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@ 1996 Polity Press

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Título origino I em inglês: In Defence of Sacio/agy. Essoys, tnterpretatio~s
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& Rejoinders

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2000 do tradução brasileiro: Editom do UNESP (rEU)

Fundação

Praço da Sê, 108 01001-900 - São Paulo - SP Tel., (0)0<11) 3242-71 li fo" (0,,11)3242-7172
Horne poge:
WVNl.

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no Publicação (eIP)

Sumário

ediloro.unesp.br

E-moil: feu@editora.unesp.br

Dados Internacionais de Catalogcção
(Câmara Brosileira do livro, SP,Brasil) Giddens, Anlhony

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Fontes e agradecimentos Prefácio 9 11 pós-tradicional 97 21 7

Em defeso da sociologia. Ensaios, interpretações e tréph
cos / Anthony Giddens; tradução Roneide Venoncio Majer, Klauss Brandini Gerhordt. - São Paulo: Eqitoro UHESp' 2001. Título original: In Defence of Socio\cgy. Essoys,Interpretotions & Rejoinders. ISBN RS-7139-363-X 1. Sociologia 01-2942 I. Título. CDD-301

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I Em defesa da sociologia 2 A vida em uma sociedade 3 O que é ciência social? 4 Fu-ncionalismo: 5 A "britanidade"

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1

apres la lutte

115
161

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e ?_sciências sociais 173 do pensamento 217

índice poro caiálogo sistemático: 1. Sociologia 301

6 O futuro da antropologia 7 Quatro mitos na história

social

181

8 Auguste Comte e o positivismo
Editoro afiliado:

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9 O problema

do suicídio na sociologia francesa

229

10 Razão sem revolução?:

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Teoria da ação comunicativa, de Habermas 245
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!l~~so ortodoxo". Prefiro o termo "naturalismo" a "positivismo". A segunda característica do modelo ortodoxo é a idéia de que quando explicamos a atividade humana. porêm.o que 3 é ciência social? Podemos distinguir três principais características da ciência social mais difundida.'lcias sociais. Essas visões têm sido predominantes na sociologia durante boa parte do período pós-guerra. embora lhes possa ser atribuído praticamente o mesmo significado. A primeira delas é o naturalismo. "canônica". deveríamos fazê-lo no âmbito de algum tipo de concepção de causação social. Ou seja: embora como agentes humanos possa parecer que saibamos o 97 I i ~ I . creio ser verdadeiro afirmar que também se estenderam em um amplo espectro de outras ciê. . a noção de que as ciências súciais deveriam se desenv::>lver nos moldes das ciências naturais e de que a estrutura lógica da ciência social aborda problemas semelhantes aos encontradcs na ciência natural. Ou o que por vezes chamei de "c9.

