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História da comunicaçăo humana.

1.1 E no princípio eram somente sons....

Hoje todos sabemos que a linguagem, tanto falada quanto escrita, é um


dos principais meios para estabelecermos comunicação com os outros. O que
nem todos sabem, entretanto, é que nem sempre foi assim. No princípio da
evolução humana, quando nossos mais remotos ancestrais, conhecidos como
primatas (SAIBA MAIS - Animais mamíferos que, em sua maioria, costumam viver
principalmente em árvores, mas possuem hábitos terrestres também. Algumas de suas
principais características são os membros muitos desenvolvidos, a existência de duas
tetas na região peitoral, cinco dedos, com unhas achatadas e com os polegares
geralmente opostos, e a visão e a audição bem desenvolvidas. Seu olfato é menos
desenvolvido do que em outras espécies. Entre os primatas estão os micos, macacos,
gorilas, chimpanzés, orangotangos, lêmures e babuínos, conhecidos como símios, e
os seres humanos e outros humanóides), surgiram na terra a comunicação entre
eles era como a dos demais animais, ou seja, através de gritos, urros,
grunhidos, rosnados, uivos, e de determinadas posturas corporais que
mostravam a necessidade de comer, de acasalar, de brincar, e também, por
outro lado, revelavam ameaça ou perigo..
Vamos começar nosso curso fazendo um exercício de imaginação.
Fantasiemos que estamos vivendo em alguma região do continente africano há
mais ou menos cinco ou quatro milhões de anos. Naquela ocasião, segundo a
paleantropologia (SAIBA MAIS - Parte da paleontologia, ciência que estuda os
fósseis dos animais e vegetais, que tem por objeto as espécies ancestrais da
humanidade, e que estuda a família dos hominídeos a partir das evidências fósseis de
sua separação evolutiva de outros grupos de primatas), ainda não éramos
classificados como humanos e sim como membros de uma espécie da ordem
dos primatas, que, na realidade, surgiu há, pelo menos, 70 milhões de anos.
A ordem dos primatas é constituída por várias famílias, dentre as quais a
dos hominídeos, considerados como primatas superiores ou antropóides, ou
seja, seres que possuíam a forma semelhante à do homem. É dessa família
que surgirá, em mais alguns milhões de anos, o gênero homo, cujo
representante mais antigo é o homo habilis, ou homem habilidoso, homem com
habilidades manuais. Esse hominídeo viveu entre 2,5 e 1,8 milhões de anos
antes de nossa era e recebeu essa classificação por terem sido encontrados
vestígios de ferramentas confeccionadas com fragmentos de pedras entre seus
fósseis.

Mesmo que ainda haja muita discussăo entre os especialistas se ou năo


o homo habilis pertence ao gênero homo, principalmente por suas
características – uma forma bípede com características faciais mais primitivas e
um cérebro menor do que a do homo erectus –, a maioria dos
paleoantropólogos afirma que sua inteligência e sua rudimentar organizaçăo
social eram bem mais sofisticadas que as de seus antecessores, os
australopithecus.
Nesse processo evolutivo da espécie humana, os homo habilis foram
sendo naturalmente substituídos pelos homo rudolfensis, homo erectus, homo
ergaster e homo sapiens. Acredita-se que até aqui, como dissemos
anteriormente, esses grupos pré-históricos ainda mantinham formas de
comunicaçăo semelhantes às dos animais mamíferos, só que, gradativamente,
com o aumento de sua massa cerebral, o que era uma linguagem natural nos
pré-hominídeos e primeiros hominídeos passou a ser uma linguagem
intencionalmente imitativa dos sons emitidos pelos animais e dos sons da
natureza.
A complexificaçăo dessa linguagem onomatopéica, assim como a
sofisticaçăo da linguagem corporal, permitiu que esses grupos e bandos
desenvolvessem regras de interpretaçăo comuns e complementassem o
entendimento dos meros sinais naturais com a instituiçăo de símbolos que
procuravam determinar a que grupos pertenciam, a definir certa orientaçăo
para as caçadas, a delimitar fronteiras e, até mesmo, para expressar as
relaçơes de poder. (VER ATENÇĂO)
Você pode observar aqui que nossos remotos antepassados foram

