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ISKCON - Sociedade Internacional para a Consciência de Krsna

Artigos de capa das revistas

Back to Godhead

do ano de 2005, em português

Revista fundada no ano de 1944 por Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada – Fundador-acarya da ISKCON e BBT.

Artigos de capa das revistas Back to Godhead do ano de 2005, em português

Back to Godhead © 2005 BBT Los Angeles Todos os direitos reservados.

1ª Edição

Articulistas: Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada, Arcana Siddhi Devi Dasi, Adbhuta Hari Dasa, Bhranti Devi Dasi, Devahotra Dasa, Indradyumna Svami, Jahundvipa Dasa, Karuna Dharini Devi Dasi, Krsna Kanta Dasi, Murari Gupta Dasa, Navin Jani, Nitya Kisori Devi Dasi, Parthasarathi Dasa, Satyaraja Dasa,Urmila Devi Dasi.

Tradução: Bhagavan dasa (DvS)

Revisão: Bhaktin Flávia Reis (DvS)

Fundador-acarya: A.C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada

Visite-nos na internet: www.harekrishna.com.br e-mail: ajuda@harekrishna.com.br.

Dedicado a Sua Santidade Dhanvantari Svami, Avyakta Rupa Prabhu, Giridhari Prabhu, Lilananda Prabhu e a todos os demais Prabhupadanugas, que sempre sentem prazer ouvindo as glórias do Senhor e de Seus devotos.

APRESENTAÇÃO

Por sua biografia autorizada, o Srila Prabhupada Lilamrta, tomamos conhecimento dos feitos sobre-humanos de Srila Prabhupada para cumprir a ordem de seu mestre espiritual, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati, de apresentar a filosofia da consciência de Krsna em língua inglesa.

Dentre seus diversos empenhos para tal, está a revista Back to Godhead, na qual Srila Prabhupada criticava os hábitos das pessoas modernas e propunha o serviço devocional

a Krsna como a solução de todos os problemas.

A primeira publicação da revista data do ano de 1944, quando Prabhupada, pessoalmente, escreveu os artigos, custeou a publicação e distribuiu as revistas, uma a uma, pelas movimentadas ruas de Calcutá.

Posteriormente, Prabhupada realizaria que o capital aplicado nessas publicações “descartáveis” poderia ser melhor valorizado na edição e publicação de livros, uma vez que esses, ao contrário dos periódicos, tinham vida longa.

Todavia, as dificuldades financeiras de Prabhupada do começo, que lhe obrigavam a escolher entre os livros ou a revista, deixariam de existir. Assim, passou-se a distribuir tanto livros quanto periódicos, uma vez que os livros não substituem a revista, tampouco a revista substitui os livros.

Hoje, a revista continua circulando pelos Estados Unidos e Índia, mantida por discípulos e seguidores de Srila Prabhupada. Os artigos são de excelente qualidade, e de temas variando de depoimentos devocionais a temas profundamente filosóficos.

É por essa trajetória que este pode hoje estar em suas mãos.

Desejando-lhe excelente leitura e realizações, Bhagavan dasa (DvS)

SUMÁRIO

Janeiro/Fevereiro Somos Todos Ladrões?

6

Conversão Harmoniosa

9

Acordando do Sonho

14

Março/Abril Soldado de Krsna

17

Retratos do Meu Ano Favorito

20

Irmãos de Sangue

24

Maio/Junho “Certamente Você Virá a Mim”

29

Entre a Matéria e o Espírito

32

Procura-se Deus

35

Julho/Agosto Apreço pelos Escritos Sagrados

37

Quando o Conhecimento é Ignorância

41

Maharaja Prataparudra: Um Servo Humilde em Vestes Reais Setembro/Outubro

44

A

Dança do Amor Divino

48

O

que Faz a Mulher Hare Krsna?

52

Hampi: A Coroa de um Império Glorioso

54

Novembro/Dezembro

O

Bom Filho a Casa Torna

57

Uma Chuva de Misericórdia: A Vida Exemplar de Bhakti-tirtha Svami

62

O

Humor de Rendição

68

Somos Todos Ladrões?

Are We All Thieves?

por Arcana Siddhi Devi Dasi

Quase todos já experimentamos o desprazer de perder algo de valor. Algumas vezes, concluímos que colocamos em algum lugar que não podemos lembrar ou que perdemos o objeto. Embora seja uma sensação de desprazer, tal sensação é muito pequena perto daquela de descobrirmos que o objeto não foi colocado em algum lugar errado, mas que foi roubado – pior ainda se foi roubado por alguém que conhecemos. Há alguns anos, quando abri minha carteira, dei falta de cem dólares. Eu tinha certeza de que esse dinheiro estava ali no dia anterior. Após alguma investigação, descobri que um dos amigos do meu irmão havia pegado o dinheiro. Eu fiquei revoltada, e me senti violentada e machucada.

Quando trabalhava como psicoterapeuta em uma clínica de saúde mental da periferia de minha cidade, eu atendia freqüentemente crianças que haviam tido algum histórico de roubo. Algumas vezes eram pegos com pequenos objetos como CDs de lojas de música, por exemplo, e outras vezes roubando carros estacionados na rua. Eu me esforcei muito para induzi-los a imaginarem como as vítimas de seus crimes se sentiam – saindo de casa pela manhã para ir ao trabalho, e não encontrando seu carro. Mas a maioria daquelas crianças não tinha capacidade para imaginar os sentimentos da pessoa roubada. Não só não podiam entender, como pareciam não se importar. A falta de consciência social deles levava a um prognóstico muito negativo.

Como potenciais vítimas de seus crimes, tentamos proteger nossas propriedades com sofisticados sistemas de alarme, comunidades muradas e cães de guarda. Apesar de tais “proteções”, somos assolados por crimes insidiosos, como ladrões de identidade, que roubam diretamente de nossas contas ou fazem uma cópia falsa de nosso cartão de crédito. Cortadores de papel se tornaram um

eletrodoméstico essencial em muitas casas, e temos que regularmente checar a fatura do cheque e

do cartão de crédito para ver se não há nenhuma atividade desautorizada. Os elaborados crimes dos

colarinhos-brancos crescem a cada ano, roubando milhões de pessoas.

A que se atribui esse crescimento descontrolado de diversas categorias de roubo em nossa

sociedade? De uma perspectiva psicológica, poderíamos ver isso como produto da ausência de responsabilidade social que cresce junto com o crescimento do senso de alienação. Alguns fatores que contribuem para esse senso de despersonalização são a ruptura da estrutura familiar, falta de comunidade, e o papel da igreja cada vez mais apagado. Algumas pessoas pensam que as desigualdades sociais e econômicas tornam o ato de roubar lícito. Outros fatores externos, como pobreza e dependência de drogas, exacerbam essa dinâmica psicológica.

Mas, para entender a causa primária, busco a perspectiva espiritual dos atemporais comentários Védicos. Eles dizem que estamos vivendo na mais degradada era, a Era de Ferro, caracterizada pela trapaça e pela hipocrisia. Todos os pilares da vida ética, moral e religiosa – que incluem austeridade, limpeza, misericórdia e veracidade – praticamente desapareceram com a entrada desta era. O roubo é apenas um sintoma do declínio desses princípios. Os princípios religiosos se tornam proeminentes quando as pessoas entendem que tudo pertence e é controlado por Deus. Em essência, nada é nosso. Nós fomos apenas incumbidos com uma cota da propriedade de Deus, o que nos torna responsáveis por usarmos tal posse temporária de forma que dê prazer ao seu dono.

Mesmo as dádivas da natureza – água, luz solar, madeira, minerais, pedras preciosas – são fornecidas para que as usemos no serviço ao Senhor e a Seus devotos. O Senhor criou o mundo

material para sanar nosso desejo de desfrutar em separado dEle. Ele abundou esse mundo com todos

os ingredientes que precisamos para vivermos de forma feliz e avançarmos espiritualmente. Se não reconhecemos quem é o verdadeiro dono, e usamos para o nosso prazer os recursos disponíveis, então também somos ladrões, e teremos que sofrer as conseqüências de nossos atos.

Durante uma caminhada matinal na Índia, Srila Prabhupada conversava com um empresário muito

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rico e perguntou para ele qual era a natureza de seus negócios. Quando o homem respondeu que tinha uma fábrica de vidro, Prabhupada lhe perguntou como o vidro era feito. O homem disse que o vidro é produzido a partir da areia.

“E quem é o dono da areia?”, Prabhupada perguntou.

“Bhagavan, Deus, é o dono”.

“Oh, então você está roubando de Bhagavan?”, Prabhupada desafiou.

Tentando se livrar daquela situação, o homem disse que dava muito dinheiro em caridade.

“Ah, então você é um ladrão de pequeno porte”, Prabhupada disse sorrindo.

Ao mesmo tempo em que Prabhupada encorajava seus discípulos e a congregação a trabalharem em empresas honestas, ele também nos lembrava que Krsna é o dono de nossa empresa e que deveria ser dado de volta a Ele o máximo possível dos frutos do trabalho. Usando nosso tempo e dinheiro no serviço ao Senhor e a Seus devotos, lucramos de diversas maneiras. Oferecer o resultado ao Senhor purifica nosso trabalho e nos liberta tanto das boas quanto das más reações de nosso trabalho. De outra forma, tomando para nós o que não é legitimamente nosso, enredamo-nos ainda mais no samsara, o ciclo de nascimentos e mortes.

Nossa Cota

Isso levanta a questão de como determinar a cota que nos foi cedida pelo Senhor Supremo. Como diversos aspectos da vida espiritual, a resposta necessita de introspecção honesta e sincera. Temos, cada um, diferentes necessidades, mas devemos nos permitir ser guiados e iluminados pelas escrituras. O Sri Isopanisad e o Bhagavad-gita, por exemplo, sugerem que sejamos moderados quanto à satisfação de nossas necessidades corpóreas. Não devemos trabalhar arduamente para obter posses ordinárias ou para conseguir coisas que sejam muito difíceis de serem obtidas.

Nós também devemos aceitar a orientação de devotos avançados que conheçam nossa natureza

psicológica e possam nos ajudar a discernir quanto a qual padrão de vida é mais benéfico no suporte a nossas práticas espirituais. Quando Prabhupada estava arquitetando o local de residência dos devotos em seu projeto de templo na Índia, ele incluiu confortos modernos, como vasos sanitários com descarga e chuveiros, coisas que não eram muito comuns na Índia naquele tempo. Ele entendia

a estrutura psíquica particular de seus discípulos ocidentais e era cuidadoso em provir um padrão de vida que fosse condizente com a natureza deles.

Mesmo dentro da cultura ocidental, há uma vasta variedade de indivíduos. O que pode parecer

excessivo para uma pessoa, talvez não pareça o bastante para outra. Nossa cota fornecida por Krsna talvez também varie de acordo com nosso serviço específico a Ele, nosso nível de avanço espiritual,

e nossa habilidade em administrar bens materiais. Krsna deu muito a Prabhupada, e Prabhupada não usou sequer uma moeda para a gratificação de seus sentidos.

Yukta-vairagya

Enquanto que os discípulos de Caitanya Mahaprabhu freqüentemente demonstravam avanço através

de austeras renúncias, Srila Prabhupada exibia o princípio de yukta-vairagya – o uso de recursos

materiais para o serviço a Krsna. Certa vez, um homem mencionou a Prabhupada um yogi famoso que se recusava a aceitar dinheiro. Em resposta, Prabhupada fez um movimento com a mão como se estivesse pegando dinheiro, dizendo que usaria todo aquele dinheiro para o serviço a Krsna. Prabhupada visionava usar toda quantia de dinheiro que tivesse para imprimir livros sobre a

consciência de Krsna e para construir belos templos para o benefício de todo o planeta. A perfeição

de nossa inteligência é aceitar os presentes de Deus e oferecê-los de volta a Ele na forma do serviço

devocional amoroso.

A compreensão superior de renúncia de Prabhupada fazia com que ele sempre procurasse uma

oportunidade de ocupar outros no serviço a Krsna. Há a famosa história do homem bêbado que invadiu o primeiro templo de Nova Iorque enquanto Prabhupada palestrava. O bêbado passou por

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toda a audiência e colocou alguns rolos de papel higiênico no banheiro e foi embora sem falar nenhuma palavra. Prabhupada disse que o homem não estava sóbrio, mas que havia começado sua prática do serviço devocional. Então, qualquer coisa que ofereçamos será bom para nós - nunca saímos perdendo ao servir o Senhor.

Quando uma criança compra uma lembrança para seu pai com o dinheiro que foi dado por seu pai, o pai sente-se querido e sua afeição pelo filho cresce. Da mesma forma, Krsna sente-Se mais atraído por nós quando oferecemos de volta a Ele os recursos que Ele nos dá.

É assim que convertemos nossa mentalidade de ladrão para a mentalidade de devoto. Quando vimos

para o mundo material, esquecemos nossa posição como servos eternos do Senhor. Assim, tentamos imitar o desfrutador supremo explorando a natureza material para o prazer de nossos sentidos. Ignoramos o Senhor e tentamos ser felizes independentes dEle.

O Senhor é tão doce que, mesmo com nossa relutância em voltar para Ele, Ele está sempre conosco.

Ele Se senta em nosso coração e testemunha todas as nossas atividades. Ele nos vê quando estamos doando, e Ele nos vê quando estamos roubando. Ele envia Seus representantes, as almas puras, para nos ajudarem a entender como devemos viver nossas vidas. Ele envia Seu santo nome para purificar nossos desejos e para nos ajudar a viver em harmonia com os princípios divinos.

Aqueles que recebem Sua misericórdia têm a obrigação de ajudar outros que estão agonizando neste mundo. Quando ajudamos na distribuição do santo nome e da consciência de Krsna, mais e mais pessoas se transformam em servos amorosos do Senhor. Assim, esta Era de Ferro pode ter todas as qualidades da Era de Ouro, na qual as pessoas entendem a divindade do Senhor e a relação que têm com Ele, como Seus servos eternos. Esse é o verdadeiro antídoto para as aflições da sociedade.

O Ladrão de Manteiga

Para ajudar as almas rebeldes a saírem do emaranhamento material e se reconectarem a Ele, o Senhor aparece pessoalmente neste mundo e exibe Seus passatempos para atrair nossas mente e coração para o Seu serviço. Alguns dos passatempos mais famosos consistem no Senhor roubando de Seus devotos. Krsna desfruta transcendentalmente ao roubar manteiga e iogurte das vaqueiras de Vrndavana. Também sente imenso prazer roubando as vestes das jovens camponesas.

Tudo tem sua origem no Senhor. As qualidades negativas que encontramos aqui neste mundo são simplesmente reflexos pervertidos do comportamento puro do Senhor. Quando roubamos uns aos outros no mundo material, criamos o sentimento de hostilidade e cultivamos o desejo de vingança – que se opõem ao amor e preocupação com o bem dos outros. Mas quando Krsna rouba de Seus devotos, eles sentem exultante felicidade. E o sentimento de amor entre o devoto e o Senhor cresce imensamente. Trata-se de uma grande celebração, um festival de sentimentos amorosos.

Por outro lado, como Deus pode roubar algo uma vez que tudo pertence a Ele? Seus roubos são parte de Sua peça divina, que é inspirada pelo Seu amor por Seus devotos. Somos apenas pequenas centelhas da energia do Senhor, e tudo que possuímos está apenas emprestado a nós durante esta vida. Não há, assim, razão para tentarmos imitar as atividades do Senhor, mas, ao contrário, devemos orar ao Senhor pedindo que roube nossos corações deste mundo ilusório e nos permita novamente fazer parte de Seus passatempos eternos.

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Conversão Harmoniosa

Harmonic Conversion

por Satyaraja Dasa

“Não se trata de conversão do Cristianismo para o Hinduísmo. A conversão acontece no sentido de levarmos a classe de homens ateístas a aceitarem a consciência de Deus”. (Carta de Srila Prabhupada de 26 de junho de 1976)

Em uma reunião de família, há algum tempo atrás, eu comecei a falar sobre a consciência de Krsna

e seu valor em minha vida. Para minha família mais próxima – pais e irmãos – esse tipo de conversa

é algo com o que já estão acostumados. Mas para parentes que vejo com menor freqüência, tal conversa os conduz a um passado longínquo, no tempo da minha “conversão”, como eles dizem.

Aparentemente, meu tio Sidney tomou como uma afronta pessoal a maior parte do que eu dizia.

“Você está tentando nos converter?”, ele disse como se há muito tempo estivesse se segurando - ele sorria, mas seus lábios estavam pálidos de raiva.

“Convertê-lo? Eu não sabia que você tinha religião”.

“Eu sou Judeu!”, ele disse incrédulo, como se aquela resposta solucionasse todas as questões. “Certo, eu não acredito em Deus, mas eu sou Judeu”.

Silêncio constrangedor.

“Bom, ao menos eu nasci Judeu, e você também”.

“Eu também nasci bebê”, eu contestei, tentando levar um pouco de humor para a discussão. “Mas isso mudou, não? Só porque você nasceu em uma religião não faz de você um praticante”.

“E ?”

“Por isso, eu falar com entusiasmo sobre a tradição religiosa que adotei, a consciência de Krsna, não desafia de forma alguma a relação que você tem com a religião de seu nascimento”.

Nós deixamos aquele assunto para lá; mas quando eu voltei para casa aquela noite, eu fiquei pensando sobre a perspectiva de meu tio. Por que ele se considera Judeu, mesmo não praticando a religião? Por que minha conversão para a consciência de Krsna era desconfortável para ele? E será que eu estava mesmo tentando convertê-lo? Como eu poderia explicar para ele que minha “conversão”, como ele via, não se tratava de um movimento horizontal do ocidente para o oriente, mas, sim, um movimento vertical, da terra firme para o caminho da transcendência?

Exclusivismo Religioso

A tensão de meu tio em relação à consciência de Krsna se baseia no exclusivismo religioso, a visão

que separa as religiões de acordo com o fundador, as escrituras e as diferenças histórico- geográficas. Por causa dessas diferenças, os adeptos de algumas religiões acreditam que apenas o seu processo é efetivo, com todos os outros apresentando algum grau de debilidade. Assim, muitas religiões, especialmente aquelas originadas no ocidente, têm enraizadas a noção de serem a religião verdadeira. Acreditam que apenas eles estão trilhando o exclusivo caminho para Deus e a salvação.

Mas o mundo moderno vem refutando tal visão. Pela primeira vez na história registrada, estamos nos tornando rapidamente uma comunidade global, o que naturalmente nos conduz ao pluralismo religioso – compreensão verdadeira das religiões de nossos vizinhos e como elas se relacionam com nossa gama pessoal de crenças.

A visão pluralista se torna algo mais logicamente plausível quando reconhecemos que todas as

tradições religiosas genuínas acreditam em uma verdade transcendental (freqüentemente chamada de Deus) e em nossa obrigação de agirmos em harmonia com essa verdade.

Mas o exclusivismo persiste. De onde ele vem? Qual sua origem? Psicologicamente, sua origem

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pode ser facilmente traçada a partir do desejo de ser considerado especial dentro do cosmo, a necessidade de se situar em algo exclusivo.

Em relação às religiões originadas no Oriente Médio, acadêmicos atribuem a origem da idéia do exclusivismo ao exílio dos Judeus para a Babilônia, quando se voltaram pela primeira vez ao monoteísmo e desenvolveram a tradição de não se misturarem a outras nações. Mas não diga isso ao meu tio. As leis Mosaicas são vistas como a única revelação, e associam os Judeus a Deus de forma que nenhuma outra pessoa teria relação com Ele. Isso faz deles “o povo escolhido”. A crença dos Judeus em um “Deus exclusivo” se estendeu a seu pupilo, o cristianismo, com o “Jesus é o único filho de Deus”. Tendo nascido do fértil solo exclusivista do Judaísmo, a tradição cristã clama que só se pode alcançar o Supremo através de Jesus, crença que inspira as atividades missionárias da igreja por todo o mundo.

Mas se pensarmos sobre isso profundamente, realizaremos que todos somos partes do mesmo organismo – Deus – e nossa exclusividade se baseia exatamente em como, de acordo com nossa maquiagem psicológica individual, iremos servir a Ele para que desenvolvamos nosso amor por Ele. Como criaturas finitas, quem somos nós para limitarmos o amor de Deus, dizendo que Ele aceita o amor daqueles em um processo e não aceita o daqueles em outro? Movimentos Judeus que compreenderam esse ponto assumiram a postura pioneira de reconhecerem a legitimidade de outros caminhos para se chegar a Deus, e o Conselho do Vaticano de 1965 diz que os Cristãos devem buscar apreciar o que há de bom e verdadeiro nas demais fés.

Isso não tem por fim dizer que as diferenças entre as tradições religiosas são meramente semânticas, ou que todos os caminhos são igualmente efetivos em conduzir-nos para o destino supremo. No movimento Hare Krsna, balanceamos nossa abertura às várias tradições religiosas do mundo com afiados questionamentos acerca do conteúdo de determinadas tradições. É preciso haver um critério base para se discernir verdades religiosas, mesmo que todas as principais tradições sejam aceitas em essência.

O que É Religião?

Em uma palestra pública no ano de 1972, Srila Prabhupada, de forma muito sensata, define a natureza da religião verdadeira:

“Na sociedade humana, há sempre algum tipo de instituição religiosa. Isso se chama dharma, fé. Como já foi explicado, dharma é o dever constitucional e funcional de cada indivíduo. A essência da verdadeira religião é a prestação de serviço a Deus. Nós, todavia, manufaturamos diferentes

Pode-se praticar qualquer tipo

religiões na sociedade de acordo com o país ou as circunstâncias. [

de princípio religioso, mas o resultado deve ser a aquisição da perfeição. Talvez uma pessoa diga que está seguindo perfeitamente os princípios de sua religião, que são trazidos na Bíblia, no Corão, etc., e isso é muito bom, mas qual é o resultado? O resultado deve ser que a pessoa deseje cada vez mais ouvir sobre Deus”.

Enquanto conversava com meu tio Sidney, tais idéias norteavam meus pensamentos. Estando ciente de sua descendência Judaica (e da minha também), eu tentava trazer algo mais profundo. Eu estava falando sobre a prática de princípios espirituais. Eu não estava nem um pouco preocupado se chamamos tais princípios de Judaísmo, Cristianismo ou Hinduísmo. No ensinamento de Prabhupada, chamado de Vaisnavismo, essa essência espiritual se chama sanatana-dharma, ou a “eterna função da alma”. Essa tradição incentiva seus adeptos a se focarem no cerne da busca religiosa: amor por Deus. Ela enfatiza a qualidade da devoção, e não o rótulo de um caminho particular, como disse Prabhupada em uma conversa em Gênova em junho de 1974:

“Primeiramente, o que é qualidade? A qualidade do cristão é percebida por sua obediência ou não dos Dez Mandamentos. Se ele não os cumpre, onde está sua Cristandade? Assim é declarado guna- karma: pela qualidade e trabalho, a pessoa se torna Cristã, Hindu ou Muçulmana. É preciso que exista a qualidade. E quando a espiritualidade se desenvolve, seja através do Cristianismo, do

Portanto, nosso

movimento existe para criar pessoas que amam a Deus, e isso é declarado no Bhagavatam: a

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Hinduísmo ou do Islamismo – isso não importa – aí está a qualidade desejada

]

religião de primeira classe é aquela que transforma seus seguidores em pessoas que amam a Deus”.

De acordo com Prabhupada, o caminho supremo é aquele que nos permite desenvolver amor por Deus. Se a pessoa não desenvolve esse amor, então a instituição religiosa não é nada senão uma distração à meta última da vida. Prabhupada baseia essa idéia no verso 1.2.6 do Srimad- Bhagavatam, possivelmente a mais profunda de todas as escrituras religiosas: “O dever supremo (dharma) de toda a humanidade é aquele pelo qual as pessoas podem obter o serviço devocional

amoroso ao Senhor transcendental. Tal serviço devocional deve ser desmotivado e ininterrupto para

a completa satisfação do Eu”.

Em outras palavras, há o que se chamaria de dharma externo (dever, religiosidade) e de dharma interno, e se o primeiro não conduz ao segundo, o primeiro deve ser descartado. Isso pode ser entendido pelo cuidadoso estudo do Bhagavad-gita: Krsna inicialmente instrui a humanidade a aceitar completamente o dharma. Ele diz que é com o objetivo de se estabelecer o dharma que Ele pessoalmente descende (Bg. 4.8) – mas, até então, Krsna se refere ao dharma externo. Quando o Gita começa a se aproximar de seu fim, Krsna finalmente sugere que abandonemos o dharma externo e tomemos refúgio nEle. (Bg. 18.66) Esse é o dharma interno. Como exemplifica o comportamento do meu tio, enquanto se calcula como praticar sua religião, é muito freqüente deixar Deus de fora da equação. Assim, o Senhor Krsna diz de forma definitiva que seguir as tradições religiosas é importante, mas que o mais importante é se ater à essência da religião.

O que É, Definitivamente, Dharma?

O movimento Hare Krsna respeita e pratica o dharma como ele é enunciado nos antigos textos

Védicos, mas enfatizamos a essência do dharma: amor por Deus. Em última instância, é isso que todas as religiões ensinam – adesão ao dharma externo, mas com a consciência de que esse é mero subserviente do dharma interno. Tal percepção deve ser adquirida para a compreensão do verdadeiro significado da busca religiosa.

Em Sânscrito, a palavra mais freqüentemente usada para designar religião é, mais uma vez, dharma. Todavia, dharma denota mais do que uma doutrina que alguém se afilia para a expressão de

determinada fé religiosa. Dentre suas diversas definições, dharma literalmente significa “a essência

de uma coisa”. O dharma do açúcar é a doçura; o dharma do fogo é o calor; o dharma das entidades

vivas é conhecer e amar a Deus. Em outras palavras, dharma é aquilo do qual um ser ou coisa não pode ser separado. Você pode mudar sua fé, a forma com que expressa sua religiosidade – um Judeu pode se tornar Muçulmano, que pode se tornar Cristão, que pode se tornar Hindu – mas você

é sempre servo de Deus. Esse é seu verdadeiro dharma.

Talvez alguém proteste: “Eu não sou servo de Deus. Eu sou dono de mim mesmo. Eu não sirvo ninguém”. Se examinarmos cuidadosamente nossa vida, todavia, veremos claramente que somos sempre servos. Podemos servir Deus e, por extensão, a humanidade ou podemos servir nossa família ou nossos sentidos pessoais – mas somos servos por natureza. No estado condicionado da existência material, as entidades vivas servem o Senhor de forma indireta e desfavorável, enquanto que no estado liberado as entidades vivas servem o Senhor de forma direta e favorável.

Para exemplificar, todos no Estado servem o Estado. Alguns servem de forma direta e favorável, como os policiais, soldados, políticos, os cidadãos que pagam seus impostos etc., enquanto que

outros servem de forma indireta e desfavorável, como os prisioneiros. Presos na prisão da natureza material, sob a supervisão de Durgadevi (a personificação da energia material), as almas condicionadas são forçadas a servir maya, ou ilusão, e, em troca de seus serviços prestados, elas são

às vezes chutadas pelas cruéis leis da natureza e às vezes afagadas pelo seu carinho inconstante. As

almas liberadas, que vivem na morada suprema do Senhor (o reino de Deus, nosso lar original), em contraponto, servem o Senhor diretamente em diversas variedades de rasas espirituais, ou relacionamentos transcendentais, e desfrutam de uma vida eterna, plena de conhecimento e de bem- aventurança na companhia da Suprema Personalidade de Deus, o reservatório de todo o prazer.

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A Importância do Não-Sectarismo

Uma vez que Deus é um, a religião também deve ser uma. Essa religião comum, que recebe diversos nomes, é conhecida pelos indianos (e pelos devotos Hare Krsna) como sanatana-dharma, e é isso que eles se esforçam em praticar. Assim, sanatana-dharma, a religião do movimento Hare Krsna, não é um conceito sectário que tenta artificialmente rebaixar outras religiões e estabelecer sua supremacia com base nos conceitos mundanos de superioridade e inferioridade; senão que é a natural busca da alma espiritual pelo serviço e amor a Deus. É a essência – o dharma interno – de toda entidade viva.

