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F F O O G G E E , , N N I I C

FFOOGGEE,, NNIICCKKYY,, FFOOGGEE!!

Nicky Cruz

e Jamie Buckingham

Título original em inglês: Run Baby Run Tradução de Adiel de Almeida Oliveira 6ª.edição, 1980 Editora Betânia Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap

PPrreeffáácciioo

P P r r e e f f á á c c i i o o
P P r r e e f f á á c c i i o o

este

projeto, Cath erin e Marsh all com en tou qu e escrever u m livro deste tipo é com o ter u m filh o. Eu teria de viver com ele, até que nascesse.

Neste caso, n ão fu i só eu qu em teve de viver com ele, m as a m in h a fam ília e tam bém a Igreja Batista do Tabern ácu lo qu e eu estava pastorean do. Sofreram com igo todos os ataqu es de m al-estar m atu tin o, todas

as dores de parto, e até m esm o u n s dois alarm es falsos.

fam ília com o a igreja, com preen deram

qu e este livro era con cebido pelo Espírito San to, escrito

com oração e lágrim as, e deveria ser pu blicado para a glória de Deu s. A igreja praticam en te libertou -m e de todas as obrigações, até term in á-lo; além disso, vários dos membros ajudaram no trabalho de datilografia.

e

Mas, tan to m in h a

QUANDO

TOMEI

A INICIATIVA de

rea liza r

Con tu do,

os

padrin h os

do

livro

foram

J oh n

Tibby Sh erril e os editores da revista Gu ideposts. A recom en dação e a con fian ça de J oh n deram in ício ao projeto, e n o seu térm in o, foi a crítica do casal Sh erril qu e n os deu a visão fin al da h istória violen ta, m as empolgante, da vida de Nicky Cruz.

si

cabem , porém , a Patsy Higgin s, qu e ofereceu volu n - tariam en te os seu s serviços para a glória de Deu s. Ela viveu e sen tiu o m an u scrito com o crítica, editora e datilógrafa — revela n do u m ta len to pa ra corta r e reescrever, que só pode ter sido dado por Deus.

Os

m éritos

da

m ovim en tação

da

h istória

em

O livro em

si qu ebra u m a das regras básicas da

literatu ra. Term in a

apoteótico ou bem elaborado. Cada vez qu e eu en -

fin al

abru ptam en te.

Não

h á

u m

trevistava Nicky Cru z, ele relatava u m a experiên cia n ova

livro — ta lvez

para vários. Portanto, Foge, Nicky, Foge! é a história, tão

exata, qu an to possível, dos prim eiros vin te e n ove an os

e fa n tá s tica , m a teria l qu e

da ria pa ra ou tro

da

vida de u m m oço, cu jos dias m ais áu reos ain da estão

no

futuro.

Jamie Buckingham

Eau Gallie, Flórida

IInnttrroodduuççããoo

 

A HISTÓRIA DE NICKY CRUZ é notável. Tem todos

os

elem en tos de tragédia, violên cia e in teresse, além do

m aior de todos os in gredien tes, o poder do evan gelh o de Jesus Cristo.

cen ário obs-

curo e ten ebroso para o eletrizan te desen lace desta

Os

prim eiros

capítu los

form am

u m

h

istória. Portan to, n ão desan im e com

a

atm osfera

u m

tanto sangrenta da primeira metade do livro.

 

Nicky é

jovem ,

e

está

atu alm en te

cau san do

u m

grande impacto sobre um bom número de outros jovens,

n os Estados Un idos. A popu lação adu lta já n ão pode

m ais ign orar a m ocidade, com

do sécu lo vin te. A ju ven tu de

vida. Não está en am orada de n ossos esclerosados tabu s sociais. Qu er sin ceridade n a religião, h on estidade n a política , e ju s tiça p a ra os d es p rivilegia d os d a sociedade O aspecto en coraja-dor, n o qu e diz respeito a

esses m ilh ões de “garotos” (qu e em 1970 u ltra pa ssa ra m

o n ú m ero da popu lação adu lta), é qu e eles estão

desesperadam en te procu ran do solu ções para seu s

cen ten as de estu dan tes de

problem as. Em con tatos com

n ossas u n iversidades, fiqu ei trem en dam en te

im pression ado com a bu sca qu e estão em preen den do,

os trem en dos problem as bu sca u m propósito n a

procu ran do a verdade, a realidade e solu ções h on estas. Algu n s joven s de n ossas favelas estão an siosos para ter

u m con tato h on esto com a sociedade, e com razão.

Algu n s deles são in flu en ciados por defen sores da

violência e da força bruta, e são facilmente atraídos para

e

pilh agem . Foge, Nicky, Foge! é u m exem plo n otável de qu e essa m ocidade in satisfeita pode en con trar u m sign ificado e u m propósito para a vida, n a pessoa de Cristo.

o redem oin h o

dos

distú rbios

de

ru a,

in cên dios

cam pan h as, qu ase a m etade dos ou -

vin

cam pan h as

da verdade e de objetivos para a vida. Cen ten as deles

atendem ao chamado de Cristo.

em ocion an te!

Min h a esperan ça é qu e ela seja m u ito lida, e qu e m u itos leitores ven h am a con h ecer o Cristo qu e tran sform ou o coração vazio e in satisfeito de Nicky Cru z e fez dele u m a epopéia cristã de nossa era.

e para zom bar, m as para u m a bu sca sin cera

Em

tem

n ossas

m en os

tes

de

vin te

cin co

an os.

Não

vão

às

Foge, Nicky, Foge! é

u m a

h istória

Billy Graham

PPrreeââmm bbuulloo

istória Billy Graham P P r r e e â â m m b b u
istória Billy Graham P P r r e e â â m m b b u

A HISTÓRIA DE NICKY é, possivelm en te, a m ais

dram ática do m ovim en to Pen tecostal, m as n ão é a

ú n ica. Nicky é u m vivido represen tan te de vasto n ú m ero

de pessoas qu e, n as ú ltim as décadas, têm sido libertadas do crim e, do álcool, dos n arcóticos, da prostitu ição, do h om ossexu alism o, e de qu ase todo tipo de perversão e degen eração qu e o h om em con h ece. Tratam en to psicológico, cu idados m édicos e con selh os espirituais n ã o con segu ira m in flu en cia r essa s pessoa s.

Elas, porém , foram libertas de su a escravidão de m odo

in

esperado e m aravilh oso, pelo poder do Espírito San to,

e

levadas a u m a vida de serviço ú til, e, algu m as vezes,

de profu n da oração. É m u ito n atu ral descon fiar-se de

tran sform ações radicais e repen tin as. Porém n ão h á razão teológica para se su speitar delas. A graça de Deu s pode apossar-se de u m h om em e tran sform á-lo, n u m abrir e fechar de olhos, de pecador em santo. “Porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a

Abraão.” (Lu ca s 3:8.) O es forço

produ zir tais tran sform ações, n em n a própria pessoa

n em em ou trem , porqu e a n atu reza exige tem po

desen volver, gradu alm en te; m as Deu s pode fazer em u m instante o que leva anos e anos para o homem realizar.

h u m a n o n ã o pode

para se

Con versões assim ocorreram n a h istória do cris-

tian ism o, desde o prin cípio. Zaqu eu , Maria Madalen a (a

apóstolo

Pau lo, e m esm o Mateu s, o discípu lo, são os prim eiros de

u m a

con versões está ten do lu gar h oje em dia, em relação ao

chamado “Movim en to Pen tecostal”, o qu e é, creio eu ,

fato

extraordinário?

Ten h o m editado m u ito sobre isto, e o qu e m e vem

à m en te com freqü ên cia é a parábola das bodas (Mateu s 22:1-14). Qu a n do a s pessoa s con vida da s n ã o

apareceram , o sen h or disse a seu

para as ru as e becos da cidade e traze para aqu i os

pobres , os a leija dos , os cegos e os coxos .” (Lu ca s 14:21.)

Qu an do n em

u m a

e atalh os,

sem

pen iten te

de

Lu cas

lista.

7:37),

o

“bom

o

ladrão”,

o

lon ga

Con tu do,

m aior

n ú m ero de tais

preceden tes.

Qu al

o

sign ificado

deste

servo: “Sai depressa

aqu ilo foi su ficien te,

vez para

os

o servo foi en viado

cam in h os

vez m ais, desta

com

a ordem : “Obriga a

todos a en trar, para qu e fiqu e

ch eia

a

m in h a

casa.” Creio qu e

isto é

o

qu e

estam os

ven do a con tecer h oje. Os “convidados” à m es a do

Sen h or, isto é,

sociedade, já

dem on straram sobejam en te qu e são in dign os. Eles “vão

à

os

qu e “n asceram

legítim os

n ão

n o cristian ism o”, os

da

têm

participado do

ju

stos,

os

m em bros

n a

igreja”,

m as

verdade

banquete propiciado pelo Rei. É por isto que a Igreja, em lu gar de ser u m corpo vivo e u m a testem u n h a

desafiadora, m u itas clube religioso.

discu tem

qu al o n ovo vocabu lário qu e fará ressu scitar Deu s (porqu e tu do o qu e con h ecem a respeito dele são palavras), e qu e n ovos sím bolos farão com qu e a litu rgia ten h a m ais sign ificado (porqu e tu do o qu e en xergam n a religião é a parte h u m an a), Deu s está reu n in do, em silên cio, n ovos con vidados para o seu ban qu ete. Recebe

alegrem en te aqu eles qu e, segu n do os padrões h u m an os, são espiritu al e m oralm en te pobres, aleijados, cegos e

m esm o

coxos. Pelo poder do

“forçando-os” a en tra r, a rra n ca n do-os da s ru a s da degradação e dos atalhos da perversão.