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gradualmente abandonando a mera impressăo sensória pela invençăo,
interpretaçăo e compreensăo dos símbolos em sua funçăo significante. Mas,
você deve estar se perguntando, o que isso significa? Significa que ao
desenvolver sua faculdade de representaçăo simbólica esses homens pré-
históricos deram o passo inicial para o nascimento do pensamento, da
linguagem e da sociedade como a conhecemos.
Apenas como ilustraçăo, procuramos algumas imagens que
representassem a evoluçăo de nossa espécie, assim como alguns desenhos
que buscaram simular algumas cenas desse mundo pré-histórico. Vejam
abaixo.

Do macaco ao homem moderno


[Imagem encontrada em

http://www.splendoroftruth.com/curtjester/Pics/evolution.jpg]

Homo habilis usando suas primeiras ferramentas e em grupo.

{Imagens localizadas em http://cas.bellarmine.edu e www.mamnounas-salukis.de]

Homo erectus
[Imagens encontradas em

http://www.baa.duke.edu/classes/course_images/Homo%20erectus.jpg e
http://www.nhm.ac.uk/hosted_sites/paleonet/Forum/vol2no5/BL/BL_oval1.Html]

Homo sapiens sapiens [Imagem encontrada em www.wsu.edu/gened/learn-

modules/top_longfor/timeline/h-sapiens-sapiens/images/e-group-using-tools.jpeg]

1.2 E, entăo, fez-se o verbo.

Entre 40.000 e 10.000 anos atrás surgiu na França, na regiăo de Cro-


Magnon, o antecessor direto do homem moderno. Os homens de Cro-Magnon
já possuíam um grande desenvolvimento cultural e, ao invés de fabricarem
seus instrumentos com pedras lascadas, trabalhavam com uma pedra muito
mais dura, o sílex, além do marfim e ossos, produzindo utensílios, armadilhas,
anzóis e armas de caça, como, por exemplo, dardos, lanças e o arco e flecha.
Já haviam dominado o fogo, praticavam uma economia coletora de
subsistência, cultuavam seus mortos e dominavam os primeiros sinais de uma
linguagem articulada.
Dentre suas práticas espirituais, além dos ritos funerários, os homens de
cro-magnon praticavam ritos mágicos com o intuito de assegurar o
abastecimento de alimentos e a caça. Esses ritos traduziam-se principalmente
por pinturas nas paredes das cavernas representando caçadores e animais
como mamutes, bisơes ou renas. Executavam também esculturas em pedra de
figuras femininas, com significativas deformaçơes: seios grandes e enormes
ventres, que simbolizavam a fertilidade, a fecundidade e a abundância. Com a
arte rupestre e as estatuetas do paleolítico começou também a história da
arte.
Por falar em história da arte, você sabia que talvez a mais antiga
representaçăo da deusa Vênus era esculpida em calcário e foi encontrada em
Willendorf, uma cidade da Áustria, e por isso ficou conhecida como Vênus de
Willendorf? Năo que ela tenha sido a única. Esses nossos antepassados
cultuavam muito a figura feminina, pois a identificavam com a deusa da
fertilidade ou com a Deusa-Măe, a Măe-Terra. Outras Vênus, ou estatuetas
femininas pré-históricas săo a Vênus de Lespugne, encontrada na França, a
Dama de Brassempouy, encontrada também na França, e talvez a mais antiga
representaçăo de uma face humana, a estatueta de Kostienki, na Rússia, entre
outras.
Abaixo imagens da Vênus de Willendorf e de uma pintura de animais na
caverna de Lascaux, na França.