Aqueles que atualmentó defenderiam este ponto de vista representam apena. porquanto os cientistas sociais trabalham com sistemas. A visão do "eu disse" observa a seguinte lógica: "Sou um pesquisador empírico. diversas formas de interacionismo simhólico e de neoweberianismo.a negativa .] proiago. Vejo que os teóricos sociais não conseguem chegar a um acordo entre si.)'.~. De fato. nistas ignoram. Embora não sem alguma relutância. Há dois tipos de reação a esse quadro. Não sabemos ITlaisexatamente onde nos posicionarmos em relação à t"manha variedade de perspectivas. ---- . rr:odificadas com o advento da cibernética foram consideradas fundamentais por muitos sociólogos para fins de análise social. em vez de "paradigmas". o cientista social tem a capacidade de demonstrar que. já constitup. na atualidade. Embora de modo geral tenha sido sustentada a tese de que as ciências sociais deveriam assemelhar-se às ciências naturais. Um terceiro elemento (sobre o qual não me estenderei na presente discussão) associado ao modelo é ofuncionalismo. muitas vezes. ele passou a reconhecer grande variedade de perspectivas sociológicas concorrentes entre si. As visões de Merton elaboradas em épocas posteriores são substancialmente diferentes.ia social. já se tornou minoria (certamente na área de te". A outra forma de reaçâo . na verdade.que ele chamou (antes de Kuhn) de um paradigma para a sociologia.Anthony Giddens Em defesa da sociologia bastante sobre o que estamos fazendo e o porquê dt agirmos da forma como agimos. pois quando Kuhn apresentou a no.m maioria os que aceitam a idéia de que as ciências sociais não podem ser muito parecidas com a física cl. ampliaram-se a pOnto de sair de seu enfoque original. O papel das ciênci. desinteresse. na realidade.:r '»:- Robert K.tais como a ernometodologia. somos movidos por causas de que não temos a menor consciência. Não conseguem nem mesmo concordar sobre as definições mais elementares do campo das ciências sociais.~ . ou o "Eu disse que isso ia acontecer". a fenomenologia.ão de paradigma na filosofia da ciência. Isso atesta a inaplicabi99 .. a lista parece quase interminável. porém. Esse modo de reação pode ser identificado mesmo entre os mais ardorosos defensores do consenso ortodoxo. o estruturalismo. tratando-as como desejáveis.as sociai~seria o de revelar formas de causações sociais que os atOres. A filosofia de Kuhn e a definição do termo "paradigma".surge com maior freqüência por parte daqueles que atuam nas áreas mais empiricas das ciências sociais. Trata-se da reação de desdém. Em seu lugar encontra-se uma multiplicidade de diferentes perspectivas teóricas .Gientistassociaisem relaçãõ àqueles WIficados nas ciências naturais. Se há uma pluralidade de perspectivas teóricas. a hermenêutica e a critica social-. Merton foi uma das principais figuras que se propuseram a codificar o CO.1sensoortodoxo . e sistemas parecem mais com conjuntos biológicos inteiros do que com fenômenos que interessam aos fisicos.. . O autor identificou diferenças nos vários pontos de discordãncia entre os. Merton foi o primeiro autor a utilizar o termo "paradigma" tal como empregado atualmente. sob o aspecto positivo. empregou o termo fazendo referência às 98 ciências naturais.__ . que sejam bem-vindas. em que existem perspectivas coordenativas que dominam o núcleo profissional dos campos cientificos.\ssica. Essa situação é inquietante. Segundo Feyerabend. As noções de sistemas supostamente derivadas da biologia e._-. Uma multiplicidade de teorias seria uma situação mais desejável do que o dogmatismo originário do predominio de uma tradição teórica específica. Outros abraçaram a causa do ?luralismo com entusiasmo. buscando justificativas com base no trabalho de Feyerabend no campo da filosofia da ciência. uma entre lima gama diversificada de perspectivas. Falo de "perspectivas" ou "tradições". A primeira é aceitá-lo cem simpatia. talvez nem tamo na pesquisa social empirica).Costumava ser uma postura assumida pela maioria na área de ciências sociais. também >laciência deveria haver uma pluralidade em vez de um único ordenamento de perspectivas. O consenso ortodoxo de hoje não pode mais ser chamado de consens~.