O movimento Hare Krsna prega que as entidades vivas não são Cristãs, Judias, Hindus ou

Muçulmanas, porque esses títulos são designações corpóreas. E, se isso estivesse claro na conversa que tive com meu tio, não teria havido nenhum desentendimento. As pessoas não são o corpo, mas sim a alma espiritual. Contudo, muitos acham que são cristãos, por exemplo, simplesmente porque nasceram em uma família cristã. Eles não consideram que na próxima vida – ou mais tarde na mesma – podem se tornar Budistas, Siques ou adeptos de qualquer outra religião. Novamente, um Cristão pode se converter em Judeu, ou um Hindu em Muçulmano – são todas designações temporárias do corpo e de crenças pessoais, designações que mudam, que têm começo e fim. Portanto, não são sanatana-dharma, a verdadeira religião eterna de todos.

Mas se uma pessoa encontra os princípios do sanatana-dharma nos ensinamentos do Cristianismo,

do Islamismo, ou em qualquer outro lugar, ela deve aceitá-los sem considerar o rótulo ou o local de

origem. Enfim, a religião Hare Krsna ensina o verdadeiro não-sectarismo, como estabelecido anteriormente, encorajando que as pessoas aceitem qualquer processo genuíno que as conecte com Deus, como afirma Prabhupada:

“Pode-se compreender nossa relação com Deus através de qualquer processo – através do Cristianismo, através da literatura Védica, ou através do Corão – mas tal assunto deve ser compreendido. O propósito deste movimento da consciência de Krsna não é transformar Cristãos em Hindus ou Hindus em Cristãos, mas informar a todos que o dever do ser humano é entender sua relação com Deus”.

A compreensão da existência de um dharma eterno, uma religião universal, é tão clara para

Prabhupada que o conceito de sectarismo lhe parece absurdo:

“O que é sectarismo? Em todas as seitas a criança é dependente dos pais. O que se quer dizer com sectarismo? Quer-se dizer que a criança Hindu não é dependente de seus pais? A criança muçulmana não depende de seus pais? Todos dependem dos pais. Se ela é uma criança Hindu, uma criança Cristã ou uma criança Muçulmana, isso não importa. Essa é a natureza da criança. De forma similar, talvez você seja Hindu ou Muçulmano, mas você depende de Deus. Isso é um fato. Então, onde está o sectarismo? O Muçulmano pode dizer ‘Não, não. Não somos dependentes de Deus’? Os Cristãos podem declarar isso? Temos que pegar a condição geral: todos são dependentes de Deus. Onde está a questão do sectarismo? É como uma nuvem: todos estão esperando por chuva. Isso não significa que se espere por chuva Muçulmana ou chuva Hindu ou chuva Cristã. Toda chuva é dependente das nuvens. Isso é tudo. Hindu, Muçulmano, Cristão – somos dependentes da nuvem. Por que declarar-se independente de Deus?”.

Prabhupada grifou a importância de se buscar a verdadeira religião em qualquer lugar que se possa encontrá-la, embora ele claramente expressasse sua fé pessoal na tradição Védica, a qual atribuía os predicados de “a mais abrangente e clara” e “os mais antigos textos conhecidos pela humanidade”:

“Se uma pessoa é séria quanto a buscar por Deus, ela não deve pensar ‘eu sou Cristã’, ‘eu sou Hindu’ ou ‘eu sou Muçulmana’. [Senão que] deve considerar qual processo é o mais prático. Não deve pensar: ‘Por que eu deveria seguir o Hinduísmo e as escrituras Védicas?’. O propósito de se seguir as escrituras Védicas é desenvolver amor por Deus. Quando estudantes vêm para a América

em busca de educação superior, eles não se preocupam se os professores serão americanos, alemães

ou de outra nacionalidade. Se querem educação superior, simplesmente vêm para a América. De

forma similar, se há um processo efetivo para se compreender e se aproximar de Deus, como esse

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processo da consciência de Krsna, deve-se tirar o máximo de proveito”.

Converter em Quê?

Citações como a acima pedem reflexão: Prabhupada está recomendando alguma espécie de conversão? Ele vê sua tradição como sendo melhor do que outras?

Se pegarmos essa última citação juntamente com as demais, veremos que Prabhupada não está recomendando que pulemos de uma religião para a outra, mas que olhemos a fundo a verdade religiosa e vivamos nossas vidas de acordo. Claramente ele vê a tradição Vaisnava como mais inclusiva, e as escrituras Védicas como mais claras e objetivas; e ele certamente iria recomendar a uma pessoa – se ela se demonstrasse inclinada – a aceitar essas escrituras e tradição. Mas para que fim? Esse é o ponto crucial. Não é para aumentar o número de Hinduístas ou de adeptos de qualquer outra seita. Prabhupada está apenas pedindo para que as pessoas procurem um processo científico que culmine no amor por Deus. Se podem fazer isso através de alguma tradição sectarista, então que façam; mas ele recomenda o Vaisnavismo, pois sabe que ele funciona.

Prabhupada diz:

“Sim, eu não digo que Cristãos devam se tornar Hindus. Eu apenas digo: ‘Por favor, obedeçam aos mandamentos”. Eu quero fazer dos Cristãos melhores Cristãos. Essa é minha missão. Eu não digo:

‘Deus não está na sua tradição; Deus está apenas na nossa’. Eu simplesmente digo: ‘Obedeça a Deu’. Eu não digo: ‘Você tem que aceitar que o único nome de Deus é Krsna’. Não, eu digo: “Por favor, obedeça a Deus. Por favor, tente amar a Deus”.

Assim, se os ensinamentos de Prabhupada falam sobre algum tipo de conversão, falam sobre converter pessoas do materialismo para o espiritualismo – e isso é tudo. Sua preocupação é que as pessoas pratiquem suas religiões de forma sincera e com entusiasmo. E como ele era pessoalmente praticante do dharma Vaisnava, ele estava confiante de que poderia ensinar a outros a fazerem o mesmo. Prabhupada não aceita as idéias de uma revelação exclusiva, de um povo escolhido, ou de um único salvador; por isso não pensa em termos de conversão. Ao contrário, afirma que Deus aparece em várias formas, tempos e locais para falar a língua da religião para todas as culturas e, assim, estabelecer os vários aspectos de Sua lei e de Seu amor. De acordo com Prabhupada, o amor de Deus pela humanidade é algo muito poderoso para ser restrito a um tempo, local ou cultura. Mesmo destacando o prestígio da tradição Vaisnava, os ensinamentos de Prabhupada são não- sectários. Ele não estava interessado em conversões, embora estivesse interessado em compartilhar a ciência Vaisnava de como desenvolver amor por Deus. Só desejo que meu tio Sidney possa entender isso.

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Acordando do Sonho

Waking from the Dream

por Jahundvipa Dasa

Nós, almas que habitamos o mundo material, estamos sob a influência da potência ilusória de Krsna, Maya Devi. Assim como uma pessoa esquece sua vida enquanto sonha durante a noite, nós que vivemos no mundo material vivemos em ignorância de nossa identidade verdadeira, e por isso se diz que estamos dormindo. A “realidade” a qual estamos tão acostumados é apenas um sonho. Nossa existência espiritual, aquela da qual nos esquecemos – nossa existência eterna no reino espiritual – é a realidade.

Como podemos distinguir entre realidade e ilusão? Em um sonho, tudo parece mais ou menos real. Nós experimentamos os mesmos registros de emoções e impressões de quando estamos acordados. Sonhos parecem bastante reais. O que, então, faz do sonho irreal? No Bhagavad-gita, o Senhor Krsna responde dizendo que realidade é aquilo que existe sem cessação, que existe de forma contínua e eterna. Um sonho, portanto, uma vez que tem começo e fim, não pode ser real. A existência real é contínua.

“Aqueles que são videntes da verdade concluíram que não há continuidade para o inexistente [o corpo material] e que não há interrupção para o existente [a alma]. Eles concluíram isto estudando a natureza de ambos”. (Bhagavad-gita 2.16)

Quando o Senhor Krsna se refere ao corpo material como “inexistente”, Ele está dizendo que ele é temporário; sua existência não é um fato permanente. “Inexistente” não quer dizer que o corpo e o mundo material simplesmente não estejam aqui, ou que são “falsos”, como afirmam alguns impersonalistas.

Em contraste com a existência eterna, nossa atual existência é efêmera e insubstancial – apenas um breve momento, como um sonho. Por mais longa que seja a vida dentro deste sonho, ela encontrará fim, e, no reino da eternidade, nossa duração de vida de sessenta ou oitenta anos não é mais do que um piscar de olhos na vastidão da eternidade, que sequer registra esse tempo. Essa verdade se aplica também ao computador que estou usando agora para escrever. Mesmo que eu fosse embora e deixasse o computador aqui sozinho, sem nunca mais tocar nele, o tempo iria destruí-lo, e sua identidade, ou forma, deixaria de existir.

Para nós, mil ou um milhão de anos pode parecer uma quantia de tempo considerável, mas, do ponto de vista, digamos, do Senhor Brahma, o primeiro ser vivo criado no universo (que vive inimagináveis 311.040 trilhões de anos), certamente o meu computador, a mesa que sustenta meu computador, bem como a casa que abriga a mesa, não podem ser tidas como existentes. Antes que o Senhor Brahma tenha terminado sua higiene matinal, nós teremos nascido e morrido milhares de vezes.

A vida do Senhor Brahma dura tanto quanto o universo no qual estamos vivendo. Ou seja, ele vive enquanto o universo existe. Então, em relação à percepção de tempo do Senhor Brahma, nossas vidas são tão curtas e insignificantes que, para todos os fins, elas praticamente não existem. De forma similar, no tempo eterno do reino espiritual, o Senhor Brahma e o universo no qual vivemos são tão insignificantes e inexistentes quanto nós somos em relação ao universo. Krsna explica isso no Bhagavad-gita (8.17-20):

“Pelo cálculo humano, quando se soma um total de mil eras, obtém-se a duração de um dia de Brahma. E esta é também a duração de sua noite”.

“No início do dia de Brahma, todos os seres vivos se manifestam a partir do estado imanifesto, e depois, quando cai a noite, voltam a fundir-se no imanifesto”.

“Repetidas vezes, quando chega o dia de Brahma, todos os seres vivos passam a existir, e, com a chegada da noite, são desamparadamente aniquilados”.

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“Entretanto, há uma outra natureza imanifesta, que é eterna e transcendental a esta matéria manifesta e imanifesta. Ela é suprema e jamais é aniquilada. Quando todo este mundo é aniquilado, aquela região permanece inalterada”.

Outro Plano

Krsna diz existir um reino eterno, transcendental a este mundo temporário e manifesto. Aqui neste plano todas as nossas experiências e atividades são similares as de um sonho porque, com o tempo, são reduzidas a uma lembrança vaga, e, então, perdem-se completamente como se nunca tivessem existido. E, por fim, dormimos na morte. Mas, no plano espiritual, desfrutamos de uma experiência contínua de eternidade – tendo acordado para a nossa vida real.

Por isso, nossa presente existência em um corpo que muda da infância para a juventude e em seguida para a velhice é irreal e semelhante a um sonho. Nossa vida neste determinado corpo tem

começo e fim, logo se trata de um sonho. Nossa vida não é irreal no sentido de que não tenha seu papel e posição. É claro que tem. Se eu bater minha cabeça contra a parede, ela vai doer, e essa dor

é bastante real. Portanto, o fator de irrealidade do corpo é que ele acaba e que ele nunca poderá cumprir sua promessa de nos dar a felicidade que tanto ansiamos.

Essa é a verdadeira ilusão do mundo material. Uma pessoa talvez considere o desfrute no mundo material como algo substancial. O que há de errado em se desfrutar? O que há de errado em se buscar felicidade? A resposta é que o prazer da vida sempre acaba. É isso que há de errado. Tal prazer jamais poderá satisfazer o eu, porque o eu é eterno e, portanto, anseia por prazer eterno.

“Uma pessoa inteligente não se envolve com as fontes de miséria, que se devem ao contato com os sentidos materiais. Ó filho de Kunti, tais prazeres têm começo e fim, e, portanto, o sábio não busca prazer neles”. (Bhagavad-gita 5.22)

Como podemos ver pelas palavras de Krsna acima, não só não podemos encontrar satisfação nos prazeres temporários, mas os mesmos objetos de prazer nos trazem sofrimento. A miséria sempre acompanha a felicidade material. Sendo a alma eterna por constituição, não podemos encontrar satisfação no temporário. A vida no mundo material nunca irá nos satisfazer, não importa o quanto de gratificação sensorial consigamos. É exatamente como um sonho. Podemos experimentar alguma felicidade sensorial enquanto nos envolvemos com atividades prazerosas, mas sempre temos que acordar para a realidade cheia de miséria e lamentação. De um sonho, acordamos para a nossa vida diária; e de nossa vida, acordamos para doenças, velhice, morte e outras calamidades.

Lembranças que se Apagam

Na vida, as atividades a que nos dedicamos se tornam memórias, e essas memórias se tornam sonhos. Todas as experiências que tivemos, boas e ruins, são apenas memórias agora – fracas e sem substância – como um sonho que tivemos. Nós as esquecemos como se, de fato, nunca tivessem existido. Em essência, não há diferença entre um sonho que tivemos e as experiências que de fato aconteceram conosco. Quando um homem velho senta-se na praça e fica contemplando as jovens

que passam apressadas, não lhe é muito agradável lembrar de todo o prazer que sentiu quando tinha

a companhia de mulheres.

Algumas pessoas, às vezes, dizem que viveram plenamente, que têm boas lembranças para se apoiarem. Mas, de fato, as memórias do passado não são suficientes para nos satisfazer. As lembranças de momentos de desfrute que tivemos no passado ou a esperança de tê-los no futuro não podem satisfazer a profunda carência que existe em nossos corações. Nossos sentidos e nossa mente podem encontrar algum alívio em relacionamentos, ou mesmo em posses, mas por pouco tempo. Mesmo que amemos fielmente a mesma pessoa por toda a nossa vida e aquela pessoa reciproque nosso amor, a felicidade não será eterna – obrigatoriamente haverá separação, e a miséria tomará espaço novamente. Não há maneira de evitar isto: a vida material é um poço de lamentações.

Krsna diz: “Partindo do planeta mais elevando do mundo material e descendo ao mais baixo, todos são lugares de miséria, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança a Minha morada, ó filho de Kunti, jamais volta a nascer”. (Bhagavad-gita 8.16)

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Agora, se não houvesse alternativa para a vida material, a existência seria algo realmente sombrio. Muitas pessoas que não têm conhecimento da alternativa positiva da consciência de Krsna acham a verdade acerca do mundo material algo muito deprimente. Mas, da mesma forma que um sonho denota algo real, nossa vida material temporária não é nada mais do que um reflexo distorcido de nossa vida real e eterna.

O véu de nossa percepção material cobre, atualmente, nossa consciência e nossa mentalidade. É isso

que faz com que acreditemos ser possível encontrar felicidade no mundo material através do corpo temporário. A alma deixa seu meio original e eterno e entra no mundo temporário da matéria. Srila Prabhupada compara tal posição com a de um peixe fora d’água. Fora de seu meio natural, o peixe não pode desfrutar, e logo morre. Não importa quanto prazer seja oferecido ao peixe: ele não poderá desfrutar estando fora de seu meio natural. De forma similar, temos que morrer repetidas vezes, debatendo-nos por poucos momentos inconseqüentes na praia do tempo. Esse ciclo só encontra fim quando acordamos para nossa existência real.

Nós viemos ao mundo material porque desejamos imitar a posição de Krsna como o supremo desfrutador e controlador. Como jamais poderemos usurpar a posição de Krsna, Ele bondosamente nos coloca para dormir na vida material para que possamos sonhar que somos os desfrutadores e controladores.

O processo espiritual genuíno da consciência de Krsna ajuda a alma que dorme no colo de Maya a

acordar para a realidade – a realidade da vida espiritual. Em realidade, somos eternamente plenos de conhecimento e bem-aventurança. Mas, dormindo, não podemos realizar isso, senão que tentamos encontrar felicidade em nossos sonhos – sejam eles a busca pelo amor, a família, o sucesso, a

riqueza ou qualquer outra solução dentre diversas soluções temporárias. Procuramos a felicidade fora de nós, sendo que ela está o tempo todo dentro de nós. Somos como um cervo que ignora o riacho próximo e corre para o deserto em busca de água.

Os sábios nos informam que a solução para essa lastimável condição, a maneira de se livrar dessa ignorância existencial, é o cantar do mantra Hare Krsna. Por isso, os membros do movimento Hare Krsna anseiam em ver todos cantando Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. O Kali-santarana Upanisad diz sobre o cantar do maha-mantra: “Essa é a única maneira de se combater os males de Kali-yuga. Mesmo que se busque por todos os Vedas, não se encontrará uma forma de religião mais sublime”.

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Soldado de Krsna

Soldier for Krsna

por Parthasarathi Dasa

Sentado, contemplando o rifle de um soldado morto, do qual se dependurava sua corrente de identificação, eu só conseguia pensar em tudo o que passei para estar hoje onde estou. O caminho que percorri nos últimos vinte e oito anos não foi fácil. Eu parti de uma criança criada nas ruas do Brooklyn, em Nova Iorque, tornei-me um soldado americano e, então, um pregador espiritual. Dentre minhas lembranças, há boas e ruins, há vida e morte. Agora estou na segunda temporada de minha missão em Baghdad, a cidade que bombardeou minha saúde e tomou para si a vida de vários amigos que tive. Mas, ao invés de ficar triste por ter de retomar essa posição, eu me esforço e vejo isso de uma perspectiva consciente de Krsna.

Eu me iniciei na vida militar aos dezessete anos, não por patriotismo ou glória, mas como uma oportunidade de sair do Brooklyn. Eu me esforcei muito para desenvolver as habilidades e valores de alguém dedicado à proteção de seu país. Mas, apesar de ter crescido rapidamente dentro da carreira militar, eu sentia que ainda me faltava algo.

O exército me levou para diversos campos de batalha. Em junho de 1999, fui enviado para Kosovo para auxiliar no ataque aéreo. Essa experiência mudaria minha vida para sempre. Eu testemunhei pela primeira vez os horrores da guerra. Um dia, fazendo a patrulha, encontramos duas crianças que foram mortas ao pegarem uma bomba que não havia explodido. Aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Aquela visão me levou de uma vida com metas materiais, para uma vida de compaixão e misericórdia.

Naquele mesmo dia, eu recebi em meu e-mail um livro que trazia uma entrevista com uma banda Hare Krsna. Eu achei a filosofia deles muito interessante, e decidi que procuraria um templo depois que deixasse Kosovo.

Tão logo retornei para a Alemanha, meu irmão morreu de câncer. Eu fui totalmente tomado pela a aflição. Então, em um gélido dia de inverno, eu comecei minha busca pelos devotos de Krsna. Quando eu já estava prestes a desistir, eu finalmente os encontrei. Eu logo realizei que a consciência de Krsna era o que eu buscava. Eu queria ajudar as pessoas, e dar Krsna a elas era a melhor forma de ajudá-las.

Eu comecei a freqüentar regularmente o templo de Nurenberg, e às vezes eu saía com os devotos para distribuir os livros de Srila Prabhupada. Eu recebi iniciação espiritual em setembro de 2001.

No Kuwait com a Companhia do Meu Gita

Pelos anos seguintes, eu estava bem em minha carreira militar. Eu fui promovido dentro do posto de sargento e recebi trinta e cinco soldados para cuidar, motivar, instruir e auxiliar em seus desenvolvimentos individuais. No dia primeiro de fevereiro de 2003, recebemos ordens para partimos em direção ao Kuwait devido à possível invasão de tropas iraquianas. Eu não acreditava que eu teria de ir. Como Krsna podia fazer isso comigo? Mas, depois de conversar com meu mestre espiritual, eu me senti melhor. Eu entendi que aquele era meu dever. Eu era um soldado, e o dever de um soldado é lutar.

Eu fui para o Kuwait armado com um rifle, uma japa e o meu Bhagavad Como Ele É. Eu era um soldado do exército do Senhor Caitanya. Era uma situação incomum para tal, mas eu estava determinado a tentar pregar a mensagem do Senhor Krsna. Todo lugar aonde eu ia, eu cantava. Eu vestia meu colete e meu capacete e carregava minha arma, mas, pendurado no meu pescoço, sempre estava meu saco de contas.

No Iraque, era um constante desafio manter a consciência espiritual. Eu não podia cantar minha japa porque eu tinha que segurar meu rifle o tempo todo. Eu tentava manter minha mente ocupada com orações, e tinha grande fé que o Senhor, em Sua forma de Nrsimhadeva, estava me protegendo.

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Minha alimentação estava muito longe da ideal, e os padrões de limpeza também não eram

Vaisnavas. Mas eu estava seguindo minha natureza e fazendo aquele serviço para o meu país e para

os soldados sob o meu comando.

Eu tentava manter minha consciência de Krsna, mas era difícil. A melhor forma para isso, que encontrei, era cantar o tempo todo. Uma vez, quando eu e minha tropa estávamos sendo emboscados, eu gritei: “Krsna!”. Ali eu descobri quão poderoso é Seu nome. Ao longo dos dias, enquanto eu cantava, eu sentia minha ansiedade indo embora, e eu ganhava nova disposição para lutar. Eu pude deixar meus pensamentos de lado e simplesmente fazer o que eu tinha que fazer. Eu apenas esperava que Krsna fosse meu guia.

Quando voltamos para o acampamento, todos me perguntaram como eu podia estar tão calmo. Eu aproveitei a oportunidade para falar sobre a consciência de Krsna para eles. Aqueles soldados tinham fome de Krsna. Enquanto eu lia o Bhagavad-gita, eu vi brilho e vida em seus olhos: o semblante de medo e morte havia ido embora. Por um minuto, aqueles soldados esqueceram a guerra, esqueceram as balas que voavam próximas às suas cabeças. Eles se concentraram na Verdade Absoluta.

Eu expliquei a eles que todos já estamos mortos pelo arranjo de Krsna. Qual era então a razão para temer nossa situação? Na hora da morte, simplesmente devemos nos lembrar de Deus.

Os soldados estavam muito gratos por aquele conhecimento. Alguns perguntaram se poderíamos ter uma aula semanalmente. Sentado em minha cama-beliche, refletindo sobre o dia, eu me dei conta de que Krsna havia me enviado para a guerra como um arranjo para que eu pudesse falar sobre Ele para outras pessoas ali. Eu pude entender que a alma espiritual é eternamente serva de Krsna, e que aqueles soldados puderam se lembrar disso por um instante ao ouvirem o Bhagavad-gita.

A partir daquele dia, antes de sairmos em missão, tínhamos uma breve aula do Bhagavad-gita. Eu

espirrava um pouco de água do Ganges neles. Era uma cena engraçada – todos aqueles soldados sérios, focados em suas missões, e eu andando em volta deles espirando água em suas cabeças. Eles adoravam aquilo.

Como almas no mundo material, estamos sujeitos a nascimento, doença, velhice e morte. Durante a guerra no Iraque, alguns amigos meus morreram, um deles em meus braços. Aqueles soldados ouviram os passatempos de Krsna e o maha-mantra. Alguns até mesmo me traziam comida para que eu oferecesse a Krsna. Eles se atraíram por Krsna. Quanto mais ouviam sobre Ele, mais Lhe ofereciam suas vidas. Eles eram devotos – de acordo com a definição de devoto do Senhor Caitanya, que é aquele que disse o nome de Krsna ao menos uma vez. Pela misericórdia do Senhor, eles disseram Seu nome em suas breves vidas.

Cura Material e Espiritual

Meu passeio pelo Iraque terminou de forma inesperada. Eu fui ferido pela explosão de uma granada que atingiu meu caminhão. O abalo da explosão fez com que eu perdesse por um instante a consciência de onde estava. Eu olhei para baixo para ver se eu ainda tinha minhas pernas. Eu ouvi meus passageiros gritando, então eu atirei para cima com meu rifle para lhes passar confiança.

Meus ferimentos não representavam perigo de vida, mas, três semanas depois, colocaram-me em um vôo de volta para a Alemanha porque meu pulmão estava secretando sangue. Eu fiquei no hospital por duas semanas. Eu recebi alta no Janmashtami, então fui ao templo de Berlim. Era maravilhoso ver a Deidade de Krsna após tudo o que eu havia passado. Aquele dia foi como um sonho. Eu vi meu mestre e irmãos espirituais.

Minha consciência estava pesada por eu ter participado da guerra. Eu estava confuso e pensava ter cometido muitos pecados no Iraque. Após meu mestre espiritual confortar minha mente com conhecimento transcendental, eu comecei a me readaptar à vida normal. Eu me casei e comecei a fazer planos para o futuro. Tudo estava indo bem.

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De Volta ao Iraque

Então eu recebi uma nota oficial me informando que eu iria retornar ao Iraque. Como se as coisas não pudessem piorar – eu estava indo para uma base militar que era constantemente atacada por tropas e canhões. Agora, para a minha segunda excursão pelo Iraque, eu deixei para trás minha família espiritual e minha esposa. Mas, desta vez, eu estou aqui para pregar o nome de Krsna neste país ferido pela guerra. Estou mais preparado desta vez. Eu aprendi muito no ano anterior. Eu aprendi que não podemos entender os arranjos de Krsna. Achamos que a vida espiritual é boa na mesma proporção que tudo ao nosso redor está bom. Mas eu tive que entender que temos que manter nossa perspectiva espiritual em todas as circunstâncias. Eu entendo que meu karma me colocou em uma situação em que não posso comer de forma apropriada, em que não tenho a associação dos devotos e em que sou alvo de diversos fuzis.

Eu reflito sobre minha breve estadia na Alemanha na companhia da Deidade de Krsna e de Seus devotos. Eu me sinto mais consciente da dependência que tenho dEle. A guerra no Iraque é uma das melhores situações nas quais já estive. Eu posso usar essa situação em que estou inserido para apresentar Krsna para diversas pessoas. É um fato que, durante certo ponto da guerra, todo soldado se volta para Deus em busca de abrigo. Algumas vezes, é uma prece pedindo perdão. Alguns oram por uma morte rápida. Eu oro para que Krsna se manifeste no coração de cada soldado e que faça com que eles se lembrem que são Seus servos eternos.

Agora mesmo, há muitos se lembrando de suas posições como servos de Krsna. Venho falando da consciência de Krsna mesmo para oficiais de patentes superiores à minha. Os resultados têm sido incríveis. Prabhupada queria devotos em todos os setores da sociedade. Eu estou tentando fazer este serviço como uma oferenda a Krsna. A guerra no Iraque não é uma guerra religiosa. Não me importa por que eu estou aqui. Eu estou aqui para pregar a consciência de Krsna. O Iraque não é um país consciente de Krsna, mas a semente de bhakti foi plantada em sua terra. Oremos para que ela crie raízes, porque Prabhupada ensinou que a verdadeira paz só virá quando todos forem conscientes de Krsna.

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Retratos do Meu Ano Favorito

The Album of My Festive Year

por Nitya Kisori Devi Dasi

Foliando um álbum de retratos com as lembranças de meus dez meses na Bhaktivedanta College [Faculdade Bhaktivedanta], de 2002 a 2003, eu parei me aproximando do fim e lembrei dos sentimentos confusos que experimentei no dia 28 de junho, quando caminhávamos por um bosque

de Radhadesh, Bélgica. Nós éramos a primeira turma a se formar. Tocávamos tambores e karatalas

e cantávamos os nomes de Krsna enquanto íamos em direção ao gramado onde teríamos nosso último encontro.

Os meses que passamos juntos foram a melhor época da minha vida. Eu me sentia feliz, inspirada e iluminada pela vivência, e eu estava triste por tudo aquilo estar acabando. E eu teria de abruptamente deixar meus colegas de curso no dia seguinte para visitar minha família e os devotos em Israel. Sentados juntos na grama – compartilhando pensamentos, trocando palavras de despedida, olhando para o futuro – refletíamos nas várias experiências que havíamos tido ao longo do ano. Aqueles dez meses foram como um enorme corredor, e as várias disciplinas, como portas abertas ao longo dele.

