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Programa Estudo sobre Crédito e Superendividamento dos Consumidores dos países do Mercosul Superendividamento no Brasil

Programa

Estudo sobre Crédito e Superendividamento dos Consumidores dos países do Mercosul

Superendividamento no Brasil

VERSÃO PRELIMINAR

Idec Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor

Estudo sobre o Crédito e Superendividamento dos Consumidores

Realização Idec - Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor www.idec.org.br

Fundação Procon-SP - Núcleo de Tratamento ao Superendividamento www.procon.sp.gov.br

Coordenação Executiva Lisa Gunn

Gerente Técnico Marcos Vinícius Pó

Elaboração Ione Amorim - Idec Neide Ayoub - Procon-SP

Dezembro/2008

São Paulo, SP

VERSÃO PRELIMINAR

 

ÍNDICE

Apresentação

03

Introdução

05

O caminho do superendividamento brasileiro

08

A situação de crédito ao consumidor no Brasil

09

Análise do superendividamento em relação aos bancos

10

Breve histórico dos bancos selecionados para o estudo

10

Lucro Líquido dos bancos

11

Carteira de crédito dos bancos no Brasil

13

O

relacionamento dos bancos com os consumidores

16

Linhas de crédito ofertadas pelos bancos aos consumidores

17

Taxas de juros mínimas e máximas praticadas pelos bancos

20

Inadimplência

23

Análise dos contratos – Abusividade

25

Publicidade enganosa

27

Estatísticas sobre o endividamento dos consumidores

30

As políticas públicas de crédito e endividamento

31

Projetos desenvolvidos no Brasil I – Rio Grande do Sul

32

Projetos desenvolvidos no Brasil II – São Paulo

36

Projeto Piloto PROCON-SP – PRONASCI

41

Considerações Finais

44

Bibliografia

46

Apresentação

VERSÃO PRELIMINAR

Com a estabilidade econômica alcançada pelo Brasil nos últimos anos, a questão

do superendividamento do consumidor ganhou destaque, sendo a discussão

sobre o tema urgente e necessária.

O desnudamento do problema tem a potencialidade de promover a

democratização do crédito no Brasil. Se por um lado há um maciço incentivo para o crédito e o consumo até mesmo por parte de instâncias políticas do governo, por outro não há qualquer programa de educação e proteção do consumidor. Os bancos e demais instituições financeiras se utilizam das mais variadas técnicas abusivas e enganosas para seduzir o consumidor e, na prática impõem condições de crédito desvantajosas e taxas de juros altíssimas.

O assunto é objeto de estudos em vários países, e tem adquirido importância nas

esferas jurídicas brasileiras, sobretudo pela urgência em se desenvolver uma legislação que venha a assistir o consumidor vítima da condição de superendividado.

O superendividamento não é uma questão que afeta somente os brasileiros, mas

os consumidores de todo o mundo. Ciente disso, a Consumers International,

organização internacional que congrega mais de 200 associações de consumidores de todo o mundo, está desenvolvendo o Programa Crédito e Superendividamento dos Consumidores.

Convidado para participar da iniciativa, o Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – se uniu ao Núcleo de Tratamento do Endividamento da Fundação Procon/SP. O resultado da parceria é a pesquisa que consta do presente relatório, que integrará estudo sobre a questão do superendividamento nos países do MERCOSUL.

A Fundação Procon-SP, criada na década de 70 por iniciativa do Governo do

Estado de São Paulo, foi o primeiro órgão público de proteção ao consumidor. O Núcleo de Tratamento do Superendividamento foi criado pela Fundação Procon/SP em 2006 para tratar da importância da conscientização dos consumidores na contratação do crédito, bem como da necessidade de ações preventivas, e ainda a necessidade de se rever o papel do poder público, em sua tutela. O Núcleo desenvolve o Projeto de Tratamento do Superendividamento dos Consumidores.

Os resultados integrantes do presente relatório incluem as principais atividades

realizadas nos últimos anos na divulgação, execução e análise dos resultados do

Projeto de Tratamento do Superendividamento dos Consumidores, desenvolvido

por

instituições de defesa do consumidor.

Os

estudos foram desenvolvidos nos Estados do Rio Grande do Sul, do Rio de

Janeiro e de S.Paulo, e ilustram a necessidade de instauração de “Projetos-Piloto”

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que estejam empenhados em dar assistência à população exposta aos riscos do superendividamento, como o Projeto: “Tratamento das Situações de Superendividamento do Consumidor” e “Conciliar é Legal” do Rio Grande do Sul, criação de Núcleos de Defesa dos Consumidores (Nudecon) Rio de Janeiro e Núcleo de Tratamento ao Superendividamento da Fundação Procon-SP.

Introdução

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A origem do superendividamento no Brasil surgiu com o aumento da oferta de

crédito fácil e rápido, numa sociedade em que o cidadão adquire status na proporção dos bens que consome.

Por meio da publicidade agressiva e estímulo ao consumo de produtos e serviços as mensagens tentam convencer o consumidor de que seus valores de uso são maiores do que o real. Geram no consumidor a necessidades impensáveis em períodos de crise econômica.

Esse processo desenvolvido por meio de técnicas nem sempre éticas e com forte apelo emocional se apresenta como modo de inserção social, motivando o indivíduo a utilizar o crédito para viabilizar as necessidades que lhe são impostas inconscientemente.

A explosão do crédito no Brasil amparada por uma idéia de inclusão, em que a

população de baixa renda passou a consumir bens e serviços inacessíveis, responde aos apelos do crédito fácil sem critérios a todos os consumidores, independentemente de sua capacidade de pagamento.

Sem qualquer instrução ou auxílio de como se comportar diante desta nova realidade, muitas pessoas passaram a contrair empréstimos e em determinado momento atingiram uma situação de superendividamento, o que resultou num problema coletivo, social e jurídico.

A oferta de crédito deveria ser aplicada de maneira prudente e responsável pelos

agentes do crédito, amparada em uma política de juros mais justa, critérios para concessão de crédito mais seletivos, programas de conscientização e educação para o consumo consciente. Essas medidas podem evitar problemas de alta

inadimplência e superendividamento, o que prejudicaria todo o sistema financeiro nacional e o orçamento das famílias, a exemplo do que aconteceu com os EUA –

o caso do subprime, que está causando enormes transtornos à economia americana, com reflexos no mundo inteiro.

No Brasil o conceito de superendividamento pode ser definido com “Impossibilidade global do devedor-pessoa física, consumidor, leigo e de boa-fé, de pagar todas as suas dívidas atuais e futuras de consumo (excluídas as dívidas com o Fisco, oriundas de delitos e de alimentos)” 1 .

A falta de legislação específica para casos de insolvência de uma família (como a verificada em alguns países), não impede, porém, a proteção e a defesa dos

1 MARQUES, Claudia Lima. Sugestões para uma lei sobre o tratamento do superendividamento de pessoas físicas em contratos de crédito ao consumo: proposições com base em pesquisa empírica de 100 casos no Rio Grande do Sul - Estudos sobre direito brasileiro e superendividamento – Direito do Consumidor Envididado RS Ed. Revista dos Tribunais Pg. 256

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consumidores em situação de superendividamento no Brasil, uma vez que o Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) e a própria Constituição Federal contêm normas gerais que balizam este movimento, enquanto se aguarda sanção de legislação sobre o tema 2 .

Segundo Marques, o endividamento é um fato inerente da vida em sociedade marcada pelo consumo. No caso brasileiro, a forma mais rápida para aquisição de bens e serviços ocorre através do endividamento. “O consumo e o crédito são duas faces da mesma moeda, vinculados que estão no sistema econômico e jurídico de paises desenvolvidos e de paises emergentes como o Brasil” 3 .

O fenômeno social que se consolida como superendividamento necessita de

soluções jurídicas como as existentes para as empresas, como concordatas, aumento do parcelamento, revisão de juros, redução do montante entre outros. Aumentar o nível de informação quanto aos riscos de um endividamento, amparado por taxas de juros abusivamente elevadas, controle de identificação do perfil dos consumidores de boa fé, gestão eficaz do risco de inadimplência embutido nas taxas de juros, nas cláusulas contratuais e controle da publicidade com campanhas enganosas que vendem facilidade com intuito de seduzir o consumidor a consumir inconscientemente até bens que não tem necessidade alguma.

“O Superendividamento, também designado por falência ou insolvência de consumidores, refere-se às situações em que o devedor se vê impossibilitado, de uma forma durável ou estrutural, de pagar o conjunto de suas dívidas, ou mesmo quando existe uma ameaça séria de que o não possa fazer no momento em que elas se tornem exigíveis” 4 .

De acordo com a definição européia há dois tipos de endividados: o passivo, o consumidor que não contribuiu ativamente para o aparecimento da crise de

insolvência, possivelmente perdeu o emprego, teve problemas de saúde na família

ou viveu alguma situação alheia a sua vontade. O segundo tipo é o ativo, situação

onde o consumidor consome demasiadamente, não tem controle do seu orçamento, é facilmente seduzido pela publicidade de estimulo ao consumo, assumindo dívidas que em situações normais não teria condições de fazê-las.

O problema do superendividamento é agravado pela avalanche de publicidade de dinheiro fácil e rápido em televisão, rádio, jornais e até na rua. Não há uma fiscalização rigorosa sobre a propaganda, que induz o consumidor a engolir o

2 Oliboni, Marcella L.C.P. Direito do Consumidor Endividado - O superendividamento do consumidor brasileiro e o papel da defensoria pública: criação de comissão de defesa do consumidor superendividado –RS Ed. Revista dos Tribunais Pg. 345

3 MARQUES, Claudia L.Direitos do Consumidor Endividado – Sugestões para uma lei sobre o tratamento do superendividamento de pessoas físicas em contrato de crédito ao consumo: proposições com base em pesquisa empírica de 100 casos no Rio Grande do Sul - Ed. Revista dos Tribunais Pg. 256

4 LEITÃO MARQUES, Maria M. et al. O endividamento dos consumidores. Lisboa: Almedina, 2000. p.2

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lugar-comum de que o crédito trará felicidade. Ao adquirir um bem financiado o consumidor na maioria das vezes não tem acesso ao contrato e quando tem, este não é suficientemente claro tendo em vista seu nível de entendimento. Em várias situações, o cliente nem sequer tem idéia dos juros anuais, nem das taxas adicionais, como de abertura do cadastro, juros de mora entre outras cobranças, e isso acontece inclusive até em situações onde os bancos são obrigados por leis e normas a entregar o contrato ao consumidor com todas as informações e assinado pelas duas partes.

Um dos propulsores do superendividamento é o assédio de bancos, oficiais ou não, aos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Segundo a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (Dataprev), em janeiro havia empréstimos consignados 5 ativos (ou seja, não quitados) de 17 bilhões de reais, espalhados por 10,2 milhões de operações. Ainda de acordo com a Dataprev, 40% dos 19 milhões dos atendidos pelo INSS já utilizaram ao menos uma vez essa modalidade de empréstimo, cujo desconto é feito diretamente do pagamento mensal do benefício.

O caminho do superendividamento brasileiro

Com Plano Real, em julho de 1994, o novo ambiente de estabilização de preços trouxe modificações consideráveis para o sistema financeiro brasileiro, uma vez que, com a estabilização da economia, todas as instituições deixariam de ganhar com a inflação.

Como o ganho inflacionário do setor financeiro era obtido principalmente nos depósitos à vista, a estrutura operacional dos bancos estava montada para maximizar a captação de depósitos. Com o controle inflacionário, a lucratividade dos bancos deixou de depender da captação de depósitos e passou a depender do crescimento das operações de crédito.

O crédito a pessoas físicas revelou-se importante suporte para a sustentação do

nível da atividade econômica, dinamizando a demanda interna via ampliação do

consumo das famílias. As linhas de crédito disponíveis no mercado para aquisição de bens são abundantes, porém, não necessariamente vantajosas para quem pretende utilizá-las.

O brasileiro não possui um hábito de poupança, historicamente os índices de

poupança no país sempre foram baixos e depois dos planos econômicos caiu em descrédito em função das medidas econômicas da época, onde o governo se apropriou dos recursos dos poupadores. Como conseqüência dessas ações, a população adquiriu o hábito de financiar quase tudo que necessita adquirir para o seu bem-estar.

5 LIMA, Clarissa C, Crédito responsável e superendividamento, Suspensão do desconto de empréstimo consignado Revista Direito do Consumidor nº 65 out-dez 2007 Editora RT

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As taxas de juros no Brasil estão entre as maiores do mundo e essa tendência não apresenta sinais de baixa, o que em outras palavras, significa que o brasileiro historicamente terá que se submeter às taxas práticas do mercado para obter bens de consumo. As modalidades que apresentam maiores facilidades de acesso ao crédito, como cartão de crédito e cheque especial apresentam as maiores taxas de juros.

A situação de crédito ao consumidor no Brasil

Em novembro-08 as operações de crédito no país atingiram R$ 1.187 bilhões correspondentes a 40,2% do PIB 6 , divulgou o Banco Central do Brasil. O mercado de crédito, embora siga mantendo elevadas taxas de crescimento sofreu reflexos dos desdobramentos da crise financeira internacional.

