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A FOTOGRAFIA E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DA ESCOLA NORMAL NA REFORMA FERNANDO DE AZEVEDO RACHEL DUARTE ABDALA (FACULDADE DE EDUCAÇÃO – USP)

O objetivo deste estudo é contribuir para a afirmação do caráter documental da

fotografia, refletindo sobre a representação fotográfica do novo prédio da Escola Normal, analisando a forma como o ideal educacional foi engendrado pela construção de imagens na Reforma Educacional realizada entre os anos de 1927 e 1928, no Distrito Federal.

Os registros de Nicolas Alagemovitz, as fotografias publicadas em artigos jornalísticos

do período e os quatro primeiros Boletins de Educação Pública compõem a documentação selecionada. Esse conjunto documental é parte integrante do Acervo do Arquivo Fernando de

Azevedo, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, excluindo apenas

o último Boletim, da Biblioteca da Faculdade de Educação. Durante sua atuação como diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, no período de 1927 a 1930, Fernando de Azevedo dispôs-se a renovar a educação. Para tanto, era

necessário, antes de tudo, repensar e organizar as instalações escolares. Assim, após constatar

a situação precária dos prédios escolares existentes e a insuficiência de instalações para essa finalidade, Azevedo elaborou um projeto arquitetônico que envolvia, tanto a recuperação dos prédios antigos, quanto a construção de novos. Em sua administração, foram construídos nove prédios 1 , todos concebidos segundo o estilo neocolonial, visando firmar o nacionalismo.

A arquitetura escolar do período está diretamente relacionada às questões sobre a

fotografia. A maior parte dos registros fotográficos remete aos prédios, mostrando sua

arquitetura, sua construção, seus detalhes arquitetônicos. Podemos ler, no conjunto das imagens um discurso de práticas e de representações.

A fotografia é, sem dúvida, uma das formas de representação e de legitimação da

arquitetura e do espaço arquitetônico. Nesse sentido a arquitetura é conhecida, divulgada e interpretada por meio de imagens, e sua concepção é formada por uma determinada percepção fotográfica, constituída pelo olhar do fotógrafo, pelo desejo do contratante e por fatores técnicos e históricos. Para Azevedo, a arte deveria, entre outras funções, desempenhar uma muito peculiar: a

pedagógica. Em suas palavras: “(

edifício escolar deve ainda contribuir para a educação

)

1 Dentre eles as Escolas Argentina, Estados Unidos, Antônio Prado Jr., Uruguai e Normal, sendo estas justamente, as construções mais divulgadas, tanto na imprensa, quanto nos Boletins de Educação Pública.

estética por sua arquitetura e sua decoração. Não há meio mais eficaz para a educação do gosto popular do que por, sob os seus olhos, nos edifícios públicos, e sobretudo, naqueles destinados à educação popular, exemplares perfeitos de arquitetura.” 2

O esforço empreendido nas construções, atendendo a um padrão pré-estabelecido, e o

cuidado posterior em produzir belas imagens dos novos prédios, em particular o da Escola Normal, induzem-nos a crer na existência de um projeto de exaltação da Reforma. A arquitetura representada nas fotografias cumpria também a função promocional.

A importância das novas construções escolares e de sua representação fotográfica

durante a Reforma pode ser percebida em diferentes registros: nas notícias jornalísticas, nas cartas, nos Boletins e nas memórias de homens que participaram daquele momento histórico. Em suas memórias, Paschoal Lemme 3 demonstra a relevância que Fernando de Azevedo atribuía às construções dos novos prédios escolares e à sua representação fotográfica. Relembra as reuniões com o Diretor de Instrução Pública, durante as quais este demonstrava grande prazer ao ver e mostrar as fotografias das construções, denotando, também, que as fotografias deveriam passar por seu aval, antes de serem publicadas. “Nessas reuniões, que constituíam um refrigério, uma pausa reconfortante, em meio àquela atividade febril, e às vezes, áspera, Fernando de Azevedo nos fazia apreciar as belas fotografias que iam sendo tiradas dos aspectos mais relevantes dos novos prédios escolares que estavam sendo construídos, em estilo tradicional brasileiro. Eram momentos de alegria em ver como ia sendo traduzida em pedra e cal toda uma nova filosofia de educação, em que se procurava dar às crianças e adolescentes um novo ambiente, em que a comodidade e a adequação às finalidades próprias se aliava a um alto sentido de beleza.” 4 Para a Diretoria Geral de Instrução Pública, a construção de novos prédios era compreendida como absolutamente necessária, como base para a Reforma Educacional e como monumento a uma ideologia. Posição essa presente nos discursos e textos disseminados, como no do Diretor Geral, publicado no primeiro Boletim de Educação Pública, intitulado “A nova política de edificações escolares, no qual Azevedo discorre sobre o problema da instalação dos prédios escolares. Critica a pequena quantidade de prédios especialmente projetados e as condições dos que existiam, mal projetados, em vista de sua finalidade, inclusive o da Escola Normal.