De acordo com nossas inclinações individuais, escolhemos diferentes objetivos para perseguir após

a formatura. Bram recebeu iniciação (como Vasudeva Dasa) e retornou para sua casa na Holanda,

onde se tornou o novo presidente do templo de Amsterdam por um ano. Krsna Candra, nossa colega mais jovem (seus pais são discípulos de Srila Prabhupada), entrou para uma universidade no Canadá, seu país de origem. Rabin, um Holandês com descendência indiana, muito nos inspirou com suas meditações acerca do Senhor Caitanya. Ele propôs ficar por mais dois anos na

Bhaktivedanta College integrando seu quadro de funcionários. Depois de visitar Israel, eu aceitei o convite de lecionar na Vaisnava Academy for Girls, de Alachua, Flórida, onde estou hoje [junho de 2005]. Em meu serviço aqui, uso o conhecimento, habilidades e valores que adquiri durante meus estudos. Muitas vezes uso os recursos que aprendi no teacher training [disciplina de metodologia]

e, algumas vezes, faço menções aos meus livros-texto. Ainda mantenho contato com meus amigos

da Bhaktivedanta, que me inspiram cada vez mais.

Após a formatura de nossa primeira turma, a Bhaktivedanta College formou parceria com a Universidade de Wales, Lampeter - Reino Unido. O Programa de Estudos Religiosos e Aprendizado Aberto de Teologia [Open Learning Theology and Religious Studies Program] da Universidade permite à Bhaktivedanta College oferecer diferentes níveis de cursos reconhecidos nacional e internacionalmente, cada um com um certificado ou diploma da Universidade de Wales correspondente aos estudos optados por cada aluno. Atualmente, a Bhaktivedanta College tem em andamento o terceiro ano de seu curso, com quinze alunos. Em setembro de 2005, será oferecido o segundo ano de estudos reconhecidos pelo programa da Wales, e já há devotos buscando informações para a turma de 2006.

Os administradores e patrocinadores estão planejando uma nova construção para a Bhaktivedanta College e discutem também como o sucesso do programa da Bélgica poderia ser multiplicado em Mayapur e Mumbai.

Mil Expectativas

Meu contato com a Bhaktivedanta College teve início no fim de 2001, quando dois de seus organizadores, Braja Bihari Dasa e Shaunaka Rishi Dasa, palestraram no templo de Radhadesh sobre a estrutura que teria o ano acadêmico inaugural, que teria início no ano seguinte. Eles disseram que, por muitos anos, um curso sistemático voltado para os adultos foi o sonho de muitos devotos. Um curso consciente de Krsna, eles disseram, incluiria estudos acadêmicos, habilidades vocacionais e desenvolvimento introspectivo-devocional. Ao que descreviam o curso, meu entusiasmo aumentava. Os professores seriam devotos seniores, alguns com os quais sempre aspirei

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estudar, e os estudantes também seriam devotos. Eu pensei em quão favorável nossa localização silenciosa e rural seria para tais estudos. O que mais eu poderia querer? Era tudo o que eu sonhava desde que entrara para a ISKCON.

Naquele tempo, eu era professora da escola infantil de Radhadesh. Depois de dois anos ali, o templo

de Radhadesh se tornara minha casa, e sua comunidade, minha família. Radhadesh se situa em meio

a enormes montanhas verdes. A propriedade da ISKCON é muito bem mantida, e o projeto está em constante desenvolvimento. Casais criam seus filhos, e o programa para os visitantes traz milhares de pessoas. Uma vez que gosto muito de estudar, senti-me muito atraída a ficar ali para os estudos

do primeiro ano letivo da Bhaktivedanta College.

Ali seria oferecido tudo o que eu buscava: eu poderia me aprofundar nos livros de Srila Prabhupada sob a guia de devotos avançados e receberia instruções relacionadas a como aplicar o conhecimento espiritual para o objetivo de me tornar consciente de Krsna; expandiria meu conhecimento acerca de outras filosofias, religiões e teorias ético-sociais, e avaliaria cada uma à luz do conhecimento espiritual; tornar-me-ia instrumentalizada com conhecimento e metodologia para transmitir posteriormente aquele conhecimento, dentro e fora da ISKCON; aprofundaria minha fé, aumentaria minha atração por ouvir e cantar o nome de Krsna, e me aproximaria da desejada rendição aos pés

de lótus do Senhor.

Um dos organizadores da Bhaktivedanta College e o patrocinador da biblioteca, Mahaprabhu Dasa, então, ofereceram-me uma bolsa escolar de cem porcento de desconto. Como eu poderia recusar? Eu estava muito ansiosa para começar, minhas expectativas eram enormes. Após o ano, não me desapontei com nada; de fato, a experiência superou minhas expectativas.

Apreensão Diante do Desconhecido

Enquanto o começo do ano letivo se aproximava, todavia, algumas dúvidas começaram a inquietar minha mente: Saberia eu, uma devota jovem de Israel, escrever redações acadêmicas e devocionais em inglês? Será que eu conseguiria me enturmar com um grupo de estudantes que eu nunca vira antes? Aquele ia ser o primeiro ano do curso - e nós éramos as cobaias –, então, ninguém sabia o que poderia dar errado. Mas logo minhas dúvidas se dissiparam.

Vários devotos seniores participaram da cerimônia de abertura na primeira semana de setembro de 2002, e ofereceram suas bênçãos e auxílio. A instituição, como um bebê recém nascido, recebeu votos de sucesso de diversos bem-querentes, da mesma forma que os pais e outros parentes alimentam e acariciam o filho com amor. Todos os Vaisnavas reunidos (e mesmo muitos que não estavam lá) haviam empreendido grandes esforços para o desenvolvimento e, por fim, a concretização da instituição. Após alguns anos de gravidez, por assim dizer, o parto foi bem sucedido. Finalmente, a Bhaktivedanta College se tornara uma realidade e, muito em breve, com o auxílio e bênçãos de inúmeros, daria seus primeiros passos com grande segurança e sucesso.

Durante a primeira semana, chamada de semana de orientações, recebemos um excelente treinamento para as habilidades necessárias de leitura dinâmica, anotações e fichamentos, e de produção de textos. Sita Rama Dasa e Anuradha Dasi (ambos membros do departamento de educação da ISKCON do Reino Unido) conduziram-nos através de algumas dinâmicas muito úteis e divertidas que dissiparam completamente nossas dúvidas referentes à parte social e também à parte acadêmica do curso que se seguiria. Embora, a princípio, nós estudantes parecêssemos muito heterogêneos; sem perdermos nossas individualidades, logo começamos a trabalhar como uma verdadeira equipe. A cada dia que o sol se punha, minha apreciação por meus colegas crescia mais.

Estudantes com Objetivos Bem Traçados

O membro mais velho de nossa turma era Jaya Bhadra Devi Dasi, discípula de Srila Prabhupada.

Após trinta anos oferecendo os mais diversos serviços à ISKCON com grande determinação, ela tomou por metas aprofundar-se nos livros de Srila Prabhupada através do estudo sistemático e desenvolver novas habilidades para melhor servir. Ela levou seus estudos muito a sério, e compartilhou muitas de suas experiências conosco. Agora, ela leciona no curso Bhakti Shastri de

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quatro meses – uma modalidade de curso alternativa também oferecida pela Bhaktivedanta College. Ela também viaja para a Espanha para promover a consciência de Krsna.

Jaya Govinda Dasa veio com o objetivo de se aprofundar na consciência de Krsna e para aprimorar posteriormente seu serviço à ISKCON Itália. Suas contribuições foram numerosas de mais para serem mencionadas aqui, mas eu espero poder ter sempre comigo as diversas lições que aprendi com ele sobre o bom comportamento de um Vaisnava.

Minha querida colega de quarto (na bela casa de hóspedes de Radhadesh) foi Vrnda Devi Dasi, da Suíça, que tenho agora como uma irmã. Nós cuidamos uma da outra com grande carinho, e nossa relação constante fez com que nossos corações se purificassem. Após nossa graduação, ela permaneceu na Bhaktivedanta para servir à turma seguinte.

Daniel voltou para a Inglaterra e hoje é um realizado estudante de Psicologia na Universidade de Brookes, Oxford. Claire, dos Estados Unidos, recebeu mais tarde iniciação espiritual (como Kumari-priya Devi Dasi) e serviu à Bhaktivedanta por algum tempo; então, ela entrou para a Universidade de Oxford, onde seu pai estudara.

Especialistas Vaisnavas

Após a semana de orientações, cada semana ou quinzena se conectava a outra de forma muito lógica. Desfrutávamos de cada seminário como se desfrutássemos das deliciosas preparações de um banquete. Eu me senti muito privilegiada por receber treinamento pessoal de professores que não eram apenas especialistas em suas áreas (comunicação, estudo interreligioso, administração, religiões do mundo, filosofia, etc.), mas eram também Vaisnavas exemplares e fiéis seguidores de Srila Prabhupada.

Tivemos um excelente seminário sobre as seis filosofias da Índia ministrado por Pranava Dasa, um devoto da Suécia. Recebemos cuidadoso treinamento metodológico em dois seminários. Só para citar alguns facilitadores, tivemos o professor dos professores Rasamandala Dasa (diretor de comunicação da ISKCON), Krsna Ksetra Dasa (que estava trabalhando em seu doutorado na Universidade de Oxford), e Shesha Dasa (ministro da educação da ISKCON), que compartilharam seus conhecimentos e também seus corações com cada um de nós. Toda vez que um curso terminava e um professor tinha que ir embora, era-me motivo de lamentação, pois eu ficava muito apegada à associação daqueles grandes professores. Cada um deles se importava conosco e dava o seu melhor para nosso sucesso e aprendizado. Alguns participavam de nossos encontros estudantis semanais e trocavam lembrancinhas conosco ou nos convidavam para um festival de pizza na lanchonete.

Entre nossos professores, havia dois devotos da segunda geração que invocavam grande admiração de nossa parte. Radhika Ramana Dasa e Kartamasa Dasa são ambos graduados academicamente (em sânscrito e sociologia, respectivamente), mas o que os faz verdadeiramente exaltados são suas qualidades Vaisnavas, como, por exemplo, o grande respeito com que tratam todos que se aproximam deles.

Uma misericórdia especial veio para nós na forma de dois cursos ministrados por Sacinandana Svami, um sobre os santos nomes e o outro sobre os processos da rendição devocional.

A produção de redações, embora difícil em alguns momentos, tornou-se um dos meus hobbies, e era

muito bom contar com o manual “como lapidar seu texto”, oferecido por Tattvavit Dasa, cujo

principal serviço à ISKCON tem sido basicamente o de edição e revisão.

Nosso professor residente e diretor da Bhaktivedanta College, Yadunandana Dasa, com sua infalível

e devotada atenção a todos nós em todos os níveis, foi nosso principal guia e abrigo. Seu curso sobre os dois primeiros cantos do Srimad-Bhagavatam duraram todo o ano letivo.

Durante o ano, também participamos das atividades do templo. Alguns de nós serviram Sri Sri Radha-Gopinatha cozinhando ou fazendo guirlandas, outros, cozinhando para os devotos. Alguns deram aulas no templo, alguns palestraram em diferentes programas, e alguns organizaram eventos

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culturais e peças teatrais para a apreciação da comunidade de Radhadesh. Nós participávamos assiduamente da programação matinal do templo. A Bhaktivedanta College se integrou harmoniosamente à comunidade, graças a todos os envolvidos. O ano passou para mim como se fosse um longo e prazeroso festival de domingo. Meus colegas eram como minha família; nossas aulas e encontros, minha fonte de prazer. Eu ganhei grande confiança e entusiasmo em relação à minha prática devocional futura.

Faça Parte desta História

A aproximação do final de nosso ano letivo foi motivo de grande ansiedade e lamentação. Mas

havíamos todos aprendido a sermos Vaisnavas melhores, e era a hora de colocar a teoria em prática. Eu estava triste por ter de ir embora, triste por ter acabado, mas feliz por toda aquela experiência e

pronta para seguir em frente, e, ao invés de perder meu entusiasmo, estava pronta para passá-lo adiante.

O Senhor Caitanya nos instruiu a falar sobre Krsna para todas as pessoas em todos os lugares. Por

isso estou falando sobre a Bhaktivedanta College aqui. O que nos motiva a falar sobre a consciência

de Krsna, senão nosso amor por ela? Não é assim que expressamos gratidão pelo presente inigualável que recebemos? Por isso, por esse profundo sentimento de gratidão, escrevo sobre minhas experiências na Bhaktivedanta College.

E, não, meu álbum ainda não está fechado. Eu o deixo aberto. Minha relação com a Bhaktivedanta

College ainda não encontrou fim. Talvez você me encontre por lá algum dia.

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Irmãos de Sangue

Blood Brothers

por Indradyumna Svami

Após três dias com a congregação de cem devotos, incluindo devotos residentes e externos, do templo de Vladivostok, eu fui para Krasnoyarsk, no extremo oeste da Sibéria, para o último destino desta minha turnê de um mês. De todos os locais que programei visitar na Rússia dessa vez, Krasnoyarsk era o que eu estava mais ansioso para rever.

Já tinham se passado quase três anos desde a última vez que estive lá, e eu queria muito ver uma comunidade de ciganos na qual eu tinha feito um programa na minha última visita. Eu estava curioso se as pessoas daquela comunidade tinham aceitado a consciência de Krsna. Quando fiz minha visita, os devotos duvidavam que eles teriam algum interesse.

Enquanto pegávamos nossas malas após o vôo, eu vi um grupo de devotos nos esperando do lado de fora. Um homem em particular chamou minha atenção. Ele tinha a pele escura, cabelos negros e usava bigode; também vestia um grosso casaco escuro, típico dos ciganos. Eu me lembrei dele. Seu nome era Alexander, um dos ciganos mais interessados na aula que ministrei.

Ao sairmos do terminal, ele se aproximou e pegou minhas malas. Trocamos cumprimentos, e então ele me levou para seu carro.

“Eu serei seu motorista enquanto o senhor estiver em Krasnoyarsk”, ele disse com um sorriso de satisfação.

“Ah!”, eu disse, “muito bom”.

Enquanto dirigíamos para a cidade, eu perguntei para ele sobre os demais ciganos que tinham ido ao programa. Ele ficou em silêncio por um instante.

“Alguns estão mortos”, ele respondeu, “e a maior parte dos outros estão presos”.

Jananivasa Dasa, um discípulo Russo que estava viajando comigo, virou-se para mim.

“Drogas e atividades criminais”, ele disse com a voz abafada.

“É uma pena, não?”, eu disse.

Alexander sorriu.

“Mas nosso líder está bem e muito ansioso para encontrar com o senhor”, ele disse. “Ele ainda mantém consigo a guirlanda que o senhor lhe deu três anos atrás”.

“Ah, que bom! Isso é maravilhoso”, eu disse. “Por favor, mande lembranças minhas para ele”.

“O senhor pode fazer isso pessoalmente amanhã”, Alexander disse.

“Nós organizamos outro programa para o senhor palestrar na vila cigana”, disse meu discípulo Guru Vrata Dasa, o presidente do templo de Krasnoyarsk. “Tudo bem?”.

“Tudo bem? Tudo ótimo!”, eu respondi. “Foi exatamente o que pedi para Krsna”.

Mas quando lembrei da dúvida expressada pelos devotos locais sobre o primeiro programa que fizemos com os ciganos, eu fiquei pensando se valeria a pena voltar à vila deles. Então perguntei a Alexander.

“Alexander”, eu perguntei, “você está cantando Hare Krsna?”.

Ele me deu um outro enorme sorriso.

“Dezesseis voltas diariamente, Guru-maharaja”, ele respondeu.

Uma Nova Casa

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No dia seguinte, dirigimos ao redor das colinas de Krasnoyarsk em direção à vila cigana. Eu pude notar que não se tratava de uma cidade russa normal. As ruas eram sujas e repletas de buracos, e a maioria das casas precisava de reparos. As crianças brincavam por toda a parte, mas, quando viam nosso carro, elas corriam para dentro de suas casas, como faziam da última vez que visitei a cidade. Elas olhavam para nós com desconfiança através das janelas.

O programa seria na mesma casa da última vez. Ao sairmos do carro, eu me lembrei da atmosfera

melancólica do interior daquela casa – uma sala escura e densa, tapetes sujos, antigos quadros ciganos, e uma fita velha tocando música cigana. Eu fechei meus olhos e cantei baixinho,

preparando-me mentalmente para tolerar o ambiente de escuridão e ignorância.

Mas o Senhor Caitanya reservava uma surpresa para mim.

“Guru-marahaja”, Alexander disse, “bem vindo a minha casa”.

“Oh”, eu disse. “Não sabia que essa casa era sua”.

Alexander abriu a porta, e imediatamente seus membros familiares e outros ciganos começaram um melodioso kirtana, acompanhado de mrdangas e karatalas.

Eu olhei ao redor. Era uma nova casa. As paredes foram pintadas com um branco muito suave, os tapetes tinham sido removidos, e o chão de madeira lixado e envernizado. A sala era bem iluminada, e suas paredes traziam belos quadros com os passatempos de Krsna. Eu senti como estivesse entrando em Vaikuntha.

O empolgado grupo de devotos ciganos me levou para o andar de cima, onde havia um belo altar

com um quadro do Panca-tattva (O Senhor Caitanya e Seus quatro associados principiais). Ao entrarmos na sala, todos se atiraram de imediato ao chão oferecendo reverências.

“Quanta devoção!”, eu pensei enquanto me curvava lentamente vendo melhor a sala, agora que todos estavam no chão. Eles me conduziram, então, para um luxuoso acento e me presentearam com uma guirlanda. Em seguida, o grupo de kirtana se sentou perto de mim.

Empolgado, eu não tinha visto um grupo de dez ou doze ciganos mais velhos, provavelmente os anciãos da vila, sentados em um canto da sala, olhando-me com desconfiança. Quando dois deles sorriram discretamente, eu me lembrei deles de minha última visita. Os outros, todavia, ainda estavam para ser convencidos de que eu tinha vindo por uma boa razão.

Alexander me anunciou:

“É com grande prazer que recebemos Guru-maharaja em nossa casa”, ele disse. “Embora ele seja muito ocupado, tendo compromissos ao redor de todo o mundo, ele afetuosamente aceitou visitar nossa vila novamente”.

“Pois é!”, gritou um dos anciãos. “E foi você que o convidou! Você é a ovelha negra dos ciganos!”.

O clima era tenso. Então, outro ancião tomou a palavra:

“A sua mensagem é mais apreciada em um lugar do que no outro?”, ele perguntou.

Eu não sabia se sua pergunta era sarcástica ou não, mas eu lhe respondi de qualquer forma.

“Geralmente”, eu disse, “eu percebo que nossa mensagem é mais apreciada onde as pessoas têm muitas dificuldades. Em tais condições, elas não se iludem achando que podem encontrar felicidade nesta natureza material e, portanto, estão ávidas para ouvirem sobre Deus”.

“Você é aceito em todo o lugar que vai?”, um homem maneta, vestindo uma jaqueta preta, perguntou.

“Nem sempre”, eu respondi. “As pessoas costumam temer o que não conhecem. Como acontece com vocês ciganos. Vocês costumam ser mal compreendidos pelas pessoas em geral”.

Aquilo quebrou o gelo. Todos eles balançaram a cabeça concordando. Agora tínhamos algo em comum.

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“Como o senhor lida com esse preconceito?”, perguntou um outro homem, com mais respeito.

“Nós não temos vergonha de deixar as pessoas saberem quem nós somos”, eu disse. “Ficamos felizes por compartilhar nossa dança, nosso cantar e nossa comida”.

Um homem com ar de desconfiança dirigiu suas palavras a mim.

“Você teria interesse de ver nossa dança e nossa música?”, ele perguntou. “Ou isto aqui é só um programa Hare Krsna?”.

Todos os olhares se voltaram para mim.

“Eu sou um convidado em sua vila”, eu disse. “Seria um prazer conhecer a sua cultura”.

A Chegada do Líder

De repente, ouviu-se um grito.

“Vyacheslav chegou!”, alguém anunciou, e o líder dos ciganos entrou na sala.

Todos, imediatamente, levantaram-se em respeito. Seu status de líder fez-se ainda mais aparente devido à sua alta estatura e ao seu proeminente bigode negro. O ambiente tornou-se tenso novamente, e ninguém parecia saber ao certo o que fazer.

Eu sorri e me aproximei de Vyacheslav com meus braços abertos. Ele também sorriu e abriu seus braços. Abraçamo-nos por um bom tempo.

Então, contemplamos-nos com as duas mãos dadas.

“Eu ainda tenho a guirlanda que você me deu há três anos”, ele disse.

“Sim”, eu disse. “Seus seguidores me contaram”.

“Ela brilha com o carinho de sua visita”, ele adicionou.

Pelo canto dos meus olhos, eu vi a surpresa no rosto dos anciãos que não me conheciam da outra visita.

“Por favor”, ele disse, “volte a se sentar”.

“Não”, eu disse, “o senhor primeiro”.

Segurando sua mão, eu lhe sentei respeitosamente em um assento ao lado do meu.

“As pessoas não costumam nos tratar com todo esse respeito”, disse um dos anciãos.

“Porque vocês são ladrões!”, Vyacheslav disse com uma grande gargalhada.

Todos riram junto com ele.

“Krsna também era ladrão”, eu disse.

Os anciãos ergueram suas sobrancelhas.

“Mas o roubo de vocês traz aflição para os outros. Quando Krsna rouba manteiga, ele traz alegria para seus devotos, que gostam de ver Suas travessuras infantis”.

Eles riram mais uma vez.

“Pessoalmente”, eu disse, “eu prefiro focar apenas em suas boas qualidades”.

Agora o gelo fora completamente derretido.

“Você vê boas qualidades em nós?”, um deles perguntou.

“Sim, claro”, eu disse. “Vocês, por exemplo, convidaram-me novamente para sua vila e me receberam muito bem. E como todos em todo o mundo, no fundo de seus corações, vocês são todos devotos de Deus. Às vezes essa posição é esquecida, mas continuamos sendo servos de Deus”.

Ninguém discordou.

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“Então nós vamos lhe mostrar nossa cultura cigana”, um homem disse.

“Ótimo”, eu disse, “eu quero ver”.

Música Cigana e Kirtana

Muitos dos homens mandaram um garoto ir para o centro. O garoto parecia ter saído do nada e, no centro da sala, começou uma dança cigana. Ele era talentoso, e prendeu a atenção de todos, inclusive a minha.

Quando terminou, os outros ciganos pediram para que ele cantasse, ao que ele começou uma canção. Eu acho que eu nunca tinha ouvido uma voz tão doce e adorável em toda a minha vida. Quando ele terminou, eu pedi para que ele cantasse novamente. Os anciãos me olharam satisfeitos pelo meu pedido, e um deles levantou o polegar para mim.

Após a segunda canção, o garoto sentou-se perto dos anciãos, que bateram em suas costas mostrando estarem orgulhosos.

De repente, um outro garoto, um pouco mais jovem, virou-se para o primeiro garoto:

“Você canta muito bem”, ele disse com convicção, “mas se você cantasse Hare Krsna, aí sim seu cantar seria perfeito”.

Silêncio. Todos sentados - pasmados.

Então, o segundo garoto fechou seus olhos e começou a cantar Hare Krsna, também com uma belíssima voz. Seu cantar encheu a sala e todos foram tocados, mesmo os anciãos.

Quando terminou, ele abriu seus olhos e olhou para o primeiro garoto.

“Viu?”, ele disse. “Agora tente você”.

O primeiro garoto hesitou.

“Cante!”, disse o mais jovem. “Cante comigo!”.

O mais jovem começou a cantar Hare Krsna novamente e, então, o garoto prodígio começou a cantar com ele.

Os anciãos sorriam enquanto ouviam o dueto.

Ao fim, o primeiro garoto se virou para mim.

“Você pode, por favor, me dar um nome espiritual?”, ele pediu.

Eu olhei para os anciãos. Eles aprovaram com a cabeça.

Eu pensei por um instante.

“Já sei”, eu disse, “você se chama Gandharva Dasa, o anjo cuja voz é doce como o mel”.

Todos aplaudiram.

Então, eu abri meu harmônio e comecei a cantar Hare Krsna. Vários devotos pegaram instrumentos

e me acompanharam, e, algum tempo depois, os anciãos começaram a bater palmas. Alguns até cantaram.

Vyacheslav permaneceu sentado ao meu lado - com um grande sorriso no rosto.

Círculo de Amizade

Após finalizar o kirtana, convidei todos a tomarem prasadam.

“Como devemos nos sentar?”, perguntei ao nosso anfitrião.

“Sentamos todos em um círculo”, respondeu Alexander. “Esse é o nosso costume”.

“E o nosso também”, eu disse.

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Enquanto a prasadam era servida, eu disse para os devotos não começarem a comer até que Vyacheslav tivesse dado sua primeira mordida. Os anciãos olharam para mim e apreciaram a recomendação.

Após discutir a filosofia da consciência de Krsna com eles por mais de uma hora, eu me levantei para ir embora. Todos, respeitosamente, levantaram-se comigo. Eu fui até o banheiro e, após lavar minhas mãos, voltei à sala. Vyacheslav, rodeado pelos demais anciãos, deu-me um forte abraço. Então, agarrou meus ombros.

“Somos irmãos”, ele disse.

“Irmãos de sangue”, eu adicionei.

Ele sorriu.

“Sim”, ele disse, “irmãos de sangue”.

Ele, então, colocou a mão em seu bolso, tirou um maço de dinheiro e fez com que eu o pegasse.

“Obrigado por tudo o que fez por nós”, ele disse ao me presentear.

Ele se virou para Alexander, então, o ovelha negra, e segurou ambas as suas mãos num costume cigano para demonstrar confiança mútua.

“Obrigado por convidá-los”, ele disse.

Vyacheslav e os outros anciãos me acompanharam até meu carro. Quando eu estava prestes a entrar, Vyacheslav pediu para que um devoto tirasse uma foto de todos nós juntos.

“Para nos lembrarmos de você”, ele me disse.

Eu entrei no carro e fomos embora.

Quando olhei para trás para dar uma última olhada em meus amigos ciganos, vi Vyacheslav e os anciãos ainda de pé, de mãos dadas, em sinal de respeito.

Eu fechei meus olhos e orei silenciosamente: “Meu querido Senhor Caitanya, por favor, sê misericordioso e dê Sua misericórdia a essas almas caídas”.

“Tendo expandido Sua misericórdia para com as entidades vivas para além de todos os limites, como jamais fizera anteriormente, Gaura Hari, o único Senhor e refúgio dos aflitos, orou com grande compaixão: ‘Ó Krsna, ó oceano de misericórdia, por favor, proteja essas pessoas. Ó Meu mestre, elas estão queimando no fogo ardente do nascimento e da morte. Ó oceano de misericórdia, sê bondoso e conceda-lhes Seu serviço devocional amoroso”.

- Srila Sarvabhauma Bhattacharya, Sushloka-Shatakam 63

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“Certamente Você Virá a Mim”

As Promessas Divinas e Eternas do Senhor

“Surely You Will Come to Me”: The Divine, Eternal Promises of the Lord

por Bhranti Devi Dasi

No verão do ano 2000, aconteceu algo que iria mudar drasticamente minha vida e a de minha família. Também testaria nossa fé em Krsna e nos faria ver a vida considerando com mais seriedade um certo fator - o fator morte.

Nós estávamos viajando pela América quando, numa estrada de terra sem nenhum movimento, o pneu traseiro de nossa minivan se rasgou em uma pedra afiada. O carro ficou totalmente desgovernado e capotamos várias vezes até que a van parou de cabeça para baixo.

Um de meus filhos, Kesava Kumara, sofreu um ferimento na cabeça que tiraria sua vida no dia seguinte. Ele tinha apenas doze anos. Fizemos tudo o que pudemos para que sua saída do corpo fosse a mais auspiciosa possível. Ele deixou esse mundo com as marcas de tilaka, água do Yamuna e poeira de Vrndavana sobre seu corpo, e com suas mãos sobre os livros de Srila Prabhupada.

O tempo parecia não fazer sentido: um dia estávamos de férias com a família, no outro dia no hospital, e no seguinte no crematório. Quando o médico nos informou que ele não sobreviveria ao ferimento, meu primeiro pensamento foi: “Esta vida está acabada para mim”. A bolha de sabão da vida feliz neste mundo estourara diante dos meus olhos. Eu nunca havia me sentido tão perdida. Como aquilo era possível? Sete meses atrás, nós tínhamos visitado Vrndavana-dhama e tínhamos planos para retornar ao dhama sagrado após o verão. Aquilo parecia ser um pesadelo que simplesmente não podia ser real.