Os saldos de créditos destinados a pessoas físicas foram de R$369,3 bilhões em setembro-08 7 , com crescimento de 32,26% em relação à setembro-07. Esse desempenho esteve associado, principalmente, à evolução do crédito pessoal, que registrou o total de R$125,7 bilhões. As operações com cheque especial atingiram R$17,1 bilhões, tiveram alta de 7,9%, após observarem estabilidade nos últimos seis meses. Os financiamentos para aquisição de veículos totalizaram R$81,4 bilhões refletindo a crise (redução de prazos) e a substituição dessa modalidade pelas contratações de leasing.

A média de crescimento anual do crédito, nos últimos quatro anos, ficou em 20,5%, enquanto no período 1994-2001 era de 4,2%. Costuma-se lembrar que, em relação ao PIB, o crédito no Brasil é muito restrito, não só na comparação com os EUA, onde ultrapassa 130%, como com o Chile, por exemplo, onde está em torno de 70% do PIB. O problema é que as comparações internacionais devem levar em conta não apenas o PIB, mas também a distribuição da renda e a taxa de juros prevalecente”. No Brasil a distribuição de renda é marcada por uma elevada desigualdade, e as taxas de juros exigidas são altíssimas.

“É preciso lembrar que nos últimos 12 meses o crédito para pessoas físicas cresceu 32,4%, mas apenas 18,8% para pessoas jurídicas, que se recusam a pagar juros anormalmente elevados, embora muito menor do que as taxas pagas pelas pessoas físicas. Mais desejável seria, de um lado, uma redução das taxas e, de outro, um aumento dos empréstimos às empresas”. 8

6 Relatório Banco Central Brasil - Política Monetária e Operações de Crédito do Sistema Financeiro Nota a Imprensa 25.11.08 - http://www.bcb.gov.br/?ECOIMPOM

7 Boletim do Banco Central do Brasil Volume 44 Nº 9 setembro – 2008 - http://www.bcb.gov.br/ftp/histbole/Bol200809P.pdf e Boletim do Banco Central do Brasil Volume 43 Nº 9

setembro – 2007 -

http://www.bcb.gov.br/ftp/histbole/Bol200709P.pdf

8 Jornal O Estado de S.Paulo – Editorial – 04/12/2007

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Análise do superendividamento em relação aos bancos

O estudo do superendividamento no Brasil a partir das relações de crédito e

consumo que essa proposta abordará será realizada a partir das operações de crédito e financiamento ao consumidor praticadas em cinco bancos que atuam no país e foram indicados de acordo com o termo referencial do projeto sobre “Programa Credito e Superendividamento dos Consumidores” para os paises do Mercosul proposto pela Consumers International com sede em Santiago no Chile.

Os bancos selecionados para o estudo e que possuem atividades comuns nos países do Mercosul (Argentina, Brasil, Chile Peru e Uruguay) são: Santander (espanhol) e HSBC (inglês) e Itaú (brasileiro) e outros dois bancos privados de grande atuação no país de origem da pesquisa, Bradesco e Unibanco.

Os cinco bancos no Brasil estão entre os dez maiores bancos do país com mais de um milhão de clientes (entre os privados e públicos). A posição que esses

bancos ocupam no mercado brasileiro em número de clientes expressa o potencial

ao qual está exposto o consumidor:

Tabela 1 – Posicionamento dos bancos no mercado em número de clientes

Posição

Banco

Nº de Cliente

Bradesco

21.917.936

Itaú

12.723.324

Santander

9.346.008

Unibanco

8.910.368

HSBC

2.553.248

Fonte: Banco Central do Brasil – outubro 2008

Se desconsiderar os bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) os bancos selecionados assumem a liderança na ordem subseqüente. O Bradesco assume a primeira posição, seguido pelos demais bancos.

Breve histórico dos bancos selecionados para o estudo

Bradesco – Foi criado no ano de 1943 no interior de São Paulo, como Banco Brasileiro de Descontos com o objetivo inicial de atrais o pequeno comerciante diferentemente das estratégias usadas pelos outros bancos da época. Já em 1951, o Bradesco tornou-se o maior banco privado do país nos anos 70 o banco incorporou outros 17 bancos mantendo posição de destaque entre os principais bancos privados do Brasil.

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O Banco Bradesco 9 , classificado como terceira maior companhia cotada na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e a quarta na América Latina em termos de lucros, ativos e patrimônio líquido, é uma empresa de capital aberto com lucro líquido superior a 100 bilhões de reais, atrás apenas da Petrobrás e Vale. No ranking da Revista Valor Econômico o Banco Bradesco ocupa o 2º lugar, atrás apenas do Banco do Brasil. Ou seja, é o maior banco privado do país.

Itaú – O Banco Itaú foi criado no ano 1943 como Banco Central de Crédito S. A. para ser o braço financeiro da Companhia Brasileira de Seguros. Começou a realizar operações bancárias no ano seguinte. No ano de 1966 passou a atuar como banco de investimentos.

Nos anos 90, o Itaú realizou várias aquisições como Banco Francês e Brasileiro (BFB), o Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj) e o Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge). A partir do ano 2000, outras aquisições seguiram-se, como o Banco do Estado do Paraná S.A. (Banestado), o Banco do Estado de Goiás S.A. (BEG) e as operações do Bank Boston no Brasil.

No ano de 2006, o Banco Itaú ocupava a 3º posição entre os principais bancos por lucro líquido, superior ao ano de 2005, quando ocupava a 4º posição no ranking. A última movimentação do banco foi oficializada no inicio de novembro de 2008, quando o Banco Itaú e Unibanco anunciaram a fusão entre os dois bancos, colocando o novo banco no primeiro lugar no Brasil e o maior banco da América latina.

Santander – O Banco espanhol Santander de Investimento chegou ao Brasil como um escritório de representação no ano de 1982 e passou a operar como um banco de investimentos a partir de 1991.

Cinco anos depois, o Banco Santander S.A. realizou sua primeira aquisição no país, o Banco Geral do Comércio. No ano seguinte comprou o Banco Noroeste e em 2000, realizou duas compras. A primeira, um dos principais bancos estaduais do país. Com a aquisição do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), o Santander saltou da 9º para a 5º entre os principais bancos do país 10 . No início de 2008 o Santander também assumiu as operações comerciais para a América Latina do ABN Amro Real.

Unibanco – O Banco Unibanco foi criado no ano de 1924, no estado de Minas Gerais, designado Seção Bancária Casa Moreira Salles. Em 1931 converteu-se na Casa Moreira Salles. A fusão do banco com o Banco Machadense e a Casa de Botelhos nos anos 40 foi o impulso necessário para a expansão da instituição.

9 Disponível em: < www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u105461.shtml >.Acesso em: 23/05/2007

10 Santander eleva lucro em 112% no 1º semestre. Jornal Folha de São Paulo (FSP), 27 jul 07.

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Nas décadas seguintes, outros bancos foram comprados e contribuíram para o desenvolvimento do banco, além da criação de suas próprias empresas de seguros, cartões de crédito, empréstimos etc.

Nos anos 90, o Banco Unibanco comprou o Banco Nacional com ajuda do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER) durante o seu processo de liquidação. Em 1998, comprou também o Banco Dibens. Em 2000, o Unibanco comprou o banco Credibanco, o Banco Bandeirantes e o BNL-AS. Segundo o ranking da Revista Valor Econômico, o Unibanco ocupava a 5º posição entre os principais bancos do Brasil no ano de 2005, e caiu para a 7º posição no ano seguinte.

Em novembro de 2008 anunciou a fusão com o banco Itaú, através da troca de ações, se tornando o maior banco privado do país e ocupando uma posição entre os vinte maiores banco do mundo.

HSBC – O banco HSBC é um banco inglês, sediado em Londres, com atuação no setor financeiro em mais de 80 países. No ano de 1997, o grupo HSBC comprou o Banco Bameridus, com ajuda do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER). O HSBC 11 tem capital majoritário de origem inglesa.

De acordo com a Revista Valor Econômico, o Banco HSBC ocupava a 8º posição no ranking entre os principais bancos em termos de ativos no Brasil durante os anos 2005 e 2006.

Lucro Líquido dos bancos

No topo da lista atualizada dos maiores lucros de bancos brasileiros no terceiro trimestre, aparecem o Bradesco e Itaú, nesta ordem, com resultados recordes apresentados entre (jan a set-08). O primeiro conseguiu lucrar R$ 6,01 bilhões. O segundo teve lucro de R$ 5,90.

Tabela 2 – Lucro líquido dos bancos

 

Lucro 3º

Acumulado Jan a Set-08

Banco - em bilhões de reais

Trimestre

Bradesco

1,90

6,01

Itaú

1,80

5,90

Santander

0,496

2,23

Unibanco

0,704

2,20

HSBC

0,211

0,769 (*)

Fonte: Sites bancos (*) Lucro líquido acumulado de janeiro a junho-08

11 A sigla HSBC em inglês significa: Hongkong and Shanghai Banking Corporation Limited uma corporação estabelecida desde 1865. Disponível em: < www.hsbc.com/1/2/about-hsbc/group-history/group-history-1865- 1899.> Acesso em: 19/07/07.

Carteira de crédito dos bancos no Brasil

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Bradesco - O forte crescimento da carteira de crédito do Bradesco foi um dos destaques do semestre, inclusive levando o banco a revisar suas projeções de

crescimento para este ano. No primeiro semestre deste ano, a carteira de crédito

da instituição (pessoa física + pessoa jurídica) atingiu R$ 181,6 bilhões, avanço de

38,8% quando comparado com igual período do ano anterior. Já quando comparado com o primeiro trimestre deste ano, a carteira de crédito avançou 7,2%. Do volume atingido neste semestre, cerca de R$ 28 bilhões foram novos tomadores.

“Apenas a carteira de pessoa física somou R$ 65,87 bilhões, incremento de 32,2% ante os R$ 49,83 bilhões registrados no primeiro semestre deste ano. O destaque

do período foram as operações de leasing, com crescimento de 441%. 'A forte

expansão desta modalidade, tanto para pessoa física quanto para a pessoa

jurídica, pode ser explicada pela não incidência do IOF', explicou Márcio Cypriano, presidente de Bradesco, em conferência dos resultados trimestrais.

A demanda está tão grande que a instituição revisou suas metas de crescimento

(nas operações de crédito) para este ano. A perspectiva do Bradesco para

crescimento da carteira de crédito saltou de 21% a 25% para 24% a 29%. Enquanto que as perspectivas para a pessoa física se mantiveram inalteradas - de 24% a 29% - o crescimento da carteira pessoa jurídica passou de 20% a 23% para 23% a 30%.

A inadimplência se manteve controlada, segundo o presidente do Bradesco. A

inadimplência total, acima de 90 dias, ficou em 3,5%. A carteira de pessoa física apresentou uma leve expansão de 0,03 ponto percentual - para 6,7% -, quando comparado com o primeiro semestre do ano passado e primeiro trimestre deste ano. 'Observamos um pequeno aumento nas modalidades de cartão de crédito e veículos', disse Cypriano. (Vanessa Correia - InvestNews)” 12

Itaú - A carteira de pessoa física do banco Itaú ficou com R$ 62,27 bilhões em

junho, ante R$ 52,9 bilhões ao final de março, e evolução de 38,3% em 12 meses.

O destaque, disse Carvalho, ficou por conta da carteira de veículos, com

expansão de 61,7% em um ano, para R$ 36,04 bilhões, respondendo por mais da metade do saldo. Esta carteira (alta entre 40% e 45%), as de crédito imobiliário (mais 40%) e das operações com as micro, pequenas e médias empresas (alta entre 35% a 40%) são as que apresentarão maior percentual de crescimento no ano, estima o executivo.

“O Itaú, que investiu R$ 1 bilhão em tecnologia no primeiro semestre deste ano,

continua com seu forte plano de expansão orgânica e de conquista de novos clientes. O banco atraiu 700 mil novos clientes ativos em 12 meses, sendo 500 mil

no primeiro semestre deste ano, e quer mais 500 mil até o final de 2008. Hoje, tem

12 Disponível em: <http://indexet.gazetamercantil.com.br/arquivo/2008/08/04/295/BANCOS:-Bradesco- revisa-para-cima-crescimento-do-credito.html>. Acesso em 30/11/2008

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13,9 milhões de clientes ativos. Nos últimos 12 meses também abriu 134 pontos- de-venda. A ampliação equilibrou as receitas do banco, impactadas pelas novas regras de cobrança de tarifas. (Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 1)(Iolanda Nascimento)”. 13 –.

Santander - O lucro líquido do Grupo Santander Brasil, que engloba os resultados dos bancos Santander e Real, avançou 1,3% entre janeiro e setembro deste ano, para R$ 2,23 bilhões, frente aos R$ 2,20 bilhões somados um ano antes. A carteira de crédito total do grupo somou R$ 130,48 bilhões, com crescimento de 25,5% ante os R$ 103,9 bilhões registrados no fim de setembro de 2007.

