Rodrigo Teixeira, o infiltrado em Hollywood

Produtor de 35 anos tornou-se o brasileiro mais quente no cinema dos EUA: vai fazer filme com Brad Pitt e Ben Stiller; leia entrevista ao iG
Marco Tomazzoni, iG São Paulo | 27/04/2012 08:00:02 - Atualizada às 27/04/2012 13:17:02

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Robert de Niro e Al Pacino olham com cara de poucos amigos por sobre o ombro do produtor Rodrigo Teixeira em seu escritório em São Paulo. "São meus guarda-costas", afirma o empresário de 35 anos, olhando orgulhoso para a foto de cena dos atores em "O Poderoso Chefão 2" (1974). Mal sabem eles que estão zelando pela segurança do brasileiro mais quente hoje em Hollywood. CONHEÇA OS PROJETOS DE RODRIGO TEIXEIRA Até há pouco tempo desconhecido do grande público, Teixeira chamou a atenção no início de abril por ter comprado os direitos autorais de "Blood on the Tracks", disco clássico de Bob Dylan de 1975, para uma futura adaptação no cinema. A informação foi noticiada pela Variety, bíblia do mercado audiovisual norte-americano, e repercutiu mundo afora.

Foto: Claudio Augusto O produtor Rodrigo Teixeira posa na biblioteca de seu escritório: ás do mercado de direitos autorais Foto: Claudio Augusto Foto original de "O Poderoso Chefão 2" autografada pelo fotógrafo de cena fica na parede .

Foto: Claudio Augusto Quadro no escritório do produtor: habilidade de reunir investidores . em que autores consagrados escreviam sobre seus times do coração.Essa não foi a primeira incursão da RT Features. Teixeira circula silenciosamente por escritórios de Los Angeles e Nova York desde 2008. O brasileiro começou a adquirir uma reputação de bom negociante nos bastidores e. e "Amores Expressos". trabalhou por pouco mais de um ano no mercado financeiro antes de virar empreendedor. em pouco tempo. Criou as coleções "Camisa 13". adaptação do adorado romance juvenil de Marcos Rey. a empresa tem direito a analisar em primeira mão os projetos que passam pelos prestigiados laboratórios do festival. primeiro no mundo editorial. caso do filme sobre a vida de Tim Maia e de "O Mistério do Cinco Estrelas". Enquanto cursava a faculdade de administração de empresas. sem contar longas-metragens brasileiros com grande potencial de bilheteria. Harrison Ford. Rodrigo Teixeira se mudou muito cedo com a família para São Paulo. empresa do produtor. Carioca. em Hollywood. a produtora tem projetos engatilhados com Brad Pitt. A RT também é uma das patronas do Festival Sundance. Johnny Depp e de outros astros em busca de parcerias. estava em reuniões nos escritórios de George Clooney. comprando direitos de livros com potencial para virar filme. vitrine do cinema independente norte-americano – em troca de patrocínio. na qual brasileiros transformavam em livro suas experiências numa cidade estrangeira. Siga o iG Cultura no Twitter Atualmente. Ewan McGregor e Ben Stiller.

