CHEPTULIN, Alexander. A dialética materialista: leis e categorias da dialética. São Paulo: Alfa-Ômega, 1982.

Rodrigo Giraldi Cocco RESUMO O livro se dedica à análise das principais categorias e leis da dialética materialista. Esta estuda as formas gerias do ser, os aspectos e laços gerais da realidade e as leis do reflexo da realidade na consciência dos homens. Estes estudos são indispensáveis ao homem para sua orientação na resolução de tarefas diversas, além disso, compondo um sistema de idéias sobre o mundo, ajuda a compreender a essência das formações materiais (por exemplo, a política de um Estado, etc.). As categorias dialéticas compõem: 1)as formas do reflexo da realidade (suas conexões etc.); 2) leis de funcionamento e desenvolvimento do conhecimento, alargando possibilidades criativas a partir do submetimento do pensamento e; 3) formas de interpretação filosófica. Vejamos agora, a natureza das categorias de modo amplo. Definir esta natureza remete ao problema entre o “particular” e o “geral” tanto na realidade objetiva quanto na consciência (a realidade objetiva reflete-se na consciência segundo o materialismo dialético!). Assim como se relaciona ao problema que “nasce com a Filosofia”: o da origem e existência das “essências ideais” e como elas se relacionam com as formações materiais, em outras palavras, trata-se do problema de quem vem primeiro: a matéria ou a consciência? A história da Filosofia centrou-se por muito tempo nesta questão gerando discussões entre as diversas escolas filosóficas (materialistas vs. idealistas, etc.). Já na Grécia antiga os pitagóricos tentaram solucionar este problema notando certa semelhança entre as coisas e os números, atribuindo ao número o atributo de “essência universal das coisas”. Isto equivale a dizer que eles evidenciaram uma das propriedades universais das coisas: suas relações quantitativas, numéricas, alçando esta categoria (a “quantidade”) como a essência autônoma e ideal que existiria independente das coisas. (seu idealismo reside nisto, nesta independência das coisas, uma origem a priori). É Platão quem desenvolverá a doutrina pitagórica, atestando que a idéia é eterna e que as coisas são transitórias, que tudo que existe advém da “idéia”. Aristóteles vai criticar este apriorismo das categorias, destacando que elas não passam de noções gerais e não existem antes das coisas singulares! As categorias são o resultado do conhecimento das coisas e refletem as propriedades das coisas. Para ele, é necessário antes, conhecer as coisas singulares para se chegar ao conhecimento do geral. Fixado este geral, conceitos mais gerais são apreendidos a partir de maiores relações entre maior numero de formações materiais, chegando, por fim, ao estabelecimento das categorias: os conceitos mais gerais de todos e que refletem as formas universais do ser. Assim, as categorias devem ser “lastreadas” pela matéria e pela forma, as quais, juntas, compõem a realidade objetiva. A teoria de Aristóteles (embora esteja correta ao afirmar que as categorias refletem a realidade), contudo, equivoca-se ao afirmar que as “formas” têm origem ideal autônoma, ou seja, uma parte da realidade objetiva possuiria uma natureza ideal segundo o filósofo. 1

Na idade média, as categorias assumem um matiz teológico, subordinadas à teologia as novas escolas retomam alguns pensamentos clássicos para justificá-la, como é o caso dos realistas (retomando o platonismo) e os nominalistas (que repudiavam a existência das categorias!). Por exemplo, Erigena (realista) dizia que as categorias eram criadas por Deus, o qual criara um mundo ideal a partir do qual as coisas se originam. A essência das coisas. As categorias para ele são criadoras e não criadas a partir da realidade. Roscelin (nominalista) apregoa que as coisas particulares vêm antes das categorias, mas afirma a inexistência do “geral” (propriedades comuns às diversas formações materiais). Tomás de Aquino tenta conciliar a perspectiva de Roscelin à de Erigena, dizendo haver duas “razões”, a humana e a divina. Assim, o “geral” tem uma existência ideal, mora na razão divina, modelando as coisas singulares. A essência (divina) se manifesta no “geral” e deste modo, categorias não são mais do que o reflexo das essências ideais divinas. Posteriormente, os materialistas da modernidade (Bacon, Hobbes, Locke, etc.) negaram, a concepção realista das essências ideais das categorias e para isso, retomaram Aristóteles, reiterando que as categorias são o reflexo das propriedades gerais das coisas. Immanuel Kant, posteriormente, enceta um diverso ponto de vista (subjetivismo), dizendo que as categorias não são o reflexo da realidade objetiva, mas que representam a atividade do pensamento apenas. De fato, um indivíduo (um homem) isoladamente, assimila categorias a priori – advindas de uma sociedade anterior – para poder pensar segundo sua época. Todavia, o sujeito do conhecimento é a sociedade como um todo e para esta, a categoria não pode existir a priori, ela é engendrada ao longo da história e do desenvolvimento social e da ciência como reflexo da realidade. Hegel irá, posteriormente, criticar o idealismo subjetivo de Kant, o qual dizia que as categorias provinham da consciência humana, do reflexo da realidade na consciência humana. Para Hegel (idealismo objetivo), as categorias provêm do desenvolvimento da “idéia absoluta”, a qual existe anterior e independentemente do mundo material. A ‘idéia absoluta’ se encarna nas formações materiais e (sem ter consciência de si) vai se desenvolvendo. As categorias em Hegel exprimem cada momento do desenvolvimento da idéia absoluta encarnada, em desenvolvimento dialético. Hegel supera Kant na medida em que desnuda o desenvolvimento das coisas e das categorias a partir da dialética, da resolução de contradições. No entanto, apregoa a dialética do autodesenvolvimento das categorias, ou seja, uma “dialética das categorias”, com suas subseqüentes transformações, mas que submete a “dialética das coisas”. Lembremos que para Hegel a origem das coisas está na idéia. Marx e Engels por sua vez, irão superar a concepção hegeliana da natureza das categorias. Ora, tanto é fácil, escreveram Marx e Engels, partindo de frutos reais, engendrarem a representação abstrata do “fruto” (a palavra “fruto), como é difícil, partindo da idéia abstrata de “fruto”, engendrar frutos reais (...). Pode-se ver por isso, concluem Marx e Engels, que enquanto a religião cristã conhece apenas uma encarnação de Deus, a filosofia especulativa tem tantas encarnações quantas são as coisas; é assim que ela possui, neste caso, em cada “fruto”, uma encarnação da substância do “fruto absoluto” (CHEPTULIN, P.12-13).

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Para Moore (filósofo burguês), existem objetivamente “essências ideais particulares” ou simplesmente aquilo que ele chama de “universais”, fora da consciência humana. Nós apenas tomamos consciência deles. Moore tenta justificar seu ponto de vista a partir do exemplo de três objetos diferentes que possuiriam todos eles uma mesma propriedade: “estar à mesma distância de um quarto objeto”. Esta propriedade (estar à mesma distância) seria um “universal”, uma “idéia geral” independente da consciência humana. Mas o fato de estarem “à mesma distância” não prova que sejam uma “essência ideal”, apenas prova que esta propriedade pertence às três coisas. É uma propriedade das coisas, o que não é sinônimo de “essência ideal independente delas”. Se o geral (como dizem os realistas) existe de forma autônoma às coisas, ele só pode existir idealmente e enganosamente, porque entre as coisas materiais ninguém viu nada que fosse geral existindo de modo independente das coisas. Para o nominalista Chase, só as coisas singulares existem na realidade objetiva, enquanto que conceitos gerais e categorias são palavras vazias uma vez que não há, no mundo objetivo, coisas às quais possam corresponder. De fato, Chase é verossímil nesta assertiva, todavia, os conceitos são deveras úteis ao homem e surgem associados a um ponto de referência concreto com finalidades científicas. Seria anti-científico dizer que “o geral” não existe, pois é precisamente o movimento que o conhecimento faz até o geral e a sua “essência” é que descortina uma série de fenômenos e formações materiais, dissecandoas. Em resumo: • Realistas: categorias existem independentemente da consciência humana como essências idéias; • Nominalistas: categorias são palavras vazias. • Kantistas: categorias provêm da atividade do pensamento (idealismo subjetivo) a priori; • Pré-marxistas (Aristóteles, Locke, materialistas franceses, etc.): categorias são imagens idéias que se formam no decorrer do desenvolvimento da consciência da realidade e refletem os aspectos das coisas; • Hegel: categorias são o momento ou graus do desenvolvimento da “idéia” (idealismo objetivo); Quanto ao problema da correlação das categorias da dialética, dizemos que se refere à existência de interação e interdependência entre as formações materiais. Consecutivamente, também os conceitos não podem estar isolados, devem também “passar um pelo outro se transformando em seu contrário”. Pois como disse Lênin (Ouevres, p23), “os conceitos humanos não são inamovíveis, mas, pelo contrário, eles movem-se perpetuamente, mudam-se uns nos outros, escoam-se um no outro, porque, sem isso, eles não refletem a vida existente”. Vejamos como isto se dá nas diversas escolas filosóficas. Em Aristóteles, a organização das categorias se dá sob a lógica formal, com a divisão das mesmas em grupos a partir de seus traços comuns. Kant também as agrupa, submetendo-as a cada “estágio do conhecimento” (Ex: ao estágio da percepção sensível estaria a categoria “espaço”). Hegel fará a correlação das categorias a partir do idealismo objetivo, ou seja, apresentando as categorias em seu desenvolvimento e a passagem dialética de umas às outras durante o desenvolvimento da “idéia” (idéia esta independente da matéria e do homem). O sistema hegeliano parte da categoria do “ser puro” (vacuidade pura, conteúdo impreciso) o qual muda de estado. Este ser puro age com o “nada” e torna-