O crédito para pessoa física chegou a um volume de R$ 57,25 bilhões, o que implica alta de 23% perante os R$ 46,53 bilhões do nono mês do calendário anterior. As operações de crédito para pessoa jurídica aumentaram 28,9%, para R$ 67,65 bilhões.

"Os destaques da carteira de crédito de pessoa física foram os segmentos de cartões de crédito, que teve alta de 42,3% (R$ 6,22 bilhões); financiamento imobiliário, com crescimento de 32,3% (R$ 4,18 bilhões); CDC+Leasing, num incremento 23,7% (R$ 23,71 bilhões); e crédito consignado, que subiu 11% (R$ 6,59 bilhões)", comentou a instituição em nota.

Em 30 de setembro de 2008, mantinha mais de 55 mil funcionários, e mais de 8 milhões de correntistas ativos. A complementaridade da rede de distribuição dos dois bancos transforma o Santander em uma instituição com presença nacional, detentora de uma rede de 3.551 pontos de venda (agências e PAB’s) e 17.978 terminais de auto-atendimento, com foco nas regiões Sul e Sudeste. Grupo Santander no mundo O desempenho do Brasil respondeu por 11% do resultado global do Grupo Santander, desconsiderando o Banco Real” 14 .

Unibanco - A fusão anunciada em novembro 2008 entre o Banco Itaú com o Unibanco via troca de ações. A operação que dará origem a Itaú Unibanco Holding vai formar o maior conglomerado financeiro privado do Hemisfério Sul, cujo valor de mercado fará com que ele fique situado entre os 20 maiores do mundo. O patrimônio líquido da nova companhia é de aproximadamente R$ 51,7 bilhões.

13 Jornal Gazeta Mercantil – banco Itaú lucra R$ 4,08 bilhões em carteira de crédito - 06/082008 Disponível em: <http://indexet.gazetamercantil.com.br/arquivo/2008/08/06/86/Banco-Itau-lucra-R$-4,08-bi-e-carteira-de- credito-salta-41,3.html>. Acesso em 30/11/2008

14 Jornal Valor Econômico – Lucro do Grupo Santander no Brasil sobe R$ 2,23 bilhões 28/10/2008 – Disponível em:

<http://www.valoronline.com.br/ValorOnLine/MateriaCompleta.aspx?tit=Lucro+do+Grupo+Santander+Brasi

l+sobe+13+no+ano+para+R$+223+bi&codMateria=5231425&dtMateria=28+10+2008&codCategoria=34>

Acessado 12/12/08

VERSÃO PRELIMINAR

“O lucro líquido do Unibanco recuou 40% no terceiro trimestre deste ano, somando R$ 704 milhões, ante os R$ 1,19 bilhão registrados em igual período do ano

passado. Já o lucro líquido recorrente apresentou expansão de 5,5% no trimestre, atingindo R$ 704 milhões frente aos R$ 667 milhões na mesma época de 2007. Em ativos totais, o Unibanco alcançou R$ 178,5 bilhões, com variação positiva de 33% quando comparados a 30 de setembro de 2007. A carteira de crédito registrou crescimento de 7,7% de julho a setembro, atingindo R$ 74,2 bilhões. Enquanto que em 12 meses, a expansão foi de 32,9%. O Índice da Basiléia atingiu

13%” 15 .

e

“O Unibanco possui 954 agências, 280 postos de atendimento bancário (PABs) e uma ambiciosa meta de crescimento orgânico nos próximos dois anos, que deverá ampliar sua rede em aproximadamente 400 pontos de venda, incluindo agências, PABs. O destaque, assim como nas demais instituições financeiras, ficou por conta do segmento de pessoas físicas com evolução de 35,4% sobre o 2T07, o que é positivo, pois é onde são obtidos os maiores spreads” 16 .

HSBC – “A carteira de crédito, que atingiu 37%. Ela foi de R$ 27,9 bilhões para R$ 38,3 bilhões. E quando fomos buscar o 'funding' para alavancar este crescimento, os depósitos cresceram 28%. O aumento dessa carteira se deve especialmente ao crédito concedido a pessoas físicas, que na área de financiamento de veículos aumentou 34%, e do crédito consignado, que subiu 60%, mantendo a mesma rota iniciada no ano passado” 17 .

15 Jornal Gazeta Mercantil –Lucro do Unibanco recua 40% no terceiro trimestre – 06/11/2008 Disponível em: < http://indexet.gazetamercantil.com.br/arquivo/2008/11/06/169/BANCOS:-Lucro-do- Unibanco-recua-40-no-terceiro-trimestre.html> Acessado 12/12/08

16 Jornal Gazeta Mercantil – Unibanco Lucroa 1,49 li no semestre – 08/08/2008 - Disponível em: <

http://indexet.gazetamercantil.com.br/arquivo/2008/08/08/117/Unibanco-lucra-R$-1,49-bi-no-semestre.html>

Acessado 12/12/08

17 Jornal Gazeta Mercantil – Crédito tributário ajuda o lucro do HSBC – 19/08/2008 - Disponível em: <

http://indexet.gazetamercantil.com.br/arquivo/2008/08/19/53/Credito-tributario-ajuda-o-lucro-do-HSBC-no-

semestre.html> Acessado 12/12/08

VERSÃO PRELIMINAR

O relacionamento dos bancos com os consumidores

O ranking de reclamações corresponde ao registro das ocorrências de reclamações realizadas pelos consumidores junto ao Banco Central do Brasil, que atua na condição de órgão regulador do mercado financeiro como mediador das relações entre bancos e consumidores. As ocorrências registradas pelo Banco Central do Brasil, representam as reclamações que não foram solucionadas pelos bancos, inclusive pelas respectivas ouvidorias.

Tabela 3 - Volume de ocorrências no ranking de reclamações - (jan a out-08)

Banco

Jan

Fev

Mar

Abr

Mai

Jun

Jul

Ago

Set

Out

Total

Bradesco

95

203

559

495

478

697

543

596

692

717

5075

Santander

108

304

81

307

289

369

325

255

223

346

2607

Unibanco

155

242

224

109

200

206

499

206

270

307

2418

Itaú

296

118

112

168

184

285

272

329

268

271

2303

HSBC

27

113

28

109

132

273

197

281

155

233

1548

Fonte: Banco Central do Brasil

Entre as reclamações mais freqüentes é possível observar a necessidade de revisão do relacionamento entre bancos e consumidores, os dados não são conclusivos, porque representam apenas as reclamações registradas no Banco Central, não compreendendo as reclamações registradas pelos próprios bancos e também aquelas dos consumidores que simplesmente não procuram as esferas competentes para registrar as ocorrências.

Cabe destacar também, que os registros não incluem as reclamações que não são consideradas pertinentes à atividade de regulação do Banco Central, como é a questão do tempo de espera em filas de bancos e a questão de segurança, que segundo o site do Banco Central “O Banco Central não regulamenta o tempo de espera em filas. Existem leis estaduais e municipais que tratam do assunto. Cabe aos órgãos de defesa do consumidor (Procon, Prodecon, Decon) a orientação sobre o tema” 18 .

Tabela 4 – Indice de reclamações- Nº de Ocorrências por Nº de Clientes – Acumulado jan a out-08

Bancos

Bradesco

Itaú

Santander

Unibanco

HSBC

Atendimento

5,19

4,22

8,05

4,12

14,69

Fornecimento de documentos

4,52

3,10

2,40

2,69

10,07

Fornecimento de informações

3,57

1,63

2,04

3,41

3,99

Transparência nas relações

1,19

0,68

2,19

1,84

5,01

Prazos não cumpridos

1,06

1,52

4,67

3,20

9,16

Produtos não solicitados

0,96

1,47

2,14

2,48

1,37

Fonte: Banco Central do Brasil – Elaborado Idec

18 Disponível em <http://www.bcb.gov.br/pre/portalCidadao/bcb/tempoFilas.asp?idpai=PORTALBCB > acessado em 12/12/08

VERSÃO PRELIMINAR

Linhas de crédito ofertadas pelos bancos aos consumidores

Cartão de Crédito

O cartão de crédito é uma modalidade que apresentou um crescimento do número

de locais que aceitam o produto. Enquanto em 1998 apenas 300 mil pontos aceitavam os plásticos, com a maioria deles localizados nos grandes centros, ao

final do terceiro trimestre de 2008 já eram 1,4 milhão de locais onde os cartões são aceitos. A expansão se deu tanto em número de estabelecimentos, quanto na

direção do interior do País e para as periferias de grandes centros urbanos

19

.

Em junho de 2008, o número de cartões de crédito ativos no Brasil superou a marca dos 100 milhões e já chegou a todas classes sociais e diferentes faixas etárias. Até o consumidor com R$ 150 de renda, que é menos que um salário mínimo, tem acesso ao cartão de crédito por meio de cartões de loja.

Tabela 5 – Taxa de juros de cartão de crédito vigente em outubro-2008

 

Taxas - Cartões de Crédito

 

Banco

Unibanco *

Itaú *

Santander*

Bradesco**

HSBC **

 

Cartão

Cartão

Cartão

Cartão

 

Serviços

Internacional

Internacional

Internacional

Internacional

Gold

         

4 x

Anuidade

3 x R$29,00

3 x R$29,00

4 x R$23,50

4 x R$21,75

R$36,00

Taxa de Juros

15,99

13,50

12,99

12,70

11,39

Taxa p/ Saque

15,99

13,50

13,90

12,39

12,39

Parcelado

10,99

11,90

7,99

6,10

10,34

Taxa Máxima Próximo Período

15,99

13,50

15,99

12,70

14,19

C.E.T

523,30

425,65

372,83

319,77

279,10

Fonte: * Extratos Bancos / ** Site dos bancos

Cheque Especial

O cheque especial é uma concessão de crédito de um limite de crédito rotativo

diretamente na conta corrente no valor, prazo e vencimento indicados na proposta de adesão, que será utilizado para a cobertura de saldos negativos em decorrência da movimentação da conta corrente.

As taxas praticadas pelos bancos são elevadas, apresentam alto risco de geração de endividamento e não é indicada contratação desta modalidade de crédito para cobrir despesas imprevisíveis (o consumidor deve utilizar outros recursos como poupança ou linhas de crédito com juros menores).

19 Jornal Gazeta Mercantil - Cartões de crédito ignoram crise e crescem com força – 12-11-08 Disponível em

<http://indexet.gazetamercantil.com.br/arquivo/2008/11/12/19/Cartoes-de-credito-ignoram-crise-e-crescem-

com-forca.html> acesso em 12/12/2008

Tabela 6 – Taxa Média de Cheque Especial

VERSÃO PRELIMINAR

BANCO

Taxa Média ao Mês

Taxa Média ao Ano

SANTANDER

9,72

204,39%

HSBC

9,05

182,82%

UNIBANCO

8,27

159,48%

BRADESCO

8,17

156,61%

ITAÚ

8,01

152,10%

Taxa Média dos 5 bancos

8,64

170,44%

Fonte: Banco Central do Brasil -14/11/08

Crédito Pessoal

A oferta de crédito para pessoas físicas no Brasil triplicou em seis anos. “De 70

bilhões de reais em fevereiro de 2001, saltou para 200,6 bilhões de reais em fevereiro deste ano. O empréstimo consignado (com desconto no contracheque) já responde por 55% do total do crédito pessoal”. Emprestar dinheiro tornou-se a principal fonte dos lucros das instituições financeiras. Como os prazos são ampliados para pagamento em até 36 meses, o consumidor tende a olhar o valor que cabe no bolso, ignorando o custo do crédito obtido. Essa prática é fortemente explorada na publicidade de venda de produtos e serviços desviando o consumidor para a reflexão do custo efetivo do bem que está adquirindo.

A verba liberada para empréstimos consignados a aposentados e pensionistas do

INSS já chega a R$ 27,3 bilhões, informou o Ministério da Previdência Social. O

número acumulado de empréstimos é de 20,7 milhões, e o total de pessoas que recorreram a este recurso é de 8,45 milhões no período de maio de 2004 até agosto deste ano.

Tabela 7 – Taxa média de crédito pessoal

BANCO

Taxa Média ao Mês

Taxa Média ao Ano

BRADESCO

4,93

78,15%

ITAU

4,84

76,33%

HSBC

4,32

66,12%

UNIBANCO

4,01

60,29%

SANTANDER

3,61

53,05%

Taxa Média dos 5 bancos

4,34

66,54%

Fonte: Banco Central do Brasil -14/11/08

Os juros nas agências bancárias para as pessoas físicas foram, em média, de 66,54% ao ano em novembro, para os cinco bancos, conforme tabela 7 que traz dados divulgados em 12 de novembro de 2008 pelo Banco Central. Isso significa que, a cada um ano e meio, a dívida dobra, em termos nominais e na aquisição de bens duráveis a divida dobra em dois anos.

