MARES NEM TÃO AZUIS

Autora: Athena Bastos

Música: All the rowboats – Regina Spektor
All the rowboats in the paintings They keep trying to row away And the captains' worried faces Stay contorted and staring at the waves They'll keep hanging in their gold frames For forever, forever and a day All the rowboats in the oil paintings They keep trying to row away, row away Hear them whispering French and German Dutch, Italian, and Latin When no one's looking, I touch a sculpture Marble, cold and soft as satin But the most special are the most lonely God, I pity the violins In glass coffins, they keep coughing They've forgotten, forgotten How to sing, how to sing First there's lights out, then there's lock up Masterpieces serving maximum sentences It's their own fault for being timeless There's a price to pay and a consequence All the galleries, the museums Here's your ticket, welcome to the tombs They're just public mausoleums The living dead fill every room But the most special are the most lonely God, I pity the violins In glass coffins, they keep coughing They've forgotten, forgotten how to sing They will hang there in their gold frames For forever, forever and a day All the rowboats in the oil paintings They keep trying to row away, row away First there's lights out, then there's lock up Masterpieces serving maximum sentences It's their own fault for being timeless There's a price to pay and a consequence All the galleries, the museums They will stay there forever and a day All the rowboats in the oil paintings They keep trying to row away, row away All the rowboats in oil paintings They keep trying to row away, row away

Todos os barcos a remo nas pinturas Eles continuam tentando remar para longe E os rostos preocupados dos capitães Permanecem contorcidos observando as ondas Eles continuarão pendurados em suas molduras de ouro Para sempre, sempre e mais um dia Todos os barcos a remo nas pinturas a óleo Eles continuam tentando remar para longe, remar para longe Escuto-os sussurrando em francês e alemão Holandês, italiano e latim Quando ninguém está olhando, toco em uma escultura Mármore, fria e suave como cetim

Mas os mais especiais são os mais solitários Deus, tenho pena dos violinos Em caixões de vidro, eles continuam tossindo Eles se esqueceram, se esqueceram de Como cantar, de como cantar Primeiramente, as luzes se apagam, depois tudo é trancado As obras-primas cumprindo penas máximas São as próprias culpadas por serem atemporais Há um preço para se pagar e uma consequência Todas as galerias, os museus Aqui está sua entrada, bem-vindo às tumbas São apenas mausoléus públicos

Os mortos-vivos preenchem cada quarto Mas os mais especiais são os mais solitários Deus, tenho pena dos violinos Em caixões de vidro, eles continuam tossindo Eles se esqueceram, se esqueceram de como cantar Eles continuarão pendurados em suas molduras de ouro Para sempre, sempre e mais um dia Todos os barcos a remo nas pinturas a óleo Eles continuam tentando remar para longe, remar para longe

Primeiramente, as luzes se apagam, depois tudo é trancado As obras-primas cumprindo pena máxima São as próprias culpadas por serem atemporal Há que se pagar um preço e uma consequência Todas as galerias, os museus Eles ficarão lá para sempre e mais um dia Todos os barcos a remo nas pinturas a óleo Eles continuam tentando remar para longe, remar para longe Todos os barcos a remo em pinturas a óleo Eles continuam tentando remar para longe, remar para longe

MARES NEM TÃO AZUIS

Eu pintava loucamente. Foi a única maneira que encontrei de descarregar toda a minha mágoa, todo o meu ressentimento. Minha perda havia sido dolorosa. Eu fora o único que aprendera a amar aquela criatura singular e angelical. Ao fundo, um som instrumental de violinos, representando todo o ódio e a dor. Tonton sempre olhava os quadros com tamanho fascínio que seria difícil prever sua dificuldade em simplesmente ver a cor azul e sua facilidade em se transportar para outros mundos. A deficiência era, de certo modo, rara. Não havia muitas pessoas com essa falta de capacidade. Quanto a sua facilidade... Bem, esta não pode ser levada no sentido denotativo da palavra. Tonton era certamente especial. Com seu jeitinho esculachado, chegando ao ridículo, conseguia me encantar. Mamãe sempre dizia que o amor era cego. Já em sua velhice – que deus a tenha e que o diabo não me persiga por lhe falar mal – e loucura – e seus adoráveis e rechonchudos mais de cem quilos – ela me dizia para confiar mais nos instintos de um amigo, em relação à minha noiva, do que nos meus. Pouco antes de partir – para uma melhor, pelo menos para mim – mamãe já me dizia que Tonton não era mulher cuja beleza se apreciasse. Infelizmente o senso de meus amigos concordava. E isso que mamãe se dizia cega. - Meu filho, onde está a sua noiva querida? - Ah, mamãe, minha adorável Tonton está chegando! - Espero simplesmente que não ajas como um bobo da corte entretendo esta multidão... Pois se bem lhe conheço, caro filho, sei que tem um gosto duvidoso para o amor. Lembro-me da papagaia por quem fosse enamorado na juventude. Ah, mas mamãe não sabia que Tonton era diferente. Tudo com ela era diferente. E no fundo de minha cena chegava deslumbrante a minha amada Tonton. É fato que o vento não lhe fazia graça nos espelhos, bagunçando seus já desgrenhados cachos castanhos. É fato que suas bochechas inexistiam e que sua face era magra demais. Mas seu gigante sorriso torto naquele vestido amarelo banana eram encantadores! - Mamãe, ela acaba de chegar!

