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5.1 Introdução

5 PRECIPITAÇÃO

A precipitação constitui-se no principal componente de entrada do ciclo hidrológico. É

através da precipitação que se dá a entrada de água na bacia hidrográfica e seu comportamento no espaço e no tempo é um dos principais responsáveis pelas respostas

hidrológicas da bacia hidrográfica. Portanto, as taxas de escoamento superficial e infiltração de água no solo, estão intimamente relacionadas às características da precipitação.

A precipitação é vital para a sobrevivência na Terra. A agricultura e o abastecimento

de água são as atividades de maior susceptibilidade às oscilações comportamentais do regime das chuvas e à ocorrência de fenômenos climáticos associados à precipitação, como granizo, neve, geada e secas prolongadas. Existem também situações nas quais a precipitação pode se tornar perigosa, produzindo perdas, inclusive de vidas humanas, e ambientais, destacando-se a erosão, o transporte de sedimentos e inundações. A minimização dos efeitos negativos da precipitação começa com uma boa interação entre as atividades humanas e a natureza, com destaque para o uso adequado do solo, com o objetivo final de melhor aproveitar o recurso água. Este capítulo tem por finalidade fornecer subsídios técnicos para um bom entendimento das características das precipitações, associadas, na maioria das vezes, às chuvas nas condições tropicais e subtropicais. Alguns aspectos gerais sobre a atmosfera da Terra, fenômenos responsáveis pelo regime pluvial das regiões e formação e tipo das precipitações serão apresentadas e discutidas. Uma abordagem sobre chuvas intensas também será apresentada, assim como técnicas para espacialização e mapeamento da

chuva.

5.2 Noções gerais sobre a atmosfera terrestre

A atmosfera terrestre constitui-se de uma camada gasosa que envolve o planeta,

formada por uma mistura de gases cuja composição varia em função do tempo, posição geográfica, altitude e estação do ano. Todas as reações físico-químicas e termodinâmicas que tornam possível a vida na Terra ocorrem ao longo das diferentes camadas da atmosfera. Sua constituição basicamente é a seguinte:

a) ar seco (constituição fixa, em %):

- Nitrogênio (N 2 ): 78,084%

- Oxigênio (O 2 ): 20,948%

- Argônio (Ar): 0,934%

- Neônio (Ne): 1,8x10 -3 %

- Hélio (He): 5,2x10 -4 %

- Metano (CH 4 ): 2x10 -4

- Criptônio (Ko): 1,14x10 -4 %

- Hidrogênio (H 2 ): 5x10 -5 %

- Xenônio (Xe): 8,7x10 -6 %

b) gás carbônico (CO 2 ): 0,033%

c) vapor d’água (H 2 O): 0 – 7%

d) Ozônio (O 3 ): 0 – 0,01%

e) Dióxido de Enxofre (SO 2 ): 0 – 10 -4 %

f) Dióxido de Nitrogênio (NO 2 ): 0 – 10 -6 %

g) Aerossóis: partículas sólidas em suspensão de origem orgânica e inorgânica.

O vapor d’água presente na atmosfera, por conseqüência da evaporação da superfície e transpiração das plantas, está constantemente presente em quantidades que variam de quase zero nas regiões desérticas e polares até 7% em florestas tropicais e equatoriais e algumas regiões litorâneas. A concentração de vapor d’água varia no tempo e no espaço, sendo importante caracterizá-lo ao longo do ano para uma mesma região .Mesmo em áreas consideradas úmidas a concentração de vapor d’água pode ficar baixa em determinadas estações do ano, como algumas regiões do Brasil durante o inverno.

A atmosfera é estratificada em camadas, sendo dividida em alta e baixa atmosfera. A primeira possui influência apenas indireta na formação da precipitação e consequentemente, no ciclo hidrológico e é formada pela mesosfera e termosfera, respectivamente. A baixa atmosfera, portanto, é a que interessa para a hidrologia, e é dividida em 3 camadas:

- Troposfera: apresenta espessura variável (18 km na região equatorial e 9 km nos pólos) sendo o principal meio de transporte de massa e energia, responsável direta pelo ciclo hidrológico. Portanto, a hidrometeorologia concentra seus estudos nesta camada da atmosfera. A presença de ozônio (O 3 ) na troposfera significa poluição atmosférica, sendo provocada principalmente pela combustão de veículos.

- Tropopausa: fina camada que separa a estratosfera da troposfera.

- Estratosfera: possui espessura variável com pequena variação vertical de temperatura. É na estratosfera que se encontra a camada de ozônio (O 3 ) que protege a Terra de raios ultravioletas.

Deve-se salientar que há um gradiente decrescente de temperatura com a altitude, produzindo, em média, redução de 1 o C a cada 180 m de altitude, na troposfera. Nas partes mais elevadas da troposfera, a temperatura pode atingir –50º C. Além da temperatura, há redução da pressão atmosférica com a altitude, devido à redução da concentração da camada de gases à medida que se afasta da Terra, verificando-se por conseqüência, menor concentração de oxigênio, gerando uma situação de ar rarefeito, típico das regiões de altas cadeias de montanhas.

5.2.1 Circulação geral da atmosfera

É basicamente na troposfera que ocorrem os fenômenos meteorológicos de maior

interesse para a hidrologia. Nela existe uma circulação contínua de massas de ar, tanto no

sentido horizontal (ventos) como no vertical (correntes de ar). A circulação das massas de ar obedece à existência de gradientes de pressão, podendo-se identificar, de forma geral, as seguintes zonas:

a) Faixa equatorial de baixas pressões: formação da zona de convergência intertropical, com ventos fracos e chuvas intensas (ar quente e úmido);

b) Faixa subtropical de altas pressões: latitudes aproximadas de 30º N/S, com ventos alísios em direção ao Equador;

c) Faixa polar de baixas pressões: latitudes aproximadas de 60º N/S, recebendo ventos de origem polar (frentes frias intensas);

d) Calotas polares de altas pressões

A Figura 5.1 ilustra as zonas terrestres com o comportamento da pressão e direção

predominante de ventos. Os gradientes de pressão ocorrem devido a um aquecimento desigual da atmosfera terrestre e variando ao longo do ano para uma mesma região.

Figura 5.1 Representação das zonas terrestres com indicação da direção predominante dos ventos e comportamento

Figura 5.1 Representação das zonas terrestres com indicação da direção predominante dos ventos e comportamento da pressão atmosférica.

Nas regiões de latitudes médias (30º N/S) há convergência de ventos, com os de origem polar, formando as zonas de convergência extratropicais (hemisférios Norte e Sul), com encontro do ar quente com o ar frio, formando as chamadas frentes, com o primeiro sendo deslocado para cima do segundo, por se mais leve, formando um forte gradiente de temperatura entre as massas. Neste caso, eventos meteorológicos importantes são formados, caracterizando de forma marcante, o comportamento do ciclo hidrológico nas mesmas, com chuvas de longa duração e média a baixa intensidade. No território brasileiro é possível identificar 5 tipos básicos de massas de ar. A caracterização de uma massa de ar é baseada em códigos compostos por duas letras, sendo a primeira minúscula e a segunda maiúscula. A letra minúscula está associada à origem da massa, ou seja, se é marítima ou continental. A segunda letra refere-se à característica da massa, sendo tropical, polar ou equatorial, cada uma com uma característica termodinâmica específica. Assim, tem-se as seguintes massas atuantes no Brasil:

Marítima Equatorial (mE): refere-se a uma massa de ar com origem no Oceano Atlântico equatorial, caracterizada por alta concentração de umidade e calor. Esta massa circula do mar para o continente em latitudes próximas ao Equador, por meio da circulação de ventos alísios, levando importante concentração de vapor d’água para esta região;

Continental Equatorial (cE): esta massa de ar tem origem na região Equatorial, notadamente, na região Amazônica, sendo responsável pela condução de grande quantidade de vapor d’água, especialmente durante o verão, para grande parte do Brasil (Sul, Sudeste e Centro-Oeste). É responsável por volumes importantes de chuva durante o verão nestas regiões.

Marítima Tropical (mT): a mT tem origem no Oceano Atlântico tropical e desloca-se em direção ao continente levando umidade para a região litorânea. Contudo, ao se deslocar para o interior do país esta massa perda umidade, vindo a se caracterizar como uma massa seca e quente. Predomina nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e em parte do Sul do Brasil durante o inverno, notadamente entre julho e setembro, gerando um período seco prolongado nestas regiões.

Marítima Polar (mP): a mP tem origem no extremo sul da América do Sul e consiste de uma massa de ar fria e normalmente seca, que acompanha as frentes frias especialmente durante o inverno. É responsável pelas baixas temperaturas no Sudeste e Sul do Brasil durante o inverno, resultando em geadas e precipitação de neve em algumas regiões. Dependendo de sua intensidade pode atingir até a região Amazônica, gerando o fenômeno da friagem nesta região.

Continental Tropical (cT): esta massa é semelhante à mT, porém, sua atuação no Brasil é geograficamente limitada, atuando na região de fronteira com o Paraguai, não tendo a mesma importância das anteriores.

5.2.2 Fenômenos atmosféricos que governam o regime de chuvas no Brasil Existem vários fenômenos atmosféricos que explicam o comportamento do regime pluvial no Brasil. Determinados fenômenos são específicos para cada uma das regiões, sendo que alguns são comuns entre as mesmas. Desta forma, apresenta-se na seqüência os fenômenos que controlam o regime de chuvas em cada uma das regiões do Brasil.

a) Região Sul

A região Sul do Brasil está totalmente inserida na Zona Extratropical do hemisfério sul, portanto consiste de uma região que recebe com alta freqüência e intensidade (em relação às outras regiões brasileiras) principalmente sistemas ciclônicos, com destaque para as frentes frias, as quais atuam ao longo de todo o ano. Nesta região não há um período seco característico. Além das frentes frias, há também a presença de eventos convectivos durante o verão, com presença importante de umidade oriunda da região Amazônica e do

próprio Oceano Atlântico. Há ainda a formação de ciclones extratropicais, os quais são formados pelo acúmulo de umidade, normalmente oceânica, em áreas de baixa pressão atmosférica. Este fenômeno tem sido responsável por grandes quantidades de chuva na região Sul, provocando deslizamentos e inundações de grande magnitude. Indiretamente outros fenômenos podem atuar nesta região, tais como Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) e o Anti-Ciclone do Atlântico Sul (ACAS), porém, sem a mesma importância que para outras regiões do país.