[Imagem encontrada em www.arthistory.upenn.edu/smr04/101910/Slide6.jpg]

[Imagem encontrada em www.artlex.com/ArtLex/s/images/stoneag_lascauxanimls.lg.JPG]

Do que vimos até agora podemos concluir que os homens de Cro-


Magnon já possuíam um raciocínio que lhes permitia planejar e conceber,
plantar e caçar de forma mais coordenada, domesticar animais, defender-se
mais eficazmente, e explorar melhor outras regiơes, expandindo-se para o
Oriente Médio, ao longo dos rios Tigre e Eufrates, para o Mediterrâneo, o maior
mar interior do mundo, compreendido entre a Europa meridional, a Ásia
ocidental e a África do norte, e para o sul, até o rio Nilo, na África.
Como dissemos anteriormente, esses homens já dominavam a fala e,
sem dúvida, possuíam uma linguagem que, mesmo rudimentar e escassa, lhe
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possibilitava a comunicaçăo com outros membros de seu grupo ou com grupos
de outras regiơes, uma vez que, à medida que a humanidade ia se espalhando
por novas regiơes, a linguagem ia se diversificando e novas maneiras de falar
eram criadas e incorporadas no dia a dia das pessoas.
Aqui, sem dúvida, seremos obrigadas a abrir um parêntese para
ingressarmos na narrativa mítica que, segundo o lingüista José Luiz Fiorin
[2002], todas as sociedades possuem para explicar a origem da linguagem e a
diversidade das línguas.
Para Fiorin, “As línguas e a linguagem inscrevem-se num espaço real,
num tempo histórico e săo faladas por seres situados nesse espaço e nesse
tempo. No entanto suas origens dăo-se num tempo mítico, num mundo
desaparecido e os protagonistas de seu aparecimento săo os heróis
fundadores”. No caso das civilizaçơes judaico-cristăs encontramos seus
protagonistas nos relatos de Moisés sobre a Criaçăo, o Dilúvio e sobre o
Começo das Naçơes e dos Idiomas, eventos citados no livro do Gênesis, o
primeiro dos cinco livros bíblicos que compơem o Pentateuco.
No capítulo 1 do Gênesis, que, como vocês sabem, significa Origem,
Nascimento, lemos que no princípio de tudo a terra era sem forma e vazia e,
nesse momento, Deus cria o mundo falando. “Deus disse: haja luz. E houve
luz. Viu Deus que a luz era boa; e fez separaçăo entre a luz e as trevas”. Por
ser a linguagem um atributo da divindade, ao mesmo tempo em que Deus vai
fazendo as coisas, vai também nomeando-as: “E Deus chamou à luz dia, e às
trevas noite. E foi a tarde e a manhă, o dia primeiro”. (Ver SAIBA MAIS)
Nos capítulos seguintes vamos entendendo a criaçăo do primeiro
homem, Adăo, e de seus descendentes, a procedência das naçơes e das
línguas. Tudo começou no sexto dia. Depois de criar os animais e os répteis,
Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança”. E o homem foi feito, modelado com o pó da terra e com o sopro
divino, que o transformou numa alma vivente. Deus atribui ao homem o dom da
linguagem, já que é ele quem nomeará todas as coisas viventes, inclusive a
mulher que havia sido feita de sua costela: “Esta é agora osso dos meus
ossos, e carne da minha carne; ela será chamada varoa, porquanto do varăo
foi tomada”.
Expulsos do Jardim do Éden por terem comido o fruto da árvore do
conhecimento do bem e do mal, Adăo e Eva foram lavrar a terra e, de seus
descendentes, nascerăo Sem, Cam e Jafé, filhos de Noé, que depois do
dilúvio, gerarăo suas famílias que serăo responsáveis pelo povoamento da
terra, dando origem às naçơes e às línguas, finalizando o predomínio da
linguagem primordial, a língua adâmica.
No capítulo 11 Moisés narra que até entăo a terra tinha uma só língua e
um só idioma e que os descendentes de Sem haviam se deslocado para a
regiăo de Sinar, no extremo sul da Mesopotâmia, nome dado pela Bíblia à
Suméria. Ali eles começaram a edificar uma cidade e uma torre “cujo cume
toque no céu, e façamo-nos um nome, para que năo sejamos espalhados
sobre a face de toda a terra”.
Ao ver a cidade e a torre Deus entendeu que, se os filhos do homem
continuassem, năo haveria restriçơes para suas pretensơes. Decidiu ali mesmo
confundir a linguagem, para que um năo entendesse a língua do outro, e
espalhou-os sobre a face de toda a terra. A essa regiăo Deus deu o nome de
Babel.
Se acreditamos ou năo no mito, năo é passível de discussăo nesse
curso. Mas, segundo Forin, foi a narrativa do dilúvio que serviu de fundamento
para a hipótese da monogênese das línguas e as primeiras famílias lingüísticas
descobertas foram denominadas a partir dos nomes dos três filhos de Noé. A
família de Sem suscitou as línguas semíticas, da linhagem de Cam nasceram
as línguas camíticas, enquanto os descendentes de Jafé fomentaram as
línguas jaféticas.
Atualmente, embora existam várias famílias lingüísticas, os maiores
grupos em termos de línguas săo os das famílias Níger-Congo, Austronésia,
Trans-Nova Guineense, Indo-européia, Sino-tibetana e Afro-asiática, conforme
dados coletados por Raymond Gordon Jr, editor do Ethnologue: Languages of
the World1, em 2005.
Fechando o parêntese, voltemos aos homens de Cro-Magnon. Como
vocês já devem ter percebido, quando nós falamos sobre os homens de Cro-
Magnon, ou nos referimos ao homem de Neanderthal, ao homem de Java, etc,,
estamos falando sobre um ou vários grupos de pessoas que possuíam
características e hábitos semelhantes. Entretanto, isso năo quer dizer que

