A Verdade e as Formas Jurídicas (Michel Foucault

)

Composto por cinco conferências pronunciadas na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro entre 21 e 25 de maio de 1973, percebe-se neste livro a demonstração do vínculo entre os sistemas de verdade e as práticas sociais e políticas, a partir de suas intervenções e seus investimentos, onde se destaca a produção de verdade no Ocidente, a partir de uma hipótese ternária, em que ‘prova’ e ‘inquérito’ projetam-se nas ciências naturais e o ‘exame’ imbrica-se nas ciências humanas. Resultado de um amplo questionamento que gira em torno de como se puderam formar domínios de saber a partir de práticas sociais? O que acaba desnudando uma história do próprio sujeito de conhecimento, na relação entre sujeito e objeto, a própria verdade possui uma história. Para essa empresa realizar-se, destaca-se, primeiramente, que as ciências humanas, no século XIX, ‘saber do homem’ que se origina de práticas de controle e vigilância, ou seja, saber que criou um novo sujeito de conhecimento, ou seja, não se trata de pensar a partir de um sujeito (formas de conhecimento) dado previamente e definitivamente. Em seguida, ressalta-se um primeiro eixo que recobre os ‘domínios históricos de saber’ em relação com as práticas sociais, para poder excluir a concepção de um sujeito dado previamente; um segundo eixo como jogo estratégico, a ‘análise de discurso’, para considerar fatos de discurso numa trama estratégica (jogo de ação e reação, dominação e esquiva, de lutas) que reconhece, num nível, um conjunto regular de fatos lingüísticos, noutro, polêmico e estratégico; e, um terceiro eixo como reformulação da teoria do sujeito, ou seja, com o objetivo de constituir um sujeito no interior da história e em cada momento

na história do próprio saber e. Especificam-se. Segundo. foi no meado da Idade Média que o inquérito surgiu como forma de pesquisa da verdade no interior da ordem jurídica. XIX): 1] o Inquérito é uma forma característica da verdade praticada principalmente por filósofos. a psicologia. reprovando as análises sobre religião de Schopenhauer. com o objetivo de saber quem fez o quê [?]. cita-se Nietzsche. na medida mesmo em que. mas a sua origem remonta a certas práticas de controle político e social. descola-se para Idade Média. Deste modo. Nietzsche . o Ocidente elaborou complexas técnicas de inquérito que foram utilizadas. enfim. botânicos. por exemplo). criminologia. que põem o homem e a verdade em relações. mas sem jamais admitir a preexistência de um sujeito de conhecimento.refundado nela. compreende-se a possibilidade de uma história da constituição de um sujeito através de discursos tomados como conjunto estratégico de práticas sociais. Discorre-se uma trajetória nesse fragmento da história dos sistemas de pensamento. Para tanto. em que condições e em que momento. assim as práticas judiciárias tornou-se o modo pelo qual os homens puderam ser julgados. do inquérito: não resta dúvida que o que está em questão em Édipo é o saber e o não-saber (resolver o enigma da esfinge e consultar o oráculo de Delfos). sob um discurso que se faz uma análise histórica da própria formação do sujeito. onde há correção através de princípios de regulação. zoólogos e economistas. a psicopatologia. tanto na ordem filosófica quanto na ordem científica. sobre as reflexões metodológicas. Terceiro. torna-se um ponto marcante. A forma judiciária é vista sob o modo em que a sociedade pôde definir tipos de subjetividade ou formas de saber. em geral. mas também por geógrafos. em especial. como um dos meios de estabilização da sociedade capitalista. Destacam-se duas formas de verdades. não dado definitivamente. a psicanálise. o direito do povo (destituição da realeza) e a prova como demonstração do inquérito (a perda do poder para Creonte é a prova derradeira de que Édipo não era rei). Primeiramente. desde o episódio curioso de Édipo. 2] o exame compreende formas de análises que originaram a sociologia. mais tarde. XV-XVIII) e o exame (séc. dentre as quais. o inquérito (séc. quando a concepção da ‘prova’ está intimamente ligada à efetuação do ‘inquérito’. externa – a verdade se forma em vários lugares onde regras estratégicas são definidas. Em quarto lugar. destacam-se as práticas jurídicas. o exame relacionado à formação social do século XIX. que resume a história do direito grego entre a testemunha (Políbio. entretanto duas histórias da verdade: interna – história da verdade por meio da história das ciências. Com efeito.

condenou-lhe por cometer o erro de procurar a origem [Ursprung] da religião num sentimento metafísico que estaria presente em todos os homens. . Invenção [Erfindung]. resta a invenção [Erfindung]. animais inteligentes inventaram o conhecimento. a ruptura entre o conhecimento e as coisas a ser conhecidas. por trás de um campo de forças. por relações de poder e dominação. Afinal. e a ruptura do conhecimento e dos instintos. no modo em que nas coisas e nos homens entre si (a partir das lutas que procuram dominar uns aos outros) é que nós podemos compreender o conhecimento. uma ruptura e um pequeno ponto de pequeno começo. Somente nas relações de poder. Nietzsche afirmava que. deplorar e detestar revela que são os instintos que nos colocam em posição de ódio e de desprezo ao objeto ou coisas ameaçadoras a ser conhecidas. em um determinado lugar e em um determinado ponto do tempo. portanto. que para Nietzsche restabelece o conhecimento. Enfim. percebem-se duas rupturas de Nietzsche. isto. como algo que foi inventado. rir. não tem origem.

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