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Desejos Mundanos São Iluminação

Assim como foi mostrado pela história dos Quatro Encontros, o motivo pelo qual Sakyamuni renunciou ao mundo foi sua busca da solução fundamental para os problemas do sofrimento humano. Este é o assunto principal dos ensinos que ele expôs após ter atingido a iluminação.

Os sutras budistas enfatizam que a vida é cheia de sofrimentos e que estes são causados pelos desejos mundanos. As pessoas tendem constantemente a pensar que seus sofrimentos são causados por fatores do mundo exterior; porém, o budismo considera que a causa básica de tais sofrimentos encontra-se nos desejos seculares inerentes à vida da pessoa. Portanto, a questão mais importante no budismo é “o que fazer com esses desejos”.

O Budismo Hinayana ensina que a pessoa deve enfrentar e livrar-se de todos os desejos e que este é o único caminho para se atingir a iluminação. Os seguidores desta escola formularam uma variedade de métodos para erradicar os desejos seculares. O corpo era considerado como a origem dos desejos e, portanto, eram ensinadas austeridades para controlar e subjugar o corpo. Além dessas práticas, surgiram literalmente centenas de preceitos e regulamentos.

É inegável que os desejos dão origem ao sofrimento, porém seria muito simplista rejeitá-los como se fossem a própria maldade. À medida que vivemos, somos obrigados a ter desejos; eles são necessários para manter a vida. Os desejos instintivos de alimento, sono e sexo são desejos seculares. Sem desejos, a pessoa morre.

Indo um pouco mais além, podemos dizer que o desejo é a força motriz da civilização. Tomemos por exemplo a “ganância”. A fome de conhecimento abre novos campos de pesquisa, e a fome, traduzida ao pé da letra como a necessidade de alimentos, contribuiu para o progresso agrícola industrial. A “ira”, quando dirigida contra a maldade, tem motivado o estabelecimento de leis e a prática da ordem social. A “ira” diante da doença tem estimulado o avanço da ciência médica. A “arrogância” tem o aspecto positivo na forma de orgulho na profissão das pessoas, e a “dúvida”, na forma de ceticismo saudável. A “estupidez”, as “visões falsas” e todos os outros desejos mundanos poderão também ter funções úteis.

De qualquer maneira, o desejo tem desempenhado um papel crucial no desenvolvimento da civilização humana. Em virtude de as pessoas terem desejos, elas podem sobreviver; então, os desejos são, por assim dizer, a afirmação de sua existência. Entretanto, o Hinayana reconheceu somente os aspectos negativos dos desejos e tentou extirpá-los totalmente. A conclusão inevitável desses ensinos foi a destruição do corpo e a aniquilação da consciência, conforme apontados pelos adeptos do Mahayana.

Os seguidores do Mahayana consideravam os desejos seculares de uma maneira diferente. Algumas escolas foram ao extremo oposto, aceitando todos os desejos exatamente como eles são. Esta era uma visão comum para as seitas japonesas, Shingon e Tendai durante seu período de declínio. A seita Tendai inicialmente considerava que todos os mortais comuns tinham o potencial para se tornar buda, porém sua doutrina se degenerou quase a ponto de afirmar que os mortais comuns, tais como são, são budas, e seus desejos, como tais, são iluminados. Os adeptos sustentavam que, uma vez que os desejos são originalmente inerentes à vida, não havia razão para desafiá-los nem confrontá-los. Foram até mesmo estabelecidos rituais de orações a fim de obter

riquezas ou satisfação dos desejos sexuais. Esta visão do desejo enfatizou somente o ponto de que eles são inerentes à vida e perdeu-se de vista a premissa original do budismo de que os desejos mundanos são a causa da infelicidade.

Outros ensinos mahayanas afirmavam que os desejos seculares eram a maldade, porém os consideravam próprios do mundo humano e não eram encontrados na terra do Buda. Esses ensinos definiam o mundo como uma terra impura, corrompida pelos desejos seculares, e induziam seus seguidores a aspirar à terra purado Buda. Este conceito também evitava o confronto com os problemas dos desejos. Ensinar as pessoas a aspirar a um mundo transcendental, fora da realidade secular, não só deixa de solucionar os problemas do desejo como também tende a enfraquecer a sociedade, dirigindo sua atenção para longe dos problemas sociais e demais assuntos relacionados.

Em contraste, o Sutra de Lótus apresenta a concepção de que os “Desejos Mundanos são Iluminação” (Bonno Sokll Bodaii), ou, em outras palavras, que os desejos terrestres e a iluminação são inseparáveis. O Sutra Fuguen, que é o epílogo do Sutra de Lótus, afirma: “Mesmo que não se eliminem os desejos mundanos ou que se neguem os cinco desejos (desejos que se originam dos cinco sentidos), eles poderão purificar todos os seus sentidos e erradicar todas as suas más ações.” A seita Tendai manteve, inicialmente, o ensino de que os desejos mundanos são inseparáveis da iluminação, porém, conforme já mencionamos, mais tarde ela se degenerou, passando a idéia de que não existe diferença entre os desejos e a iluminação. A palavra “são” (soku) na frase “desejos mundanos são iluminação”, não significa que os desejos mundanos em si sejam iluminação. Desejos mundanos são desejos seculares, ilusões. É um erro pensar que os desejos, tal como são, sejam iluminação, e é também errado pensar que os desejos são a própria maldade e que devem ser eliminados. Esses dois extremos são superados pelo principio do Sutra de Lótus.

Como o Sutra Fuguen afirma, “Mesmo que não se elimine os desejos mundanos ou que se

a pessoa não precisa se livrar deles. Sem eliminar os desejos mundanos,

pode-se atingir a iluminação. Isto é o que está indicado no princípio de que os desejos mundanos são inseparáveis da iluminação. Este princípio é ilustrado pela metáfora da flor de lótus. A flor de lótus desenvolve-se no pântano. Sem lama, não há lótus. A água lamacenta é necessária para sustentar a vida do lótus, porém, o lótus não é a própria água lamacenta. O “Registro dos Ensinos Orais” diz:

“Agora, Nitiren e seus seguidores recitam o Nam-myoho-rengue-kyo

queimam a madeira dos

negue os cinco desejos

”,

desejos mundanos e revelam a chama da sabedoria iluminada.” Por existirem os desejos mundanos, a iluminação pode ser atingida, conforme está indicado de forma muito simples na citação acima.

Nossa vida está cheia de desejos seculares. Entretanto, mesmo sem eliminá-los podemos purificá-la e atingir a iluminação. Desejos mundanos indicam ilusão. Iluminação indica discernimento claro ou o despertar para a verdade. Assim que nossa condição básica da vida se eleva, o que tinha funções de desejos seculares começa a ter suas funções iluminadas e o que formava os sofrimentos passa a gerar alegria. O que toma isto possível é o poder do Nam-myoho-rengue-kyo, conforme revelado no Budismo de Nitiren Daishonin. Quando fazemos emergir a natureza de Buda em nossa vida com a prática ao Gohonzon, nossos desejos são naturalmente direcionados para a felicidade, quebrando assim o ciclo dos desejos mundanos-carma-sofrimentos e tomando possível a transformação de nosso destino.