Veja 17/09/97

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Gráfica

Abril

   Crime

Inferno na Vila Carrão

Foto: Lili Martins/Folha Imagem

Massataka, no enterro do filho Yves (ao lado, no teatrinho da escola): "Mamãe, eu te amo"
Foto: Album de familia

O menino Yves Yoshiaki Ota, de 8 anos, filho de um comerciante da Zona Leste de São Paulo, foi seqüestrado no início de 29 de agosto, quando brincava com seu primo no sobrado modesto onde morava, na Vila Carrão. Enquanto os pais do garoto trabalhavam, Sílvio da Costa Batista, um desempregado que entrega encomendas e tem uma condenação por roubo, invadiu a casa fazendo-se passar por funcionário de uma floricultura. Pegou o menino, colocou-o num carro velho e o levou dali. Na segunda-feira da semana passada, depois da prisão de Sílvio e de dois policiais militares também acusados de participar do crime, a polícia encontrou Yves. Com dois tiros no rosto, ele estava enterrado sob o piso de cimento do quarto de Sílvio, embaixo de um berço. O menino foi assassinado algumas horas depois de ter sido seqüestrado. Yves era de uma família de comerciantes que estava subindo na vida. Viviam num padrão de classe média baixa até inaugurar na Zona Leste, há dois anos, um novo tipo de loja. Nela, de brinquedo a utensílio doméstico, tudo é vendido a 1,99 real. Hoje o casal tem doze lojas na periferia de São Paulo, na Grande São Paulo e no interior, que empregam 150 pessoas. Com uma filha de 12 anos, ainda moram num imóvel alugado, mas é por pouco tempo. Já está quase pronto o apartamento de quatro quartos adquirido pela família. O pai de Yves, Massataka Ota, nasceu na província de Okinawa, no Japão, e a mãe, Iolanda Keiko Ota, é nissei. Na garagem do sobrado, um belo Mustang 95 destoa dos carros da vizinhança, de classe média baixa, típica daquela região da Zona Leste. A família Ota está a milhões de reais de distância do tradicional alvo dos seqüestros milionários com patrimônio para grandes resgates , mas os seqüestradores também se enquadram no perfil da categoria são mais pobres, menos preparados. Onde mora o perigo O cativeiro de Yves era a própria moradia que Sílvio dividia com a mulher e a enteada, de 2 anos e meio. O http://veja.abril.com.br/170997/p_038.html 03/07/11

o também soldado da PM Sérgio Eduardo Pereira de Souza. que esclareceu o crime.com. o seqüestrador confesso.abril. e é isso que dá credibilidade a seu depoimento. disse Massataka. auto-incriminando-se. Segundo a polícia. A arma usada por Sílvio durante o seqüestro é uma pistola automática Imbel de calibre 380 que pertence ao policial Dantas. de 34 anos. "Quem é o filho do Massa?". e outro segurança de São Miguel. Sílvio confessou o crime e delatou Dantas. O soldado Paulo de Tarso Dantas. diz o delegado Maurício Guimarães Soares. Página 2 de 4 Foto: Regina Agrella/Folha Imagem Sílvio. não há dúvida: os policiais estão mesmo envolvidos no seqüestro. Freqüentava até as festas de fim de ano oferecidas pelo comerciante a seus funcionários. Segundo Sílvio. mas são fartos os indícios contra ele.br/170997/p_038. Sílvio logo mostrou que estava bem informado a respeito da família. "A moto e a estatura do ladrão são as mesmas do Sílvio". conhecia detalhes da rotina de Massataka. Há um mês. um de seus clientes. "O perigo morava ao lado do comerciante todo o tempo e ele não sabia". titular da Delegacia Especializada AntiSeqüestro de São Paulo. http://veja. mas complicações espontâneas interromperam a gravidez. que testemunhou o assalto.html 03/07/11 . não foi a primeira vez que Dantas usou Sílvio para atacar o comerciante. depois de espancado e os policiais Dantas (acima) e Pereira: a Fotos: Rubens Cavallari/ sangue frio Folha Imagem   Preso no dia 5 de setembro num telefone público de onde fazia a ligação para Massataka. que fazia ali seu bico para engordar em 500 reais o orçamento doméstico. citando o nome pelo qual o comerciante é conhecido entre amigos e parentes. Dantas foi convidado a batizar o bebê. O encarregado estava ali para deixar a féria do dia. Presos. foi dessa arma que saíram os tiros que mataram Yves.Veja 17/09/97 local é um cortiço. o processo de expulsão da corporação já foi iniciado. Dantas percebeu que Massataka enriquecia. Quando voltou à casa para fazer o seqüestro. O policial nega o envolvimento no crime. perguntou. Sílvio e Dantas são tão amigos que. na frente de sua casa. O único adulto que se encontrava na casa era a empregada. A idéia de seqüestrar Yves partiu de um dos seguranças da rua comercial do bairro de São Miguel onde Massataka tem uma de suas lojas. Sílvio não deixou de confessar seus crimes. um motociclista usando capacete assaltou o encarregado de suas lojas. bem como um silenciador encontrado próximo ao berço. seu amigo de longa data. na casa onde Yves foi morto. Yves ergueu o braço e foi agarrado. e o seqüestro poderia ter sido denunciado por qualquer um dos vizinhos que residem no quarto ao lado ou no andar de cima coisa típica de quem não é do ramo. Para a corregedoria da PM. quando a mulher do rapaz ficou grávida.