b) Região Sudeste

Os fenômenos atmosféricos que atuam na região Sudeste são praticamente os mesmos que atuam na região Sul, porém, com intensidades e freqüências menores. As frentes frias também são responsáveis por parcela significativa da precipitação, sendo possível detectar sua presença ao longo de todo o ano, especialmente nas áreas mais ao sul da região. Os eventos convectivos também são muito importantes durante o verão, formando-se as linhas de instabilidade com umidade oriunda da região Amazônica e do Oceano Atlântico. No entanto, durante o verão, a ZCAS consiste de um fenômeno que tem atuação direta sobre o regime pluvial, especialmente em latitudes inferiores a 20º. As ZCAS são formadas pela convergência entre ventos na região Amazônica (de NW e de NE), proporcionando a formação de um canal de umidade entre esta região a região Sudeste, sendo responsável por grandes volumes de chuva entre dezembro e fevereiro. Em circunstâncias especiais, há atuação concomitante das ZCAS e frentes frias, produzindo chuvas de grande magnitude e vários dias chuvosos durante o verão. Na região Sudeste é importante destacar ainda a influência do ACAS, o qual atua durante o período de outono/inverno, consistindo de um fenômeno que impede a aproximação de frentes frias

bem como organização de nuvens, sendo o responsável pelo período seco característico da região.

c) Região Centro-Oeste

Nesta região, os fenômenos mais atuantes são os eventos convectivos, ZCAS, ACAS e frentes frias. Por se tratar de uma região muito grande em termos territoriais, a atuação dos fenômenos é diferenciada. Na porção sul da região, as frentes frias são mais atuantes enquanto que nas demais áreas, os eventos convectivos e ZCAS são mais importantes. Além disto, nesta região, a atuação do ACAS é bastante intensificada, produzindo um período seco mais prolongado que o Sudeste, com áreas em latitudes inferiores 15º apresentando índices muito baixos de umidade relativa durante o período de inverno. Contudo, estas áreas são muito influenciadas por umidade oriunda da região

Amazônica

no

verão,

produzindo

totais

precipitados

anualmente

consideravelmente

elevados.

d) Região Norte

A região Norte do Brasil apresenta os maiores totais precipitados do país, os quais podem atingir, em algumas áreas, valores superiores a 4.000 mm. É totalmente influenciada

pela Floresta Amazônica, a qual produz grandes volumes de vapor d’água devido à evapotranspiração da floresta e parcela importante deste processo precipita na própria região, na forma de eventos convectivos. Além desta influência direta, há ainda fluxos de umidade de origem oceânica, que combinados com a umidade de origem amazônica, bem como convergência de ventos alísios, formam um importante canal de umidade conhecido como Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), sendo responsável por grande quantidade de precipitação na região.

e) Região Nordeste

A região Nordeste é caracterizada por zonas distintas no tocante à precipitação. A faixa litorânea apresenta totais anuais superiores a 1200 mm, sendo influenciada por umidade oceânica bem como pela ZCIT. No interior da região, estes totais não ultrapassam 800 mm e existem áreas extensas com totais inferiores a 400 mm, caracterizando o clima como semi-árido. Nesta região, a ZCIT pode produzir algum fenômeno de precipitação, embora de forma pouco freqüente e o principal fenômeno que governa seu regime pluvial consiste de uma Célula de Hadley, que basicamente, diz respeito a um centro de alta pressão atmosférica, evitando a penetração de massas de ar. Além deste aspecto, existe também o efeito orográfico da Serra da Borborema que impede que massas úmidas sejam propagadas em direção ao interior da região, impedindo o contato com umidade oriunda da costa nordestina. O sul da região, quando frentes frias mais intensas adentram no território brasileiro, pode receber influência deste fenômeno, porém numa baixa freqüência de ocorrência. Na Figura 5.2 apresenta-se o mapa de precipitação média anual do Brasil, onde observa-se grande variabilidade espacial da mesma, sendo um reflexo dos fenômenos destacados acima.

Figura 5.2 Mapa de precipitação média anual para o Brasil. 5.2.3 Conceito de umidade atmosférica

Figura 5.2 Mapa de precipitação média anual para o Brasil.

5.2.3 Conceito de umidade atmosférica

É importante destacar algumas definições meteorológicas para o melhor entendimento dos fenômenos associados à precipitação:

a) Umidade atmosférica: representa a concentração de vapor d’água na atmosfera,

que embora em pequenas quantidades quando comparado a outros gases é de suma importância para formação das precipitações. A quantidade máxima de vapor d’água que o ar pode conter varia diretamente com a temperatura, sendo denominada de pressão de saturação do vapor.

b) Umidade relativa: expressa a quantidade atual de vapor d’água em relação à quantidade máxima que o ar atmosférico pode conter neste instante.

UR

t

(

%

)

=

e

t

es

t

× 100

(1)

Em que UR t , e t e es t são, respectivamente, a umidade relativa, as quantidades atual e de saturação do vapor d’água da atmosfera no instante t. O parâmetro e t é determinado por:

e

t =

p

pa

(2)

Em que p e pa são, respectivamente, a pressão atmosférica e a pressão do ar seco.

c) Ponto de orvalho: é a temperatura na qual o ar úmido, mantendo a mesma pressão, sofre saturação (deslocamento de A para C, na Figura 5.3, com resfriamento da atmosfera);

d) Ponto de condensação: é a temperatura que adquire o ar úmido quando, evoluindo adiabaticamente (sem troca de calor), atinge um nível em que e t = es t (deslocamento de B para D), ocorrendo a precipitação;

A Figura 5.3 representa uma curva de saturação destacando-se os pontos descritos acima e seu comportamento padrão.

os pontos descritos acima e seu comportamento padrão. Figura 5.3 Curva de saturação representando alguns pontos

Figura 5.3 Curva de saturação representando alguns pontos de interesse do processo de precipitação.

O ponto B representa uma situação atmosférica de supersaturação, que naturalmente tende a deslocá-lo até a curva de saturação, em busca de uma situação de equilíbrio. O trajeto B-D representa a ocorrência de chuva normalmente num dia quente e úmido, pois o sistema busca “desafogar” esta condição de supersaturação provocada por gradiente de pressão atmosférica. O ponto A representa uma situação do ar atmosférico não saturado, ou seja, as condições atmosféricas não são favoráveis à precipitação. A partir deste ponto duas situações podem ocorrer para que haja precipitação: um resfriamento do

sistema ou aumento da pressão de vapor. Ambos promoverão precipitação, sendo o

primeiro característico de formação de orvalho e o segundo por aumento da concentração de vapor d`água, oriundo, por exemplo, de uma frente fria. A umidade atmosférica apresenta o seguinte comportamento regional:

- Tende a decrescer com o aumento de latitude, porém, como a UR é uma função inversa da temperatura, esta tende a aumentar;

- Máxima sobre os oceanos, decrescendo à medida que avança para o interior dos continentes;

- Decresce com a elevação e é maior sobre áreas vegetadas do que sobre solo descoberto; Ocorre também uma variação temporal da seguinte forma:

- É máxima no verão e mínima no inverno 1 .

- Variação diária: mínima ao nascer do sol e máxima por volta de 2 horas, ocorrendo o inverso com a UR.

5.2.4 Processos de transporte de energia

Todos os processos climáticos são regidos por fluxos de energia. A radiação é a

principal delas, pois é a energia solar que ativa o ciclo hidrológico. A radiação se apresenta nas formas:

- Solar: de ondas curtas e alta intensidade energética;

- Terrestre: alto comprimento de onda e baixa intensidade energética;

Além da radiação, a condução e a convecção são as outras formas de transmissão de calor presentes, uma vez que o ar próximo da superfície terrestre se aquece,

transmitindo o fluxo de energia. As principais características da condução e convecção são:

- Condução: fluxo de energia através da matéria, por atividade molecular interna (sem movimento de massa); vapor d’água e CO 2 são os principais absorventes de energia e a transmitem por contato;

- Convecção: devido ao aquecimento do ar, este apresenta redução na sua densidade. O ar nas proximidades da superfície terrestre tende a tornar-se mais leve, porém, devido às irregularidades da superfície, este aquecimento ocorre de forma desigual, resultando no aparecimento de forças ascendentes que elevam o ar mais quente. Na ascensão, o ar expande e resfria; quando sua densidade se iguala à do ambiente, cessa-se o processo de ascensão.

1 Para tipos climáticos Cwa, Cwb e Aw pela classificação de Köppen, característicos de grande parte do Brasil.

O gradiente de temperatura na troposfera é de 6,5 o C km -1 . Na estratosfera, as

condições são aproximadamente isotérmicas. O gradiente vertical de temperatura influi nas condições de estabilidade atmosférica, da seguinte forma:

- Gradiente de temperatura da transformação adiabática seca: a taxa de decréscimo da temperatura de uma partícula de ar não saturado que se eleva adiabaticamente é de 1 o C a cada 100 m de altitude.

- Gradiente de temperatura da transformação adiabática saturada: o ar saturado com vapor d’água se condensa, liberando calor latente de vaporização, fazendo com que a taxa de resfriamento seja reduzida (0,54 o C/100 m) nas camadas inferiores da atmosfera, tendendo ao valor da adiabática seca em grandes altitudes, devido à diminuição do vapor d’água. Para que o processo seja adiabático é necessário que o produto da condensação permaneça no sistema ao longo da ascensão, ou seja, que não ocorra precipitação (não há troca de energia com o meio externo).

5.3 Aspectos característicos da precipitação

5.3.1 Tipos de precipitação Precipitação é toda forma de umidade oriunda da atmosfera que se deposita sobre a superfície terrestre. Destacam-se as seguintes formas:

a) Chuva: é a principal forma de precipitação, especialmente em regiões tropicais e subtropicais. A precipitação atinge a superfície na forma líquida e todos os processos gerados por esta situação correspondem a um dos principais ramos aplicados da hidrologia.

b) Granizo: situação em que a precipitação ocorre na forma de partículas irregulares de gelo, com tamanho mínimo de 5 mm. O granizo é formado pelo congelamento instatâneo de gotículas, produzido por forte ascenção atmosférica do vapor d’ água;

c) Neve: é uma forma de precipitação na qual há formação de flocos de gelo com formatos normalmente hexagonais, em nuvens muito frias (abaixo de 0 o C).

d) Orvalho: esta é uma forma de precipitação na qual a água contida na forma de vapor na atmosfera sofre condensação e precipita nas diferentes superfícies. Isto ocorre porque corpos sólidos perdem calor mais rápido para a atmosfera, sofrendo resfriamento em relação ao ar atmosférico. O ar úmido, ao atingir estas superfícies frias, também sofre resfriamento, o qual se for suficiente para atingir a

curva de saturação, proporciona o processo de condensação (ponto A em direção ao C na Figura 5.3). e) Geada: a formação de geada é semelhante ao do orvalho. No entanto, neste caso, o ponto de orvalho na curva de saturação é abaixo de zero, havendo um processo de sublimação, com a água precipitando-se diretamente na forma sólida (gelo).

Na Tabela 5.1 destacam-se algumas características físicas dos principais tipos de precipitação em regiões tropicais.

Tabela 5.1 Características físicas de alguns tipos de precipitação.