Nicky Cru z e os m ilh ares qu e se lh e assem elh am

in ú til

vezes

os

se

assem elh a

da

a

lei

u m

Todavia,

en qu an to

dou tores

seu

Espírito,

está

n ão são apen as exem plos com oven tes

do

am or

fiel do

Bom Pastor, m as são tam bém sin ais dos

tem pos, qu e

faríam os bem em discern ir. São u m sin al en corajador de

qu e Deu s está agin do com u m poder n ovo em n ossa época , pa ra qu e n ã o ten h a m os m edo de proclamar ou sadam en te o evan gelh o a todos. Por ou tro lado, tam bém são u m sin al de advertên cia a todos os qu e, pelos seu s h ábitos religiosos, pelo seu m in istério

sagrado, ou por qu alqu er ou tra razão, seja ela qu al for,

ju lgam

“Porqu e vos declaro qu e n en h u m daqu eles h om en s qu e foram con vidados provará a m in h a ceia.” (Lu cas 14:24.) Porque “está pron ta a festa , m a s os con vida dos n ã o eram dignos”. (Mateus 22:8.)

ter

u m

lu gar m arcado à m esa do ban qu ete.

Prof. Edward D. O'Connor,

Universidade de Notre Dame

Estados Unidos

C.S.C.

Capítulo 1

NNIINNGGUUÉÉMM MMEE QQUUEERR

1 N N I I N N G G U U É É M M M
1 N N I I N N G G U U É É M M M

“SEGUREM

ESSE

GAROTO

MALUCO!”

gritou

alguém.

A

porta

do

qu adrim otor

da

Pan

Am erican

m al

acabara de se abrir, e eu já m e precipitava escada

abaixo, em direção ao prédio do Aeroporto Idlewild, em

de

frio fazia arder minhas faces.

n o

a viã o em Sa n J

do

n o

avião até a ch ega da de m eu irm ão, Fran k. Porém, qu an do a porta abriu , fu i o prim eiro a sair, corren do selvagemente pela pista de concreto.

aeroporto se aproxim aram de

m im , cercan do-m e, em pu rran do-m e con tra a cerca de correntes de aço, a o lado do portão. O ven to cortan te zu n ia através da m in h a rou pa tropical e leve, en qu an to eu procu rava escapar. Um policial agarrou -m e pelo braço, e os fu n cion ários voltaram ao seu trabalh o. Para m im aqu ilo era u m a brin cadeira; olh ei para o gu arda e sorri.

preten de

“Porto-riqu en h o fazer?”

rebelde e am argu rado. Fora

piloto; h aviam -m e

jan eiro de 1955, e o ven to

Nova York. Estávam os

a

4

Algu m as

h oras

u a n :

an tes,

u m

pai ra pa zin h o

m eu

m e

colocara

porto-riquenho,

cu idados

en tregu e aos

qu e

recom en dado

perm an ecesse

Três fu n cion ários do

lou co! Qu e

dia bo

você

Meu sorriso su m iu qu an do n otei ódio em su a voz. Su as boch ech as gordas estavam verm elh as de frio, e os olh os lacrim ejavam devido ao ven to. Um toco de cigarro apagado estava esqu ecido en tre seu s lábios balofos.

Ódio! Sen ti-o circu lar por todo o m eu corpo. O m esm o ódio qu e eu tivera con tra m eu pai e m in h a m ãe, con tra m eu s professores e os gu ardas em Porto Rico. ódio! Ten tei libertar-m e, m as ele m e pren deu com u m a férrea chave de braço.

“Venh a , ga roto, va m os volta r a o a viã o.” Olh ei pa ra ele e dei uma cusparada.

“Porco!” ros n ou . “Porco s u jo!” Ele a frou xou a pressão sobre o meu braço e tentou segurar-me por trás, pela gola do casaco. Mergu lh an do por baixo do seu braço, deslizei pelo portão aberto qu e levava para o edifício do aeroporto.

Atrás de m im , ou vi gritos e pisadas rápidas. Corri pelo lon go corredor desvian do-m e, à esqu erda e à direita das pessoas qu e se dirigiam aos aviões. De repen te, achei-m e em u m gran de salão. Descobrin do u m a porta de saída, zuni pelo salão e saí para a rua.

Um gran de ôn ibu s estava parado ju n to ao m eio- fio, com a porta a berta e o m otor liga do. A fila estava en tran do. Com algu m as em pu rradas, con segu i en trar

m otorista m e agarrou pelo om bro e pediu o pa s s a gem . En colh i os om bros e res pon di-lhe

em espan h ol. Ele m e pôs para fora rispidam en te,

ocu pado dem ais para perder

tolo qu e m al com preen dia in glês. Qu an do ele desviou a aten ção para u m a sen h ora qu e estava rem exen do n a bolsa, ba ixei a ca beça e esgu eirei-m e por detrá s dela , atravessei a porta e pen etrei n o ôn ibu s lotado. Dan do u m a olh adela por sobre o om bro, para ter a certeza de que ele não me vira, dirigi-me à parte traseira do ônibus, e sentei-me junto a uma janela.

tem po com u m rapazin h o

tam bém . O dinheiro da

Qu an do o coletivo deu a partida, vi o gu arda gordu ch o e m ais dois soldados sair ofegan tes pela porta lateral do aeroporto, e olh ar em todas as direções. Não pude resistir à tentação de bater na vidraça, acenar para eles e sorrir através do vidro.

Afu n dan do n o ban co, apoiei os joelh os n as costas do assen to da fren te e apertei o n ariz con tra o vidro frio

e sujo da janela.

tráfego

in ten so de Nova York, em direção ao cen tro da cidade.

sem pre im agin ara qu e a n eve era bran ca e bon ita, com o

O

ôn ibu s

h avia

atravessou

e

lam a

com

pelas

dificu ldade

ru as

e

o

fora

n eve

calçadas.

Eu

n os

con tos

de

fadas.

Mas

aqu ela

era

parda,

com o

m

in gau

su jo.

Min h a

respiração

em baçou

a

vidraça.

Afastei-m e

u m

p ou co

e

p a s s ei

o

d ed o

n ela .

Era

u m

m

u n do diferen te, in teiram en te

diferen te

do

qu e

eu

acabara de abandonar.

Min h a

m en te

voltou

ao dia

an terior,

qu an do eu

parara n o m orro dian te de m in h a casa. Lem brei-m e da

gram a verde qu e m eu s pés am assavam , salpicada

pon tin h os de cor clara, das pequ en in as flores cam pestres. O cam po descia n u m declive su ave, até a vila, lá em baixo. Lem brei-m e da brisa fresca qu e soprava con tra m in h a face, e do calor do sol em m inhas costas bronzeadas e nuas.

bela terra de sol e de crian ças

descalças. É camisa, e a s

u m sol cau stican te. Os son s dos tam bores de aço e das gu itarras ou vem -se n oite e dia. É u m a terra de can tigas, flores, crianças sorridentes e água azul refulgente.

Mas é também uma terra de feitiçaria e macumba,

de su perstição religiosa e de m u ita ign orân cia. De n oite, os son s dos tam bores da m acu m ba ressoam n as

m on tan h as cobertas de palm eiras, en qu an to feiticeiros exercem o seu ofício, oferecen do sacrifícios e dan çan do com serpentes à luz de fogueiras bruxuleantes.

Meu s pais eram espíritas. Gan h avam a vida ex- pu lsan do dem ôn ios e estabelecen do u m su posto con tato com espíritos de mortos. Papai era um dos homens mais tem idos da ilh a. Com m ais de l,80m de altu ra, seu s

dos

Porto Rico é

u m a

u m a terra em qu e os h om en s n ão u sam

m u lh eres ca m in h a m pregu içosa m en te

sob

en orm es om bros en cu rvados h aviam levado os ilh éu s a se referirem a ele com o “O Gran de” Ele fora ferido du ran te a Segu n da Gu erra Mu n dial e recebia u m a

pen são do govern o. Mas, com o h avia dezessete

m en in os

e u m a m en in a n a fam ília, depois da gu erra ele recorreu ao espiritismo para ganhar a vida.

“médium”.

de

Nossa

Mam ã e casa

tra ba lh a va

era

sede

de

com

toda

pa pa i sorte

com o

de

reu n iões

m acu m ba,

sessões

e

feitiçaria.

Cen ten as

de

pessoas

vin h am espíritas.

de

toda

a

ilh a

para

participar

das

sessões

Nossa casa en orm e, n o alto da colin a, era ligada por u m a trilh a sin u osa e estreita à pequ en a vila m o- dorren ta de Las Piedras, escon dida n o vale, lá em baixo. Os aldeões su biam pela trilh a a qu alqu er h ora do dia ou da n oite, para ir à “Casa do Feiticeiro”. Eles ten tavam falar com espíritos dos m ortos, tomavam parte em atos de feitiçaria, e pediam a papai para libertá-los de demônios.

ou tros m édiu n s qu e

casa

ati-

se

vidades. Algu n s perm an eciam ali sem an as segu idas, às

expu lsan do

vezes

in vocan do demônios.

fren te, ao

redor da qu al o povo se assen tava, qu an do estava ten tan do se com u n icar com os espíritos dos m ortos. Papai era m u ito en ten dido n o assu n to, e tin h a u m a biblioteca de m a gia e espiritism o, sem igu a l, n a qu ela parte da ilha.

Papai era

o ch efe n ossa

de

m as

h avia

para

às

n a

u tilizavam

sede

vezes

sala

de

su as

espíritos,

Havia

u m a

m esa

com prida

da

Certa m an h ã, dois h om en s trou xeram u m a se-

casa. Eu e m eu irm ão Gen e

da

porta, e vim os qu an do eles a esten deram sobre a m esa gran de. O seu corpo trem ia e gem idos escapavam de seu s lábios; os h om en s se postaram u m de cada lado da

n h ora pertu rbada à n ossa esgueiramo-n os da ca m a ,

olh a m os

por

u m a

fres ta

m esa, segu ran do-a. Mam ãe ficou

aos pés dela, com

os

olh os

ergu idos

para

o

teto,

repetin do

palavras

estran h as.