1 Em www.ethnologue.com/. Consulta realizada em 10/2006.


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esses grupos habitavam necessariamente os mesmos locais, Os homens de
Cro-Magnon, por exemplo, habitavam tanto em algumas regiơes da Europa
quanto no Oriente Médio.
Vimos antes que esses homens já haviam começado a desenvolver uma
economia de subsistência, a domesticaçăo de animais, como căes, ovinos e
bovinos, e, o que é mais importante, dado início ao plantio de tubérculos, frutas
e hortaliças, ou seja, começavam a abandonar o nomadismo por uma vida
mais sedentária, o que, por sua vez, provocou o estabelecimento definitivo de
uma vida em sociedade e, consequentemente, os avanços culturais que tal
feito acarreta.
Foram construídas as primeiras casas de barro, junco ou madeira,
surgindo as primeiras aldeias. A necessidade de armazenar os alimentos e as
sementes para cultivo levou à criaçăo de peças de cerâmica, que foram pouco
a pouco ganhando fins decorativos. Gradualmente começaram a abandonar a
pedra e o osso na confecçăo de seus instrumentos substituindo-os pelo cobre,
o bronze e pelo ferro. Estabeleceram uma divisăo sexual do trabalho:
enquanto as mulheres teciam, faziam cestos e cuidavam da plantaçăo, os
homens cuidavam dos animais e construíam casas e paliçadas.
Todos esses fatores, mais o aumento natural das populaçơes e os
eventuais excessos da produçăo agrícola, levaram as várias tribos existentes a
estabelecerem contatos tanto com as aldeias mais próximas quanto com as
mais distantes, estimulando o intercâmbio cultural e econômico. Como vocês
podem deduzir os conflitos desencadeados pelos mais variados motivos
tornaram necessário o surgimento de regras e acordos para evitá-los ou
resolvê-los. Estamos a um passo de deixarmos a pré-história para entrarmos
na historia e na civilizaçăo. Adivinharam o que falta?