Mas. Ele reclama por justiça social.br/170997/p_038. por ironia. "Precisamos de mais escolas e empregos para acabar com essa miséria que empurra muita gente para a criminalidade". 73.Veja 17/09/97 que foi amarrada. Em 1994 houve no Estado 82 casos. o menino Yves aprendeu a jogar xadrez com 7 anos de idade e ensinou ao pai.html 03/07/11 . o levou à morte. contou Iolanda. Estava na 2ª série e era o primeiro aluno de sua classe. que decidiu matálo. afirmou Massataka. com essa postura. No dia seguinte. "Só dormia à custa de remédio e. O primeiro pedido foi de 800. Colocado numa cela comum. decretada pelo código de ética dos encarcerados: na cadeia. no auge do desespero. Em São Paulo foram seis em 1994. os policiais estranharam o cimento novo e quebraram o piso. Foi a inteligência que. ele escreveu: "Mamãe querida. a quem vencia com facilidade. O Rio de Janeiro segue recordista em seqüestro. onde era conhecido pela valentia. diz o delegado Guimarães Soares. que o levaram para uma cela com menos presos. Em 1995 foram 109 e. Uma das pessoas a quem ele pediu ajuda foi o policial Dantas. mas ali esse crime está diminuindo. mal chegando ao cativeiro.000 dólares e o último de 80. Segundo Sílvio. Sílvio escapou por pouco da pena capital. Sílvio diz que o militar deu o primeiro tiro e ele. O corpo do menino foi encontrado em adiantado estado de decomposição. os seqüestradores começaram a telefonar para os pais e prometiam o impossível: colocar o menino na linha na véspera do pagamento do resgate. Neste ano o número até agora é de apenas 38. A migração sócio-econômica do seqüestro explica-se: as famílias mais ricas estão se protegendo mais. o segundo. A cova foi feita em local acima de qualquer suspeita embaixo do berço da enteada de Sílvio. No seu depoimento. ia para a avenida olhar os carros na esperança de que um deles parasse e meu filho descesse". quando os jornais ainda estampavam manchetes nas quais o pai de Yves aparecia. Ninguém precisa sentir pena de um bandido que matou uma criança de 8 anos.abril. da Delegacia Anti-Seqüestro. o delegado já está dando sinal verde para mais um crime. Num bilhete encontrado por sua mãe na semana passada. clamando por pena de morte. Ambos no rosto. Massataka e a esposa. Iolanda. desabafou. crime contra criança é punido com a morte. em 1996.com. "Há uma tendência de crescimento de seqüestro com esse perfil". O delegado Guimarães Soares disse que será "difícil garantir a vida desse vagabundo". Andam de carro blindado e possuem guarda-costas bem treinados. Com inteligência acima da média. "Andávamos de mãos dadas pela sala. nove em 1995. eu te adoro e te amo porque você me criou em todos esses dias e nesses anos". uma chusma de presos avançou sobre ele. Ao vasculhar a casa de Sílvio. viviam um inferno. portanto. quando estava acordado. Na quinta-feira passada.000. Violentado e espancado Este é o quinto seqüestro do ano em São Paulo no qual a vítima é de família de classe média ou classe média alta. ele deu entrevista para dizer que esse tipo de punição não traria seu filho de volta e. Era um tipo parecido com o Rambo da favela Naval. Sílvio foi violentado e espancado até ser resgatado por policiais. não era mais desejado. O homicídio só foi descoberto três dias depois de sua prisão. rezando". o menino reconheceu o policial Dantas. que fazia a ronda nas favelas de São Miguel. Por duas vezes. doze em 1996 e neste ano já chegou a quinze. Página 3 de 4 http://veja.