Papai

foi

à

cozin h a

e

voltou

com

u m a

pequ en a u rn a preta ch eia de in cen so a fu m egar. Trazia tam bém u m gran de sapo qu e colocou sobre o estôm ago agitado da m u lh er. Depois, su spen den do a u rn a sobre a

corpo

cabeça

convulso.

m an dou qu e os es- en trassem n o sapo.

De repen te, a m u lh er jogou a cabeça para trás e soltou

u m grito agu do. O sapo saltou do seu estôm ago e

píritos m au s saíssem da m u lh er e

dela,

aspergiu

de

in cen so

sobre

seu

Nós

trem íam os

de m edo; ele

espatifou-s e con tra a s oleira da ela com eçou

dos h om en s qu e a segu ravam , rolou da m esa e caiu pesadam en te n o ch ão. Picou baban do e m orden do a

espu m a

lín

escorria pelos cantos de sua boca.

porta . Im edia ta m en te,

a da r pon ta pés e, sa cudindo-se, libertou -se

gu a

e

os

lábios;

san gu e

m istu rado

com

 

Mais

tarde aqu ietou -se e ficou

im óvel. Papai de-

clarou

qu e

ela

estava

cu rada

e

os

h om en s

lh e deram

din h eiro. Eles pegaram o corpo in con scien te e se foram , agradecen do a papai e ch am an do-o repetidam en te de “Grande Milagreiro”.

Min h a in fân cia foi ch eia de tem or e sobressaltos.

O fato de sermos uma família grande significava que mui

pou ca aten ção era Eu tin h a raiva de

macumba que era realizada todas as noites.

No verão anterior à época que eu devia entrar para

a escola papai tran cou -m e, u m dia, n o pom bal. J á era

noite e ele m e a pa n h a ra rou ba n do din h eiro

m am ãe. Procu rei correr, m as ele esticou

agarrou pela n u ca: “Não adian ta correr, m olequ e. Você roubou; agora vai me pagar.”

dada

papai

in dividu alm en te

e

m am ãe,

e

a tin h a

cada

filh o.

da

m edo

da bols a de braço e m e

o

“Eu te odeio”, gritei.

Ele m e levan tou do ch ão, sacu din do m e dian te de si “Vou en sin á-lo a falar assim com seu pai”, disse en tre den tes. Colocan do-m e debaixo do braço com o se eu fosse u m saco de farin h a, atravessou o qu in tal escu ro, dirigindo-se ao pombal. Escutei o ruído de suas mãos ao abrir a porta. “Para dentro”, rosnou ele. “Você vai ficar aí com os pombos, até aprender.”

Atirou-m e porta a den tro, e fech ou -a a trá s de m im , deixando-m e em tota l es cu ridã o. Ou vi o trin co s en do colocado no lugar, e a voz de papai, abafada, através das fen das da parede: “E n ada de jan tar.” Ou vi seu s passos se diminuindo na distância, de volta para casa.

Eu estava petrificado de terror. Martelava a porta com os pu n h os. Ch u tava-a fren eticam en te, gritan do e chorando. De repente, a casinhola encheu-se do barulho de asas: os pássaros, assu stados, h aviam acordado;

repetidas vezes, ch ocaram -se con tra

Apertei as m ãos con tra o rosto e gritei h istericam en te, en qu an to as pom bas se arrem etiam con tra as paredes, e

bicavam ferozm en te m eu rosto e pescoço.

n o ch ão im u n do, e en terrei a cabeça n os braços,

ten tan do proteger os olh os e tapar os ou vidos para n ão ou vir o som das asas qu e volteavam sobre m in h a cabeça.

o m eu corpo.

Caí atu rdido

Parecia qu e u m a etern idade se passara, qu an do a

porta abriu , e papai m e fez ficar de pé e arrastou -me para o qu in tal. “Da próxim a vez, você vai lem brar-se de

n ão rou bar e de n ão respon der com in solên cia qu an do

for apan h ado”, disse ele asperam en te: “Agora, tom e u m

banho e vá para a cama.”

son h ei

com pássaros esvoaçan tes qu e se ch ocavam con tra m eu corpo.

Ch orei n aqu ela

n oite

até

dorm ir; depois,

Meu s ressen tim en tos con tra papai e m am ãe rea-

a

tarde,

vivaram-s e

escola.

Eu

n o

a n o

s egu in te, qu alqu er

qu a n do

en trei

Mais

pa ra

odiava

au toridade.

qu an do já tin h a oito an os, rebelei-m e de u m a vez con tra

m

eu s

pa is . Foi em

u m a

ta rde qu en te de verã o. Ma m ã e e

rios

ou tros

“médiuns”

esta va m

sen ta dos

à

gra n de

m esa da sala, tom an do café. Eu m e can sara de brin car

com m eu irm ão e en trara n a sala, brin can do com u m a pequ en a bola, baten do-a n o assoalh o. Um dos m édiu n s

disse à m am ãe: “O Nicky é u m m en in o bon ito. Parece com você. Deve orgulhar-se dele.”

ba-

lançar-se n a cadeira, para a fren te e para trás. Seu s

aparecer som en te o bran co.

Esten deu os braços para a fren te, sobre a m esa. Seu s dedos ficaram du ros e trem iam e ela levan tou vagarosam en te os braços sobre a cabeça e com eçou a

filh o.

olh os reviraram , a pon to de

Mam ãe

olh ou

séria

para

m im

e

com eçou

a

m eu Não, Nicky n ão. Ele n u n ca foi m eu . Ele é filh o do m aior

de todos os bru xos. Lú cifer. Não, m eu n ão

não

falar em tom de can toch ão: “Este

n ão

n ão, m eu

Pilho de Satanás, filho do diabo.”

Larguei a bola, que rolou pela sala afora. Encostei-

em tran se; su a voz se

em

m ão de

n a

a n ão, m eu

m e à parede, e m am ãe con tin u ou

levan tava

e

baixava,

en qu an to

responso: “Não, m eu

su a

n ão,

vida

n ão,

vida

da

o

dedo

besta

n o

de

seu

ela m eu ,

falava

n ão

com o

a

está

alm a

Lú cifer sobre a

su a

m arca

não.”

faces.

De

rega la dos e gritou com voz esga n iça da : “Sa i, DIABO!

Para

Longe!”

ar-

o dedo de Satan ás

toca

n a Não, m eu

su a

pelas

os

Satan ás

coração

Observei qu e lágrim as

voltou -se

de

m im .

para

corriam

m im

su as

repen te,

lon ge

com

olh os

Deixa-m e,

DIABO! Lon ge! Lon ge!

Eu estava petrificado de terror. Corri para o m eu

Pen sam en tos

passavam pela m in h a m en te com o rios can alizados em

u m a

Satan ás

de

Nin gu ém m e qu er.

qu arto

e

jogu ei-m e

sobre

“Não

a

sou

cam a.

filh o

gargan ta

ela

estreita.

n ão

dela

filh o

m e

am a

Ninguém me quer.”

En tão as lágrim as vieram , e eu

com ecei a ch orar

e

solu çar. A dor qu e sen tia n o peito esmurrei a cama até ficar exausto.

a

era in su portável,

e

O velh o ódio se a gitou den tro de m im , a con su mir

da m aré avan ça sobre u m

m in h a m ãe. Pu xa, com o

a odiava! Eu qu eria feri-la, tortu rá-la, vin gar-me.

m in h a

recife de coral. Sen ti qu e odiava

alm a,

com o a

on da

Empurrei a porta e saí correndo e gritando até a sala. Os

m

édiu n s

ain da

estavam

ali

com

m am ãe. Esm u rrei a

m

esa e gritei. Estava tão fru strado pelo ódio qu e

gaguejava e as palavras não saíam direito: “Eu — eu

te o-o-odeio.” Apon ta va

mãe e gritava: “Vo-vo-você me paga. Você me paga.”

t-

m in h a

u m

dedo

trêm u lo

pa ra

Dois de m eu s irm ãos m ais n ovos estavam à porta

olh

an do, cu riosos.

Em pu rrei-os para o lado e corri para

os

fu n dos da casa. Mergu lh an do escada abaixo, virei-me

e

arrastei-m e para baixo da varan da e ch egu ei ao can to

escu ro e frio on de eu sem pre m e escon dia. Abaixado sob

a escada, no meio daquela poeira seca, ouvi as mulheres

rin do e m ais alta do qu e as ou tras, a voz de m in h a m ãe

ecoan do através do assoalh o rach ado: “Viram , eu bem disse que ele é filho de Satanás.”

destru í-la, m as n ão gritei de desespero,

sabia

m eu corpo sacu din do-se em solu ços, con vu lsivos. “Eu te

odeio. Eu te odeio. Eu te odeio”, gritei. Mas n in gu ém m e

ou viu . Nin gu ém se im portou . No m eu desespero pegava mancheias de pó e atirava fu riosam en te em todas as direções. A poeira assen tava em m eu rosto transformando-se em pequ en os ria ch os su jos a o misturar-se com as lágrimas.

Com o sen ti ódio dela. Qu eria

com o. Esm u rran do a

poeira,

 

Mais

tarde

o

fren esi acalm ou -se

e

fiqu ei em

si-

lên

cio.

Ou vi

as

crian ças

brin can do

n o

qu in tal.