2 AZEVEDO, Fernando de. “A nova política de edificações escolares”, Boletim de Educação Pública, n.1 1930.

p.88.

3 Paschoal Lemme era, na época, assistente da Subdiretoria Técnica, setor criado pela Reforma.

4 LEMME, Paschoal. Memórias 2, SP, Cortez e INEP, 1988, pg. 41

A Escola Normal vai ter, finalmente, o seu edificio, construido segundo um plano

geral studado (sic) com todo cuidado. Todas as administrações, nestes ultimos vinte annos, reconheciam essa necessidade, mas não tinham coragem de tentar a obra.” 5

A Escola Normal recebeu especial atenção, pois era considerada pelo educador como

base de todo o processo, uma vez que formaria os professores que atuariam posteriormente no sistema educacional. Assim, todas as escolas deveriam ser remodeladas segundo os critérios da concepção escola-novista, especialmente planejadas para serem espaços educacionais, mas o da Escola Normal seria privilegiado, como veremos, nas preocupações de Azevedo: “A escola technologica de mestres e contra-mestres, servida de laboratório de psycotechnica e orientação profissional, e a Escola Normal, remodelada em suas futuras installações, é que serão os grandes centros de preparação e disseminação da mestrança e do professorado incumbidos da realização integral dos novos ideaes.” 6

A construção do prédio que abrigaria a Escola Normal foi, portanto, um caso singular,

com grande projeção na imprensa. A maior parte dos artigos referentes à Escola Normal era acompanhada de imagens. As fotografias da Escola Normal eram “oferecidas” pelos jornais

para o deleite dos leitores, apresentando, gradativamente, aspectos do prédio. “Hoje, offerecemos aos nossos leitores um outro aspecto desse edificio, - o da sua parte posterior, vendo-se um dos torreões em que devem funccionar a bibliotheca e a sala de leitura.” 7 Todo o processo, desde o concurso para seleção do projeto, até as várias polêmicas geradas acerca de sua construção, foi acompanhado pelas imprensa do período. Nos jornais foram publicados desenhos do projeto e fotografias do prédio, as instalações foram pormenorizadas e criticou-se o alto custo da obra, bem como sua localização.

O bairro destinado a abrigar o novo prédio da Escola Normal, a Tijuca, era aristocrático

e elegante, atrativo às classes médias. 8 Além disso, “a Tijuca ainda se notabilizava por ser o

bairro que possuía o maior numero de colégios de qualidade” 9 . Com base nessas considerações, é possível supor que a escolha de Azevedo não foi aleatória - ele pretendia

5 IEB - Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum II p.71 art. 140 - O Jornal, 21 out. 1927.

6 AZEVEDO, Fernando de. “A Escola Nova e a Reforma”, In: Boletim de Educação Pública, no. 1, 1930. p. 23.

7 IEB - Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum IX p. 377 art. 692 - Diario de Noticias, 7 out. 1930.

8 CARDOSO, E. D. et alli. Tijuca. História dos Bairros, p. 114. apud VIDAL, Diana Gonçalves. O exercício disciplinado do olhar. Op. Cit. p. 19.