VERSÃO PRELIMINAR

Tabela 8 – Crédito para aquisição de bens duráveis PF

BANCO

Taxa Média ao Mês

Taxa Média ao Ano

SANTANDER

4,03

60,66%

HSBC

3,91

58,45%

ITAU

3,30

47,64%

BRADESCO

3,15

45,09%

UNIBANCO

2,91

41,09%

Taxa Média dos 5 bancos

3,46

50,41%

Fonte: Banco Central do Brasil - 14/11/08

Financiamento de veículos

O financiamento de veículos tem sido a modalidade de crédito que tem proporcionado o melhor resultado na carteira de crédito dos bancos, uma operação considerada de baixo risco para os bancos em razão da alienação fiduciária, a possibilidade de retomada do veículo em caso de inadimplência superior a 90 dias.

O motor das vendas, segundo especialistas, é o leasing (arrendamento mercantil).

As operações cresceram de 18% a 36% das unidades comercializadas, superando

o Credito pessoal, que recuou de 45% para 30%, enquanto as operações de

consórcio caíam de 5% para 3% e as vendas à vista, de 32% para 31% do total. O leasing é usado principalmente nas operações com prazo igual ou superior a 60

meses, que correspondem a 50% dos financiamentos 20 .

Tabela 9 - Taxa média de Juros - Aquisição de Bens(Veículos) -PF

BANCO

Taxa Média ao Mês

Taxa Média ao Ano

BRADESCO

2,42

33,23%

UNIBANCO

2,39

32,77%

ITAU

2,35

32,15%

HSBC

2,15

29,08%

SANTANDER

2,04

27,42%

Taxa Média dos 5 bancos

2,27

30,91%

Fonte: Banco Central do Brasil - 14/11/08

20 Disponível em: < http://www.estado.com.br/editorias/2007/12/09/eco-1.93.4.20071209.4.1.xml> Acesso em 13/12/08

VERSÃO PRELIMINAR

Taxas de juros mínimas e máximas praticadas pelos bancos

As taxas mínimas ou máximas foram divulgadas pelo Banco Central que só considera as taxas que foram efetivamente cobradas em alguma operação. Portanto, se um banco informou uma taxa de juro de 13,40% ao mês é porque, efetivamente, cobrou a taxa de algum cliente.

Bradesco Anunciou lucro de R$ 1,9 bilhão (em 2007 foi de R$ 1,85 bilhão) com resultado acumulado em 9 meses de R$ 6,01 bilhões. A carteira de crédito atingiu R$ 197 bilhões com crescimento de 41% nos últimos 12 meses. Os ativos totais alcançaram os R$ 422,7 bilhões 21 .

A manutenção do crescimento da carteira de credito para pessoa física, está garantido pelo crescimento da carteira de crédito consignado e financiamento de veículos (arrendamento mercantil). As operações apresentam baixo risco de inadimplência em razão do desconto em folha de pagamento e a alienação fiduciária que garante ao banco a retomada do veículo em caso de não pagamento em período superior a noventa dias.

Tabela 10 – Taxa de juros - Bradesco

   

14/11/2008

Taxa

Taxa

 

Bradesco

Mínima %

Máxima %

Taxa Média %

PREFIXADO - Pessoa Física

 

CHEQUE ESPECIAL

4,79

8,58

8,17

CREDITO PESSOAL

1,70

6,11

4,93

AQUI. BENS(VEÍCULOS) - PF

1,49

4,10

2,42

AQUI. BENS(OUTROS) - PF

1,85

4,10

3,15

Fonte: Banco Central do Brasil – 14/11/08

Itaú Divulgou resultado de R$ 1,8 bilhão no trimestre e R$ 5,9 bilhões no acumulado dos últimos 9 meses, ante os R$ 6,44 bilhões acumulado no mesmo período de 2007. A carteira de crédito atingiu R$ 164,5 bilhões com crescimento de 44,2% nos últimos 12 meses. Já os ativos totais totalizam atualmente R$ 396 bilhões 22 .

“No Itaú Unibanco a perspectiva é de que as novas concessões de crédito levam em conta o aumento da inadimplência no próximo ano e, por isso, as taxas de juros bancárias estão mais elevadas, o que inibe em parte a tomada de empréstimos por parte do consumidor afirmou Roberto Setúbal presidente do banco. "Temos a expectativa de um ano mais difícil pela

21 Disponível em:< http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL838038-9356,00- BRADESCO+OBTEM+LUCRO+MAIOR+NO+ANO+ATE+SETEMBRO+DE+R+BI.html> Acesso em

12/12/08

22 Disponível em: < http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL838316-9356,00- ITAU+REGISTRA+LUCRO+DE+R+BILHAO+NO+TERCEIRO+TRIMESTRE.html> Acesso em:12/12/08

VERSÃO PRELIMINAR

frente, com a elevação da inadimplência. Esse risco maior tem que ser precificado nas taxas", disse à imprensa após reunião com analistas e investidores . "Vai ser um aumento sensível, mas perfeitamente administrável", disse, acrescentando que não vê riscos de forte deterioração na carteira de veículos em nenhuma das duas instituições”. 23

Tabela 11 - Taxa de juros - Itaú

   

14/11/2008

Taxa

Taxa

 

Itaú

Mínima %

Máxima %

Taxa Média %

PREFIXADO - Pessoa Física

 

CHEQUE ESPECIAL

3,16

8,95

8,01

CREDITO PESSOAL

0,99

7,09

4,84

AQUI. BENS(VEÍCULOS) - PF

1,16

3,20

2,35

AQUI. BENS(OUTROS) - PF

2,98

3,55

3,30

Fonte: Banco Central do Brasil – 14/11/08

Santander O anunciou lucro de R$ 496,8 milhões no trimestre e de R$ 2,23 bilhões nos primeiros 9 meses, com avanço de 1,3% em relação a 2007. A carteira de crédito alcançou R$ 130,5 bilhões (25,5% de aumento)

O crédito para pessoa física chegou a um volume de R$ 57,25 bilhões, o que implica alta de 23% perante os R$ 46,53 bilhões do nono mês do calendário anterior. As operações de crédito para pessoa jurídica aumentaram 28,9%, para R$ 67,65 bilhões 24 .

Tabela 12 - Taxa de juros - Santander

   

14/11/2008

Taxa

Taxa

 

Santander

Mínima %

Máxima %

Taxa Média %

PREFIXADO - Pessoa Física

 

CHEQUE ESPECIAL

1,36

9,85

9,72

CREDITO PESSOAL

1,45

6,69

3,61

AQUI. BENS(VEÍCULOS) - PF

1,39

2,96

2,04

AQUI. BENS(OUTROS) - PF

2,44

5,82

4,03

Fonte: Banco Central do Brasil – 14/11/08

HSBC A queda em relação ao trimestre anterior foi de 51% em seu lucro líquido, de R$ 438,806 milhões para R$ 211,638 milhões. Em comparação com o mesmo

23 Revista Exame - Itaú Unibanco prevê ano mais difícil e inadimplência – 12/12/08 -

http://portalexame.abril.com.br/ae/economia/itau-unibanco-preve-ano-mais-dificil-inadimplencia-

207776.shtml

24 Disponível em:< http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL839940-9356,00- LUCRO+DO+GRUPO+SANTANDER+BRASIL+SOBE+NO+ANO+PARA+R+BI.html>. Acesso em

12/12/08

VERSÃO PRELIMINAR

período do ano passado, em que obteve R$ 233,145 milhões, a redução no lucro foi de 9,11%. Os ativos do banco cresceram 63,8% de um ano para o outro, passando de R$ 69,804 bilhões para R$ 114,338 bilhões. Entre trimestres, o crescimento foi de 17,28% 25 .

Tabela 13 - Taxa de juros - HSBC

   

14/11/2008

Taxa

Taxa

 

HSBC

Mínima %

Máxima %

Taxa Média %

PREFIXADO - Pessoa Física

 

CHEQUE ESPECIAL

1,46

9,25

9,05

CREDITO PESSOAL

1,90

7,60

4,32

AQUI. BENS(VEÍCULOS) - PF

2,15

3,95

2,15

AQUI. BENS(OUTROS) - PF

2,48

4,90

3,91

Fonte: Banco Central do Brasil – 14/11/08

Unibanco

O banco divulgou resultado de R$ 704 milhões no 3T08, com aumento de 5,6% em relação ao mesmo período de 2007. O resultado acumulado em 2008 é de R$ 2,2 bilhões com aumento de 16,8% em relação aos 9 primeiros meses de 2007. O banco administra R$ 178,5 bilhões em ativos dos quais R$ 74,3 bilhões estão alocados na carteira de crédito. A instituição cresceu em média 33% nos últimos 12 meses 26 .

Tabela 14 - Taxa de juros - Unibanco

   

14/11/2008

Taxa

Taxa

 

Unibanco

Mínima %

Máxima %

Taxa Média %

PREFIXADO - Pessoa Física

 

CHEQUE ESPECIAL

3,90

8,99

8,27

CREDITO PESSOAL

2,50

5,67

4,01

AQUI. BENS(VEÍCULOS) - PF

2,39

2,89

2,39

AQUI. BENS(OUTROS) - PF

1,62

3,50

2,91

Fonte: Banco Central do Brasil – 14/11/08

25 Disponível em: < http://www.dcidinheiro.com.br/noticia.asp?id_editoria=7&id_noticia=264078&editoria> Acesso em 12/12/08

26 Disponível em: < http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL835140-9356,00- UNIBANCO+ANUNCIA+LUCRO+DE+R+MILHOES.html >Acesso em 12/12/08

Inadimplência

VERSÃO PRELIMINAR

A oferta de crédito é um aspecto da expansão da atividade econômica do Brasil

que remete a outra questão, tão relevante quanto à expansão, que é a capacidade

de pagamento de quem já tomou crédito ao longo do período de forte crescimento

econômico.

A inadimplência é resultado do maior volume de crédito que é concedido a

consumidores, muito deles de baixa renda com pouca capacidade de pagamento, aumentando o risco do empréstimo e conseqüentemente, elevando as taxas de juros, dificultando o pagamento de parcelas em atraso. Qual a expectativa que se pode ter desse processo? Atualmente, o consumidor endividado, sobrevive graças à aquisição de um segundo empréstimo para pagar o primeiro, de um terceiro para pagar o segundo, e assim por diante.

Assegurar que essas dívidas sejam honradas é tão importante quanto à oferta de mais crédito. O problema é que a inadimplência passou a apresentar uma escalada preocupante.

“Os dados da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) mostraram que na primeira quinzena de novembro as parcelas com atraso superior a 15 dias avançaram 13,8%, na comparação com o mesmo período de 2007. Em relação ao índice de inadimplência de outubro, neste mês ocorreu expansão de 1,1 ponto percentual. Vale notar que, para os experientes analistas da ACSP, a alta da inadimplência reflete o excesso de endividamento dos últimos meses, que não pode ser vinculado ainda ao impacto da crise financeira internacional.O problema da inadimplência tem aspectos localizados, pontuais, que são especialmente graves.

A Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento

(Acrefi) apresentou dados que a inadimplência de veículos alcançou padrões muito excessivos, atingindo 9,3% no valor médio anual em agosto. Em setembro avançou ainda mais. É preciso observar que o crédito de automóveis representa mais da metade dos financiamentos concedidos às pessoas físicas no País. Os dados da Acrefi demonstram que 22% do crédito está concentrado em oferta consignada, de risco quase zero, porque é vinculada à folha de pagamento do tomador do empréstimo. Quando a inadimplência do setor de crédito para automóveis subiu demais, os bancos dobraram os cuidados e reduziram em outubro em14% o financiamento de carros novos e em 40% o de veículos usados. Foi o suficiente para paralisar as vendas e lotar os pátios das montadoras.” 27

Com a festa do crédito em expansão surgiram a partir de 2002 os primeiros sinais

do superendividamento. Cidadãos que recorrem às financeiras para complementar

27 Jornal Gazeta Mercantil – Inadimplência e crédito baixo contraem expansão 19-11-08 Disponível <http://indexet.gazetamercantil.com.br/arquivo/2008/11/19/59/Inadimplencia-e-credito- baixo-contraem-expansao.html> Acessado em 05/12/08

VERSÃO PRELIMINAR

a renda são sugados por uma espiral perversa e contraem empréstimos para

pagar empréstimos. Muitos são abordados nos grande centro de forma agressiva com o assedio dos vendedores de crédito das instituições financeiras, muitas delas pertencentes aos grandes bancos à caça de clientes.