Um

garoto

estava

can tan do

u m a

m ú sica

m e

qu e

falava

de

passarin h os

e

borboletas

m as

eu

sen tia

isolado,

solitário

obcecado pelo m edo. Ou vi a porta do pom bal fech ar-se e as ru idosas passadas de papai qu e vin h a dos fu n dos da

casa; ele com eçou a su bir os degrau s da escada.

en tre as rach adu ras

das tábu as dos degrau s. “O qu e está fazen do aí em

baixo, m en in o?” Fiqu ei em silên cio, com a esperan ça de qu e n ão m e recon h ecesse. Ele en colh eu os om bros e

porta

Paran do, olh ou para as trevas, por

Tortu rado pelo ódio e pela persegu ição e

con tin u ou su bin do a escada, e en trou deixan do a bater atrás de si. Ninguém me quer, pensei.

voz

de baixo profu n do de m eu pai u n iu -se à das m u lh eres. Eu sabia que eles ainda estavam rindo de mim.

On das de ódio m e in vadiram ou tra vez. Lágrimas

rolaram pelo m eu rosto,

te odeio, m am ãe! Eu te odeio. Eu te odeio.” Min h a voz

ecoou no vácuo sob a casa.

Ou vi m ais risadas den tro da casa, qu an do

a

e com ecei a gritar de n ovo. “Eu

Ch egan do a u m au ge de em oção, caí de costas n a

poeira, e rolei de um lado para o outro — a poeira cobria m eu corpo. Exau sto, fech ei os olh os e ch orei, até cair

num sono agitado.

O sol já tin h a se escon dido n o m ar, qu an do des-

pertei e m e arrastei para fora, sain do de baixo da varan da. A areia ain da ran gia em m eu s den tes, e o m eu corpo estava coberto de su jeira. Os sapos coaxavam . Os grilos can tavam . Eu sen tia o orvalh o ú m ido e frio sob meus pés descalços.

lu z

am arela projetou -se on de m e ach ava, ao pé da escada.

“Porco!”

tem po debaixo da casa? Veja com o está. Não qu erem os

gritou ele. “O qu e você es ta va fa zen do ta n to

Papai abriu a porta

dos

fu n dos, e

u m

jato de

porcos por aqui. Vá se lavar e venha jantar.”

lavava

debaixo da bica, ch egu ei à con clu são de qu e h averia de odiar etern am en te. Com preen di qu e n u n ca m ais am aria

Obedeci.

Porém ,

m editan do

en qu an to

m e

de n ovo

Medo, su jeira e ódio para o filh o de Satan ás.

comecei a fugir.

Mu itas fam ílias porto-riqu en h as têm o costu m e de

m an dar seu s filh os para Nova York, qu an do estes alcan çam idade su ficien te para cu idar de si. Seis dos m eu s irm ãos m ais velh os já h aviam deixado a ilh a, mudando-se para Nova York. Todos estavam casados e procurando construir vida nova.

Eu , porém , era m u ito n ovo para ir. Não obstan te,

Foi qu an do

a

n in gu ém .

E

n u n ca

m ais ch oraria

n u n ca.

n os cin co an os segu in tes m eu s pais ch egaram à

n ão era possível qu e eu perm an ecesse

em Porto Rico. Torn ara-m e rebelde n a escola. Estava sem pre procu ran do briga, prin cipalm en te com crian ças m en ores do qu e eu . Um dia atirei u m a pedra n a cabeça de u m a m en in a. Fiqu ei olh an do, com u m sen tim en to de prazer, o san gu e qu e gotejava através de seu cabelo. A menina estava gritando e chorando, e eu ali, rindo.

con clu são de qu e

Meu

pai

esbofeteou -m e

aqu ela

n oite

até

m in h a

boca sangrar. “Sangue por sangue”, gritou ele.

m a tar

passarin h os. Mas, para m im , m atá-los

suficiente. Gostava de mutilar seus corpos. Meus irmãos

Com prei u m a

es pingarda

“pica-pau” pa ra

n ão era o

se

afastavam de mim, por causa do meu estranho desejo

de

ver sangue.

Qu an do estava n o oitavo an o, tive u m a briga com

e

m agro qu e gostava de assobiar para as m oças. Um dia,

o

professor

de

artes

m an u ais.

Era

u m

h om em

alto

na

classe, eu o chamei de “negro”. A sala ficou silenciosa

e

os

ou tros

rapazes

se

esgu eiraram

para

trás

das

máquinas da oficina, sentindo a tensão no ar.

O professor cam in h ou pela classe, até o lu gar

on de eu

rapaz? Você é pretensioso.”

estava, ao lado de u m torn o. “Sabe o qu e m ais,

Respon di com in solên cia: “Descu lpe, n egro, eu

acho que não sou.”

An tes qu e pu desse safar-m e, ele m e bateu com o

lábios

esmagar-se con tra os den tes com a violên cia do golpe. Sen ti o gosto do san gu e qu e escorria pela m in h a boca e pelo meu queixo.

lon go braço ossu do e sen ti a carn e dos m eu s

Avan cei

para

ele,

bran din do

os

braços. O pro-

fessor era u m h om em feito en qu an to eu pesava m enos de cin qü en ta qu ilos. Eu estava ch eio de ódio e a vista do sangue fez-me explodir. Esticando os braços e colocando as m ãos con tra a m in h a testa ele m e con servou à

distância, enquanto eu dava murros no ar.

Com preen den do a in u tilidade dos m eu s esforços, fugi. “Você va i ver, n egro”, gritei. “Vou à polícia . Es pera para ver.” Saí correndo da sala de aula.

Ele correu atrás de m im , ch am an do-me: “Espere. Eu sinto muito.” Mas, não voltei.

Não fui à polícia. Em lugar disso, dirigi-me a papai

e

lh e disse qu e o professor ten tara m e m atar. Ele ficou

fu

rioso. Correu ao qu arto e depois saiu com su a en orm e

pistola

n o

cin to.

“Vam os

garoto.

Vou

m atar u m

valentão.”

 
 

Voltam os

à

escola.

Eu

tin h a

dificu ldade

em

acom pan h ar os passos lon gos de papai e qu ase pre- cisa va correr pa ra a lcançá-lo. Meu cora çã o sa lta va a o pen sar n a sen sação de ver aqu ele professor alto encolher-se de medo sob a fúria de meu pai.

au la.

“Espera aqu i, m en in o”, disse papai. “Eu vou con versar

com o diretor, e resolver isto.” Senti medo, mas esperei.

n o escritório do

diretor. Qu an do saiu ,

direção, e m e sacu diu pelo braço. “Mu ito bem , rapaz, você tem algumas explicações a dar. Vamos para casa.”

Mas,

o

professor

n ão

estava

n a

sala

de

Papai

dem orou

m u ito

tem po

cam in h ou depressa em m in h a

Volta m os de

n ovo a tra vés da

pequ en a vila , e pela

trilh a sin u osa, até em casa. Ele m e pu xava atrás de si, preso pelo braço. “Men tiroso su jo”, disse-m e já defron te

da casa. Levan tou a m ão para esbofetear-m e, m as

con segu i sair fora do seu alcan ce, e corri ladeira abaixo.

“Está certo

para casa e quando voltar, eu vou lhe mostrar

Fu ja, m olequ e!” gritou . “Você h á de voltar ”

Voltei para casa; mas só três dias depois. A polícia

pegou-m e an dan do n a beira de u m a estrada qu e levava

às m on tan h as, n o

m e

soltassem, m a s devolvera m -m e a o m eu pa i. E ele

cumpriu a sua promessa.

m ais

in terior.

Rogu ei-lh es

qu e

Eu

sabia

qu e

precisava

fu gir

ou tra

vez.

E

ou tra. Fu giria para tão lon ge qu e n in gu ém seria capaz

de m e tra zer de volta . Nos dois a n os qu e se seguiram, fugi cinco vezes. Todas as vezes a polícia me encontrou e

m e

esperan ça, papai e m am ãe escreveram para m eu irm ão Fran k, pergu n tan do-lh e se poderia receber-m e para

m orar

traçaram os planos para a minha ida.

levou

de

volta

para

casa.

Fin alm en te,

sem

m ais

em

su a

com pan h ia.

Fran k

con cordou ,

e

eles

 

Na

m an h ã

em

qu e

viajei,

as

crian ças se

en

fileiraram

n a

varan da

à

fren te

da

casa.

Mam ãe

m e

apertou ao peito. Havia lágrim as em seu s olh os qu an do ela ten tou falar, porém n ão saiu palavra n en h u m a. Eu

es pécie.

Pegan do m in h a pequ en a m ala,

carran cu do, e dirigi-m e à velh a cam in h on eta on de papai me esperava. Não olhei para trás.

Levam os qu aren ta e cin co m in u tos para ch egar ao aeroporto de San J u an , on de papai m e deu a passagem

e en fiou em m in h a m ã o u m a n ota de dez dólares

dobrada. “Telefon e para Fran k logo qu e ch egar a Nova York”, disse ele. “O p iloto va i tom a r con ta d e você a té ele

chegar.”

lon go

n ã o tin h a por ela

s en tim en to

de

qu a lqu er

virei as costas,

Ficou

de

olh an do

pa ra

m im

du ra n te

tem po, bem m ais alto do qu e eu , en qu an to u m cach o do seu cabelo grisalh o e on du lado era agitado pela brisa

qu

en te. É provável qu e eu parecesse pequ en o e patético

a

seu s olh os, parado ali n a estrada, com a m aleta n a

m

ão. Seu s lábios trem eram qu an do esten deu a m ão

para apertar a m in h a. En tão, repen tin am en te, en volveu -

me em seu s lon gos braços e apertou o m eu corpo m agro contra o seu.

Escutei-o solu ça r (filho meu).

u m a

vez:

“Hijo

m io”

Soltando-m e,

ele

dis s e

ra pida m en te:

“Seja

u m

bom

galgu ei as escadas do en orm e avião, e sen tei-m e ju n to a uma janela.

corren do;

m en in o,

passarin h o.”