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o sujeito afasta um do outro objeto. Assim sendo. Os primeiros conceitos gerais provêm da tomada de consciência destas. um “vazio” e depois ganha conteúdo. ao mesmo tempo em que evidencia os aspectos mais gerais que os unificam. entre o ser real (“ser aqui”) e seu potencial de se transformar em outras coisas (“ser para outro”). mais superficial e não essencial. ele se diferencia a partir de si mesmo (repulsa a si mesmo): surge o “múltiplo” (unidade da repulsa e da atração). deve haver contradição. ela se transforma de uma quantidade “abstrata” em uma quantidade material dada. Esta quantidade. de nada e inclui em si tudo! (como a água de Thales ou o fogo de Heráclito). pois uma vez resolvida torna-se o “fundamento” (os contrários são destruídos enquanto existentes de forma autônoma e conservados como características do fundamento). ela não se distingue das demais. A categoria “alguma coisa” possui uma natureza contraditória. depois vira seu contrário e nisto Hegel está de acordo com Marx. As relações fazem com que uma coisa se distinga de outras. se tomarmos o exemplo do processo de conhecimento dos fenômenos e formações. Este “alguma coisa” vai se modificando progressivamente (o “alguma coisa” original não se perde!) até o infinito. em Hegel. Esta se manifesta primeiramente a partir da diferença exterior. aproximando-se mais de um que de outro. transformando uma formação material em outra. por mais que o pensamento de Hegel seja fundado no idealismo. De fato. É o “vir-aser” que transformaria o “nada” em um ser concreto. Torna-se um “ser-aqui”. evidencia-se “identidade” e “diferença”.. também tem um desenvolvimento próprio. quando diz que tudo o que existe encerra em si mesmo uma contradição e de que a contradição é a origem do movimento. Fazendo a abstração daquilo à que a coisa está ligada. depois se torna essencial. O ser vive sob uma forma anulada dentro da essência. mas ele é uma das contradições encerradas na essência.. não é eterna. O “ser-aqui” já manifesta qualidade (categoria “alguma coisa”). a soma de vários “uns” semelhantes é o “geral”. Hegel atenta ainda para as essências contraditórias dentro da quantidade e da qualidade: por exemplo. isto é. já que a passagem de uma categoria a outra se dá pelo movimento e unidade dos contrários – o “ser puro” e “o nada”. 4 . aparecem muito antes: logo quando se evidencia alguma formação material. Esta contradição. Na história do conhecimento as categorias identidade. no entanto. mas mesmo assim há certa racionalidade nelas. pois na realidade objetiva não há. a partir de sua qualidade específica transforma-se em “um”. ele é em parte verossímil. O desenvolvimento da “qualidade” em quantidade conduz por sua vez à categoria de “essência” (essência é. Com este esquema Hegel vai mostrar o desenvolvimento da qualidade e posteriormente sua passagem à quantidade.. ainda que em esquemas superficiais. ela torna-se “um” e enquanto “um”. o impulso da vida. pois é a unidade dos contrários. não pode haver identidade abstrata e pura. tendo uma “qualidade”. quantificando objetos de qualidades semelhantes e posteriormente passando-se ao aspecto “qualidade”. em Hegel. diferença e essência. aí esta coisa. Após a observação dos objetos faz-se a determinação qualitativa deles (parecendo que eles se afastam uns dos outros). a “repulsa e a atração” são próprias à qualidade e diferenciam os objetos em quantidade. Este “um” não permanece em repouso. o que permanece entre as passagens de uma a outra categoria). É visível a incrível artificialidade da correlação das categorias em Hegel.. O qual agora se torna um momento da “essência”.se um “vir-a-ser”. Até aqui o desenvolvimento encontrava-se no plano do ser puro onde a qualidade e a quantidade eram momentos deste ser.

“consciência” e “prática”. isso é o idealismo de Hegel. Momentos que fixam a passagem do conhecimento de um estágio inferior a um superior. A prática social. Deve-se ter em conta que as categorias são também produtos da consciência. ainda que necessária para a realização do fundamento. 3. pois estes ignoram a dialética. Assim sendo. não é a força motora que obriga o fundamento a originar o fundamentado. Surge a categoria “condição”. etc. os possíveis pontos de partida são: 1. enquanto atividade cognitiva dependente de fatores determinantes como a prática social a partir da qual a inteligência se desenvolve como determinação da transformação da natureza pela sociedade. 5 . O próprio Lênin já apregoava que o aparecimento de uma nova categoria depende do desenvolvimento do conhecimento. unidade do objetivo e do subjetivo. o qual possui certa forma e certa matéria e é idêntico a ela. O passo adiante só vira com o materialismo marxista. isto é fato. Manifesta-se a idéia absoluta. não traz em si a razão de seu existir). O passo adiante dado por Hegel não seria evoluído por outros filósofos posteriores como Windelband. que esta força motora está contida no próprio fundamento e que este se desenvolve sob pressão de contradições internas que lhe são próprias. Hartmann. Outro aspecto destacável: o fundamento não pode originar este ou aquele ser sem que haja condições rigorosamente determinadas. transforma-se no seu contrário e manifesta-se como natureza. como categorias de partida. embora se expresse como ‘informe’. As categorias refletindo as ligações e os aspectos universais do mundo exterior são também graus de desenvolvimento do conhecimento. A realidade em Hegel é a unidade entre essência e existência. fazendo necessário o surgimento de novas categorias. a verdade do ser e da essência para Hegel. este atinge a objetividade e finalmente a idéia. Mas e quando há mais de uma relação que possa ser destacada? Vejamos como proceder. conceito e realidade. a idéia absoluta. Gunther. O fundamento adquire um conteúdo e uma forma (torna-se um “fundamento determinado”). O proceder é o seguinte: chega-se finalmente ao “conceito”. Questão fundamental da filosofia: relação entre matéria e consciência. enquanto a unidade entre “possibilidade” e “realidade” gera a “necessidade” que por sua vez se manifesta em relações de substancialidade e acidentalidade. rejeita-a e retorna ao elemento espiritual. penetrando este mais profundamente nos fenômenos e descortinando novos e recônditos aspectos. a análise deve começar pelas categorias “matéria”. A forma é ativa enquanto a matéria é passiva e quando se transforma em “forma” constitui o conteúdo. Lei da unidade e luta dos contrários. a forma está ligada à essência e esta é idêntica à forma. 2. Em toda filosofia há a questão fundamental da relação entre o pensamento e o ser. Um aspecto de uma formação material torna-se fundamento quando ele passa a influir sobre outros aspectos da matéria. sendo que primeiro a realidade se manifesta como “possibilidade” (abstrata. as quais devem ser dispostas na ordem em que aparecem no processo do conhecimento. O marxismo determina que no estudo de todo o objeto se comece pelo aspecto ou relação dominante. Finalmente. A idéia de Hegel é a de que a “condição”. Wundt ou Cohen entre outros. a partir da forma ideal. está é a essência da filosofia e por isso. a considerar uma nova qualidade. finda o desenvolvimento.Ainda para Hegel. Mas dizer que primeiro surge a “coisa pensada” e depois ela passa a existir no concreto. Lênin já destacava como mais importantes as categorias que davam conta das relações principais entre a “unidade dos contrários”.

). a existência objetiva. Pelo contrário.Destaca-se. Assim. dizendo que em verdade. Demócrito o átomo. à ordem em que aparece no desenvolver da prática e do conhecimento. muitas surgem ao mesmo tempo. Deste modo.) e as propriedades da matéria como sendo existentes objetivamente apenas se postas em relação com a consciência. aos aspectos e relações relativos à matéria. assim como para Leibniz. 6 . mas todos eles concordam com a existência objetiva da matéria independente da consciência e do espírito. etc. uma vez que anteriormente havia uma identificação consolidada entre a matéria e sua substância (o átomo primitivo). do inferior ao superior: leis de desenvolvimento de todo o concreto que há no mundo. indús e babilônicos da antiguidade. apenas certas propriedades deste mundo como o espaço. já pensavam sobre a matéria como sendo o corpo concreto. o princípio primeiro de tudo. a matéria existe fora da consciência e das sensações. ou seja. Para idealistas objetivos como Hegel. devem ser analisadas sob a luz da relação entre matéria e consciência. cada uma delas. Para Berkeley e outros (idealismo subjetivo). assim como gregos. independente da consciência humana é suficiente para definir a matéria. Matéria e Consciência O conceito de matéria é diverso e perpassa as várias escolas filosóficas. como é possível classificá-las para que exprimam o movimento do saber do inferior ao superior? Vejamos. a matéria seria movimento). a ciência e suas concepções engessadas entram em crise. Com o elétron. etc. essas afirmações são questionadas na medida em que se pensou a inexistência de massa no elétron. que a ordem na qual as categorias se formaram não se seguiu historicamente. a matéria não pode ser tão somente identificada com a substância. Kant admite a sua existência real e objetiva. todavia. assim como se pensou seu atributo principal como sendo o movimento (logo. mas está submetida à “idéia absoluta” que a engendra. consideram como matéria. ficava a questão de como toda a diversidade do mundo surgiria de uma única substância e é aí que outros filósofos ampliaram as substâncias primordiais (Empédocles quatro substâncias. Gunther e Hopfner. o tempo e o movimento (Klotz. O átomo de Demócrito foi o paradigma da matéria até início do século XX. da radiação etc. até porque a consciência é finita e a matéria é eterna! Um aspecto importante desta discussão é que o que é aplicado ao todo não pode. Entre os materialistas são diversas as concepções de matéria. Outras idéias igualmente enganosas. mas com a descoberta do elétron. mas nega a possibilidade de se conhecê-la. igualmente. ela é inexistente e o mundo reduz-se a um conjunto de sensações. ser aplicado aos seus aspectos e relações. mas com a realidade objetiva independente da consciência de modo mais amplo. devem corresponder aos graus do conhecimento. Os idealistas vão utilizar estes fatos para justificar suas teses contra o materialismo. Filósofos chineses. Deste modo. as categorias de partida (para a análise das categorias) devem ser as categorias correspondentes à prática e depois. no ato do conhecimento. a matéria é o recipiente das “mônadas” (átomos espirituais independentes da consciência). mas Lênin o defenderá com acurácia em seu “Materialismo e empiriocriticismo”. aplicamos o adjetivo de “material”. A premissa básica é que as categorias. reproduzem-se em certa ordem as leis universais na consciência.

temporais. são resultado de uma ação bilateral. a única substancialidade possível é a “impossibilidade de a matéria perder suas propriedades”. existem fora da consciência. mas o fará em outra. refletora e refletida. Assim. mas ativa. É por isso que não é todo o conteúdo das transformações (surgidas na formação material em decorrência da ação de outras formações materiais sobre ela) que representam o reflexo destas últimas. em decorrência da qual cada formação material particular é. As particularidades dos corpos refletidos (os que agem) e dos refletores são (ambas) representadas nestas transformações. Incluem causalidade. de certos estados qualitativos a outros. possíveis e reais. “Diferentes formações materiais entram no conteúdo do conceito de matéria. no materialismo dialético. Têm um conteúdo próprio. uma essência. ligações necessárias. sob a ação de outras formações materiais. daí a impossibilidade de se aplicar o conceito de matéria diretamente às coisas particulares (ainda que este ponto de vista equivocado seja amplamente difundido).74). tem características espaciais.. contingentes. Da substancialidade da matéria Opor matéria e consciência é relativo (Lênin). elas refletem uma forma superior da natureza). “o reflexo está ligado não apenas à ação de uma formação material sobre outra. é a forma superior de reflexo. (p. uma propriedade não se manifestará em uma formação material. ao mesmo tempo. ela só existe em formas altamente organizadas em certo estágio do desenvolvimento. uma forma. esta é uma definição muito rudimentar. isto é. Matéria e formação material Uma formação material é uma parte da matéria e todas juntas constituem a matéria. prova disso é que a matéria não pode existir fora de suas propriedades e relações. 79). mas o materialismo dialético não reconhece nada assim.” (p. mas somente o que é isomorfo (semelhante) a esse ou àquele aspecto dos objetos que agem. movem-se. singulares. Desta forma. Outro fato importante é que a formação material não é passiva. próprios das características dos átomos). Todas as transformações surgidas em uma formação material. tem aspectos. pois a substância deve modificar-se continuamente. A consciência é uma das formas de reflexo própria a toda matéria (a sensação e outros fenômenos psíquicos têm sua base no mundo material. A formação material não é eterna. gerais. mas também à sua interação. são os elos de uma mesma matéria. e sempre se transforma em outra. A suposta substância da matéria possui algo de imutável e absoluto. de uma interação.Aspectos da matéria. Ela reproduz sob uma forma específica as particularidades correspondentes destes objetos e desses fenômenos”. Ademais. já que a consciência é uma propriedade de uma formação material: o cérebro. O CONCEITO DE TODO NÃO PODE SER IDÊNTICO AO CONCEITO DE PARTE DESSE TODO. não se pode reduzir a matéria a dois aspectos (substância e campo. Em muitos casos. contradições. EM SUMA. etc. O reflexo Para o materialismo dialético a consciência não é uma propriedade universal da matéria. Ela própria age sobre as formações materiais a ela ligadas modificando-as. 7 ..

