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Anais do SIMCAM4 – IV Simpósio de Cognição e Artes Musicais — maio 2008

Desenvolvimento musical e musicoterapia em crianças Down:

Um estudo preliminar

Anahí Ravagnani

UFPR

anahiravagnani@hotmail.com

Resumo: O presente trabalho pretende investigar o papel da música no desenvolvimento cognitivo das crianças Síndrome de Down baseado em observações de uma sessão de Musicoterapia, realizada com uma criança SD, na cidade de Curitiba, PR. Trata-se de um estudo preliminar que faz parte de uma dissertação de mestrado, que encontra-se em andamento.

Palavras-chave: síndrome de down, desenvolvimento musical, musicoterapia, estudo de caso.

1. Introdução

O interesse pelo desenvolvimento musical em crianças e adultos especiais tem crescido substancialmente nos últimos anos. Estudos recentes têm investigado, por exemplo, o papel da música em portadores de atraso do desenvolvimento (Loureiro, Guerra, França, 2006), no autismo (Álvares, 2005), e em adultos com esclerose múltipla (Moreira, 2005). Porém, até o presente, pouco se sabe sobre as relações entre a música e a síndrome de Down.

2. Fundamentação Teórica:

A Síndrome de Down:

Embora seja ainda uma discussão velada e carregada de antigos preconceitos, muito se progrediu em relação ao estudo da Síndrome de Down. Desde sua antiga denominação “mongolismo”, assim caracterizada pelo médico inglês John Langdon Down em 1864, pelo fato deste grupo de pessoas apresentar semelhança com as pessoas da raça mongol até sua origem genética,

exame e classificação das trissomias, principais comprometimentos e limitações, a Síndrome de Down vem sendo constantemente pesquisada e suas características informadas, cada vez mais cedo, à família do portador. Segundo Schwartzman (2008) perdas auditivas uni ou bilaterais são descritas em 40% a 75% de adultos de crianças portadores da SD. Os percentuais de prejuízo auditivo encontrados variam de 8% a 95%. Ainda segundo o mesmo autor, o sistema nervoso central do indivíduo Down apresenta anormalidades funcionais e estruturais que determinam as disfunções neurológicas dos indivíduos. Essas disfunções variam bastante quanto às suas manifestações e o grau de severidade. Por exemplo, há sempre um determinado grau de disfunção neuromotora na SD: hipotonia (isto é, a diminuição do tônus muscular), e hiporreflexia (ou seja, a diminuição dos reflexos primitivos). Os atrasos nos marcos do desenvolvimento motor são perceptíveis já durante os primeiros meses de vida. No que se refere ao atraso das funções cognitiva, motora e aquisição da linguagem, Schwartzman afirma que,

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indivíduos portadores desta síndrome as possuem em graus e variações diferentes, embora aspectos como habilidades sensório-motoras, conhecimento espacial - temporal e julgamento moral sejam adquiridos mais lentamente do que no caso de indivíduos em desenvolvimento típico.

Entre os vários fatores que podem interferir na variabilidade de habilidades está a presença de alguma condição médica, tal como doenças cardíacas congênitas, crises convulsivas, hipotireoidismo, e diferentes graus de hipotonia, entre outras. Já o desenvolvimento da linguagem, mostra-se mais atrasado em relação a outras habilidades cognitivo-motoras desenvolvendo-se de forma irregular e não em ritmo consistente como em indivíduos em desenvolvimento típico. Um outro fato interessante é que as crianças SD se comunicam melhor com gestos do que com palavras. As crianças SD também se expressam bem através da música (Joly, 2003). Aulas de música e sessões de musicoterapia têm se mostrado importantes para o desenvolvimento delas.

Música e Educação Especial:

Relatos sobre o papel da música na vida de crianças SD são comuns no cotidiano de diversos educadores musicais e musicoterapeutas. Entretanto, tais relatos são bastante raros na literatura acadêmica. Alguns experimentos despontam no cenário acadêmico mas poucos são os pesquisadores e profissionais da área da música que se lançam com afinco à questão da educação musical neste contexto e, mais raros ainda, são aqueles que conseguem transformar em ação e prática os parcos