1.3 O nascimento da escrita.

Vocês já sabem que os homens de Cro-Magnon representavam animais


e caçadores nas cavernas que habitavam, provavelmente como uma parte
importante de seus rituais de magia. Talvez no princípio faziam isso de maneira
aleatória, mas, com certeza, com o tempo foram desenvolvendo significados
padronizados para suas representaçơes pictóricas.
Com a instauraçăo da agricultura, o crescimento da atividade comercial
e outras necessidades pertinentes a uma economia agrícola, esses homens
ainda pré-históricos passaram a criar desenhos padronizados, embora bastante
toscos, que representassem aquilo que desejavam registrar. Se as pinturas
rupestres podem ser vistas hoje como a primeira tentativa de armazenar
informaçơes, aqueles símbolos gráficos inventados passaram a ser
convencionados de tal maneira que qualquer pessoa que os visse os
entenderiam. Em outras palavras, aquelas pictografias passaram a ter
significado.
Segundo os pesquisadores Philippe Breton e Serge Proulx [2202: 18], a
história da invençăo da escrita, como técnica de transcriçăo da língua falada,
se realiza em duas grandes ondas sucessivas, correspondentes a dois modos
de escrita materialmente diferentes: a escrita ideográfica e a escrita alfabética.
No princípio de sua atividade comercial, os homens pré-históricos
controlavam os volumes negociados por meio da utilização de seixos de vários
tamanhos. Com o tempo os seixos passaram a ser substituídos por marcações
gravadas em pedras de argila e, a seguir, por figuras que representavam os
animais e os objetos negociados, assim como suas quantidades. De fácil
compreensăo entre todos os povos, esse sistema, com o aumento das
transações, apresentou dois graves problemas: o volume excessivo dos
símbolos, que ia aumentando em conformidade com o avanço social,
econômico e cultural das civilizaçơes, e o volume e peso do suporte.
O primeiro povo a usar esse sistema pictográfico de escrita foi o
sumério, que habitava a região sul da Mesopotâmia, em torno de 3400 a.C..
Considerados os construtores da mais antiga das civilizações, os sumérios
também foram os primeiros a estilizar seus desenhos para que estes
perdessem a conotação direta com as coisas representadas e os primeiros a
tentar representar os sons da linguagem falada, passando de uma escrita
pictórica para uma escrita ideográfica, mais abstrata que a anterior e que
possibilitava a representação não apenas de animais, objetos ou idéias mas
também os sons com que tais animais, objetos e idéias eram nomeados no
respectivo idioma.
Para que você possa entender melhor a diferença entre essas duas
formas de escrita vamos imaginar que você viveu na Suméria naquela época e
negociou um camaleão com o seu vizinho. Na época da escrita pictográfica
você simplesmente pegaria uma tábua de argila e desenharia o camaleão
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exatamente como você o via. No caso da escrita ideográfica, a palavra
camaleão seria designada por intermédio do desenho de uma cama e de um
leão.
O passo seguinte foi a tentativa de representar os sons da linguagem
falada, que culminou com a instauração da escrita silábica. Como as
ferramentas utilizadas para gravar os pictogramas, ideogramas, e, depois, os
caracteres silábicos tinham a ponta em formato de cunha essa escrita passou a
ser denominada como cuneiforme. Esses registros eram gravados em
tabuletas de argila úmida que eram postas para secar ao sol ou cozidas numa
espécie de forno, garantindo sua durabilidade e longevidade.

[Imagem 1 – Exemplo de uma tabuleta sumeriana. In http://i-


cias.com/e.o/cuneiform_img.htm]

A escrita pictográfica era utilizada também pelos egípcios que, em torno


de 3100 a.C. desenvolveram a sua hierós glyphós, ou “escrita sagrada”, como
os gregos a chamavam. A escrita hieroglífica além de pictográfica era ao
mesmo tempo ideográfica, ou seja, além de usar imagens bastante
simplificadas para representar objetos concretos, usava-as também para
representar idéias abstratas. Empregava o princípio do rébus, o ideograma no
estágio em que deixa de significar diretamente o objeto que representa para
indicar o fonograma correspondente ao nome desse objeto.
Segundo a calígrafa Izabel Cecchini, como essas imagens eram
freqüentemente mal interpretadas, já que o mesmo som era utilizado em várias
palavras, foram introduzidos mais dois sinais, sendo um para indicar como elas
deveriam ser lidas e outro para lhes dar um sentido geral. Os hieróglifos eram
escritos em vários sentidos, da esquerda para a direita, da direita para a
esquerda ou mesmo de cima para baixo. A colocaçăo das palavras, do ponto
de vista gramatical, era seqüencial, primeiro o verbo, seguido pelo sujeito e
pelos objetos direto e indireto.
A escrita hieroglífica era monumental e religiosa, uma vez que era
utilizada principalmente para inscriçơes formais nas paredes de templos e
túmulos e para registrar os acontecimentos mais importantes do império. Para
o uso cotidiano, os egípcios desenvolveram mais dois tipos de escrita: a
hierática, por volta de 2400 a.C., escrita cursiva utilizada na maior parte dos
textos literários, administrativos e jurídicos, e o demótico, a escrita do povo, por
volta de 500 anos antes de nossa era. A escrita demótica era uma simplificaçăo
da escrita hierática, que, por sua vez, era uma reduçăo da hieroglífica.