o resultado do desenvolvimento social. Para que a consciência surja. igualmente. É assim que as formações materiais vão combinando semelhanças e diferenças. Todavia. a correlação com o meio torna-se mais evoluída do que a simples reação aos excitantes exteriores. mas é igual à sua própria essência. na interação. o qual se complica no decorrer da evolução. em decorrência de interações. Vale ressaltar que as propriedades do objeto refletor não são idênticas ao reflexo que ele efetiva de outros objetos. podemos deduzir que algumas formações materiais. engendrada pela primeira. A primeira realidade é material e a segunda. Assim. O reflexo do mundo exterior é vital para os organismos e é mediado pelo sistema nervoso. 82). é um resultado da interação. da qual é reflexo. ao mesmo tempo.): trata-se do sistema nervoso. Na verdade. ideal. dentre outras formações materiais. representa o refletido). lembremos que todo o psíquico está ligado ao fisiológico. elas apenas refletem a realidade sob as bases da consciência e do cérebro humano. como propriedade da matéria altamente organizada. em sua experiência pessoal. Ademais. enquanto que esta produz influências recíprocas entre formações materiais que efetuam algumas mudanças em cada uma delas.. o produto do trabalho humano.. trata-se de uma interação (relação bilateral). fixação da ação exterior. assim. nem tudo o que existe é matéria. o reflexo não é idêntico à interação. uma vez que na consciência o reflexo é “consciente”. orientadas unilateralmente. Modificações das formas de reflexo são observadas na passagem da matéria de um grau qualitativo de desenvolvimento a outro. as imagens que constituem a consciência não carregam consigo as propriedades da realidade (peso. produzem outras mais complexas. uma vez que na realidade objetiva não há ações puras. no refletor. mediador entre o organismo e o mundo exterior. cada ação está ligada a uma reação. ou a alma. Em organismos superiores. Nos organismos vivos. O reflexo também é uma representação ímpar das particularidades dos fatores agentes (p. por exemplo. espacialidade. a consciência é. A forma do reflexo varia conforme o desenvolvimento do sistema nervoso. O reflexo é então. devem existir necessidades materiais e foi precisamente isto que se sucedeu: a necessidade de trabalho conjunto. entender a parte que. alguns tecidos e órgãos se especializaram em refletir (percepção. de comunicação entre os homens a propiciou. por exemplo. só existe sob esta base. Já a modificação do objeto devido a interações (exteriores e interiores) não representa o “reflexo”. a propriedade mesma do reflexo. mas que é diferente. O reflexo representa as mudanças que reproduzem particularidades dos objetos agentes. Assim sendo. duas realidades: a realidade objetiva que existe fora e independente da consciência e a realidade subjetiva. As categorias como graus do desenvolvimento do conhecimento social e da prática 8 . etc. apenas a propriedade de cada formação material de reproduzir certas particularidades de outras formações materiais que agem sobre elas. Por isso. Vale destacar que a consciência não é a única fonte de reflexo: a matéria. em outras palavras. Lênin foi mal interpretado ao dizer que o refletido existe independetemente do reflexo. mas o “movimento”. ambas as formações materiais são refletoras e refletidas (por reflexo. o que contraria Deus.). Há deste modo. possui uma propriedade que corresponderia à sensação.Não é todo o conteúdo das transformações que representam o reflexo da ação de certas formações materiais. mas só o que é semelhante a este ou àquele aspecto das formações que agem. ocorrem reflexos condicionados que vão se elaborando no processo da vida do indivíduo.

já que o tempo determina o movimento.. 134). vejamos alguns exemplos. Mas para definir a essência deve-se definir o aspecto determinante das relações (o fundamento) e seu desenvolvimento. “. ele vai tomando consciência da quantidade. Depois se tentaram correlacionar os aspectos qualitativos com os quantitativos. as quais tornaram necessário o estudo dos conceitos de espaço e tempo (para a existência e movimento das coisas é preciso um lugar). se relacionando ao limite entre um objeto e outro. estabelecendo laços de causa e efeito e observando o que os condicionam. Os mais importantes desses laços necessários (imperiosos) tornaram-se leis Ex: o fato de a resistência do condutor depender da sua substância e comprimento (Ohm) foi tido por “lei” e posteriormente a isso. Anaxímenes e Anaximandro davam importância às categorias “ligação” e “movimento”. quando o homem passa de um objeto a vários. Guerick) até que a atenção dos pesquisadores se volta aos aspectos quantitativos (Coulomb. processo. Feito este processo.). Ordem de aparecimento das categorias no desenvolvimento científico A lei do movimento de uma categoria a outra deve aparecer em qualquer domínio do saber. enquanto o tempo era característica do movimento. Para elucidar mais apuradamente seus aspectos qualitativos. vê que a transformação de um aspecto é condicionada por outro (causa-efeito e necessidade). Aristóteles foi o primeiro a usá-lo como categoria: o espaço como o lugar ocupado pelas coisas. Só que depois. Devem-se evidenciar as tendências contraditórias que condicionam a passagem do estado qualitativo a outro (forma-se as categorias: contradição.O conhecimento funciona a partir da prática e desenvolve-se da intuição viva ao pensamento abstrato e deste à prática. Neste estágio de desenvolvimento do conhecimento as características quantitativas eram indiferenciadas. ao contrário de Platão. do qual ele é o número. reproduzindo na consciência a essência da eletricidade que culmina com o elétron! Já na Antiguidade. vão se reunindo todas as relações em um todo único e a reprodução desse todo na consciência representa o conhecimento da essência do objeto. descobriu-se (na Antiguidade) a ligação existente entre a “faculdade do âmbar de atrair corpos” e a “fricção”. mas também o tempo pelo movimento. após consecutivas descobertas foram-se definindo as propriedades qualitativas da eletricidade (Gray. porque eles determinam-se reciprocamente. compararam-se os fenômenos elétricos com os fenômenos eletromagnéticos e deste modo. Ohn. Ampère etc. Thales. o tempo” (p.. O âmbar era uma pedra ornamental e com sua fricção. etc. e o movimento.) como sendo singular. Em seguida isso foi se generalizando para outros corpos e em seguida. XVIII Gray descobriu essa propriedade em corpos bons condutores.) que tornavam a forma do fenômeno concreta. tencionou estabelecer uma interdependência ainda mais abrangente entre leis: uma teoria. 9 . ar. Joule. unidade e luta dos contrários). medimos não somente o movimento pelo tempo. passa a julgá-lo a partir de sua qualidade. Posteriormente passa a considerá-las como interdependentes e transmutáveis uma à outra e depois. Gilbert. estabelece-se que a faculdade de uma substância de atrair por fricção outros corpos pertencia a todos os corpos maus condutores. etc. No começo do séc. evidenciando-se a contradição própria ao fundamento. Os aspectos e ligações universais conhecidas nas categorias são também graus da passagem do conhecimento inferior ao superior. Mas em que ordem surgem as categorias no âmbito do desenvolvimento do conhecimento? No momento em que o homem toma consciência do particular (objeto. do singular (água. Neste período a escola de Mileto elabora concepções a partir do particular.

a “qualidade” de algo é determinada pela proporção (quantidade) em que se agrupam os quatro elementos (água. “efeito”. das relações entre eles e com a natureza. As categorias então. na própria matéria. mas também o estágio do desenvolvimento histórico da sociedade. Bacon iria desenvolver as categorias “causalidade”. por outro lado. Na qualidade de substância – de fundamento e de causa primeira de tudo – Hegel propõe a “idéia absoluta” que. o raciocínio engloba apenas correlações superficiais do singular. eleva-se até o universal por meio do particular e o universal a partir do particular desce até o singular. Aqui. Posteriormente. o singular. do 10 . o juízo deve representar a verdade. enquanto Hegel mostrou como a substância (o fundamento) desenvolve seu conteúdo e engendra a diversidade das formas do ser. O esquema de Hegel sobre os juízos baseia-se na correlação do singular e do geral. Spinoza salientaria o caráter geral da ligação da causa e do efeito como sendo ligação necessária e disse que a substância (imutável) é o fundamento. graças a sua natureza contraditória. Essa premissa limitou seu entendimento com relação à diversidade do mundo. cria e fundamenta sua essência. no processo da transformação orientada em direção a uma meta e à realidade. a natureza em interação e as transformações acarretadas por esta.Aristóteles evidenciara a dialética do singular e do geral. o homem torna-se convicto de que suas ferramentas podem também interagir e transformar as coisas. que separava a matéria da forma pura. Para Hegel. Observando o mundo exterior. tendo já um vislumbre da relação entre “qualidade” e “quantidade”. não são apenas graus do desenvolvimento da consciência. passa-se dos momentos abstratos do singular. f ou). Segundo Hegel. Mas só Marx o faz com uma base materialista. O desenvolvimento das formas do pensamento no processo do movimento do conhecimento de uma categoria a outra As formas de pensamento em desenvolvimento só serão estudadas a partir de Hegel. em suas formas superiores ele engloba as correlações internas ESSENCIAIS E NECESSÁRIAS. que inicialmente engloba apenas o imediato. A influência da prática social sobre a formação de categorias é vista já em Heráclito quando ele compara o fogo ao ouro. já que ele exprime a correspondência do conceito e da realidade. o “superficial” dos objetos. mas também da pratica social. ao apregoar que a causa das coisas está nos elementos. Para Hegel. o juízo é o isolamento e a confrontação de momentos do conceito. a qual só é atingida no ápice do desenvolvimento do juízo. Na formação de uma categoria exprime-se não apenas o estágio do desenvolvimento do conhecimento. Isso foi aperfeiçoado por Aristóteles. Deus). o juízo entra na esfera do conceito e continua a desenvolver-se. do particular e do universal. As primeiras formas de obter fogo advieram da interação entre dois objetos. No processo desse desenvolvimento. “forma” e “necessidade”. dizendo que tal como o ouro (prática social) tudo pode ser trocado pelo fogo na natureza. Nesse movimento. terra. em suas formas inferiores. Categorias como graus do desenvolvimento da prática social O conhecimento das formas universais do ser dá-se no decorrer da atividade prática. encerrando uma etapa do movimento do conhecimento (correlação quantidade/qualidade). O conceito é o resultado do desenvolvimento e correlação das formas de pensamento e provém do raciocínio e do juízo. Para Empédocles. A forma é inseparável da coisa (diferentemente de Aristóteles. ar.