Os cientistas sociais acreditaram estar tentando reproduzir os tipos de descobertas que as ciências naturais afirmavam ter dcançado. A segunda visão ê questionável. Contudo. e}. portanto. e em essênéia. Algumas teorias são melhores que as outras. que os debates teóricos lhes são. tal como claramente demonstrado na filosofia da ciência póskuhniana. A meu ver. envolve sistemas interpretarivos de sigrâficado. consiste ~m esforços hermenêuticas ou interpretativos. veria .' I 101 . Acredito que haja algo que se possa contestar. em relação ao que deve ser um ser humano. pois ê fácil demonstrar que os debates teóricos realmente fazem diferença na pesquisa empírica. Wright Mills chamou de "empirismo desprovido de reflexão" leva a trabalhos muito pouco desafiadores e não cumulativos. e algumas perspectivas rendem mais frutos que outras. 100 a. nenhuma das posições anteriormente descritas pode realmente ser justificada.ue nascemàos debates realizados. As duas não podem ser fundidas por completo. de fato.f'lostradicionais da ciência natural. ciência natural.Ieistêm de ser interpretadas. A ciência natu- ral. O modo de documentar o movimento no sentido da síntese consiste em identificar o que há de errado com o consenso ortodoxo e. será mais pela primeira do que pela segunda. Sem dúvida. inaplicáveis. da mesma forma 'lue os teóricos devem estar atentos às questões aventadas pela pesquisa empírica."istem leis nas áreas de ciências naturais. Existe alguma coisa elementarmente complexa no ato de explicar a emisso não nos leva . especificar os p:incipais elementos do acordo que daí advier. t!Ondo como a mais elevada aspiração da ciência a criação de sistemas de leis de natureza dedutiva. Não creio que se possa atribuir a isso a criação de uma nova ortodoxia. Esta segunda reação. A primeira apresenta falhas porque descarta a possibilidade da existêncie. não acredito que seja este o caso. A ci~!lçiilsodal canônica. de critêrios racionais de avaliação de teorias.>. e isso deve ocorrer no ãmbito de sistemas teóricos.vista filosófic>o O modelo de ciência natural emprcgad0 E-elo consenso ortodoxo era essencialmente empirista. contudo o modelo de ciência natural tal c()mo imaginado por esses cientistas sociais apresentava falhas sQb~Ronro de . mais aparente do que real. De minha parte. contudo 11 quais seriam as implicações para efeito de análise empírica. A ciência natural. para os que desenvolvem trabalhos empiricos. q'Je tende a nos envolver em controvérsias a natureza de sua aç. portanto. confirma. A r:nelhorforma de pesquisa empirica ê uma pesquisa empírica com fundamento teórico. então.An!hony Giddens Em defesa da sociologia sobre lidade da teoria social para efeito da análise empirica. o consenso ortodoxo. em primeiro lugar envolVEUum 'modelo errôneo de conceituação da . e a natureza da ciência encoo- tr~-se envolvida na criação de grades teóricas. e os cientistas sociais. Entretanto. Uma primazia indevida foi dada à descoº"na de leis como elementos constitutivos da "ciência" nos moà. aceitaram essa condição. Certamente conhecemos os méritos e as limitações dessas perspectivas antagônicas e temos noção das principais linhas de desenvolvimento c. O que C. Caso tenha alguma empatia por qualquer das visões antagônicas que acabo de descrever. isto é. Na teoria social da atualidade. sob determinados aspectos. Com efeito.à ratificação incondicional do pluralismo teórico. o enquadramento do significado demonstra-se mais importante do que a descoberta de leis.io. todos os pesquisadores empiricos devem manterse sensiveis aos debates teóricos.nem de- presa humana. não resta dúvida de que existem indicias de uma síntese renovada acerca do que compreendem as ciências sociais. ingenuamente. Posso cuidar dos meus trabalhos empiricos e deixar os teóricos brigando por suas perspectivas divergentes". quais são seus componentes teáricos. A polifonia de vozes com que deparamos hoje é. Há uma relativa autonomia entre teoria e pesquisa. não se consegue encontrar um único filósofo da ciência renomado que ainda acredite na concepção de ciência natural a que muitos cientistas sociais aspiraram. Entretanto.

por. Abra um desses livros e provavelmente ainda irá encontrar. surge como uma preocupação empírica na etnometodologia e se encontra documentada naobra de Goffman.éJ!l o cientista social pode nos demonstrar que. Todos os agentes humanos dispõem de bastante conhecimento acerca das condições de sua atividade. Trata-se simplesmente de uma falsa visão da maioria das formas de explicação no campo das ciências naturais e. a idéia de que a "explicação" é a dedução de um evento oriundo __ ~-de-l. encontraríamos grande dificuldade em fazê-lo. e tal conhecimemo não está condicionado ao que fazem. muitas vezes. a empresa humana deve ser explicada em termos de causação social. de um rr_odeloinútil para ser adotado nas ciéncias sociais.entc.e devemos saber . dicas contextuais. concebidas erroneamente: partiu-se da premissa de que aconsciência discursiva . táticas de uso da linguagem.'.iffldIdou dê \ím sistema deleTS. Contudo. Nossa capacidade de conhecimento é sempre delimitada. falar e entender um idioma como o inglês. como se derivasse diretamente de iorças sociais. Ou seja: as ciências sooais devem concentrar sua atenção em fenômenos que. O conceito refere-se a todas as coisas conhecidas por nós como atores sociais e que. Para o consenso ortodoxo. porém. Como atores sociais leigos. a recuperação da noção do ag-. Por "consciência prática" entendo uma noção que vem s~ndo "descoberta" em diversas tradições de pensamento. somos conduzidos por influências das quais não temos consciência.como falantes de uma língua para que ela simplesmente possa existir.a exposição discursiva de motivos e análises _ teria esgotado a capacidade de conhecimento dos age. devemos conhecer para fazer que a vida social aconteça.ntes humanos. por mais de um motivo. todos sabem muito mais sobre as razões pelas quais tomam este ou aquele curso de ação do que efetivamente as expressam de modo discursivo.I o último Anlhony Giddens Em defeso do sociologia reduto do consenso ortodoxo enconrca-se nos livros metodológicos das ciências 30ciais. Tal recuperação deve basear'sénâ iâéiaaecOr.]cional. A consciência prática demonstrase fundamental no que concerne às 'armas com que tornamos o mundo social previsível. A previsibilidade do mundo social não 103 '-- . também tendemos a negligenciar. ~ dade de estudar tais limites (restrições estruturais). Foi iaentificada por Wittgenstein na filosofia. envolve o conhecimento de um conjunto altamente complexo de regras sintáticas. logo nas primeiras páginas. Por exemplo. e ainda existe a necessi..ohá nenhuma contradição em afirmarmos que oJlngüista estuda "o que já sabemos". mas que. em nossa vida cotidiana. Poderíamos apenas falar de forma muito supertlcial sobre o que realmente sabemos .-~tehumano conhecedor revela-se fundamental para a reformulação da resposta sobre o objeto das _~ciências sociais. Assim. e assim por diante. de fato. Encontra-se delimitada institucionalrP. reconhecemos como características básicas da ação humana. No entanto. e de que estamos cientes das razões que nos levam a praticá-las. podemos pensar que sabemos o que estamos fazendo ao reali:zar nossas ações. cia prática.Séiêr. 102 J. A segunda limitação do consenso ortodoxo resiáia no fato de que a ciência social canónica implicava uma falsa interpretação da empresa humana. como cientistas sociais. Eis a razão pela qual as indagações propostas pelos cientistas ortodoxos e as respectivas respostas foram. mas pode ser entendido como elemento constitutivo dessas ações.cujàs rejaç6es aprese~ta. O que temos de fazer na teoria social é recuperar a nação do agente humano conhecedor. O que a ciência social ortodoxa fez foi trdrar-nos como se nosso comportamento fosse resultado de causação estrutural ou limitação estrutural. Precisamos saber tudo isso para poder falar inglês. na realidade. com correção gramatical. o investigador passaria ao estudo de causas estruturais. se alguém nos solicitasse uma análise discursiva dessas coisas que sabemos. conforme já mencionado."~--~ elevado grau de complexidade. Ni\. mas às quais nem sempre conseguimos dar urr a forma discursiva. Os cientistas sociais se esquecem de que a maior parte de nossas ações como seres humanos é inte.