9 VIDAL, Diana Gonçalves. O exercício disciplinado do olhar. Op. Cit. p. 21 “Desde 1889, o Colégio Militar instalara-se no antigo palacete do Conde de Bonfim. A chácara do Barão de Itacuruçá abrigava a partir de 1911 o Colégio Batista. A sede feminina do Instituto Lafayette, hoje já demolida, ocupava o antigo palacete do Duque de Caxias.”

associar o edifício a uma localização considerada nobre, assim como seus objetivos e o projeto cuidadosamente elaborado. Com auxílio da fotografia, é possível produzir documentos dos estados sucessivos de obras em andamento, em construção. Na Reforma da Instrução Pública, esse recurso foi utilizado, podendo ser percebido nos jornais e nos boletins. No jornal Diário Carioca 10 , foi publicada uma fotografia da Escola Normal, com a legenda “O edifíco da Escola Normal que está sendo construída nos predios desapropriados”. Um artigo publicado no jornal A Pátria faz alusão à construção do prédio da Escola Normal: “As diversas phases porque tem passado esse estabelecimento de ensino até a sua custosa installação modelar”. 11 O artigo descreve o edifício como “majestoso”, e apresenta uma fotografia de sua fachada principal. A fotografia foi novamente publicada, pelo mesmo jornal, alguns dias depois, mas o texto não se referia ao prédio, especificamente. Isso mostra que as fotografias da Escola Normal eram utilizadas não só para ilustrar textos sobre sua própria construção, como também para acompanhar textos genéricos sobre as construções dos outros prédios da Reforma Educacional. No registro dos processos construtivos, a fotografia pôde encontrar mais liberdade para compor-se de forma a ser hoje reconhecida como artística. Essas fotografias originam- se de uma intenção documental, terreno no qual a arte tradicional não era ameaçada”. 12 Entretanto, mais do que mero registro documental, essas fotografias cumpriam a função de enaltecer as obras, como é possível constatar a partir da análise dos registros e dos artigos de jornal. Além disso, deve-se considerar que “As fotografias de documentação arquitetônica revelam ainda um outro uso muito difundido - o promocional. O potencial de propaganda da fotografia foi utilizado tanto por arquitetos quanto pelos contratantes das obras. No caso das administrações públicas, o uso desse tipo de fotografia podia atender a dois aspectos: o da divulgação de modelos e padrões de qualidade arquitetônica e construtiva.” 13 Além das fotografias da obra, antes houve a publicação dos desenhos do projeto, provenientes do concurso promovido pela Diretoria Geral de Instrução Pública, no final de 1927, primeiro ano da Reforma. Durante o ano de 1928, nos artigos sobre a Escola Normal 14 ,

10 IEB - Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum VIII p.257 art.564 - Diário Carioca, 15 mar. 1930.

11 IEB - Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum IX, p.160, art. 311.

12 CARVALHO, M.C.W e WOLFF, S.F.S. Arquitetura e fotografia no século XIX . Op. cit. p.155.

13 Idem. p.159.

14 O desenho do projeto da Escola Normal foi amplamente publicado nos jornais: Álbum IV p.82 art. 183 - Jornal do Brasil, 11 ago. 1928. “A futura Escola normal”; Álbum IV p. 121 art. 265 - A Pátria, 30 ago. 1928. “A nova Escola Normal do Districto Federal” (“Projecto do edificio da nova Escola Normal”); Álbum IV -

foram publicados vários desenhos do projeto, sob diversas legendas. “O grandioso projecto, em perspectiva, do edifficio da Escola Normal, á rua Mariz e Barros, próximo á Praça da Bandeira” - o desenho com esta legenda foi inserido em um artigo no qual a construção do prédio é vista como “um aspecto prático da Reforma.” 15 O lançamento da pedra fundamental, em 18 de novembro de 1928, também foi registrado pela imprensa. 16 Os registros do andamento da construção das obras englobam, ainda, os prédios já concluídos e sua inauguração. Entretanto, ao contrário das demais construções, a Escola Normal não pôde ser inaugurada com a pompa desejada e planejada por seu idealizador, devido à Revolução de 1930, que ocasionou brusca ruptura no processo de renovação escolar. O discurso escrito por Azevedo, para a ocasião, nunca foi pronunciado. O diretor da Escola Normal, ainda localizada no Largo do Estácio, Carlos Werneck, foi obrigado a instalar a escola no novo prédio, às pressas, em decorrência dos boatos de invasão pelas tropas revolucionárias. 17 A mudança apressada foi tumultuada, em virtude do fato de as obras de acabamento do prédio ainda não estarem concluídas. Simultaneamente à sua edificação houve, nos jornais, grande polêmica sobre os gastos da obra. Para tornar realidade o projeto aprovado, acusado de exagerado, seria necessária, de fato, uma soma de grandes proporções. Além do novo prédio para a Escola Normal, o projeto incluía escolas anexas. A Prefeitura aplicou na obra mais de 15.000 contos de réis. A questão sobre os gastos foi, inclusive, associada à da localização: “O novo edificio da Escola Normal. A sua construcção na rua Mariz e Barros vae acarretar grandes despezas - Por Que não construil-o no proprio local em que está funccionando a escola?18 Nicolas Alagemovitz, fotógrafo autônomo, ligado às artes plásticas foi contratado para registrar as obras arquitetônicas realizadas pela Diretoria de Instrução Pública. Suas fotografias, tomadas em contraplongê, recurso usado para imprimir monumentalidade, foram publicados nos jornais, para justificar o alto custo. Uma de suas fotografias, provavelmente produzidas para evidenciar a beleza dos prédios, foi publicada no Jornal A Tarde, com a seguinte legenda: “O bello edifico da Escola Normal do Districto Federal”. A fotografia, sua legenda e o título do texto, “O Novo edifico da Escola Normal custou 13 mil contos” 19 , são