a relação torna-se de necessidade (“x” é necessariamente "H"). condicionam a existência eterna da matéria mediante as formações materiais particulares encerradas no espaço e no tempo. indo-se do singular ao particular e deste ao universal! Destaca-se que todos estes tipos de juízo só fixam o mais superficial. Do superficial vai-se ao essencial. o homem descobre o movimento já em seus estágios iniciais. superficiais) passa-se a raciocínios de suposição. já o repouso. Isto é factível. A formação material (uma coisa particular ou um estado particular) provém desses sistemas de movimento. ao se esforçar para penetrar no interior das coisas construímos hipóteses. apareceram em decorrência de transformações do princípio primeiro. na morte do ar o nascimento da água. na medida em que é manifesta já entre os primeiros filósofos. passamos do conhecimento superficial à causa. O conceito de movimento Entre os primeiros filósofos gregos. Assim. O erro de Hegel neste ponto reside no seguinte fato: para ele o raciocínio vai do geral ao particular e deste ao singular.particular e do universal para os momentos concretos. que os diferentes tipos de raciocínio também não são fixos. uma forma universal da existência da matéria. o movimento em estado de equilíbrio. Mas este geral deve. O movimento condiciona a modificação permanente da matéria. Sendo eterno como a matéria. no qual nada permanece como era. a corrente contínua do movimento parece descontínua. depreenderam que todas as formas do ser. O particular. como um conjunto de diferentes sistemas de movimento. Destaca-se. Os pensadores de Mileto também concebiam assim o movimento. Engels já destacava que “quando submetemos ao exame do pensamento à natureza ou à história humana. Na antiguidade grega. o movimento. no lugar onde estava anteriormente e como 11 . Conclui-se. ainda que momentânea da matéria transformada em um determinado estado. Assim. Caberia a Heráclito conceber a universalidade do movimento. do apeiron desdobraram-se tudo o mais. A partir daí. elaborado. ou ainda nossa própria atividade mental. em desenvolvimento. já para Anaxímenes. o fizeram a partir do ar em seu movimento de transformação. quando afirmara residir na morte do fogo o nascimento do ar. Assim. etc. eles estão em movimento. essenciais. portanto. o que temos como primeiro resultado é o quadro de um entrelaçamento infinito de relações e de ações recíprocas (interações). supondo causas (juízo de possibilidade) que originam as propriedades: uma vez comprovada a causa relacionada ao efeito. que nos termos do desenvolvimento do conhecimento. com vistas a se chegar à essência das coisas. mas o conhecimento não para por aí. da intuição (aonde se formam conceitos concretos sensíveis. antes. o movimento desempenhou o papel de princípio inicial. a partir do qual se explicavam todos os fenômenos observados na realidade. constitui na verdade. diversos filósofos já concebiam o movimento como categoria universal da matéria. a manutenção. O particular é. assim como o repouso relativo. o movimento absoluto. Para Anaximandro. necessário. a relação Repouso relativo é um dos momentos do movimento da matéria. observadas no mundo. ser concebido.

que o movimento nestes casos é o simples deslocamento. alteração e modificação local.. Transformações no núcleo atômico. diminuição. A matéria constituindo assim. Empédocles retoma o conceito de movimento. retomando as idéias dos jônios e de Heráclito (movimento como o aparecimento de algo e a destruição de outro). Esse conceito aparece também em Demócrito. mas a transformação de uma forma de matéria em outra. elemento que associam-se e desassociam-se. corrupção. foi a maneira adotada pelos filósofos gregos da Antiguidade. 12 . tudo o que existe provinha de um todo imutável e homogêneo. Aristóteles se esforça para aprimorar estas concepções. Aristóteles..” (Engels. no organismo vivo. e o primeiro a formulá-la de modo claro foi Heráclito. Anti-Duhring). uma das formas da energia como já foi discutido. a transformação de elétrons e de pósitrons em fótons – luz – não é a transformação da matéria em energia (movimento puro). Em Aristóteles havia 6 formas de movimento: geração. ao contrário dos jônios. Ele inclui todas as mudanças e processos que se produzem no universo. Em verdade.. Todavia. com o movimento representando o mero deslocamento de corpos no espaço (Descartes. Para eles.. da simples mudança de lugar até o pensamento. Holbach). inclusive. diminuição e deslocamento dos corpos no espaço. certos filósofos e físicos burgueses reduzem a matéria ao movimento (ao qual a energia é determinante). Destaca-se. XVII e XVIII). o movimento (processo de destruição de um e surgimento sob mesma base de outro). O movimento e o repouso Para o materialismo dialético. mas o simples rearranjo dos elementos que compõem as coisas. o conceito de movimento era guindado ao primeiro plano. A própria lei de correspondência da massa e da energia é testemunha do laço matéria-movimento. modifica-se. Para ele. de encarar o mundo. desenvolveu a teoria do movimento e da correlação. nas quais o autor adverte se tratar de exemplos do repouso inerente ESPECIFICAMENTE ao movimento mecânico. o movimento aplicado à matéria é a modificação geral. terra. Para os primeiros filósofos gregos. Contrariando essas concepções. posteriormente. crescimento. Muitos autores. água.estava. mas também como crescimento. Essa maneira primitiva e ingênua. a união e a desagregação. com seus átomos.. a forma mecanicista do movimento da matéria (séc. porém fundamentalmente correta. vem a ser e perece. mas conserva a estabilidade. tomando o movimento não apenas como “destruição” e “aparecimento. O movimento é um atributo da matéria e está indissoluvelmente ligado a ela. os eleatas. não incluindo as transformações da matéria. mas em que tudo muda. negando em absoluto o movimento. distorcendo sua visão. interessar-se-iam pela estabilidade. etc. No materialismo dialético. Só mais tarde. formando a categoria do movimento como unificadora a seus conceitos. Dizem estes que Engels (Anti-Duhring) reforça a existência do repouso absoluto. fogo e ar são imutáveis e o movimento não seria o surgimento de uma coisa e o desaparecimento de outra. Posteriormente emerge como dominante no materialismo. o repouso não é a ausência de movimento. na sociedade. baseiam sua idéia de repouso no próprio Engels. Contudo. ao trazer exemplos de corpos celestes em “repouso” em relação a outros corpos. não são simples deslocamentos (embora nestes processos também haja deslocamento de matéria). omitem passagens esclarecedoras.

as transformações (provenientes da interação) não afetem sua estabilidade. deste ao feudal e do capitalista ao socialista. dizem ser. sendo uma parte de um todo mais geral. O materialismo dialético reconhece tanto o movimento em círculo como o movimento regressivo. fazendo surgir novos. Mas o sistema de movimento estável não esgota todo o movimento da coisa. mas há o movimento circular e o regressivo. Em outra teoria. mas entende o movimento progressivo como sendo o dominante. mas porque mantém certa estabilidade. ou seja. Engels define a dialética como a ciência das leis gerais do movimento e do desenvolvimento da matéria. diferenciando o conceito de movimento do de desenvolvimento. Deste modo. tudo no mundo. da sociedade e do pensamento. Ademais. pode ocorrer que. um desenvolvimento. O sistema solar. seja no quadro desse sistema. Estas transformações. há transformações contínuas. Assim. relatando a passagem de uma sociedade mais primitiva ao regime escravagista. ao desenvolvimento. De fato. inclusive o desenvolvimento. A idéia de movimento circular foi expressa pelos pitagóricos que consideravam que todos os 760. perdem ou ganham elétrons. pois podem ser elos de um processo geral de degradação. Exemplo disso é a própria história humana. inclusive o simples deslocamento dos corpos. arruínam o sistema estável. passando a formas mais perfeitas de vida social. repetindo os já transpostos. não porque está “parado”. Paralelamente ao movimento em equilíbrio de uma formação material. É preciso dizer que nem todos os movimentos circulares e mudanças regressivas compõem o processo geral de desenvolvimento. do simples ao complexo. à morte. é um sistema em repouso. todas as transformações observadas no mundo transpõem os mesmos estágios. a questão que se coloca é: qual é a tendência de todas essas transformações. o desenvolvimento remete ao movimento do inferior para o superior. O movimento circular. um movimento circular ou mudança regressiva. manifesta-se ele próprio como sendo possuidor de suas próprias partes. por exemplo. Em interação. pode ser uma “parte” (elos no processo mais amplo de desenvolvimento). volta ao seu estado inicial. autores como Kalsine. para que haja desenvolvimento (movimento do inferior ao superior) sejam necessários movimentos circulares e regressivos no quadro do sistema de desenvolvimento. mas como “todo”. 13 . ao atingirem certo nível. e não a ausência de movimento. como nas relações com outros sistemas de movimento estáveis. Mas não se trata de momentos sumamente necessários para o desenvolvimento. embora no início. perturbando-o. em estabilidade. formando um sistema de movimento estável novo e mais complexo. toda mudança. voltando à posição de partida (descrevem um círculo). as transformações não se dão de forma circular. mas tendem à destruição. Fourman e Molodsov. o movimento circular e regressivo não são desenvolvimento. a ir ao encontro do menos perfeito. a uma única forma de movimento: o simples deslocamento dos corpos no espaço. dois ou mais átomos (enquanto sistemas estáveis que são). o repouso é o movimento em equilíbrio. qual é o sentido do movimento e o que aparece no lugar das formações materiais destruídas que desapareceram? Para a teoria do movimento circular.Em verdade. O movimento e o desenvolvimento Diante desses processos.000 anos. conduzindo à passagem do inferior ao superior. enquanto os metafísicos reduzem toda mudança.