Um dos papéis desempenhados por socióiogos e antropólogos é o de documentar as diferenças entre culturas.eu comportamento como motoristas e viessem com a descoberta de que. Pod~r-se-ia supor que neste caso existe uma "lei". eles param no sinal de trânsito. Mais tarde. fornecem as razões para o que fazem.ntencioIlais generalizadas. se assim se preferir. há dois tipos de generalização.~i j~! . Contudo. Uma terceira deficiência verificada na concepção tradicional da ciência social foi a idéia de que é possivel descobrir as leis da vida social. todos sabemos que o que faz os carros pararem no sinal é o conhecimento. Ao sairem da escola. Seria bastante desinteressante à maior parte dos atores leigos das sociedades modernas se os cientistas sociais estudassem .tencionais. e assim o ciclo se repete. cada um desses tipos difere das leis da ciência natural. Entretamo.e convenções por parte dos atores sociais. essas pessoas possuem baixa qualificação. e. sua revelação deve ser uma das principais ambições do trabalho sociocientifico. pode imaginar que exista algum tipo de raio entre os sinais Com o poder de parar os carros.'Quando o sinal está vermelho. sabemos o que estamos fazendo e por quê. Tomemos o exemplo. os motoristas já sabem que param no sinal. o raio de alcance de nossas ações escapa a todo momento às intenções e finalidades que as induziram. das normas de conduta no trânsito e que tais normas e convenções de comportamento A segunda noçâo de "lei" está bem mais próxima da visão de generãlizações estabelecida no consenso ortodoxo. obviamente.porque é algo que fazem no uso das convenções por eles aplicadas. de carros que param no sinal de trãnsito. exceto quando fazem pane de um processo de reconstituiçâo antropológica. conseguem empregos com remuneração relativament'e baixa e moram em áreas de baixa renda. Generalizações desse tipo são absolutamente banais. seria de fato uma iei ao estilo naturalista. Claro. Isso diz respeito às conseqüências não-intencionais da ação humana. Todavia. lILeis". portanto. quando fica verde. Tomemos Como exemplo a existência de um "ciclo de pobreza". também criam condições para que os agentes pratiquem suas ações na sociedade. conformê destacado com muita propriedade por Max Weber. as generalizações do tipo dois jamais podem formar um paralelo p~rfeito com as leis pertinentes às ciências naturais 105 . No campo das ciên- cias sociais. Podem ser chamados de "leis". podem ser compreendidas como uma forma que se aproxima de generalizações semelhantes a leis na ciência natural.!. neste contexto. Se isso fosse verdade.que todos. As escolas de áreas menos favorecidas dispõem de instalações precárias. os alunos não são motivados quanto à importância dos valores acadêmicos. 104 . estabelecendo-se uma analogia mais ou menos direta com as leis existentes nas ciências naturais. na maioria das vezes. embora todos sejamos atores Í!'. apresentado pelo filósofo Peter Winch. Se você vem de uma cultura diferente e jamais viu automóveis antes. Chamarei as leis dessa categoria de le~_do liRa 9-º!S. por pane dos motoristas. " CI2ro que as generaiizações do tipo dois de fato existem nas ciências sociais..c!apelas práticas organizadas com o conhecimento dos agentes humanos.. bem como o motivo disso . bem como entre convenções. avaliar até que pOnto a previsibilidade em diferentes ambientes culturais está condicionad. de algum modo. os professores enfrentam problemas disciplinares em sala de aula. O tipo de generalização que interessava à ciência social raturalista depende da premissa de conseqüências não-:. AS generalizaçi5es do / . A bem da verdade.Anthony Giddens Fm defesa da sociologia :j "acontece" simplesmente da mesma maneira que a previsibilidade do mundo natural.:"são as que dependem da observação consciente de regras. Porém. seus filhos freqüentam escolas nas mesmas áreas.\ ~l"'. ~ger":. É verdade que todos nós agimos demonstrando conhecimento durante todo o tempo . o tráfego segue o seu curso..~a graus distintos de consciência das convenções. os carros param. Os proponentes do consenso ortodoxo preocupavam-se com fatores sociais gerados por conseqüências intencionais _ que.