artigos com projeto da Escola normal, ps. 346, 349, 350, 356, 376, 377; Álbum IV p.71 art. 137 - Revista Apologetica, dez. 1928, p.4, 5 e 6 “A Reforma da Instrucção”. IEB – Arquivo Fernando de Azevedo.

15 IEB - Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum V p.105-106 art. 224 - A Noite, 22 ago. 1928.

16 IEB - Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum AIV, ps. 354, 355, 356, 360, 361, 362, 363, 364, 365, 366, 367, 368, 370.

17 VIDAL, Diana Gonçalves. O exercício disciplinado do olhar. Op. Cit. p. 22.

18 IEB - Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum II p.157 art. 319 - O Correio do Brasil, 14 nov. 1927.

19 Álbum IX, p.406, art.754, A Tarde, 08 out. 1930.

importantes indicativos das intenções de justificar com belas fotografias a construção do edifício, que consumiria vultosas somas em dinheiro. A frase de Azevedo usada como subtítulo ao artigo, “Ou possuir o melhor do mundo ou não possuir nada”, indica a sua

obstinação com a perfeição da obra. O prédio foi descrito na imprensa como um “palácio”, 20 recebendo adjetivos como “sumptuoso”, reforçando-se a idéia de exagero.

A polêmica sobre os custos da obra estendeu-se mesmo após a destituição de Azevedo

do cargo 21 . Os adversários políticos de Azevedo, empossados nos cargos anteriormente ocupados por ele e seus assistentes, iniciaram inquéritos para apurar irregularidades

cometidas pela administração anterior à revolução, acusando Azevedo de má utilização de recursos públicos na construção do prédio da Mariz e Barros 22 . Tanto a fotografia quanto a arquitetura são produtos artísticos da criação humana, promovem a cristalização de processos sociais e constituem suportes para conteúdos simbólicos. Assim, a veiculação do ideal nacionalista da época sob a forma estética da arquitetura foi legitimada e tomou forma por meio da fotografia.

A relação entre a fotografia, revestida de toda a carga simbólica de uma novidade, e a

arquitetura escolar, que passava por uma redefinição substancial nesse período, é muito incisiva e visível. Visava-se definir valores que moldariam a sensibilidade estética da sociedade. Assim, “a inspiração tradicionalista da arquitetura escolar carioca, não era casual. Ao contrário, seguiu o desejo de Azevedo de imprimir um cunho nacionalizante a sua administração, e de dar visibilidade a sua proposta educacional ( )” A nova arquitetura subordinava-se às transformações do começo do século e ao

incipiente nacionalismo, que buscava sua afirmação em elementos visíveis, entre os quais a arquitetura e a fotografia se inserem.

Pouco importam os estylos. O que se

impõe é abolir os pardieiros ignobeis, os antros, as alforjas que servem de escolas para a

infancia carioca. (

não entende o dr. Fernandinho. O dr. Fernandinho declara: - Quero deixar coisa vistosa. 24

Predios limpos, ventilados, confortaveis, eis o problema. Mas assim

23

Colonial ou modernista? Eis a questão. (

)

)

20 IEB – Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum IX p.270 art. 526 - A Patria, 23 set. 1930. “O novo Palacio da Escola Normal”.