Quando vou para lá. Hábil em atrair investidores. Rodeado em seu escritório por livros e souvenirs. No Brasil tenho uma equipe de 14 pessoas trabalhando diariamente nas minhas produções. do qual faz mistério. oferecê-la e tentar trazer recursos. de Bruno Barreto. sou representado por uma agência de talentos. ao negociar possíveis cinebiografias direto com a família dos retratados. cuja obra está na mãos do produtor – dela também saiu a minissérie "Amor em 4 Atos". e "O Abismo Prateado". O crédito é do diretor."Vale dos Esquecidos" e "Heleno". e talvez seja a minha melhor qualidade como produtor. Querendo ou não. uma no Brasil e outra nos EUA. E mais: recentemente descobriu um novo filão. Teixeira montou um conjunto poderoso de projetos que. caso de Clarice Lispector e de Pepê. ainda não concretizados. À estreia ao lado do poderoso clã do cinema brasileiro se seguiram curtas de Fernando Coimbra. funcionário da RT Features). comenta o preconceito inicial que sofreu por ser brasileiro. minha base é aqui. Até agora. prometem fazer barulho (veja abaixo). Teixeira traz no currículo "O Cheiro do Ralo". "Natimorto". junto com Shakespeare. Essa é a minha habilidade. explica como escolhe seus projetos e diz que o produtor "é o verdadeiro dono do filme". os documentários "B1 Tenório em Pequim". a United Talent Agency. e tenho dois grupos de advogados que me orientam. Os projetos de lá não conversam com os projetos brasileiros porque não partem de incentivo fiscal: são investimentos de pessoas físicas e jurídicas estrangeiras. você já tinha habilidade de arrecadar recursos? Rodrigo Teixeira: Isso. Tenho um advogado. exibida na Rede Globo. embora. . iG: Quando entrou no mercado. que nem se conversam. baseado numa música de Chico Buarque. uma das maiores dos EUA. mas o produtor continuou de olho no mercado de direitos autorais. inspirou a comédia "O Casamento de Romeu e Julieta" (2004). mas quem ganha o Oscar de melhor filme? O produtor.Teixeira pulou para o cinema quando a coleção "Camisa 13". Em breve estreia seu primeiro filme rodado nos Estados Unidos. Identificar uma ideia. passo no escritório dos meus agentes. Rodrigo Teixeira fala ao iG sobre a sua entrada em Hollywood. além de contadores. André Doria e Charly Braun. tenho oito ou nove reuniões por dia. capto através de um relacionamento pessoal nosso. antigo campeão mundial de asa-delta. CONHEÇA OS PROJETOS DE RODRIGO TEIXEIRA iG: Como a RT Features funciona no Brasil e nos EUA? Rodrigo Teixeira: São duas estruturas independentes. Não tenho uma estrutura física nos EUA. “ Quem manda é o produtor. Os executivos que trabalham no mercado norte-americano são eu e o Fernando (Loureiro. Ele dá asas para o diretor fazer o filme dele. que praticamente inexistia por aqui. que só progrediu dali. lançado há pouco.

demos aval. Foto: Claudio Augusto Rodrigo Teixeira em seu escritório em São Paulo iG: Como uma produtora brasileira entra no mercado de Hollywood? Rodrigo Teixeira: Simplesmente tentando. Ele dá asas para o diretor fazer o filme dele. mas quem ganha o Oscar de melhor filme? O produtor. Não há limitação hoje para acesso à cultura. "Heleno" é das produtoras Goritzia e RT Features. iG: Em Hollywood o produtor é quem tem o poder? Rodrigo Teixeira: Quem manda é o produtor. Pagamos conta o dia inteiro. Posso opinar no que eu quiser. achar o roteiro uma merda. Se fracassar. é real. é tanto dele quanto meu o fracasso. mas o filme também é dos produtores. O produtor é um realizador. por exemplo. sou o produtor titular. tudo. eles são meus. Dias intensos. todo o trabalho por trás. às vezes tem ideia de quem contratar. É o presidente de banco. Botamos dinheiro para caramba ali. A gente levanta o dinheiro. tudo bem. fazemos a manutenção do filme. A gente tem muito mais trabalho do que o diretor. O crédito é do diretor. Se quiserem falar do mérito da direção. "Black Hats" (faroeste que será estrelado por Harrison Ford). Quando compro os direitos. Não é questão de ego. fui eu que paguei. mas se eu quiser posso demiti-lo. o maior acionista. Se não tivesse nosso esforço. Só tive um respiro de fevereiro para cá. . tem que parar para pensar. Porque o outro produtor tem um currículo maior do que o meu o nome dele vem antes. garante o sossego para o diretor trabalhar artisticamente no projeto. de quatro a dez dias. essa é a verdade.iG: Com que frequência viaja para os EUA? Rodrigo Teixeira: Todos os meses. Acho que isso é obrigação do mercado entender. o filme não estava lá. iG: Você tem interferência criativa nesses projetos? Rodrigo Teixeira: Muita. relatório. Ele é o dono do filme. O (José Eduardo) Belmonte dirigiu "O Gorila" – o filme é nosso.