. Aciênc@. sendo claramente distintas da crítica de uma falsa crença.1s sociais dependem do entendimento. contudo as conseqüências do qU( fazem tipicamente fogem às suas pretensões. A lingüística diz-nos o que já sabemos..s. o consenso ortodoxo sustentou uma visão ptimitiva da natureza da "iluminação" que as ciências sociais podem proporcionar aos leigos. As ciências sociais. presumia-se.e deve saber _ pa. 107 __ o • ~ _ . termos das alterações na capacidade de conhecimento elos agentes hl' m.. Nas situações em que o comportamento se manifesta normalmente em 106 decorrência do uso consciente da convenção. existe um sentido lógico segundo o qual tal comportamento não pode estar baseado em crenças falsas. mas de uma maneira discursiva bastante distinta dos modos normais em que se expressam tais conhecimentos. A lingüística estuda o que o usuário da linguagem sabe . produzem o Iluminismo ao nos mostrar que muitas de nossas crenças preestabelecida~ sobre o mundo eram falsas. Por outro lado.<lciais empre sabem o que estão fazendo (de acordo com alguma s descrição ou potencial descrição). Anthony Giddens Em defeso do sociologia porque as relações causais que pressupõem dependem de conseqüências não-intencionais da ação proposital.. partir de atividades sociais. devemos acrescentar as influências das conseqüências não-intencionais. Lógico. dentro de circunstâncias históricas especificas... e a reprodução social gerada de forma não-intencional. podem demonstrar . A essas formas potenciais de elucidação. Ervins Goffman deixou bem claro o quão complicados e sutis são os componentes constitutivos do conhecimento mútuo. o que as pessoas fazem cor. sobre as generalizações do tipo dois.a ter condições de falar o idioma em questão.1conhecimento à luz da convenção sofre transformações ao longo do tempo. Em conseqüência de suas limitações lógicas. O modelo em que se fundou a perspectiva tradicional derivava. Todas as ciênci.tnos. à luz da convenção. Tais informações só serão novidade para os que não pertencem ao meio cultural em que a ação observada acontece. As ciências naturais. todas as generalizações desse tipo são mutáveis no. ráveis por meio da análise histórica. não é de surpreender que uma nova descrição pelo cientista social das ações praticadas por essas pessoas seja desinteressante. o paralelo com a lingüística é bem próximo. exercendo influência. O termo "conhecimento mútuo" abrange uma série de técnicas práticas de apreender significados 2. de uma comparação bastante direta com a ciência natural. Tod03 nós vivemos em culturas específicas distintas de outras culturas distribuídas em todo o mundo e de outras recupe..tre generaÚzações ~j~ tip'.(. da relação existente entre as atividades realizadas conscientemente. mas também o quanto são administrados com base em rotinas. mais uma vez. As pessoas precisam saber não só O que estão fazendo mas também a porquê de o estarern fazehdó:"pai-ã que normalidades dessa natureza ocorram.. seja ele qual for. As suposições contrárias a essa afirmação constituíram o principal erro daqueles que acred:taram que as generalizações do tipo um esgotam as possíveis contribuições das ciências sociais à compreensão do comportamento humano. Há um~relaçãointrT~e. O Iluminismo nas ciências sociais pode ser equiparado à crítica de crenças falsas. Essa visão é completamente (rrônea ao considerarmos as diferenças entre as generalizações d0s tipos um e dois. atribuir uma forma discursiva aaspectos de conhecimento mútuo que os atores sociais leigos empregam de forma não discursiva em sua conduta. Praticamente. ()s atores s. Assim.~ gras e convenções de comportamento) e as do üpo dois (que dependem de conseqüências não-intencionais). Talvezmais do que qualquer autor. além disso. Em um determinado contexto de ação. a maior parte do que sabemos para falar uma língua não é conhecida de forma discursiva. os trabalhos etnográficos da ciência social são importantes. Ne entanto.oc:ialnão pode ser puramente'~interpretativa".isto é. assim. Encontramos aqui um conjunto interessante de problemas e impasses. Aqui.~. a perspectiva naturalista incorreu em erro ao presumir que é possível explicar o comportamento humano de modo abrangente por meio da identificação de leis do tipo dois.