Tabela 15 - Operações de crédito do sistema financeiro - Pessoa Física

   

Total

Data

Cheque

especial

Crédito

pessoal

Cartão de

Crédito

Aquisição

de veículos

Aquisição

de bens

Aquisição

de imóveis

Outras

Operações 2

Pessoa

Física 4

 

(inclui crédito

(rotativo e

veículos

bens

imóveis

consignado)

parcelado

3 )

mai-07

9,2

5,3

23,5

3,3

12,4

3,9

15,6

7,2

jun-07

9,4

5,5

23,1

3,2

12,6

3,6

14,1

7,1

jul-07

9,0

5,3

23,8

3,2

12,9

3,5

14,8

7,1

ago-07

9,5

5,4

24,1

3,2

12,8

3,3

15,8

7,2

set-07

9,6

5,4

22,7

3,3

12,7

3,4

15,1

7,1

out-07

8,6

5,3

24,4

3,1

12,8

3,3

15,2

7,0

nov-07

9,1

5,3

24,5

3,1

12,3

3,2

15,8

7,1

dez-07

10,6

5,3

24,9

3,0

12,4

2,9

13,7

7,0

jan-08

10,1

5,4

24,9

3,1

12,5

2,5

13,9

7,1

fev-08

10,0

5,2

24,5

3,2

12,6

2,8

17,2

7,1

mar-08

8,5

5,1

24,0

3,3

12,0

2,7

14,8

6,9

abr-08

8,3

5,1

25,4

3,5

12,9

3,1

15,4

7,1

mai-08

8,9

5,2

25,2

3,7

13,2

1,9

15,6

7,3

Fonte: Bacen. Elaboração: Febraban. Notas:

1/ Percentual do saldo em atraso superior a 90 dias. 2/ Outras Operações: Adiantamento a depositantes, renegociação de dívidas, desconto de cheque, de recebíveis e de fatura de cartão de crédito. 3/ Parcelado Banco 4/ Média ponderada do saldo das carteiras coam atrasos superiores a 90 dias

O acompanhamento da inadimplência do setor financeiro para pagamentos com

atraso de mais de 90 dias cresceu em média 7,1% nos últimos anos e se mantém nesse patamar considerado alto, comparado ao índice americano de 4% onde inclusive possui taxas de juros muito inferiores ás praticadas no Brasil.

O superendividamento é fruto de uma economia que cresce de forma instável e

insuficiente, com carência de empregos e de renda. Agrava-se com o elevadíssimo custo do dinheiro, que é alto e embute todo o risco que penaliza o bom pagador em decorrente do perfil do mau pagador que por sua vez, não se dar conta dos encargos financeiros a que se submete.

Análise dos contratos – Abusividade

VERSÃO PRELIMINAR

Análise das cláusulas abusivas nos contratos bancários por adesão, sob a ótica do Direito do Consumidor e dos Princípios Gerais de Contratação.

A vulnerabilidade técnica e jurídica do consumidor que utiliza os serviços

bancários apresenta-se a partir do desconhecimento das condições de como são formalizados os contratos das operações de crédito elaborados previamente pelos bancos e assinados somente pelo consumidor.

Outra questão refere-se à elaboração das cláusulas e sua aplicação caracterizando a abusividade de acordo com a jurisprudência jurídica no âmbito da aplicação do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor.

Ao abrir uma conta corrente, contratar um financiamento de veículo, contratar um cartão de crédito, ou qualquer outro serviço bancário, a maioria dos bancos emite contratos com conteúdo padronizado, conhecidos como “contratos por adesão” impressos previamente, com condições contratuais estabelecidas pelos bancos, sem que haja possibilidade do consumidor discutir o conteúdo das clausulas dos serviços contratados onde inexiste uma fase de negociação preliminar.

Dessa forma, o esquema contratual vem pronto, devendo o consumidor aceitá-lo integralmente sem nenhuma opção de rever a proposta, limita-se a aceitar o que lhe é imposto. Isso ocorre porque invariavelmente o consumidor é obrigado a aceitar essas condições, como parte da conjuntura econômica, onde ele é solicitado a utilizar um serviço bancário, seja para receber o salário, pagar contas e guardar suas economias, razão pela qual acaba aderindo a um tipo de serviço oferecido pelo banco.

Por um lado o contrato por adesão facilita e agiliza a contratação de serviço, por outro, apresenta um desequilíbrio nas relações contratual entre banco e consumidor. “Os bancos valendo-se da posição economicamente favorável, muitas vezes acabam por trazer ao contrato cláusulas abusivas que afrontam ao princípio da boa-fé, da lealdade, da tutela da confiança e do equilíbrio contratual. Dependente de explicações ou de informações técnicas alheias à sua compreensão, o consumidor contratante, adere a uma situação contratual sem conhecer a carga obrigacional e seu alcance, o que evidencia sua vulnerabilidade técnica e jurídica” 28 .

Com a entrada em vigor do CDC (Lei n. º 8.078, de 11.09.1990), as cláusulas

contratuais dos contratos bancários passaram a ser discutidas no âmbito jurídico

no aspecto de combate a abusividade. De acordo com o Capítulo VI Da Proteção

Contratual Seção II Das cláusulas abusivas – Art. 51, 52, 53 e 54.

28 BITTAR, Carlos Alberto. Os Contratos de Adesão e o controle de Cláusulas Abusivas. São Paulo:

Saraiva, 1991.

VERSÃO PRELIMINAR

As

cláusulas abusivas são aquelas notoriamente desfavoráveis à parte mais fraca

da

relação contratual, o consumidor, conforme o art. 4º, do Código de Defesa do

Consumidor no decreto 2181/97 e a Portaria n.º 3/99.

Banco

Contrato

Problemas encontrados

Santander

Contrato de financiamento ao consumidor final – Veículo

1.

Inclusão de tarifa cobrada pela

prestação de serviço de consulta de

cadastro (tarifa questionada pelos órgão de defesa do consumidor por ser custo do banco) no financiamento onerando o crédito.

 

2. Contrato previamente elaborado

3. Tamanho da letra do contrato reduzida

4. Nota promissória vinculada ao contrato

c/ vencimento à vista

Santander

Empréstimo em Folha – Contrato de Mútuo em Folha Santander

1.

Contrato padronizado para credito

consignado

2.

Desconto da parcela 36,58% acima da

 

Norma de 30%.

Crédito Consignado

3.

Prioridade do desconto em relação a

outras cobranças de mesma natureza.

4.

O cliente autoriza o empregador em

caráter IRREVOGÁVEL e IRRETRATÁVEL

a

descontar do seu salário e repassar para

o

banco.

Santander

Contrato de Empréstimo

1.

Financiamento da taxa de abertura de

crédito pessoal.

2.

Contrato previamente elaborado sem

assinatura das partes.

Santander

Contrato de Seguro Residencial

1.

Renovação automática sem autorização

do consumidor.

Santander

Contrato de adesão para abertura de conta

1. Contrato abertura de conta por adesão.

2. Emissão de cédula de crédito bancário.

 

3. Contrato de adesão de cartão de

crédito.

Itaú

Proposta de parcelamento com comunicado de cancelamento contratual

1. Cancelamento unilateral de contrato.

2. Contrato por adesão.

3. Letras miúdas.

Itaú

Cartão de Crédito

1. Envio de cartão adicional não solicitado

Itaú

Cartão de Crédito

1. Fatura com cobrança de anuidade de

cartão não solicitado.

2.

Cobrança de seguro de proteção

A dificuldade do consumidor em obter a cópia dos contratos nas diversas

operações realizadas junto aos bancos se caracteriza como o ato de maior

VERSÃO PRELIMINAR

abusividade contratual, a falta de informação e clareza das condições e serviços adquiridos na prestação de serviços.

Publicidade enganosa

A questão da publicidade no relacionamento entre bancos e consumidores

demonstra a necessidade de um acompanhamento mais rigoroso por parte dos órgãos de defesa e proteção ao consumidor mesmo com a existência de uma legislação especifica como o Código de Defesa do Consumidor. A relação das reclamações dos bancos registradas apresenta uma realidade onde os bancos não respeitam os consumidores, no atendimento, no fornecimento de informações claras e precisas, no fornecimento de documentos, contratos, extratos, cópias de cheques, transparência nas relações e prazos não cumpridos, entre outras.

Analisar a publicidade nas relações com o consumidor demonstra a preocupação decorrente do impacto que as ações tomadas pelos bancos interferem na vida das pessoas.

1. As operações do setor financeiro têm impactos significativos na economia

mundial.

2. As instituições financeiras são responsáveis por diferentes tipos de serviços,

como as operações financeiras de concessão de crédito a pessoas físicas e empresas, a movimentação de contas correntes e cobrança de tarifas, a movimentação do mercado acionário, emissão de títulos, entre outros, todos de extrema importância para os consumidores e a sociedade em geral. 3. As instituições financeiras podem influencias significativamente o comportamento de empresas que destroem o meio ambiente; que realizam práticas fraudulentas no mercado de ações; que exploram trabalhadores; coniventes com práticas de corrupção e lavagem de dinheiro; descumprem leis de proteção e defesa dos consumidores; etc.

4. Os bancos são um dos maiores financiadores de candidatos e partidos políticos

no

Brasil. As implicações dessa prática podem gerar impactos significativos sobre

as

decisões políticas do país, por exemplo, favorecendo um setor em detrimento

de

outro com leis e outros tipos de ações políticas.

5.

O setor financeiro é um dos que mais recebem reclamações nos órgãos de

defesa do consumidor 29 .

Na questão do atendimento, os bancos prometem tratamento especial com slogan que estimulam e evidenciam tratamento diferenciado como: Bradesco “Bradescompleto”; Itaú “Feito para você”; HSBC “Seu mundo de serviços financeiros”; Unibanco “O banco que nem parece banco” e Santander “O valor das idéias”.

29 Relatório IDEC - Avaliação comparativa da responsabilidade socioambiental dos bancos no Brasil – 22-02- 08 – www.idec.org.br

VERSÃO PRELIMINAR

O banco mostra para seu cliente que o banco não parece ser um banco como os

a

instituições bancárias. O banco faz com que o interlocutor o tenha como um “companheiro”, algo como sua “segunda casa”, torna a tarefa de lidar com o banco uma coisa agradável.

outros, tirando qualquer imagem ruim associada (dívidas, altos juros, etc

)

Quando o cliente procura uma agência bancária, os slogans caem por terra, o que existem de real são extratos com tarifas cobradas sem explicação ou acordo

prévio entre as partes, filas enormes, falta de informação, e campanhas de oferta

de crédito fácil e facilidades para realizar sonhos.

A publicidade

campanhas publicitárias.

enganosa

nos

bancos

é

facilmente

identificada

em

algumas

No início do relacionamento no processo de abertura de contas, o consumidor é negligenciado na maioria dos bancos porque não recebe a cópia do contrato assinado pelas partes, o que o banco fornece são propostas de adesão, aditivos entre outras terminologias, ou mesmo um contrato sem assinatura, quando entregam.

- Proposta Tarifa Zero - Unibanco

Com o intuito de atrair novos clientes para os serviços que oferecem, é cada vez mais freqüente o anúncio de isenção de mensalidades para a manutenção das contas dependendo da movimentação, ou seja, o consumidor é obrigado a adquirir produtos dos bancos como, seguros (vida, residencial, veículo), títulos de capitalização, plano de previdência, utilizar o débito automático de contas, para obter descontos na tarifa, o que apenas caracteriza uma transferência de recursos.

- Cartão de crédito Megabonus - Unibanco

Ofertar cartão de crédito com “Megabonus”, condicionando o consumidor a antecipar recursos na conta para posterior utilização e recompensa em bônus (Banco foi condenado judicialmente a pagar indenização por danos morais 13-05-

08).

- Unibanco 30 horas - Informar que o banco possui um sistema de atendimento de

30 horas, quando o atendimento é de 24 (telefone e internet) e 6 horas presencial,

ou seja, os três canais de atendimento não excedem 24 horas.

- Cartão de Crédito Free – Santander

Os bancos ousam agora cobrar pelo não uso do cartão de crédito. As instituições oferecem cartões “grátis”, mas, em contrapartida, vinculam o benefício ao seu uso

assíduo. Se não utilizar o cartão com a freqüência estipulada, o consumidor tem de pagar “tarifa de inatividade”, também denominada por alguns bancos como “tarifa de manutenção”.

- Cartão de Crédito – Santander

VERSÃO PRELIMINAR

Publicidade com desconto de 90% para pagamento de fatura em atraso e dificuldade para cancelar o cartão.

- As instituições insistem em negar que as tarifas de manutenção e de inatividade sejam “substitutas” da anuidade e cobradas para compensar o não pagamento da taxa convencional. A afirmação parece duvidosa, uma vez que os cartões de crédito usuais (que arrecadam anuidade) emitidos por esses bancos não cobram tais tarifas quando o serviço não é utilizado.

Cartões de crédito - Itaú

- Envio de cartão de crédito não solicitado – Itaucard

- Envio de Cartão adicional sem solicitação – Itaucard

- Proposta de parcelamento automático de saldo de fatura oferecendo vantagens para o consumidor aumentar o limite de crédito parcelando o saldo e conseqüentemente induzindo ao consumo - Banco Itaú

VERSÃO PRELIMINAR

Estatísticas sobre endividamento de consumidores

Os principais dados sobre a questão do superendividamento no Brasil, podem ser analisados a partir das pesquisas realizadas nos estados do Rio Grande do Sul (pioneiro nos estudos sobre a questão do superendividamento), juntamente com Rio de Janeiro e São Paulo.

Rio Grande do Sul - A partida para o estudo do problema foi dada em 2004 entre famílias que ganhavam até cinco salários mínimos. E os resultados já foram então estarrecedores: 80% dos que haviam contraído crédito eram tomadores passivos. Recorreram aos bancos por ter sido surpreendidos por um acidente na vida, seja doença, separação conjugal ou perda de emprego. Em 57% dos casos, o tomador do crédito nunca recebeu uma cópia do contrato. Apenas em 37% dos casos o credor explicou qual seria o montante total a ser pago. E em 77% dos casos não se pediu garantia alguma para a assinatura do contrato. “De lá para cá, a situação só tem piorado”, diz Adriana Burger, com base nos litígios que chegam diariamente ao conselho do consumidor gaúcho.