conhecimentos que existem a esse respeito. No trabalho intitulado “As possibilidades de estimulação de portadores da SD em musicoterapia”, Augusto (2003) aponta e discute algumas técnicas e atividades musicoterápicas que, recolhidas através de questionários e observações de trabalhos de musicoterapeutas que se dedicam exclusivamente ao trabalho com o indivíduo SD, e que procuram salientar as possibilidades de estimulação usando técnicas musicoterápicas. Nos textos de Macedo e Martins (2004) e de Matias e Freire (2005) nota-se uma preocupação em se contextualizar a SD para poder entender as expectativas, o relacionamento e o estabelecimento das relações entre família e portador através dos tempos. A mudança de hábitos bem como o progresso científico modificaram não só a visão de profissionais da área da saúde como também familiares e amigos do portador da síndrome. Na visão de Macedo e Martins (2004, p.144):

ao longo da história da humanidade, as pessoas com necessidades especiais foram percebidas e atendidas, no meio educacional e na sociedade como um todo, de forma intimamente relacionada aos valores determinantes de cada época, sejam eles sociais, morais, filosóficos, éticos ou religiosos”.

Matias e Freire (2004, p. 02) afirmam ainda que “cada família se adapta à deficiência de acordo com sua cultura, sistema de valores e personalidade de cada membro”. No que se refere à inclusão do indivíduo especial no contexto de uma aula de música o texto de Joly (2003) apresenta questionamentos importantes a serem colocados antes de se realizar um trabalho prático em sala de aula. A

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preocupação com o preparo do profissional, suas expectativas quanto ao desenvolvimento dos alunos especiais, o conhecimento de seus limites e possibilidades bem como o conhecimento sobre o próprio ambiente de trabalho (entendido não só como espaço físico mas espaço onde convivem indivíduos diferentes) são algumas questões levantadas e investigadas pela autora durante o programa desenvolvido com um grupo de indivíduos especiais, de quadros bastante diferentes Para Joly (p. 80)“é importante manter a mente aberta para perceber as potencialidades de cada um. Todo trabalho deve ser feito com paciência e carinho, lembrando-se de que é preciso valorizar a auto-estima de cada aprendiz, motivando-o a reconhecer sua contribuição frente ao grupo em que está inserido”. Para Louro (2006), a educação musical feita por profissionais informados e conscientes de seu papel, educa e reabilita constantemente, uma vez que afeta o indivíduo em todos os seus aspectos: físico, mental, emocional e social. Ela ainda afirma que o aluno tem possibilidades para entrar em contato consigo mesmo, no momento em que se depara com os obstáculos e conquistas do fazer musical. Alvin (1966, apud Joly, 2006) concorda com o fato de que a criança especial encontra na música “um mundo não ameaçador com o qual ela pode se comunicar, se integrar e auto- identificar-se”.Os possíveis benefícios apontados por Birkenshaw-Fleming (1993, apud Joly, 2006) como o reforço da auto-estima através da realização de atividades pensadas especialmente para cada caso, a estimulação e interação social, o desenvolvimento do tônus muscular e da linguagem sugerem a importância da música no contexto da educação especial.

3. Objetivos

Este trabalho, que se encontra em andamento, está investigando o papel da música no desenvolvimento cognitivo- musical do portador da Síndrome de Down. Especificamente, este estudo procurou identificar questões inerentes ao desenvolvimento musical em uma sessão de musicoterapia com uma criança SD.

4. Método

4.1. Estudo de caso

O método de investigação usado foi o estudo de caso (segundo definição de Chizzotti, 1991) apresentado aqui na forma de narrativa de caráter investigativo. Para o presente estudo, foi observada uma sessão de musicoterapia com duração de 45 minutos realizada por uma profissional da área, em um centro de educação especial da cidade de Curitiba. A criança, um menino SD, tinha, na época da realização da pesquisa, 5 anos de idade e alternava entre sessões individuais de musicoterapia e aulas de musicalização em grupo, oferecidas regularmente pela instituição. A criança convive com aproximadamente 10 alunos que fazem parte do mesmo grupo, porém são portadoras de diferentes necessidades especiais como autismo e epilepsia, por exemplo.

4.2. Descrevendo a cena:

Estamos em uma sala pequena, tranqüila e aconchegante. No chão há um teclado, aparelho de som, alguns instrumentos, almofadas e um grande espelho no qual a criança é posicionada de frente assim que se inicia a sessão. A musicoterapeuta (MT), uma mulher de aproximadamente 40 anos de idade, que há muito se dedica exclusivamente à

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educação especial, senta-se atrás da criança, permanecendo também de frente para o espelho, procurando estabelecer

contato visual com a criança, o máximo

de tempo possível.