como o Ben Stiller. iG: O mercado nos EUA vê os brasileiros com esses olhos? Rodrigo Teixeira: Vê. ele acha que você é um merda e ele. Eles querem vender. Benicio del Toro e o Gael (Garcia Bernal). Eu não fui para os EUA para pegar esse tipo de coisa. nem investir tão pesado. eu não acredito no sonho hollywoodiano. Somos um híbrido. Funciona quase como um olheiro. Foto: Claudio Augusto Cartaz de "Cidadão Kane" zela pelos prêmios dos filmes de Teixeira iG: Como foi a sua chegada em Hollywood? Rodrigo Teixeira: Bem. Falamos português e o resto do continente. sempre. em que ela compra o projeto e eu ganho em cima. espanhol. mas não é. Quando você chega em Hollywood.Se eu leio um livro americano. O Brasil está dentro do contexto da América do Sul. O Brad Pitt queria um livro que já tínhamos comprado e veio nos procurar. mas somos isolacionistas. Como o americano só olha para ele e não para o resto do mundo. O cara está te chamando de chicano. Para mim seria uma tarefa simples. (os agentes) oferecem as mesmas merdas de sempre. O que aconteceu: comecei a comprar livros e outras produtoras passaram a me procurar para se associar à gente. e eu leio muito. e se bobear estaria com muito mais dinheiro. O que eles não entendem é que nós não somos esse tipo de latino. . O primeiro projeto que te oferecem tem o Andy Garcia. prestar serviço para uma produtora. somos outra coisa. o esperto. não precisaria de uma estrutura tão grande. Eu poderia ser um consultor de cinema. se estiver disponível vou tentar adquirir. iG: É como um investimento? Rodrigo Teixeira: Exatamente. e acredito que vale a pena comprar os direitos. O resto.

já era um jovem adulto. estamos negociando um monte de coisas. o maior orçamento da Warner para este ano (US$ 100 milhões). outros mercados.. de "Matrix").. no final dos anos 1990. cinema iraniano. Um mês depois o Ben Stiller tentou comprar e veio atrás da gente. Bob Rafelson. É só um ter um pouco mais de cultura e você sabe que merda o cara está te oferecendo. Conheço todo: cinema clássico. mas a nossa capacidade de atrair talentos ficou alta e continuamos comprando uma série de livros. num ambiente repressivo. Li uma resenha na New Yorker e comprei também os direitos de "The Thousand Autumns of Jacob de Zoet".diferentes. "quero conhecer esses caras".. Brian de Palma. na Nouvelle Vague. porque não sabem que você conhece (o mercado). livro do David Mitchell inédito no Brasil. a minha geração especificamente. iG: O primeiro passo é ultrapassar essa barreira de mercado? Rodrigo Teixeira: Isso. Era uma coisa totalmente voltada para o cinema americano. fomos criados. Buster Keaton. comecei a me interessar por uma cinematografia mais sofisticada. diretores. Comecei a chamar a atenção dos americanos: como é que no Brasil um cara identifica esse projeto. Não temos o estereótipo latino. mas a obra é americana). não existia isso. "Umbigo Sem Fundo" e um outro. Conversou conosco. Foto: Claudio Augusto Teixeira mandou enquadrar bilhete escrito pelo diretor Tony Scott ("Top Gun") iG: Como o Brad Pitt apareceu? Rodrigo Teixeira: O Brad Pitt bateu o olho num livro e estava vendido para a gente.. disse que queria fazer alguma coisa e ofereceu um projeto. O último livro do Mitchell filmado foi "Cloud Atlas" (dirigido pelos irmãos Wachowski. Mas é a maneira como eles nos olham e o que eles oferecem. Aí o vice-presidente da empresa dele (Plan B Entertainment) virou um dia e disse. Eles esquecem que nós. dois eram meus. Compramos os direitos. de Javiar Marías). Billy Wilder (que é austríaco. E eu entrei (no mercado). cinema independente dos anos 1970. minha formação foi essa. Por isso eu conheço cinema americano. Spielberg. Na lista dos 10 livros mais importantes daquele mesmo ano nos EUA. Nos anos 1980 você não tinha acesso ao cinema coreano. Não fui criado na década de 1960. era um livro espanhol ("Seu Rosto Amanhã". Foi assim da década de 1970 até a metade dos anos 1990. musicais. viabiliza a compra dos direitos e atrai o Ben Stiller? Esse projeto ainda nem aconteceu. Scorsese. iG: Como você passou a ser conhecido no mercado? Rodrigo Teixeira: Eu comprei os direitos de "Umbigo Sem Fundo" em junho de 2008. lutando contra a ditadura. Como espectador. histórias. O roteirista de "Thousand Autumns" vai ser o Peter Straughan (indicado ao Oscar por "O Espião que Sabia .