A formação material está indissoluvelmente ligada ao meio. mas também seu isolamento. mas ao mesmo tempo separada (um organismo. A ligação é uma relação entre dois fenômenos quando a modificação de um supõe certa transformação do outro. não acarretam mudanças nesses últimos. trata-se. a correlação era compreendida como a passagem dos fenômenos uns nos outros. O fato é que em certos casos. Nesse sentido. está organicamente ligado à camada eletrônica. sua separação e relativa autonomia que pode assumir. ao mesmo tempo.174). assim. Nas teorias dos primeiros filósofos gregos. embora esteja. por exemplo.A idéia é equivocada. a correlação está em primeiro plano. mas pelo caráter progressivo das mudanças. Mas logo depois. isolamento e correlação dos fenômenos remontam ao nascimento da filosofia. afirmando que toda mudança não é desenvolvimento e que. ligados e isolados. contudo. Nesse núcleo produzem-se modificações que acarretam modificações na camada eletrônica e outras que não afetam a camada. O núcleo atômico. do menos perfeito ao mais perfeito. O isolamento (separação) é uma relação entre os fenômenos da realidade feita de tal forma que as mudanças de um deles não afetam os outros fenômenos. apesar dos aparentes retornos para traz termina por aparecer (p. sem confundir progresso e regressão. etc. Eis a unidade da ligação e da separação. pela passagem do inferior ao superior. é necessário dizer que nem tudo está totalmente correlacionado. mas sim o que representa a realidade em toda sua diversidade. as jazidas de carvão e de ferro. em correlação e interdependência determinadas. Esse é o caráter que os clássicos do marxismo tomaram como desenvolvimento.. portanto. mas também não está totalmente isolado. provocando mudanças mútuas e encontrando-se. separado dela (isolado). Exemplo: o movimento do corpo está organicamente ligado à sua massa. ao lado do desenvolvimento observamos movimentos circulares e mudanças regressivas. Mas. A especificidade do desenvolvimento é constituída não pela integridade. No mundo. Contudo. A relação não engloba apenas a simples ligação entre fenômenos. não coexistem de modo justaposto. a modificação de um não modifica o outro. (p. pois dialético não é o que vê o desenvolvimento onde ele não existe. não estão ligados entre si. mudança do inferior ao superior. A RELAÇÃO As diferentes formações materiais. 14 . o conceito de “relação” é mais abrangente que o de “ligação”. As idéias de separação.171). Vale ressaltar ainda. estão ligados sob certas relações e isolados sob outras. mas agem umas sobre as outras. O desenvolvimento é uma propriedade universal da matéria. que formações materiais que participam do movimento circular ou sofrem mudanças regressivas não perdem a capacidade de passar do inferior ao superior. ou seja. aquele que vê na massa das mudanças o que intervém no desenvolvimento – o movimento progressivo. Fenômenos como a natureza biológica do homem e a luta de classes. não estaremos pondo em dúvida a universalidade do desenvolvimento? Não. de uma capacidade que só aparece em condições adequadas. pois que a modificação do primeiro acarreta necessariamente modificação na segunda. o caráter lógico ou a espontaneidade das mudanças das formações materiais. sendo sistemas de movimento estáveis. por exemplo). enquanto em outros é o isolamento que está. todos os fenômenos estão ao mesmo tempo. Onde essas condições reúnem-se há NECESSARIAMENTE.

Muitos filósofos acreditavam que embora existissem objetivamente. eterno e imutável. Para Kant. mas sob suas premissas idealistas. de uma maneira ou de outra. mas também É um lobo. dando a ele um caráter geral e necessário. Nesse momento da história. Ex: O lobo é um animal. etc. mas divide-se em um conjunto de formações materiais particulares. Spinoza. Assim. Aristóteles e modernamente Newton. posto que É um animal. alguns deles apregoam inclusive. está. o espaço e o tempo são propriedades fundamentais da matéria. Locke. Kant voltaria a utilizar a categoria relação desenvolvendo-a. advém do subjetivo. a idéia de isolamento absoluto e negavam a correlação. 15 . portanto. estão. Ele foi o primeiro filosofo a guindar ao patamar de categoria o conceito de relação. deixou-se de lado o estudo do mundo em seu conjunto para o estudo das partes. organicamente e necessariamente ligados à matéria. é nada fora da sucessão de idéias no espírito. Os metafísicos (séc. destacando que a ligação e a separação são dois aspectos que estão em qualquer relação. de certa forma ligado aos animais. o espaço não é uma propriedade das coisas e nem existe em si mesmo. posteriormente. Do mesmo modo. mas também separado de todos os outros animais. superaria esse ponto de vista limitado. portanto. tal como um recipiente. Demócrito. existe não só sob a forma de massa totalmente homogênea. todas as categorias. o espaço e o tempo são propriedades fundamentais da matéria. Pensadores como Giordano Bruno. Espaço e tempo A matéria. É subjetivo. ao ligar-se ao particular “lobo”.). com sua teoria do espaço absoluto. por exemplo. Trata-se de um espaço imóvel. sem exceção. Já para o materialismo dialético. com outros objetos e formações materiais particulares que a rodeiam. que possui um movimento absoluto e um repouso relativo. Os idealistas negam a existência do tempo e do espaço. XV e XVI) postulavam por seu turno. Tais opiniões são expostas por Archytas de Tarente. tentaram ligar organicamente o espaço à matéria. Está ligado ao geral “animais”. Somente Aristóteles. Vale lembrar que em Kant. mas somente o materialismo dialético superaria as concepções metafísicas. A extensão das formações materiais particulares e a relação entre cada uma delas com as outras formações materiais que a rodeiam constitui o espaço. espaço e tempo poderiam existir independentemente da matéria. possui certa extensão e está em correlação.Empédocles e Anaxágoras vislumbraram a correlação como sendo junções e disjunções “mecânicas” de elementos invariáveis. enquanto parte do mundo material. dos objetos particulares e suas propriedades. com as coisas particulares movendo-se NO espaço. A duração da existência das formações materiais e a relação de cada uma delas com as formações anteriores e posteriores é o tempo. O tempo para Berkeley. O universo escreve Lênin. um dos pilares da mecânica newtoniana. Cada formação material particular. Hegel afirmava que tudo estava em relação. Locke e alguns materialistas pré-marxistas. Distinguiam-se os objetos uns dos outros e dissecavam-nos em partes sem conceber seus laços (Bacon. dizendo que a correlação é a interdependência das coisas. é apenas matéria em movimento e essa matéria em movimento só pode mover-se no espaço e no tempo. a inexistência do espaço e do tempo fora de nossas sensações.

Exemplo disso são os gases com atração molecular menor e os líquidos. seu ritmo. deslocando-nos paralelamente a eles. O SINGULAR. há o que se repete (o geral). justificando tal fato pela idéia de que tal como (supostos) seres de 2 dimensões não podem conceber uma terceira. determinado pelo movimento e pelo tempo. organicamente ligados à matéria. Esses três eixos são totalmente suficientes para que possamos. O tempo. Assim. mas somente por meio de formações materiais particulares (do particular). devemos destacar que são as propriedades e ligações que são próprias apenas a uma formação material dada e que não existem em outras formações materiais que constituem o singular. Ex: pela teoria da relatividade. Mesmo ao movimento mecânico. portanto. (pág. depende da densidade da substância desse ou daquele sistema e das forças de atração que agem entre os corpos dados: quanto mais a densidade da substância é elevada. A quarta dimensão justifica a idéia de Deus. Assim. Uma delas vai da esquerda para a direita. A discussão de quarta dimensão da física nada tema ver com isso. A distância é a medida do espaço. 184). o espaço também muda de uma forma de existência a outra. o singular e o geral não existem de maneira independente. o espaço é.. o espaço.. é por isso que cada formação material representa a unidade do singular e do geral.. aqui. A teoria da relatividade contribuiu para a ancoragem do espaço às formações materiais. em cada formação material. também estes não podem adentrar a 4. não está só organicamente ligado à matéria. atingir qualquer que seja o corpo e localizá-lo no espaço. pela velocidade.. mas também depende igualmente da matéria e não é o mesmo para todos os corpos.. está organicamente ligado à matéria. A representação das três dimensões do espaço é dada por três linhas perpendiculares uma a outra. Assim. no entanto. Exemplo disso é que a distância percorrida por um corpo em movimento uniforme é determinada pelo produto do tempo. O PARTICULAR E O GERAL Em primeiro lugar. com atração maior. atestando que as características espaciais dependem da divisão e do movimento das massas em atração. a velocidade. Destaca-se. depende dessa ou daquela forma de sua existência. o tempo e o espaço estão. tanto mais lentamente corre o tempo.Para o materialismo. assim como o espaço. tal como eventos sobrenaturais. A característica do espaço é a de ser tridimensional. conformando relações espaciais diferentes. e se o movimento é um atributo da matéria. a outra de cima para baixo e a terceira da frente para trás. Trata-se de uma forma particular do movimento da matéria. o decorrer do tempo. dependem. Se o espaço e o tempo estão ligados ao movimento. que a dependência do espaço e do tempo com relação à matéria. dependem das formas de seu movimento. propalarão a idéia de 4 dimensões. A determinação do espaço e do tempo pelas formas concretas de existência da matéria decorre do fato de que o espaço e o tempo estão ligados ao movimento. Filósofos idealistas como Zelner.. A correlação do singular e do geral no particular (na formação material) manifestase como correlação de aspectos únicos em seu gênero (singular) e aspectos que se repetem 16 . a medida do movimento. da densidade da matéria e de suas forças de atração (campos de gravidade). passando por um único e mesmo ponto no espaço. ao lado do singular (do que não se repete).

ele as une. propriedades de outras formações materiais (nas quais pode se transformar). em verdade. do todo (do particular enquanto todo) e da parte (do aspecto geral enquanto parte que compõe a formação material). a unidade do que a identifica a outras formações materiais. 17 . pois. Assim. O geral e o particular Se analisarmos o “singular” e o “geral” de um objeto. um fenômeno único. que o que é singular pode se tornar geral. com a RDA ou mesmo com a Hungria. mas. devemos confrontar o geral ao particular e não o geral ao singular que está num objeto dado. assim como a unidade do que a distingue. onde a ditadura do proletariado afirma-se sob a forma de República dos Sovietes” (p. Mas quando ele encarna o geral. conteúdo. Assim. de que a ditadura do proletariado na Bulgária existe sob a forma de democracia popular constitui o geral se compararmos esse país com a Polônia. desempenha o papel de particular. Que nos permite ver o geral no particular.) a todas as formações materiais que não podem distinguí-las umas das outras. O singular pode então representar aspectos gerais (o geral). Contudo. O singular pode desempenhar seu papel de caracterizar o singular de uma formação material. etc. temos que todo o particular (formação material) entra de modo incompleto no geral. É por isso que cada formação material representa a unidade do geral e do particular. esse mesmo fato tornar-se-á o particular. isto é. Mas se o que se quer é evidenciar é a semelhança e a diferença entre objetos. sendo próprio apenas a uma formação material dada. singular. determinada formação material pode se transformar em outra. não pode distinguí-las. e este. mas não é todo geral que é capaz de fazê-lo. o geral não pode assumir o papel de “particularizador”. já que possui também aspectos singulares. isto é. Esse potencial é um dos aspectos gerais. em potencial. em condições adequadas. o que evidenciaremos são as propriedades e ligações únicas a esse objeto e as que se repetem em outros (geral). as formações materiais. representará sempre o particular para a URSS e marcará a diferença entre ela e qualquer outro país. forma. por exemplo. quando as distingue das outras. tal como a instauração do poder dos Sovietes.nesse ou naquele grupo de outras formações materiais (gerais). ele a distingue de qualquer outra formação material. Para desempenhar a função de particular. Mas. O singular apresenta-se sempre como particular. o geral deve poder distinguir as formações materiais umas das outras. pela primeira vez na URSS. pois há propriedades e ligações comuns (causa. o regime da democracia popular distinguindo então a Bulgária da URSS. e. “O fato. quando se pensa na correlação do particular e do geral. Isto equivale a dizer que nenhuma formação material pode “diluir-se plenamente no geral”. 197). alinham em semelhança os objetos. quando os aspectos singulares. Vale destacar. isto é. Abarcando todas as formações materiais. se compararmos a Bulgária com a URSS. únicos. cada particular (cada formação material) possui. ao mesmo tempo.