21 VIDAL, Diana G. O exercício disciplinado do olhar. Op. Cit. p. 48.

22 Idem ibdem. “O cargo de Diretor Geral da Instrução foi ocupado por Oswaldo Orico, antigo professor da Escola Normal, afastado na caça aos efetivos não concursados, realizada em 1927, opositor ferrenho de Azevedo. Foi logo substituído por Raul de Faria, inspetor escolar, também adversário político de Fernando, que iniciou os inquéritos”.

23 VIDAL, Diana Gonçalves. “Nacionalismo e tradição na prática discursiva de Fernando de Azevedo”, In Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo (37) 1994. P

24 IEB – Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum VIII, p.125, art.314. O Combate de 18 de janeiro de 1930.

Neste artigo há alusão à intenção de utilizar a arquitetura e seu registro fotográfico como meio de visibilidade aos ideais e como marco da Reforma. Um outro artigo, do Diário de Notícias, afirma que o prédio “doravante, ficará sendo um padrão architectonico da Reforma Fernando de Azevedo”. 25 O produto arquitetônico aparece, é visível; é o espaço provido de dimensões funcionais e estéticas, que abriga as necessidades humanas, exibindo as formas de suas aspirações, ao mesmo tempo que desperta novas ambições.” 26 Além de acompanhar a construção do prédio, a imprensa foi convidada a conhecê-lo antes de sua inauguração, numa clara intenção de justificar custos e de possibilitar uma visibilidade ainda maior. Assim, os diretores da Associação Brasileira de Imprensa e os

jornalistas foram convidados a visitar o prédio para constatar o valor, a beleza e o cuidado da obra em atender às especificações da reforma quanto à salubridade. E o que vimos foi maravilhoso. O predio possue tudo o que se pode desejar de conforto e belleza. De belleza sim, porque presidiu a sua construcção um verdadeiro gosto

De onde quer que se observe, exteriormente, o edificio a impressão é de

A impressão de belleza

A gente se sente bem naquelle ambiente. Tudo é bello, tudo é confortável, tudo

parece convidar ao estudo, ao trabalho.27 Todos os aspectos deveriam ser apresentados, destacados, para evidenciar a “grandiosidade”, a importância e a beleza dos novos prédios escolares. Os recursos técnicos disponíveis na época foram largamente explorados, inclusive a fotografia aérea, recurso este utilizado exclusivamente para registrar o novo prédio da Escola Normal. Os registros aéreos, realizados pelo especialista, S. H. Holland 28 , fotógrafo e aviador, foram publicados em cinco jornais, O Globo, Diário da Noite, O Jornal, Jornal do Brasil e Diário de Notícias 29 , “ilustrando” os artigos produzidos sobre a visita, realizada no dia 4 de outubro, pouco antes

artistico. (

)

encantamento. Dir-se-á um verdadeiro poema architectonico. (

continua. (

)

)

25 IEB – Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum IX, p.168, art.323.

26 CARVALHO, M.C.W e WOLFF, S.F.S. Arquitetura e fotografia no século XIX . Op. cit. p.134.

27 IEB – Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum IX, p.360, art.677.

28 IEB – Arquivo Fernando de Azevedo. Caixa 2, foto 036.

29 IEB – Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum IX, p. 359, 360, 362, 364 e 365. Álbum IX p.362 art. 681 - Jornal do Brazil, 5 out. 1930 “O novo edificio da Escola Normal. Jornalistas cariocas percorrendo-no, hontem, demoradamente”. “O Dr. Fernando de Azevedo, director da Instrucção Publica e jornalistas presentes á visita ao novo edificio da Escola Normal”

do dia anunciado para a inauguração, 12 do mesmo mês 30 . No primeiro jornal, a legenda refere-se à fotografia como “bem interessante”. As impressões dos jornalistas com o prédio, conforme o esperado, foram de deslumbramento e aprovação, explicitadas nos artigos, apresentando-o como “O novo e grandioso edificio da Escola Normal” 31 . Outro aspecto a ser ressaltado foi a alusão à acusação de gastos excessivos com a obra, expressa no título de um dos artigos mencionados:

Uma visita da imprensa ao novo edificio da Escola Normal. O doutor Fernando de Azevedo tudo mostrou aos jornalistas”. 32 Ficava assim, claro, como queria o Diretor Geral de Instrução Pública, que ele não tinha nada a esconder da opinião pública. Nos registros fotográficos de Nicolas não há a sensação de pertencimento ao espaço retratado. Suas fotografias não visavam ao senso de realidade, o registro do real meramente; extrapolavam essa intenção ao acentuar o uso de recursos técnicos de expressão, como o enquadramento em perspectiva, o corte de detalhes, a valorização da luminosidade e de seu

contraste com a sombra nos elementos arquitetônicos, além da utilização de planos diferentes do frontal tradicional, como o plongê e o contraplongê.