Ao lado da cama de Kesava, nós desesperadamente tentávamos buscar abrigo nos versos do Segundo Capítulo do Bhagavad-gita, que descrevem a imortalidade da alma. Acredito que a dor da perda repentina de uma pessoa amada é a pior e mais desorientadora de todas. Eu precisei de meses para começar a acreditar no que havia acontecido. O sofrimento muito intenso faz você querer ficar sozinho, pois é raro encontrar alguém que possa entender quão tamanha é sua dor.

Posteriormente, relendo o Gita e orando para que Srila Prabhupada me ajudasse a superar tudo aquilo, eu percebi que muitos dos versos falados pelo Senhor estavam em forma de promessas, divinas e eternas. Krsna declara que somos eternamente ligados a Ele. Ele traz palavras de amor e confiança, que brilham como um archote na escuridão. Dicionários definem uma promessa como “um compromisso verbal”, “um pacto”, “fundamento para esperanças e expectativas”. Toda promessa é preciosa, mas ela é ainda mais preciosa quando vem diretamente do coração de Deus e é eterna. Sendo Ele onipotente, não há nenhuma possibilidade de que Ele não possa cumprir Suas promessas, enquanto que talvez um ser humano comum, por mais sincero que seja, não consiga fazer valer sua palavra. Eu entendi que uma promessa é um presente – um presente falado. Eu me dei a essas promessas do Senhor de todo o coração, e recebi grande consolo e conforto. Eu pensei:

“Se eu sou eternamente ligada ao Senhor Supremo, igualmente está meu filho – e todos estão ligados a Ele”.

Toda e cada entidade vida tem uma relação intrínseca e eterna com Krsna. No Bhagavad-gita, o Senhor fala para Arjuna o conhecimento atemporal, e esse se aplica a todas as entidades vivas em qualquer tempo e lugar. Eu gostaria de compartilhar com vocês leitores algumas das promessas de Krsna; seis para ser exata. Eu espero que encontrem grande encorajamento nessas eternas juras de amor, faladas pessoalmente pelo Senhor Supremo a todas as almas.

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Seis Promessas do Senhor Krsna

Sri Krsna promete: “Portanto, Arjuna, você deve sempre pensar em Mim na forma de Krsna e ao mesmo tempo cumprir com seu dever prescrito de lutar. Com suas atividades dedicadas a Mim e sua mente e inteligência fixas em Mim, não há dúvida de que você Me alcançará” (8.7).

Esse verso não se trata de uma promessa vaga, mas de uma declaração concreta e clara. O Primeiro Canto do Srimad-Bhagavatam apresenta uma afirmação similar, também muito clara, acerca do resultado de se ouvir as glórias do Senhor: “O serviço amoroso à Personalidade de Deus é obtido como um fato irrevogável”. Irrevogável: permanente, que não pode ser anulado. Qualquer serviço que façamos para Krsna nesta vida é permanente, e seu resultado permanecerá conosco mesmo após abandonarmos este corpo e esta vida temporária.

Sri Krsna promete: “Ocupe sua mente a pensar sempre em Mim, torne-se Meu devoto, ofereça-Me reverências e Me adore. Estando absorto por completo em Mim, certamente você virá a Mim”

(9.34).

Essa promessa é belíssima. Srila Prabhupada afirma em seu significado a esse verso que nós devemos pensar em Krsna de forma amorosa e continuamente cultivar conhecimento acerca dEle. Essa é nossa parte nesse relacionamento recíproco tão real com a pessoa suprema.

Escrevendo sobre a relação recíproca entre o Senhor e o devoto, Srila Prabhupada invoca uma imagem mental muito bonita em seu significado ao verso 9.29: “O Senhor e a entidade viva brilham eternamente, e ao inclinar-se para o serviço ao Senhor Supremo, a entidade viva parece ouro. O Senhor é um diamante, e essa combinação é muito bonita”.

Sri Krsna promete: “Para aqueles que estão constantemente devotados a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim” (10.10).

As palavras usadas aqui são “constantemente devotadas”, que indicam uma devoção sem cessação ou pausa, mas contínua. Muitas pessoas adoram Deus a fim de conseguirem benefícios materiais, e isso é piedoso, uma vez que se submetem a Ele através de orações. Mas, neste verso, Krsna está falando sobre as pessoas que não desejam nada além dEle.

Nós não somos capazes de ir até Krsna através de nossos próprios esforços. Se Ele está satisfeito conosco, Ele nos permite ir até Ele. Desde o começo da criação, os Vedas estão disponíveis como um guia, e, ao longo das eras, o Senhor envia regularmente encarnações e pessoas santas trazendo conhecimento transcendental para as almas jivas.

Tomar refúgio em um mestre espiritual autêntico, completamente devotado ao Senhor, é um ponto muito importante, e não deve ser subestimado. O momento em que Arjuna aceita Krsna como seu mestre é um divisor de águas dentro do Bhagavad-gita. Após exibir aparentes aflição, lamentação e confusão, Arjuna diz: “Sou uma alma rendida a Você. Por favor, instrua-me” (2.7). Nossa sociedade moderna dá grande ênfase para as credenciais e diplomas dos profissionais em geral, mas as pessoas tendem a aceitar orientação sobre assuntos espirituais de qualquer um que escreva um livro interessante sobre o tema. A vida é temporária, e nossa conexão com Deus é a área mais importante de estudo. Nós temos que selecionar um professor com muito cuidado, assim como somos muito cautelosos escolhendo um médico. Nós não confiaríamos nossa cirurgia a um médico que não tivesse nenhuma outra qualificação senão ser um bom contador de histórias.

Sri Krsna promete: “Meu querido Arjuna, aquele que se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre das contaminações das atividades fruitivas e da especulação mental, que trabalha para Mim e faz de Mim a meta suprema de sua vida, sendo amigo de todos os seres vivos – com certeza virá a Mim” (11.55).

Srila Prabhupada diz em seu significado a este verso que todo aquele que deseja estar intimamente conectado com Krsna deve acatar a fórmula apresentada por Krsna ali. Ele ainda afirma que tal verso é a essência do Bhagavad-gita. O Senhor Krsna descreve o devoto aqui como alguém que é amigo de todas as entidades vivas. Em uma canção em glorificação aos seis Gosvamis de

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Vrndavana, Srinivasa Acarya diz que eles são “populares tanto entre os cavalheiros quanto entre os grosseiros, pois eles não invejavam ninguém”.

Como podemos demonstrar verdadeira preocupação e amizade pelos outros? Pregando essa fórmula apresentada por Krsna; assim as pessoas não perderão a valiosíssima oportunidade da forma de vida humana, senão que poderão livrar-se de todas as misérias deste mundo. Podemos até mesmo beneficiar as almas que não estão atualmente em corpos humanos, cantando alto o santo nome ou dando para elas prasadam, alimento oferecido ao Senhor Supremo.

Sri Krsna promete: “Fixe sua mente em Mim, a Suprema Personalidade de Deus, e ocupe toda a sua inteligência em Mim. Assim, não há dúvida alguma de que você viverá sempre em Mim” (12.8).

Como no verso 8.7, o Senhor novamente enfatiza sua promessa com “não há dúvida”. Em seu significado, Srila Prabhupada afirma: “Alguém que está ocupado no serviço devocional ao Senhor Krsna se relaciona diretamente com o Senhor Supremo, então, não há dúvida de que sua posição é transcendental desde o início. O devoto não vive no plano material – ele vive em Krsna”.

Sri Krsna promete: “Pense sempre em Mim e torne-se Meu devoto. Adore-Me e ofereça-Me homenagens. Agindo assim, você virá a Mim impreterivelmente. Eu lhe prometo isso porque você é Meu amigo muito querido” (18.65).

Eu escolhi esse verso para uma placa que seria colocada na última escola que Kesava estudou – em Alachua, Flórida - como forma de homenageá-lo. Eu achei essa promessa do Senhor Supremo muito confortante e pessoal – Ele realmente conhece cada um de nós, e Ele realmente quer que voltemos para Ele.

No significado, Srila Prabhupada se refere a essa mensagem de Krsna em particular como uma promessa. É uma promessa trazida com muita intimidade: “Porque você é meu amigo muito querido – porque você está conectado a Mim em uma relação devocional – Eu estou lhe revelando esses segredos”.

O conhecimento mais confidencial é o de como restabelecermos nossa relação original com Deus.

Esse é o mais secreto de todos os segredos. Em sua obra Vrndavana Mahimamrta, Srila Prabodhananda Sarasvati escreve: “Eu anseio pelo humor mais elevado [o de amor por Deus], que é um segredo até para os Vedas”.

Srila Prabhupada também diz em seu significado que devemos concentrar nossa mente na forma de Krsna tal qual é descrita no Brahma-samhita: um garoto de dois braços e de tez enegrecida com um belo rosto semelhante ao lótus, uma pena de pavão em Sua coroa e uma flauta em Sua cintura. Essa é a forma de Syamasundara, uma forma tão atrativa que atrai a mente e o coração de todos.

A dor resultante de se perder um filho coloca sua sanidade em teste. Arjuna experimentou essa dor

simplesmente por imaginar a perda de seus membros familiares, e realizou tal dor ao perder um de seus filhos no campo de batalha. A perda de meu filho fez meu mundo ficar de cabeça para baixo. Mas as promessas de Krsna são-me palavras rejuvenescedoras, nas quais acredito. Elas me protegeram diversas vezes contra o desespero. Eu oro diariamente porque quero ser qualificada o suficiente para fazer minha parte nessa divina reciprocidade com o Senhor, e para que eu tenha fé inabalável que Suas eternas promessas serão certamente cumpridas, com toda a glória que lhes cabe.

“Você virá a Mim impreterivelmente. Eu lhe prometo isso porque você é Meu amigo muito querido” (18.65).

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Entre a Matéria e o Espírito

Between Matter and Spirit

por Navin Jani

Como universitário, percebo que é um tanto difícil encontrar uma disciplina sobre fantasmas na grade de disciplinas de algum curso ou entre as disciplinas facultativas. Igualmente raro são cursos com títulos do tipo “Poderes Psíquicos II” ou “Formas Alienígenas de Vida”. De fato, parece não ser incentivado nenhum tipo de estudo acerca de qualquer fenômeno paranormal. Por que o meio acadêmico é tão relutante em aceitar esse inegável e cada vez mais freqüente aspecto da realidade? Talvez por pensarem que só há duas maneiras de se entender tais coisas como fantasmas: Ou eles simplesmente não existem e são produto da fantasia, alucinação e erro do homem; ou eles existem e são completamente diferentes de qualquer coisa que conheçamos e entendamos e, portanto, são um completo mistério. Nenhuma das duas visões deixa muito espaço para pesquisas acadêmicas ou instruções a nível universitário. Tal falta de movimentação talvez tenha a ver com como entendemos a mente.

Desde o tempo de Descartes, a filosofia ocidental vem se complicando com o que se chama de “problema corpo-mente”. A mente seria meramente uma propriedade emergente do corpo físico destituída de existência independente, como muitos filósofos modernos defendem? Ou a mente seria algo completamente diferente da matéria, como os Cartesianos (seguidores de Descartes) querem que acreditemos? Para aqueles que vêem a mente como idêntica à matéria, a experiência da consciência deve ser aceita como uma espécie de ilusão e desprezada enquanto objeto de estudo científico. Por outro lado, para aqueles que subscrevem à segunda visão (conhecida como dualismo Cartesiano), a mente certamente existe, mas é mais ou menos incompreensível. Enquanto que as atividades do corpo agem conforme as leis da física, a mente é aparentemente livre de tais leis. Independente de suas diferenças, ambas as visões situam a mente acima da investigação e da compreensão prática. E, por fim, nenhuma delas é satisfatória intelectualmente ou elegante ao meio acadêmico.

A literatura Védica da antiga Índia apresenta uma terceira alternativa. Sri Krsna, no Bhagavad-gita,

explica a Seu amigo Arjuna que a mente, a inteligência e o falso ego são três de Suas oito energias

materiais que, juntas, compõem o corpo sutil; enquanto que Suas outras cinco energias matérias

(terra, água, ar, fogo e éter) compõem o corpo grosseiro, ou físico. Esse conceito de “corpo sutil” como a combinação de mente, inteligência e falso ego é o equivalente Védico para a “mente” da filosofia ocidental. Entendida dessa plataforma, a mente não é nem completamente transcendental

às leis que governam a matéria, nem é sujeita as mesmas leis a que se sujeita o corpo grosseiro. Em

outras palavras, as atividades da mente podem ser mensuradas e previstas, mas os cientistas modernos não têm nem as ferramentas nem o conhecimento teórico para tal.

Então, temos aqui três maneiras de se conceber a mente: como completamente idêntica à matéria (Modelo Moderno), como completamente oposta à matéria (Modelo Cartesiano), e como matéria sutil entre a matéria grosseria e a energia espiritual pura (Modelo Védico).

Outra forma de entender a diferença entre esses três modelos é observar a quem eles apontam como o eu. O Modelo Moderno indica o corpo em si como o eu, sem nenhuma entidade independente ou superior. O Modelo Cartesiano indica a mente como o eu, sendo o corpo um veículo. O Modelo Védico indica o eu como uma entidade completamente espiritual, que ocupa temporariamente tanto um corpo sutil quanto um grosseiro. O Modelo Védico abre possibilidades para a pesquisa e estudo do reino sutil, o que não é possível tomando por base um dos outros dois modelos. Vejamos como seria isso.

Poderes Psíquicos

O estudo de habilidades psíquicas, tais como a habilidade de se ler mentes (telepatia) ou a de se

mover objetos com a mente (telecinesia), é atualmente marginalizado no âmbito acadêmico. E isso

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não é surpreendente. Dentro das possíveis escolhas atuais, podemos ou seguir o Modelo Moderno e simplesmente negar a existência de poderes psíquicos, ou podemos seguir o Modelo Cartesiano e aceitar a existência de tais habilidades, mas sem podermos explicá-las, restando-nos apenas dar a elas o tratamento de “milagres”. Se seguirmos o Modelo Védico, todavia, e entendermos a mente simplesmente como outro tipo de matéria, podemos, ao menos, aceitar em teoria que tais interações entre a mente e o reino físico são possíveis. O que restaria seria experimentar e determinar quais tipos de leis regulam a mente (o corpo sutil), e como elas diferem das leis que afetam o corpo grosseiro. A literatura Védica certamente pode ajudar tal pesquisa fornecendo rica estrutura teorética.

Fantasmas

Se a mente é apenas outro tipo de corpo através do qual uma pessoa pode agir, seria possível que algumas pessoas tivessem apenas esse tipo de corpo, sem sua contraparte física? É exatamente assim que a literatura da antiga Índia explica os fantasmas – outro fenômeno que o Modelo Védico da mente pode desmistificar. As leis do Modelo Moderno anulam completamente a possibilidade de existirem fantasmas. Eles não podem ser percebidos pelos meios tradicionais, então eles não existem. O Modelo Cartesiano, como alternativa, reconhece uma realidade intangível acima do corpo, então, em teoria, não haveria problemas em admitir a existência de fantasmas. Na prática, todavia, a idéia de fantasmas permanece acima da investigação racional devido ao fato da realidade intangível a que pertencem não ter nada em comum com a matéria. E, afinal, a matéria é tudo com o que nossos instrumentos e métodos científicos são capazes de lidar. Aqui, novamente, o Modelo Védico abre novas portas. Fantasmas podem ser entendidos como entidades vivas que possuem mente, ou corpo sutil, mas não forma física, ou corpo grosseiro. Tal visão auxilia no desfazimento da nuvem de medo e mistério que de maneira geral acompanha tais seres vivos. Podemos encontrar conforto no fato de que, longe de serem mágicos ou míticos, fantasmas não são, fundamentalmente, diferentes de você ou de mim. Eles apenas existem em outro estado material que ainda está para ser conhecido pela classe científica.

Seres de Outros Planetas

Se seres exatamente como nós podem existir sem a necessidade de um corpo físico externo que possamos perceber diretamente, poderiam existir outros tipos de seres corporificados acima de nossa percepção sensorial? A literatura Védica responde com um enérgico sim: Os demais planetas do universo são povoados, mas por seres de consciência superior, e corpos coerentemente superiores. O Modelo Moderno atribui a visão de óvnis e de outros seres alienígenas à falsificação de imagens e ao poder de imaginação da mente. O Modelo Cartesiano relega tais seres ao reino angélico.

O Modelo Védico, em contraste, dá suporte a uma abordagem mais positiva e produtiva ao estender o domínio do corpo sutil. Formas sencientes de vida em outros planetas são entendidas como tendo, de acordo com seu status, ou nenhum corpo grosseiro e apenas corpo sutil, ou um corpo grosseiro mais refinado, que exibiria características semelhantes ao nosso corpo sutil. Muitos deles, por exemplo, podem voar ou mudar sua forma à vontade, feitos que só temos acesso em nossos pensamentos e em sonho (o reino da mente/corpo sutil). Contudo, seus corpos também são materiais. Esses seres em corpos mais sofisticados não são isentos, portanto, das limitações que afetam outras entidades materialmente corporificadas, como a morte. Portanto, não há impedimento de que interajam com formas mais grosseiras de matéria (como nossos corpos). Assim, a busca humana por fazer contato com seres de outros planetas não é em vão. Munidos de tal concepção, nossa busca por inteligência extraterrestre precisa apenas dispor de um novo conjunto de instrumentos que vá além da tradicional percepção dos cinco sentidos. Eles estão, sim, lá fora, e podem ser contatados - só é preciso que consideremos com seriedade a literatura Védica e refinemos nosso processo.

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Muito Além da Mente

É muito interessante entender o funcionamento da mente com a ajuda do Modelo Védico, mas, talvez perguntem, e quanto à alma? Krsna, após falar dessas Suas oito energias materiais, fala de uma energia Sua que é superior e intocada pelas leis materiais. Tendo aceitado o Modelo Védico de mente, a pessoa certamente desejará também estudar o verdadeiro eu espiritual para entender os corpos materiais temporários. Os Vedas, de fato, instam-nos a estudar exatamente a partir do prisma do verdadeiro eu. Para aqueles prontos para tal estudo definitivo, os Vedas providenciam o conhecimento necessário, bem como os processos práticos. Mas, antes de nossos colegas universitários aderirem disciplina tão ambiciosa, talvez comecem estudando o reino que fica entre o mundo material, que conhecemos tão bem, e a realidade espiritual, que transcende nossa compreensão. Talvez a comunidade científica deva começar sondando essa área sutil da mente e ampliando sua área de investigação para incluir fenômenos como poderes psíquicos, fantasmas e vida em outros planetas. Tal busca traria um conhecimento que poderia ser usado com o fim de aprimorar nossa vida material neste mundo, bem como de nos conduzir rumo à compreensão de nossa vida espiritual muito além desse reino ordinário. Enquanto esse dia não chega, sigo me matriculando nas disciplinas tradicionais… aguardando.

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Procura-se Deus

Getting Right With God

por Devahotra Dasa

Como uma criança nascida e criada na religiosa Tasmânia, eu estava convencido de que Deus queria que eu Lhe servisse. Eu fui educado como episcopal, mas, entre as idades de doze e quatorze anos, eu fui sexualmente molestado por quatro padres. Em uma idade em que eu já experimentava um sofrimento sem precedentes, aqueles homens que deveriam me ensinar valores espirituais aumentavam meu sofrimento fugindo de seus papeis e princípios dentro da igreja.

Como sobreviventes do holocausto, muitas crianças vítimas de abuso rejeitam Deus e a busca espiritual; especialmente quando aqueles que lhes abusam deveriam ser homens de Deus. Aos quinze ou dezesseis anos eu deixei a igreja episcopal. Posteriormente, após uma breve leitura sobre a consciência de Krsna, meu estudo comparativo de religiões do ensino médio me levou para a Igreja Ortodoxa. Essa espécie de cristianismo oriental parecia remeter à igreja primordial, ao ascetismo como sintoma de busca sincera. Eu aceitei suas escrituras, intrigado com a ênfase que era dada ao celibato, à comunhão com Deus e ao vegetarianismo monástico.

Meu interesse pelo cristianismo oriental, por sua vez, levou-me a conhecer o Islamismo, com sua austera iconoclastia e ênfase na vida em comunidade. Ainda assim, o Islamismo não respondia a todas as minhas perguntas. Quem é Deus? Como Ele é? Do que Ele gosta?

Eu também apreciei a meditação budista. O budismo era muito atrativo pela sua meditação e também pela ênfase dada para sanga, ou associação espiritual. A doutrina da transmigração da alma ainda era algo de outro mundo para mim, mas, curiosamente, a cada dia, eu a apreciava mais.

Em minha mente, eu sempre me perguntava: “Se eu não conseguir estabelecer minha relação com Deus nesta vida, eu serei condenado ao inferno eterno?”. Eu ansiava por uma empolgante comunidade espiritual que eu não conseguia encontrar em minha Igreja Ortodoxa Russa.

Uma Revista e um Amigo

Muito do que eu ansiava consegui logo em meu primeiro contato com o movimento para a consciência de Krsna. Em 1977, comprei uma cópia da revista Back to Godhead em um restaurante de comida natural. O primeiro artigo que abri ao acaso falava sobre Srila Prabhupada. Eu li sobre como ele havia viajado para os Estados Unidos com apenas quarenta rúpias e um baú cheio de livros espirituais. Eu já havia lido alguma coisa sobre os Vedas em meus estudos, e agora a revista Back to Godhead estava me trazendo respostas muito reveladoras, baseada nos Vedas, acerca do nome, identidade e personalidade de Deus. Eu sempre tive a sensação de que a noção de Deus trazida pela trindade cristã era algo meio incompleto. Quem é o Pai afinal?

Eu fui até a biblioteca, então, e peguei o Primeiro Canto do Srimad-Bhagavatam. Eu imediatamente apreciei a abordagem da Verdade Absoluta feita por Sukadeva Gosvami.

Foi então que, aos dezessete anos, no último ano do ensino médio, eu peguei um avião e fui visitar o templo de Melbourne. Eu fiquei impressionado com as belas deidades de Radha-Vallabha, os brahmacaris entusiastas, a maravilhosa prasadam. Mas eu ainda tinha comigo os vestígios de minha formação cristã, e saí do templo em lágrimas, confuso e sem saber o que fazer.

Mas, porque, de tempos em tempos, eu pegava um livro de Srila Prabhupada para ler, minha atração por Krsna continuava a crescer, embora fosse um tanto passiva, por vir da cabeça e não do coração.

Isso mudou quando conheci Puri Dasa, um grande devoto que mantinha um Festival de Domingo em seu pequeno apartamento. Sua compaixão e carisma, e seu desejo de propagar a consciência de Krsna, tocaram-me profundamente.

Antes Tarde do que Nunca

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Mas, de alguma forma, eu não estava completamente preparado para me comprometer com a consciência de Krsna. Em 1982, após a morte de minha mãe, entrei para um monastério Beneditino Anglicano. Minha vida, de certa forma, espelhava a vida de brahmacari – acordava às 3h 30, orava, meditava e estudava.

Eu passei um ano ali entes de retornar à Tasmânia para entrar na universidade, onde eu conheceria

os devotos Hare Krsna em um curso de culinária. Eu fiquei sabendo, então, que havia um templo

em Hobart. Eu passei a freqüentar regularmente o Festival de Domingo e gostava muito das aulas do presidente do templo, Brhaspati Dasa. Para meu descontentamento, o templo fecharia em 1984,

deixando-me sem a associação dos devotos.

Eu continuei no caminho cristão pelos próximos dez anos, até que, em 1996, minha esposa e eu fomos passar nossas férias na Austrália. Um dia, cruzamos com alguns devotos que distribuíam flyers convidando as pessoas a irem ao templo local, convite que logo acatamos. Eu soube que algumas famílias de devotos haviam se mudado para a Tasmânia, e então, voltando de viagem, almocei com eles.

Finalmente – antes tarde do que nunca – com minha própria japa, eu passei a cantar os santos

nomes regularmente e ir ao mangala-aratik que era observado na casa à beira mar de uma família

de devotos. Minha consciência de Krsna finalmente alçaria vôo. Eu atribuo meu desejo de servir o

Senhor como produto da misericórdia daqueles devotos, cujo amor, instruções, maravilhosa prasadam e evidente amor por Prabhupada influenciaram-me de forma irreversível.

O meu cantar e outras práticas espirituais começaram a crescer gradualmente, e eu tentava levar

cada vez mais a sério as instruções de Srila Prabhupada. Meu desejo de compartilhar esse conhecimento maravilhoso aumentou e juntei-me na pregação dos devotos, apresentando a consciência de Krsna em locais públicos e na casa de devotos e simpatizantes. Embora minha esposa não tenha acompanhado meu desenvolvimento dentro da consciência de Krsna, ela se tornou vegetariana e me apóia em minha jornada espiritual.

No ano 2000, visitamos Vrndavana-dhama. Eu fiquei impressionado com a maneira com que aquelas pessoas viviam de forma fiel à tradição Védica. Eu vi babajis (renunciantes) abraçarem árvores sagradas e se banharem nos rios e lagos sagrados com grande respeito. No Krsna-Balarama Mandir da ISKCON, vi a devoção de centenas de pessoas às 4h da manhã esperando que o altar se abrisse para que pudessem ver as mais belas deidades de todo o mundo. Eu sabia estar finalmente em casa – na casa que Prabhupada havia construído.

Eu recebi iniciação espiritual na Bhaktivedanta Manor naquele mesmo ano e entrei para uma nova família de irmãos e irmãs espirituais. Conheci devotos cuja seriedade na vida espiritual era auto- evidente.

Após ter cozinhado por dois anos para Radha-Gopinatha na ISKCON Sidnei e ter desfrutado daquela extasiante comunidade, eu voltei para a Tasmânia, onde vivo.

Hoje, com uma bela filha, Lila Tulasi, o próximo capítulo de minha vida espiritual está em branco. Eu espero ver a comunidade de devotos crescer na Tasmânia e espero também poder ajudar a reabrir o templo que se fechou vinte anos atrás, para, assim, propagar ainda mais esse mundialmente conhecido movimento do cantar dos santos nomes do Senhor.

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Apreço pelos Escritos Sagrados

Esteem for Sacred Writings

por Urmila Devi Dasi

Este é o sétimo de uma série de artigos sobre as ofensas que devem ser evitadas por aqueles que tentam progredir espiritualmente através do cantar dos nomes de Deus. O presente discute a ofensa de blasfemar a literatura Védica ou a literatura de acordo com a versão Védica.

É moda na sociedade secular moderna tratar a literatura sagrada como o entretenimento mitológico de pessoas menos desenvolvidas intelectualmente. As escolas ensinam que com nossos atuais avanços, como a física, a medicina, a psicologia, a democracia e assim por diante, as escrituras religiosas têm pouca utilidade fora do campo artístico-literário. Aqueles que aceitam as escrituras de forma literal são tachados com termos pejorativos, como “fundamentalistas”, por exemplo. Talvez seja chique roubar algumas idéias das escrituras Védicas, como yoga, meditação e cantar de mantras, mas viver de acordo com as leis escriturais é visto como algo simplista e fora de moda.

Para se conseguir benefícios espirituais do processo do cantar dos nomes de Krsna, todavia, é preciso ter reverência por Krsna em todas as Suas formas, incluindo Sua forma como as escrituras. Krsna apareceu na Terra, em Sua forma original, há cerca de cinco mil anos. Após retornar à Sua morada eterna, Sua “encarnação literária”, Vyasadeva, compilou o néctar das escrituras Védicas na forma do Srimad-Bhagavatam. Srila Prabhupada escreveu que ler essa escritura é como ver Krsna pessoalmente, sem nenhuma diferença. Porque as palavras do Bhagavatam descrevem Krsna, elas são espiritualmente idênticas a Ele. Se blasfemamos o Bhagavatam, outros livros Védicos, ou alguma literatura de acordo com a versão Védica, ofendemos o santo nome, o que dificulta em muito o nosso processo do cantar.

A que se refere “literatura Védica”? Diferente dos acadêmicos modernos, Srila Prabhupada não

usava o termo Védico para denotar apenas um período particular da história da Índia. Tendo como referência os mestres espirituais anteriores de sua linha, e lançando mão de sua razão, ele usou o termo para se referir a todos os tradicionais livros sagrados da Índia. E “literatura de acordo com a versão Védica” se refere a qualquer livro que, como fazem os Vedas, direcionem-nos para nossa relação com Deus.