'.~in!~n. tem de ser dissecada com cuidado e apresenta variações de acordo com o momento histórico. por si só. . É no desvio das instituições sociais em relação aos propósitos dos atores individuais que.r~. I além dos contextos específicos de interação nos quais os indivilismo e naturalismo tem Jma aplicação específica.) Em parte. a menos qt:e sejamos claros acerca da natureza do que é intencional.r ç~es sociais não decorrem de áçõ~s intencionais d~ seus parti~ipantes. 109 . como resultado de um exame crítico renovado do funcionalismo. Contudo. segundo Onaturalismo. (Para discussão mais detalhada. muitas ve. ver Capítulo 4. _. não fornece explicação pare.0 ~ ~ ~ ~~ ~ '. outra.es. de modo geral..o propriedades "de simulação" pOstuladas de modo contrafactual.Anfhony Giddens Em defesa do sociologia A irrefutabilidade de versões naturalistas da ciência social depende justamente da observação de que não há intenção deliberada dos participantes envolvidos na ocorrência de muitos dos eventos e processos da vida social. I cional dos processos sociais sustenta a visão de que a vida social gerida por influências ignoradas pelos atores sociais. cias não-intencionais da ação conduzir-nos-ia a assinalar a impor- tãncia de uma abordagem mui to be!:"elaborada da natureza proposital da conduta humana. . bastante distintas das razões que os atores <. Parece perfeitamente apropriado e. Otipo de pergunta que tradicionalmente preocupa os cientistas sociais naturalisttls diz respeito:'à? condiç6es:da~reprodução social. O que não é intencional não pode nem mesmo ser caracterizado. os agentes individuais são levados a agir por "causas sociais" que de algum modo determinam o curso de suas ações.s apresentam características que vão Nesse sentido. Há muitos tipos diferentes de questionamento que aludem ao papel das conseqüências não-intencionais da ação humana.:.ucional não pode fazer referência a necessidades sociais.1 A penetrabilidade das conseqüências não-intencionais é sinal de que devemos continuar a defender a versão da ciência social propagada pelo "cãnone sociológico" contra concepções mai" "interpretativas". Em outras palavras. a conexão entre fun'ciona.. E isso. No emanto.essas condições._. Longe de reiterar tal conclusão. eu diria.'i . devem ser identificadas as tarefas cjas ciências sociais. necessário indagar quais são as condições indispen- p. Por exemplo. um fenômeno associado ao Surgimento da sociedade moderna e à formação de organizações modernas. tal investigação pressupõe a análise dos mecanismos de reprodução social e. l. Em outras palavras. Isso porque o pOnto de explicação funcional tem sido normalmente o de demonstrar que há "razões" para a existência e continuidade das instituições sociais. Assim. como resultado. Tuda reprodução social em larga escala ocorre de acordo com con-: dições de "intencionalidade'mista". entretanto. sem dúvida. também presume uma análise dos motivos dos agentes. O monitoram~nto das condições para a reprodução de sistemas retlete. sociai. o. exceto co. não há como dedicar o devido tratamento a esta questão de acordo com os termos da ciência social \ naturalista. fica aparente que uma análise dos processos de reprodução instir. Essa mistura. sávei~ à permanência de um determinado conjunto de instituições sociais durante um período de tempo específico. eles têm procurado demonstrar que as instituições duas estão envolvidos. Há uma série de circunstãncias que afastam condições "altamente monitoradas" de reprodução de' sistemas daquelas que envolvem uma retroalimentação lfeedback) das conseqüências nãointencionais. uma coisa é argumentar que alguns aspectos da vida ou institui. bastante diferente. i . podemos nos interessar em indagar por que um determinado evento ocorreu. ~.' I 1'"r1 '. Todavia. um historiador poderia levantar a questão: por que a Primeira Guerra Mundial eclodiu em um momento em que nenhuma das principais partes envolvidas agiu intencionalmente para produzir tal resultado? 108 ~. Entretanto. a perpetuação de instituições sociais envolve um tipo de mistura entre resultados intencionais e não-intencionais das ações praticadas. a despeito do fato de ninguém ter tido a intenção de que ocorresse. cará~~. um exame das conseqüên- sociais possam ter para quaisquer atos que pratiquem.i~!og9? natur?-listas. é partir da premissa de que. P~~aos so<..~().