Virei-m e,

e

saí

Lá fora vi a figura magra e solitária de meu pai, “O Grande”, en costado n a cerca. Ele levan tou a m ão u m a

vez, com o se fosse acen ar, m as pareceu en vergonhar-se,

e

caminhoneta.

Por que será que ele me chamara de “passarinho”?

atrás,

sen tado n os degrau s da gran de varan da, papai m e chamara daquela forma.

Recordei

voltou ,

an dan do

depressa,

para

ju n to

da

velh a

o

m om en to

qu an do,

m u itos

an os

Estava sen tado em u m a cadeira de balan ço, fu -

m an do o seu cach im bo, qu an do m e con tou a len da de

u m pássaro qu e n ão tin h a pés, e por isso voava

con tin u am en te. Papai olh ou -m e som brio, e disse: “Esse

passarin h o é você, Nicky. Você n ão tem descan so. Com o

u m pa s s a rin h o, você es tá s em pre fu gindo.” Men eou a cabeça vagarosamente, e levantou os olhos para os céus, sopran do fu m aça n as trepadeiras, qu e su biam até o telhado da varanda.

“Esse passarin h o é pequ en in o e m u ito leve. Não

pen a.

ren

pesa

sem pre fu gin do.

m ais

de

do

ar,

qu e

e

u m a

Ele

é

levado

pelas

cor-

tes

dorm e ao ven to. Está

Fu gin do de gaviões, de águ ias, de coru jas. Aves de rapin a. Ele se escon de colocan do-se en tre elas e o sol. Se elas voarem acim a dele, poderão vê-lo, em con traste com a terra escu ra. Mas as su as pequ en as asas são

da lagoa. En qu an to con segu em vê-lo, e

tran sparen tes, com o a águ a clara ele perm an ece n o alto, elas n ão assim ele nunca descansa.”

fu -

maça azul. “Mas, como é que ele come?” perguntei.

Falava

va ga ros a m en te, com o s e

apan h a

pés

dias ch u -

vosos?” perguntei-lhe. “O qu e a con tece qu a n do o sol n ã o

brilh a?

inimigos?”

tão

alto qu e n in gu ém pode vê-lo. A ú n ica h ora em qu e pára

de voar — o ú n ico m om en to em qu e pára de fu gir — a

é qu an do m orre. Pois, u m a

vez que toca o solo, não pode mais fugir”

u m tapin h a n o traseiro e m e tocou

ú n ica vez qu e vem

Papai recostou -se

“Ele

com e

in setos

ao

e

e

soltou

u m a

baforada

papai.

de

ven to”,

respon deu

vis to

a

tem

tives s e

a vezin h a . “Ele

pern as

n em

borboletas.

Não

está sempre se movendo.”

Fiqu ei fascin ado com

Com o

é,

“Nos dias

en tão,

a

estória. “E n os

ele

escapa

qu e

dos

seu s

feios, Nicky”, disse papai, “ele voa

à terra —

Papai m e deu

de casa. “Vá agora, passarin h o. Fu ja, voe. Seu pai o chamará quando já não for hora de correr.”

Literalmente voei pelo campo gramado, batendo os

braços com o u m

Con tu do, por a lgu m a ra zã o, pa rece qu e n ã o con seguia ganhar suficiente velocidade para subir.

pássaro

qu e

ten tasse

alçar

vôo.

Os

m otores

do avião tossiram ,

fu m aça

fu n cion am en to. Fin alm en te, eu ia

soltaram

n egra, e en traram em

voar. Estava a caminho

O ôn ibu s

parou . Lá

fora, as lu zes brilh an tes

e

os

an ú n cios

lu m in osos

m u lticoloridos

acen diam

e

apagavam n a pen u m bra fria. Um h om em qu e estava do

ou

tro lado levan tou -se para descer. Segu i-o até a porta,

e

saím os. As portas se fech aram atrás de m im , e o

ôn

ibu s partiu . Fiqu ei ali n a calçada

sozin h o n o m eio

de oito milhões de pessoas.

Apan h ei u m pu n h ado de n eve su ja e tirei a crosta

qu e a cobria. Ali estava: n eve pu ra e brilh an te. Desejei

colocá-la n a boca e com ê-la Porém , a o olh a r bem , pequ en as m an ch as n egras com eçaram a aparecer n a

su perfície. Com preen di qu e o ar estava ch eio de fu ligem

das ch am in és e qu e a n eve estava tom an do o aspecto de

queijo fresco pulverizado com pimenta-do-reino.

J ogu ei a n eve para o lado. Não fazia diferen ça. Eu estava livre.

Vagu eei pela cidade dois dias. En con trei u m ca- saco velh o jogado em u m a lata de lixo. As m an gas

cobriam as m in h as m ãos, e a barra varria a calçada. Os botões tin h am sido arran cados e os bolsos rasgados,

m as ele m e aqu ecia. Aqu ela n oite eu dorm i n o m etrô, encolhido em um banco.

No fim do segu n do dia , m eu en tu sia sm o esfriara .

e com frio. Em du as ocasiões,

Eu estava com fom e

ten tei falar com

prim eiro

h om em sim plesm en te ign orou -m e. Con tin u ou an dan do,

segu n do em pu rrou -me

com o se eu n ão

con tra a parede: “Caia fora, seu . Não pon h a essas m ãos

gordu ren tas em

im pedir qu e o pân ico su bisse do estôm ago para a

garganta.

Naqu ela n oite, percorri de n ovo as ru as da cidade,

o paletó com prido varren do a calçada e a pequ en a m ala

segu ra firm em en te em m in h a m ão. Pessoas passavam

por m im , e m e olh avam , m as n in gu ém parecia im portar-

se comigo. Apenas olhavam e continuavam andando.

algu ém ,

pedin do

aju da.

O

estivesse ali. O

m im .”

Piqu ei

com

m edo. Ten tava

Nessa m esm a n oite gastei os dez dólares qu e

papai m e dera. En trei em u m pequ en o restau ran te e pedi u m cach orro-qu en te, apon tan do para a figu ra de

u m , qu e estava depen du rada acim a do balcão. En goli-o

sofregam en te e in diqu ei qu e desejava ou tro. O h om em sacu diu a cabeça n egativam en te e esten deu a m ão. En fiei a m ão n o bolso e tirei a n ota am arfan h ada. Lim pan do as m ãos em u m a toalh a, ele abriu a n ota, alisou-a , e m eteu -a n o bolso do a ven ta l su jo. Trou xe-me en tão ou tro cach orro-qu en te e u m a terrin a de feijão com carn e. Qu an do term in ei, procu rei-o, m as ele h avia desaparecido n a cozin h a. Pegu ei a m ala e voltei para a

ru a fria. Acabara de ter m eu prim eiro en con tro com

esperteza am erican a. Com o iria saber qu e u m cach orro- quente americano não custa cinco dólares?

Descen do a ru a, parei em fren te a u m a igreja. Um pesado portão de ferro, tran cado com u m cadeado, fora colocado dian te das portas. Parei dian te do gran de edifício de pedra cin zen ta e observei a torre qu e apon tava para o céu . As frias paredes de pedra e os escu ros vitrais estavam fora do m eu alcan ce, protegidos pela cerca de ferro. A estátu a de u m h om em de rosto sim pático e olh os tristes espiava através do portão fech ado. Os seu s braços estavam esten didos e cobertos de n eve, m as ele estava tran cado lá den tro, e eu aqu i fora.

a

a n da n do s em

parar.

O pân ico voltava fu rtivam en te. Era qu ase m eia-

n oite, e eu trem ia n ão só de frio, m as tam bém de m edo.

m e

pergu n tasse em qu e poderia m e aju dar. Nem sei o qu e teria dito, se algu ém parasse e oferecesse aju da. Mas eu me sentia sozinho, com medo, e perdido

deixou .

Tin h a

Arrastei-m e ru a a ba ixo

a n da n do

esperan ça

de

qu e

algu ém

parasse

e

A

m u ltidão

apressada

foi

em bora

e

m e

Nu n ca pen sei qu e u m a pessoa pu desse sen tir solidão n o

m ilh ão de pessoas. Para m im , solidão era

m eio de

u m

perder-se n a floresta ou em u m a ilh a deserta. Porém , essa era a pior das solidões. Vi pessoas bem vestidas,

voltan do do teatro para

velh os ven den do

su as

casas

jorn ais e fru tas em pequ en as ban cas qu e ficavam

abertas a n oite toda

calçadas ch eias de pessoas apressadas. Ao olh ar para seu s rostos, elas tam bém pareciam solitárias. Nin guém ria. Ninguém de rosto alegre. Todos apressados.

Sentei-m e n a ca lça da e a bri m in h a pequ en a

En con trei u m pedaço de papel dobrado, com o n ú m ero

policiais patru lh an do, aos pares

m a la.

do telefon e de Fran k, escrito por

sen ti algo

velh o,

casaco qu e cobria m eu

com o braço, e pu xei-o

m am ãe. De repen te,

Era

u m

n o

em pu rran do-m e

qu e

cach orro en orm e

o corpo m agro. Rodeei seu pescoço para m im . Ele lam beu m eu rosto

por

trás.

felpu do

en costava

focin h o

e

eu enterrei a cabeça no seu pelo sarnento.

Não sei qu an to tem po fiqu ei ali sen tado, trem en do

e

afagan do o cão. Qu an do olh ei para cim a, vi

os pés e

pernas de dois policiais uniformizados. As suas galochas

estavam m olh adas e su jas. O cach orro sarn en to

pressen tiu o perigo, e num beco.

gu ardas

a

pon ta do cassetete. “O qu e é qu e você está fazen do aqu i

saiu corren do, desaparecendo

bateu

n o

m eu

om bro

com

Um

dos

sen tado,

n o m eio da n oite?” pergu n tou

ele.