Rio de Janeiro - Outra pesquisa foi realizada em 2005, no Rio de Janeiro, coordenada por Rosângela Cavallazzi, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Heloísa Carpena, procuradora do Ministério Público Estadual. Os resultados são semelhantes aos realizados pelos profissionais. Com base no Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon), foram selecionados 80 endividados. Desses, 39% comprometiam 60% da renda, ou mais, em dívidas. Em 50% dos casos, o desemprego foi responsável pelo desequilíbrio financeiro. Apenas 37% receberam a cópia do contrato e em 88% das vezes não se pediu nenhuma garantia para o empréstimo.

São Paulo - O Procon de São Paulo desenvolve atualmente estudo semelhante. O projeto ainda está em fase piloto, de responsabilidade do Núcleo de Tratamento do Superendividamento. Um formulário é disponibilizado no site para ser preenchido e as informações podem ser enviadas pela própria internet ou por carta. São aceitos apenas casos de endividamento passivo (que ocorreu por algum infortúnio pessoal) e devedores com três diferentes credores ou mais.

VERSÃO PRELIMINAR

As políticas públicas de crédito e endividamento

Na visão do governo, o financiamento farto e barato aumenta o consumo e garante o funcionamento da economia, melhora o padrão de vida das pessoas, aumenta o faturamento das empresas, garante a geração de mais empregos, só que para essa relação funcionar é necessário que o sistema financeiro esteja em consonância com as metas do governo. O que no caso brasileiro, não acontece nessa ordem. Os bancos públicos não atendem as demandas do governo, reajustam tarifas e taxas de juros, penalizando o consumidor. “O mercado de crédito ainda é nanico no Brasil. Equivale a apenas 40% do PIB, quase uma insignificância diante da proporção atingida em outros paises. Nos Estados Unidos, é de 284%; na Coréia do Sul, 98%; e no Chile, 67%” 30 .

Segundo Marques, “A massificação do acesso ao crédito, que se observa nos últimos 5 anos – basta citar os novos 50 milhões de clientes bancários – a forte privatização dos serviços essenciais e públicos, agora acessíveis a todos, com qualquer orçamento, mas dentro das duras regras do mercado, a nova publicidade agressiva sobre crédito popular, a nova força dos meios de comunicação de massa e a tendência de abuso impensado do crédito facilitado e ilimitado no tempo e nos valores, inclusive com descontos em folha de pagamento e de aposentados, pode levar o consumidor e sua família a um estado de superendividamento” 31 . Trata-se duma uma crise de solvência e liquidez, que facilmente resulta em sua exclusão total do mercado de consumo, parecendo uma nova espécie de “morte civil”.

Para a professora doutora Claudia Lima Marques da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a expansão do crédito ao consumo, sem uma legislação forte que acompanhasse a massificação do crédito amparada somente pelo Código de defesa do Consumidor e o principio geral de boa fé, criou por um lado, uma profunda crise de solvência e confiança no país, não só na classe média como também nas classes de renda baixa, resultando num forte aumento do lucro dos bancos e promovendo a inclusão no sistema bancário de aposentados e consumidores de baixa renda e de outro, multiplicou as ações individuais de pessoas físicas endividadas em revisionais no Judiciário, muitas sem sucesso, com aumento de risco de conflitos, abuso nas relações de crédito, reclamações junto aos órgãos de defesa do consumidor, resultando no sentimento de impunidade e insatisfação o sistema financeiro.

30 MING, Celso. O fator político do crédito – Jornal O Estado de S.Paulo 13/12/08 – Economia Pág. B2

31 MARQUES, Claudia L.Direitos do Consumidor Endividado – Pg 260

Projetos desenvolvidos no Brasil I

Projetos do Estado Rio Grande do Sul

VERSÃO PRELIMINAR

O Rio Grande do Sul foi o estado pioneiro a se deter sobre o superendividamento.

A pesquisa foi concebida por Claudia Lima Marques, professora da Universidade

Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e levada a cabo pela equipe acadêmica em conjunto com o Núcleo Civil da Defensoria Pública gaúcha.

As juízas de Direito da Comarca de Charqueadas, Karen Bertoncello, e de Sapucaia do Sul, Clarissa Costa de Lima, são exemplos de sensibilidade nas questões do superendividamento. Baseadas nos dois municípios situados na região metropolitana de Porto Alegre, lançaram, no fim do ano passado, a Cartilha do Superendividado, com dez mandamentos para evitar a armadilha do crédito e testes para checar o enquadramento na “doença” da dívida. Pode soar ingênuo à primeira vista, mas é um importante instrumento de conscientização, sobretudo para a população de baixíssima renda (até dois salários mínimos), que bate às portas da Justiça gaúcha sufocada por débitos 32 .

Na comarca de Charqueadas, Karen diz ter havido acordo em 90% dos casos atendidos. “Há uma mudança de mentalidade em relação a dívidas”, diz Karen. Segundo ela, trata-se do resgate do direito do cidadão, de dignidade, com a reorganização da vida financeira e até prevenção contra a criminalidade e a violência doméstica. A juíza conta que, a partir da cartilha, as pessoas sentem-se confortadas a procurar o Fórum e relatar as dificuldades. E, a exemplo dos Juizados de Pequenas Causas, o processo é rápido. Chamam-se os credores e os devedores e, em uma audiência, espera-se a resolução do caso. “Há a repactuação do débito a juro mais baixo e até descontos em propostas para pagamento à vista”, afirma a juíza. “As partes saem do Fórum com a decisão homologada na hora.”

Projeto de Conciliação – Rio Grande do Sul

O projeto foi descrito pelas autoras, junto ao Conselho Nacional de Justiça área de

atuação proposta: tratamento das situações de superendividamento do consumidor exposição de motivos 33 :

32 PINHEIRO, Márcia - A Armadilha do Crédito – A oferta de empréstimos triplica em seis anos, o que é bom para a economia. Mas surge um universo de consumidores superendividados, seduzido pela publicidade de dinheiro fácil- Revista Carta na Escola – Edição 16- http://www.cartanaescola.com.br/edicoes/2007/16/a- armadilha-do-credito

33 Projeto desenvolvido pelas juízas do Rio Grande do Sul, Dra. Clarissa Costa de Lima 2º Vara Judicial de Sapucaia do Sul – RS e Káren Rick Danilevicz Bertoncello 2a Vara Judicial de Sapiranga – RS. Disponível em < http://www.superendividamento.org.br/ > acessado 01/12/08

VERSÃO PRELIMINAR

“O endividamento é um fato inerente à vida em sociedade, ainda mais comum na atual sociedade de consumo. Para consumir produtos e serviços, essenciais ou não, os consumidores estão – quase todos – constantemente se endividando. A nossa economia de mercado seria, pois, por natureza, uma economia do endividamento. Consumo e crédito são duas faces de uma mesma moeda, vinculados que estão no sistema econômico e jurídico de países desenvolvidos e de países emergentes como o Brasil. O superendividamento pode ser definido como a impossibilidade global de o devedor pessoa física, consumidor, leigo e de boa-fé, pagar todas as suas dívidas atuais e futuras de consumo (excluídas as dívidas com o fisco, oriundas de delitos e de alimentos)” 34 .

Este fenômeno do superendividamento, já tratado na doutrina nacional, com destaque à obra da Prof. Cláudia Lima Marques 35 , foi objeto de pesquisa empírica inédita no Rio Grande do Sul, sob sua coordenação, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em conjunto com o Núcleo Civil da Defensoria Pública do mesmo Estado, com 100 casos de superendividamento de consumidores pessoas físicas.

As proposições da pesquisa visavam a oferecer elementos ao Ministério da Justiça para a elaboração de um anteprojeto de lei acerca do tratamento das situações de superendividamento.

Contudo, os resultados obtidos revelaram um cenário socialmente dramático , indicando a necessidade de solução imediata, ainda na ausência de legislação especial. Neste contexto, o presente projeto objetiva suprir a momentânea falta de previsão legal para as situações de superendividamento dos consumidores com a finalidade de reinserção social dos indivíduos e dos núcleos familiares no mercado que se encontram impossibilitados ou com dificuldades de adimplir suas dívidas.

Para tanto, valemo-nos das legislações existentes sobre o tema no Direito Comparado como a exemplo da França, que inseriu no seu Código de Consumo

título específico a partir do artigo L.333-1, sendo identificada, ainda, na Suécia (Lei de maio de 1994), na Alemanha (InsO 5/10/94 EgInsO em vigor em 1º de janeiro de 1999), na Áustria (konkursordnungs – novelle – 1993), na Dinamarca (Gaeldssanering 1984), na Finlândia (Lei em vigor a partir de 08 de fevereiro de 1993), na Bélgica (Lei em vigor a partir de 01 de janeiro de 1999) e nos Estados Unidos da América (Bankruptcy Code – 1978), demonstrando a repercussão,

, e a insuficiência das legislações consumeristas ou

não, até então destinadas aos particulares, notadamente porque alheias, no mais

enquanto fenômeno mundial

36

34 MARQUES, Cláudia Lima. Sugestões para uma lei sobre o tratamento do superendividamento de pessoas físicas em contratos de crédito ao consumo: proposições com base em pesquisa empírica de 100 casos no Rio Grande do Sul. In: Direitos do consumidor endividado: superendividamento e crédito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, p.256.

35 MARQUES, Cláudia Lima. Contratos no Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004.

36 ANDORNO, Luis O. L’endettement: rapport Argentin Paris: L.G.D.J., 1997, p. 57

VERSÃO PRELIMINAR

das vezes, ao fenômeno identificado como fonte de “exclusão social” 37 nos países desenvolvidos. No mesmo sentido, Portugal, os Países Baixos, Reino Unido, Noruega, Suíça e Luxemburgo dispõem de legislação específica ou estão em vias de elaborá-la 38 . Por fim, registramos a inspiração, quanto ao procedimento adotado, na experiência da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, que já iniciou as renegociações extrajudiciais com grande êxito.

MODALIDADES: conciliação paraprocessual e conciliação processual.

DÍVIDAS ABRANGIDAS: vencidas ou a vencer, créditos consignados, contratos de crédito ao consumo em geral, contratos de prestação de serviços (essenciais ou não), ausência de limitação do valor da dívida.

DÍVIDAS EXCLUÍDAS: alimentícias, fiscais, créditos habitacionais, decorrentes de indenização por ilícitos civis ou penais.

PRESSUPOSTOS DO SUPERENDIVIDADO: pessoa física, de boa-fé, que não tenha contraído crédito para o exercício de suas atividades profissionais e com qualquer renda familiar.

PROCEDIMENTO:

1) Preenchimento de formulário padrão com as informações prestadas pelo superendividado, o qual será advertido de que a sua boa-fé será medida de acordo com a veracidade dos dados fornecidos. O formulário estará disponível, inicialmente, na Direção do Foro, na Defensoria Pública e/ou nos Juizados Especiais Cíveis, onde não for criado setor próprio de conciliação. O procedimento será isento de custas processuais, uma vez que a condição de superendividado equivale à previsão legal do artigo 1o da Lei n.1.060/50.

2) Disponibilização de pauta de audiência já no momento do preenchimento do formulário-padrão, ficando o superendividado intimado para a audiência de renegociação.

3) Remessa de carta-convite padrão, preferencialmente via eletrônica, para a audiência de renegociação a todos os credores arrolados pelo superendividado. Para tanto, será ajustado o fornecimento de endereço eletrônico dos credores.

4) AUDIÊNCIA DE RENEGOCIAÇÃO: sessão coletiva com possibilidade de sessões individuais com cada credor e o superendividado, preferencialmente no mesmo dia e turno, a fim de preservar a agilidade do Projeto e a garantia da preservação do mínimo existencial do superendividado.

37 SAUPHANOR, Nathalie. l’influence du droit de la consommation sur le système juridique. Paris: L.G.D.J., 2000, p.273

38 BARRERO, Vicente Toledano. La protección al consumidor sobreendeudado. In: Crédito al consumo y transparencia bancaria. Madrid: Editorial Civitas, 1998, p.491.

VERSÃO PRELIMINAR

5) ACORDO EXITOSO NA CONCILIAÇÃO PARAPROCESSUAL: homologação pelo Juiz de Direito coordenador do Projeto, constituindo título executivo judicial.

6) ACORDO EXITOSO NA CONCILIAÇÃO PROCESSUAL: homologação pelo Juiz de Direito coordenador do Projeto, constituindo título executivo judicial.

7) ACORDO INEXITOSO NA CONCILIAÇÃO PARAPROCESSUAL: o superendividado é orientado a procurar a satisfação do seu direito pelas vias ordinárias, na Justiça Comum ou JEC.

8) ACORDO INEXITOSO NA CONCILIAÇÃO PROCESSUAL: o processo será devolvido à vara de origem para o regular prosseguimento.

