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A FUNDAÇÃO DAS IRMÃS SERVAS DOS POBRES

Passaram-se onze anos, onze longos anos de luta e de sacrifícios, e vendo o Pe. Cusmano faltar-lhe qualquer socorro, convicto que aquela Obra era querida por Deus, começou a pensar em confiá-la a algum Pio Instituto entre os aprovados pela Igreja, para impedir que a sua indignidade, como ele com profunda humildade dizia, continuasse a ser um obstáculo. Dirigiu-se então a várias Instituições religiosas para confiar suas pequenas orfãzinhas a piedosas Irmãs, às quais, mendigando de casa em casa o piedoso bocado, as poderiam

socorrer. Porém, nem as Filhas da Caridade, nem as Pequenas Irmãs dos Pobres quiseram aceitar. Enquanto em seu coração pensava em recorrer às Estigmatinas, o Senhor que, em seus planos quisera provar tão longamente sua constância veio consolá-lo de um modo todo especial. Deixemos a ele a palavra da narração de um fato que teve uma importância capital na vida do Servo de Deus e na existência da Obra por ele fundada:

“No dia em que recebi esta outra recusa (a das Pequenas Irmãs dos Pobres do Abade Lepailleur) cheguei ao cúmulo da minha dor. Havia terminado o meu trabalho era hora do meu descanso na amargura do meu coração, estava iniciando uma carta ao meu Diretor Espiritual para informá-lo sobre a resposta das Pequenas Irmãs dos Pobres, e pedir-lhe licença de convidar as Estigmatinas e confiar a elas as orfãzinhas, abandonando totalmente a idéia de querer conservar ainda a Associação do Bocado do Pobre que eu, por minha indignidade, via já destruída. Estava no término da carta quando um sentimento de mal estar unido ao sono, sem perceber, fez-me deitar na cama que estava ao meu lado, e na quietude daquele repouso, parecia-me estar num campo e na fenda de uma montanha que erguia-se à

Voltando o olhar, via um grande antro, onde estavam reunidas minhas

pequenas órfãs com as boas senhoras que as tem sempre assistido. Atrás destas, distinguia uma outra Senhora a mim desconhecida, também ela em trajes pobres, no ato de amamentar um menino. Estas coisas se manifestavam a um mesmo tempo e foi extrema minha surpresa,

Um alto grito e um rápido

impulso que me fez cair de joelhos aos pés da Mãe Santíssima, alertaram a todos, mas eu, prostrando-me profundamente, beijava seus pés, sentindo-me confortado, seguro, livre de qualquer perigo, como um menino no aconchego do seio materno. Teria permanecido ali toda a vida, se a meiga Senhora, soerguendo-me, não me tivesse avizinhado ao seu seio materno, onde, pouco antes, havia visto um menino; e, naquele instante, que não sei repensar sem comover-me, consolava-me da esperança de que a Obra era aceita pelo Senhor e que, oportunamente seria levada ao grande fim pelo qual a havia feito nascer. Depois com o sentimento que aludia aos meus desalentos e à minha indignidade: “É ao meu tenro Filho, é a Ele, a Ele só que tu deves tudo!” dizia-me dirigindo seu doce olhar atrás dos meus ombros, olhar que tirou-me da posição em que me encontrava; porque naquele mesmo instante, por um sentimento espontâneo de reverência, de gratidão, de temor, voltei a procurar Aquele ao qual tudo devia; vi então o menino na idade de quatro anos, com os olhos vermelhos, como quem havia tido um grande pranto, recolhido, sério, que obrigou- me a prostrar-me, pedir perdão das minhas ingratidões, e implorar piedade para as pobres criaturas a mim confiadas, pedindo também a ajuda de sua Providência para saciar-lhes materialmente. Então me ergui e recolhi pedaços de pão, que constituía toda nossa provisão, mas, ao retornar, vi somente a Mãe de Deus. Prostrando-me, supliquei-lhe de abençoar aqueles

minha esquerda

quando naquela Senhora reconheci a Grande Mãe de Deus! (

)