A

su a

face

parecia

estar

cem

qu ilôm etros

acim a. Com

dificu ldade

procu rei explicar, em

estava perdido.

foi. O

qu e fica ra a joelh ou -se a o m eu la do, n a ca lça da su ja. “Posso ajudá-lo, garoto?”

o

de pé qu ebrado, qu e

m eu

in glês

Um deles m u rm u rou algo

para

o ou tro,

e

se

Acen ei qu e sim

e tirei o pedaço de papel com

n om e e n ú m ero do telefon e de Fra n k. “Irmão”, disse-lhe, mostrando o papel.

Ele sacudiu a cabeça ao olhar para a escrita quase

ilegível. “É aí que você mora, garoto?”

n ã o sa bia respon der e a pen a s disse: “Irmão”.

Ele acen ou qu e sim , levan tou -m e pelo braço, e dirigim o-

de

jorn ais. Pescou u m n íqu el n o bolso e discou o n ú m ero. Qu an do a voz son olen ta de Fran k respon deu , ele m e

a

Eu

a

n os

u m a

cabin e

telefôn ica

atrás

de

u m a

ban ca

en tregou

salvo, no apartamento de meu irmão.

casa de Fran k

estava gostosa, e a cam a lim pa, deliciosa. Na m an h ã

seguin te Fran k m e con tou qu e eu

qu e

den tro de m im , porém , m e dizia qu e eu n ão ficaria ali. Começara a fugir, e agora nada me faria parar.

e

deveria ficar com ele,

n a escola. Algo

o

fon e. Em

qu en te

m en os

qu e

de

u m a

h ora

n a

eu

estava

A

sopa

tom ei

ele

cu idaria

de

m im

m e

poria

Capítulo 2

NNAA SSEELLVVAA DDOO QQUUAADDRROO-- NNEEGGRROO

A D D O O Q Q U U A A D D R R O
A D D O O Q Q U U A A D D R R O

FIQUEI DOIS MESES COM FRANK, apren den do a m an obrar o in glês. Porém n ão era feliz, e as ten sões internas estavam me perturbando muito.

Fran k, logo n a prim eira sem an a, m atricu lou -me

n o gin ásio. A escola era qu ase in teiram en te de n egros e porto-riqu en h os . Era dirigida m a is com o u m reform atório do qu e com o escola pú blica. Os professores

e adm in istradores

tentando manter a disciplina, de forma que pouco tempo

restava para o en sin o.

brigas, de im oralidade e de con stan te batalh a con tra os

passavam a m aior parte do tem po

Era u m lu gar selvagem , ch eio

de

que tinham autoridade.

Todas as escolas do Brooklin têm represen tan tes de pelo m en os du as ou três gan gs. Estas gan gs são qu adrilh as form adas por rapazes e garotas qu e vivem em u m certo bairro. Algu m as vezes as gan gs são inimigas , o qu e in va ria velm en te cria con flitos , qu a n do são colocadas na mesma sala de aula.

Aqu ilo era u m a experiên cia n ova para m im . Todo

dia n a escola tin h a de h aver u m a briga n os corredores

ou em u m a das salas de au la.

Eu

m e en costava à

parede, com m edo

de

qu e

algu m

dos

rapazes

m aiores

m e batesse. Depois da au la, sem pre h avia u m a briga n o pátio, e alguém saía ferido e perdendo sangue.

an dar

pela s ru a s à n oite. “As qu a drilh a s, Nicky. As qu a drilhas

lobos,

n ão

conheçam.”

Ele m e recom en dou qu e viesse direto da escola para casa, todas as tardes, e ficasse n o apartam en to, e me conservasse à distância das gangs.

podem du ran te

Fran k

costu m ava

Eles

e

advertir-m e,

saem

para

n ão

de

te

a

m atar.

n oite,

com o qu alqu er

m atilh as pessoa

m atam

qu e

qu adrilh as

n ão

tam bém os “pequenos”. Eram terríveis m olequ es de n ove

e

n oitin h a, ou qu e brin cavam dian te dos pardieiros em que moravam.

à

Havia

qu e

Logo

eram

fiqu ei ú n ica

a

saben do

coisa

tam bém

eu

qu e

as

deveria

ru as

tem er.

à

dez an os

qu e peram bu lavam

pelas

tarde

e

Tive qu an do voltava

m eu

prim eiro

da

escola

en con tro casa

para ga n g de cerca

com

os

“pequenos”

certo dia, logo n a

prim eira

en tre oito e dez an os in vestiu con tra m im , sain do de u m

portão.

sem a n a . Um a

de dez m eninos

“Ei, garotos, olhem por onde andam.”

Um dos meninos deu um rodopio e disse: “Vá para

o inferno!”

Ou tro veio por trás e abaixou -se. An tes qu e m e

desse conta do que estava acontecendo, vi-me estatelado de costas n a calçada. Ten tei levan tar-m e, m as u m dos garotos agarrou m eu pé e com eçou a pu xar. Gritavam e riam o tempo todo.

Perdi a calm a e dei u m

soco n o qu e estava m ais

próxim o, jogan do-o n a calçada. Naqu ele m om en to, ou vi

u

m a

m u lh er

gritar. Olh ei para

cim a, e

vi-a

debru çada

n

u m a ja n ela

n o qu a rto a n da r. “Afaste-s e de m eu filh o,

porco nojento, ou eu te mato.”

Naquele m om en to, n ã o h a via n a da qu e eu des e-

jasse mais do que afastar-me de seu filho. Mas os outros

m en in os

garrafa de refrigeran te n a m in h a direção. Ela acertou calçada, perto do m eu om bro, fazen do ch over vidro n o meu rosto.

u m a

n a

estavam

avan çan do.

Um

deles

atirou

se

m eta com os m eu s m en in os! Socorro! Socorro! Ele está

matando meu filho!”

De repente, outra mulher apareceu em uma porta,

A

m u lh er

estava

gritan do

ain da

m ais:

“Não

com u m a vassou ra n a m ão. Era gorda e bam boleava ao

correr; tin h a a cara m ais feia qu e eu

m eio da qu adrilh a de garotos, com a vassou ra levan tada

acim a de su a cabeça. Ten tei rolar n o ch ão, fu gin do dela,

m as era tarde — a vassou ra acertou em ch eio n as

minhas costas. Rolei de novo e ela me acertou no alto da cabeça. Ela estava gritan do. Percebi en tão qu e várias ou tras m u lh eres estavam debru çadas n as jan elas,

gritan do, e ch am an do a polícia. A m u lh er gorda m e golpeou pela terceira vez, an tes qu e eu pu desse pôr-me de pé e com eçar a correr. Ou vi-a dizer, atrás de m im :

“Se você aparecer por aqu i crianças, nós te matamos.”

já vi. Ela en trou

n o

de n ovo, ju dian do de n ossas

Na tarde segu in te, ao voltar da escola para casa,

escolhi um caminho diferente.

Um a sem a n a m a is ta rde tive o prim eiro en con tro com u m a gan g. Voltava da escola e parara em u ma praça para ver u m h om em qu e tin h a u m papagaio. Eu estava dançando ao redor dele, rindo e conversando com

o

pássaro, qu an do o h om em su bitam en te perdeu o

in

teresse, apertou o papagaio con tra o peito e foi sain do.

Olh ei ao redor, e vi cerca de qu in ze rapazes n u m sem icírcu lo em torn o de m im . Não eram “pequenos”. Ao con trário, eram bem “grandes”, n a m aioria, m aiores do que eu.

círcu lo pon do-m e n o

m eio e u m dos rapazes disse: “Ei, m olequ e, de qu e é qu e você está rindo?”

en tão

fu

bacana.”

o

eu es ta va rin do d a qu ele pa pa gaio

Rapidam en te form aram

u m

Apon tei

da

para

o

h om em

do

papagaio,

qu e

gia

p ra ça . “Pu xa ,

“Escu te, você m ora aqu i por perto?” pergu n tou rapaz, com olhar ameaçador.

Sen ti qu e a lgo esta va erra do, e com ecei a ga gu ejar

pou co: “Eu-eu rua.”

u m

m oro com

m eu

irm ão, n o fim

desta

“Você pen sa qu e só porqu e m ora n o fim desta ru a,

pode en trar n a n ossa praça e rir com o u m a h ien a, h ein ?

dom ín ios

dos Bish ops, rapaz? Nós n ão perm itim os qu e estran h os

en

que riem como hienas.”

Olh ei para eles, e

É o

qu e você pen sa? Não sabe qu e está

em

n os

trem

n ossos dom ín ios, prin cipalm en te paspalh os

percebi qu e falavam sério. An tes

qu e eu pu desse respon der, o rapaz de olh ar du ro tirou

u m a faca do bolso e, pression an do u m

botão, abriu -a,

m

ostra n do

u m a

lâ m in a

relu zen te

de

dezessete

centímetros.

 
 

“Sabe

o

qu e

vou

fazer?” disse ele. “Vou

cortar a

su a gargan ta e deixar você san grar, com o o an im al qu e

ri como você.”

de

“Ei,

ra-ra-rapaz”,

gagu ejei.

“O

qu e

é

qu e

h á

errado comigo? Por que é que você quer me esfaquear?”

“Porqu e n ão gosto da su a cara, só isso”, disse ele. Apon tou a faca para o m eu estôm ago, e com eçou a andar em minha direção.

“Vam os, paizin h o. Deixe-o. Esse m en in o acaba de ch egar de Porto Rico. Não con h ece as regras”, falou outro membro da quadrilha, um moreninho espigado.

qu e n ão

pise n o dom ín io dos Bish ops.” Com u m sorriso de escárnio, ele recuou.

a pa r-

tamento e passei o resto da tarde pensando.