o contrato chegou na semana passada para assinar. O cinema americano é uma bolsa de valores. esse ator e o David Mitchell – cara. Mas já tem um ator ligado ao projeto que levanta dinheiro para fazer esse filme. quem sobe para pegar a estatueta somos eu e o Brad Pitt. Hollywood é puro clichê: você é o que pode pagar. É você ficar falando 25 minutos. ou conversar com a sócia do Brad Pitt. como ontem à noite. na atual composição financeira dele. que ganhou Cannes no ano passado pelo "A Árvore da Vida". Essa foi a maior sensação que já tive. Você começa a entrar no jogo. "Jurassic Park" e "Identidade Bourne" senta na sua frente e fala que quer fazer um filme com você. Você perde a ilusão. você bambeia. Você perde a ilusão. Tenho Peter Straughan. no escritório dele. é dinheiro. Johnny Depp. me deu um negócio. um choque cultural muito grande. iG: Você já balançou ao conhecer alguém? Rodrigo Teixeira: A primeira vez em que estive com Frank Marshall. A mecânica é a capacidade de quanto a sua ideia pode gerar. . "De Volta para o Futuro". "Você tem 20 minutos para a gente conversar?". Esses momentos são únicos. um choque cultural muito grande. é dinheiro. e eu vivo isso. A mecânica é a capacidade de quanto a sua ideia pode gerar. Ele perguntou. com uma atriz americana do primeiríssimo time. Fui na sala do George Clooney.Demais"). cara. "Tenho a vida inteira". a gente vive a vida de Hollywood. eu sou brasileiro! Se esse filme for para o Oscar e ganhar. Aí você lembra por que quis fazer cinema. “ Hollywood é puro clichê: você é o que pode pagar. O cinema americano é uma bolsa de valores. Quando o produtor de "ET". Respondi. e ela contar detalhes de como é (o diretor) Terrence Malick no set de filmagem. "Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida". Você sentar com o sócio do Jeremy Renner para fazer uma reunião e descobrir que ele tem um problema com o Brasil (um brasileiro pegou a ex-mulher dele). Pode não dar nada? Pode. porque eu sei quem ele é.

França. que é a O2. o segundo é o Fernando Meirelles. No dia seguinte. filme tem de tomar partido.Foto: Claudio Augusto Detalhe do topo da prateleira do produtor: caixa com discografia completa de Bob Dylan iG: A notícia da compra dos direitos do "Blood on the Tracks" explodiu. Hoje no ranking do IMDB estamos (a RT) no 498º lugar. para entender e tentar entrar no projeto. "Los Angeles Times". Daqui. e o filme "O Abismo Prateado"). Londres. O primeiro produtor brasileiro no ranking virei eu. agentes. roteiristas. não veio proposta de nenhum diretor brasileiro sério. Achei didático e em cima do muro. Um dia estava conversando com meu agente em . Isso por causa do Bob Dylan. A segunda colocada no Brasil está em 1800º. iG: Como surgiu essa oportunidade? Rodrigo Teixeira: Porque eu tive uma ideia chamada Chico Buarque e comprei os direitos das músicas dele (o que rendeu até agora a minissérie "Amor em 4 Atos". "Chicago Tribune". Tóquio. Hollywood inteira procurou a gente: diretores. “ Não gostei de 'Xingu'. "New York Times". Obviamente aparece um monte de aventureiro. não? Rodrigo Teixeira: Foi a maior repercussão de uma coisa que a gente já fez até hoje. Para mim. exibida na Rede Globo.