Inicialmente a MT toca no teclado algumas canções de boas vindas e, ao fazê-lo, pergunta à criança como está o

dia, que dia é hoje, se está chovendo ou se faz sol, objetivando situar a criança no tempo e no espaço. Em seguida pergunta sobre o seu estado de humor e pede que acompanhe-a no teclado, da maneira como desejar. A criança tenta acompanhar o ritmo escolhido pela MT explorando aleatoriamente todos os registros do teclado. Noto que se trata de uma atividade prazerosa, uma vez que à criança é dada a liberdade de explorar livremente o instrumento musical. Num segundo momento da sessão a MT acaricia o rosto da criança, pedindo que ela se olhe no espelho e faça sons com a boca e com a bochecha. A criança manda beijos, imita o som de alguns animais, produz sons com a bochecha emitindo sons graves, agudos e de intensidades diferentes. De olhos fechados a criança é convidada a tocar sua orelha, seus cabelos e a produzir os sons que havia produzido anteriormente. Neste momento a criança ouve sons de fora da sala e é questionada, pela MT, quanto ao lugar de onde vem e de que som se trata. Em seguida, a criança fica em silêncio, e, curiosa tenta ouvir mais uma vez o mesmo som, que não se repete.

A MT insiste que ela responda de que

som se trata, porém nenhuma resposta verbal é ouvida. Ao final da sessão a MT canta a canção “Se és feliz” e pede que a criança acompanhe mostrando as partes do corpo solicitadas pela música. A criança aponta para algumas partes do corpo, mas sempre com lentidão e nem sempre

coordenando a parte do corpo com o trecho da canção.

4.3

pesquisadora

Análise

da

cena:

reflexões

da

Segundo Joly (2003) alguns aspectos devem ser considerados importantes no trabalho com indivíduos especiais. Entre eles a autora destaca a importância de se ter um “ambiente aconchegante, seguro e motivador”. Outro aspecto levantado por Joly diz respeito à rotina. Para ela “a presença constante de uma rotina no cotidiano destes indivíduos propicia segurança e garante que o caos e a desordem não se instalem em suas vidas” (p. 81). A preocupação em manter um ambiente calmo, limpo, tranqüilo e aconchegante se observa tanto na sala de musicoterapia como em todos os ambientes da escola. O respeito pela rotina se faz presente desde a entrada das crianças até o planejamento de cada aula. No caso da sessão observada, pude notar que a MT insiste em manter a seqüência de começo, meio e fim de cada atividade, organizando e ordenando as propostas, possibilitando assim a interação e a naturalidade da criança. Para Birkenshaw-Fleming (apud Joly, 2003) outro aspecto importante é o movimento como parte natural do processo de desenvolvimento de qualquer criança, auxiliando a aliviar tensões e ajudando o corpo a assimilar conceitos, levando a criança a efetuar contatos sociais. Não houve, nesta sessão, nenhuma atividade que envolvesse movimentos em pé, como a dança de roda, por exemplo. A criança permaneceu sentada o tempo todo. As atividades que envolviam movimentos da cabeça, olhos, boca, nariz, bochecha, pescoço, braços e mãos foram executadas mediante uma grande quantidade de explicações e

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intervenções da MT (como no caso da canção “Se és feliz”). Para Guerra (apud Augusto, 2003) “ao cantar é importante massagear o corpo da criança sempre, dando a ela um continente afetivo; ela precisa de colo, de aconchego e de afeto” (p. 10). De fato, a utilização do toque, do carinho e do afeto foi constante durante toda a sessão, o que, de certo modo pareceu tranqüilizar a criança, possivelmente trasmitindo-lhe o sentimento de aceitação e o de pertencer. A participação da criança variou de acordo com a atividade e o tempo de concentração em cada uma delas é pequeno. Segundo Schwartzman (2008) a deficiência mental, desde suas descrições originais, é apontada como uma das características constantes da SD. Sinto que, em alguns momentos, a criança queria chamar minha atenção realizando as atividades “ao contrário” daquilo que lhe foi solicitado. Estes resultados estão de acordo com um estudo realizado por Gunn e Cuskelly (1991, descrito por Schwartzman, 2008), que relatou que as mães de crianças SD percebem seus filhos como sendo menos ativos, mais previsíveis, de humor mais positivo, menos persistentes e mais distraídos.