No dia segu in te, n a escola, algu n s m en in os ou - viram falar do in ciden te da praça. Descobri qu e o rapaz qu e tirara a faca ch am ava-se Roberto. Naqu ela tarde, du ran te a au la de edu cação física, estávam os jogan do beisebol. Roberto derru bou -m e de propósito. Todos os outros meninos começaram a gritar:

“Dá nele, Nicky. Bate nele. Mostre que ele não é de n ada, qu an do n ão está com u m a faca n a m ão. Vam os, Nicky, nós estamos com você. Dá nele!';

“Está bem ”, disse eu , “vam os ver se você é bom de briga.” Levantei-me e limpei a roupa.

Tomamos posição um diante do outro, e os demais

m en in os

Ouvi-os gritar: “Lu tem ! Lu tem !” e percebi qu e o círcu lo

aumentava.

“Certo, m as u m

dia

vai saber. E

é m elh or

Viraram-s e e fora m

em bora .

Corri pa ra

o

form aram

u m

gran de

círcu lo

à

n ossa

volta.

Roberto

riu ,

porqu e

as

eu

tom ara

posição

dian te do rosto. El?

pu n h os

tradi-

a

cion al de pu gilista, com

encurvou-se u m pou co e tam bém levan tou

m ãos

os

fech ados, desajeitadam en te. Era óbvio qu e n ão estava acostu m ado a lu tar daqu ela form a. Dan cei em direção a ele, e an tes qu e pu desse m over-se, acertei-lh e u m soco

de esqu erda. O san gu e espirrou

u m passo para trás, olh an do-m e su rpreso. Avan cei de novo.

De repen te, ele baixou a cabeça e carregou con tra

m im com o u m tou ro, acertan do-m e n o estôm ago e

jogando-m e de cos ta s n o ch ã o. Ten tei leva n ta r-m e, m a s ele m e ch u tou com seu s sapatos pon tu dos. Rolei para o lado, e ele pu lou sobre m in h as costas e pu xou -m e a

cabeça para trás, en terran do deliberada-m en te os dedos nos meus olhos.

de seu

n ariz e

ele deu

Fiqu ei pen san do qu e os ou tros m en in os iriam m e

aju dar, ou pelo m en os apartar a briga, m as se lim itaram

a

ficar ali, torcendo.

 
 

Eu

n ão

sabia

brigar

daqu ela

form a.

Todas

as

m

in h as brigas h aviam sido segu n do as regras do boxe,

m

as

pen sei

qu e

aqu ele

rapaz

iria

m e

m atar,

n ão

fizesse algo. Agarrei as su as m ãos

e tirei-as

se m eu s

dos

olh os, en terran do os m eu s den tes n o seu dedo. Ele gritou de dor e saiu de cima de mim.

De u m pu lo fiqu ei de pé e tom ei n ovam en te po-

sição de pu gilista. Ele levan tou -se vagarosam en te, segu ran do a m ão ferida. Dan cei em su a direção e

acertei-lh e dois s ocos de es qu erda n o ros to.

e avan cei para socá-lo de n ovo, qu an do ele

pela cin tu ra, pren den do m eu s braços ao lado do corpo.

Usan do a cabeça com o u m bate-estacas,

dar-m e cabeçadas n o rosto. Meu n ariz com eçou a san grar e fiqu ei cego de dor. Fin alm en te ele m e soltou e

m e deu dois socos, e eu caí n o pó do pátio da escola.

Sen ti qu e ele m e deu u m pon tapé, qu an do ch egou u m professor que o afastou de mim.

Naqu ela n oite qu an do fu i para casa, Fran k gritou comigo. “Eles vã o m a ta r você, Nicky. Eu lh e dis s e pa ra

Eu o ferira , m e agarrou

ele com eçou a

ficar lon ge das qu adrilh as. Eles vão m atar você.” Min h a face estava m u ito ferida e m eu n ariz parecia estar quebrado. Eu sabia, porém, que daí para frente ninguém

m ais levaria van tagem sobre m im . Eu era capaz de lu tar tão deslealm en te com o eles — e até m ais. Da próxim a vez estaria preparado .

A

“próxim a vez” foi várias sem an as m ais

tarde. As

au las tin h am

term in ado, e eu ia descen do pelo

corredor,

em direção à

porta. Percebi qu e algu n s alu n os estavam

m e segu in do.

de m im h avia

qu e era com u m h aver brigas feias en tre rapazes porto- riqu en h os e n egros. Com ecei a an dar m ais depressa, mas percebi que eles também apressavam o passo.

eu

dava para a ru a. Os garotos de cor m e cercaram , e u m deles, u m gran dão, m e em pu rrou con tra a parede. Derru bei os livros, e ou tro rapaz ch u tou -os corredor abaixo, e eles caíram numa vala cheia de água suja.

Dei u m a olh ada por cin co garotos n egros

sobre o om bro. Atrás e u m a m en in a. Sabia

Sain do

pela

porta,

descia

u m

corredor

qu e

Olh ei ao

redor,

porém

n ão

vi n in gu ém

qu e

pu -

desse ch am ar em m eu socorro.

n es tes dom ín ios , ra pa z?” pergu n tou o gra n da lhão. “Você não sabe que isto aqui é nosso?”

Nã o pertence

a quadrilha alguma”, disse eu.

“O qu e você está fazen do

“Essa n ã o! Isto é dom ín io da escola .

“Não

ban qu e

gosto de você.”

o espertin h o com igo, m en in o, n ão

Colocou

a

m ão con tra

o

m eu

peito e m e apertou

con tra a parede. Naqu ele m om en to ou vi u m cliqu e e

percebi que era o ruído de um canivete automático.

Qu ase todos os rapazes an davam com u m desses. Eles preferiam u sar u m tipo de can ivete de pressão, qu e

é operado com o au xílio de u m a m ola. Qu an do u m

pequ en o botão de lado é apertado, a m ola solta-se e a

lâmina se abre.

peito,

pican do os botões da m in h a cam isa com a pon ta afiada

e fina.

a

O

rapagão

colocou

arm a

con tra

m eu

“Olha o que vou fazer, espertinho”, disse ele. “Você

é n ovo n esta escola, e n ós fazem os todos os n ovatos n os

pagarem para receber proteção de n ós. É u m bom n egócio. Você n os paga vin te e cin co cen tavos por dia e nós garantimos que ninguém te amola.”

Um dos outros rapazes deu uma risadinha forçada

e

garantimos que não amolamos você, também.”

disse:

“Sim ,

m eu

ch apa;

da

m esm a

form a,

Todos os outros rapazes riram.

n ós

 

En tão

eu

disse:

“Ah ,

é?

E

qu em

m e

prova

qu e

m

esm o

qu e

eu

vin te

e

cin co

cen tavos

para

vocês

todos os dias, vocês não judiarão de mim?”

 

“Ningu ém p rova , m en in o in teligen te.

Você a p enas

nos dá o dinheiro, de qualquer forma. Se não dá, morre”, respondeu ele.

m e m a tem

agora m esm o. Porqu e se vocês n ão m atarem , eu voltarei

m ais tarde e m atarei vocês u m por u m .” Pu de perceber

qu e os ou tros ficaram u m pou co am edron tados . O

rapagão qu e tin h a a faca con tra o m eu peito,

n atu ralm en te, pen sava qu e eu era destro. Por isso, n ão

esperava qu e fosse agarrá-lo com a m ão esqu erda. Torci

a su a m ão, a fa sta n do-a do m eu peito, o fiz gira r sobre si mesmo e dobrei-lhe o braço por detrás das costas.

“Está

bem .

En tã o é

m elh or

qu e vocês

Ele

deixou

cair

a

faca

e

eu

apan h ei-a

do

ch ão.

Senti-me bem como ela na mão. Coloquei-a contra a sua gargan ta, pression an do-a a pon to de m arcar a pele, sem furá-la.

 

Em

pu rrei o seu rosto con tra a parede com a faca

n o

lado

da

su a

gargan ta,

logo

abaixo

da

orelh a.

A

m ocin h a com eçou a gritar, com receio de qu e eu fosse

matá-lo.

Virei-m e você. Sei on de mato; quer?”

Ela gritou m ais alto e agarrou o braço de u m dos ou tros ra pa zes , com eça n do a pu xá -lo pa ra lon ge: “Foge! Foge!” gritava ela. “Esse cara é louco. Foge!”

Eles fu giram , in clu sive o rapagão qu e estivera

preso con tra a parede. Deixei

eles poderiam ter-me matado, se tivessem tentado.

Desci pela calçada até on de os livros estavam jo-

qu e se fosse, saben do qu e

te

con h eço

p a ra ela

é

a

e

d is s e: “Ei, b on eca ,

eu

su a casa. Hoje à n oite vou

até lá

e

gados

n a

águ a. Apan h ei-os

e sacu di-os. Ain da

tin h a

o

pu n h al

n a

m ão.

Fiqu ei parado m u ito tem po, abrin do

e

fech a n do a

qu e s egu ra va em m in h a m ã o. Ach ei delicios o m a n ejá -lo.

lâ m in a . Era o prim eiro “canivete de pres s ã o”

Deixei-o

ca ir

n o

b ols o

d o

p a letó

e

fu i

p a ra

qu e

ca s a .

com

“Daqu ela

pen sassem

h ora

du as

em

dian te,

vezes

an tes

seria

m elh or

de se en roscarem

eles o

Nicky”, pensei.

 

Logo espalh ou -se o boato de qu e eu

era

terrível.

Aqu ilo fez de m im u m a isca atraen te para qu alqu er rapaz qu e qu isesse brigar. Ch egu ei à con clu são de qu e algo drástico acon teceria: era apen as u m a qu estão de tempo. Mas, estava preparado.