- É mesmo, Clóvis? Onde está a bela dama? - Aqui, mamãe. Tonton, mamãe é um pouco cega. Aproxime-se para que ela possa tocá-la. - Olá. Eu sou Antonieta. Mas seu filho prefere me chamar de Tonton. Aqui, passe sua mão por minha face. – falou delicadamente com sua voz fina. - Oh, que olhos grandes vocês tem! Que face magra você tem! ER que nariz grande também! – e retirou as mãos de Tonton com um sobressalto. Somente um tolo para crer que uma dama da estatura de Tonton não se sentiria ofendida com os comentários de uma velha ranzinza como minha mãe. Ela saiu aos prantos, correndo pela sala de minha casa em direção à porta. Suas pernas eram tão longas, que o tempo levado foi curto. Mas minha ansiedade em consolá-la era maior, o que me permitiu lhe alcançar a tempo. - Tonton! Espere! Ela tremia. Eu sentia a raiva escorrer por seu corpo, como suor em dia de calor. Não que ela suasse muito. É apenas uma comparação. - Por quê? Sempre acontece isso comigo! As pessoas sempre me julgam por essa face feia que eu tenho! Mas, por pior que tenha sido, nada se compara a ser julgada por uma cega! - Exatamente Tonton, mamãe é cega! Não vê a sua perfeição! E imaginei Tonton coberta de luzes e cores, piscando sedutoramente, com uma música romântica ao fundo... - Clóvis? Clóvis? Nem você me escuta! - Desculpe, Tonton. Acho que peguei sua mania de sonhar acordado. - O que ainda faço aqui? - Você está tentando me perdoar... - Não sei se consigo fazer isso... Você sabe que o que sua mãe fez foi bullying comigo, não? - Bullying? O que é isso?

- Não sei. São palavras da autora. Voltando ao roteiro original. Ah, foi imperdoável. - Eu sei, Tonton. - Não quero ouvir suas palavras. Ela se vira para ir embora. Eu, porém, rapidamente seguro seus pulsos, fazendo-a girar sobre seus pés, e dou-lhe um beijo que mais tarde seria imitado por todos os filmes românticos. Tonton aceitou minhas desculpas e me acompanhou até o fim de seus dias. O pedido de casamento veio logo após o incidente em minha casa. Os pais estavam orgulhosos pela filha ter arranjado um partido tão bom, mesmo com seus pequenos problemas – mamãe dizia que estavam felizes por finalmente se livrarem de Tonton. A irmã, ao saber da notícia correu ao quarto aos prantos – mamãe dizia que precisava esconder um grave ataque de risos, ou pior, náuseas. Ah, Tonton. Não havia suspiros no mundo que demonstrassem a sensação de estar perto de suas canelas ossudas tão atraentes. E seu nariz aquilino. Uma inspiração aos poetas e pintores. Além de tudo, ainda era dotada de um belíssimo gosto para as artes. Queria que tivesse vivido o suficiente para presenciar a majestosa semana de artes moderna de 1922. Mas o tempo não lhe permitiu tanta sorte. Fascinada por um quadro desconhecido, cujos barcos navegam por um oceano vermelho em sua visão, a mulher de meus sonhos me incentivou a realizar uma viagem pelos mares. Casamo-nos em abril e em março já navegávamos desbravando universos desconhecidos. O barco não era luxuoso, mas, mesmo assim, a nossa cara. O sorriso de minha Mona Lisa estendia-se pela face ao falar da nova aventura. Seus dentes – eu devo admitir que um pouco amarelados e gostaria de crer que sua deficiência visual também se aplicasse aos tons de amarelo – eram mostrados sem pudor algum, demonstrando a alegria de nossa união. Subimos no barco como quem descobre o paraíso. Adão e Eva retornando ao local do qual foram expulsos, pronto para recomeçar suas vidas sem os pecados do mundo, sem o preconceito ou o medo do diferente. A mulher mais bela da viagem desfilava exibindo todos os seus atributos. A tripulação e os passageiros admiravam sua desenvoltura falando em línguas