As ciências sociais corrigiriam 'as falsas crenças dos agentes a respeito da atividade social ou instituiçõe3 sociais. vi"to que . A ciência social canónica demonstrou a tendência de ti abalhar der.tidos diferentes. bem como suas implicações práticas. A ciência social não envolve a crítica de crenças 110 d.oc:~a~ interpretar os significados do mundo social para os ! atores sociais nele inseridos. é ser capaz de "seguir adiante" no âmbito da forma de vida em questão. esse ponto de vista não pode ser sustentado. os proponentes do consenso ortodoxo partiram do pressuposto que as conotações práticas da ciência social assumem um caráter tecnológico. a afirmação é ambígua com relação à intencionalidade. as ciências sociais envolvem uma dupla hermenêu_ tica. Ao contrário.. Ao contrário da ciência natural. envolve um tipo de hermenêutica.. como se tem esclarecido nas correntes mais recentes da filosofia da ciência. colocamo-nos em uma posição que nos permite fazer mudanças neSSemundo.. Por senso comum. Via de regra. Essas considerações têm implicações significativas e complexas na análise do impacto prático das ciências sociais. tal afirmação não possui valor explicativo e ~ó adql!ire signifjca<:iocausal il1teligivel'luandQaplicada à atividade social na forma de proposição contrafactual. contudo. bem como sobre as condições nas quais praticam seus atos. Em condições em que a reprodução é altamente monitorada. em que as teorias compreendem conjun_ tos estruturados de significados.•.as sociais são ._- . A criação de descrições verídicas da ação humana pressupõe que o observador sociológico tenha acesso aos conhecimentos mútuos por meio dos quais os atores sociais orientam suas ações. da mesma forma que no caso do mundo natural. faz-se essencial ressaltar tal diferença. que remonta. é bastante difereme daquilo que está e~olv~do _nas. Durkheim e todas as vertentes natural:stas do marxismo. Se os argumentos anteriormen:e expostos forem válidos. O que Winch em absoluto não leva em consideração é a absorção reciproca dos conceitos sociocientíficos no mundo SOcialem que são Cunhados para efeito de análise. contudo. a mecânica do processo de reprodução será bastante diferente.. Segundo.. tendo sido reiterada por Com te. 1 Anthony Giddens Em defeso da sociologia Pode-se levantar uma objeção que atua em dois ser. a ligação entre os pro?ósitoS (de alguns agentes) e a continuidade das instituições sociais será direta e penetrante. À medid2. os conceitos técnicos atores sociais sobre a vida social e as condições para a reprodução social.tro da visãociistorcida da capacidade de correção do senso comum.teriormente mencionado. conforme ar.--. mantidas por atores sociais leigos. Primeiro. É exatamente este o sentido em que.?Sconceitos e as teorias desenvolvidos no âmbito destas se aplicam a um mundo constituído das atividades praticadas por indivíduos que conceituam e teorizam. quando comparadas ao que parecem ser as con. Dadas suas premissas naturalistas. Essa visão vem de uma herança profundamente arraigada nas ciências sociais. A condição de ser capaz de descrever o que os atores sociais estão f"zendo. o mundo objetivo da natureza. que teorizam sobre o que fazem. os conceitos técnicos da ciência social estão atrelados logicamente àqueles do mundo do senso comum. Esse processo de absorção contribui para explicar a aparente banalidade das descobertas sociocientíficas.ciênciasnaturais..---'- ---~ ~-- -. pelo menos não com base em nada parecido com a abordagem desenvolvida por esses autores.e devem ser .." A ciência social preocup-ã"se com os agentes que geram e inventam conceitos. em qualquer COntexto de ação.".~ciênc. Nos casos em que uma retroalimentação não-intencional entra em ação.. a Montesquieu. que passamoS a tomar maior conhecimento do mundo social. A ciéncia consiste em um esforço interpretativo. por Sua vez.l:'I"ªo cabe ao cien=-: tisti'_s. ~as o contexto em que tais idéias e teorias críticas são formula_ das. refiro-me a crenças proposicionais mantidas pelos falsas sobre o mundo social.. 111 \ ------- . como afirma Winch. Os conceitos e teorias da ciência natural são completamente isolados do mundo "deles".---- ~~-. A ciência natural.parasitários em relação' aos conceitos de origem laica. no minimo. ao se explicar uma reprodução social em termos de afirmações do tipo "a função de x é.. quistas muito mais inovadoras da ciência natural.

