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Erewhon, de Samuel Butler, um comentário Vittorio Pastelli
Viagem extraordinária do inglês Higgs, pastor na Nova Zelândia, a uma terra desconhecida, Erewhon, anagrama de Nowhere (lugar algum). O livro foi publicado originalmente em 1872 e, com adições, em 1901. Do ponto de vista de narração, pouco há o que dizer. A aventura é contada em flash-back, o que, naturalmente, enfraquece algumas de suas passagens, nas quais o narrador corre risco de vida. Como se sabe, de saída, que ele viverá para contar o sucedido, estamos tranquilos de que os riscos por que passa não são tão grandes. Ele é empregado em uma fazenda, mas quer terras para si, para criar ovelhas. Para tanto, resolve explorar terras mais altas, das quais pouco se sabe. Seu guia, o aborígine Chowbok, o acompanha só até parte do caminho e, depois, temendo os lugares altos, que trazem más recordações para seu povo, deixa só o protagonista. Este avança até encontrar uma comunidade totalmente isolada do mundo, os habitantes de Erewhon. Eles falam outra língua, mas o protagonista não demora a aprendê-la. Apaixona-se por Yram (Mary), filha do carcereiro a quem está confiado em seus primeiros dias no lugar. Depois, deixa Yram — sem lá muita explicação — e parte para a capital do país, onde é acolhido por uma família, os Nosnibors (Robinsons). O senhor Nosnibor é estelionatário e, periodicamente, sofre castigos em casa. É então que Higgs fica sabendo que, em Erewhon, maior crime que os punidos pelos códigos penais do resto do mundo (roubo, furto, estelionato etc.) é estar doente. Assim, tudo se inverte: uma mulher que sofre de indigestão crônica prefere dizer que é cleptomaníaca, a fim de escapar da maledicência pública etc. Médicos são uma classe clandestina, enquanto os médicos de verdade são os "endireitadores" (straighteners), que tentam curar as moléstias do espírito. O povo frequenta os bancos musicais, nos quais é recebido com solenidade e faz de conta que transaciona com moedas de valor, quando, na verdade, troca entre si moedas que nada valem. É uma sátira aos hábitos religiosos da Inglaterra, e de todo o ocidente. Existem em Erewhon duas moedas correntes: uma que vale e outra que se troca nos bancos musicais. Esta não vale nada, mas ninguém o diz abertamente. Higgs então se apaixona pela filha de Nosnibor, Arowhena e resolve fugir com ela. Além do amor, outra coisa precipita sua fuga: ele é acusado de possuir um relógio. Em Erewhon, não há praticamente máquinas, salvo o essencial para uma vida muito simples. Os motivos disso, Higgs os conhecerá mais tarde na narração, quando ler o "livro das máquinas". Consegue fugir com Arowhena num balão. Cai no mar, é recolhido por um navio italiano e devolvido à Inglaterra. O livro que ora lemos é seu esforço para ganhar dinheiro e empreender uma segunda viagem a Erewhon, cujo objetivo é "convencer" os de lá a trabalhar para os brancos e, se não concordarem, usar de violência, já que são pagãos. Higgs acredita que eles possam ser uma das 12 tribos de Israel. Outros costumes dos erewhonianos As crianças são um caso especial, pois os habitantes dessas terras acreditam que exista um país dos não-nascidos, onde existe paz, conhecimento e eternidade. Mas uns poucos fracos de espírito