restos de pães, para que fossem suficientes para a alimentação de todas as órfãs, e a Mãe Santíssima, com benévolo aspecto acolheu minha prece e abençoou aqueles sobejos. Contentíssimo, ergui-me para distribuir os pães às órfãs, quando, voltando o olhar, vi duas grandes panelas de ferro em meio a grande fogo, e a água em ebulição que cozinhava o macarrão, lancei-me sobre elas, sem proteger as mãos, quando, a meiga Senhora me veio em auxílio. Quando acordei, surpreendi-me vestido na cama sem saber como. Não pensava nada daquilo que havia sonhado, porém meu coração não estava mais com aquelas angústias, que impeliam-me de escrever a carta, que eu deixara começada sobre a escrivaninha. Aprecei-me rapidamente para a celebração da Santa Missa, e no agradecimento, com nova surpresa, o sonho me veio à memória. Sinto ainda tanta consolação só ao pensar no sonho. Contei tudo ao meu amigo sacerdote, ao qual, na ausência do meu diretor espiritual, costumo dirigir-me para algum conselho (este era o Cônego Antônio Pennino) e ele me proibiu de completar e enviar a carta começada, exortando-me, pelo contrário, a não deixar de buscar a instituição das Irmãs e dos Frades que deveriam sustentar a Obra conforme eu a tinha desejado, e não recorrer às Estigmatinas, a não ser, quando, depois de se ter tentado tudo, visse claramente que o Senhor não queria esta nova Instituição. Continuei a trabalhar pacificamente em meio às dificuldades nas quais vivia há tantos anos, mas nenhum conforto humano via aparecer para iniciar a desejada Instituição. Era um contínuo milagre da Providência a alimentação de tantos pobres com a magra coleta que se ganhava durante o dia, a ponto de não ter coragem de comer minha sopa, sem antes ter certeza de que todos da casa estivessem saciados; após este período, a abundância começou

a crescer a cada dia. Foi então que por maior segurança de minha alma, e afim de conhecer

melhor a vontade do Senhor, fui consultar uma pia pessoa, que fora muito favorecida pelo

Senhor e pela Virgem Santíssima. (Esta era Melânia, que naquele tempo encontrava-se em Palermo). Após ter-lhe contado os meus problemas, ela com grande humildade me encorajou

a continuar na Obra começada, servindo dos elementos que o Senhor tinha me dado sem

procurar outras Instituições para me ajudarem. Em seguida me animou a vestir as Irmãs e a procurar reunir e iniciar a Comunidade daquele modo que o Senhor teria-me inspirado, confiando muito na ajuda de Deus e de Maria Santíssima, afim de que as coisas prosperassem para a sua glória e a salvação das almas. Entretanto eu estava esperando a volta do nosso Monsenhor Arcebispo que estava fazendo uma visita pastoral, para pedir-lhe licença de vestir as primeiras Irmãs. Chegando lhe relatei tudo, consegui a licença de vestir as primeiras Irmãs e na festa da Santíssima Trindade do ano de 1880 tive a sorte de vê-las já trabalhando com a aprovação do Ordinário”. 1 Assim finalmente o Senhor premiava a constância heróica do Pe. Giácomo, e a partir daquele dia a Obra do Bocado do Pobre tomava sua verdadeira forma regular e estável, como desde o princípio se apresentara mais no coração do que na mente do Servo de Deus. Muitos dias antes da vestição religiosa, sua sobrinha Madalena sonhara estar já vestida de Irmã: parecia-lhe estar trajada com um hábito preto, uma capa também preta, um capuz branco, um amplo avental azul, e um terço de Nossa Senhora ao lado. Foi aquele o hábito que o Pe. Giácomo adotou para as primeiras Irmãs, hábito que vestem ainda hoje. O manto preto completa este hábito quando as Irmãs saem de casa. Durante a coleta saíam com dois alforjes brancos, pareciam anjos de misericórdia andando pelas ruas de casa em casa, recolhendo as ofertas da caridosa cidade. As primeiras Irmãs que receberam o hábito sacro e às quais o Pe. Giácomo deu o título de Servas dos Pobres eram seis; primeira entre elas estava a Irmã Vincenzina. Educada na escola das grandes virtudes por aquele grande mestre de vida interior, Monsenhor Turano, foi

1 Carta ao Pe. Daniel de Bassano

o retrato perfeito de seu santo irmão e dividiu com ele a direção da Obra por tantos anos, também ela vítima da caridade. Que doçura inefável ela experimentou quando foi revestida do branco véu e do humilde hábito das Servas dos Pobres! Levada por natureza à vida de clausura venceu heroicamente a si mesma e se lançou na nova via que o Senhor lhe apontou, consagrando-se inteiramente ao serviço dos Pobres. “Vê, dizia-lhe brincando o Pe. Giácomo, tu querias entrar num mosteiro pequeno, ao invés o Senhor te quer num mosteiro grandíssimo. O mundo inteiro deve ser para ti este mosteiro.” E ela permaneceu fiel no seu lugar até que em 1894 o Senhor a chamou a receber o prêmio da sua caridade.

FONTE:

A Fundação das Irmãs Servas dos Pobres. In: Breves traços da vida do Padre Giácomo Cusmano, Fundador do “BOCADO DO POBRE”. Palermo: Gráfica “Bocado do Pobre”, 1914, cap. V.