A fotografia como instrumento mecânico, sem possibilidade de atingir o estatuto de

arte, como prova do real, configura a concepção do senso comum. Portanto, os efeitos

utilizados para enaltecer as obras arquitetônicas não eram percebidos e, assim, a sociedade recebia os registros como a verdade sobre os prédios. Esses recursos imprimem aos prédios uma monumentalidade que a vista real não consegue abranger ou criar.

O entorno do edifício não aparece nas fotografias de Nicolas. O seu foco era o elemento

arquitetônico, seus detalhes, sua estética e sua valoração como obra de arte. Isso nos remete a uma reflexão sobre a pretensa neutralidade da fotografia. O registro fotográfico nunca é neutro, pois está impregnado da visão que o fotógrafo pretende dirigir à percepção dos consumidores de uma determinada imagem. Conforme Carvalho e Wolff refletem, “a escolha precisa dos elementos a serem incluídos ou omitidos das fotografias de arquitetura, fossem elas do edifício isolado, do detalhes arquitetônico ou de conjuntos, relaciona-se diretamente com as intenções do

O recorte que a

imagem fotográfica pressupõe é, portanto, uma opção do fotógrafo, demonstrativa de sua

fotógrafo que pretendia guiar a percepção de quem visse a imagem. (

)

30 IEB – Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum IX p. 364 art. 683 - O Jornal, 5 out. 1930 “A visita da imprensa á nova Escola Normal” “Vista aérea do novo edificio da Escola Normal, a ser inaugurado a 12 do corrente” O Presidente Washington Luís foi deposto no dia 24 de outubro de 1930. 31 IEB - Arquivo Fernando de Azevedo, Álbum IX p. 359 art. 676 - O Globo, 4 out. 1930

capacidade de síntese e de criação. Sua fotografia é um juízo, um apelo, uma declaração a respeito da arquitetura.” 33 Os detalhes da obra, o paralelismo das colunatas e os contrastes são efeitos visuais novos que o tema arquitetônico sugere ao sistema fotográfico de representação. Assim, as fotografias de arquitetura também não são neutras, pois cumprem o papel de divulgar mensagens construídas por meio de ângulos privilegiados pela expressão do fotógrafo. Já no primeiro Boletim de Educação Pública, periódico especialmente criado para divulgar a Reforma, no qual há grande cuidado com as imagens, há referências à Escola Normal. A primeira imagem é justamente o desenho do projeto, e a segunda apresenta uma perspectiva de seu pátio central. O novo prédio da Escola Normal foi destinado, desde o projeto, a ser um exemplo de monumentalidade em arquitetura escolar, no estilo neocolonial. Seus três pavimentos eram ocupados pelas escolas Primária, Secundária e de Professores e suas respectivas administrações. O Jardim de Infância funcionava em pavilhão isolado. O semicírculo, que finalizava o edifício principal, era conhecido por rotunda. No térreo ficava a Escola Primária, com a sala de sua Diretora. Havia salas para os serviços médico e dentário e ginásio de esportes. Um pequeno átrio comunicava-se com o pátio interno, no qual situava-se a escadaria que levava aos demais pavimentos e os elevadores. Nos corredores laterais, localizavam-se as classes, de frente ao pátio, onde havia, no centro, um chafariz. Na rotunda, a sala da inspetoria, o auditório para canto orfeônico e os banheiros. O segundo e o terceiro pavimentos eram divididos entre as Escolas Secundária e de Professores. Nos corredores, as salas de aula. No terceiro andar a sala da Congregação que se projetava em balcão sobre a rua. 34 Todos esses aspectos foram registrados por Nicolas. O quarto Boletim de Educação Pública, publicado no final de 1930, outubro/novembro, foi inteiramente dedicado à Escola Normal. Todas as fotografias nele publicadas são imagens do novo prédio, à exceção de duas fotos, mesmo assim, ambas remetem à Escola Normal: a do antigo prédio, na Rua de São Christovam, e a da Escola Gonçalves Dias, Escola de Aplicação. Excluindo estas duas, e talvez outras duas fotografias, as demais são todas de autoria de Nicolas. As imagens revelam detalhes da arquitetura, enfocando sua função ao mesmo tempo em que exaltam, a partir de recursos como o contraplongê e o jogo de luz e sombra, a beleza da obra. Em ordem de