Tipo de

Intensidade

Diâmetro médio das gotas (mm)

Velocidade de queda para os diâmetros médios (m/s)

precipitação

(mm/h)

Nevoeiro

0,25

0,2

--

Chuva leve

1 a 5 15 a 20

0,45

2,0

Chuva forte

1,5

5,5

Tempestade

100

3,0

8,0

5.3.2 Formação das chuvas A umidade atmosférica é o elemento básico e embora seja necessário, não é suficiente para formação da chuva, havendo necessidade da existência de outros requisitos, tais como: mecanismos de resfriamento do ar, presença de núcleos higroscópicos para que haja condensação do vapor e um mecanismo de crescimento das gotas. Os principais núcleos de condensação são partículas de sal (oriundas dos oceanos), pólen, argila, cristais de gelo e partículas provenientes de processos industriais, como ácido nítrico e ácido sulfúrico, as quais, quando em concentrações elevadas, promovem formação de precipitações ácidas, comuns em algumas regiões industriais. O ar úmido das camadas inferiores aquecido por condução, sofre ascensão adiabática até atingir a condição de saturação (nível de condensação), por resfriamento. A partir deste nível, em condições atmosféricas favoráveis e com existência de núcleos higroscópicos, o vapor d`água sofre condensação, formando minúsculas gotas em torno desses núcleos, que são mantidas em suspensão até que, por um processo de crescimento, adquira tamanho suficiente para vencer as forças de ascensão que exercem resistência às gotas, e então precipitar. Os principais processos de crescimento das gotas são:

Coalescência: o aumento se deve ao contato com outras gotas através da colisão (turbulência do ar, forças elétricas e movimento Browniano). Na queda, gotas maiores alcançam as menores, incorporando-as e por ação da resistência do ar, são “partidas”, liberando outras gotas menores e assim por diante (Figura 5.4).

Difusão: o ar, após atingir o nível de condensação, continua evoluindo e difundindo o vapor supersaturado e sua conseqüente condensação em torno das gotículas, as quais aumentam seu tamanho.

em torno das gotículas, as quais aumentam seu tamanho. Figura 5.4 Representação do processo de coalescência

Figura 5.4 Representação do processo de coalescência (Adaptado de Lutgens & Tarbuck,

1989).

As gotículas que constituem as nuvens possuem tamanhos que variam de 0,01 a 0,03 mm de diâmetro. As gotas de chuva propriamente ditas apresentam diâmetros bem superiores, variando de 0,5 a 2,0 mm, podendo atingir valores de até 5 mm. Isto propicia volumes 10 6 vezes maiores.

No caso de nuvens frias, que produzem precipitação na forma de neve, a teoria de formação das nuvens foi elaborada pelo pesquisador norueguês Thorn Bergeron e pode ser resumida da seguinte forma: gotículas de água suspensas no ar podem se encontrar em estado líquido, mesmo a temperaturas menores que 0 o C. Ao entrarem em contato com

partículas sólidas, conhecidas como núcleos de congelamento, similares a cristais de gelo,

as gotículas se solidificam. O fator termodinâmico principal que explica o fenômeno é de que

a pressão de vapor nos cristais de gelo (núcleos de congelamento) é inferior à de

minúsculas gotas frias, com temperatura menor que 0 o C, pelo fato dos cristais de gelo

serem formados por ligações mais fortes (< entropia) que na forma líquida, ocorrendo migração intensa de gotículas para os cristais, que crescem à medida que incorporam mais moléculas de água. Assim, podem atingir tamanhos grandes para precipitarem, ocorrendo aumento dos cristais à medida que descem no interior das nuvens. Por fim, o movimento do

ar rompe os cristais, produzindo além de novos núcleos de congelamento, flocos de neve. É

importante mencionar que a existência destes núcleos de congelamento na atmosfera é restrita a algumas regiões do Planeta, sendo, genericamente, para latitudes acima de 30º

N/S e ou altitudes superiores a 3000 m.

5.3.3 Tipos de chuvas

O esfriamento adiabático é a principal causa da condensação e o responsável pela maioria das precipitações. Assim sendo, o movimento vertical (correntes) das massas de ar é um requisito importante e em função das condições que o produz e do meio físico, as precipitações se classificam em Ciclônicas, Orográficas e Convectivas.

5.3.3.1 Precipitações Ciclônicas

São associadas a movimentos de massas de ar de regiões de alta pressão para regiões de baixa pressão atmosférica. Classificam-se em:

a) Não Frontal: convergência horizontal de massas de ar quente e úmidas para regiões com baixa pressão, promovendo, na seqüência, elevação e resfriamento. Esquematicamente, na Figura 5.5 tem-se:

Figura 5.5 Formação de chuva ciclônica do tipo não frontal produzida por uma frente quente.

Figura 5.5 Formação de chuva ciclônica do tipo não frontal produzida por uma frente quente.

b) Frontal: resulta da ascensão do ar quente sobre o ar frio na zona de contato entre duas massas de características diferentes, situação comum nas zonas de convergência extratropical, com encontro do ar frio polar com o ar quente. São freqüentes em latitudes maiores que 20º. Esquematicamente, na Figura 5.6, tem-se:

maiores que 20º. Esquematicamente, na Figura 5.6, tem-se: Figura 5.6 Formação de chuva ciclônica do tipo

Figura 5.6 Formação de chuva ciclônica do tipo frontal produzia por uma frente fria.

Uma característica fundamental das precipitações frontais é que estas são de longa duração e intensidade de baixa a moderada, cobrindo grandes áreas, sendo fundamental no contexto de recarga de aqüíferos. No entanto, podem gerar inundações importantes em grandes bacias. Na região Sudeste do Brasil, durante o verão, ocorrem chuvas provenientes

de sistemas frontais, oriundos do sul do continente os quais, combinados a sistemas convectivos típicos e comuns no verão, há grande concentração de chuvas.

5.3.3.2 Precipitações Orográficas

Resultam da ascensão mecânica de massas de ar úmidas sobre barreiras naturais, tais como montanhas. Normalmente, apresentam alta intensidade. No Brasil, as principais precipitações orográficas ocorrem na região do Vale do Paraíba, litoral sul de São Paulo e na região Nordeste, cujos obstáculos são, respectivamente, as Serras da Mantiqueira, do Mar e da Borborema, que geram barreiras de difícil transposição às massas de ar úmido e quente formadas sobre o Oceano Atlântico. Na Figura 5.7 tem-se um esquema típico da ocorrência de chuvas orográficas.

um esquema típico da ocorrência de chuvas orográficas. Figura 5.7 Esquema geral da ocorrência de uma

Figura 5.7 Esquema geral da ocorrência de uma chuva orográfica.

5.3.3.3 Precipitações Convectivas

São típicas de regiões tropicais e equatoriais, no entanto, são comuns também em regiões de clima temperado no verão. Sua explicação básica consiste no aquecimento diferenciado da superfície terrestre, provocando aquecimento desigual das camadas atmosféricas, produzindo estratificação térmica da atmosfera, que fica instável. Qualquer perturbação romperá este equilíbrio, provocando a ascensão brusca e violenta do ar quente, capaz de atingir grandes altitudes. Numa 1 a etapa ocorre formação de nuvens do tipo Cumulus e numa 2 a etapa, Cumulonimbus, as quais apresentam, além de chuva

propriamente dita, descargas atmosféricas. São precipitações de alta intensidade, curta duração e concentradas em pequenas áreas, sendo importantes para a hidrologia urbana e de pequenas bacias hidrográficas. Também consiste no principal tipo de precipitação de interesse para estudos de conservação do solo, pois possui elevada energia cinética e consequentemente, elevado potencial erosivo. Na Figura 5.8 apresenta-se um esquema da ocorrência de chuvas convectivas, adaptado de Brooks et al. (1997).

de chuvas convectivas, adaptado de Brooks et al. (1997). Figura 5.8 Esquema geral da ocorrência de

Figura 5.8 Esquema geral da ocorrência de uma chuva convectiva.

5.3.4 Monitoramento da precipitação 5.3.4.1 Monitoramento por Estações Meteorológicas

A medida das precipitações é um processo relativamente simples, consistindo no recolhimento da quantidade de água precipitada, podendo ser feita por aparelhos totalizadores (pluviômetros) ou registradores contínuos (pluviógrafos). De um modo geral, os pluviômetros de postos meteorológicos oficiais são lidos em intervalos de 24 horas, quase sempre às 9:00 horas da manhã, indicados para quantificar chuvas diárias. Os pluviógrafos fornecem um gráfico, conhecido como pluviograma, onde são registradas continuamente as alturas de chuva em função do tempo. O pluviômetro constitui- se de um cilindro cuja área de captação deve ser conhecida, sendo o mais utilizado o Ville de Paris. Devem ser instalados a uma altura de 1,5 m da superfície do solo, com uma

distância mínima de construções e outros objetos de grande porte, considerando uma distância horizontal superior a duas vezes a altura do objeto. Na Figura 5.8 está mostrado o pluviógrafo utilizado na Estação Meteorológica localizada no Campus da UFLA, pertencente ao 5 o Distrito de Meteorologia, sediado em Belo Horizonte (Foto de José Maria Lima). Na seqüência, exemplo de um pluviograma, sendo possível observar o comportamento temporal da precipitação. Nota-se que o aparelho possui capacidade máxima de registro de 9 mm e toda vez que se atinge este nível, um sistema do tipo “monjolo” drena um pequeno copo, zerando a precipitação. Se a chuva continuar haverá novo enchimento do copo e posterior eliminação e assim sucessivamente. Pode-se observar também que quanto mais intensa for a precipitação, mais rápido será o registro e, portanto, os picos estarão mais próximos e verticais. Chuvas menos intensas promovem enchimento lento do copo, com deslocamento mais inclinado do indicador. A leitura mínima que se pode obter via pluviograma é 0,20 mm em 5 minutos.

que se pode obter via pluviograma é 0,20 mm em 5 minutos. Figura 5.8 Fotos mostrando

Figura 5.8 Fotos mostrando detalhes de um pluviógrafo (a) e um pluviograma (b).

Existem estações meteorológicas automáticas que fornecem o total precipitado num determinado intervalo de tempo, que pode variar desde 1 segundo a até horas, de acordo

com o interesse. Numa situação desta, pode-se também obter um detalhamento maior do comportamento da chuva ao longo do tempo, inclusive com maior precisão do que o pluviograma haja visto que o equipamento fornece informações digitais em intervalos de tempo menores que o pluviógrafo tradicional. O valor mínimo de leitura é de 0,25 mm e os dados são armazenados numa memória do tipo data logger que podem ser descarregas por meio de um microcomputador ou transmitidas via telemetria e manuseadas através de planilha eletrônica. Na Figura 5.10 tem-se exemplos de estações meteorológicas automáticas, que fornecem vários elementos climáticos importantes para a hidrologia.

vários elementos climáticos importantes para a hidrologia. Figura 5.10 Exemplos de estações meteorológicas

Figura 5.10 Exemplos de estações meteorológicas automáticas.