poder comprar um disco para fazer um filme. iG: Quanto é a média desse mercado? Rodrigo Teixeira: Não tem uma média. perguntou. o agente parou. Fernando. iG: Tem uma média de mercado? Rodrigo Teixeira: Não. disse na hora: Bob Dylan. fariam com quem?". Lendo a carta que o John Lennon mandou para o Dylan. vou marcar uma reunião. . uma ideia que não se trabalha nos EUA. mas ele ficou caro. disse. Surreal. valorizei esse mercado. Ele achou a ideia brilhante. dentro dos custos de produção tem um "purchase price" alto. e tem livro no Brasil que é vendido por R$ 200 mil. um preço acessível. e ficamos uma hora e meia conversando sobre histórias de bastidores com o agente dele. "Se vocês pudessem fazer isso aqui. um novo mercado. Foi bem mais barato do que um livro aqui no Brasil. baseado em canção de Chico Buarque iG: Quanto pagou? Rodrigo Teixeira: Mais barato do que o Chico Buarque. o agente do Dylan é muito próximo. mas tocou o telefone. Best-seller ou não. admito. Fomos para Nova York em dezembro. O agente fez uma proposta. "o homem está me chamando". Bem mais. Mesmo o "Cloud Atlas" e "Thousand Autumns" são mais baratos do que o livro de um autor brasileiro que não vende um décimo do que o David Mitchell vende. O valor do direito autoral no Brasil tem de ser muito mais baixo para todo mundo poder ganhar dinheiro. "ótimo. O Dylan não estava lá. Tenho me questionado muito sobre isso. O cara falou. que trabalha comigo. mas para ter o direito de trabalhar o projeto. no escritório do Dylan. renovável por mais 18 meses. e a gente pagou. Você compra uma opção de 18 meses para fazer (o filme). Que disco vocês gostariam de comprar?". Tem direitos de livros nos EUA em que você paga US$ 20 mil a opção. e foi falar com ele. Foto: Mauro Pinheiro Jr. Saí de lá até meio mareado. Na hora em que você filma.. "Blood on the Tracks". de Karim Ainouz. não é caro.Hollywood e contei isso.. o agente contando que tinha estado com o Scorsese um dia antes. / Divulgação Alessandra Negrini em "O Abismo Prateado". Durante cinco anos acreditei no mercado de direitos autorais no Brasil. Infinitamente mais.

estaria quebrado há anos. Foto: Claudio Augusto Rodrigo Teixeira em sua mesa. no avião mesmo. não tenho dinheiro para isso. mais do que tenho capacidade de produzir. iG: É só dizer qual foi o projeto. conseguiria facilmente ler uns seis ou sete. e não é sobre o que é o trabalho. ficar mineirando isso. iG: Quantos livros você tem comprados? Rodrigo Teixeira: Muitos. Compro o que eu gosto e às vezes nem isso.iG: Quais foram os direitos mais caros que você já comprou? Rodrigo Teixeira: Não gosto de falar de números. Toda vez que dou uma entrevista. mesmo a lazer. Aqui. . entre três e quatro livros por mês. aqui. estou numa fase muito leitora. no mercado americano é assim. críticas. Quando estou nos EUA a trabalho. "escoltado" por Pacino e De Niro. e por isso tenho evitado ao máximo. Se tivesse mais tempo. aí vou no cinema quase todos os dias. fica a imagem de que compro tudo. então há uma limitação de horário. Neste ano li muito mais do que fui no cinema. De dezembro para cá. Europa. Tenho uma filha recém-nascida. Não tenho tempo para ler tudo. Mas normal. Rodrigo Teixeira: Prefiro não. Leio resenhas também. o tesão para mim é muito maior. ao fundo iG: Você prefere descobrir os projetos do que te oferecerem um? Rodrigo Teixeira: Prefiro descobrir. na semana passada consegui ver "Xingu".nos EUA. começo a receber um enxurrada de gente pedindo para eu comprar projetos. Tenho bastante. E não compro tudo. Em viagem internacional. Acho que sou um selecionador. Crio um problema para mim. Tenho uma média boa de leitura. Vou na livraria quase todos os dias . vejo dois ou três filmes no iPad. a conversa fica sobre valores.

Achei didático e em cima do muro. Para mim. nenhum banco te oferece isso. É um ótimo negócio – se você acerta. filme tem de tomar partido. passou por 34 festivais. "Heleno" teve ótimas críticas. Falta intensidade. claro. Foto: Claudio Augusto Cartaz internacional de "Heleno". Exibi no Festival do Rio e não gostaram. tem que ter drama. mas não teve um grande público. porque apostei muito. torceram o nariz. porque acreditava muito nesse projeto. Não é um filme que valha a pena assistir.“ Olha o resultado do "Tropa de Elite". iG: Gostou? Rodrigo Teixeira: Não gostei. Eu fico triste. Mas não necessariamente. iG: Como produtor. "O Abismo Prateado" lá fora foi muito bem. Se eu fosse produtor teria errado em cheio. Você vê na saída do cinema quando as pessoas não gostam. E eu sei quando não gostam. é alguma coisa que se possa corrigir no desenvolvimento? Rodrigo Teixeira: Sempre pode. É muito díficil você dar sinal verdade para um roteiro sem ter a certeza de que o filme vai ser bem visto pelo público como um todo. é clichê. todo dia recebo e-mail de algum formador de opinião importante elogiando. último filme Teixeira lançado nos cinemas .