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[Imagem 2 – A pedra de Roseta , no Museu Britânico. In http://i-cias.com/e.o/index.htm]

Para Melvin L. DeFleur e Sandra Ball-Rokeach [1993], os egípcios foram


os criadores da primeira mídia portátil: o papiro.
A utilizaçăo da pedra como suporte de registro tinha a capacidade da
durabilidade, mas năo a da transportabilidade através do espaço, o que exigiu
dos povos antigos a necessidade de desenvolver novos meios com os quais a
escrita pudesse ser transportada mais facilmente.
Por volta de 2500 a 2200 a.C. os egípcios descobriram que podiam
utilizar as películas da parte exterior da haste da planta aquática papiro como
suporte para seus registros. Primeiro eles cortavam as películas em lâminas
muito finas e as colavam formando uma espécie de compensado de folhas.
Essas folhas eram superpostas com as fibras cruzadas para aumentar a
espessura e a resistência do produto, eram polidas com óleo, colocadas para
secar e comprimidas com uma pedra lisa.

[Imagem 3 – Papyrus of Nes-Min. In

http://www.dia.org/collections/ancient/egypt/1988.10.13larger.html]
Como suporte de escrita o papiro foi adotado pelos gregos, romanos,
bizantinos e árabes, provocando uma mudança significativa na organizaçăo
social e cultural da sociedade. Mas, em conseqüência das transformaçơes
sociais e comerciais que aquelas civilizaçơes vinham passando, o movimento
da escrita foi progressivamente afastando-se da representaçăo mesmo que
estilizada dos objetos. Para Philippe Breton e Serge Proulx [2002], essa
separaçăo progressiva da dimensăo analógica da imagem talvez deva ser
relacionada, pelo menos no que concerne às principais línguas semíticas, à
recusa de representar Deus pela imagem, no judaísmo, ou todo ser vivente, no
islă, duas religiơes que se exprimem em escrita alfabética.
Outro ponto que podemos adicionar à necessidade dessa separaçăo

2 A pedra de Roseta foi descoberta em 1799 pelos soldados de Napoleăo na cidade de Rashid (Roseta), a
leste de Alexandria.e tem gravado um decreto de Ptolomeu V, datado de 196 A.C., registrado em
caracteres hieróglifos, em caracteres demóticos e em caracteres gregos. A pedra foi decifrada pelo francês
Jean François Champollion em dois anos, de 1822 a1824.
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refere-se, como dito anteriormente, à imensa quantidade de caracteres
existentes tanto nas escritas cuneiforme e hieroglífica quanto na chinesa e na
dos maias, surgidas aproximadamente no mesmo período que as duas
primeiras.
Durante um bom período de tempo, os sistemas de escrita da
Mesopotâmia e do Egito atendiam às necessidades dos demais povos.
Entretanto, os grandes comerciantes que circulavam pelo Mediterrâneo năo
tinham compromisso algum com essas culturas e logo perceberam as
vantagens de unir a praticidade do silabário cuneiforme, que permitia que com
poucos caracteres se escrevesse qualquer palavra, com o grafismo da escrita
egípcia, mais especificamente da escrita hierática, mais atraente tanto para ser
escrita quanto lida, principalmente nas atividades cotidianas.
Em 1905, em Serabit el Khadim, na península do Sinai, arqueólogos
descobriram 30, ou 31, inscriçơes, de 1600 a.C., que mostram tanto signos
hieroglíficos quanto sinais da língua semítica ocidental. Esses pesquisadores
nomearam essa escrita como proto-sinaítica e a consideram como o sistema
precursor do primeiro alfabeto consonantal, uma vez que conseguiram
identificar de maneira inequívoca as letras B, H, L, M, N, Q, T e dois sons
hebraicos, aleph e ayin.
Esse primeiro alfabeto foi criado e disseminado pelos fenícios entre 2000
e 1700 a.C e era constituído por vinte e oito letras, das quais vinte e seis eram
consoantes. Com o tempo, o alfabeto passou a ter apenas vinte e duas letras e
foi adaptado por vários povos em consonância com suas línguas, tais como a
árabe, a hebraica, a aramaica, a tamúdica, a púnica e, principalmente, a grega.
Embora fosse utilizado por praticamente todas as culturas, o alfabeto
fenício, pela ausência de vogais, terminava por dar margem a muitas
ambigüidades. Se os semitas e fenícios provocaram uma verdadeira revoluçăo
na estrutura social e cultural da antiguidade com a criaçăo do alfabeto
consonantal, foram os gregos, entre os séculos VIII e IV antes de nossa era, os
responsáveis por uma das mais significativas realizaçơes dos seres humanos:
a inserçăo de vogais no alfabeto fenício, sendo um dos fatores históricos
preponderantes para o desencadeamento dos grandes movimentos da ciência,
das artes e da religiăo.

