UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO NORDESTE PROFº FLÁVIO CABRAL

RESENHA DO LIVRO “A INVENÇÃO DO NORDESTE E OUTRAS ARTES”, DE DURVAL MUNIZ DE ALBUQUERQUE JÚNIOR

ALUNO: JOSÉ ZITO JÚNIOR

RECIFE 2012

rs. branco e “civilizado”..br/2010/07/08/urbana3_0. pois. o jornal Diario de Pernambuco1 publicou uma matéria intitulada “Orkut: preconceito contra nordestinos”. os tipos regionais eram definidos pelo meio e pela composição racial da população. Oliveira Viana vai atestar a superioridade (econômica. Obrigado. muitas vezes institucionalizado através de práticas e discursos. Desse modo. Diante do problema das enchentes que castigara a maior parte do Nordeste. 32). o livro descortina a formação e a cristalização de um preconceito. como um ‘regionalismo de superioridade’. acesso em 08 de maio de 2012. no fundo. à presença do imigrante europeu. por não ser nordestino!". Até o início do século XX. A análise dessas afirmações nos levam a uma série de questionamentos: o que faz com que populações de um mesmo país se sintam superiores e inferiores às outras? O que ou quem alimenta esse sentimento? Como essa ideia foi e é arquitetada? O objetivo de Durval é estudar “como se formulou um arquivo de imagens e enunciados. "No fundo. o que existia era uma divisão do país em Norte e Sul.com. Na edição de 08 de julho de 2010. que se sustenta no desprezo pelos outros nacionais e no orgulho de sua ascendência europeia e branca” (p. Ou seja. explico: Numa metade do ano morrem na seca e na outra metade morrem na enchente. No discurso naturalista. social. baseada nos aspectos ligados à natureza. São Paulo seria a expressão máxima de 1 http://www. “o regionalismo paulista se configura. Vai ter mais lixo do que já tem aqui". 57). um estoque de ‘verdades’. ou ainda "Pessoal com essas enchentes no Nordeste acho que os cabeçudos vão vir em massa pra SP.. tenho dó de nordestino. que direcionam comportamentos e atitudes em relação ao nordestino *. .diariodepernambuco. não existia um nordeste. o texto cita comentários como "nordestinos devem morrer nessa lama". chega-se a conclusão de que suas ideias continuam atuais e os exemplos citados pululam no cotidiano.+” (p.. pautada numa relação de superioridade da região Sudeste sobre o restante do país. tô muito preocupada com isso. cultural) paulista como meio e como povo graças a um maior eugenismo da população.Para além do Nordeste Ao lermos as primeiras páginas do livro A invenção do nordeste e outras artes. uma visibilidade e uma dizibilidade do Nordeste. Por exemplo. "deviam ter se afogado nas águas sujas". de Durval Muniz. meu Deus. da mídia e da literatura..asp. Ele defende a tese de que o que o senso comum entende como nordeste – e nordestino – é fruto de uma construção imagético-discursiva.

como garantia de manutenção de privilégios e lugares sociais. O nordeste vai se inventando e sendo inventado quando do surgimento de uma nova forma de olhar o espaço. momento de crise da visão naturalista e momento em que se repensam os símbolos e a estrutura imagético-discursiva que constituíam o que era chamado de Norte. mantendo partes dos . (p. espaço que conteria o arcabouço sociocultural para o Brasil que estava surgindo enquanto nação. era a parte do Norte que sofria com as secas. a partir de então. Assim. esse processo que deu origem ao que chamamos Nordeste não foi linear. e por que não dizer de ser! O Norte do cangaço. vai aos poucos se cristalizando graças. O Nordeste nasce da construção de uma totalidade político-cultural como reação à sensação de perda de espaços econômicos e políticos por parte dos produtores tradicionais de açúcar e algodão. o Nordeste surge como reação às estratégias de nacionalização que o dispositivo da nacionalidade e a formação discursiva nacional-popular põem em funcionamento. ao optar pela tradição. pós-Proclamação da República. das famílias ou dos grupos oligárquicos estaduais. o que a significou a invenção das tradições nordestinas? De que forma essa criações contribuíram para a invenção também de um Nordeste? De acordo com o autor. ameaçados. sobretudo. pela defesa de um passado em crise.civilização e desenvolvimento. estático. para justificar e/ou legitimar uma condição do presente. da miséria. do fanatismo. busca-se um aspecto do passado. embora assentada no discurso da tradição e numa posição nostálgica em relação ao passado. É o que Durval chama de “espaços da saudade”. “condenado pela história”. nostalgicamente. Ele é uma nova região nascida de um novo tipo de regionalismo. por isso não expressa mais os simples interesses particularistas dos indivíduos. este discurso regionalista nordestino fez opção pela miséria. aos espaços literários e midiáticos. como síntese da antiga oposição Norte-Sul. 80) Buscar as raízes da região Nordeste e erigir um modelo identitário nordestino passou a ser essencial nesse contexto. pela paralisia. O Nordeste surge no final da década de 1910. A produção do discurso sobre o nordeste e sua repetição como verdade vai criando uma maneira de ver e dizer. Entretanto. Inventar é (re)criar no pensamento e acreditar que isso se dá no real. da seca. E isso se deu no resgate de um passado. Segundo Durval. dos comerciantes e intelectuais a eles ligados. O que faria o Nordeste Nordeste? Que características socioculturais o tornaria diferente das demais regiões? Quais os elementos que formariam o imaginário nordestino? Era preciso retomar/inventar as tradições. institucionalizar o Nordeste.

a construção de uma ideia de região que ao mesmo tempo em que era vitimizada aceitava essa vitimização. sob pena de nos tornarmos superficiais em sua análise. O Nordeste cujos preconceitos foram institucionalizados. 90) Daí. com suas nuances e idiossincrasias. dos fanatismos. Durval Muniz mostra que o Nordeste foi gestado no seio de discursos. além de “conhecimentos” produzidos por estudos em torno da região.. portanto. seja em que aspecto nos detenhamos [.] Vai se operar nestes discursos um arquivo de clichês e estereótipos de decodificação fácil e imediata.. de preconceito populares ou aristocráticos. à custa de um processo de retardamento cada vez maior de seu espaço. existem outros nordestes. coseu-se com suas próprias linhas. O Nordeste que foi cosido. (p. Desse modo. imagens e símbolos estereotipizadores. O Nordeste e o nordestino. para além das secas. e das heranças coronelistas. mas que. Esse Nordeste estereotipado carece ser desconstruído e repensado. proferidos e aceitos. que precisam ser visitados. foram uma criação. discutidos e valorizados . como bem sabemos. para além do Nordeste. como disse Agamenon Magalhães. . E.privilégios dos grupos ligados ao latifúndio tradicional.

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