Evitamos essa ofensa contra o santo nome de Krsna se aceitamos o conceito de escritura revelada de maneira geral, reverenciamos as escrituras autênticas de outras tradições diferentes da nossa, respeitamos, mas evitamos escrituras que ensinem práticas religiosas válidas todavia inferiores, e se rejeitamos pseudo-escrituras que se opõem ao amor por Deus como a meta última.

Também evitamos essa ofensa ao adorarmos Krsna com nossa inteligência através de cuidadoso estudo e aplicação da literatura sagrada. Tal estudo nos dota tanto com o entusiasmo por servir Krsna quanto com as direções para tal. Encontramos a verdadeira felicidade ao explorarmos cada detalhe que lemos das escrituras Védicas. E com o uso de nossa razão, aceitamos a consistência, veracidade e aplicabilidade dos escritos por eles mesmos e também pelos exemplos de almas liberadas.

Uma Cultura para a Iluminação

Uma razão para as pessoas rejeitarem o conceito de escritos sagrados é porque a palavra escritura lhes evoca sociedades que proibiam o riso durante o sabá ou que declaravam que o processo para a perfeição era um sistema de procedimentos ritualísticos intrincados que poucos poderiam fazer parte e ainda menos poderiam entender. As escrituras também trazem histórias fantásticas de milagres e acontecimentos sobrenaturais que a ciência moderna afirma há muito tê-los desmentido.

E, além do mais, não são as escrituras produto de pessoas imperfeitas?

A verdade é que, quando corretamente entendidas e aplicadas, as escrituras genuínas agem como

um guia e manual de instruções para a vida humana e o cosmo. Elas são o manual de fábrica da

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máquina da criação material. Das escrituras, casadas com a tradição oral, aprendemos sobre métodos de elevação espiritual, como o cantar do santo nome. Das escrituras aprendemos sobre a vida de santos e sábios do passado e sobre as encarnações de Krsna. De fato, as histórias das escrituras, sejam transmitidas pela escrita ou pela tradição oral, são a base para a transmissão e estabelecimento de uma cultura que tenha por fim a iluminação.

Entendendo o Fantástico

Certamente, diversas histórias dos escritos sagrados parecem fantásticas para o nosso mundo científico. Mas muitas das maravilhas tecnológicas atuais também pareceriam fantásticas e ficcionais há algumas décadas. Não é, portanto, implausível que sociedades antigas tenham tido

habilidades e perícias técnicas que não nos estão disponíveis hoje. É virtualmente impossível, por exemplo, recriar a arquitetura milenar do Peru usando qualquer recurso moderno de que dispomos.

A idéia de que a tecnologia sempre progrediu, e que não possa jamais ter existido uma superior à

atual, talvez seja incorreta. Mesmo os estudos recentes de história indicam que muito do conhecimento que existia na Grécia se perdeu na Europa da Idade Média e foi gradualmente restabelecido. É lógico e racional, então, assumir que aquilo que é comum hoje, como televisão e internet, talvez se perca e seja esquecido no futuro, para ser restabelecido apenas mais tarde.

Vale adicionar que, mesmo hoje, há muitas fortes evidências empíricas para a existência do sobrenatural. Mas porque a atual ciência não pode explicar as evidências, elas são omitidas.

Os Vedas – com suas informações acerca do espírito e da matéria sutil – provêem uma visão de mundo que faz o aparentemente-impossível ser facilmente aceito como verdade. Uma vez que você entenda que o espírito, ou a vida, por exemplo, é independente da matéria, é muito fácil acreditar que entidades vivas possam viver em qualquer lugar do universo e fazer todo o tipo de coisas incríveis.

Níveis de Instrução

Uma queixa válida acerca das escrituras por parte de pessoas espiritualmente inclinadas é que elas

se focam muito em rituais e ganhos materiais. Krsna valida esse sentimento quando Ele diz a Seu

amigo Arjuna que aqueles que praticaram yoga em vidas passadas estão acima da maior parte dos ritos escriturais. A dura verdade, todavia, é que poucas pessoas estão interessadas em genuína realização espiritual. Portanto, Krsna e Seus grandes devotos dão instruções e exemplos nas escrituras para todo o tipo de pessoas. Há diferentes escrituras para várias classes de pessoas com diversas inclinações e desejos. Daí ter vários níveis e tipos de instrução no mesmo cânone escritural.

O Senhor, ou Seu representando ou filho, talvez ensine verdades eternas em um nível mais baixo ou

de alguma maneira enevoadas a depender do tempo, local ou circunstância. Escrituras nascidas de tais ensinamentos talvez ensinem menos do que o puro e desmotivado amor devocional pelo Senhor, mas elas têm sua função de gradualmente conduzir as pessoas ao pináculo da realização espiritual. Sabendo que a perfeição é, de forma geral, obtida após muitas vidas, uma pessoa absorta no cantar do mantra da verdade absoluta ajuda e encoraja cada pessoa em diferentes níveis.

Escrituras autorizadas vêm, por excelência, diretamente de Deus ou de almas livres das imperfeições e egoísmos das pessoas comuns. A verdade inadulterada pode fluir através de uma

pessoa conectada com Deus e livre dos desejos egoístas da mesma forma que se pode ver o céu azul

lá fora através de uma janela limpa.

Nosso Dever de Discriminar

Ainda, não se deve simplesmente aceitar qualquer escrito como sagrado simplesmente porque ele o

diz ser. Parte da ofensa de blasfemar as escrituras é aceitar uma filosofia contrária ao serviço devocional à forma pessoal do Senhor. Também, se um sistema “religioso” afirma que outros livros

e métodos genuínos são pecaminosos, esse deve ser evitado por sua mentalidade simplória e

sectarista. Devemos rejeitar também qualquer sistema ou filosofia que negue a alma, a Personalidade de Deus, ou a meta da vida como o sucesso no processo de obtenção do amor puro

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por Ele. Portanto, cantar Hare Krsna enquanto se mantém uma postura monista – pensando que a verdade última é apenas energia e luz – é parte dessa ofensa ao santo nome.

Um devoto de Krsna deve depender unicamente das tradições que estudam e promovem bhakti devoção amorosa à personalidade de Krsna. Oferecendo respeitos à distância, deve-se evitar escrituras que promovam poderes místicos, trabalhos caridosos com recompensas celestiais, ou salvação fora de bhakti, para não dizer de formas inferiores de adoração que visam poderes obtidos através da negociação com seres demoníacos e fantasmagóricos.

O Harinama Cintamani de Srila Bhaktivinoda Thakura enumera nove princípios essenciais de

krsna-bhakti. Podemos identificar as escrituras de bhakti como aquelas que promovem estes nove

princípios:

(1) Há um único Senhor Supremo, Krsna. (2) Ele é aquele que possui todas as energias. (3) Krsna é

a fonte dos relacionamentos transcendentais e está situado em Sua morada espiritual, onde Ele

compraz todas as entidades vivas. (4) As entidades vivas são partículas do Senhor, ilimitadas em

número, infinitesimais em tamanho, e conscientes. (5) Algumas entidades vivas estão condicionadas

a universos materiais desde tempos imemoriais, tendo sido atraídas por prazeres ilusórios. (6)

Algumas entidades vivas são eternamente liberadas e se ocupam em adorar Krsna; elas residem com Ele como Seus associados no mundo espiritual e se relacionam amorosamente com Ele. (7) Krsna existe com Suas energias – material, espiritual, e as entidades vivas – em um estado de igualdade e diferença simultâneas, permeando tudo e, ao mesmo tempo, existindo à parte. (8) Há nove processos que caracterizam o processo pelo qual a entidade viva realiza Krsna: ouvir sobre Krsna, cantar, lembrar, servir, adorar, orar, agir como um servo, ser amigo do Senhor, e se render completamente. (9) A meta última de uma entidade viva é bhakti – amor desmotivado por Krsna, que Krsna desperta em uma alma devido a Sua misericórdia.

Se uma pessoa aceita a mais pura das escrituras, rejeitando as várias tradições mundanas que se

vendem sagradas, e respeitando as escrituras genuínas que estão em um nível inferior; ainda assim,

é preciso estudar com muito cuidado essa escritura. Mesmo uma tradição eterna de escritos

imaculados, ou de revelação oral de mesma natureza, pode ser distorcida através de interpretações inventadas e más aplicações. Para mostrarmos respeito para com as escrituras, devemos entendê-las através do significado mais claro e direto possível, estudando a vida dos devotos anteriores que seguiram a cabo suas instruções como verdadeiros devotos puros de Krsna. Devemos, também, abordar as escrituras através da direção de um guru, que nos dará instruções específicas quanto ao que há de mais relevante para a nossa atual condição. Interpretações ou aplicações equivocadas podem ser mais perigosas do que a negação completa das escrituras. Um lobo em pele de cordeiro é muito mais perigoso do que um lobo aparente.

Nós Precisamos das Escrituras

Com tantas considerações e complicações em relação às escrituras, não seria melhor simplesmente cantar Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare, e esquecer de vez as escrituras? É verdade que simplesmente por se cantar pode-se alcançar a perfeição; mas para tanto, é precisa que o cantar seja sem ofensas, o que exige uma atitude reverencial perante as escrituras sagradas genuínas.

E quanto prazer e consolo podemos obter das escrituras! Podemos nos tornar muito felizes e

confiantes lendo o Bhagavad-gita, as palavras diretas de Krsna. E também podemos encontrar semelhantes benefícios em trabalhos de escritores contemporâneos – devotos que tomam os princípios trazidos por Krsna e os colocam dentro da vida familiar moderna, por exemplo.

Claro que consolo e deleite não são os únicos motivos para lermos os escritos sagrados. Nós precisamos das escrituras. Na busca pela verdade sem as escrituras, não temos outra escolha senão nos basearmos em nossas próprias faculdades sensoriais e mental e na de outros com as mesmas limitações que nós. Isso pode nos dar apenas conhecimento parcial e relativo. Nossos sentidos são imperfeitos, mesmo com o suporte de sofisticados instrumentos. Cometemos erros devido a maus hábitos, falta de atenção ou por preconceitos inconscientes. Temos a tendência a enganar os outros e

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a nós mesmos. E quando identificamos o corpo como o eu, vivemos uma grande ilusão. Portanto, as verdades axiomáticas – o ponto de partida para conclusões lógico-sensoriais – devem partir de uma fonte livre de defeitos se quisermos basear nossas ações em um conhecimento infalível.

Quando nossa base de conhecimento vem da verdade absoluta, o cantar do santo nome de Krsna rapidamente nos conduz a Ele. Ouvir das escrituras sobre a beleza, a forma e as incríveis atividades de Krsna no mundo espiritual irá nos inspirar a cantar com o intenso desejo de obter Seu serviço amoroso. Satisfeito com nosso desejo, Krsna irá nos purificar com Sua misericórdia resplandecente como sol, e nosso progresso se fará nítido.

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Quando o Conhecimento é Ignorância

When Knowledge is Nescience

por Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada

sa paryagach chukram akayam avranam

asnaviram shuddham apapa-viddham kavir manishi paribhuh svayambhur yathatathyato ’rthan vyadadhach chashvatibhyah samabhyah

andham tamah pravishanti ye ’vidyam upasate tato bhuya iva te tamo ya u vidyayam ratah

“Essa pessoa deve realmente conhecer o maior de todos, que é não corporificado, é onisciente, irrepreensível, sem veias, puro e não contaminado, o filósofo auto-suficiente que desde tempos imemoriais vem satisfazendo o desejo de todos”.

“Aqueles que se ocupam no cultivo de atividades ignorantes entrarão na mais escura região da ignorância. Pior ainda são aqueles que se ocupam no cultivo do pseudoconhecimento”. – (Sri Isopanisad, Mantra 8 e 9)

Krsna não é corporificado. Não há diferença entre Seu corpo e Sua alma. Ele não troca Seu corpo, porque Ele não tem um corpo material. E porque Ele não troca Seu corpo, Ele se lembra de tudo. Nós trocamos nosso corpo; por isso não conseguimos lembrar o que aconteceu em nossa última vida.

Mesmo quando dormimos nós esquecemos nosso corpo e o ambiente em que estamos. Enquanto dorme e sonha, você está em um mundo de sonhos. Você nem se lembra de que você tem esse corpo. Todas as noites nós experimentamos isso. Eu não sou o corpo. O corpo se torna cansado e então dorme ou fica inativo. Mas – com meu verdadeiro eu – eu trabalho, sonho, vou a algum lugar, vôo, crio um outro reino, outro corpo, outro contexto. Nós experimentamos isso todas as noites. Isso não é difícil de se entender.

Similarmente, em cada vida, criamos um contexto diferente. Nesta vida eu posso achar que sou um indiano. Você pode achar que é um americano. Na próxima vida podemos ser algo diferente. Talvez eu não seja nem americano nem indiano em minha próxima vida. E se eu me tornar americano, talvez eu não seja um homem. Talvez eu seja uma vaca ou um touro. Então eu serei enviado para o abatedouro. Entende?

E isso continua. Esse é o problema. Mudamos de corpo o tempo todo. Isso é algo muito sério. Nós

temos que levar nossa vida muito a sério, devemos refletir: “Eu venho mudando de corpo vida após vida. Eu não tenho uma posição fixa. Eu não sei em qual das 8.400.000 espécies de vida eu serei

colocado. Portanto eu devo buscar uma solução”.

Krsna traz a solução: yad gatva na nivartante tad dhama parama mama. “Se alguém, de uma maneira ou de outra, através da consciência de Krsna, vem até Mim, ele não precisa nascer novamente em um corpo material” (Bhagavad-gita 15.6). Ele obtém um corpo similar ao de Krsna, sac-cid-ananda-vigrahah: um corpo espiritual constituído de eternidade, conhecimento e bem- aventurança.

Devemos praticar a consciência de Krsna com grande seriedade, sem nenhum desvio. Não devemos ser negligentes, achando que isso é algum tipo de moda ou algo imposto. Não. Isso se trata da atividade mais importante de todas. A vida humana tem por objetivo unicamente desenvolver a consciência de Krsna. Não temos nenhum outro dever. Mas, infelizmente, criamos tantos compromissos que esquecemos da consciência de Krsna. Isso se chama maya. Estamos esquecendo

o nosso verdadeiro dever e interesse.

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Os líderes cegos estão conduzindo as pessoas para o inferno com suas patifarias. Os líderes estão acorrentados pelas severas leis e regulações da natureza material, mas mesmo assim se tornaram líderes. E as pessoas estão sendo desencaminhas. Isso se chama maya.

De uma maneira ou de outra você entrou em contato com Krsna. Então agarre-O com toda a sua força e determinação. Se você se apegar com grande determinação aos pés de lótus de Krsna, então maya não poderá fazer mal a você.

Dois Tipos de Educação

Há dois tipos de educação: educação material e educação espiritual, brahma-vidya e jada-vidya.

Jada-vidya significa educação material. Jada significa “aquilo que não pode se mover”, ou matéria.

O espírito pode se mover. Nosso corpo é uma combinação de espírito e matéria. Enquanto o espírito

está nele, o corpo se move, da mesma forma que a jaqueta e a calça se movem enquanto o homem

as veste. Parece que a jaqueta e a calça estão se movendo, mas quem está realmente se movendo é a entidade viva, e a cobertura, as vestimentas, acompanham seu movimento parecendo se moverem. Similarmente, este corpo está se movimentando porque a alma espiritual está se movimentando.

Se um carro se move, isso quer dizer que o motorista está fazendo com que ele se mova. Pessoas tolas talvez pensem que o carro está se movendo sozinho. Mas, mesmo com todos os arranjos mecânicos, ele não pode se mover.

Devido ao tipo de educação que é hoje fornecida, as pessoas pensam que a natureza material está funcionando de forma independente, movimentando-se e manifestando tantas coisas maravilhosas por si só. As ondas se movem, mas elas não se movem de forma independente. O ar está movendo

as ondas. Mas o ar também não se movimenta de forma independente. Dessa forma, se você voltar,

voltar e voltar, você descobrirá que Krsna é a causa de todas as causas. Isto é filosofia: buscar a causa primeira.

Aqui é dito, andham tamah pravishanti ye avidyam upasate. Aqueles atraídos pelos movimentos externos estão adorando avidya, ignorância. Isso não irá ajudá-los. Há instituições muito muito grandes dedicadas ao estudo tecnológico – como o motor de um carro pode se mover, como um avião pode se mover. Eles estão manufaturando muitos maquinários. Mas não há instituições de ensino que estudem como o movedor, a alma espiritual, move-se. Essa carência de educação se chama avidya, ignorância. O verdadeiro movedor não está sendo estudado, mas o movimento externo está sendo estudado.

Quando palestrei no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, eu perguntei, “Onde está a tecnologia para estudar o movedor?”, mas eles não tinham tal suporte tecnológico. Eles não foram capazes de me responder satisfatoriamente. Isso é avidya.

A Escuridão da Ignorância

Aqui, no Isopanisad, é dito que andham tamah pravishanti ye avidyam upasate. Aqueles ocupados unicamente no avanço e educação materiais têm como resultado a mais escura região da existência, andham tamah. É algo muito alarmante o fato de no presente momento não existir nenhum arranjo em nenhum país, ao redor de todo o mundo, no sentido de distribuir educação espiritual para as pessoas. Essa situação está conduzindo a sociedade humana para a mais escura região da ignorância. É isso o que está acontecendo. Em seu país, seu país rico, vocês têm um bom sistema de ensino, com muitas universidades, mas que tipo de homens vocês estão produzindo? Os estudantes estão se tornando hippies. Por quê? Os líderes deveriam pensar sobre isso. “O que estamos produzindo apesar de tantas instituições de ensino?”.

Os líderes estão adorando avidya, ignorância. Isso não é conhecimento. Bhaktivinoda Thakura tem uma excelente canção: jada-vidya jato, mayara vaibhava. Jada-vidya significa educação material. Bhaktivinoda Thakura diz que tal educação é uma expansão de maya. Tomara bhajane badha:

Quanto mais avançamos em educação material, mais difícil se torna entender Deus. E por fim nós declararíamos: “Deus está morto. Eu sou Deus. Você é Deus” – tudo patifaria.

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Essa idéia é expressa aqui: andham tamah. Andham significa escuridão. Há dois tipos de escuridão:

ignorância, e ausência de luz solar ou outra luz. Os materialistas estão certamente indo em direção à escuridão. Mas há uma outra classe de pessoas – os assim-chamados filósofos, especuladores mentais, religiosistas e pretensos yogis – que se perdem ainda mais na escuridão, porque têm a postura de desafiarem Krsna. Eles posam como se cultivassem conhecimento espiritual, mas, porque não têm informação sobre Krsna, sobre Deus, seus estudos são ainda mais perigosos, pois desviam as pessoas. Com o seu assim-chamado sistema de yoga, por exemplo, eles estão desviando as pessoas pregando: “Medite e você entenderá que você é Deus”. Por se meditar, alguém se torna Deus! [risos]. Dá para acreditar?

Krsna nunca meditou. Ele nunca teve nenhuma oportunidade para meditar, porque desde o começo Kamsa estava preparado para matá-lO. Ele foi, então, levado por Seu pai para a casa de Nanda e Yasoda. Lá, como um bebê de três anos de idade, enquanto dormia, a demônia Putana O atacou. Krsna nunca teve a oportunidade de meditar para se tornar Deus. Ele é Deus desde o começo, desde sempre. Esse é Deus. Deus é Deus, e cachorro é cachorro. Essa é a lei da individualidade.

“Fique parado e em completo silêncio e você se tornará Deus”. Isso não faz nenhum sentido. Como eu posso me tornar mudo? Há alguma possibilidade de uma pessoa se tornar completamente silenciosa? Não. Isso não existe. “Torne-se sem desejos”. Como eu posso me tornar um ser sem desejos?

Atividades Purificadas

Essas idéias são mentiras sofisticadas. Não podemos deixar de desejar. Não podemos nos tornar mudos. Mas nossos desejos, nossas atividades, devem ser purificados. Isso é verdadeiro conhecimento. Nós devemos desejar servir Krsna, e nada mais. Isso é a purificação do desejo. Não ter desejos é algo que não existe.

Como posso existir sem desejos? Como posso ser mudo? Isso não é possível. Eu não posso ficar em silêncio sequer por um segundo. Portanto, nossas atividades têm de ser dedicadas, devotadas, ao serviço a Krsna. Isto é conhecimento verdadeiro: “Como uma entidade viva, eu tenho tudo isso – atividades, desejos, a propensão a amar. Tudo está aqui. Mas estou usando tudo isso de maneira errada”. Não sabemos como usar tudo isso. Isso é avidya, ignorância.

Este Isopanisad nos ensina que devemos ser muito cuidadosos. Nós não estamos dizendo que vocês não devam avançar em termos de educação material. Vocês devem progredir, mas, ao mesmo tempo, vocês devem se tornar cada vez mais conscientes de Krsna. Essa é a nossa política. Nós não dizemos que vocês não possam manufaturar carros e máquinas. Mas dizemos, “Certo, vocês manufaturaram essa máquina. Usem-na agora a serviço de Krsna”. Essa é a nossa proposta. Nós não dizemos para que parem com tudo. Nós não dizemos que vocês não podem ter nenhum tipo de vida sexual. Mas dizemos, “Sim, tenham vida sexual – para Krsna. Criem filhos conscientes de Krsna. Para tal propósito, vocês podem fazer sexo uma centena de vezes”. Mas não criem gatos e cachorros. Essa é a nossa proposta.

Educação é algo necessário, mas se a educação é desvirtuada, ela é muito muito perigosa. Esse é o significado deste verso. A pseudoeducação não tem nenhum valor.

Muito obrigado. Hare Krsna.

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Maharaja Prataparudra:

Um Servo Humilde em Vestes Reais

Maharaja Prataparudra: Humble Servant in Kingly Dress

por Satyaraja Dasa

Maharaja Prataparudra, um rei que exerceu um papel central na vida de Sri Caitanya Mahaprabhu, é mencionado em todas as biografias sagradas do Senhor Caitanya, bem como em registros históricos seculares. Prabhat Mukherjee, um estudioso da história da Orissa, por exemplo, escreveu vários livros sobre a tradição de Caitanya, citando muitas vezes a genealogia e carreira política de Prataparudra. Tais relatos históricos nos contam que o sábio rei Purushottam Deva reinou a Orissa até 1497, quando foi sucedido por Prataparudra, que reinou até 1540, cerca de sete anos após o retorno de Sri Caitanya Mahaprabhu à Sua morada eterna. Seguindo a tradição dos reis de sua linha, Prataparudra aceitou os títulos de Gajapati e Gaudeshvar. Seu reino se estendia do Ganges na Bengala até Karnataka, com Cuttack, Orissa, como sua cidade capital.

Embora sua capital fosse Cuttack, como estabelecido pelos reis anteriores, ele também tinha forte relação com Puri, a cidade sagrada do estado da Orissa, na baía da Bengala. Puri é a residência do templo do Senhor Jagannatha, e tem sido um local de grande peregrinação há séculos.

Documentos históricos reportam as batalhas de Prataparudra contra Hussein Shah, o soberano da Bengala, e contra o rei Krsnadeva Raya de Vijayanagar, um reino ao sul da Índia. Hussein Shah fez parte da história de Caitanya Mahaprabhu: Rupa Gosvami e Sanatana Gosvami, principais discípulos do Senhor Caitanya, eram ministros do governo de Shah antes de se renderem à missão do Senhor Caitanya.

Apesar da sucessão de batalhas durante seu reinado, o rei Prataparudra tinha uma vida religiosa e disciplinada. Isso é evidenciado pela descrição abaixo, que foi, originalmente, levada ao imperador de Vijayanagar por um de seus espiões:

[O rei Gajapati] levanta-se de sua cama bem cedo, duas horas antes de o sol nascer, e reverencia dois Brahmanas antes de ver qualquer outra pessoa. Então, acompanhado pelos dezesseis Patras [o conselho brahmínico], ele caminha por cerca de trinta ou cinqüenta quilômetros antes de retornar ao palácio. Antes de se banhar, ele se ocupa em sua adoração diária ao Senhor Jagannath, e, em seguida, ele aceita sua refeição do meio dia. Depois de comer, ele recita o Ramayana. Então, vestindo seus trajes reais decoradas com pedras preciosas, senta-se na corte e discute os tópicos diários de administração.

— do livro do Dr. R. Subrahmanyam, The Suryavamsi Gajapatis of Orissa [Sem tradução para o Português]

Um livro chamado Sarasvati-vilasa, aceito como autoridade pelos historiadores da Orissa, diz que o rei Prataparudra teve quatro rainhas, chamadas Padma, Padmalaya, Ila e Mahila. Também afirma que, próximo da morte, Prataparudra tinha trinta e dois filhos e várias filhas. Dentre seus vários filhos, o Sarasvati-vilasa destaca a vida de um deles, Purushottam. O Caitanya-caritamrta (Antya 3.9.99) e o Bhakti-ratnakara (6.65) também falam de Purushottam, confirmando a informação dos textos seculares.

Documentos do templo do Senhor Jagannatha informam-nos que, mesmo antes de conhecer Sri Caitanya Mahaprabhu, Prataparudra seguia o costume de varrer a rua pela qual o carro do Senhor Jagannatha passaria. Também é dito que o rei era muito educado e patrono da cultura e conhecimento brahmínicos. Ele já havia estudado o Srimad-Bhagavatam e discutido as verdades acerca de Krsna com Ramananda Raya, um dos mais importantes associados de Caitanya Mahaprabhu e governador – cargo imediatamente abaixo ao de rei – do reino de Rajamahendri, ao sul da Índia.

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Em seu prefácio, Ramananda Raya dedica sua peça devocional Jagannatha-Vallabhu-Natakam ao

rei Prataparudra, indicando quão grande era a atração do rei pelos passatempos de Radha e Krsna.

Talvez a história que melhor deixa transparecer a devoção e bondade do coração do rei seja aquela por traz da encomenda de uma pintura feita por ele. Depois que muitos associados íntimos do Senhor haviam deixado o mundo, o rei quis “imortalizá-los” em uma pintura para o prazer dos devotos que ainda estavam no planeta. Com o passar do tempo, Srinivasa, um respeitadíssimo devoto da segunda geração de discípulos de Sri Caitanya Mahaprabhu, chega à cidade de Puri com

a esperança de estudar o Bhagavatam sob a guia de Gadadhara Pandita. Mas os manuscritos de

Gadadhara haviam sido irreparavelmente danificados por suas lágrimas de êxtase espiritual. Então,

ele mandou Srinivasa de volta à Bengala para que conseguisse outra cópia. Mas, quando voltou,

Gadadhara havia abandonado o corpo, deixando Srinivasa desconsolado. Para abrandar a dor de Srinivasa, Maharaja Prataparudra o presenteou com o quadro para que ele pudesse meditar no Senhor e em Seus devotos. O neto de Srinivasa, mais tarde, daria o quadro para um devoto chamando Nanda Kumar; assim, o quadro se encontra até hoje em Kunja-ghat na antiga casa da família Kumar.

A autenticidade do quadro foi colocada em questão. O rei Prataparudra teria realmente

comissionado aquela pintura? Essa dúvida se agravou pelo fato de vários artistas terem pintado novamente aquela arte original, todas com algumas variações. Embora ainda haja aqueles que não acreditem, Gopal Gosh, do Instituto de Pesquisas de Vrndavana (UP, Índia) – onde tais materiais são minuciosamente analisados e catalogados – afirma, após extensivo estudo, que “não há dúvida quanto à autenticidade da pintura”.

Embora haja irrevogáveis evidências históricas indicando a existência de Prataparudra e de seu reino na Índia do século XVI, sua importância como monarca é ofuscada pela sua atuação dentro dos passatempos do Senhor Caitanya. O livro Gaura-ganoddesha-dipika, de Kavi Karnapura, é aceito pelos mestres espirituais na linhagem do Senhor Caitanya como fonte autorizada para a identificação dos associados do Senhor Caitanya. No Gaura-ganoddesha-dipika (118), o autor escreve: “Maharaja Prataparudra, que era tão poderoso quanto o senhor Indra, foi, no passado, Maharaja Indradyumna, quem iniciou a adoração ao Senhor Jagannatha”. Não há nada de espantoso, portanto, no fato desta alma, agora como Prataparudra, ser tão ligada ao Senhor Jagannatha, desta vez através da misericórdia de Sri Caitanya Mahaprabhu.

