ser diferente. Ser diferente e assumir é um ato de coragem. Em algumas histórias do livro, eu chorei ven- do o quanto as pessoas sofreram.

Existe algum ponto em comum que tenha desenca- deado o fato de assumir a homossexualidade? Na maior parte dos casos, a mãe é quem primeiro aceita o(a) filho(a). Algumas vezes, em silêncio. O pai, geralmente, é mais castrador. Acho que a violência, fí- sica e moral, é um bom motivo que faz uma pessoa querer sair do armário. É uma libertação. Afinal, viver massacrado pelo preconceito é como viver numa pri- são de segurançamáxima da infelicidade.

É preciso compreensão do homossexual para enten- der a fase de adaptação/sofrimento da família? Umhomossexualmaisjovemterámaisdificuldadeem compreender o sofrimento da família. Só com um pou- codematuridade vai selibertando.Achoque,quando se sentiremmais fortes, eles devemencarar sua realidade internaefalarparaospais.Quandoissoéverbalizadona família,háumrompimentoouumaaceitação.