“refletida” mediante a interação entre os átomos. o geral (os traços gerais que aqui discutimos) que existe em formações materiais em estágios de desenvolvimento diferentes. 18 . porque esses traços se modificam e só se mantém modificadamente. a partir desses traços gerais apenas. etc. as mesmas decerto (elétrons. O que distingue uma coisa de outra ou mostra sua semelhança é uma propriedade. Exprimem. Deste modo. apenas a existência da continuidade de uma formação material a outra. mas estas são reflexos.A Correlação do Geral e do Particular no Momento do Movimento da Matéria do Inferior para o Superior (p. o diferencial adquirido em seu desenvolvimento. Há. A forma superior do movimento da matéria encerra em si a forma inferior. Do inferior ao superior guardam-se características. É por isso que é difícil. O fato é que no átomo as interações ocorrem no próprio átomo. mas através de suas particularidades (Ex: não se compara o Estado capitalista com o Estado socialista por seus aspectos gerais. ainda que anulada. Esses traços deixam de lado o que foi ganho pela formação material na sua evolução. (No caso do caminho percorrido de um átomo até um organismo. de forma anulada. o que foi adquirido no desenvolvimento. pois são traços refletidos nas categorias através da especificidade das novas características adquiridas pelas novas formas superiores de movimento. enquanto que na molécula ela ocorre indiretamente. A QUALIDADE E A QUANTIDADE Conceitos de Qualidade e Quantidade.). nas formações materiais superiores. Ambos possuem partículas elementares. mais complexo do que a molécula) a manifestação “refletida” deste traço será mais modificada ainda. 199). Há diversas propriedades que podem representar aspectos qualitativos ou quantitativos. com o geral constituindo a essência. mas sim pelos aspectos particulares adquiridos ao longo do desenvolvimento). portanto. exprimir a essência das formações materiais. portanto. Contudo. Manifestam-se diferentemente a posteriori. não demonstra a essência dessas formações. A molécula contém átomos. a comparação entre elas não deve se dar mediante esse geral. essas duas formações possuem traços comuns. Já a correlação entre o geral e o particular nas formações materiais que pertencem a um único e mesmo estágio do desenvolvimento apresenta um aspecto algo diferente. traços gerais a ambos os movimentos. portanto. ânions. ou seja. são traços comuns diferentes daqueles que existem em formações materiais que estão na mesma etapa de desenvolvimento. isto é.

às coisas. Decerto. pelo contrário. Ao sair do limite da medida. em certas condições e relações que estabelece. podem ter qualidade e quantidade. não impede que esta coisa seja considerada a partir da qualidade dessas propriedades não-essenciais. não a distingue devidamente. O determinismo interno de uma coisa deve compreender suas qualidades. Daí que a qualidade e a quantidade sejam próprias. não se comportam caoticamente. manifestar todas as suas propriedades. não consegue definir a qualidade. A quantidade de sal que a água pode dissolver representa sua quantidade. assim como seus aspectos quantitativos. reflete a semelhança (geral) e a diferença (particular e singular). tanto qualidade quanto quantidade refletem tanto a semelhança quanto a diferença nas formações materiais. Mais exato é definir a qualidade como o conjunto das propriedades que indicam o que uma coisa dada representa e a quantidade como o conjunto das propriedades que exprimem suas dimensões. em todas as condições. Portanto. pelo resultado de certas mudanças quantitativas que levam a mudanças qualitativas. se a qualidade de uma coisa é um conjunto de propriedades. mostram-se “ligadas”.. a matéria se desenvolve pelo desatamento ininterrupto de “nós” e criação de outros. decorrente das mudanças quantitativas. respectivamente. não é passiva com relação a esses aspectos quantitativos que a determinaram. Cabe à categoria de particular e de singular. nem a quantidade podem ser unicamente atreladas à essência ou ao fenômeno. isto é.. representam uma qualidade. devido às diferentes relações que a coisa estabelece. ela manifestará apenas algumas de suas propriedades. Isso. sua grandeza. A qualidade nova. em interdependência processual. e mais. As mudanças qualitativas aparecem apenas no momento em que as mudanças quantitativas saem dos limites de uma medida dada. refletir a diferença nas coisas e não a de quantidade. mesmo algumas propriedades de uma coisa (processos pelos quais a coisa passa). Trata-se de uma “via de mão dupla”. A dissolução e o que ela representa. Contudo. propriedades essenciais. ou seja. pois nem a qualidade. que é também a passagem de uma medida a outra foi categorizada por Hegel como o “nó” de uma “linha nodal de transformação”. ao contrário. a coisa não pode. representa tanto o singular (que não se repete) como o geral (o que se repete). mas algo que assemelha uma coisa com outra. Apesar disso. suas características de modo abrangente. Contudo. vide o caso da água: uma de suas propriedades é dissolver o sal. a idéia de determinismo interno não é capaz de distinguir a categoria de qualidade da de essência e de conteúdo. Embora defendida por muitos autores. A passagem de um estado qualitativo a outro. Igualmente. a resposta seria: uma só qualidade. mais detidamente. O fato é que. do mesmo modo que o reflexo da semelhança é conteúdo da categoria do geral e não da quantidade. essas propriedades podem não ter nada a ver com sua qualidade particular e fundamental. Também não é exato definir qualidade como propriedade fundamental. pois a qualidade não é apenas aquilo que distingue uma coisa de outra. uma vez que estas duas últimas também refletem o determinismo interno da coisa. todavia.Tanto a categoria qualidade como quantidade. Assim. na qual essa qualidade nova influencia também os aspectos quantitativos que a 19 . a definição de qualidade como determinismo interno da coisa não coloca em evidência o conteúdo da categoria considerada. a coisa representa isso ou aquilo. É o caso do gelo quando atinge 0 grau: inicia a passagem para a água. Uma pergunta recorrente entre os pensadores soviéticos indaga se uma coisa possui uma ou várias qualidades. deflagrando em uma nova medida.

dissimuladas e contínuas. as mudanças qualitativas. Não obstante. é o último no conhecimento e vice-versa. mas o salto que faz mudar a qualidade fundamental transtorna a essência da formação material (forma revolucionária de salto). o desenvolvimento do conhecimento segue as mesmas leis do desenvolvimento do mundo objetivo. gerando uma nova essência. Ex: uma interação peculiar das moléculas que caracterizam o estado gasoso da água (a nova qualidade “gasosa” da água) condiciona o volume da água (aspecto quantitativo). Salto. somos. O salto mediante acumulação gradual é mais lento. adquirem especificidade em cada domínio da realidade objetiva: na natureza a revolução é um salto que destrói o antigo fundamento qualitativo (essência). mas pela profundidade da transformação. a revolução será a passagem que engendra formações (formações econômicas e sociais) mais perfeitas 20 . às vezes. a passagem do capitalismo pré-monopolista ao capitalismo monopolista exemplifica a evolução. já o salto não-fundamental determina mudanças apenas no quadro de sua essência. Aristóteles já havia revelado esse fenômeno indicando que o primeiro. A passagem direta de uma formação sócio-econômica a outra é um exemplo de revolução. constituindo uma ruptura. ao contrário. evidentes. Mas isso não quer dizer que as mudanças qualitativas não são conseqüência de mudanças quantitativas. esta “inversão” não quer dizer que haja uma disjunção entre o conhecimento e a realidade objetiva. à tomada de consciência da quantidade. isto é. o primeiro no conhecimento é o último na realidade. (pág. pela destruição radical da essência que a revolução proporciona. No conhecimento. seus aspectos e ligações (Ex: revolução armada. A mudança da qualidade fundamental e não-fundamental da coisa produz-se sob a forma de saltos. para a apreensão e investigação da realidade. Embora os conceitos de evolução e revolução sejam universais. O salto é o processo de passagem de uma coisa de um estado qualitativo a outro mediante uma ruptura de continuidade. com a transformação da qualidade se dando aos poucos.determinaram. O salto-ruptura se dá brutalmente e afeta toda a qualidade em seu conjunto. na sociedade. vamos da análise da qualidade à quantidade das formações materiais (do efeito à causa). obrigados a ir em sentido contrário ao da realidade. etc. No conhecimento. sendo denominadas de saltos. o homem foi historicamente do conhecimento da qualidade à colocação em evidência.). 215). lentas e progressivas. A afirmação de que a qualidade precede logicamente a quantidade é correta. habitualmente. Tipos de saltos Mudanças qualitativas são. mas justifica a existência de leis que são próprias apenas ao conhecimento. enquanto no conhecimento. são bruscas. Há dois tipos de saltos: o de ruptura e do de acumulação gradual de elementos da nova qualidade e enfraquecimento da antiga. Na realidade objetiva o processo se dá das mudanças quantitativas às mudanças qualitativas (da causa ao efeito). Revolução e evolução distinguem-se não pela forma como se dá a mudança. na realidade. sem transformá-la (forma evolucionista de salto).

podendo ser contingentes do ponto de vista da capacidade humana de apreender a realidade.). Mas com o passar do tempo. agrupa esses fatores em 4 tipos de causa: 1. Para os pré-marxistas. (Lênin apud Cheptulin p.. Inicialmente. 221) O cientista e o planejador que intervém sobre a matéria. É preciso que sustentemos qualquer melhoria. a formal. correspondente às condições concretas dadas na realidade objetiva. em geral.(complexas). O exemplo dado por Aristóteles é o da construção de uma casa. e 4. representa a mudança qualitativa no quadro da essência da formação social.. Lênin apregoava em suas teses. 2. a material. Com relação a isso. A evolução. ele passa a aceitar a idéia de passagem pacífica do proletariado ao poder (também havia se modificado a composição dos sovietes. A CAUSA E O EFEITO (p. que. a dualidade de poder . Em Platão.224) A evolução dos conceitos de causalidade na filosofia pré-marxista. Seria absolutamente falso pensar que. a idéia de causa ainda não se distinguia do apeiron e consecutivamente. Não é isso absolutamente. 3. trata-se do reformismo. já que as condições socioeconômicas sob o capitalismo mudaram. Aristóteles por seu turno. nos diz Lênin que: A ciência histórica nos diz que o que distingue uma mudança reformista de uma mudança não-reformista em um regime político dado é. a impossibilidade de passagem ao socialismo por via pacífica. a finalista. ar (Anaxímenes) e de fogo (Heráclito). R. mas após fevereiro de 1917 na Rússia. a causa seria o fator de gênese das coisas particulares. e que. para lutar diretamente em favor da revolução socialista. Nestas condições. possamos ou devamos abandonar a luta pelas reformas. aplicada à sociedade. a contra-revolução representa a passagem de uma formação mais perfeita a uma menos perfeita. Neste sentido. o 21 . devendo ter em conta que estas condições concretas mudam independentemente da vontade humana. o plano o elemento formal. O próprio Lênin viu-se obrigado a mudar suas considerações devido a forças conjunturais. o poder permanece nas mãos da antiga classe dominante. os mencheviques tornaram-se meros valetes da burguesia. a produtiva . no primeiro caso. toda melhoria real da situação econômica e política das massas. no segundo caso. na qual vira-se frágil a burguesia russa. o poder passa das mãos desta classe para uma nova (. a dualidade de poder termina e todo o poder vai para a burguesia. Posteriormente. na qual o material de construção é a causa. excluindo os mencheviques e os S. Nós não podemos saber em quanto tempo alcançaremos o sucesso e em que momento condições objetivas permitirão o acontecimento dessa revolução. assume a forma de água (Thales). devem escolher a melhor forma de salto. as teses sobre a revolução armada passariam por revisões durante os Congressos do PCUS.s de direita). com cada coisa particular aparecendo devido à interação do não-ser (matéria) com o limite (categoria platônica que expressa a limitação matemática). só a revolução armada resolveria. etc.