A densidade da rede pluviométrica é caracterizada em função das condições climáticas da região e do objetivo da observação. Para pesquisas, exige-se densidade maior. A seguir, tem-se uma orientação sobre a área de cobertura de uma estação meteorológica. Regiões Áridas: 1 para 300000 km 2 Regiões Tropicais e Temperadas: 1 para 50000 km 2 Regiões Frias (polares): 1 para 100000 km 2

5.3.4.2 Monitoramento por Radar Meteorológico

Aspectos Gerais

A palavra RADAR é da expressão inglesa RAdio Detection And Ranging, que diz

respeito à técnica de aplicação de ondas eletromagnéticas para detectar a presença e as características de um objeto. O desenvolvimento dessa técnica teve, como principal motivação, a II Guerra Mundial. Tem sido motivo de contínuo desenvolvimento.

Os principais componentes de um sistema de radar são:

a) Antena: a mais aplicada é do tipo parabólica, fixada a um pedestal, onde existe um sistema mecânico responsável por sua movimentação. A posição da antena, dada por

sensores localizados no pedestal, determina a direção de propagação do sinal transmitido e recebido pelo sistema.

A referência de posicionamento da antena no plano horizontal é o norte geográfico

(0°= Norte, 90° = Leste, 180° = Sul e 270° = Oeste) e, na vertical, a referência é o plano tangente à normal da superfície terrestre (0°) até ao zênite (90°). Com essas referências,

obtêm-se os ângulos de azimute e elevação, respectivamente.

A forma da superfície côncava é parabólica e, no foco da mesma, localiza-se o

alimentador (Figura 5.11), que é responsável pela interface entre a linha de transmissão (guias de onda) com a superfície parabólica refletora. Pela propriedade física de uma superfície refletora parabólica, um sinal originado no foco irá propagar numa direção paralela ao eixo da parábola e os sinais que atingirem a mesma, provenientes de uma direção paralela ao eixo da superfície, serão concentrados no alimentador. Essa capacidade de concentração da energia é denominada ganho, sendo expresso em dB (decibéis).

Figura 5.11 Sentido de propagação dos sinais em uma antena parabólica usada em radares meteorológicos.

Figura 5.11 Sentido de propagação dos sinais em uma antena parabólica usada em radares meteorológicos.

b) Radome: A grande superfície da antena oferece uma alta resistência ao vento. Visando

proteger o mecanismo de movimentação da antena assim como sua rotação uniforme, utiliza-se um domo esférico de fibra de vidro para isolar a antena das intempéries do tempo,

principalmente do vento e é praticamente transparente à energia eletromagnética. Na Figura 5.12a apresenta-se um radome de radar meteorológico.

c) Transmissor: O transmissor convencional de um radar utiliza um dispositivo denominado

magnetron para converter pulsos elétricos de corrente contínua de alta voltagem e uma

determinada duração em pulsos de energia eletromagnética com a mesma duração de uma determinada freqüência, geralmente na faixa de microondas, de acordo com a banda de operação. Na Figura 5.12b apresenta-se um transmissor usado em radar meteorológico.

Figura 5.12 Instalação do radome (a) e transmissor de um radar meteorológico (b). d) Receptor:

Figura 5.12 Instalação do radome (a) e transmissor de um radar meteorológico (b).

d) Receptor: Radares convencionais utilizam um receptor de rádio clássico, do tipo superheteródino, de alta sensibilidade, sintonizado na mesma freqüência de transmissão. O receptor do radar está localizado junto ao transmissor e está conectado na linha de transmissão através de uma chave TR. A função da chave TR é isolar o receptor da magnetron no momento em que um pulso é gerado. Isso evita que o receptor seja danificado pela alta potência da energia eletromagnética contida no pulso. Quando não existem pulsos sendo gerados (intervalo entre pulsos), o receptor está ligado à linha de transmissão e, conseqüentemente, na antena.

e) Visualização das informações: o método mais simples para visualizar o sinal recebido pelo sistema de radar é através de um osciloscópio. O início da varredura do osciloscópio é sincronizado com o sinal do oscilador principal (PRF), ou seja, a varredura é iniciada ao mesmo tempo em que um pulso no radar é gerado.

Um outro sistema de visualização é composto de um tubo de raios catódicos (CRT) em forma de círculo. O centro do tubo representa a localização do radar. A varredura é sincronizada com a PRF, iniciando-se no centro e terminando na extremidade do CRT e, ao mesmo tempo, a direção da varredura é sincronizada com o azimute da antena, em tempo real. O armazenamento das informações por meio desse sistema é possível através de técnica fotográfica com um alto tempo de exposição, de forma a permitir que a antena complete uma volta em torno do seu eixo.

b) Princípios de funcionamento de um radar

O princípio de funcionamento do radar meteorológico é análogo ao sistema de navegação de um morcego. O morcego emite sons de alta freqüência que ao serem interceptados por obstáculos retornam ao seu ouvido. Quanto mais rápido o som retornar, mais perto estará o obstáculo e quanto mais distante este estiver, mais demorado será o retorno. Desta forma, o morcego é capaz de avaliar a distância ao obstáculo e se desviar do mesmo antes da colisão. No radar meteorológico são empregadas, ao invés de som, ondas eletromagnéticas de alta energia para alcançar grandes distâncias. As ondas eletromagnéticas ao passarem por uma nuvem, causam em cada gota, uma ressonância na freqüência da onda incidente, de modo a produzir ondas eletromagnéticas, irradiando em todas as direções. Parte desta energia, gerada pelo volume total de gotas iluminado pelo feixe de onda do radar, volta ao prato do radar e sabendo-se o momento em que o feixe de onda foi emitido e quanto tempo depois o sinal retornou, determina-se a distância do alvo ao radar. A intensidade do sinal de retorno está ligada ao tamanho e distribuição das gotas no volume iluminado pelo radar.

Além disso, sabe-se qual a elevação da antena e o azimute correspondente. Deste modo, pode-se determinar, com precisão, a região do espaço onde está chovendo. Para uma mesma elevação e azimute são transmitidos cerca de 200 pulsos de alta energia e, assim sendo, a mesma região do espaço é amostrada 200 vezes. Em seguida é feita uma média do sinal de retorno. Este processo é bastante rápido já que as ondas eletromagnéticas viajam na velocidade da luz (300.000 km/s). A duração de cada pulso determina a resolução dos dados do radar. O valor médio desta resolução, para diferentes radares, é da ordem de 500 metros.

O radar não mede diretamente chuva. O radar recebe um determinado nível de retorno dos alvos de chuva denominado refletividade, que possui relação física com o espectro de gotas observado. Assim, pode-se determinar a partir deste espectro, uma relação entre a refletividade do radar e a taxa de precipitação correspondente. Para a maioria dos radares meteorológicos o limite inferior da taxa de precipitação é de 1 mm/h, a uma distância de 190 km.

Uma característica importante dos radares meteorológicos modernos é o software para tratamento do grande volume de dados de refletividade gerados. Esse software gera, em tempo real, o mapa de chuva a um nível de altura constante. Os dados de chuva na área do radar são interpolados num nível de altura constante entre 1,5 e 18,0 km de altura, numa área de 360 x 360 km, com uma resolução de 2 x 2 km. Esta resolução espacial equivale a

32400 postos pluviométricos numa área de 152.000 km 2 , aproximadamente. De posse da velocidade e da direção de deslocamento da chuva é possível extrapolar os campos de precipitação, no tempo e no espaço e, desta forma, obter a previsão antecipada de até 3 horas, numa determinada área, situação importante em se tratando de alerta para órgãos especiais, como a defesa civil do município, minimizando catástrofes e perdas de vida humana e material.

Existe a possibilidade de ocorrência de alguns eventos meteorológicos que, juntamente com os efeitos dos fenômenos de refração, podem resultar na produção, pelo radar, de informações distorcidas. Como exemplos desses fenômenos, podem-se citar:

a) formação de precipitações a baixas altitudes (nevoeiros acentuados, algumas nuvens

menos elevadas), as quais podem, eventualmente, não ser detectadas pelo feixe do radar;

b) presença de ventos laterais, fazendo com que uma chuva observada pelo radar venha a

acontecer em um local diferente do indicado pelo aparelho;

c) Ecos de Terreno: varreduras com a antena do radar em baixa elevação são susceptíveis

a bloqueios e interferências no sinal de microondas, em regiões próximas à localização do radar, devido a obstáculos naturais e artificiais, ocasionada pela dispersão de sinais de

microondas emitidos pela antena de formato parabólico, chamados de lóbulos secundários. Essas interferências, que ocasionam ecos falsos, variam de acordo com a localização do equipamento e possuem posição e intensidade de reflexão com pouca variação. d) Propagação anômala: a propagação de microondas está sujeita às condições atmosféricas, que em determinadas situações, causam o curvamento do feixe de microondas emitido pela antena do radar, ocasionando reflexão do solo em distâncias que variam até próximo ao alcance máximo de varredura.

Monitoramento da chuva

Na Figura 5.13 tem-se uma fotografia do radar meteorológico de São Paulo e na seqüência, mapas de uma chuva monitorada pelo mesmo em evento do dia 01/02/2003, às 20h37min (Figuras 5.14 e 5.15). Na Figura 5.16 está apresentado um mapa produzido pelo radar meteorológico de Maceió, AL.

Figura 5.13 Radar meteorológico de São Paulo. Figura 5.14 Área coberta pelo radar, com destaque

Figura 5.13 Radar meteorológico de São Paulo.

Figura 5.13 Radar meteorológico de São Paulo. Figura 5.14 Área coberta pelo radar, com destaque para

Figura 5.14 Área coberta pelo radar, com destaque para uma chuva sobre a cidade de São Paulo (Fonte: www.saisp.br).

Figura 5.15 Mapa de precipitação ampliado sobre a região metropolitana de São Paulo (Fonte: www.saisp.br).

Figura 5.15 Mapa de precipitação ampliado sobre a região metropolitana de São Paulo (Fonte: www.saisp.br).

a região metropolitana de São Paulo (Fonte: www.saisp.br). Figura 5.16 Imagem gerada pelo radar, no dia

Figura 5.16 Imagem gerada pelo radar, no dia 21/02/06, na escala de 30 km na cidade de Maceió, AL (Fonte: SIRMAL – Sistema de Radar Meteorológico de Alagoas).

5.3.5 Grandezas características da chuva

a) Altura pluviométrica (h): representa a altura da lâmina de água precipitada, caso a mesma fosse recolhida numa superfície horizontal, sendo expressa, geralmente, em mm ou cm e polegadas nos países de língua inglesa. Pode-se referir a um chuva isolada ou o total ocorrido num dado intervalo de tempo.

b) Tempo de duração (t): é o período de tempo contado desde o início até o final da precipitação (horas ou minutos).

c) Intensidade de precipitação (I): é uma grandeza intensiva e instantânea, representando a

variação da lâmina precipitada num intervalo infinitesimal de tempo (

I =

dh

dt

). Em termos

práticos trabalha-se com a intensidade média de precipitação, relativa a um intervalo discreto de tempo (t ), o qual está associado a um problema de natureza prática.

d) Freqüência: é o número de ocorrências de uma determinada precipitação no decorrer de um período de tempo especificado, definida no capítulo Hidrologia Estatística. A grandeza, associada à freqüência, normalmente aplicada, é o tempo de retorno.