desconhecidas para mim, sussurrando em francês e alemão, holandês italiano e latim. Mas ela era minha, somente minha. Ninguém mais poderia ser dono daquela escultura de mármore tão preciosa. Eu vi cenas que não esperava. Quem diria que minha bela Tonton faria marujos se jogarem no mar, correr para os barcos a remo reservas tentando fugir de sua beleza. Era a sereia do barco que passava estonteante pelo barco. Era a sereia... Tão pura e tão sorridente... Passeava como se fosse o que mais tarde denominariam miss. E de atenciosa que estava em sua graça e sorriso, não viu o que era arremessado em sua cabeça por um invejoso qualquer. Sorria como uma tola pela pancada. - Tonton! Mal tive tempo de gritar por seu nome. Tonta, acabou por tropeçar na borda do barco. Caiu sorrindo naquele mar. Este a engolia, enquanto deixava flutuando a arma do pérfido crime: um pedaço de madeira qualquer. Como tiveram coragem de retirar um anjo da Terra? Enviaram tão cedo Tonton ao Céu. Eu corri até a borda do tropeço, mas já era tarde. Ela se ia. Uma joia jogada aos mares. Minha linda e eterna Tonton... Seu olhar meio estrábico e seu sorriso apatetado para sempre permaneceriam em minha memória. E era essa a imagem que representava em minhas telas. Queria eternizar a beleza incompreendida de minha amada. Ignorava a cara de escárnio dos figurantes de minha tragicomédia. Não queria esquecer-me da viagem dos sonhos. Queria pendurá-la em molduras de ouro e expô-las ao mundo. Esse era o túmulo merecido de Antonieta, minha musa. - Senhor Clóvis. Batiam na porta. Era uma futura compradora de minha arte. - Bom dia, madame. Na minha frente se apresentava uma mulher baixinha e carrancuda. Mamãe diria que era um homem em sexo feminino. Para mim, uma musa quase aos pés de Tonton. Pela primeira vez em muitos anos, meu coração começava a bater novamente. - Oh, bom dia, meu caro. Onde está a obra de arte? - Bem aqui, acompanhe-me.

E ela me acompanhou ao quarto azul onde estava instalado o altar de Tonton. Seu quadro, já emoldurado estava acompanhado de algumas das poucas fotos que conseguimos bater em vida. - Não tenho palavras. É magnífico. Extremamente condicente com o nosso contexto. Viva a arte moderna, meu caro! Essas formas geométricas... Foi proposital? - Não. Tonton era assim mesmo. – Eu finalmente voltava a sorrir como um tolo perto de mulheres tão extraordinárias quando aquela. Quem era Tonton mesmo? - Hm... Você mostra a realidade das musas. Suas imperfeições nos levam a um quadro perfeito. O realismo moderno. Não é uma fotografia, mas uma belíssima interpretação. Eu compraria uns dez deste se fosse possível. Decoraria minha casa em sinal de protesto à estética parnasiana. Virará uma obra rara, meu caro. Já não escutava. Ela brilhava envolta por um brilho cor de rosa e piscando de forma sedutora. - Senhor Clóvis? - Sim. O que você perguntava? - Perguntava se poderia conhecer a musa do quadro. - Quem? - Bom, ouvi o senhor chamá-la de Tonton. - Quem é Tonton? Ela riu, como se minha piada fosse a mais engraçada de todas. - Qual será o nome da obra? Voto por o sorriso amarelo de Mona Lisa. - Será perfeito. - Bom, então posso partir. - Mas já? – Falava praticamente babando por ela. - Sim, meu caro. Tenho muitos afazeres. E seu eu fosse o senhor, sairia deste quarto e procuraria bons médicos. Se quiser conheço bons oculistas. E bons médicos da cabeça também - Pareço precisar de óculos? – e a pergunta que nem se quer formei no momento: “Pareço ser ruim da cabeça”

- Não. Mas a aparência deste quarto me diz o contrário. - Então me deixe acompanha-la enquanto você me faz as recomendações. Ela sorriu torto, como se quisesse me espantar. Mas jamais largaria minha joia ainda não lapidada. Pelo menos não outra vez. Eu apaguei as luzes e tranquei o quarto. Tonton ficava ali, eternizada em sua moldura de ouro, em seus últimos momentos, com seu sorriso amarelo, sobre e antes de sob um mar vermelho.

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