[Imagem 4 – Tabela do alfabeto grego com os vários tipos de sinais usados pelas diferentes
polis. In http://victorian.fortunecity.com/vangogh/555/Spell/Gk-alph2.gif].

Em paralelo à evoluçăo das formas escritas, o desenvolvimento de


outras técnicas também foi fundamental nesse processo de emancipaçăo.
Podemos resumir esse longo período histórico parafraseando Ésquilo, em
Prometeu acorrentado: os “seres indefesos chamados humanos”, agora
dotados de lucidez e razăo, aprenderam também a construir casas com tijolos
endurecidos pelo sol e a usar a madeira, foram instruídos sobre a ciência
básica da elevaçăo e do crepúsculo dos astros e sobre a ciência dos números
e das letras, aprenderam a subjugar as bestas e a atrelar os carros aos
cavalos, a construir navios e a usar as folhas e frutos que serviriam como
alimentos, remédios e bálsamos e adquiriram conhecimento sobre as artes
divinatórias, os presságios e sobre os sonhos.
Descobriram também que era sua capacidade de produzir, armazenar e
fazer circular a informaçăo a força motriz de sua evoluçăo e sobrevivência
como espécie humana.

As informaçơes começam a circular.

Os primeiros registros de um serviço postal datam de aproximadamente


2000 a.C., e foi utilizado primeiro pelos egípcios. Eram basicamente despachos
governamentais levados por cavaleiros de uma regiăo a outra. Os persas, os
chineses e os gregos usavam o mesmo sistema e, em casos de longa
distância, utilizavam-se de um sistema de revezamento. A cada número de
quilômetros, o mensageiro parava em uma casa postal para trocar de cavalo ou
para passar a correspondência a outro emissário que a levaria adiante.
Foram os romanos que desenvolveram o mais eficiente, seguro e
duradouro serviço postal da antiguidade, o cursus publicus. Seus mensageiros
chegavam a percorrer, por dia, 70 quilômetros a pé ou 200 quilômetros a
cavalo Havia, ainda, um sistema de inspeçăo constante para prevenir seu uso
abusivo pra propósitos privados.
Breton e Proulx defendem a idéia de que Roma, tanto na República
quanto no Império, foi, por excelência, uma sociedade de comunicaçăo e nela
tudo se organizava em torno da vontade de fazer da comunicaçăo social uma
das figuras centrais da vida cotidiana. Tanto assim que difundiram e