EFEITOS DA RENEGOCIAÇÃO a serem consignados no termo de acordo:

1) As dívidas vencerão antecipadamente caso o superendividado:

a. Preste dolosamente falsas declarações ou produza documentos inexatos com o

objetivo de utilizar-se dos benefícios do procedimento de tratamento da situação de superendividamento;

b. dissimule ou desvie a totalidade ou parte de seus bens com objetivo de fraudar

credores ou a execução;

c. sem o acordo de seus credores, agrave sua situação de endividamento

mediante a obtenção de novos empréstimos ou pratique atos de disposição de seu patrimônio durante o curso do procedimento de tratamento da situação de

superendividamento.

2) Incidência de cláusula penal;

3) Acordo conjunto, identificando valor de cada dívida e seu respectivo credor.

VERSÃO PRELIMINAR

Projetos desenvolvidos no Brasil II – São Paulo

Fundação Procon-SP - Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor Núcleo de Tratamento do Superendividamento

O projeto

Tratamento do Superendividamento Neide Ayoub.

pela

do

Procon-SP

foi

elaborado

coordenadora

do

Núcleo

de

Em 6 de maio de1976, através do Decreto Estadual 7890, com a denominação de

Grupo Executivo de Proteção ao Consumido, era criado primeiro órgão de defesa do consumidor do Brasil.

A Lei nº 9.192, de 23 de Novembro de 1995, regulamentada pelo Decreto nº

41.170, de 23 de setembro de 1996, alterando a sua constituição jurídica, criou a Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor, órgão vinculado a Secretaria de da Justiça e da Defesa da Cidadania, do Estado de São Paulo, com personalidade jurídica de direito público, autonomia técnica , administrativa e financeira, com o objetivo de elaborar e executar a política estadual e proteção e defesa do consumidor.

Para isso, o órgão conta com um corpo técnico multidisciplinar que desenvolve atividades nas mais diversas áreas de atuação, tais como: educação para o consumo; recebimento e processamento de reclamações administrativas, individuais e coletivas, contra fornecedores de bens ou serviços; orientação aos consumidores e fornecedores acerca de seus direitos e obrigações nas relações de consumo; fiscalização do mercado consumidor para fazer cumprir as determinações da legislação de defesa do consumidor; acompanhamento e propositura de ações judiciais coletivas; estudos e acompanhamento de legislação nacional e internacional, bem como de decisões judiciais referentes aos direitos do consumidor; pesquisas qualitativas e quantitativas na área de defesa do consumidor; Suporte técnico para a implantação de Procons Municipais Conveniados, entre outros.

Em 2006, atento as necessidades impostas pelo novo contexto econômico social e

político do país, decorrente de uma forte expansão do mercado de crédito ao consumidor de baixa renda, a Fundação Procon, no desempenho de suas funções, criou o Núcleo de Tratamento do Superendividamento.

A partir das pesquisas realizadas sob a coordenação das Professoras Claudia

Lima Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Rosângela Lunardelli Cavallazzi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, observou-se a importância da conscientização dos consumidores na contratação do crédito, bem

como a necessidade de ações preventivas, e ainda a necessidade de se rever o papel do poder publico, em sua tutela. Considerando a função social dos contratos, em especial os de relação de consumo, bem como, a necessidade de condutas mais responsáveis - não só daqueles que tomam, mas também daqueles que concedem o empréstimo - tendo em vista, ainda, o elevado número de casos

VERSÃO PRELIMINAR

de inadimplência, a expansão desordenada do crédito facilitado, a Fundação PROCON/SP, através do Núcleo de Tratamento de Superendividamento vem desenvolvendo mecanismos de tratamento desse grave problema social.

Desde a estabilidade da moeda conquistada com o Plano Real, o governo tem procurado aquecer o mercado de crédito às pessoas físicas. No Brasil atual, o consumo das famílias movimenta 60% do PIB. Com efeitos que não desequilibram o déficit público tampouco as contas externas, o crédito tem sido importante instrumento de elevação do consumo em um país cujo desempenho do PIB tem sido modesto já algumas décadas. Como resposta a tal incentivo, os agentes financeiros gradualmente passaram a atrair consumidores das classe D e E, composta por pessoas de baixo grau de instrução, com ofertas de crédito fácil, através de estratégias agressivas de marketing tornando esse seguimento do mercado crédito altamente competitivo.

Observa-se, por exemplo, que para seduzir o consumidor ao crédito, as instituições financeiras passaram a substituir o espaço hostil e constrangedor das agencias bancárias – com sua portas- giratórias, profissionais de nível sócio econômico superior, operações complexas – pelas lojas de departamento, supermercados, ou seja, locais e vendedores mais próximos e familiar ao seu convívio e que tornam a contratação do crédito, uma atividade prazerosa de compra a prazo. Muitas vezes, os consumidores são levados a contrair empréstimos em suas próprias residências, através da abordagem dos “pastinhas”, intermediário da contratação de crédito, criado com a edição da Resolução 3110 e, ainda, os serviços de telemarketing, que possibilitam a contratação por telefone.

Faz também parte das estratégias de marketing, a divulgação do crédito com artistas de forte apelo popular, em horários de grande audiência na TV aberta, como novelas, programas de auditório, jornais dirigidos, com mensagens sedutoras e pouco ou nada esclarecedora de suas reais finalidades.

Merece destaque o grande incentivo, intensificado desde 2007, aos financiamentos imobiliários e de veículos automotores, setores cujas cadeias produtivas – construção civil e indústria automobilística são grandes geradores de emprego e de aquecimento da economia. Com prolongamentos de prazos sem precedentes, planos de financiamento sem entrada, prazos de carência e taxas de juros mais atrativas – ainda que equiparáveis as mais altas do planeta – os agentes financeiros atraem consumidores ingenuamente ávidos por realizar seus vários sonhos de consumo por meio do “crédito fácil”.

Este processo tende a se intensificar, como se depreende das recentes medidas anunciadas pelo governo para o enfrentamento a crise financeira mundial. Há forte preocupação em manter elevada a liquidez dos bancos que atendem o público consumidor de baixa renda, como meio de se evitar o desaquecimento da economia, como a liberação de 10 bilhões para o Crédito Consignado, pela Caixa

VERSÃO PRELIMINAR

Econômica Federal e os 8 bilhões, liberados pelos bancos Nossa Caixa e do Brasil, as Instituições Financeiras vinculadas a montadoras de veículos.

Atentos a esse cenário de intensificação dos casos de superendividamento resultante dessa política macro econômica, abraçada pelas Instituições Financeiras, em intenso descompasso com o nível de maturidade da classe receptora, ou seja, consumidores hipervulneráveis em face da atuação abusiva do segmento, a Fundação Procon, no desempenho de suas atribuições de órgão de defesa do consumidor desenvolve, através de seu Núcleo de Tratamento do Superendividamento, projetos para o atendimento individual de consumidores superendividados – inspirados nos trabalhos da Professora Claudia Lima Marques, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Professora Rosangela Cavalazzi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro –, bem como ações preventivas e protetivas voltadas a conscientização dos abusos cometidos pelo mercado de crédito, destinadas não apenas aos consumidores, mas aos profissionais que necessitam de apóio para uma maior integração produtiva na defesa dos consumidores vítimas de um mercado tão oneroso quanto agressivo.

Projeto Piloto Um dos desdobramentos dessa iniciativa foi a realização de um projeto Piloto de Atendimento ao Superendividado Passivo, com a promoção de audiências coletivas (consumidor e seus credores), visando o restabelecimento do crédito e a reinserção do superendividado assistido ao mercado de consumo.

Após a definição de um público alvo – superendividados passivos com três ou mais credores, filtro adotado em função das dificuldades de expansão do grupo de atendimento – foi divulgado para a imprensa o funcionamento do Núcleo.

As pessoas que se enquadrassem nesse perfil poderiam se cadastrar no site do Procon ou enviar uma carta para a caixa postal do órgão e aguardar posterior análise interna e tratamento da situação. Adotamos tais canais de atendimento devido a impossibilidade de direcionamento dos superendividados ao atendimento convencional, já insuficiente para a demanda usual do órgão.

No momento em que o Núcleo recebeu um número significativo de casos, o atendimento via internet foi interrompido, e assim se mantém até que uma nova estruturação do projeto permita o atendimento a toda essa demanda. Assim, no período de 01/12/2006 a 22/12/2006, foram registrados 1200 acessos e 507 questionários preenchidos. No período de 01/12/2006 a 30/04/2007, foram recebidas 84 cartas pelo atendimento via caixa postal.

Após uma filtragem automática através de um programa construído por nossa assessoria de informática, em que o próprio sistema opera respostas eletronicamente – quando o interessado pertencer a outro município (grande procura), outro estado ou tratar-se de pessoa jurídica ou sem valor para negociação ou, breve relato da causa de seu superendividamento – uma nova

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triagem dos formulários restantes era feita através de analises individuais dos breves relatos das causas do superendividamento. Ao constatarem a inviabilidade de atendimento, era emitida correspondência/e-mail prestando esclarecimentos e encerrando o expediente. Caso o interessado se enquadrasse em nosso perfil, era chamando para uma entrevista e apresentação da documentação comprobatória dos fatos alegados. Para o atendimento dos 28 consumidores aprovados após a seleção, foram agendadas audiências com todos os credores envolvidos, via e- mail, fax e contato telefônico. Nos contatos, foram expostos o objetivo do núcleo, a sua responsabilidade social e a importância de se recolocar o consumidor no mercado do consumo.

Houve tentativa de negociação com inúmeros credores, a partir das condições pessoais do consumidor. Até mesmo os superendividados que não compareceram às entrevistas receberam novo contato para uma tentativa de negociação. Ao final deste período, que durou pouco mais de 4 meses, foram renegociadas dívidas com 97 credores.

Após esta primeira experiência e com os casos finalizados, foi então proposto pela diretoria do órgão, ao Núcleo, um período de estruturação com o levantamento de infraestrutura necessária a atender os casos, a partir das diversas experiências obtidas neste período. Com este intuito vimos propondo a universidades a celebração de convênios a partir do trabalho voluntário de seus estudantes que poderão contar as cargas horárias trabalhadas para efeito de currículo, em seus respectivos cursos. Estão em estudos propostas de celebração de convênios com a PUC – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e São Francisco do Pari, para serem postos em prática no ano letivo de 2009.

Observamos que todas as atividades dessa primeira fase foram desenvolvidas por apenas dois funcionários fixos.

Para realizar a estruturação do Núcleo de Tratamento do Superendividamento, tivemos o apoio da FEA/USP, através do PESC Programa de Extensão de Serviços à Comunidade que atende Entidades Privadas Sem Fins Lucrativos, associações ou fundações, enfim, entidades voltadas a atividades de filantropia, educação, saúde, arte, culto, esporte, proteção ao meio ambiente, dentre outras.

Por meio desta análise, desenvolvida pelo PESC foi possível estimar quantos funcionários são necessários para determinado numero de atendimentos.

Demais ações:

Por fim, através do PESC, conseguimos estabelecer uma parceria com a prof. Vera Rita de Mello Ferreira, dentro da área de psicologia econômica. Nos últimos anos, economistas, psicólogos, psicanalistas e afins, vêem se aprofundando no estudo do comportamento psicológico nas decisões econômicas e Economia Comportamental, Finanças Comportamentais, Psicologia Econômica são áreas

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que tem estudado os processos mentais que levam a tomada de decisões das pessoas endividadas.

Consideramos que a educação financeira do consumidor, não pode ser construída sem os fundamentos da psicologia econômica, ou matérias que considerem os fatores emocionas como elementos decisivos na hora da compra, principalmente em uma sociedade em que se adquire status na exata medida dos bens e serviços que se consome, dentro de quadro de elevada desigualdade social. Nosso Gini, coeficiente que varia de zero a 100 (sendo zera uma distribuição perfeita, 100 uma concentração plena (1 indivíduo com toda a renda do país), de 2007 coloca o país entre os doze mais desiguais do mundo, com um índice a 57,0.