Determinado a Encontrar-se com o Senhor

A misericórdia que Caitanya Mahaprabhu mostrou para com o rei Prataparudra foi documentada na

maior parte das biografias do Senhor Caitanya: no Kadaca, de Murari Gupta; no Caitanya-

Bhagavat, de Vrndavana Dasa Thakura; no Caitanya-caritamrta-maha-kavya e no Caitanya- candrodaya-nataka, ambos de Kavi Karnapura; no Caitanya-mangala, de Locana Dasa; e no Caitanya-caritamrta de Krsnadasa Kaviraja Gosvami. Eles contam essencialmente a mesma

história:

O rei Prataparudra, embora um monarca, era um grande devoto do Senhor Krsna. Naturalmente, quando Caitanya Mahaprabhu, Krsna em pessoa, foi até Puri, o rei quis vê-lO. Mas Mahaprabhu disse a Seus associados: “Eu não posso dar a ele o que ele quer. Porque ele é um rei, ele é como uma serpente negra”. Caitanya Mahaprabhu, então, deixou Seu posicionamento mais claro. “Para um renunciante como Eu”, Ele disse, “a associação com dois tipos de pessoa é perigosa: a associação com mulheres e com pessoas envolvidas com tópicos mundanos”.

Embora este rei em particular fosse um devoto muito avançado, Mahaprabhu, por princípios, continuou Se negando a dar Sua associação ao rei. O Senhor Caitanya foi estrito, estabelecendo, assim, exemplo para aqueles que posteriormente aceitassem a ordem de vida renunciada. Quando Nityananda Prabhu, Advaita Acarya, Ramananda Raya e Sarvabhauma Bhattacharya – todos queridos associados do Senhor Caitanya – pediram a Ele que fosse ver o rei, Ele lhes disse: “Eu vou deixar Puri e irei para Alalanatha, ou para qualquer outro lugar. Eu não continuarei aqui. Vocês

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podem continuar aqui se quiserem, mas Eu não ficarei”. Pode-se ver, por esse evento, a seriedade com que Ele evitava a associação de homens envolvidos com dinheiro e poder.

Desapontado, Prataparudra estava disposto a renunciar tudo o que tinha. Se o Senhor Caitanya não iria vê-lo por causa de sua posição real, então, por que não renunciá-la? Sarvabhauma Bhattacarya, Ramananda Raya e outros informaram ao Senhor Caitanya acerca da determinação do rei, e o Senhor Caitanya ficou satisfeito. De qualquer maneira, manteve Seu voto e afirmou mais uma vez que iria evitar a companhia do rei, independente de sua devoção.

Então, Nityananda Prabhu sugeriu ao Senhor Caitanya que, por misericórdia, enviasse-lhe um pedaço de Suas vestes – diminuindo assim a ansiedade do rei. Assim o fez Caitanya Mahaprabhu, e Prataparudra passou a adorar aquele pedaço de pano como se fosse o próprio Senhor Caitanya.

Por fim, o grande devoto Ramananda Raya esteve com Mahaprabhu em nome do rei e, mais uma vez, tentou convencê-lO a ver o rei. O Senhor Caitanya aceitou ver o filho do rei. Afinal, o Senhor Caitanya ponderou, “um filho é o próprio eu que nasce novamente”, como diz o ditado. E o jovem príncipe, naturalmente, não estava tão envolvido com assuntos mundanos como estaria seu pai. Assim, os associados do Senhor Caitanya trouxeram até Ele o jovem garoto.

O príncipe era muito belo e de compleição negra, e fez o Senhor Caitanya lembrar-se de Krsna. O

Senhor Caitanya mostrou-lhe misericórdia especial. Ao ver o garoto, Mahaprabhu abraçou-o afetuosamente, e o jovem príncipe desmaiou em amor extático por Krsna. Posteriormente, ele voltou para seu pai, Prataparudra, que, ao abraçá-lo, recebeu o mesmo benefício do amor extático pelo Senhor Supremo.

O Plano de Sarvabhauma

Sentindo o amor extático de Sri Caitanya Mahaprabhu por Krsna, o rei queria agora, mais do que nunca, estar na presença do Senhor Caitanya. Sarvabhauma tinha um plano: Em breve, o festival de Rathayatra seria realizado em Puri, e, em grande êxtase espiritual, certamente Mahaprabhu iria dançar como um homem louco em frente ao carro do Senhor Jagannatha. Depois de algum tempo, o Senhor Caitanya ficaria cansado e procuraria um jardim próximo onde pudesse descansar. Nesse momento, o rei, vestido como um cidadão comum, poderia se aproximar do Senhor Caitanya recitando passagens confidenciais do Décimo Canto do Srimad-Bhagavatam. Esses versos sempre colocavam o Senhor Caitanya em grande êxtase. Mahaprabhu, então, iria abraçar o rei tomando-o como um simples Vaisnava.

O dia do festival finalmente chegara, e esse dia é marcado pelo ato de humildade do rei varrer a rua

pela qual o Senhor Jagannatha desfila. Quando Mahaprabhu viu isso, Ele ficou ainda mais

favoravelmente inclinado ao rei, e, com aquilo em mente, seguiu cantando e dançando em grande êxtase em frente ao majestoso carro do Senhor Jagannatha. Em um momento, Seu transe místico foi tão elevado que chegou próximo a desmaiar. Por Seu arranjo divino, Ele permitiu que Prataparudra estivesse bem ao seu lado para segurá-lO em seus braços. O toque do rei, todavia, fez com que Mahaprabhu recobrasse Seus sentidos, ao que Ele começou a Se censurar por ter tocado uma pessoa mundana. O Caitanya-caritamrta traz-nos a informação de que o Senhor Caitanya desfrutava interiormente de Sua associação com o rei, mas precisava, externamente, estabelecer exemplo para

os

demais na ordem de vida renunciada.

O

plano de Sarvabhauma foi, então, colocado em ação mais tarde no festival, e o rei conseguiu ser

abraçado pelo Senhor Caitanya.

É dito que Prataparudra passou seu reino a seu filho quando Sri Caitanya Mahaprabhu ainda estava

presente neste mundo. Pouco tempo depois, o Senhor Caitanya deixa o planeta. O rei, ficando profundamente deprimido e pesaroso, deixa Puri. De acordo com o Bhakti-ratnakara (3.217-221), “Quando o rei ouviu que o Senhor Caitanya havia partido, ele caiu ao chão e começou a se lamentar. Batendo sua cabeça contra o chão repetidas vezes, ele ficou inconsciente, e apenas a companhia de Ramananda Raya mantinha sua vida. O rei não era capaz de suportar a dor da

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separação do Senhor Caitanya e, deixando Puri, pelo resto de seus dias, jamais retornou àquele lugar”.

O historiador N. N. Vasu escreve em seu Archeological Report of Mayurbhanj [sem tradução para o português], que Maharaja Prataparudra começou a ir em direção a Vrndavana, mas não chegou até lá. Durante seu percurso, ele abandonou o corpo na vila Ramacandrapur, no distrito de Mayurbhanj, Orissa. O nome da vila foi, então, mudado para Pratappur em sua homenagem, e é conhecida até hoje por esse nome.

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A Dança do Amor Divino

Krsna’s Dance of Divine Love

por Krsna Kanta Dasi

Uma sociedade pode ser julgada pelo tipo de educação que preconiza. Milênios atrás, nos tempos Védicos, a classe intelectual era composta por brahmanas, ou aqueles cujo estudo era dedicado ao entendimento da realidade suprema, Brahman. A classe intelectual de hoje orgulha-se de seu ensino de conhecimento secular. E mesmo que muitas universidades ofereçam cursos de religião, esses tendem a ser preconceituosos e incompletos.

Srila Prabhupada dizia que a universidade ideal deveria educar seus estudantes no conhecimento acerca da transcendência. Ele escreve: “Atualmente, muitas pessoas estão interessadas em se graduar em grandes universidades, mas educação sem consciência de Deus não é nada mais que uma expansão da influência de maya. Porque o conhecimento é roubado pela ilusão, as universidades trazem apenas impedimentos para o caminho da consciência de Deus”. (Ensinamentos do Senhor Kapila, Capítulo 12)

Prabhupada queria continuar a difusão do conhecimento da filosofia de bhakti iniciada por seus antecessores, especialmente Srila Bhaktivinoda Thakura e Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati. Prabhupada, assim, encorajou alguns de seus discípulos a apresentarem a consciência de Krsna em universidades e a corrigirem idéias equivocadas acerca de Deus.

Recentemente, entrevistei Garuda Dasa, discípulo de Prabhupada (conhecido no meio acadêmico como Dr. Graham Schweig), doutor em religiões comparadas pela Universidade de Harvard e professor de Religiões do Mundo com foco em estudos índicos, lecionando, atualmente, na Universidade em que se formou tanto para graduandos quanto para alunos de pós-graduação. Com a formação acadêmica associada à sua visão devocional de bhakta, ele apresenta o verdadeiro Krsna para o mundo intelectual. Seu livro recém lançado, Dance of Divine Love: The Rasa Lila of Krsna from the Bhagavata Purana (publicado pela Princeton University Press), aborda um tema comumente mal compreendido por seus estudiosos, uma vez que o tom erótico da obra pode sugerir a ausência de ética ou moral. Ou seus estudantes simplesmente não foram capazes de apreciar a profundidade e riqueza teológica que é ali apresentada.

Eu perguntei a Garuda Dasa o que o levara a escrever sobre a rasa-lila, a história da dança sagrada do Senhor Krsna com as donzelas de Vraja, conhecidas como gopis (vaqueiras).

“Quando eu propunha temas para a dissertação de meu doutorado em Harvard ao meu orientador”, ele me contou, “nunca tive como plano focar-me neste tema sagrado tão comumente mal compreendido. Após um ano pensando em diversos temas possíveis, meu orientador sugeriu-me focar mesmo no significado da rasa-lila dentro da escola Vaisnava de Caitanya, uma vez que a rasa-lila recebe pouca atenção acadêmica apesar de sua fama”.

Apresentar a rasa-lila é um desafio, pois esta lila (passa-tempo) de Krsna revela a mais íntima troca de sentimentos amorosos entre Deus e Seus devotos. Além do papel de Krsna na rasa-lila poder ser visto como imoral pelos desinformados.

Na introdução de seu livro, Garuda Dasa resume os cinco capítulos do Srimad-Bhagavatam que descrevem a rasa-lila:

Em uma noite especial, a lua crescente atinge sua plenitude com um brilho resplandecente. Seus raios avermelhados iluminam toda a floresta, enquanto os lótus noturnos começam a desabrochar. A floresta, durante esses dias, apresenta-se ricamente decorada com delicados jasmins, fazendo lembrar os negros cabelos das deusas decorados com pequenas flores. Tal cenário é tão arrebatador que o Senhor Supremo, como Krsna, o eternamente jovem vaqueirinho, toca uma melodia muito cativante em Sua flauta. Tocado por fortes emoções, Krsna deseja, mais do que nunca, entregar-se ao amor.

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Tão logo escutam a atraente música de Sua flauta, as donzelas de Vraja, conhecidas como Gopis, que já eram extremamente apaixonadas por Krsna, deixam, de imediato, suas casas, parentes e deveres domésticos. Elas deixam tudo para trás para desfrutarem com Seu amado na floresta enluarada. Krsna e as Gopis se encontram e fazem um concerto muito harmonioso à beira do rio

Yamuna. Quando as donzelas se tornam orgulhosas devido à atenção que Krsna lhes presta, todavia,

o amado Senhor desaparece da visão das jovens. As Gopis procuram por Krsna em toda a parte.

Descobrindo que Ele havia fugido com uma donzela em especial, elas descobrem, em seguida, que essa também fora abandonada por Ele. Quando a escuridão termina de tomar a noite na floresta, as donzelas vaqueiras desistem de buscá-lO e ficam a cantar canções de esperança e desesperança, ansiando por Seu retorno. Krsna, então, habilmente reaparece e fala a elas sobre a natureza do amor.

A narrativa tem seu ápice com o início da dança da Rasa. As Gopis se dão as mãos, formando um

grande círculo. Por um arranjo divino, Krsna dança com todas as donzelas de uma única vez, e, ainda assim, cada uma acredita ser a única a dançar com Ele. O amor supremo alcança agora sua máxima perfeição expressiva através da inebriante dança, que segue noite a dentre acompanhada das mais belas canções, no cenário divino da rasa-lila. Cansados depois de tanto dançarem, Krsna e as Gopis se refrescam no rio. Então, um tanto relutantes, as vaqueirinhas retornam para suas casas.

A rasa-lila é um acontecimento espiritual, e as trocas amorosas entre Deus, como Krsna, e aqueles

Seus associados mais íntimos, constitui o mais puro amor espiritual. Para garantir que sua abordagem ao texto sagrado em questão seja autorizada, Garuda Dasa recorre exclusivamente aos trabalhos dos grandes santos dentro da sucessão discipular do Senhor Caitanya. Ele tomou por objetivo presentear os leitores com uma imagem detalhada e deslumbrante do passatempo no qual o Senhor Krsna, o reservatório de todo o prazer, encontra mais prazer em executar. A mim, suas traduções e comentários acerca do mais confidencial passatempo do Senhor Supremo são plenamente bem sucedidos no que tange conduzir o leitor ao reino onde apenas o amor puro existe.

Garuda Dasa diz: “Eu começo inteirando o leitor acerca de histórias sagradas de amor em diversas culturas e sua função de expressar o amor por Deus. A Canção de Salomão inspira seguidores das tradições místicas Judaica e Cristã no ocidente a abrirem seus corações para as dimensões de maior intimidade com Deus. De forma similar, a literatura purânica traz a rasa-lila que Srila Visvanatha Cakravarti Thakura, um filósofo Vaisnava, chama de “a mais bela jóia da coroa das atividades de Deus”.

“Dentro dessas histórias sagradas de amor”, Garuda Dasa continua, “as tradições religiosas apontam uma fase específica do amor divino para terem como modelo para a prática religiosa. Eu chamo a atenção para o fato de que as Gopis exibem todas as 8 fases de amor supremo que são exibidas parcialmente em outras histórias: despertar, ansiar, encontrar, entrar em conflito, separar, lamentar- se, reencontrar e regozijar pelo triunfo do amor. Para os Gaudiya Vaisnavas, a fase espiritual mais venerada é aquela em que se lamenta em separação, ou vipralambha-seva, que encontra espaço no Gopi Gita (A Canção das Gopis), no ato principal da rasa-lila”.

“Outro filósofo santo, Jiva Gosvami”, ainda adicionaria Garuda Dasa, “apresenta outras considerações acerca do intenso sentimento de separação das Gopis que para mim são considerações realmente próprias de uma personalidade iluminada. Ele escreve, por exemplo, que o objetivo de Krsna se separar das Gopis é unicamente para aumentar o apego delas. Os versos do Gopi Gita recebem privilegiada atenção por parte dos seguidores do Senhor Caitanya enquanto eles descrevem a viraha bhakti, ou o amor da alma com saudades de Deus e a loucura divina que caracteriza tal sentimento. Essa loucura das donzelas de Vraja, como descrita no Bhagavatam, de alguma forma se torna modelo para o Senhor de Jiva Gosvami, Sri Caitanya Mahaprabhu, cuja vida é famosa por Sua loucura extática originada de Sua devoção a Krsna”.

Tradução Poética

Garuda Dasa falou um pouco também sobre o desafio de se traduzir essa obra prima do décimo canto do Bhagavatam, que seu antigo professor de sânscrito de Harvard chamou de “o poema mais encantador jamais escrito”.

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“Eu descobri que os textos originais da rasa-lila em Sânscrito não apenas possuem os ornamentos da poesia sânscrita (kavya), mas, em vários pontos, também estão em conformidade com as convenções do drama indiano clássico (natya). O primeiro verso, por exemplo, traz consigo diversos elementos dessas tradições, e eu me empenhei muito para sua tradução”:

Even the Beloved Lord,

seeing those nights

in autumn filled with

blooming jasmine flowers,

Turned his mind toward

love’s delights,

fully taking refuge in

Yogamaya’s illusive powers.

“Tento, aqui, transportar para o inglês alguns elementos da beleza poética e dramática do original enquanto mantenho uma tradução bem literal. Muitas páginas do livro foram dedicadas à apreciação do valor literário e teológico deste primeiro verso”.

A nuance de erotismo da rasa-lila tanto atraiu quanto intimidou pensadores ao longo da história. O irresistível apelo sedutor é trazido pela postura das Gopis de se doarem de forma espontânea e plenamente destituída de egoísmo a seu objeto de amor, Krsna. As Gopis são o modelo perfeito para todo aquele que está progredindo no caminho da bhakti-yoga, o caminho pelo qual se obtém Deus através do serviço amoroso. Eu pedi a Garuda Dasa para que falasse um pouco sobre como essa lila esotérica é relevante para o movimento Hare Krsna atual.

“Embora a rasa-lila represente o que há de mais elevado em termos de amor transcendental dentro

da tradição Vaisnava”, ele começa, “ela é surpreendentemente relevante às praticas básicas na vida devocional de um iniciante. Por exemplo, o maha-mantra – o mundialmente famoso mantra sagrado constituído de trinta e duas sílabas Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare – é a reencenação da dança da rasa. Como eu trago em meu livro: ‘O padrão de movimento de oito pares de nomes femininos [Hare] e masculinos [Krsna e

Quando praticantes recitam o mantra

repetidas vezes, os nomes divinos formam um padrão de som e movimento que reproduzem a troca amorosa que acontece entre os dançarinos masculinos e femininos na dança da Rasa [as várias vaqueiras com os vários Krsnas multiplicados]’. Em seguida, trago que ‘o mantra começa e termina

com nomes femininos, prendendo os nomes masculinos da mesma forma que as Gopis cercam Krsna em uma roda no início da dança da Rasa’.”.

“Discuto também outros temas relevantes ao movimento Hare Krsna atual, como ‘A Yoga Devocional Transcende a Morte’, ‘Limites Éticos e Amor Sem Limites’, e a distinção entre o amor mundano e o empolgante amor por Deus no capítulo chamado ‘Desvendando o Amor Devocional’.”.

“Uma das principais mensagens do livro é que orgulho e amor não se misturam. Quando as almas se tornam maculadas pelo orgulho, Deus desaparece. Quando nos colocamos, de alguma forma, superiores aos outros, quando nos comparamos aos outros e os julgamos, Deus simplesmente desaparece, assim como fez com as Gopis ao fim do primeiro capítulo da história da rasa. Essa mensagem sobre como o orgulho não compraz a Deus é novamente enfatizada no segundo capítulo, quando Krsna abandona Sua Gopi favorita, Radha, quando Ela também exibe sintomas de orgulho. Embora o amor das Gopis por Krsna seja puro, esse orgulho é exibido como uma lição para todas as

Rama] de Deus podem ser observados no mantra. [

]

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almas que estão se empenhando em busca do amor puro por Deus. A mensagem é clara: Não há espaço para orgulho no reino do amor puro, desinteressado e eterno”.

Unicidade Religiosa

Minha conversa com Garuda Dasa toca de alguma forma a tensão que existe no mundo entre diferentes religiões. Os membros das diferentes tradições religiosas do mundo afastam Deus quando se deixam levar pelo orgulho e reivindicam para si a exclusividade da verdade absoluta, taxando as demais religiões de falsas. Contrariando tal visão fundamentalista, Srila Prabhupada costumava desfrutar do fato dos membros da ISKCON consistirem de pessoas vindas de todas as tradições religiosas, unidas pelo desejo comum de amar a Deus: “Nós podemos escolher nossa religião e sermos Hindus, Muçulmanos, Budistas, Cristãos, tanto faz, desde que saibamos o verdadeiro propósito da religião. O Srimad-Bhagavatam não recomenda que abandonemos nossa religião atual, mas apenas aponta o propósito da religião. Esse propósito é amor por Deus, e a religião que melhor nos ensine a como amar o Senhor Supremo é a melhor religião”. - (Elevação à Consciência de Krsna)

Encerrando seu livro, Garuda Dasa sugere aos seus leitores a mesma profunda compreensão teológica que Srila Prabhupada descreveu acima. Embora o livro apresente a rasa-lila como um acontecimento histórico no qual Krsna manifestou na Terra a troca de sentimentos amorosos transcendentais que tem com Seus devotos íntimos, aqueles fora da tradição Vaisnava poderiam, pelo menos, ver a rasa-lila como uma mensagem que simboliza o genuíno pluralismo religioso.

“O círculo divino que é aberto no começo da dança da Rasa”, Garuda Dasa escreve, “poderia ser

tomado como símbolo de um genuíno pluralismo religioso, no qual os seres humanos de diferentes

fés podem amar a Deus [

atenção individual e superlativa de Deus. [

Portanto, é somente depois que as almas devotas se

harmoniosamente, e individualmente, sendo que cada alma recebe

]

]

reúnem para formar um grande círculo em volta de Deus, com suas mãos dadas por amizade sincera, que Deus aceita se conectar com cada alma – ficando Deus endividado com aqueles que se unem para adorá-lO, servi-lO e amá-lO”.

Garuda Dasa adiciona: “Certamente, o mundo poderia aprender algo muito valioso da rasa-lila: a como ter aqueles amor e graça exclusivos de Deus que Judeus, Cristãos e Muçulmanos tão freqüentemente anseiam, e ainda a como conseguir simultaneamente uma unicidade mundial que as tradições ocidentais muito necessitam. O mundo carece urgentemente dessa combinação inclusivista e exclusivista simultânea”.

Garuda Dasa está confiante de que essa mensagem sobre o amor, apresentada na exaltada rasa-lila, pode ser recebida pela classe intelectual e qualquer outra classe de pessoas do ocidente. Todas as almas estão convidadas a dançar com Deus na rasa-lila, basta que se qualifiquem.

Por fim, Garuda Dasa escreve: “Aqueles que já fazem parte da dança, que já desfrutam da intimidade exclusiva de Deus, têm os corações cheios de compaixão por aqueles que ainda estão de fora, e querem que todos desfrutem da dança do amor divino”. As almas santas, os grandes devotos, são aqueles que nos permitem entrarmos nas regiões mais confidenciais do amor supremo.

Acredito poder afirmar, sem reservas, que o livro Dance of Divine Love, com sua cuidadosa apresentação das confidenciais trocas amorosas de Deus com Seus devotos, permitirá a acadêmicos e pessoas em geral a compreenderem o significado verdadeiro da rasa-lila, e ajudará na missão daqueles que anseiam em ver todas as almas espirituais avançando na vida devocional.

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O que Faz a Mulher Hare Krsna?

What do Hare Krsna Women Do?

por Karuna Dharini Devi Dasi

Eu moro há vinte e cinco anos em uma comunidade Hare Krsna, devotando toda a minha vida aos projetos e atividades do templo. De tempos em tempos, alguém me pergunta: “Como é a vida de uma mulher Hare Krsna? O que vocês fazem?”.

As pessoas que me perguntavam, provavelmente estavam pensando nos devotos homens, com suas vestes e cabeças raspadas, dançando pelas ruas e tocando tambores. Deve ser difícil para elas incluírem as mulheres nessa imagem mental. Mas, de qualquer maneira, as mulheres da comunidade onde vivo se dedicam à missão de Srila Prabhupada com a mesma seriedade que seus colegas do sexo masculino. Gostaria, assim, de falar um pouco sobre algumas delas, tanto para lançar alguma luz sobre a posição da mulher no movimento Hare Krsna quanto para me beneficiar glorificando minhas irmãs espirituais.

Também ofereço este artigo à minha mãe.

Milhares de mulheres seguem os ensinamentos e práticas do movimento Hare Krsna em diversos países ao redor de todo o mundo. Algumas vivem próximas a templos e outras não, assim suas vidas são um pouco diferentes. Na Índia, em especial, milhões de mulheres mantêm um altar em suas casas e ao mesmo tempo servem suas famílias.

Eu vivo em Los Angeles, onde a comunidade da ISKCON se chama New Dwarka. Passarei a reportar como as mulheres daqui levam suas vidas de forma consciente de Krsna.

Gunavati Devi Dasi desenha as roupas das deidades do templo (Rukmini-Dvarakadhisa, Gaura- Nitai, Jagannatha, Baladeva e Subhadra), e também organiza as devotas que costuram as roupas e, por fim, vestem as deidades. Em sete diferentes festivais ao longo de cada ano, novas roupas de seda, com ricos bordados, são oferecidas às deidades. Gunavati também veste as deidades e cozinha para elas. Ela vem oferecendo esse serviço de costura por vinte e sete anos.

Tadit Devi Dasi é gerente da bem sucedida loja de presentes Govinda, que fica anexa ao templo. Desde que ela começou a administrar a loja em 1986, o lucro da loja mais do que quadruplicou, o que tornou possível a realização de vários projetos da comunidade. Várias celebridades e designers visitam a loja. Para atender à demanda dos mais diversificados artigos e roupas devocionais que a loja oferece, ela viaja para a Índia cinco vezes ao ano. Tadit é formada em Moda e é esposa do presidente do templo, Svavasa Dasa.

Kriya Shakti Devi Dasi é responsável pela preservação dos quartos em que Srila Prabhupada morou no templo de Los Angeles. Ela aumentou a coleção de objetos pessoais de Srila Prabhupada e aprimorou a preservação dos mesmos. Ela é guia das inspiradoras visitas aos quartos de Sua Divina Graça e também organiza eventos ali em dias de festival. Ela também dá aulas no templo e é a líder do asram das mulheres solteiras.

Narayani Devi Dasi mudou-se para o templo de Los Angeles em 1980, e, desde então, todos os dias ela projeta as cores e formatos e, então, começa a fazer cerca de trinta e duas guirlandas para a adoração diária das deidades. Ela recebe os visitantes que vão ficar na casa de hóspedes e organiza tudo para a estadia deles. Você sempre verá Narayani usando um sari da mesma cor da roupa que as deidades estiverem vestindo no dia - uma prática que, segundo ela, ajuda-a a lembrar das deidades ao longo de todo o dia.

Divya Drsti Devi Dasi administra a Escola Dominical de New Dwarka, que recebe cerca de cinqüenta empolgadas crianças divididas em quatro graus de instrução. Todos os anos, ela obtém todos os papeis e autorizações necessários para a execução do Rathayatra na praia de Venice. Ela e seu esposo, Bhagavata Akincina Dasa, organizam o festival de Rathayatra há pelo menos vinte

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anos. Divya Drsti também atua como parteira, e já ajudou no nascimento de mais de duzentos bebês. Muitas das crianças que ela ajudou a nascer freqüentam agora sua Escola Dominical.

Rambhoru Devi Dasi é doutoranda na Claremont Graduate School of Religion, onde está fazendo um estudo comparativo entre Vaisnavismo e Cristianismo. Ela traz ao templo estudiosos do Vaisnavismo de todo o mundo, juntamente com seus respectivos orientadores. Recentemente, um grupo de Jesuítas noviços da arquidiocese de Los Angeles veio ao templo com o Dr. Francis X. Clooney, padre e professor da Faculdade de Boston. De 2001 a 2004, Dr. Clooney trabalhou com os devotos da ISKCON como diretor acadêmico do Centro Oxford de Estudos Hinduístas. Um dos maiores eruditos do mundo na área de teologias comparadas, Dr. Clooney, irá se tornar professor titular das disciplinas Divindade e Estudos de Teologia Comparada na Harvard Divinity School, com efetivação prevista para os próximos meses. Também neste grupo, estava o Dr. Christopher Key Chapple, diretor do departamento de religião da Universidade de Loyola Marymount e autor de diversos livros famosos sobre Hinduísmo. Rambhoru diz que estar na universidade é um desafio que a faz refletir em como a mensagem de Prabhupada pode ser apresentada para que as pessoas a entendam e não encontrem dificuldades em aplicá-la de forma prática em suas vidas.