o próprio significado originalidade se perde. as ciências sociais causaram e continuam a causar um impacto prático da maior abrangência sobre o mundo social. As implicações da dupla her . Sua descrevendo uma série de mudanças que vinham acontecendo na sociedade do século XIX. Poder-se-ia supor que os primeiros economistas Outro exemestivessem sociais leigos e incorporados na atividade social. de cidadania e de uma série de outras noções a elas associadas. Os pensadores não estavam descrevendo um mundo que lhes havía sido dado de modo inde112 Assim. Nos escritoS de Maquiavel e de outros autores. Não podem ser entendidas apenas como descrições de um mundo de institClições estatais que nos é apresentado de modo independente. por exemplo. o impacto prático da ciência social não é de ordem técnica. Uma vez assumidos p'or atores pendente. risco.. o trabalho crítico não pode se limitar à critica de falsas crençás leigas. Um cientista social da linha ortodoxa poderia supor que aqueles teóricos estivessem descrevendo apenas mudanças que ocorriam na vida social.~. naturalmente se transformam em elementos familiares de rotinas sociais. Tal visão. O discurso das ciências econômicas fornece-nos plo. constitui um erro. menêutica residem ne fato de que os cientistas sociais não podem deixar Qe permanecer alertas aos efeitos transformadores que seus conceitos e teorias possam porventura produzir sobre aquilo que se propuseram a analisar. i i i i ! Ii i • I 113 • I I . basicamente.ndo social à altura das realizadas pelas ciências naturais? Se tais descobertas não existem. Além disso. !. demonstramos algum domínio prático da noção de soberania. passaram a con~tituir essas instituições. Claro que descreviam teis mudanças. mesmo que. mas iam muito além. até mesmo. tem-se a impressão de que n~o somos c~pazes de desenvolver as tecnologias sociais das quais dependem as conotaçôes práticas das ciências sociais (no modelo ortodoxo). Anthony Giddens Em defesa da sociologia . De fato. do qual tá. ao serem construídos.1 . III A trivialidade da clên_c~a social foi uma das maiores fon tes de preocupação dos praticantes da sociologia canônica.11. poder-se-ia argüir que as conseqüências transformadoras das ciências sociais para o mundo social têm sido consideravelmente maiores do que as das ciências naturais para o mundo "natural". inovado- res quanto qualquer coisa que tenha existido no campo das ciênA história mais remota das ciências sociais esteve vinculada ao surgimento da teoria política nos séculos xv e XVI. O Estado moderno é inconcebível. Sempre que usamos um passaporte para viajar de um país para outro.is conceitos passaram a fazer parte constituinte.or qu~ as ciências sociai~I1ãoproduzi~am descobertas sobre ?I11. compreendendo noçôes como soberania e a própria noção de política. A sociedade industrial não poderia exiStir se os atores sociais do cotidiano não houvessem dominado os conceitos de de economia. a noção de soberania é algo que. O discurso econômico ingressou como elemento constitutivo no que se conhece hoje como sociedade industrial. sem a noção de soberania.. em certo sentido. A invenção do discurso da ciência política contribuiu para formar o que hoje chamamos de Estado moderno. Claro que era isso que estavam fazendo. os conceitos introduzidos pelas ciências sociais tornam-se componentes familiares nas teorias e práticas de atores sociais leigos e não permanecem adstritos a um dfs- curso profissional. Contudo. porém. Desde suas origens nos tempos modernos. A ciência social não assume uma posição de neutralidade em relação ao mundo social. investimento. possam ter sido tão fantasticamente cias naturais. como um instrumento de transformação tecnológica. porém não era só isso que estavam fazendo.. custo e. despontou um novo discurso político. todos nós aprendemos a dominar atualmente. logo em suas origens. inevitavelmente. Ele se fez sentir pela absorção dos conceiros sociocientíficos no mundo social.

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