Por isso, está em processo a elaboração de filmes educativos, bem como oficinas voltadas aos aspectos emocionais na tomada de decisões, através do Pronasci – Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania do Governo Federal que tem por fim desenvolver ações visando à redução da delinqüência e violência infantil e juvenil. Considerando que o superendividamento, por vezes, tem sido seu fato gerador, o Procon passou a integrar o Programa e para isso está programou a realização de oficinas educativas nos CICs - Centros de Integração da Cidadania, programa do Governo do Estado de São Paulo, desenvolvido pela Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania. Esses Centros visam proporcionar, além do acesso à Justiça, o incentivo à cidadania comunitária. Conta com dez postos fixos localizados em regiões periféricas da cidade de São Paulo (Norte, Sul, Leste e Oeste), Guarulhos, Ferraz de Vasconcelos, Francisco Morato e Campinas. Faz parte do Programa desenvolvido no Procon o PROJETO PILOTO – ORIENTAÇÃO PSICO-ECONÔMICA DE PREVENÇÃO A ENDIVIDAMENTO E CONSUMISMO EXCESSIVOS, VIOLÊNCIA E PARA PROMOÇÃO DA CIDADANIA EM PARCERIA COM A PROFESSORA VERA RITA DE MELLO FERREIRA

O Procon, também passou a integrar o Grupo de Trabalho Temporário - GT,

constituído conforme aviso 510/2008 a todos os Promotores de Justiça com atribuições na defesa dos interesses do consumidor, pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, para o enfrentamento das questões relacionadas ao Crédito Consignado e Superendividamento. O GT foi criado em função do elevado número de beneficiários e funcionários públicos atingidos, bem como a

forma de anúncios e ofertas com artistas de poder de persuasão e , ainda a falta

de informações, em completo desrespeito ao CDC art. 6, com que a divulgação e

a contratação são realizadas. Complementando, o Grupo procurará tratar das fraudes possíveis através da contratação eletrônica permitida pelo sistema, principalmente pela possibilidade de atingir pessoas idosas e deficientes e, ainda, a venda de porta em porta, apenas os bancos chegam. São pessoas distantes de qualquer informação mais acessíveis aos correspondentes bancários que contratam substabelecidos que vão as residências dos beneficiários. Para fazer frente a essa capilaridade penso que apenas as agências do INSS poderiam proporcionar. São aproximadamente 200, distribuídas pelas 15 regiões administrativas, no Estado de São Paulo. Conversando com os beneficiários, nas ag6encias em que realizamos uma pesquisa para mapear os problemas mais

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recorrentes, foi possível constatar que, contrariando orientações do INSS, os substabelecidos vão às casas das vítimas, inclusive com máquina copiadora, para xerocar toda a documentação necessária à fraude e pedem a assinatura de um contrato em branco.

PROCON – PRONASCI

PROJETO PILOTO – ORIENTAÇÃO PSICO-ECONÔMICA DE PREVENÇÃO A ENDIVIDAMENTO E CONSUMISMO EXCESSIVOS, VIOLÊNCIA E PARA PROMOÇÃO DA CIDADANIA

A elaboração da proposta de parceria entre o Procon e Pronasci foi elaborado

pelas coordenadoras do projeto, Vera Rita Mello Ferreira (Pronasci) e Neide Ayoub (Procon).

O projeto-piloto de orientação psico-econômica está fundamentado em dados de

pesquisas realizadas pela Psicologia Econômica sobre comportamento econômico

e tomada de decisão, com ênfase sobre os erros sistemáticos, habitualmente

cometidos pela maioria das pessoas, e decorrentes de limitações cognitivas e emocionais nos processos de percepção e avaliação dos dados. Considerando-se que decisões econômicas envolvem “alocação de recursos escassos”, podemos esperar a geração de conflitos internos e externos nessa administração dos bens finitos que vão do dinheiro ao tempo, passando pelos recursos naturais, a atenção e o esforço e chegando, em alguns casos, a situações de violência.

Estes estudos nos permitem identificar os chamados vieses, que são maneiras rápidas e imprecisas de análise das alternativas em situação de escolha, em que componentes emocionais possuem enorme peso, em detrimento de julgamentos mais ponderados sobre a realidade. Como resultado, tem-se resultados desfavoráveis como compras por impulso, uso indiscriminado do crédito, sobre- endividamento, baixos índices de poupança e contribuições previdenciárias, repetição de equívocos pela dificuldade de aprendizado nessas situações, problemas ambientais e, entre jovens em condição de exclusão social, aumento da vulnerabilidade ao recurso da violência como meio para obter produtos que prometem satisfação imediata dos anseios por alívio de tensão interna, aceitação social, poder e felicidade.

Ao esclarecer a população sobre seu próprio funcionamento psíquico e, em especial, sobre a fragilidade de nossa mente no que diz respeito à correta discriminação dos cenários presentes e futuros, os conhecimentos da Psicologia Econômica vêm se contrapor aos apelos do marketing que, igualmente de posse de informações equivalentes, utiliza-as com a finalidade de vender produtos – e ilusões –, muitas vezes bombardeando o consumidor com mensagens que atingem suas vulnerabilidades emocionais (que não são poucas, diga-se de passagem).

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Dessa forma, o esclarecimento dos cidadãos sobre seu processo decisório implicaria não apenas um aumento de informação, como também conscientização e empoderamento. Por não se restringir a instrumento pedagógico ou educacional, visa a própria emancipação e desenvolvimento das pessoas, uma vez que este conhecimento lhes permitiria apropriar-se de suas decisões, no lugar de se deixar levar pelas pressões externas (do marketing ou grupos de referência, por exemplo) ou internas (originadas de nossa própria arquitetura psíquica, que nos mantém em permanente estado de insatisfação; dar-se conta deste aspecto, por exemplo, sinaliza para a futilidade dos esforços de buscar alívio com a ajuda de produtos ou bem-estar comprado, e para a importância de se desenvolver estratégias para enfrentar os desafios das inevitáveis frustrações).

Com foco prioritário sobre jovens e adolescentes de baixa renda, sem contudo

excluir adultos e idosos, este projeto contempla intervenções de comunicação em 4 tipos de veículos:

1. rádio

2. vídeo

3. musica

4. internet

Para cada um deles, seriam desenvolvidos os seguintes produtos:

1. 5 programas de vídeo de 3’

2. 5 inserções de rádio de 1.5’

3. 5 pop-up’s para website

4. 5 letras e música de rap para shows e apresentações de atividades culturais

5. 5 jingles para sinalizar e identificar a campanha, que acompanhariam os produtos acima

O conteúdo de cada produto seria dramatizações a respeito dos vieses descritos acima, fornecidos pelas pesquisas psico-econômicas, dentre as quais podem ser citados:

- trocas intertemporais – comprar a prazo para ter o bem já, mesmo pagando mais ou se endividando, ou ter a disciplina de planejar a compra futura e conseguir adiá-la até que seja possível?

- vulnerabilidade às ilusões – com exemplos de contos do vigário e golpes comuns;

- contas mentais – cálculos que fazem ‘mágica’ com o dinheiro, pondo em risco a real situação financeira – p.e., destinar o 13 o . a muito mais coisas do que aquele dinheiro de fato alcançaria;

- viés de retrospecto – dificuldade para lembrar-se corretamente de decisões passadas que tiveram resultados desfavoráveis, e ao invés, douram-se as memórias, como se tivesse dado tudo certo;

- comportamento de manada – suscetibilidade a acompanhar os movimentos grupais, sem parar para pensar se é esse o caso ou se lhe convém; costuma vir acompanhado de outras distorções, como

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fantasias de que todos estão se dando muito bem, e se não os imitar, será o único “otário”, e regras de decisão em cascata;

- aversão à perda sempre, o que se reflete em aversão a risco em situações de ganhos possíveis, mas em atração por risco quando o contexto é de perdas inevitáveis;

- confiança excessiva – acreditar demais na própria capacidade de ter sucesso, desconsiderando precauções que deveriam ser tomadas, por achar que dará um jeito depois;

- desconto hiperbólico subjetivo – otimismo exagerado sobre a própria condição de ter auto-controle no futuro, embora se depare, sistematicamente, com a falta de controle quando o futuro se torna presente

- efeito posse (o que é meu vale mais, só porque é meu) e os efeitos de emoções negativas sobre ele – quando triste, por exemplo, o viés é substituído por tendências a pagar mais pelo que é do outro, e baixar o preço ao vender seus próprios bens;

- enquadramento – tendência a enxergar apenas partes do cenário, com conseqüente idealização ou demonização de situações, pessoas ou aspectos da própria personalidade, por exemplo.

Estes são apenas alguns exemplos de distorções causadas pelos vieses, que seriam contextualizados e transformados em breves sketches ou música.

Com o objetivo de melhor adaptar essas idéias ao público-alvo e, ao mesmo tempo, já encorajar sua disseminação entre esse segmento da população e lhe dar voz, seriam buscadas produtoras de comunicação e músicos entre esse mesmo grupo, como por exemplo entre iniciativas dessa natureza nas periferias de grandes centros urbanos,. Em paralelo, universitários que já trabalham em parceria com o Observatório Social da Fundação PROCON também poderiam participar como atores das dramatizações.

Este projeto-piloto seria uma primeira iniciativa em direção a um amplo programa de orientação psico-econômica, traduzido como ação direta sobre políticas

públicas, que poderia funcionar como núcleo inicial para outras iniciativas como:

- fórum de avaliação conjunta do programa, com a participação de jovens, parceiros do PRONASCI e pesquisadores de Psicologia Econômica;

- construção coletiva de antídotos às tentações do consumo e pressões do marketing;

- convênios com emissoras de TV, como MTV e TV Cultura;

- inserção em telenovelas.

Referências bibliográficas:

FERREIRA, V.R.M. Psicologia Econômica – estudo do comportamento econômico e da tomada de decisão. Campus/Elsevier, 2008. Decisões Econômicas – você já parou para pensar? Saraiva, 2007.

Considerações Finais

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Esse trabalho apresenta uma fotografia acerca do problema do superendividamento, que como problema social já está comprovado aqui, a fim de sugerir um tratamento jurídico para diminuir o problema, cargo de efetivas políticas públicas (sociais, econômicas) que enfrentariam a raiz do problema: a macroeconomia em relevo.

A apresentação das condições de mercado através da relação de crédito e

consumo existente entre consumidores e os cinco bancos selecionados para o estudo (Bradesco, Itaú, Santander, Unibanco e HSBC) aponta para uma necessidade de fortalecimentos das ações para o combate as práticas abusivas, garantia de negociação das dívidas, desoneração dos juros, uma vez, que as

taxas de juros embutem o risco de inadimplência maior, para garantir que o banco

se exponha mais ao mercado, ou seja, para ser menos seletivo e conceder maior

volume de crédito, aumentando o risco, transfere para a taxa de juros a exposição da possível inadimplência sem ser restritivo. Garantindo maior volume e penalizando o consumidor de boa fé que garante a pontualidade de seus pagamentos com elevadas taxas de juros.

Para se reverter esse processo é necessário que seja preservada as condições de oferta de crédito, livre da exagerada manipulação publicitária, proporcionar o conhecimento de todos os termos do contrato de forma clara e precisa. Impor limites ao abuso da vontade do fornecedor de crédito é a proibição das cláusulas abusivas e publicidade enganosa.

O contrato é o mais importante instrumento para manutenção do consumidor

numa sociedade informatizada e de marketing: o efeito vinculante da publicidade, o banco fica vinculado juridicamente à oferta publicitária que fizer ao consumidor, não podendo alterar as bases negociais no futuro. Portanto, a decisão do consumidor de comprometimento do seu orçamento para o futuro terá tido bases transparentes e de segurança jurídica. Assim, se a oferta publicitária fala em taxa de juros de 10%, não terá validade à cláusula contratual de juros de 12%, por exemplo.

Tendo em vista que o superendividamento envolve também e fundamentalmente problemas de política de crédito e de direito do consumidor, o Código de Defesa do Consumidor é uma grande lei, mas ela não é focada para esse problema que precisaria de uma legislação externa, com ela um diálogo, mas sem dúvida muito especializado. Enquanto essa legislação está sendo pensada, nós achamos importante assegurar a intervenção do estado, pois no Brasil os exemplos que deram mais certo são os que a presença do estado está assegurada. Uma mudança de paradigma do tratamento e da prevenção do superendividamento que deve ser pensada. Hoje é um paradigma muito liberal, muito individual, é uma idéia de culpa própria do consumidor. Em outros países com sociedades consolidadas, esse é um problema social, político e também jurídico.

VERSÃO PRELIMINAR

Este foi um estudo preliminar que deve representar o início de estudos mais aprofundados dos temas aqui abordados. O Idec e o Procon-SP darão continuidade a este trabalho.

Bibliografia

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BITTAR, Carlos Alberto. Os Contratos de Adesão e o controle de Cláusulas Abusivas. São Paulo: Saraiva, 1991.

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LIMA, Clarissa C, Crédito responsável e superendividamento, Suspensão do desconto de empréstimo consignado Revista Direito do Consumidor Editora RT nº 65 out-dez 2007.

MARQUES, Claudia L. Direitos do Consumidor Endividado – Sugestões para uma lei sobre o tratamento do superendividamento de pessoas físicas em contrato de crédito ao consumo: proposições com base em pesquisa empírica de 100 casos no Rio Grande do Sul - Ed. Revista dos Tribunais Pg. 260

OLIBONI, Marcella L.C.P. Direito do Consumidor Endividado - O superendividamento do consumidor brasileiro e o papel da defensoria pública:

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OLIBONI, Marcella L.C. P. O superendividamento do consumidor brasileiro e o papel da defensoria pública: criação da Comissão de Defesa do Consumidor

Superendividado. Revista do Consumidor, São Paulo: RT, n.30, p.49-65, abr-jun.

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PINHEIRO, Márcia - A Armadilha do Crédito –Revista Carta na Escola – Edição 16- http://www.cartanaescola.com.br/edicoes/2007/16/a-armadilha-do-credito

Relatório IDEC - Avaliação comparativa da responsabilidade socioambiental dos bancos no Brasil – 22-02-08 – www.idec.org.br