4.4

musicoterapeuta

Análise

da

cena:

reflexões

da

Em conversa com a musicoterapeuta perguntei como ela avaliava o desenvolvimento de cada criança durante o trabalho. A profissional me explicou que primeiramente fazia uma avaliação prévia da criança baseada em critérios musicoterápicos. De acordo com estes critérios a criança era, então, observada em cada sessão e seu desenvolvimento foi descrito em fichas que direcionam todo o trabalho. No que diz respeito à devolutiva de cada paciente, a MT afirmou que é preciso estar atento a

qualquer tipo de reação: um gesto, um olhar direcionado, a tensão ou relaxamento da criança muitas vezes é mais eficaz que a resposta verbal, inexistente em muitos casos. Quanto ao desenvolvimento das crianças em sala de aula, por exemplo, a MT afirmou que as sessões colaboraram de maneira positiva em casos de crianças agitadas e de difícil socialização. Em situações de dificuldades de comunicação a musicoterapia permitiu que algumas crianças se expressassem de outras formas como na dança, no gesto ou na execução de um instrumento musical. No caso específico da criança observada, a MT afirmou que houve maior desenvolvimento no canto e na socialização da criança, considerada pela professora de classe, como agitada, teimosa e impaciente.

5. Conclusão preliminar

Embora preliminar, este estudo sugere que é possível usar a música em programas de educação especial através de uma boa preparação do profissional, que deve ser capaz de planejar, adaptar e avaliar atividades e procedimentos de acordo com cada indivíduo. Para Birkenshaw-Fleming (1993, P. 81 apud Joly, 2003):

com um programa de educação musical bem estruturado e com objetivos bem definidos é possível promover o desenvolvimento físico, intelectual e afetivo da criança com necessidades especiais.

Entretanto, ainda há um longo caminho a ser seguido, sobretudo no que diz respeito à pesquisa científica. O próximo passo desta pesquisa é. analisar de que maneira o uso da música pode auxiliar no desenvolvimento fisco, intelectual e afetivo das crianças SD,

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identificando questões específicas ao desenvolvimento musical , sugerindo novas perspectivas para os diversos setores das áreas da saúde e da educação de um modo geral. Como sugere Joly (2003, p. 85):

é preciso estar atento para o fato de que a música tem sido reconhecida como elemento importante em processos educativos, profiláticos e terapêuticos, mostrando aos poucos como é fundamental no processo de desenvolvimento de crianças, sejam elas especiais ou não.

6. Sub-áreas de conhecimento:

-

educação

musical,

psicologia,

pedagogia, educação especial.

7. Referências

ÁLVARES, T. Música como propiciadora da (re)organização da experiência de mundo: musicoterapia com crianças portadoras da síndrome do autismo. Anais do Simpósio Internacional de Cognição & Artes Musicais. Curitiba: Editora do DeArtes, P. 392-399, 2005.

AUGUSTO, M.I.C. As possibilidades de estimulação de portadores da síndrome de down em musicoterapia. Monografia de graduação em Musicoterapia apresentada no Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro, 1-27, 2003.

CHIZZOTI, A. Pesquisa em ciências

humanas e sociais. São Paulo: Cortez,

1991.

HARGREAVES, D.; ZIMMERMAN, M. Teorias do desenvolvimento e aprendizagem musical. In: ILARI, B.

(org.) Em busca da mente musical. Curitiba: Editora UFPR, p. 231-269,

2006.

JOLY, I.Z.L. Música e Educação especial: uma possibilidade concreta para promover o desenvolvimento de indivíduo. Revista do Centro de Educação da UFSM, Santa Maria, V. 28, n° 02, P. 79-86, 2003.

LOUREIRO, C.M.V.; GUERRA, L.B.; FRANÇA, M.C.C. Musicoterapia na educação musical do portador de atraso do desenvolvimento: período crítico e plasticidade cerebral. Anais do I Encontro Nacional de Cognição & Artes Musicais. Curitiba: Editora do DeArtes, P. 203-209, 2006.

LOURO, V.dos S. Educação Musical e Deficiência: propostas pedagógicas. São José dos Campos: Ed. Do Autor, 2006.

MACEDO, B.C.; MARTINS, L.A.R. Visão das mães sobre o processo educativo dos filhos com Síndrome de Down. Revista Educar, Curitiba: Editora UFPR, n.23, 143-159, 2004.

MATIAS, R.B.; FREIRE, R.D. A importância da música no fortalecimento de vínculos afetivos em família com bebês Síndrome de Down. ICTUS, 6, 01- 08, 2005.

MOREIRA, S.V. Impacto da musicoterapia na qualidade de vida em adultos com esclerose múltipla. Anais do Simpósio Internacional de Cognição & Artes Musicais. Curitiba: Editora do DeArtes, p.456-460, 2005.

SCHWARTZMAN, J.S. Vídeo aula.

em

Disponível

http://www.schwartzman.com.br. Acesso em 10 jan.2008.