Exemplo de Aplicação 5.1

Do pluviograma da Figura 5.8b, pede-se extrair as seguintes informações:

a) Total precipitado entre o início e final da chuva;

b) Duração da chuva;

c) Intensidade média da chuva;

d) Intensidade máxima associada aos tempos de 10, 30, 60, 120 e 240 minutos, bem

como o intervalo em que cada uma ocorre.

Solução:

a)

Total precipitado entre 09:00 e 05:30 do dia seguinte: 108 mm;

b)

Duração: 20 horas

c)

Intensidade Média: 5,4 mm/h

d) Uma análise mais detalhada possibilita identificar as intensidades médias máximas para diferentes intervalos de tempo. Em termos práticos, toma-se o pluviograma, verificando-se os picos de chuva no mesmo. Quanto mais próximos, maiores as intensidades. Portanto, para resolver a letra d do exercício, pode-se dirigir os esforços para

o intervalo de tempo entre as 17:00 e 21:00, onde, com certeza estarão as maiores intensidades para até 4 horas de duração da chuva.

t (min)

Altura máxima de chuva

Imédia máxima

Intervalo de Ocorrência

 

(mm)

(mm/h)

10

8,0

48

19:30 – 19:40 19:20 – 19:50 18:00 - 19:00 18:00 – 20:00 17:00 – 20:00

30

10,3

20,6

60

16,6

16,6

120

31,2

15,6

240

41,2

10,3

É interessante mencionar que quanto menor o intervalo de tempo, maior a

intensidade, contudo, menor a lâmina precipitada. A aplicação principal deste estudo está associada, especialmente, no estudo de chuvas intensas e potencial erosivo da chuva.

5.3.6 Preenchimento de Falhas

É comum a existência de falhas ou interrupções nos registros das estações

climatológicas, sendo atribuídas a problemas técnicos ou ausência do observador. Para se obter séries sem falhas, que é um requisito indispensável para estudos hidrológicos diversos. Para o caso da precipitação, a técnica adotada é conhecida como Preenchimento de Falhas. No entanto, é recomendável que as metodologias apresentadas a seguir sejam aplicadas para preencher falhas em séries históricas quinzenais, mensais ou anuais. Para precipitações diárias, especialmente as máximas diárias, não se recomenda utilização destas técnicas devido à elevada variabilidade espacial e temporal da chuva, influenciada por condições locais específicas, principalmente efeitos orográficos.

5.3.6.1 Métodos Aplicados ao Preenchimento de Falhas

a) Regressão Linear: consiste em utilizar regressão linear simples ou múltipla tendo-se outros postos vizinhos para obtenção de correlação com o posto de interesse. Na regressão linear simples as precipitações do posto com falhas são correlacionadas com a de um posto vizinho, sem falhas, da seguinte forma:

Y = a + b X

(3)

Em que Y são os dados da estação que se deseja preencher a falha e X, os da estação vizinha.

No caso de regressão múltipla as informações pluviométricas do posto Y são

da

correlacionadas

com

as correspondentes observações de vários postos vizinhos,

seguinte forma:

Y = a

0

+ a

1

X

1

+ a

2

X

2

+

+ a

n

X

n

(4)

Em que n é o número de postos considerados; a 1 , a 2 ,

a n são coeficientes a serem

estimados pela regressão; X 1 , X 2 ,

Este polinômio pode também ser de 2º ou 3º graus. Outra alternativa pode ser uma relação

do tipo potencial:

X n são as observações registradas nos postos vizinhos.

,

,

Y = a

o

X

a

1

1

X

a

2

2

X

a

3

3

X

a

n

n

(5)

b) Média aritmética de estações vizinhas: consiste de uma média dos dados oriundos das

estações vizinhas. Este critério é válido somente para regiões consideradas

hidrologicamente homogêneas e sua aplicação a regiões montanhosas não é

recomendada devido à elevada variabilidade espacial.

P

x

=

i

n

P

i

= 1

n

(6)

Este método pode ser empregado desde que as precipitações anuais normais das

estações envolvidas não difiram em mais de 10%. Precipitação anual normal é um valor

médio de um período mínimo de 30 anos.

c) Método do vetor de ponderação regional: consiste em um método simplificado utilizado

para preenchimento de falhas de dados mensais ou anuais. Para um grupo de postos, são

selecionados pelo menos três que possuam, no mínimo, dez anos de informações. Para um

posto X, que apresenta falhas, as mesmas são preenchidas da seguinte forma:

P

x

=

N x

n

n

=

1

i

P

i

N

i

(7)

Em que P x é a precipitação a ser estimada para o posto X; P i são precipitações

correspondentes ao mês ou ano que se deseja preencher, observadas nas estações

vizinhas; N i são as respectivas precipitações médias nas estações vizinhas e N x é a

precipitação média mensal ou anual do posto X e n corresponde ao número de postos vizinhos.

d) Método da ponderação regional com base em regressões lineares: é uma combinação da ponderação regional e da regressão linear. Consiste em estabelecer regressões lineares entre o posto com dados a serem preenchidos (Y) e cada um dos postos vizinhos, X 1 , X 2 ,

, X n . De cada regressão linear, obtém-se o coeficiente de correlação (r), e estabelecem-se fatores de peso para cada posto.

W

xj

=

r yxj

r

yx1

+

r

yx2

+

+ r

yxn

(8)

Sendo W xj o fator de peso entre os postos Y e X j ; r yxj o coeficiente de correlação entre os postos Y e Xj e n, número total de postos vizinhos considerados e correlacionados a Y. Assim, o valor a preencher no posto Y é obtido por:

Y = X

1

W

x1

+ X

2

W

x2

+

+ X

n

W

xn

Exemplo de Aplicação 5.2

(9)

Na tabela abaixo apresentam-se os totais anuais precipitados em duas localidades na Bacia Hidrográfica do Alto Rio Grande, Carvalhos e Aiuruoca. Efetuar o preenchimento de todos os valores não disponíveis no período mediante regressão linear. Aplicando-se regressão linear aos dados tem-se:

Y Carv = 466,68 +0,7378X Aiur r 2 =0,70 Y aiu =558,53 +0,6242 X Carv r 2 =0,70

Total anual

Total anual

Ano

Ano

 

Carvalhos Aiuruoca

 

Carvalhos Aiuruoca

1969

1617

1574

1985

1735

2098

1970

1149

1222

1986

1704

1971

1403

1987

1994

1851

1972

1644

1988

1621

1778

1973

1232

1989

1667

1697

1974

1570

1405

1990

1386

1368

1975

1361

1182

1991

1800

1804

1976

1848

1992

1715

1882

1977

1259

1993

1295

1408

1978

1758

1625

1994

1719

1979

1697

1480

1995

1468

1980

1831

1998

1996

1337

1923

1981

1892

1742

1997

972

1632

1982

2070

2203

1998

1034

1983

3190

1999

1410

1303

1984

1208

1037

Assim, a partir da aplicação das equações tem-se:

Total anual

Total anual

Ano

Ano

 

Carvalhos Aiuruoca

 

Carvalhos Aiuruoca

1969

1617

1574

1985

1735

2098

1970

1149

1222

1986

1704

1622
1622

1971

1502 1680 1376
1502
1680
1376

1403

1987

1994

1851

1972

1644

1988

1621

1778

1973

1232

1989

1667

1697

1974

1570

1405

1990

1386

1368

1975

1361

1182

1991

1800

1804

1976

1848

1712 1345
1712
1345

1992

1715

1882

1977

1259

1993

1295

1408

1978

1758

1625

1994

1735

1719

1979

1697

1480

1995

1550

1468

1980

1831

1998

1996

1337

1923

1981

1892

1742

1997

972

1632

1982

2070

2203

1998

1034

1204
1204

1983

2820

3190

1999

1410

1303

1984

1208

1037

5.3.7 Verificação da homogeneidade dos dados: curva dupla acumulada ou dupla massa

Consiste em se construir um gráfico em coordenadas cartesianas ortogonais, no qual em um dos eixos são colocados os totais anuais acumulados de um determinado posto e, no outro, a média acumulada dos totais anuais de todos os postos da região, considerada homogênea sob o ponto de vista meteorológico. O objetivo é verificar se os valores do posto em questão foram bem medidos, uma vez que erros podem ocorrer devido à alteração do local de instalação do aparelho. Outra aplicação consiste do estudo da homogeneidade hidrológica de diferentes regiões. Para isto, os dados da estação que se deseja verificar devem constituir uma reta em relação aos valores médios das outras estações. Se houver alteração da reta, significa que os dados não foram corretamente medidos ou são hidrologicamente diferentes. Matematicamente, podem-se avaliar as observações atuais da seguinte forma:

P

a

=

M

a

M

o

P

o

(10)

Em que P a é o valor da observação atual, produzida por uma mudança de local, exposição ou erro de leitura; P o é o valor atual a ser corrigido; M a é o coeficiente angular da reta no período anterior e M o é o coeficiente angular da reta no período de observação atual. A Figura 5.17 representa uma curva dupla acumulada.

atual. A Figura 5.17 representa uma curva dupla acumulada. Figura 5.17 Representação de uma curva de

Figura 5.17 Representação de uma curva de dupla massa.

Por esta Figura observa-se que os dados atuais saíram da reta de dados mais antigos, significando que houve mudanças importantes nas leituras dos totais acumulados. O coeficiente angular anterior (reta OA) é diferente do atual (dado por OB). Ao se aplicar equação 10, corrige-se os valores atuais com base nestes coeficientes angulares.

Exemplo: Se uma reta de dupla massa foi criada com base nos pontos (0,0) e (1200,1400), e esta mesma reta, atualmente apresenta (0,0) e (1100,1200), qual será o valor corrigido de uma leitura de 1300 mm feita atualmente. M a = 1400/1200 = 1,17 M o = 1200/1100 = 1,09 P o = 1300 mm P a = 1395,4 mm é o valor corrigido para a leitura atual de 1300 mm.