2 insistem em deixar de ser imateriais e em nascer. Para isso, assinam um termo de responsabilidade, tomam um elixir que apaga suas memórias e são designados para aporrinhar um determinado casal até que eles resolvam concebê-lo. Depois do nascimento, os erewhonianos, sabendo do logro de que foram vítimas, obrigam a criança a assinar um termo de responsabilidade, eximindo seus pais de qualquer culpa por sua eventual feiura ou má saúde. O atestado é arrancado da criança balbuciante por amigos do casal, numa cerimônia especial. Depois de umas mímicas, os amigos atestam que a criança realmente compreendeu os termos do atestado e o assinam por ela. Na puberdade, elas são mandadas para os colégios da desrazão, a fim de estudar "hipotética". Trata-se da ciência que arranja argumentos para tudo, que prova qualquer ponto de vista. Butler parece ser defensor de um ensino eminentemente prático, para que o jovem possa logo ganhar dinheiro e se meter no mercado. Literalmente, ele afirma que o ganho de dinheiro é que mede a utilidade de alguma coisa: quem ganha mais é porque faz mais bem à sociedade. Mas, em lugar disso, as crianças vão a esses colégios aprender teorias que nada ajudam na vida diária. Os erewhonianos são religiosos, atribuindo características físicas a cada entidade abstrata. Assim, existe o deus da fúria, do amor, da inteligência, da astúcia etc. Prestam reverência a todos eles e sempre dão uma passada nos bancos musicais a fim de meditar um pouco sobre a religião. Mas, nos afazeres da vida, são todos adeptos de uma deusa pouco creditada publicamente, mas muito forte: Ydgrun (anagrama para Grundy, personagem da peça Speed the Plough, de fins do século 18, que simboliza o senso comum mais tacanho). Ele compara os colégios da desrazão com os colégios ingleses e com a imprensa inglesa: "Não há dúvida de que o espetacular desenvolvimento do jornalismo na Grã-Bretanha, bem como o fato de que nossas carteiras escolares desejem mais nutrir a mediocridade que qualquer outra coisa, é devido a nosso reconhecimento subconsciente de que é mais necessário frear a exuberância do desenvolvimento mental que encorajá-la".(cap. 22) Como acontece com Swift em Gulliver, Butler usa os costumes de Erewhon de maneira confusa, ora para atacar o que não gosta na Inglaterra, ora para mostrar como as coisas deveriam ser. Assim, os colégios da desrazão e os bancos musicais são exatamente como na Inglaterra, só que com outros nomes. Nesses casos, portanto, a coisa é tornada hiperbolicamente explícita, para ridicularizar um costume inglês. Porém, na hora de falar das máquinas, que os erewhonianos resolveram destruir cinco séculos antes da chegada de Higgs, ele fala como se essa devesse ser a via correta para os ingleses seguirem. O Livro das Máquinas Desgastado pela dificuldade de armar um estratagema fugir com Arowhena, Higgs resolve sair um pouco da metrópole de Erewhon e ir conhecer um colégio de desrazão. É lá que encontra um exemplar do "Livro das máquinas", que explica como Erewhon baniu tudo o que fosse mecânico. Quinhentos anos antes de ele chegar, duas correntes quanto ao estatuto das máquinas se digladiavam: a corrente que afirmava serem as máquinas extensões das capacidades humanas, e a que afirmava serem elas novas formas de vida em evolução que, se não fossem destruídas, viriam a tomar o lugar do homem sobre a Terra. As máquinas antes dependiam do esforço manual; depois passaram a funcionar sozinhas e, depois, passaram a ser capazes de se alimentar sozinhas. Isso apontava para, primeiro, a escravização do homem e, depois, para sua aniquilação. Essa foi a corrente vencedora e tudo foi destruído. Fixou-se que tudo o que tinha sido construído nos 300 anos anteriores à decisão deveria ser destruído. Finalmente, a idade da última coisa a ser aproveitada foi fixada em 271 anos. Naquela data, fora criada uma calandra muito usada pelas lavadeiras, e decidiu-se poupar essa engenhoca. Tudo o que veio depois foi destruído.

3 271 anos antes da época em que se determinou a destruição de tudo corresponderia, no calendário ocidental, se se parasse (hoje, para Butler) de inventar coisas novas e se se empreendesse a destruição das antigas, à data de 1600, associada normalmente ao início da Revolução Científica. No livro dentro do livro, o filósofo que via o perigo do maquinismo começa seu argumento com a máquina a vapor: "Quem é capaz de afirmar que a máquina a vapor não possui algum tipo de consciência?" (cap. 23) Assim, a máquina a vapor marca o sinal de que as coisas vão mal para o homem, marca de forma clara que é chegado o tempo de parar com um processo que levará à degradação humana. E quando esse processo começou (ou, em outras palavras, que data deve ser fixada como o limite para uma vida harmônica entre homem e meio, sem a intrusão de máquinas degradantes)? A resposta é 271 anos antes de hoje, no início da Revolução Científica. Aí está o argumento tantas vezes reproduzido de que a danação do homem tem origem na ciência produtora de máquinas autônomas. Essa tese é explorada por escritores desde H. G. Wells (cf. "A história dos tempos futuros", com seus homens degradados servindo a máquinas gigantescas, como se serve a um ídolo) até Kurt Vonnegut (cf. "Hócus-pócus", de 1990, onde é dito que o desastre do homem foi obra de Isaac Newton e James Watt). Mario Losano*, em "Histórias de autômatos", afirma que o auge da mecânica renascentista representou o auge da mecânica humana ("a mecânica renascentista, a última medida do homem"), isto é, da mecânica que visa a mimetizar o homem, e não a superá-lo, que é compreensível pelo homem e não domínio de especialistas. Butler coloca seu limite tecnológico nessa mecânica. Certamente, Erewhon não é uma utopia, dado que há descontentes, doentes, presos, evolução e memória (embora a obliteração total do passado seja uma das disciplinas dos colégios da desrazão). Logo, não sendo estática, também não pode ser uma distopia. É uma sátira confusa, ora criticando os ingleses porque eles são iguais aos erewhonianos, ora ridicularizando os erewhonianos, ora louvando-os, como no caso das máquinas. É isso o que torna Butler tão próximo de Swift: o desgosto pelo fato de o mundo não ser exatamente o que o autor quer que ele seja, pelo fato de que o mundo não lhe dá atenção. Importante, neste caso, é assinalar que esse binômio Revolução Científica / Revolução Industrial como danação para o homem tem neste livro sua primeira expressão articulada. Edição utilizada: Introdução de Peter Mudford, Penguin Books, Middlesex, 1987. ___________________________________________________________ * LOSANO, Mario (1990) - Storie di automi - Dalla Grecia classica alla Belle Époque . Tradução brasileira: “Histórias de autômatos - Da Grécia à Belle Époque”, de Bernardo Joffily. Companhia das Letras, São Paulo, 1992.

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