como "Tropa de Elite". Só que durante dez anos ele foi só um incentivo. é um erro. mas teria feito. o crédito é de 9% ao mês. É um ótimo negócio – se você acerta. Até tentei fazer. A composição financeira define se o seu filme vai dar dinheiro ou não. Não tem uma política que baixe o imposto para o maquinário audiovisual. vai ser uma muleta eterna. iG: Faltam projetos bons para se fazer bilheteria no Brasil? A maioria do projetos que dá certo parece ser de qualidade duvidosa. 2%. uma muleta. bilheteria no Brasil e acho que existe a possibilidade de filmes de qualidade fazerem público. iG: A estrutura para se fazer um filme é cara? Rodrigo Teixeira: Tudo. Você pega esse dinheiro adiantado. Em preto-e-branco não se pode ter esperança. artisticamente ele acertou. Comercialmente. viabiliza. que pode até parar de trabalhar se quiser. Mas é um ótimo negócio. sendo que não existe uma fábrica de câmeras brasileiras. 400 mil espectadores. um incentivo para criar a indústria. Acho que esteticamente. Ninguém faz uma política industrial para o cinema. faz esse filme custar R$ 4 milhões e ter três milhões de espectadores. pô. O governo ofereceu um benefício para o cinema brasileiro que é o incentivo fiscal. "Cidade de Deus". Você quer trazer uma câmera e ela dobra de valor com a quantidade de impostos. Se fizer direito. O que eu acho é que não existe um plano B: é isso ou não tem. Eu não faço isso porque se eu for ao banco hoje. Isso foi definido pelo diretor uma semana antes das filmagems. paga o empréstimo e conforme vai gerando lucro. ninguém pensou na criação da indústria em paralelo. Se a gente não trabalhar em algo que faço o negócio andar (bate as mãos). Se o filme fosse colorido. Não é grande coisa. Não tem como. lança nove meses depois e com o dinheiro da bilheteria. Esse é outro problema do cinema brasileiro: é caro demais. meu amigo. Não existe indústria no Brasil e ela só existe em dois lugares do mundo: EUA e Índia. melhor do que qualquer aplicação financeira. mas você olha a conta e quebra. Olha o resultado do "Tropa de Elite". você ganha uma grana. Mas composição financeira com orçamento absurdo não gera receita. claro. 10% ao ano. faz o projeto. . investe em outros projetos. que é você poder ir no banco e financiar seu filme a juros de 1%. porque limitou o filme. sim. dinheiro a quase custo zero. você ganha muito dinheiro.iG: Você tinha alguma esperança de que"Heleno" tivesse público? Rodrigo Teixeira: Não. Rodrigo Teixeira: Se faz. iG: Mas é possível fazer cinema sem incentivo fiscal no Brasil? Rodrigo Teixeira: Não é e seria loucura minha dizer isso. Financia um filme comercial inteiro com incentivo fiscal. "Dois Filhos de Francisco" e "O Palhaço". teria saído com o dobro de cópias e feito uns 300. nenhum banco te oferece isso.

iG: Comédia é o que dá dinheiro no Brasil? Rodrigo Teixeira: Há outros gêneros que também dão dinheiro. mas esse é comprovado. iG: Você toparia fazer um filme só pelo dinheiro? Rodrigo Teixeira: Toparia.. E se não pensar nisso. proporciona muito mais visibilidade para quem deu o incentivo fiscal. eu vivo de entretenimento.. estou morto. dá. Mas não quero ser discriminado por isso e não discrimino os outros. uma coisa que nunca fiz e tenho total interesse. Por que subsidiar o filme de um e não o de outro? O que ele tem de melhor? Se o projeto está tendo retorno. Não faço publicidade. filmes para empresa. Tenho que pensar como empresário. Rodrigo Teixeira: Aí discordo. acho uma sacanagem.Foto: Claudio Augusto Incentivo fiscal é uma muleta para o nosso cinema iG: Muita gente questiona o uso de incentivo fiscal para projetos comerciais. Mas é preciso procurar outras coisas também. Outros você tem de trabalhar para dar. Obviamente vou tentar ao máximo investir numa coisa que eu gostaria de pagar para ver e espero que dê certo. . assim como "O Mistério do Cinco Estrelas" (baseado no livro adolescente de Marcos Rey). Não tenho dúvida de que o "Tim Maia" vai dar dinheiro. Não dá para discriminar quem faz cinema de público e quem faz cinema autoral. a marca [a empresa] vai aparecer muito mais do que no filme visto por 2 mil pessoas. Bem feito. Estava falando isso no almoço. totalmente comédia. que são fenômenos de divulgação. Eu faço cinema autoral e vou fazer de público. se Deus quiser. de um projeto extremamente comercial.