Isana Devi Dasi cuida de Tulasi, a planta favorita do Senhor Krsna, cujas folhas e flores são diariamente usadas em Sua adoração. É doutora em Botânica e publicou um livro intitulado The Art of Caring for Srimat Tulasi Devi [sem tradução para o português]. Isana faz estonteantes vestes de flores para as deidades usarem em dias de festival. Ela ajuda seu esposo, Ratna Bushana Dasa, a cozinhar para o Festival de Domingo. Isana também ajudou nos arranjos necessários para que fosse esculpida e instalada uma bela deidade nova de Vrnda Devi no templo da ISKCON situado a beira do Vrnda Kunda, próximo a Vrndavana, Índia.

Vaijayanti Devi Dasi é formada em Letras com foco em Sânscrito. Ela ajudou na nova edição do Bhagavad-gita Como Ele É de Srila Prabhupada, publicado pela Bhaktivedanta Book Trust, BBT.

Theresa, de quase setenta anos, faz há quinze anos o buquê de flores que é colocado na mão da deidade de Rukmini Devi. Ela seleciona cuidadosamente cada flor do buquê de forma que combinem com o vestido de Rukmini Devi. Porque as deidades são vestidas com roupas novas de manhã e à tarde, ela faz quatorze buquês por semana.

Mahalaksmi Devi Dasi é vocalista do grupo de bhajan do templo de New Dwarka. O grupo se apresenta todos os finais de semana em escolas de yoga, feiras, encontros interreligiosos, festivais variados, e até mesmo em aniversários e festas.

Nandarani Devi Dasi trabalha como contadora do Buffet Govinda e faz guirlandas.

Algumas das devotas solteiras que vivem no asrama saem regularmente para distribuírem os livros de Srila Prabhupada, especialmente em faculdades. Elas armam uma banquinha no campus, e estudantes param para ouvir sobre tópicos espirituais como bhakti-yoga e reencarnação. As devotas desfrutam da oportunidade de poderem falar sobre a filosofia da consciência de Krsna para os estudantes, e, muitos deles, ficam ávidos por ouvir mais.

Outras devotas dedicadas vestem as deidades, oferecem-lhes aratik, e cozinham para elas há anos, como Vidya, Deva Didhiti, Navina, Paurnamasi e Parijata.

Isso foi apenas um indício do que fazem as mulheres dentro do movimento Hare Krsna. A maior parte das devotas que descrevi serve Krsna morando no templo. Mas o serviço a Krsna não é limitado às atividades do templo. Milhares de mulheres ao redor do mundo, enquanto ocupadas em suas profissões e afazeres, mantêm Krsna como o centro de suas vidas. Essas mulheres – que podem viver dentro ou fora do templo – são grandes exemplos. Elas me fazem entender o significado de amor puro por Krsna.

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Hampi: A Coroa de um Império Glorioso

Hampi: Crown of a Glorious Empire

por Adbhuta Hari Dasa

Esta área, que hoje se encontra quase toda em ruínas, serviu de cenário para passagens do Ramayana e foi a jóia do reino Vijayanagar.

Hampi é mencionada no Mahabharata, no Ramayana, e em vários Puranas como o Pampa Ksetra

ou o Kiskhinda. Localizada no estado indiano de Karnataka, foi a base do vasto e próspero império Vijayanagar (1336-1565 EC), que incluiu, pelo menos, os atuais estados de Karnataka, Maharashtra

e Andhra Pradesh. Em 1565, durante o reinado de Ramaraja, a área de vinte e seis quilômetros

quadrados de Hampi foi tomada por cinco exércitos de reinos muçulmanos vizinhos combinados. A próspera cidade de estonteantes construções arquitetônicas foi evacuada, para nunca mais retomar sua glória.

Govinda Bhakta Dasa e eu começamos nossa viajem bem cedo pela manhã em uma motocicleta saindo de Hospet, a dez quilômetros ao sudoeste de Hampi. No caminho para Hampi, o primeiro grande templo que visitamos foi o templo construído por Krsnadeva Raya (reinado: 1509-29) no ano de 1513 para a instalação da deidade de Krsna que ele trouxera de uma campanha militar em Orissa. A deidade – Krsna criança segurando manteiga em sua mão direita – reside hoje em um museu em Chennai.

Vinte metros à frente, deparamo-nos com um Nrsimhadeva de quase sete metros de altura, talhado em um único bloco durante o reinado de Krsnadeva Raya. Essa forma não mais adorada, situa-se em espaço aberto, com quase tudo a sua volta destruído pelos invasores. Ele está sobre o guizo de Sesa Naga, que cresce por de trás dEle com sete capelos, que servem de dossel. À esquerda do Senhor Narasimha está uma Siva-linga de três metros chamada Badavi-linga, que é cercada por um pequeno canal de água que tem por fonte um pequeno córrego próximo.

Seguindo pela estrada, paramos em dois templos de Ganesa antes de chegarmos ao topo da colina Hemakuta. Lá de cima, tivemos uma bela visão, ao sul, do templo de Krsna e da deidade de Nrsimhadeva, e, ao norte, do rio Tungabhadra, da feira de Hampi e do templo Virupaksa.

O templo Virupaksa, ao oeste da feira de Hampi, tem um portal de entrada de dez andares, decorado

com várias esculturas. A deidade principal é uma Siva-linga auto-manifesta. O templo é situado aos pés da colina Hemakuta, onde é dito que o Senhor Siva executou penitências e reduziu Kamadeva a cinzas. Há também os santuários dedicados a Padmavati, a esposa do Senhor Siva, e a Bhuvanesvari, ou Laksmi, adorada pelos irmãos Harihara e Bukka, que fundaram Vijayanagar em 1336. O estilo arquitetônico do altar de Laksmi indica que ele existia antes do reino Vijayanagar. Há, no primeiro andar da edificação, um altar onde a deidade do Senhor Visnu segura uma balança que demonstra o valor de dois lugares sagrados: Pampa Ksetra demonstrando mais peso do que

Kasi.

À tarde, testemunhamos uma pequena cerimônia realizada pelo elefante do templo, e depois fomos rumo à feira de Hampi, que tem cerca de setecentos metros de comprimento por trinta de largura. Muitos comerciantes chineses, árabes e portugueses vinham até aqui para fazer trocas, onde pedras preciosas eram comercializadas em abundância. Domingo Paes, um viajante português que visitou Hampi durante o reinado de Krsnadeva Raya, descreveu o mercado: “Amplas e belas ruas repletas de tendas e barracas e belas casas com varandas e arcadas. Nesta rua vivem muitos comerciantes, e aqui você encontrará todo o tipo de rubis e diamantes e esmeraldas e pérolas e roupas e qualquer outra coisa que exista na Terra e que você queira comprar”.

As ruas, hoje, são utilizadas para o festival de Rathayatra, o festival em que o Senhor Jagannatha sai

à rua. Enquanto andávamos pela rua, várias crianças se aproximaram de nós nos oferecendo cartões

postais. Há inúmeros restaurantes e lojas vendendo frutas, livros, roupas, ornamentos e artigos

religiosos.

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A Montanha Rsyamuka

Nós subimos, então, o íngrime caminho de pedras até o alto da colina Matanga, que hospeda o templo de Durga. O templo também contém uma imagem feita de pedra negra do Senhor Visnu como Parasurama. De cima do templo, a vista era impressionante, e fazia aquela escalada debaixo do sol valer a pena. Mesmo lá de cima, era fácil visualizar o complexo real, a feira de Hampi, o rio Tungabhadra, o templo Vitthala, Kiskhinda e os campos de arroz com inúmeras palmeiras e bananeiras. Essa colina é mencionada no Ramayana como a montanha Rsyamuka.

Com muito cuidado, descemos até o templo de Acyutaraya (construído pelo rei Acyutaraya), um templo enorme cercado por um espesso muro de duas camadas com grandiosos portões. Há símbolos do Senhor Visnu e pequenas ilustrações de Krsna gravados nos portões.

De lá, começamos a ir em direção ao rio Tungabhadra. Passando por um salão de pilares, chegamos a um templo de Varaha, cujas paredes interiores são gravadas com imagens da encarnação de Javali do Senhor Visnu em frente a uma espada, com uma representação do sol e da lua sobre os dois: o brasão dos reis de Vijayanagar.

A Caverna de Sugriva

Continuando em direção ao rio Tungabhadra, chegamos às ruínas de uma antiga ponte. Dali, podíamos ver Kiskhinda do outro lado do rio, bem como a montanha em que Hanuman nasceu. Seguindo o fluxo do rio, chegamos à entrada da caverna de Sugriva, claramente marcada com linhas verticais vermelhas e brancas. Aqui, o rei macaco Sugriva manteve consigo a jóia que Sita deixou propositadamente cair enquanto era carregada por Ravana.

Próximo à caverna de Sugriva está o templo de Kodanda Rama (Rama, aquele que porta o arco), que contém belas deidades de Sita-Rama, Laksmana e Hanuman esculpidas em pedras negras. Acima do templo, em uma caverna, há um templo de Hanuman chamado templo Yantrodara Anjaneya. O gentil sacerdote da escola Madhava, Shamachar, que diariamente vem de uma vila próxima para adorar Hanuman, contou-nos que, neste lugar, o acarya Vyasa Tirtha colocou-se a meditar em cima de uma pedra e, após sete dias, Hanuman apareceu diante dele. Hanuman pediu a Vyasa Tirtha que o gravasse em relevo naquela pedra, porque foi, sentados naquela pedra, que ele viu pela primeira vez o Senhor Rama e Laksmana. O local original dessa pedra, onde Hanuman viu pela primeira vez seus Senhores, é a vinte metros abaixo da colina, em um local chamado Cakra Tirtha, hoje coberto pelo rio Tungabhadra.

Seguindo pela estradinha de pedras, que acompanha as curvas do rio, voltamos à feira de Hampi.

Segundo Dia

No segundo dia, ainda de moto, visitamos, a caminho de Kampli, o templo Malayavanta Raghunatha, na colina Malayavanta. Neste local, Rama e Laksmana passaram os quatro meses da estação das chuvas após coroarem Sugriva como rei. No templo principal, as deidades de Rama e Laksmana estão sentadas com Hanuman esculpido de joelhos do lado direito dos dois, e, em outro plano, há Sita Devi de pé. O sacerdote disse que essas são as únicas deidades de Rama e Laksmana sentados; eles estão preocupados quanto ao seqüestro de Sita.

Nós seguimos viajem até Madhuvan. Após encontrarem Sita, os macacos pararam aqui e desfrutaram dos jardins reais, repletos de mel e frutas. Hoje, há um pequeno templo de Hanuman aqui. Os sacerdotes nos convidaram para jantar, o que aceitamos com grande prazer, e desfrutamos das delícias do jardim de Madhuvan.

De Madhuvan fomos para o famoso templo Vitthala, uma construção ímpar, onde cada pilar tem suas características próprias. Os detalhes do templo são fascinantes. A construção do templo começou durante o reino de Krsnadeva Raya, mas ele jamais foi terminado devido à destruição de Hampi. Na frente do templo há um saguão repleto de pilares com cenas do Ramayana gravadas em relevo.

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Há também, do lado de fora, uma quadriga esculpida em pedra. Alguns guias turísticos dizem que ela foi esculpida a partir de uma única pedra – algo que indica a maestria do escultor: as junções só podem ser vistas se olhadas com muita proximidade e buscando por elas. Dois elefantes, em frente à quadriga, fazem sua guarda.

Ainda atordoados pela beleza do templo Vitthala, seguimos até o rio Tungabhadra, que cruzamos com o auxílio de pequenas balsas. Enquanto Hampi é um ponto turístico popular, são poucos os que cruzam o rio, porque a grandiosidade dos templos do outro lado do rio é a devoção e não a beleza arquitetônica, que é o que os turistas buscam.

Kiskhinda

Depois de termos cruzado a ponte, chegamos à vila Anegundi, a Kiskhinda original. No antigo templo Ranganatha da vila, a adoração continua em prática. Próximo dali está o samadhi (túmulo memorial) de Narahari Tirtha, um discípulo direto de Madhvacarya.

Dirigindo por Kiskhinda, passamos pelo lago Pampa, repleto de flores de lótus. (A palavra Hampi é derivada de Pampa). É mencionado no Caitanya-caritamrta (Madhya 9.316) que Caitanya Mahaprabhu banhou-se no lago Pampa. Aqui, Rama e Laksmana encontraram Shabari, uma senhora que executava penitências. Ela lhes ofereceu deliciosas frutas e lhes deu as direções até a montanha Rsyamuka. Na colina próxima ao lago Pampa, há uma caverna onde Shabari viveu e também o templo Pampa Ambika.

A cinco minutos de carro de Pampa, na mais alta colina de Kiskhinda, está o local de nascimento de Hanuman. Para chegar ao topo da colina, é preciso subir seiscentos degraus. No caminho, visitamos Kesaritirtha, uma caverna onde Kesari, o pai de Hanuman, viveu. No templo, a deidade de Hanuman é esculpida em um enorme pedregulho pintado de vermelho. No altar à frente está a deidade de Anjana, mãe de Hanuman. Alguns sábios vivem no topo da colina e fazem as adorações diárias. Tendo orado pelas bênçãos de Hanuman, descemos novamente a colina. Antes que escurecesse, cruzamos novamente o rio e dirigimos de volta a Hospet.

Terceiro Dia

No terceiro dia, visitamos os recintos imperiais, onde vimos ruínas que nos permitiram vislumbrar a grandeza do império Vijayanagar. Dentre os diversos templos, o mais esplêndido é o templo de Hazara Rama. Cercado por muros e por um jardim cuidadosamente conservado, o templo traz um grande número de passagens do Ramayana gravadas em alto relevo com riquíssimos detalhes.

Sob o governo de Krsnadeva Raya, o império Vijayanagar alcançou o ponto culminante de seu poderio. Ele era discípulo de Vyasa Tirtha dentro da sucessão discipular de Madhvacarya e reinou em nome de Krsna e de seu guru. Era poeta, e patrocinou a produção literária e a construção de templos. Registros históricos descrevem-no como um administrador plenamente competente, um grande político e também um grande comandante militar que liderava suas tropas pessoalmente. Ele carregava um ar nobre, uma personalidade gentil e generosa, modos atrativos, e influenciava de forma definitiva aqueles a sua volta.

Tendo visto apenas uma centelha dos impérios Kishkinda e Vijayanagar originais, só nos resta lamentar não termos podido testemunhar todo o esplendor desses reinos quando reinados pelos reis santos Sugriva e Krsnadeva Raya. Eles reinaram em nome do Senhor Supremo – Rama e Krsna – satisfazendo completamente seus cidadãos, material e espiritualmente, neste local de beleza ímpar.

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O Bom Filho a Casa Torna

Taking the Long Way Home

por Murari Gupta Dasa

Um dia, no ano de 1973, andando pelo campus da Universidade da Flórida, eu ouvi um distante tilintar de sinos. Um homem de cabeça raspada vestindo trajes açafroados, que sentado no pátio cantava algo para si mesmo, roubou minha atenção. Não sabendo nada sobre o movimento Hare Krsna, eu pensei que ele poderia ser Budista. Encantado pelo seu cantar bem-aventurado, sentei-me um pouco afastado e o observei por algum tempo. Depois fui embora sem falar nada com ele, mas a visão daquele monge não saía da minha cabeça.

No dia seguinte, eu retornei ali no mesmo horário, e lá estava ele novamente. Dessa vez, outros dois ou três monges, também de cabeças raspadas, cantavam com ele e distribuíam alguns pratos de comida. Eu me aproximei e fiquei muito empolgado ao ver que eram preparações vegetarianas. Um dos jovens me mostrou uma revista colorida e começou a falar comigo, mas eu continuei olhando para o monge mais velho, que tocava címbalos de mão. Ele parecia emitir tranqüilidade e sabedoria. Eu precisava falar com ele.

Este é o relato de como eu conheci o movimento Hare Krsna, abandonei-o, e, por fim, voltei a ele. Talvez outros que tenham se sentido atraídos por este movimento maravilhoso e por alguma razão tenham saído dele identifiquem-se com minha história e decidam dar à ISKCON uma nova chance.

No outono de 1973, eu era calouro na Universidade da Flórida. Eu entrei jovem para a faculdade, precisamente aos dezesseis anos. Como muitos outros de minha época, eu procurava por um significado profundo para a vida. Até onde posso me lembrar, a idéia de que eu iria envelhecer, morrer – toda aquela coisa da efemeridade de nossa existência material – sempre me perturbou muito.

Criado em uma família de Católicos - não muito assíduos - e educado em instituições jesuítas, eu sempre fui uma pessoa religiosa. A partir da idade de onze ou doze anos, eu li tudo quanto pude sobre teologia, filosofia, parapsicologia e misticismo. Aos dezesseis anos, eu estava convencido de que todos os padres, rabinos e yogis que eu havia conhecido estavam tão perdidos quanto eu. De todas que conheci, a filosofia de uma simples seita cristã chamada “The Christ Family” foi a que fez mais sentido para mim.

Eles acreditavam que não se deveria matar (eles pregavam o vegetarianismo), que não se deveria ambicionar posses materiais, e que todos deveriam observar o celibato. Mas eles não tinham opiniões profundas sobre nenhum outro tema, e eram basicamente hippies sem casa, perambulando por aí. Depois de um tempo, eu comecei a achar que aquele grupo não tinha um objetivo muito traçado para a vida.

Interrompendo o cantar do monge sênior, eu comecei a bombardeá-lo com inúmeras perguntas. Sua resposta inicial foi um sorriso. Ele me pediu para que eu falasse mais de vagar e fizesse uma pergunta de cada vez, assim ele faria o que pudesse para satisfazer minhas questões.

O tempo parecia voar, e, antes que eu me desse conta, eu já estava conversando com aquele homem por horas. Suas explicações sobre a filosofia da consciência de Krsna tocaram-me profundamente. Os outros monges já haviam até ido embora, mas eu faltei todas as minhas aulas daquele dia. O monge sênior me convidou para conhecer o templo deles e para cantar e comer. Eu não fui naquele dia, mas, nos dias seguintes, eu não conseguia prestar atenção na aula ou conversar com ninguém. Eu estava muito confuso quanto ao que fazer em seguida. A filosofia da consciência de Krsna me convidava insistentemente a conhecê-la. Mas eu sabia que se eu fosse para o templo, seria muito difícil eu ir embora. E eu não estava preparando para tamanha mudança. Minha vida era uma moeda girando no ar por cara ou coroa.

Uma semana mais tarde, eu me aproximei de um grupo de devotos e perguntei sobre aquele monge. Eles me disseram que seu nome era Tamal Krsna Gosvami. Naquela tarde, eu fui ao templo da Rua

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Depot. De repente, um ônibus personalizado parou ali. Quinze jovens, todos com suas cabeças raspadas, começaram a descarregar do ônibus vários instrumentos exóticos. Um devoto, muito bonito e alto, percebendo como eu olhava impressionado aqueles instrumentos, convidou-me a entrar no ônibus, onde tocaria um deles para que eu ouvisse. Lá estava Tamal Krsna Gosvami.

Embora só se tenha passado uma semana, ele imediatamente perguntou, “Por que você demorou tanto a voltar?”.

A Vida de Brahmacari

Aquele devoto alto – Visnujana Svami – começou, então, a cantar Hare Krsna em uma melodia tão doce que meus olhos se encheram de lágrimas. Eu sabia que aquelas pessoas haviam experimentado o que eu estava procurando, verdadeiro amor por Deus. Eu logo abandonei a faculdade e me mudei para o templo de Gainesville, onde o presidente do templo, Amarendra Dasa, treinou-me como

brahmacari, um estudante celibatário vivendo no asram. Mais tarde, eu passei a viajar com o grupo

de sankirtana viajeiro Radha-Damodara, liderado por Tamal Krsna Gosvami e Visnujana Svami. A

turma do ônibus [bus party], como era conhecida, era composta de dezenas de jovens que viajavam

por toda a América em vans e ônibus adaptados pregando a consciência de Krsna.

Embora a vida de brahmacari fosse austera e completamente diferente de qualquer coisa com que eu estivesse acostumado, minha transição para aquela nova vida foi natural e, de forma surpreendente, muito prazerosa. Para explicar o porquê, eu tenho que falar um pouco mais sobre mim. Até onde posso me lembrar, eu nunca me senti como pertencendo a este mundo. Eu sempre tive vida social, nunca fui sozinho, mas, na verdade, eu sempre me senti meio que sozinho, mesmo com vários amigos e uma família unida. Para mim, conversas sociais e conhecimentos mundanos eram tão tediosos quanto discussões filosóficas com várias perguntas e poucas respostas.

O asram de brahmacari, todavia, era cheio de personalidades marcantes, as pessoas mais

inteligentes e talentosas de que já tive companhia. Havia músicos, artistas, poetas, cozinheiros, filósofos, mecânicos – todos unidos pela devoção a Srila prabhupada. Aquela união de pessoas tão diversificadas emanava entusiasmo, amor e devoção. A associação com eles mudou de o que, a princípio, parecia uma austeridade insuportável, para empolgantes aventuras vividas como que em

um mundo paralelo. Uma radical mudança na minha existência. Todos os dias eu dançava e cantava, em seguida meditava seriamente e, então, estudava profundos livros espirituais. Onde mais, eu perguntava a mim mesmo, eu poderia ter tudo isso?

Minha vida fazia sentido pela primeira vez. Visnujana Svami, Tamal Krsna Gosvami e seus associados transformaram a vida austera do princípio em uma existência dinâmica, repleta de

significados e ao mesmo tempo muito divertida. Eu sentia que os devotos realmente se importavam comigo e com meu avanço espiritual, e que estavam felizes por estarem me conduzindo no caminho

de volta ao Supremo. Os livros de Srila Prabhupada – combinados com um inesperado desejo de

sempre cantar – solidificavam meu comprometimento.

Meu princípio de queda veio com o sentimento de que eu estava perdendo alguma coisa. Eu havia abandonado minha família e meu sonho de me tornar médico. Quando eu levava meu problema para os jovens devotos, que não eram muito maduros naquele tempo, eles eram bem incompreensíveis. Era difícil entender aquilo.

Outro problema: eu sempre gostei da vida no templo. Mesmo hoje eu sempre fico empolgado cada vez que as cortinas se abrem e o aratik começa. Viajar para longe do templo era difícil para mim. Eu sentia falta do templo, mas, como eu era bom em distribuir livros, meus supervisores naturalmente me colocavam sempre para viajar.

Em fevereiro de 1975, eu visitei minha família. Depois voltei para a companhia dos devotos em Atlanta. Srila Prabhupada estava no templo. O clima era transcendental. Srila Prabhupada liderou alguns kirtanas incríveis e deu aulas inesquecíveis. Sentindo-me indigno e não suficientemente comprometido, eu adiava há mais de um ano minha iniciação. Eu iria, supostamente, aceitar iniciação naquele final de semana. A iniciação era um compromisso muito sério, e, por causa de

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meu conflito pessoal, eu decidi que eu não estava pronto. Ao invés de aceitar iniciação, eu deixei o movimento. Na verdade, eu tentei deixá-lo, mas a vida da consciência de Krsna já havia se tornado parte de mim.

De Volta à Faculdade

Ao voltar para casa, achei um tanto difícil me adequar novamente. A vida comum não se compara com a consciência de Krsna. Minha família e amigos pareciam desconhecidos, e eles olhavam para mim como se eu tivesse chegado de outro planeta, pois eu ainda trazia remanescentes do estilo de vida brahmacari.

Na primeira semana que deixei o templo, retomei meus estudos na Universidade Loyola de Chicago. Embora minhas disciplinas obrigatórias fossem da área de medicina, todas as minhas disciplinas opcionais eram de filosofia e teologia orientais. Eu decidi procurar um emprego e tentar conseguir bolsas de estudo para não mais depender financeiramente da minha família.

Após colocar no mural de recados da faculdade um anúncio procurando por “vegetarianos que queiram compartilhar uma república”, eu comecei a transformar um apartamento próximo ao campus em um quase-templo. Uma loja indiana perto dali demonstrou-se um ótimo local para se comprar instrumentos musicais indianos – harmônio, tampura, mrdanga e karatalas. Eu pintei as paredes com um amarelo bem vivo e escrevi versos do Bhagavad-gita em Sânscrito por toda a parede. Em pouco tempo, meu espaço ficou conhecido como um local de encontro para vegetarianos, hippies, e mesmo para devotos queimados do templo local da Rua Evanston. Minha família se convenceu de que eu havia esquecido meu coração em algum distante templo Hare Krsna.

Eu freqüentemente visitava o templo de Chicago, mas o grupo de sankirtana de Radha-Damodara, às vezes, passava por lá e não me eram muito acolhedores. Isso não me impediu de ir aos aratiks regularmente, mas eu comecei a entrar e a sair do templo de forma que ninguém pudesse falar comigo.

Meus estudos avançaram rapidamente, porque eu nunca tirava férias no verão. Eu fiz toda a minha graduação e pós-graduação no mesmo ritmo intenso. Porque eu às vezes ia às aulas com os trajes devocionais e a cabeça raspada, meus colegas e professores me achavam excêntrico. De qualquer maneira, porque eu era um dos melhores alunos da sala, eles me respeitavam. Eu tinha como instrumento o que os devotos haviam me ensinado. Acordando às três e trinta da manhã, eu cantava minhas voltas e, antes de qualquer outro estudante de medicina estar acordado, eu já estudava para minhas disciplinas.

Eu tinha muita saudade de meus amigos devotos. Orar para Srila Prabhupada e Caitanya Mahaprabhu (e o desejo contínuo de cantar os santos nomes) me faziam superar os momentos difíceis. Mas a energia material é forte de mais para se confrontar sozinho. Gradualmente eu parei de cantar e cedi a uma vida ilusória, embora eu ainda encontrasse conforto na idéia de que eu poderia dedicar minha carreira a Krsna.

Por muitos anos, eu atuei como médico na Europa, África, Caribe e Estados Unidos. Durante esse tempo, eu visitei quase todos os templos da Terra. Eu entraria nos templos como um gatuno à noite e fugiria pela manhã um pouco antes do final do mangala-aratik, de forma que ninguém pudesse se aproximar para falar algo comigo.

Meu Recorde de Detenções: Uma Descoberta Auspiciosa

Minha atuação como médico, nos últimos dezesseis anos, foi em Miami. Um dia, na primavera de 2002, eu recebi na Flórida uma notificação oficial de que todos os médicos teriam de dar suas impressões digitais e teriam sua ficha criminal e outros dados levantados. Uma vez que eu não ligava muito para essas coisas do sistema, eu dei logo minha impressão, meu nome e fui embora.

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Uma manhã, o administrador do hospital onde eu trabalhava me chamou à sua sala. Ele pediu uma explicação quanto ao meu recorde de detenções. Eu não fazia a menor idéia do que ele estava falando. De repente, eu me lembrei e ri da situação.

O administrador, perplexo, disse sério, “Você tem que me explicar porque você foi preso quinze

vezes em doze estados diferentes entre os anos de 1973 e 1975!”.

A resposta básica foi distribuição de livros Hare Krsna, mas eu sabia que uma explicação mais

detalhada seria necessária. Eu disse que eu fui do movimento Hare Krsna quando eu era bem novo e que, porque vendíamos livros em locais proibidos, muitas vezes os policiais nos pegavam.

Para espiar meu recorde, eu descobri que eu teria que fazer cem horas de serviço comunitário. Como trabalhar para igrejas era uma das opções, eu decidi pagar meu débito com a sociedade visitando o templo da ISKCON de Miami.

Voltando ao templo, eu senti como se estivesse em casa. O movimento está diferente em vários aspectos, mas eu logo realizei que Srila Prabhupada ainda é a força que mantém tudo.

Várias grandes almas, mais uma vez, abençoaram-me com instrução e associação devocional. Trivikrama Svami, Daksina Dasa, Dharma Dasa, Laksmimani Devi Dasi, Malati Devi Dasi – a lista poderia ocupar toda uma página. Eu me senti renovado e pronto para um comprometimento mais maduro com a vida espiritual.

Eu voltei a cantar dezesseis voltas diariamente e a seguir os princípios reguladores com convicção. Eu logo concluí que eu tinha que continuar de onde eu havia parado, então eu procurei por um mestre espiritual que pudesse mostrar misericórdia para com um mané chamado Dr. Hugo Romeu. Em maio de 2004, em um festival anual de New Vrndavana [Festival of Inspiration], eu me atraí pela palestra e pregação de um devoto muito amável e dedicado chamado Bhakti Marga Maharaja. Ele ouviu minha história e, algum tempo depois, aceitou-me como seu discípulo e me orienta em meu serviço a Srila Prabhupada. Mais tarde, naquele mesmo ano, sentindo-me como um noivo ansioso, eu cedi. Depois de vinte e dois anos cantando Hare Krsna, eu, finalmente, aceitei a iniciação formal da consciência de Krsna.