32 IEB – Arquivo Fernando de Azevedo. Álbum IX p. 360 art. 677 - Diario da Noite, 4 out. 1930

33 CARVALHO, M.C.W e WOLFF, S.F.S. Arquitetura e fotografia no século XIX . Op. cit. p.152.

34 Essa descrição do prédio foi resumida da apresentada por VIDAL, Diana Gonçalves. O exercício disciplinado do olhar. Op. Cit. p. 24-25.

publicação, há fotografias da fachada principal, da fachada lateral, dos fundos do prédio, do

edifício do Jardim da Infância, do pátio central, das galerias, da fonte ornamental, da tribuna

de honra, da escadaria que leva à tribuna de honra, das galerias do segundo e do terceiro

pavimentos, do vestíbulo, do anfiteatro de música e canto coral e do ginásio.

O mesmo ocorre com os textos, apenas um não se refere à Escola Normal. Todos os

textos são perpassados pela intenção de enaltecer a Escola, seus objetivos e a construção do

novo prédio. Abrindo a Seção de Fatos e Iniciativas, há um texto que descreve

pormenorizadamente o edifício, além de apresentar cálculos sobre o material utilizado.

A partir da construção de imagens utilizando-se do recurso fotográfico e do olhar de

Nicolas, Azevedo pretendeu produzir uma imagem positiva da Reforma que seria consolidada

e legada ao futuro, com a edificação de escolas-monumentos que atestariam, gravariam em

pedra a ação da Reforma por ele implementada. A grande realização do projeto foi a

construção do novo edifício da Escola Normal. Portanto, é possível inferir que existiu uma

clara relação entre os projetos das novas edificações escolares e os objetivos imprimidos à sua

representação fotográfica, encomendada com recomendações determinadas segundo uma

certa intencionalidade, principalmente no que se refere ao prédio da Escola Normal.

Bibliografia

BARROS, Armando Martins de. Educando o olhar: notas sobre o tratamento das imagens como fundamento na formação do educador. In SAMAIN, E. (org.) O fotográfico, Hucitec, São Paulo, 1998. CARVALHO, M.C.W. e WLOFF, S.F.S. Arquitetura e fotografia no século XIX. In:

FABRIS, Annateresa (org.). Fotografia: usos e funções no século XIX. Coleção Texto e Arte, vol. 3, Edusp, São Paulo, 1991. CERTEAU, Michel de. A invenção do Cotidiano: 2. Morar, Cozinhar. Trad. Ephraim F. Alves e Lúcia Endlich Orth, Vozes, Petrópolis, 1997. LEMME, Paschoal. Memórias 2: vida de família, formação profissional, opção política, São Paulo, Cortez e INEP, 1988. VIDAL, Diana Gonçalves. “Nacionalismo e tradição na prática discursiva de Fernando de Azevedo”, In Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo (37): 35-51, 1994. A fotografia como fonte para a historiografia educacional sobre o século XIX: uma primeira aproximação. In FARIA Filho, Luciano M. de.(org.) Educação, Modernidade e Civilização. Autêntica, Belo Horizonte, 1998. p. 73-89. O exercício disciplinado do olhar: livros, leituras e práticasw de formação docente no Instituto de Educação do Distrito Federal (1931 – 1937). Doutorado, FEUSP,

1995.

Fontes de Pesquisa

Álbuns de recortes de jornais, vol. I-IX, entre 1927-1930.

AZEVEDO, Fernando de. A nova política de edificações escolares. In: Boletim de Educação Pública. Publicação trimestral da Diretoria Geral de Instrução Pública do Distrito Federal. Rio de Janeiro, Gráfica Sauer. Ano I, no. 1, janeiro/março de 1930, p. 90 a 105. Boletim de Educação Pública. Publicação trimestral da Diretoria Geral de Instrução Pública do Distrito Federal. Rio de Janeiro, Gráfica Sauer. Ano I, no. 1, janeiro/março, no. 2 abril/junho, no 3 julho/setembro e no 4 outubro/dezembro de 1930. Acervo fotográfico do Arquivo Fernando de Azevedo – IEB/USP