baseado na obra de Lourenço Mutarelli. ninguém me contou. faria sucesso. iG: Quem fez um filme lá agora e está reclamando bastante é o Heitor Dhalia. Eu fui numa reunião em que um agente falou que o Colin Farrell faria o filme que o Heitor quisesse. Coloca esses dois no "12 Horas" e vê se não muda a bilheteria do filme. apesar de eu não ter visto "12 Horas". Um agente americano viu a qualidade das cenas de ação e o mercado americano precisa de gente que saiba dirigir cenas de ação. Ele poderia ter feito algo muito melhor. amigo do produtor iG: Como tornar os filmes produzidos no Brasil interessantes para o mercado estrangeiro e fugir do estereótipo do "favela movie"? Rodrigo Teixeira: "A Mulher Invisível". iG: O Brasil não tem tradição em alguns gêneros. E mesmo "O Abismo Prateado" se passa no Rio de Janeiro e não tem uma cena na favela. Aquele cara que fez "Dois Coelhos". pelo acesso e reconhecimento que ele tem. E o brasileiro é barato: eles preferem pegar um brasileiro novo do que o Ridley Scott. . Eu ouvi isso. terror. óbvia. a ideia é brilhante. Se alguém quisesse transformar aquilo num filme americano. com ação. Keira Knightley. Afonso Poyart. Rodrigo Teixeira: Ação até tem. Rodrigo Teixeira: Porque a ansiedade do Heitor fala mais alto. por exemplo. Bota o Mark Rufallo e a Reese Witherspoon para você ver. está bombado nos EUA.Foto: Divulgação Selton Mello em "O Cheiro do Ralo". Pode acreditar que o Afonso Poyart vai fazer um filme desses nos EUA. aquele filme que não tem favela. a mesma coisa. é universal. Isso o Cláudio Torres faz muito bem.

atuação.Foto: Divulgação Marco Ricca em "O Casamento de Romeu e Julieta" (2005). são os melhores dele. É clichê. direção. primeiro filme de Rodrigo Teixeira iG: Você entrou no mercado já trabalhando como produtor? Rodrigo Teixeira: Sim. Eu topei. mas adoraria ver como se daria uma parceria nossa. CONHEÇA OS PROJETOS DE RODRIGO TEIXEIRA iG: Como é o set dos Barreto? Rodrigo Teixeira: Muito legal. Meu sonho é filmar com o Scorsese. tem de tomar cuidado. Tinha acesso a dinheiro e a uma casa de pós-produção. Quem produziu Bruno Barreto sabe e concorda. entende de cinema. só vi algo parecido no "Heleno". iG: Com quem você gostaria de trabalhar? Rodrigo Teixeira: Admiro Walter Salles. Admiro muito Fernando Meirelles. A família Barreto foi generosíssima comigo. E fiz. principalmente de 1977 até "Coração Iluminado" (96). . muito. Mas ele é um cara que estoura orçamento. Para o bem e para o mal. luz. adoraria poder fazer alguma coisa com ele um dia. mas é maravilhoso. Parece um cortiço italiano. Um cara que também admiro muito é o Hector Babenco. (O diretor) Bruno Barreto é uma das pessoas que mais entendem de cinema que eu conheço. mas é um cara que sabe o que está fazendo. gosto muito da obra dele. fotografia. produção. caríssima. uma vez na vida. mas disse que queria ganhar crédito e aprender a fazer cinema. isso é unânime. Pode falar? É impressionante. acho ele um gênio. Podem até não gostar dele como pessoa. R$ 6 milhões. Uma produção enorme para 2004. Meus projetos literários já eram um sucesso e a Paula Barreto me procurou para fazer "O Casamento de Romeu e Julieta" (baseado num dos livros da coleção Camisa 13). Em termos de estrutura de produção. de som.

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