Um Compromisso Renovado

Eu escuto relatos muito tristes de devotos que se afastaram da ISKCON, mas até onde estou envolvido, meus dias na ISKCON foram de longe os melhores dias da minha vida. Eu vivi uma experiência espiritual que muitos religiosos sonham. Eu tive a oportunidade de conhecer Srila Prabhupada, o fundador-acarya da ISKCON. Eu tive a associação de Tamal Krsna Gosvami e de outras grandes almas. Naqueles dias, eu não fazia idéia de o quanto afortunado eu era.

Existir no mundo material e simular felicidade é algo impossível depois que você provou o gosto de viver a serviço de Krsna. Eu descobri que você pode correr de Krsna, mas não pode se esconder.

Eu me tornei um médico bem sucedido, mas eu sinto que meu maior sucesso foi ter retomado a vida consciente de Krsna. Cantar dezesseis voltas é mais difícil e mais gratificante do que qualquer conquista material.

Eu levei uma vida inteira para entender que a verdadeira medicina, capaz de curar plenamente o sofrimento humano, foi trazida a este mundo por Srila Prabhupada.

Eu estou muito bem casado e tenho três filhos com minha esposa. Todos são vegetarianos. Embora meus familiares tenham sempre sabido do meu amor por Srila Prabhupada, eles ficaram surpresos com meu novo comprometimento com a ISKCON. Quando eles perguntam se eu vou fugir novamente como fiz aos dezesseis anos, eu asseguro a eles que a ISKCON amadureceu e dá grande ênfase à vida familiar como uma fundação sólida para a prática da consciência de Krsna.

Hoje, sinto que minha vida está completa. Eu espero poder retribuir de alguma forma por tudo o que o Senhor Krsna me dá. Eu me tornei membro do comitê administrativo do templo de Miami e tento ajudar os devotos tanto quanto posso. Eu espero comprazer a Srila prabhupada, que sempre esteve

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em meu coração, comprazendo ao seu mais querido servo Bhakti Marga Svami, meu mestre espiritual.

Caro leitor, após minha experiência, tenho um único pedido a fazer: Por favor, reafirme seu compromisso em manter, por mais essa geração, o sonho de Srila Prabhupada de ter uma sociedade de pessoas mais e mais conscientes de Krsna.

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Uma Chuva de Misericórdia: A Vida Exemplar de Bhakti-tirtha Svami

Rain of Mercy: The Exemplary Life of Bhakti-tirtha Svami

por Satyaraja Dasa

Bhakti-tirtha Svami (1950-2005), um dos meus amigos e mentores mais querido, foi uma pessoa de determinação singular, um pregador destemido e determinado da consciência de Krsna. Seu forte apego à missão de Srila Prabhupada levou-o a pregar ao redor de todo o mundo, especialmente na Europa Oriental, atrás da Cortina de Ferro, onde superou a todos em distribuição de livros de Srila Prabhupada; e na África, onde reis e rainhas reconhecerem-no como uma pessoa excepcional e um autêntico líder religioso. Seus feitos e comportamento exemplares também foram reconhecidos dentro da própria instituição de Prabhupada. Dentro da ISKCON, foi um respeitado sannyasi, monge na ordem de vida renunciada, e mestre espiritual com muitos discípulos pessoais. Ele foi o primeiro mestre espiritual Vaisnava afro-americano do mundo, e publicou inúmeros livros, entre outros temas, explicando como aplicar a consciência de Krsna no mundo moderno. Seus livros trabalham com a idéia empresarial de solução de conflitos e psicologia profunda, bem como alguns paralelos New Age. Incentivam o avanço espiritual através de técnicas de liderança centradas em princípios e realizações interiorizadas. Além disso, ele tinha uma incrível habilidade para tocar as pessoas de forma profunda, de mudar vidas; e milhares de irmãos espirituais, amigos e discípulos podem confirmar isso.

Os diversos nomes pelos quais Bhakti-tirtha Svami é conhecido na ISKCON falam um pouco sobre quem ele era. Eu gostava de conversar sobre isso com ele. Srila Prabhupada, por exemplo, deu a ele o nome de Ghanashyama Dasa, que significa “servo da nuvem negra”. O nome Ghanashyama se refere a Krsna, que tem uma compleição bela como uma nuvem negra de chuva. Eu costumava brincar com Bhakti-tirtha Svami que, ao lhe dar o nome de “Ghanashyama”, Prabhupada estava reconhecendo-o como um negro de grande carisma, um afro-americano com excepcionais qualidades materiais e espirituais. Ao que, ouvindo isso, claro, ele ria de sua forma peculiar, ou sorria belamente, expressando humildade, enquanto fazia um movimento com os braços afastando a idéia de ter alguma coisa em comum com Krsna ou alguma beleza visível, mundana ou de outro mundo.

Eu também apontava que “Bhakti-tirtha”, o nome que lhe foi dado em sua cerimônia de sannyasa, era também perfeitamente adequado a ele. Ele é como o verdadeiro tirtha, ou “local de peregrinação”, eu dizia, esses locais são como pontes para o mundo espiritual. A palavra tirtha é conceitualmente ligada a tirthankara, ou “construtor de pontes”, trazendo a idéia de que um verdadeiro local sagrado é como uma ponte para o reino espiritual, assim, os professores que ajudam as pessoas a chegarem a este reino são tirthas a sua maneira. Ele, especialmente, era uma ponte feita de bhakti, devoção, que levava, através dessa energia, as pessoas para Krsna. Daí “Bhakti-tirtha”.

Segundo diversos depoimentos, seu estilo de pregação da consciência de Krsna enfatizava a importância de se criar pontes, de forma que as pessoas em geral tivessem fácil acesso à filosofia. Devido ao seu grande senso de compaixão, trabalhou intensamente para conduzir o máximo de pessoas possíveis até os pés de Krsna. Por certo tempo, Bhakti-tirtha ficou conhecido dentro da ISKCON como Srila Krsnapada, que, mais uma vez, indica sua residência aos pés de Krsna e sua sempre-crescente capacidade de levar outros a esse mesmo abrigo. E, claro, ele era também um “svami”, que se refere a uma pessoa capaz de controlar seus próprios sentidos. Como veremos, sua vida como um devoto de Krsna revela essas qualidades em grande abundância.

John Serve Deus, e Deus Serve John

Bhakti-tirtha Svami nasceu como John Edwin Favors em 25 de fevereiro de 1950, o mais jovem de quatro irmãs e dois irmãos. Ele tinha um problema na fala que pensava que jamais iria superar.

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Outro obstáculo era que ele havia nascido em uma família muito pobre do subúrbio de Cleveland. Mas seus pais lhe deram boa formação, deram-lhe confiança, religiosidade e um senso de doação. Embora ele tivesse poucas roupas, por exemplo, sua mãe freqüentemente as doava para garotos e garotas da vizinhança, esperando ensinar ao seu filho, assim, a importância da caridade. Ela também fazia muitas horas de serviço voluntário em igrejas locais, levando à sua família uma atmosfera de sacrifício.

John era uma criança evangelista. Embora o problema de sua fala tornasse algumas situações difíceis, ele falava melhor quando falando sobre tópicos religiosos. De alguma forma, sua gagueira diminuía enquanto compartilhava as palavras da bíblia sagrada e, em alguns anos, ela cessou, sendo possível percebê-la em raros momentos. Quando adolescente, ele regularmente aparecia no canal de TV local pregando no programa Christian Gospel.

“Porque eu tinha visto muita pobreza”, ele disse, “eu estava preocupado em fazer algo por mim e pelos outros”.

Ele demonstrou-se um excelente estudante na escola técnica de Cleveland, e usava boa parte de seu tempo livre fazendo trabalho altruísta.

Ele recebeu bolsa de estudos da Academia Hawken, uma escola preparatória de renome em Cleveland. Enquanto estudava lá, atraiu-se pelo movimento pelos direitos civis do Dr. Martin Luther King, e acabou por se tornar um líder local da causa. Apesar de seu envolvimento com as causas políticas, ou talvez por causa disso, ele se tornou um estudante exemplar.

Em 1968, suas notas excepcionais garantiram-lhe uma bolsa na universidade de Princeton, onde se formou em Psicologia e Estudos Afro-Americanos. Em Princeton, seus interesses políticos cresceram quando se juntou ao Black Panther Party, Student Noviolent Coordinating Committee e outros grupos ativistas. Foi eleito presidente do corpo estudantil em 1971 e presidente do órgão de políticas internacionais Third World Coalition em 1972.

Melvin R. McCray, um de seus colegas em Princeton, lembra-se dele como uma pessoa extraordinária. McCray escreveu no jornal semanal de Princeton:

“Eu vi John Favors pela primeira vez no primeiro encontro da Associação dos Acadêmicos Negros [ABC, Association of Black Collegians] no outono de 1970. Como presidente do ABC, ele fez um acalorado discurso sobre o papel dos negros em Princeton. Embora tivesse apenas 1,70 de altura, ele era uma figura imponente em seu tradicional dashika africano com estampa de leopardo, de bengala, cachimbo, cabelo black-power e barba. Ele chamava a si mesmo de Toshombe Abdul, e falava com a imponência e dinamismo de Malcolm X”.

Enquanto em Princeton, e também algum tempo depois de formado, John começou a trabalhar como coordenador assistente de direito penal na Secretaria de Defensoria Pública do estado de Nova Jersey. Ele também atuou como diretor em diversas clínicas de reabilitação para usuários de drogas e no Education Testing Service [espécie de ENEM dos Estados Unidos]. Apesar de todos os afazeres, ele mantinha um interesse pelo “cristianismo místico”, como ele se referia, e estudava com grande seriedade os temas espirituais. Isto não quer dizer que ele não tenha se envolvido com as atividades mundanas de seu tempo. Ele viveu, afinal, nos conturbados anos 60, com sua filosofia de sexo, drogas e rock-'n'-roll. Relembrando sua juventude, ele disse: “Eu tentei ao máximo me esquecer de Deus. Mas, apesar de todos os esforços, eu sempre acabava O glorificando de alguma maneira”.

Ele estudou os ensinamentos de Sri Chinmoy, Svami Saccidananda e de um outro mentor menos conhecido, cujo nome ele nunca falou. Esse último mentor o direcionou para aquele que se tornaria seu mestre espiritual, Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada. A princípio, todavia, ele estava relutante em aceitar Prabhupada e seus ensinamentos.

“A primeira vez que vi um Hare Krsna”, ele contou, “foi na Harvard Square durante uma partida de futebol. Fazia muito frio, e um grupo deles estava cantando próximo da quadra. Eu olhei para eles e pensei: ‘Isso é o cúmulo do absurdo’. Pensei que fossem estudantes brancos e ricos só curtindo e

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experimentando algum tipo de droga ou experiência alternativa. Mas, quando eu passei por ali novamente duas horas depois, eles continuavam cantando no mesmo lugar, mesmo estando muito frio. Eu entendi, então, que havia algo de diferente naquelas pessoas”.

Por fim, uma namorada lhe deu um álbum em que Srila Prabhupada cantava, chamado “Krsna Meditation”. Ouvindo atentamente ao guru que seu mentor dissera que ele reconheceria como seu eterno mestre espiritual, ele se lembrou de algo que há muito havia se esquecido: Ele era uma alma espiritual presa em um corpo material - não era nem negro nem branco - senão que era um ser espiritual. Ele chorou profusamente naquela noite.

Ele logo passou a freqüentar o templo Hare Krsna do Brooklyn, e, pouco tempo depois, renunciou o pouco que tinha para buscar com grande sinceridade a consciência de Krsna. Ele se mudou para o templo, onde os devotos seniores, vendo sua natureza intelectual e habilidade nata para dar aula, enviaram-no para Dallas, no Texas, para que ele ajudasse no jovem projeto Gurukula, uma escola destinada às crianças da ISKCON. Chegando lá, todavia, ele conheceu Satsvarupa Dasa Gosvami, e o curso de sua vida mudou. Ele sentiu-se muito atraído pela forma simples e direta com que Satsvarupa Maharaja apresentava a consciência de Krsna e aceitou aquele devoto sênior como uma espécie de mestre espiritual instrutor. Naqueles dias, Satsvarupa estava começando um grupo de sankirtana viajeiro, um grupo de devotos que iriam viajar juntos distribuindo os livros de Srila Prabhupada. John imediatamente quis acompanhá-los.

O Nascimento de uma Bela Nuvem de Chuva

Logo se tornou evidente que John Favors não era apenas mais um devoto. Ele cantava, por exemplo, no mínimo trinta e duas voltas diárias do mantra Hare Krsna em suas contas, ao invés do padrão de dezesseis. Para isso, ele acordava mais cedo do que a maioria dos devotos e costumava ainda dormir mais tarde. Ele também mantinha um diário no qual escrevia uma carta para Srila Prabhupada todos os dias. Nessas cartas, ele revelaria suas fraquezas, pediria bênçãos para superá- las e expressaria sua determinação em tornar-se puro. Sua alimentação era bem reduzida, basicamente frutas e castanhas, às vezes algumas cenouras, bananas e um pouco de manteiga.

Inacreditavelmente, ele superou a todos os devotos que viajavam com ele – alguns com muita experiência – vendendo os livros de Prabhupada com a perícia de um comerciante profissional. Mais tarde, Hrdayananda Maharaja assumiria o grupo viajeiro. Ele treinou os jovens, especialmente Mahabuddhi Dasa e John, para que vendessem os livros de Srila Prabhupada para bibliotecas universitárias. A equipe ficou famosa na ISKCON como The Library Party, frisando a nova estratégia de pregação. John foi muito bem sucedido na distribuição de livros entre a elite intelectual.

Quando as semanas se tornaram meses, ele foi iniciado. Satsvarupa Maharaja o recomendou com a mais alta estima para Srila Prabhupada, que enviou uma carta em resposta no mês de fevereiro de 1973, dando a John o nome de Ghanashyama Dasa. Como a “nuvem negra de chuva” de Srila Prabhupada, ele amorosamente criou um novo padrão de chuva torrencial – uma tempestade de literatura espiritual.

Nos anos de 1974 e 1975, Srila Prabhupada escreveu várias cartas a Satsvarupa Maharaja e Rameshvara Maharaja, os mestres espirituais que instruíam Ghanashyama. Prabhupada ficou muito satisfeito e até mesmo impressionado com seu sucesso em distribuir livros. Prabhupada também escreveu diversas cartas pessoais a Ghanashyama durante esse período. Em uma carta, ele escreveu:

“Você está apresentado um serviço de primeira qualidade para Krsna através de sua pregação. Aceite minhas bênçãos e continue se esforçando e Krsna muito em breve irá reconhecer todo o seu esforço”.

Tendo Kalakantha Dasa como seu associado, Ghanashyama foi então para a Europa, especificamente para a Inglaterra, para continuar com sua distribuição de livros. Todavia, o sucesso não foi muito grande. Como Kalakantha refletiria posteriormente: “Os ingleses, naquele tempo, pareciam relutantes pela conexão com a Índia. A Índia ainda era um tabu para eles”.

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Algum tempo mais tarde, os dois compatriotas da ISKCON se separaram, com Ghanashyama indo para a Europa Oriental. Ele passaria a distribuir os livros de Prabhupada em países comunistas, nos quais, muitas das vezes, a religião era algo proibido ou objeto de grande censura. Ele levava sua vida consciente de Krsna de forma secreta e em condições austeras. Na Rússia, ele dormia em trens públicos, passando de um para outro durante a noite, e cantando suas voltas em banheiros públicos. Apesar de todas as adversidades, ele continuou muito bem sucedido, permanecendo entre os melhores distribuidores de livros para bibliotecas universitárias. Sua determinação e resultados positivos deram muito prazer a Srila Prabhupada.

Uma Chuva de Misericórdia

Quando Prabhupada estava doente, preparando-se para deixar este mundo no verão e inverno de 1977, ouvir sobre as proezas de Ghanashyama era uma das poucas coisas que lhe traziam grande entusiasmo. Diversas cartas de Tamal Krsna Gosvami, secretário de Prabhupada naquele momento, descreviam o êxtase sem paralelo de Prabhupada ao ouvir sobre as atividades de Ghanashyama. Naturalmente, quando Prabhupada fez sua última viagem para o ocidente, à Inglaterra, Ghanashyama recebeu misericórdia especial na presença de Prabhupada. Ele chamou o jovem distribuidor de livros ao seu quarto, pediu para que ele se sentasse ao seu lado e lhe abraçou afetuosamente. Com lágrimas nos olhos, Prabhupada lhe disse: “Sua vida é perfeita”.

Mas sua “perfeição” não o fez se acomodar. Depois que Prabhupada deixou este mundo, Ghanashyama continuou distribuindo livros como um louco, servindo com grande entusiasmo à missão de seu guru. Com o passar do tempo, em New Vrndavana, Virgínia do Oeste, ele aceitou sannyasa de Kirtanananda Svami, recebendo o nome de Bhakti-tirtha Svami no ano de 1979. Em seguida, ele iniciou o Committee for Urban Spiritual Development [Comitê de Desenvolvimento Espiritual Urbano]. O projeto era algo próximo do seu coração; uma vez que, tendo sido ele mesmo uma criança da periferia, sabia dos interesses e queixas daquela classe e sabia também como atraí- las para a consciência de Krsna. Pregação na periferia, combinada com trabalhos altruístas e distribuição de prasadam, muitas vezes através da inauguração de restaurantes, tornou-se o foco de seus esforços. Seu restaurante em Washington D.F. foi um dos mais notadamente bem sucedidos.

Foi nesse contexto em que ele teve um sonho em que Srila Prabhupada lhe pedia para abrir a porta. No sonho, ele continuava fazendo outros serviços deixando o pedido de Prabhupada de lado. Por fim, após Prabhupada pedir mais uma vez e uma terceira vez, Bhakti-tirtha abriu a porta, e uma multidão de africanos entraram na sala. Por esse sonho, ele deduziu que Srila Prabhupada queria que ele fosse para a África, e assim, sem nenhuma inclinação especial por aquela parte do mundo, e no meio de um bem sucedido projeto em Washington, ele foi embora, de repente, com quase nenhum plano em mente.

Por fim, sua aventura pela África foi um gigantesco sucesso. Seus feitos na África, e em todos os lugares pelo qual passou, são muitos e muito grandiosos para serem descritos em detalhes aqui. Na África, ele abriu e supervisionou duas comunidades rurais e mais de vinte templos em seis países. Manteve também duas escolas públicas e pregou ao longo de todo o continente para as pessoas mais simples, especialmente na África do Oeste.

Talvez o seu maior feito na América tenha sido a fundação, em 1988, do Institute for Applied Spiritual Technology [Instituto de Tecnologia Espiritual Aplicada], dedicado a apresentar a consciência de Krsna para o público New Age ao redor do mundo. Um dos objetivos do instituto era estabelecer comunidades auto-suficientes, e, para tanto, ele rejuvenesceu o projeto Gita-nagari da ISKCON em Port Royal, Pensilvânia. Com esse projeto, o Svami chamou a atenção de personalidades influentes – renomados doutores, advogados e outros viram sinceridade em sua mensagem.

Alguns destaques de sua vida ilustre:

Algum tempo após aceitar sannyasa, foi para Jagannatha Puri e, embora ocidentais não possam entrar no templo, fez-se um arranjo pelo qual ele entrou para ver as belas deidades de Jagannatha.

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Ele conheceu Mohammed Ali em 1981 e tornou-se um de seus conselheiros espirituais.

Tornou-se um membro do corpo governamental da ISKCON em 1982 e tornou-se mestre espiritual iniciador em 1985.

Ele foi para a África, onde Pushta Krsna Dasa, Brahmananda Dasa e outros estavam pregando, e abriu o país de uma maneira sem precedentes. Ele revesou sua estadia entre a África e a América por dezesseis anos, encontrando e trabalhando com os mais distintos dignitários do continente, celebridades e líderes, incluindo o Nobel da Paz Nelson Mandela.

Em 1990, foi honrado recebendo o título de Grande Líder em Warri, Nigéria, em reconhecimento de seu trabalho desinteressado na África. Ele ficou amplamente famoso, ao longo do subcontinente africano, como um líder religioso autêntico.

Enquanto se tornava cada vez mais conhecido internacionalmente como um líder espiritual, com diversas palestras em faculdades, canais de TV e de rádio, e com inúmeras conferências interreligiosas marcadas para os anos que viriam, o aspecto devastador do tempo se manifestou de forma inesperada, mudando seus planos para sempre.

Morrendo como Viveu

Bhakti-tirtha Svami foi diagnosticado com um melanoma em fase avançada (estágio quatro) em seu pé direito. Dez anos antes, ele havia sido avisado de um caroço suspeito naquele pé. Mas ele fora diagnosticado como benigno, e sua remoção significaria a perda de todo o seu pé. Mais tarde, em uma nova investida para removê-lo, os médicos descobriram que ele era maligno. O diagnostico de diabetes limitou as opções médicas. Primeiramente, ele tentou curas naturais, que demonstraram alguma ajuda no começo, mas que, por fim, ajudaram pouco.

Em agosto de 2004, os especialistas lhe informaram acerca da necessidade de imediata amputação do pé, quimioterapia e a remoção dos nódulos linfáticos infectados. Ele aceitou, mas quando lhe foi dito que a possibilidade de sucesso era mínima, começou a se preparar para deixar este mundo. Bhakti-tirtha viu tudo isso como uma oportunidade: “Krsna está me dando a oportunidade de desenvolver maior pureza, de rever o que precisa ser mudado; ele está ajudando a mim e a outros a vermos a vida espiritual como aquilo que merece toda a nossa atenção. Temos que estar prontos para servi-lO sob qualquer circunstância”.

De fato, a doença não veio para ele como uma surpresa. Ele orava freqüentemente pedindo para que Krsna transferisse para ele os débitos dos outros, para que ele sofresse de forma que outros fossem aliviados de seus sofrimentos. Ele orara:

“Querido Senhor, tudo aquilo que precisamos para sermos melhores servos da missão de Srila Prabhupada, deixe vir até nós. Tudo aquilo que precisa ser jogado fora para nos tornarmos puros no serviço a Srila Prabhupada, por favor, jogue fora”.

Ele escreveu que estava desejoso de morrer pelas más ações dos outros, e que morrendo, de alguma forma, ele aproximaria seus amigos e irmãos espirituais. Isso foi o que de fato aconteceu. De acordo com Bhakti Caru Svami, outro líder da ISKCON e um amigo que teve muito contato com ele em seus últimos dias: “Maharaja [Bhakti-tirtha Svami] enfatizava que o sofrimento de tantos devotos havia se tornado algo insuportável para ele. Ele orava com muita intensidade para Srila Prabhupada querendo purificar-se, tornar-se um melhor discípulos, e ajudar aqueles que estavam sofrendo – a qualquer custo”.

Radhanatha Svami, um líder da ISKCON e um dos amigos mais queridos de Bhakti-tirtha Svami, fico constantemente ao seu lado pelos dois últimos meses como seu acompanhante. Outros também ficaram com Bhakti-tirtha Svami, incluindo discípulos que eram médicos. Amigos e bem-querentes apareciam aos montes, oferecendo apoio, procurando por bênçãos e oferecendo orações. Devotos de todo o mundo resolveram antipatias de longa data em seu nome.

Quando suas últimas semanas de vida começaram a se aproximar, sua consciência estava cada vez mais absorta em Krsna e ele entrou em uma meditação solitária, permitindo que apenas aqueles que

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falavam unicamente sobre Krsna estivessem com ele. No momento de sua partida, sua absorção era total. Ele ouvia apenas os passatempos de Krsna em Vrndavana e via apenas uma bela pintura de Krsna e uma de Prabhupada em frente à sua cama. Quando deixou seu corpo, ele estava segurando uma deidade salagrama sila, e outra estava próxima à sua cabeça. Espirrou-se água do sagrado Radha-kunda sobre ele, e uma folha de tulasi foi colocada em sua língua. Ele morreu como viveu:

como um devoto exemplar.

Quando sua maravilhosa e produtiva vida estava chegando ao fim, ele e eu começamos a assinar as cartas que trocávamos com as palavras sânscritas aham tvam prinami: “Eu te amo”. Esse gesto assinalava nossa profunda apreciação pelo trabalho um do outro. Ele, por diversas vezes, expressou o apreço que tinha por meus livros, e sabia bem o quanto eu gostava dos seus. Mas não era só por isso. Ele e eu nos sentíamos como se fôssemos almas familiares em algum sentido transcendental. Nós dois aceitamos como missão apresentar a consciência de Krsna como ela é, e mostrar para os devotos, através de atos e palavras, que há diversas abordagens para a consciência de Krsna, que há mais de uma maneira de se servir o Senhor. Além disso, a nova maneira que encontramos de assinar nossas cartas mostra o tipo de pessoa que ele era, sempre pronto para expressar seu amor pelos outros devotos. Eu também te amo Bhakti-tirtha Svami, e você sempre estará em meu coração.

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O Humor de Rendição

The Mood of Surrender

por Urmila Devi Dasi

Este é o oitavo de uma série de artigos sobre as ofensas que devem ser evitadas quando se deseja progredir espiritualmente através do cantar dos nomes de Deus. Este artigo discute a ofensa de não se ter fé completa na natureza espiritual do cantar de Hare Krsna e manter apegos materiais.

“Vamos lá, vamos lá!”, eu exclamei com entusiasmo para que tudo estivesse pronto a tempo. Suando em frente a todos aqueles fornos, fazíamos bolos, tortas e pães. Todos nós da cozinha estávamos servindo ao hotel. Nós tínhamos que cozinhar o que estava no menu, seguindo estritamente as receitas que nos foram dadas. Mas eu diferia dos demais em um ponto: a maior parte deles tinha aquele trabalho apenas como ponto de partida até se tornarem gerentes de hotel. Enquanto atuavam como subordinados, seus corações ansiavam pela posição de senhor.

A ambição por ser o senhor é certamente a base do sucesso mundano. Mas sucesso espiritual exige

exatamente o contrário: quanto mais uma pessoa serve, mais elevada é sua posição. Tendo acumulado maus hábitos por muitas e muitas vidas, nós, almas condicionadas, acreditamos que felicidade, conhecimento e vitalidade virão por se subjugar e controlar o mundo. Mas tudo isso que ambicionamos vem, na verdade, quando deixamos de lado nosso falso-ego de pensarmos que somos

os controladores e desfrutadores e, ao contrário, refugiamo-nos nos pés do Senhor, Sri Krsna, como Seus servos.

Imagine que vemos na nossa frente o que parece ser tudo o que desejamos. Mas, quando nos aproximamos para pegar aqueles prazeres, nós encontramos, na verdade, um muro sólido e alto. Olhando ao redor, encontramos a verdadeira fonte de prazer. O prazer de se explorar as pessoas e o mundo material aparece diante de nós, mas é apenas um reflexo, como em um espelho. É uma satisfação insubstancial. O espelho está refletindo a imagem, de forma distorcida, daquilo a que as almas condicionadas deram suas costas – o serviço a Deus. Alcançar esse serviço novamente e seu prazer associado, todavia, requer que façamos, de alguma forma, exatamente o oposto do que parece ser prazeroso neste mundo.

Nosso hábito de fazer planos materialistas e egoístas vem de longa data. Já é esperado que todos que estejam começando a trilhar o caminho espiritual estejam cheios de tais apegos mundanos e com apenas uma pequena fagulha de interesse por se render a Krsna, embora essa fagulha seja muito significativa para o iniciante. Progredindo na vida do serviço devocional, nós gradualmente nos tornamos cientes da tolice que é tentarmos desfrutar de um reflexo. Tal percepção se manifesta em nossa consciência primeiramente pela graça de Krsna que, de dentro de nossos corações, releva Sua natureza como o verdadeiro desfrutador e também nos mostra a imundice que está dentro de nós. Tal revelação de Krsna é feita em resposta a algum serviço que tenhamos feito a Ele com devoção. A principal forma de servi-lO e de Lhe despertar prazer é através do cantar de Seus santos nomes na forma do maha-mantra