5.3.8 Precipitação média sobre uma bacia hidrográfica

Devido à variabilidade espacial das precipitações há necessidade de se estimar a precipitação média sobre uma bacia hidrográfica. Existem várias aplicações para este valor médio representativo especialmente vinculadas à gestão de recursos hídricos, balanço hídrico e simulação hidrológica. Apresentam-se, a seguir, os métodos mais usuais para esta estimativa.

a) Média aritmética: é o método mais simples, aplicável para regiões com boa distribuição

de aparelhos, área de relevo plano ou suave e regime pluviométrico uniforme. Na maioria das vezes este método não é suficiente para representar a precipitação numa bacia

hidrográfica de maiores proporções.

n

P i i = 1 P =
P
i
i
=
1
P =

n

(11)

b) Polígonos de Thiessen: este método trabalha com a distribuição espacial dos postos,

sendo a média obtida pela ponderação do valor da precipitação de um posto pela sua área de influência. As áreas de influência são aquelas dos polígonos formados pelas mediatrizes dos segmentos de reta que ligam estações adjacentes. Consiste de um método, na sua essência, geométrico. Assim, tem-se:

n

P

i

A

i

P =

i

= 1

n

A

i

=

1

i

(12)

Embora mais exato que o anterior, ainda apresenta limitações, por não considerar influências orográficas. A Figura 5.18 exemplifica este método para a bacia hidrográfica do Alto Rio Grande, considerando alguns postos pluviométricos da região. No caso desta Figura, as áreas de influência foram obtidas por intermédio de ferramentas do programa AcrMap/ArcView.

por intermédio de ferramentas do programa AcrMap/ArcView. Figura 5.17 Polígonos de Thiessen para a região Alto

Figura 5.17 Polígonos de Thiessen para a região Alto Rio Grande com as respectivas áreas de influência dos postos pluviométricos.

c) Método das Isoietas: consiste inicialmente no traçado das curvas de igual precipitação (isoietas), do que depende basicamente toda a precisão dos resultados. Para obtenção de melhores resultados, o hidrólogo deve, ao traçar as isoietas, considerar todo o conhecimento que o mesmo possui sobre a área em questão, como influência do relevo (efeitos orográficos) e se possível, a morfologia do temporal (no caso de chuvas intensas); caso contrário o método resultará numa ponderação semelhante ao proposto por Thiessen. A isoieta pode ser traçada com base em métodos de interpolação espacial, os quais serão abordados neste capítulo. A precipitação média é obtida por:

P

n

i

+ P

i

+ 1

A

P

=

i

=

1

2

i

n

A

= 1

i

i

(13)

5.4 Chuvas Intensas

5.4.1 Definição

Chuva intensa é toda chuva cuja lâmina precipitada ou sua intensidade supere um valor mínimo que é função do tempo de duração da chuva, conforme Tabela 5.2, apresentada a seguir.

Tabela 5.2 Valores mínimos de lâmina precipitada (mm) ou de intensidade de precipitação (mm h -1 ) que caracterizam um evento de precipitação como chuva intensa em função do seu tempo de duração (td).

td (min)

5

10

20

30

60

90

120

180

240

Lâmina (mm)

10

12

17

20

25

28,5

30

33

34,8

Intensidade média (mm h -1 )

120

72

51

40

25

19

15

11

8,7

Observa-se que a intensidade média de precipitação decresce com o aumento do tempo de duração, ao passo que a lâmina precipitada aumenta. A Tabela anterior relaciona apenas intensidade com duração, sem mencionar freqüência. Há de se considerar ainda que tanto a intensidade quanto a lâmina precipitada dependem da freqüência com que os valores ocorrem. Em Hidrologia, a forma mais usual de se expressar a freqüência é através do tempo de retorno (TR), que consiste num conceito probabilístico e foi definido no capítulo Hidrologia Estatística.

5.4.2 Importância

A ocorrência de uma chuva intensa ocasiona uma lâmina precipitada cujo valor é consideravelmente superior ao normal. Esta lâmina pode promover escoamento superficial direto de grande magnitude, além de erosão e transporte de sedimentos. Estes são os problemas que a drenagem do solo, a drenagem superficial e as práticas conservacionistas se propõem a solucionar. Para isto, a chuva intensa é o elemento básico para o dimensionamento destas estruturas (barragens de terra, canais, terraços, bacias de contenção, dentre outras).

5.4.3 Critérios para fixação da freqüência e da duração da chuva a ser aplicada a um projeto

a) Freqüência

A lâmina precipitada (ou intensidade) de uma chuva além de depender da sua

duração, depende também da freqüência de ocorrência da chuva. Assim é que, para uma mesma duração, quanto maior a intensidade da chuva, menor será a freqüência, ou, maior será o tempo de retorno. A freqüência a ser adotada para a chuva depende da natureza da estrutura e da segurança que a mesma irá propiciar. Em termos práticos, os TR s recomendados são:

drenagem do solo: 5, 10 e excepcionalmente 25 anos; galerias de águas pluviais: 5, 10 e no máximo 50 anos; drenos de encosta: mesmos valores para drenagem do solo; terraços: 5 a 10 anos; barragens de terra: 50, 100 e em caso de risco de vida, 1000 anos. Maiores detalhes sobre fixação de critérios de projetos serão discutidos no capítulo “Hidrologia de superfície: estimativa das vazões máximas”.

b) Duração

A fixação da duração da chuva é dependente da natureza da estrutura e de sua

finalidade. Assim, distinguem-se duas situações:

drenagem superficial de águas pluviais drenagem do solo ou acumulação de águas pluviais para posterior infiltração

Drenagem superficial de águas pluviais

Neste caso, as estruturas devem ser dimensionadas para conduzir o volume de enxurrada gerado pelas chuvas durante sua ocorrência, ou seja, a vazão resultante do escoamento superficial direto deve fluir pela estrutura simultaneamente ou logo após sua ocorrência. Esta vazão aumenta gradativamente desde o início do escoamento superficial, como conseqüência do aumento da área de contribuição para a vazão até o instante em que toda a bacia de captação estiver contribuindo para a vazão, na seção da estrutura.

A área de contribuição é máxima quando corresponder à própria área de captação

ou a área a ser drenada. A intensidade varia com o tempo de duração. Desta forma, a situação crítica quase sempre se verifica quando o tempo de duração da chuva for igual ao tempo necessário para que toda a área de drenagem esteja contribuindo para a vazão na seção de controle, o qual é denominado tempo de concentração da área. Este tempo depende do tamanho da área de drenagem e de características físicas da mesma (rede de drenagem, declividade, cobertura vegetal, etc). Existem vários métodos para estimativa do

tempo de concentração da bacia de drenagem, os quais serão abordados no Capítulo 9. O dimensionamento de terraços com gradiente e canais escoadouros são exemplos de aplicação de drenagem superficial.

Drenagem do solo Neste caso, o tempo de duração da chuva é tomado igual ao tempo disponível para drenar a água excedente acumulada no solo, saturando-o, o qual geralmente varia de 1 a 5 dias. Nesta situação, é de suma importância a análise de sensibilidade da cultura à falta de oxigênio, do valor econômico do solo e da cultura. Para terraço em nível ou de retenção e bacias de captação, o tempo de duração da chuva a ser considerado deve ser tal que permita infiltração da parcela da lâmina precipitada que escoou até o final do mesmo. Isto significa que a ocorrência de uma chuva posterior deve se verificar na situação em que o terraço esteja totalmente vazio. Esta condição é função de dois fatores: da parcela da lâmina precipitada que escoa até o terraço e da capacidade de infiltração do solo no terraço. No caso de drenagem de várzeas com lençol freático próximo à superfície, para aproveitamento agrícola, é fundamental analisar a cultura, tanto do ponto de vista econômico quanto fisiológico para suportar o ambiente redutor.

5.4.4 Equação de Chuvas Intensas 5.4.4.1 Aspectos Gerais

A intensidade de precipitação está associada à duração e à freqüência da chuva,

sendo expressa, de forma empírica, por um modelo matemático geral, do tipo:

I

m,m

=

C

TR

m

(

t

o

+

t

d

) n

(14)

Em que I m,m (mm h -1 ) é a intensidade média máxima da precipitação, t d é o seu tempo de duração (min), TR, o tempo de retorno (anos), C, m, t o e n são os parâmetros a serem obtidos com base em dados de precipitação, especialmente, de pluviogramas.

A forma de determinação destes parâmetros normalmente é feita empregando-se o

método de regressão múltipla não-linear de Gauss-Newton. Este método possui característica de trabalhar com cálculos de maneira iterativa, partindo-se de um valor inicial arbitrário. Os cálculos são feitos até que haja minimização dos erros. Para isto, vários aplicativos computacionais disponíveis são capazes de realizar este tipo de trabalho. Além de métodos computacionais, os parâmetros podem ser ajustados pelo processo de regressão linear, linearizando-se a equação 14 por meio de série de

transformações logarítmicas. A primeira transformação pode ser promovida fixando-se o valor de TR no numerador da seguinte forma:

A = CTR

m

(15)

A equação 14 pode ser reescrita da seguinte forma:

I m,m

=

A

(

t

o

+

t

d

) n

(16)

Aplicando-se novamente logaritmo à equação 16, obtém-se:

log(I

m,m

)

=

log(A)

n log(t

o

+

td)

(17)

Por sucessivas regressões, testando-se valores para t o (somando-os aos valores de t d ), será obtido um valor para A e n e, consequentemente, um coeficiente de correlação entre log (I m,m ) e log (t o +t d ), para cada TR avaliado. A seguir, toma-se o maior coeficiente de correlação (r) obtido e adota-se A, n e t o correspondentes a este melhor ajuste, independentemente de TR. Dentre as regressões para cada TR, escolhe-se o maior coeficiente correlação e então o t o definitivo. O valor de n pode ser obtido pela média dos valores extraídos da melhor regressão de cada TR. Da mesma forma, os valores de C e m são obtidos por regressão linear após a linearização da equação 15, tomando-se o melhor ajuste para todos os Tempos de Retorno, ficando da seguinte forma:

log(A)= log(C)+ m log(TR)

(18)

Exemplo de Aplicação 5.3

A análise de uma série de pluviogramas das chuvas mais intensas ocorridas numa

região permitiu a constituição das séries parciais das intensidades médias máximas para as

chuvas com duração entre 5 e 120 minutos. A partir dessas séries, foram obtidos os valores da média e do desvio padrão dos dados e os parâmetros da distribuição Gumbel ( e ) obtidos pelo método dos momentos, os quais são apresentados a seguir.

Td (min)

Média (mm h -1 )

Desvio padrão (mm h -1 )

αααα

µµµµ

5

120

30

0,042753

106,5

10

100

25

0,051304

88,75

20

90

20

0,06413

81

30

80

17,9

0,071654

71,945

40

70

17

0,075447

62,35

50

60

16,1

0,079665

52,755

60

55

14,1

0,090965

48,655

75

50

12,2

0,105131

44,51

100

40

10

0,12826

35,5

120

30

10

0,12826

25,5

Ajustando-se a distribuição Gumbel, considerando TR s iguais a 5, 10, 20, 50 e 100 anos, obtém-se os dados da tabela a seguir.

X TR

TR

5*

10*

20*

30*

40*

50*

60*

75*

100*

120*

5

142

118

104

93

82

72

65

59

47

37

10

159

133

116

103

92

81

73

66

53

43

20

176

147

127

113

102

90

81

73

59

49

50

198

165

142

126

114

102

92

82

66

56

100

214

178

153

136

123

110

99

88

71

61

* Tempo de duração (minutos).