à essência. mas igualmente. Em verdade. Uma interação dialética. da essência com o fenômeno.elemento produtivo o trabalho do arquiteto e a causa finalista o objetivo alcançado. dessa maneira. posto que ao desvendá-la. Foi precisamente assim que os fundadores do materialismo dialético e. por sua vez. Engels. O materialismo dialético não nega a ação exterior (de corpos sobre outros corpos) e sua capacidade transformadora (de transformar fenômenos submetidos à ação). pois reduz a causa do fenômeno unicamente a acontecimentos externos (o fenômeno expressa o externo. de substância passiva ela transforma-se em substância ativa e começa a interferir em relação à primeira substância ativa como alguma coisa de inicial. “Na concepção hegeliana. como a interação de elementos ou aspectos de um mesmo corpo acarretando certas mudanças nos corpos. Assim. o qual propôs uma solução dialética.. A concepção marxista da causalidade A definição pré-marxista da causalidade. 22 . como causa” (p. à superfície da formação material). bem como à correlação do interno com o externo. sendo uma substância ativa. aos aspectos internos e necessários.. Assim: “Parece-nos mais correto definir a causa como a interação de dois ou mais corpos. o conhecimento de sua interação é basilar. elementos e aspectos agindo uns sobre os outros. para se conhecer um fenômeno. ou ainda. ' p. age sobre a substância passiva e acarreta nessa certas mudanças que produzem nela um efeito. A concepção metafísica de que cada fenômeno que desempenha o papel de causa e efeito tem. 231. 228).) A ação recíproca é a verdadeira causa finalis das coisas. o laço de causa e efeito não se reduz ao domínio dos fenômenos. neste caso. reduzir os laços de causa e efeito às ligações exteriores é reluzi-los às ligações dos aspectos e propriedades exteriores. em particular. isto é. sua causa em outros fenômenos foi recusada por Hegel. em decorrência de sua interação. a causa. a filosofia da Idade média encontrou sustentabilidade para a criação divina do mundo. mas aprofunda tais idéias. Utilizando a teoria do Estagirita. É mediante a interação que a causa e o efeito assim “passam um pelo outro” e mudam de lugar. desvendamos a causa. agindo uns sobre os outros e o efeito como as mudanças surgidas nos corpos. destacando a capacidade de cada fenômeno em conter em seu imo a causalidade. A substância passiva exerce uma ação de retorno e anula. assim. o efeito e a natureza dos dois fenômenos e elementos que interagem. definiram a causa: '(. elementos ou aspectos. na qual causa e efeito estão em interação. a ação da substância ativa e. ao concebê-la como fenômeno (causa como fenômeno) que condiciona outro (efeito) é insuficiente. Assim.

nos elementos e nos aspectos em interações. assim como ao aparecimento de novos fenômenos e à passagem de um estado qualitativo a outro.). “ O materialismo dialético não entende por causa o objeto. por efeito. a mudança do sistema social e de estado e a passagem da sociedade de uma formação sócio-econômica a uma outra. o que dá a entender que ocorrem mudanças na trajetória. a qual demonstra que o laço de causa (elétrons idênticos em movimento) e o efeito (impacto no écran) não é necessário. nem com o mesmo meio na escala atômica. Causalidade e Necessidade Mesmo os fenômenos contingentes têm causas que os produzem. O fato de os elétrons terminarem em pontos diversos do écran não exclui o caráter necessário do laço de causa e efeito: embora os elétrons estejam em interação com um mesmo objeto (o diafragma com as fendas). a interação das classes antagônicas condiciona o aparecimento do Estado. Do mesmo modo. a coisa. das coisas ou dos elementos e dos aspectos que formam o objeto. Uma mesma interação. Há uma interação necessária entre causa e efeito. não seguem. portanto uma trajetória balística. Mas uma vez ocorrido. a interação ganha caráter necessário. físicos como Mário Bunge persistiram na idéia de que o laço de causa e efeito é contingente. mas ao entrarem. a causa da incandescência do filamento de uma lâmpada não é a corrente elétrica em si. a levar em conta a retroação do segundo corpo sobre o primeiro. Bunge está incorreto em sua dedução. A destruição das sementes pelo granizo é reconhecida como contingente porque o granizo em determinada época do ano é o resultado do acaso. O efeito nada mais é do que a mudança surgida a partir da interação. Isto quer dizer que os fenômenos podem ou não entrar em interação (contingente). Mas o laço de causa (interação do elétron com o ambiente) e efeito (queda em um ponto do écran) é necessário. e.A interação conduz assim à transformação dos corpos ou aspectos em interação. 23 .. foram obrigados. Daí as causas e os efeitos não corresponderem a princípio. essas interações não são idênticas. uma vez que cada elétron não está em interação nem com o mesmo objeto. para o materialismo dialético. pois as mesma causa e as mesmas condições. mas a interação dos objetos. que apresentam a idéia de causa como ação mecânica de um corpo sobre outro. ou em fenômenos necessários (cuja existência é imperiosa). seja em fenômenos contingentes (que podem ou não vir a existir).. Mesmo os partidários do materialismo mecanicista. mas a ligação desses fenômenos (efeitos) com as causas que os engendraram não são contingentes. baseando-se na experiência da difração de elétrons através da dupla fenda*. quando da elaboração de sua teoria da causalidade. as mudanças surgidas nos corpos. não acarreta mudanças diferentes. mas a interação da corrente elétrica com a substância da qual é feito o filamento. neste caso especial. a coisa. Contudo. em condições apropriadas. Por exemplo. a interação do gelo com os organismos vegetais (causa) condiciona NECESSARIAMENTE a destruição destes organismos. acarretam efeitos diversos (os elétrons impactam o écran em pontos diferentes. mas apenas idênticas”. No entanto.

necessariamente darão realidade ao que era apenas possibilidade. É mediante estes princípios da dialética materialista que o homem. se todo fenômeno está ligado a uma causa genitora. Alguns autores identificam as categorias de “necessidade” e de “contingente” às categorias de geral e de singular. O geral. Assim. mas a idéia segundo a qual a necessidade existe apenas como possibilidade é falsa. O singular é único. A causa do aparecimento do necessário está nele mesmo. os fenômenos. podem ou não entrar em interação. já dissemos ser algo que pode vir a ser ou não. congregando certos fatores com um objetivo futuro. a potencialidade para uma gama de efeitos diversos. que passa a existir ou não. Quanto à contingência. com mudança qualitativa única (tornando assim algo singular. planejar. o contingente também não é idêntico ao singular. único). Alguns filósofos confundem a categoria de contingência com a de possibilidade. Enquanto isso. determinado por leis internas (essência) é necessário. Isso não exclui o caráter necessário do laço interacional de causa e efeito. há várias definições diferentes das categorias de necessário e de contingente. expressa aquilo que acontecerá uma vez satisfeitas as pré-condições de sua existência. O que liga a possibilidade à realidade são estas pré-condições. mas igualmente na realidade. há em cada objeto. Contudo. O NECESSÁRIO E O CONTINGENTE Os conceitos de Necessidade e de Contingência Na filosofia antiga. ele pode ser contingente (pode existir em determinadas gotas. mas não noutras). Do mesmo modo que o geral não é idêntico ao necessário. o singular pode ser o efeito da interação de aspectos internos da formação material. ao longo de sua história pôde organizar a produção.) nega a existência do acaso. o contingente pode se repetir e é condicionado por circunstâncias exteriores. necessária não só para os átomos que surgirão. mas não é todo geral que é necessário (Ex: o sal em várias gotas d’água como geral). reunidas. em verdade. Ademais. necessário e contingente estão ligados à causalidade e expressam o grau seguinte do aprofundamento humano do conhecimento da realidade.Assim. os corpos. Há várias causas. ao menos durante certo tempo. A presença de oito prótons no núcleo atômico do oxigênio e de um próton no átomo de hidrogênio é inevitável. uma mudança). isto é. A possibilidade. mas para aqueles que existem. não estamos colocando em dúvida o contingente? É com base nesse argumento que o materialismo metafísico (positivismo. Eis seu caráter contingente. não podem ser. pois os aspectos e as ligações necessárias existem não somente na possibilidade. o reconhecimento da interação entre causa e efeito como necessária (necessariamente engendra um efeito. (p. que deflagram em grande quantidade de efeitos. a do contingente está em eventos exteriores. A crítica das concepções idealistas e metafísicas da correlação da necessidade e da contingência. as coisas. pois os elementos. as quais. não são a própria causa. mas isso não significa que todos esses efeitos advirão de uma mesma causa.246) 24 . Mas. O corpo não é a interação. não conduz à negação da contingência. etc.