A explosão fin al veio dois m eses depois de eu ter com eçado a estu dar. A professora acabara de estabelecer a ordem n a classe e estava fazen do a ch am ada. Um rapaz de cor ch egou atrasado. Veio

Havia

gin gan do

u m a lin da garota porto-riqu en h a sen tada n a ú ltim a fileira. Ele curvou-se e beijou-a no pescoço.

Ela afastou -se dele e sen tou -se ereta n a carteira.

Ele

ten tan do acariciá-la. Ela pu lou do lu gar e com eçou a

gritar.

boca; ao m esm o tem po

e

tin h a

u m

sorriso

cín ico

n os

lábios.

deu

a

volta

e beijou -a

n a

Os ou tros a lu n os esta va m mos, rapaz, larga brasa!”

rin do e grita n do: “Va-

Dei u m a olh adela para a professora. Ela pôs-se a

descer en tre as fileiras, m as u m latagão

dian te dela e disse: “Ora, professora, a sen h ora n ão vai

qu erer estragar a festa, vai?” A professora en carou o

rapaz qu e era m ais alto do qu e ela, e recu ou para a su a mesa, enquanto a classe urrava, divertindo-se.

A esta altu ra, o rapaz tin h a a garota presa con tra

a parede,

tentava afastá-lo.

levan tou -se

e

ten tava

beijar

lh e

a

boca.

Ela

gritava

e

Ele

fin alm en te

desistiu

m ente no seu lugar.

e

deixou -se

cair

pesada-

A professora limpou a garganta e começou de novo

a fazer a chamada.

Algo

estalara

den tro

m im .

Levan tei-m e

da

carteira

e

dirigi-m e

aos

de fu n dos

da

classe.

A

garota

sen tara de n ovo e solu çava, en qu an to a professora fazia

a chamada.

Cheguei

por

trás

do

rapaz,

qu e

agora

estava

sen tado n a

carteira,

lim pan do

as

u n h as.

Pegu ei u m a

pesada

redor

para você.”

cadeira

e

de m adeira

olh e,

qu e estava

eu

n o ten h o

disse: “Ei,

garotão,

fim u m a

do cor-

coisa

Qu an do

ele

virou -se

para

de

olh ar,

u m a carteira,

profu n do corte n a

dei-lh e

cadeirada n o alto da cabeça. Ele afu n dou

en qu an to o san gu e escorria cabeça.

n a

u m

A professora saiu corren do da classe e voltou em

u m segu n do com o diretor. Ele agarrou -m e pelo braço e

m e em pu rrou corredor a fora , pa ra seu escritório. Fiqu ei

sen tado lá en qu an to ele ch am ava u m a am bu lân cia, e

tom ava providên cias para qu e algu ém cu idasse do rapaz ferido.

Virou-s e pa ra m im . Depois de dizer tu do o qu e

ou vira a m eu respeito, n os ú ltim os

con fu sões em qu e eu estivera m etido, pediu -m e u m a explica çã o do qu e a con tecera n a cla s s e. Con tei-lhe

exatam en te o qu e h ou vera. Disse-lh e qu e o rapaz estava

se a proveita n do da ga rota porto-riqu

professora n ada fizera para im pedi-lo. Por isso eu m e colocara a seu lado.

dois m eses, isto é, as

en h a ,

e

qu e

a

aver-

m elh ar. Fin alm en te, ele se levan tou e disse: “Está bom ,

já agü en tei essas brigas até on de pu de. Vocês vêm aqu i

En qu an to

falava,

pu de

ver

o

seu

rosto

se

e

pen sam

qu e podem

agir da

m esm a

form a

qu e agem

n

as

ru as.

Pen so qu e

é

h ora

de dar

u m

exem plo, e

qu em sabe se a au toridade será m ais respeitada aqu i den tro. Não estou para m e sen tar aqu i todos os dias e ver vocês se m atan do e m en tin do depois, para explicar o que não tem explicação. Vou chamar a polícia.”

Pus-m e

de

pé: “Sen h or,

a

polícia

vai m e

pôr

n a

cadeia.”

“Espero qu e sim ”, disse o diretor. “Pelo m en os

o

resto desses m on stros qu e h á aqu i apren derão a respeitar a autoridade.”

tem po,

en costei n a porta trem en do de m edo

qu an do eu sair da cadeia, voltarei, e u m dia pego o

senhor sozinho e o mato.”

“Ch am e

a

polícia”,

disse

eu ;

ao

m esm o

e

de

raiva,

“e

Meus dentes rangiam enquanto falava.

O diretor ficou bran co. Su a face em palideceu e ele pensou durante um momento.

“Está bem, Cruz. Vou deixar você ir desta vez. Mas

n u n ca

on de você vai; para m im , pode ir para o in fern o; m as

n u n ca m ais deixe qu e eu

Qu ero qu e saia daqu i corren do, e n ão pare en qu an to

não estiver fora das minhas vistas. Compreendeu?”

m ais

qu ero vê-lo n esta

escola. Não m e im porta

veja a su a cara aqu i por perto.

Eu compreendi. E saí

correndo.

Capítulo 3

SSOOZZIINNHHOO

E saí correndo. Capítulo 3 S S O O Z Z I I N N H
E saí correndo. Capítulo 3 S S O O Z Z I I N N H

UMA VIDA MOTIVADA pelo ódio e pelo tem or n ão

tem

odiava a todo

a

n ão ia m ais à escola e ficava fora até tarde da n oite, resolvi deixá-lo.

“Nicky”, d is s e ele, “Nova York é u m a s elva . O p ovo qu e vive aqu i, vive pela lei da selva. Só os fortes sobrevivem. Na verdade, você ainda não viu nada, Nicky.

Moro aqu i h á cin co an os e sei. Este lu gar prostitu tas, viciados em n arcóticos, ébrios

a

lu gar para

m ais n ada

n ão

ser o próprio ego. Eu

m u n do, in clu sive Fran k. Ele represen tava

qu an do com eçou a reclam ar porqu e eu

au toridade, e

está ch eio de e assassin os.

Esses in divídu os podem m atar você, n in gu ém vai saber qu e está m orto, até qu e algu m m alan dro tropece n o seu corpo em decomposição, sob um monte de lixo.”

ficar

ali. Estava in sistin do para qu e eu voltasse à escola, e eu

Fran k

tin h a

razão. Mas

eu

n ão podia

m ais

sabia

qu e

tin h a

de

ten tar

viver

por

m in h a

con ta,

sozinho.

 

“Nicky,

n ão

posso

forçar

você

a

voltar

para

a

escola. Mas se você não fizer isso, está perdido.”

“Mas o diretor m e expu lsou . Ele disse para eu n ão voltar nunca mais.”

a aqui, tem de voltar. Você precisa estudar.”

“Não ten h o n ada

ver com

isso. Se qu iser viver

“Se pen sa qu e vou voltar, está lou co, Fran k.”

Respon di com m au s m odos. “Se ten tar m e obrigar, eu te mato.”

“Nicky, você é meu irm ão. Isto n ão é coisa qu e se fale. Mam ãe e papai m e disseram para tom ar con ta de você e n ão vou deixar qu e fale assim . Ou você vai para a escola, ou sai daqu i. Vá em bora, se qu iser. Mas você voltará, porqu e n ão tem on de ir. Mas se ficar, vai para a escola e é só.”

Isso foi n a sexta-feira de m an h ã, an tes de Fran k

bilhete

sobre a m esa da cozin h a, dizen do-lh e qu e fora con vidado por algu n s am igos para ficar com eles du - ran te u m a sem an a. Eu n ão tin h a am igos, todavia n ão podia ficar mais com Frank.

Bedford-Stuyvesant,

u m bairro de Brooklin , procu ran do lu gar para ficar. Dirigi-m e a a lgu n s ra p a zes qu e es ta va m p a ra d os n u ma esquina. “Algu ém sabe on de eu posso en con trar u m quarto para morar?”

para m im , tiran do

a pon ta n do

com o polegar sobre o om bro, n a direção da Escola de Brooklin. “O m eu velh o é zela dor da qu eles

apartam en tos, do ou tro lado da encontra rá u m lu ga r pa ra você.

escada, jogan do baralh o com aqu eles ou tros caras. Ele é

o que está bêbado.” Todos os outros rapazes riram.

ao

projeto Fort Green e, n o coração de u m dos m aiores conju n tos residen ciais do m u n do. Mais de trin ta m il pessoas viviam n os altos edifícios, sen do qu e a m aioria era de n egros e porto-riqu en h os. O Con ju n to Habitacion al de Fort Green e vai desde a Av. Park até a Av. Lafayette, e a Praça Washington fica no centro.

Encaminhei-m e pa ra o gru po de h om en s e per-

ele, qu e

Um ba fora da s

sa

ir

pa ra

o tra ba lh o.

Na qu ela

ta rde

deixei u m

Na qu ela

n oite,

va gu eei

por

deles

de

virou

se

e

olh ou

u m

ciga rro.

“Sim”,

dis s e

ele,

ru a. Fale com

está ele sen ta do n a

O

prédio a

qu e

o

rapaz se

referira

perten cia

gu n tei ao zelador se h avia

u m

qu arto para alu gar. Ele

tirou

os olh os

das cartas

e

gru n h iu : “Sim , tem

u m .

Por

quê?”

Hesitei e gagu ejei: “Bem , porqu e eu preciso de lugar para morar.”

u m

“Tem

qu in ze

pacotes

aí?”

pergu n tou ,

fumo na direção de meus pés.

“Bem, não, agora não, mas

“En tão

n ão

tem

qu arto”,

disse

ele,

e

cu spin do

voltou

ao

baralh o. Os ou tros h om en s n em se dign aram a levantar

os olhos.

“Mas posso conseguir o dinheiro”, argumentei.

“Olh e,

garoto,

qu an do