Para cada TR foram ajustadas regressões, considerando diferentes valores para t o até alcançar o valor que produziu os melhores resultados (maior R 2 ), que neste caso, foi de 25 minutos. Os resultados obtidos para A, n e r são:

TR

A

n

r

5

2080

-0,786

-0,991

10

2225

-0,774

-0,993

20

2372

-0,765

-0,994

50

2576

-0,756

-0,995

100

2719

-0,750

-0,996

Com a regressão linear entre os valores de TR e A (equação 18), os valores de C e m estimados foram:

Assim, pode-se estruturar a seguinte equação de chuvas intensas, sendo válida para TR entre 5 e 100 anos e td entre 5 e 120 minutos.

I

m,m

=

1806 TR

0,0898

(

25

+

t

d

) 0,766

5.4.4.2 Ajuste da equação de chuvas intensas com base na Desagregação de Chuvas

Quando não se dispõe de pluviogramas, situação mais comum, a alternativa para se gerar informações para chuvas intensas é a aplicação de relações médias entre lâminas precipitadas em diferentes tempos. Estudos realizados neste sentido comprovam que é plausível admitir que estas relações permanecem praticamente constantes para uma determinada região. Com base neste princípio, as chuvas podem ser estimadas a partir da chuva máxima diária (registrada pelo pluviômetro) em intervalos de tempo tão pequenos quanto 5 minutos. Este princípio é denominado de Desagregação de Chuvas. Neste caso, constitui-se uma série histórica de valores de precipitação máxima diária anual, ajustando-se uma distribuição de probabilidades de extremos para máximos, como a distribuição de Gumbel. Estudos relacionando a chuva de 24 horas (que é registrada pelo pluviógrafo, sem fixação do início da contagem do tempo) e a chuva de um dia (registrada pelo pluviômetro, cujo intervalo de 24 horas é sempre fixo, geralmente entre 9:00 hs de um dia e 9:00 hs do dia seguinte) permitiram obter a seguinte relação média representativa:

h

24h

h

1dia

=

1,14

(19)

Esta relação consiste de um valor médio com variação muito pequena. No Brasil, estudos relacionando alturas de chuvas para diferentes tempos de duração, permitiram produzir as seguintes relações para a cidade de São Paulo (Tabela 5.3):

Tabela 5.3 Valores das constantes de desagregação de chuvas intensas para a cidade de São Paulo.

(h

t1 /h t2

h

24 /h di

h

12 /h 2

h

10 /h 2

h

8 /h 2

h

6 /h 2

h

1 /h 2

h

0,5 /h

h

25 /h 30

h

20 /h 3

h

15 /h 3

h

10 /h 3

h

5 /h 3

)

a

4

4

4

4

4

1

*

0

0

0

0

K

1,14

0,85

0,82

0,78

0,72

0,42

0,74

0,91

0,81

0,70

0,54

0,34

Exemplo de Aplicação 5.4

A partir da série de valores de precipitações máximas diárias anuais para Lavras (aproximadamente 74 valores), foram obtidos os seguintes parâmetros estatísticos:

Média = 80,98 mm dia -1 Desvio padrão = 30,08 mm dia -1

Utilizando-se a distribuição de Gumbel, a partir da estimativa dos parâmetros α e µ, e trabalhando com TR s iguais a 2, 10, 20, 50 e 100 anos e as constantes da Tabela 5.3, gera- se a seguinte planilha:

TR

X TR

h 24

h 6

h 1

h 0,5

h 20

h 15

h 10

h 5

2

76,4

86,7

62,4

36,4

26,9

21,8

18,8

14,5

9,2

10

120,1

136,9

98,6

57,5

42,6

34,5

29,8

23,0

14,5

20

137,2

156,4

112,6

65,7

48,6

39,4

34,0

26,2

16,5

50

158,9

181,1

130,4

76,1

56,3

45,6

39,4

30,4

19,1

100

175,4

199,9

144,0

84,0

62,2

50,4

43,5

33,6

21,2

X TR : precipitação máxima diária (mm dia -1 ); h 24 : precipitação máxima de 24 horas; h 6 : precipitação máxima de 6 horas; h 1 : precipitação máxima de 1 hora; h 0,5 : precipitação máxima de 30 minutos; h 20 : precipitação máxima de 20 minutos; h 15 : precipitação máxima de 15 minutos; h 10 : precipitação máxima de 10 minutos; h 5 : precipitação máxima de 5 minutos.

Com os dados do quadro anterior é possível determinar a equação de chuvas intensas para tempos de duração entre 5 e 1440 minutos, para os tempos de retorno de 2, 10, 20, 50 e 100 anos. Os valores da lâmina para os tempos de duração entre 60 e 360 minutos, para cada tempo de retorno, podem ser obtidos a partir da curva h(mm) x td (min), utilizando-se os dados da planilha acima, trabalhando com escala logarítmica para o eixo dos X (correspondente ao tempo de duração). O quadro abaixo apresenta os resultados para os valores de TR trabalhados, tendo sido obtido melhores ajustes das regressões para t o de 7 minutos.

TR

A

n

r

2

544,00

-0,6426

-0,9999

10

941,44

-0,6723

-0,9992

20

1027,52

-0,6581

-0,9997

50

1195,02

-0,6591

-0,9996

100

1296,54

-0,6527

-0,9999

Da mesma forma anterior, chega-se à equação 29, ajustada da seguinte forma:

log (A)= 2,7066 + 0,21866 log (TR)

E, portanto, obtém-se:

C

A

I

m,m

= 508,8369; m = 0,218766; n = -0,65696; r = 0,9705

equação de chuvas intensas fica assim ajustada da seguinte forma:

=

508,84 TR

0,2188

(

7

+

t

d

) 0,6569

5.4.5 Método de Bell para estimativa de chuvas intensas

O método de Bell (1969) consiste de uma equação constituída por 5 parâmetros, cuja

característica principal é a sua regionalização, ou seja, pode-se ajustá-la com base em dados de algumas estações e gerar um modelo para a região destas estações. O modelo tem a seguinte estrutura:

h

(

t

d

,TR

)

=

(

(

a ln TR

)

+ a

1

)

(

a

2

t

d

b

a

3

)

h

(60,2)

(20)

Em que h (td,TR) é a chuva intensa (mm), a, a 1 , a 2 , a 3 e b são parâmetros regionais de ajuste do modelo e h (60,2) corresponde a uma precipitação intensa com duração de 60 minutos e TR de 2 anos. O método de ajuste empregado é o de Gauss-Newton. Alguns autores destacam o ajuste deste modelo para o Brasil como um todo, obtendo-se a seguinte equação:

h

(

t

d

,TR

)

=

(

(

)

(

0,31ln TR + 0,70 0,38 t

)

0,31

d

)

0,39 h

(60,2)

(21)

Para regiões do Estado de Minas Gerais, Mello et al. (2003a) desenvolveram os seguintes ajustes:

- Norte de Minas:

- Sul de Minas:

h

(

h

t

d

(

t

d

,TR

)

=

(

(

)

(

0,818 ln TR + 2,134 0,38 t

)

d

,TR

)

= 1,75 ln TR

(

(

)

)

(

+ 3,821 0,38t

0,116

d

0,178

)

0,44 h

(60,2)

)

0,422 h

(60,2)

(22)

(23)

-

-

Centro:

Leste:

h

h

(

t

(

t

d

,TR

d

,TR

)

)

=

=

(

(

(

(

)

(

0,72ln TR +1,50 0,38 t

2,088 ln TR

)

)

)

(

+ 4,61 0,38 t

0,219

d

0,098

d

)

)

0,45 h

0,41 h

(60,2)

(60,2)

-Triângulo Mineiro:

h

(

t

d

,TR

)

=

(

(

)

(

0,70 ln TR +1,873 0,38 t

)

0,198

d

)

0,445 h

(60,2)

5.5 Mapeamento de grandezas climáticas

5.5.1 Importância

(24)

(25)

(26)

O mapeamento de grandezas climáticas tem sido uma das áreas da hidrologia

aplicada que tem recebido grande atenção dos pesquisadores, tanto trabalhando na busca por melhoria de aspectos metodológicos, aprimorando técnicas, quanto gerando produtos (mapas ou equações) de uso e aplicação imediata e prática. Mapas de chuvas e erosividade são fundamentais para aplicação em locais desprovidos de monitoramento da precipitação, possibilitando que sejam elaborados projetos hidráulicos e conservacionistas com boa precisão e segurança.

O advento de recursos computacionais tem sido o suporte para a geração destes

produtos. Técnicas estatísticas que antes não eram aplicadas pelas dificuldades impostas por cálculos complexos e em grande quantidade, são facilmente resolvidos com os recursos

computacionais disponíveis. A geoestatística é uma delas, demandando situações trabalhosas para aplicação de seu interpolador, principalmente em grandes escalas, com grande quantidade de dados. Outra técnica que tem recebido destaque consiste da aplicação de redes neurais, possibilitando bons resultados no tocante à geração de mapas

de grandezas climáticas. A importância do geoprocessamento (Sistema de Informações Geográficas – SIG) como técnica para produzir mapas a partir do tratamento e gerenciamento de dados, é substancial, podendo, inclusive incorporar a geoestatística nos procedimentos. Na atualidade, provavelmente seja muito difícil trabalhar com hidrologia aplicada sem o conhecimento destas técnicas.

A produção de mapas com grandezas climáticas zoneadas permite aos diversos

setores da sociedade desenvolver técnicas e estudos apropriados, sendo o primeiro passo para a execução racional de projetos no âmbito de uma região, estado ou país.

5.5.2 Algumas técnicas utilizadas na interpolação espacial e mapeamento

5.5.2.1 Inverso da distância

Consiste de uma média ponderada pelo inverso da distância entre a localidade que se deseja estimar a precipitação e as localidades vizinhas, das quais são conhecidos os

valores da variável. Pode-se trabalhar com vários expoentes para a distância, sendo relatado em alguns trabalhos, valores entre 1 e 4. Contudo, já foi constatado que o melhor desempenho (menores erros) foi obtido quando se usou o expoente 2, ou seja, o inverso do quadrado da distância. Matematicamente, tem-se:

m

1

i

=

1

d

n

P

i

P

=

i

m

1

i

=

1

d

n

i

(27)

Em que, P i é a precipitação nos pontos vizinhos, conhecida; d i é a distância euclidiana da respectiva estação ao ponto a ser estimado; n é o expoente da distância e m é o número de estações utilizadas. Este interpolador apresenta alguns problemas estatísticos importantes, sendo o principal deles, o fato de que pode ser tendencioso, ou seja, a soma dos pesos pode não ser 1. Esta é uma característica fundamental dos interpoladores espaciais que deve ser verificada.