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universalizaram, no tempo e no espaço, a cultura latina e foi o pragmatismo de
sua língua que permitiu o nascimento da idéia de informaçăo, ou seja, de um
conhecimento que se pode elaborar, sustentar, e, sobretudo, de um
conhecimento transmissível, notadamente por meio do ensino.
A palavra latina informatio designa, de um lado, a açăo de moldar, de
dar forma. De outro, significa, de acordo com o contexto, ensino e instruçăo, ou
idéia, noçăo, representaçăo. A coexistência desses dois sentidos, segundo os
autores acima mencionados, indica que, ao contrário da cultura grega, a cultura
romana năo dissociava a técnica do conhecimento.
Por essa altura, o rolo de papiro já havia sido substituído pelo
pergaminho, produto feito geralmente com peles de gado, antílopes, cabras e
ovelhas, especialmente animais recém-nascidos, por este ser mais flexível
possibilitando a dobra de suas folhas para a montagem de cadernos,
conhecidos como códices ou manuscritos. Os primeiros livros foram escritos
em pergaminho, como, por exemplo, os livros do antigo testamento, a Ilíada e a
Odisséia e as primeiras tragédias gregas. Embora o papel tenha sido inventado
na China, no ano 105, por Ts'ai Lun, um alto funcionário da corte do imperador
Chien-Ch'u, da dinastia Han (206 a.C. a 202 da era cristă) contemporânea do
reinado de Trajano em Roma, só em 1150, através dos árabes, chegou à
Espanha, onde foi criada a primeira indústria de papel da Europa.
Ainda como códice o livro começou a ser um suporte de comunicaçăo e,
segundo Pierre Grimal, “Em Roma, as livrarias, como as salas de declamaçăo,
eram o ponto de encontro dos connaisseurs, que debatiam problemas literários:
os jovens escutavam, os antigos clientes peroravam, em meio aos livros cujos
rolos, cuidadosamente reproduzidos, alinhavam-se acima deles. A porta da loja
era coberta de inscriçơes que anunciavam as obras à venda. (...) A publicidade
estendia-se nos pilares vizinhos. Essas lojas de livreiros situavam-se,
naturalmente, nas vizinhanças do fórum”3.
Foi em Roma, também, que surgiu o primeiro verdadeiro jornal, os Acta
diurna, uma publicaçăo gravada em tábuas de pedra e afixada nos espaços
públicos, criada em 59 a.C. por ordem de Júlio César, que registrava trabalhos
do Senado, fatos administrativos, notícias militares, obituários, crônicas
esportivas, e vários outros assuntos.
Com o fim do Império Romano e antes do advento da imprensa, foram
3 Apud BRETO, Philippe & Prouxl, Serge.
estabelecidos pelo menos quatro tipos de redes de comunicaçăo, segundo
estima John B. Thompson [1998]: A primeira era a estabelecida e controlada
pela Igreja Católica; a segunda, aquelas mantidas pelas autoridades políticas
dos estados e principados, que operavam tanto dentro dos territórios
particulares de cada estado quanto entre os estados que mantinham relaçơes
diplomáticas; a terceira rede estava ligada à expansăo da atividade comercial;
e, finalmente, a constituída por comerciantes, mascates e entretenedores
ambulantes. Esses disseminavam as informaçơes nas reuniơes em mercados
ou em encontros nas tabernas.
Segundo Thompson, ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, estas redes
de comunicaçăo foram submetidas a dois desenvolvimentos-chave. Em
primeiro lugar, alguns estados começaram a estabelecer serviços postais
regulares que rapidamente cresceram em disponibilidade para uso geral, e, em
segundo, foi o uso da imprensa na produçăo e disseminaçăo de notícias.

Dos incunábulos ao Le Journal de Paris.

[Imagem. 5 - Summa de vitiis et virtutibus – 1270 - Guilelmus Peraldus. In


www.dartmouth.edu/~speccoll/westmss/003104.shtml]

[Imagem 6 - Book of hours, use of Paris. Paris: Phillippe Pigouchet for Simon Vostre, 25 April 1500.

Printed on vellum. In http://www.grolierclub.org/incunabula.htm]

Os códices, tal como os rolos de papiro e pergaminho, eram,


naturalmente, escritos à măo, daí serem denominados manuscritos, e sua
confecçăo, principalmente na Idade Média, entre os séculos VII a XIII, tornou-
se uma atividade essencialmente monástica, principalmente pelo alto custo do
suporte e da cópia, pela lentidăo em sua confecçăo – um bom copista
trabalhava em média duas folhas e meia por dia – e para evitar a disseminaçăo
do conhecimento entre os homens comuns.

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