5.5.2.2 Interpolador geoestatístico (krigagem)

Esta é uma metodologia de interpolação de valores que tem mostrado bons resultados no tocante à estimativa de precipitações, conforme alguns trabalhos recentes. Isto é possível graças às suas características estatísticas, pois se constitui de um interpolador cuja variância é mínima e a média é não-tendenciosa, ou seja, a soma dos pesos de krigagem é sempre igual a 1. Estas premissas estatísticas formam o embasamento da geoestatística, que é uma ferramenta que considera a influência da posição (localização) das amostras sobre outros pontos, mutuamente. Quando isto ocorre, diz-se que há dependência espacial e a parcela do erro aleatório, associada à posição, pode ser controlada. Desta forma, tem-se duas conseqüências quando se compara a geoestatística com a estatística clássica, a qual considera que as amostras são independentes no espaço:

Se o número de amostras for o mesmo que o da estatística clássica, haverá redução de erro na estimativa, pois uma vez detectada existência de dependência espacial, pode-se controlar parcela do erro aleatório que a estatística clássica não considera. Assim, tem-se que:

Estatística Clássica:

X

ES

= X + e

a

equivale a e a e S é modelado pela

geoestatística, com base numa relação entre a variância e a respectiva distância, conhecido como semivariograma.

Geoestatística:

X

ES

= X + S + e`

a

, onde S + e’ a

Se fixarmos um erro igual para ambas estatísticas pode-se reduzir o número de amostras quando a geoestatística for aplicada. Isto é significativo, pois haverá um custo menor para a realização do trabalho.

A semivariância, associada a uma variável, é calculada por:

γ

(

h

)

=

1

2

N

N

(

X

i

=

1

i

X

i

+

h

)

2

(28)

Partindo-se desta equação, determinam-se todas as possíveis combinações entre os pontos amostrados, construindo-se o semivariograma experimental. Este representa uma relação entre a variância e a posição, ou seja, apenas a distância é que determinará a variância entre os pontos. A partir do semivariograma experimental, é possível ajustar um modelo teórico ao mesmo, conforme esquematizado na Figura 5.19, a qual ilustra um modelo teórico de semivariograma com seus parâmetros de ajuste (efeito pepita, patamar e alcance).

parâmetros de ajuste (efeito pepita, patamar e alcance). Figura 5.19 Representação geral de um semivariograma e

Figura 5.19 Representação geral de um semivariograma e seus parâmetros.

Algumas observações se fazem necessárias:

A dependência espacial somente é verificada até o raio do alcance. A partir desta distância, não mais se verifica dependência espacial, valendo-se os princípios da estatística clássica;

O efeito pepita diz respeito a um “ruído”, ou seja, erro associado à pequena escala, onde quanto maior seu valor, menor a estrutura de dependência espacial. Isto não significa que não haja dependência espacial, mas que é necessário reduzir a distância entre as amostras para melhor detectá-la;

O patamar reflete o grau de dependência espacial; quanto maior seu valor, maior a dependência.

Os

principais

climáticas são:

Esférico:

γ

(

h

)

=

C

o

+

C

1

Exponencial:

γ

(

h

)

=

C

o

+

C

1

- Gaussiano:

γ

(h) =

C 1

e

h

modelos

de

3

2

h

a

1

2

h

a

1

2

h

exp

3

a

/ a

2

3

semivariograma

aplicados

ao

estudo

de

variáveis

 

(29)

(30)

(31)

Todos os modelos são válidos para o intervalo 0 < h < a (somente é válido da distância 0 até o alcance).

Os modelos de semivariograma podem ser ajustados pelos seguintes métodos:

Intuitivamente, ou seja, os parâmetros do semivariograma são determinados “a olho”;

Mínimos quadrados ponderados, haja vista que um ponto do semivariograma experimental é formado por várias combinações diferentes de pontos separados pela mesma distância, possuindo determinado peso;

Máxima verossimilhança que consiste de uma metodologia de ajuste do semivariograma baseado num modelo multi-variado normal. Neste caso, não são os pontos do semivariograma que produzem o ajuste, mas as características da base de dados, assumindo normalidade bivariada. Quando os dados aproximam-se desta situação, o ajuste é de boa qualidade estatística; quando não, recomenda-se outra metodologia.

A análise comparativa dos melhores ajustes de semivariogramas é desenvolvida com

base em alguns resultados de avaliações estatísticas, especificamente a validação cruzada ou a validação preditiva, a qual consiste da estimativa da variável para alguns locais que não fizeram parte da análise da continuidade espacial, sendo esta última tecnicamente mais aceitável. A verificação do grau de dependência espacial também consiste de uma análise

importante, pois reflete o quanto a variável em questão pode ser explicada pela geoestatística.

A krigagem constitui-se no interpolador geoestatístico, obtido em função do modelo

de semivariograma. A estimativa da variável é feita calculando-se os pesos de cada localidade da vizinhança do ponto a ser predito, sendo pesos estatísticos e não apenas geométricos. Isto é feito da seguinte forma:

[

A

]

1

[

B

]= [λ]

(32)

O objetivo desta equação matricial é calcular os pesos de krigagem. Cada membro significa:

[A] -1 = matriz inversa de semivariância, obtida pelo cálculo de semivariância usando a distância entre os pontos da vizinhança (todas as possíveis combinações) e o modelo de semivariância;

[B] = matriz de semivariância, obtida pelo cálculo de semivariância usando as

distâncias entre os pontos da vizinhança e o ponto para o qual se deseja estimar a variável, usando o mesmo modelo de semivariância ajustado;

[λ] = matriz de pesos de krigagem.

Uma vez determinados os pesos de cada vizinhança, estima-se o valor da variável para o ponto da seguinte forma:

P

x

=

n

λ ⋅

i

i

=

1

P

i

(33)

P x é a precipitação estimada para o ponto x; n é o número de pontos na vizinhança de krigagem e P i é a precipitação de cada vizinhança. Uma observação importante: as técnicas de interpolação podem ser aplicadas para fins de preenchimento espacial de falhas, constituindo-se numa opção metodológica adicional (Item 5.3.6).

5.5.2.3 Co-krigagem

A co-krigagem diz respeito a um interpolador geoestatístico que aplica uma variável secundária para auxiliar na estimação/interpolação de uma variável primária por krigagem. No entanto, é indispensável que haja correlação entre estas variáveis e que a secundária seja mais amostrada que a primária. Exemplos deste interpolador estão associados à relação existente entre indicadores climatológicos e sua relação com altitude, sendo esta a

variável secundária, que guarda correlação com o clima e que pode ser melhor amostrada com base num bom modelo digital de elevação. A equação geral para interpolação de uma variável com base na co-krigagem é a seguinte:

x

p

=

n

i

1

=

1

λ

1

x

1

+

n

j

2

=

1

λ

2

x

2

(34)

Em que x 1 e x 2 são, respectivamente, as variáveis primária e secundária.

5.5.2.4 Modelos de Regressão

Os modelos de regressão linear múltipla, associados aos Sistemas de Informação Geográfica, permitem estimar a variável climática em questão com boa precisão, desde que os modelos tenham sido devidamente ajustados, o que significa coeficiente de determinação aceitável, significância dos parâmetros estimados e da própria regressão pelo teste de F, que os resíduos apresentem normalidade e que os erros sejam os menores possíveis. Com base neste aspecto, pode-se estruturar camadas no SIG que correspondem aos dados de

entrada para os modelos e com uso das ferramentas matemáticas disponíveis no mesmo, o modelo poderá ser aplicado em células tão pequenas quanto possível, gerando mapas com boa precisão dada às relações de causa e efeito que estariam sendo contempladas. A combinação entre regressão múltipla e krigagem tem sido conduzida. Neste caso, busca-se uma relação de causa-efeito entre as variáveis envolvidas bem como trabalhar o resíduo da regressão em termos do semi-variograma. Este interpolador é conhecido como krigagem por regressão, e tem produzido bons resultados inclusive quando os modelos de regressão apresentam baixo coeficiente de determinação.

5.5.3 Aplicações 5.5.3.1 Chuvas Intensas a) Interpolação de Parâmetros

Alguns trabalhos recentes, comparando os interpoladores, têm demonstrado que a krigagem geoestatística pode produzir maior precisão. Mello et al. (2003b), compararam os interpoladores inverso do quadrado da distância e krigagem para interpolação de

parâmetros das equações de chuvas intensas para várias localidades do estado de São Paulo. A comparação de precisão foi feita avaliando-se os parâmetros estimados pelas metodologias em relação aos valores originais de localidades não utilizadas no estudo (validação preditiva). Primeiramente, na Figura 5.19 são apresentados os semivariogramas ajustados para cada parâmetro, tendo o modelo exponencial prevalecido nos ajustes para os parâmetros K, B e C e o modelo esférico, para o parâmetro a.

Figura 5.19 Semivariogramas ajustados para os parâmetros da equação de chuvas intensas para o estado

Figura 5.19 Semivariogramas ajustados para os parâmetros da equação de chuvas intensas para o estado de São Paulo.

A seguir, são apresentados os respectivos modelos ajustados.

γ

γ

γ

γ

(

(

(

(

h

h

h

h

)

)

)

)

=

=

=

=

140000

15,37

0,004

+

+

0,0006

+

120000

1

h

exp

3

93074

29,15

1

h

exp

3

92400

0,0034

1

h

exp

3

92400

1,5

h

103600

0,5

103600

h

3

(35)

(36)

(37)

(38)

É interessante destacar os bons ajustes obtidos, demonstrando que estas variáveis apresentam boa estrutura de continuidade espacial. Além disto, foi obtido alcance da ordem de 100 km, valor este interessante do ponto de vista do planejamento agroclimático, e encontrado por outros pesquisadores em estudos que trataram de chuvas com duração de 60 minutos. Na Tabela 5.4 são apresentados os resultados da comparação entre as metodologias estudadas, verificando-se predomínio considerável da krigagem sobre o

inverso do quadrado da distância, tendo-se o erro de estimativa, produzido pela validação preditiva, como referência.

Tabela 5.4 Estações meteorológicas (coluna Cidade) testadas bem como as vizinhanças empregadas em cada uma delas e erros médios proporcionados pelos métodos de interpolação.

Cidade

Estação 1

Estação 2

Estação 3

Estação 4

Estação 5

Estação 6

E IQD

E Krig . (%)

 

(%)

Boituva

Itú

Elias Fausto

Piracicaba

Vinhedo

Tapiraí

Cosmópolis

10,5

11,5

Botucatu 2

Botucatu 1

Itatinga

Santa M. Serra

Guareí

Barra Bonita

Tatuí

27,8

28,4

Caçapava

Taubaté

Santa Branca

São José dos Campos

São Bento do Sapucaí

Salesópolis

Aparecida

8,4

6,4

Cubatão 2

Santo André

Cubatão 1

Mauá

S. Bernardo

Mogi das Cruzes

Biritiba Mirim

6,9

6,0

 

Campo

Dourado

Araraquara

Boraceia

Barra Bonita

Santa M. Serra

Itajú

Matão

9,7

8,6

Guarujá

Cubatão

Santo André

S. Bernardo do

Mauá

Mogi das Cruzes

Biritiba Mirim

13,9

13,1

 

Campo

Itanhaém

Itariri

Juquitiba

Itapecerica da Serra

Cubatão

S. Bernardo do

Santo André

5,5

3,8

 

Campo

Itaporanga

Itararé

Timburí