é necessário: isso é necessariamente condicionado pelo modo de produção dominante na sociedade capitalista e pela situação econômica do proletariado e da burguesia. É bem verdade. mas que são condicionados por circunstâncias exteriores. os materialistas reconhecem a existência objetiva da necessidade e consideram-na como uma das propriedades fundamentais da natureza. ao longo da qual. Por exemplo. A interação das formações materiais ou de seus elementos. exprimindo-a como uma tendência. mas como o necessário se manifesta mediante muitos desvios contingentes. pois todo fenômeno estaria ligado a sua causa. Materialistas prémarxistas como Demócrito. Mas o necessário e o contingente estão ligados e tem relação. igualmente. quanto necessária. nem devido a um concurso de circunstâncias exteriores. Spinoza dizia que os homens chamavam de contingente aquilo que não dominavam. o fato de que o operário venda ao empregador sua força de trabalho e de que este seja explorado pelo último não é nem contingente. com a necessidade sendo apenas um postulado. introduzem no processo o fenômeno concreto. Para Theimer. Para negar a contingência. atribuindo a tudo uma causa necessariamente ligada a um efeito. assim não haveria fenômenos contingentes. de seus aspectos. um ponto de partida. Outros autores negam a existência da categoria necessidade na natureza.. isto é. negaram a existência da necessidade. Contrariamente aos idealistas. pode tanto ser contingente. em razão de sua natureza específica. as contingências agem na história e excluem o determinismo. negavam totalmente a existência objetiva da contingência. como sendo apenas “um complô” de contingências. que é determinada por esse modo de produção. podendo ter aspectos e ligações internas que determinam sua natureza (necessário) e outras que são externas e que ligam a formação material ao mundo exterior contingentemente. na sociedade capitalista. Esta ligação necessária (entre causa e efeito) é factível. é um fenômeno contingente. e uma grande quantidade de novos elementos que não decorrem da necessidade. Idealistas subjetivos como Santayana. As causas. A necessidade cria seu caminho por meio de uma massa de desvios contingentes que. o homem não poderia explicar nenhum fenômeno real. é preciso estudar o contingente e por meio dele 25 . outros criaram concepções idealistas da necessidade. A necessidade e a contingência não existem de forma separada. apenas as contingências existem e para Walter Theimer. diversas soluções foram apresentadas. mas pertencem ao mesmo fenômeno. recorria-se ao princípio da causalidade (causa e efeito). pela própria natureza dos aspectos em interação. Spinoza e Holbach. isto é.O problema da necessidade e da contingência foi objeto de estudos ao longo de toda a história da Filosofia. Por tais concepções. mas divergem entre si com relação à existência objetiva da contingência. assim como a necessidade. mas isso não quer dizer que as causas sejam necessárias. e não com outros. contudo. Também para Wittgenstein. mas que na verdade nada teria a ver com a realidade.. que devemos nos orientar pelas propriedades e ligações necessárias. e o fato de que o operário trabalhe justamente para esse capitalista e justamente com esses operários. tudo depende das vontades subjetivas das pessoas. devido a um concurso de circunstâncias. podem ser contingentes.

uma ligação própria a vários fenômenos. as leis da mecânica quântica. mas há leis gerais e particulares que concernem a ligações diferentes.. Vale destacar que uma mesma lei pode ser geral ou particular. As leis universais são estudadas pela filosofia. agindo apenas nas novas formações materiais (grau superior do desenvolvimento). ao lado das antigas leis que agiam nas formações materiais dos estágios inferiores de desenvolvimento. relações. em geral. sendo aquilo que se manifesta necessariamente. muito embora nem todas as ligações necessárias sejam leis. que passaram para as novas formações materiais graças à sobrevivência de antigas relações e ligações. o contingente torna-se necessário e o necessário contingente. agem também nas formações materiais de todos os estágios inferiores de desenvolvimento. pois entra em interação com outras formações materiais. próprias a quaisquer domínios da realidade. sendo a troca um fenômeno eventual e contingente. que são mais gerais. A lei existirá até que tenha se dissipado o movimento da matéria ou do pensamento do qual faz parte. tal como as próprias categorias de geral e de particular o são. leis específicas novas também entram em jogo. a permuta de produtos acentuou-se e as trocas tornaram-se necessárias. Mas com o desenvolvimento das forças produtivas e a geração do excedente. Contudo. 26 . As leis. A contingência é uma forma de manifestação da necessidade. dependendo das condições. para além destas. todas as outras são particulares. exemplo disso é a lei dialética da passagem da qualidade para a quantidade. há também as chamadas leis universais. manifestam-se como ligações. As novas leis são específicas em relação às antigas leis. em relação elas. enquanto que as antigas leis. enquanto as particulares o são pelas ciências particulares. tudo o que era produzido era consumido na comunidade.apreender as tendências necessárias. nas condições apropriadas. sendo tal fato visível na própria sociedade: no comunismo primitivo. que só pode agir por meio de fenômenos concretos. Pelo fato de que. como por exemplo. Estas são as premissas da relação entre as leis gerais e especificas nas ciências particulares. nem prever o desfecho de seu movimento. pois há leis que atuam somente em cada formação material (leis dinâmicas) podendo prever o surgimento de fenômenos e seus estados futuros. com o nascimento de novas ligações e relações específicas. mas também um complemento a ela. Leis gerais podem se manifestar pelas particulares quando ambas são concernentes às mesmas relações. agindo então uma ao lado da outra e não mediante a outra.. provêm de outras formações. A LEI A lei representa uma ligação necessária geral. aquelas que sob quaisquer relações ou circunstâncias são gerais. No desenvolvimento da formação material. relações e ligações novas aparecem nas novas formações materiais. da qual não podemos definir o movimento de cada partícula. já outras atuam na massa dos fenômenos (leis estatísticas). mas a forma de manifestação varia. As novas leis não podem ser uma forma de manifestação das antigas. quando da passagem da matéria de um estágio de desenvolvimento a outro. isto é. a não ser mediante probabilidades. mas e quanto à correlação entre as leis da dialética e as leis das ciências particulares? As leis da dialética são universais e só se manifestam por meio de outras leis que são particulares em relação a elas. mas.

é o conteúdo. processos que se dão no seu interior. Específico da categoria “forma” é refletir o laço entre os elementos. O CONTEÚDO E A FORMA Para definir o conteúdo. particulares que regem o dado processo. gerando uma nova. É o momento no qual a forma deixa de corresponder ao conteúdo e o conteúdo novo destrói a antiga forma. reflete-se na categoria de “fenômeno”. trata-se da estrutura do conteúdo e. representando sempre o individual. intensificando seu desenvolvimento ou refreando-o. isto é. Passa-se a outro nível qualitativo pela destruição da antiga forma. Não obstante. Esse movimento permanente. as leis da dialética só se manifestem mediante leis específicas no concreto. elas possuem um conteúdo concreto: tudo aquilo que se repete. assim. No objeto. sendo que trata-se de algo processual. mas posteriormente. portanto. instável. O interior é o necessário na coisa e se manifesta por desvios contingentes. um do outro. sendo que nos objetos não há nada que não se relacione ao conteúdo e a sua forma. com aspectos e elementos em interação constante. mas a forma não é passiva. ELEMENTO E ESTRUTURA 27 . mas também aqueles que este estabelece com o exterior. incluindo em si o geral e o singular. dão-se no quadro da mesma. a unidade do necessário e do contingente. No conteúdo de uma formação material. refletindo-se na categoria de “essência”. De início. exatamente nas leis e processos particulares de que tratamos. PARTE E TODO. ligando-se.o conhecimento desta ou daquela lei da dialética é insuficiente para orientar esse ou aquele processo concreto. antes. o que significa que ela permanece estável por um tempo relativamente maior. do mesmo modo que tanto no interior como no exterior da coisa há conteúdo e forma. A essência é o necessário na coisa. as mudanças do conteúdo (mais constantes e contínuas) não ameaçam a forma. de uma nova forma e um novo conteúdo que se manifesta na formação material. o contingente. o que é estável. portanto. dependem. o conteúdo determina a forma e mudanças no conteúdo. sendo o papel determinante dado pelo conteúdo. representando o geral na coisa. tanto o fundamental quanto o não-fundamental possuem um conteúdo e uma forma. é o conteúdo das leis da dialética. remete tanto à essência quanto ao fenômeno. já que nada está em perfeito isolamento no mundo. acarretam mudanças nas formas. ou seja. devemos transcender a idéia de que se trata de simples conjunto de elementos e aspectos desprovidos de vitalidade que constituem uma coisa. Trata-se. enquanto estes próprios desvios contingentes. portanto. enquanto que a essência é o que permanece na coisa. entram assim. ela reage sobre o conteúdo. há um ponto em que a forma começa a entravar o desenvolvimento do conteúdo. representando assim. que corresponde à transformação qualitativa radical do conteúdo. A forma também é um sistema relativamente estável de ligações de elementos do conteúdo. sendo necessário conhecer as leis específicas. Toda forma está organicamente ligada ao conteúdo. ao repouso relativo. A especificidade da categoria de “conteúdo” é a de refletir o conjunto de processos da coisa.

imutável não. que forma o todo e torna-se sua estrutura. fenômeno. O conceito de elemento designa os componentes do todo que se encontram entre eles em uma certa correlação e interdependência. A essência se manifesta mediante as interações do objeto em questão com outros objetos. mas o aspecto interior da coisa não é só a essência. por sua vez. O mesmo se dá com a parte. já as leis da correlação das partes entre elas mesmas. o fenômeno representa aspectos exteriores e que mudam constantemente. para diferenciá-la destas outras categorias. mais extenso do que o conceito de elemento. possuindo uma natureza e uma essência próprias. A correlação desses ou daqueles objetos. relação) que entra na composição de um outro objeto (processo. mas as próprias correlações entre os elementos. fenômeno. Mas onde está a diferença entre o elemento e a parte? Os elementos manifestam seu conteúdo específico na relação com a estrutura. influenciarão o primeiro com modificações em seu conteúdo. mas na relação delas com o todo. mas também os nãofundamentais. é também a causa. Teve-se ter em conta que sem estrutura não há todo. enquanto que o fenômeno é definido como o aspecto exterior. pois os fenômenos nunca nos fornecem o conhecimento verdadeiro da essência. mutável. Já o conteúdo das partes manifesta-se não nas relações que elas estabelecem entre si. tendo uma essência especifica.As leis da correlação das partes isoladas com o todo refletem-se nas categorias de “parte” e de “todo”. Já o fenômeno. nunca pode ser como a essência. no máximo exprimindo sua essência. transforma simultaneamente em partes do todo e em elementos da estrutura correspondente. do objeto. O conceito de parte é. mas também as leis da correlação dos elementos do conteúdo entre eles. as leis da correlação do conteúdo e da forma. inclusive deformá-la. não se confundem com essas ligações. fenômeno). A estrutura é a concretização da categoria de forma. As partes do todo não são somente os elementos que se encontram em uma certa correlação. A essência contém não apenas os aspectos fundamentais (categoria de fundamento). sistemas de ligações que entre eles se estabelecem. enquanto que a essência representa aquilo que é estável. A parte é o objeto (processo. Mas a essência também faz parte do conteúdo do 28 . A ESSÊNCIA E O FENÔMENO A essência está no interior da coisa. mas os elementos distinguem-se. Entretanto. a necessidade e a lei. sendo o desmembramento da formação material em partes uma condição necessária de sua existência enquanto todo. relação) e que se manifesta na qualidade de momento de seu conteúdo. possuindo propriedades que não se reduzem às propriedades das partes que o constituem. portanto. Estes outros. fatos que tornam necessária uma melhor qualificação da essência. Estável sim. O todo representa o objeto (processo. isto é. uma vez que esta designa a forma da união e da correlação dos elementos do todo. ademais. (mas não coincidindo com ela) e podendo. a estrutura. os conceitos de elemento e de parte não são idênticos. refletem-se nas categorias de “elemento” e “estrutura”. Um objeto torna-se elemento somente depois de sua entrada em uma ligação correspondente que forma um todo. Cada formação material representa um todo constituído de partes bem definidas. mas não exprime apenas a correlação. enquanto que a correlação de suas partes com o todo é uma condição necessária de sua existência enquanto partes.

na qualidade de fundamento dos fenômenos elétricos. o qual advém da contradição. a princípio do fundamento único “eletricidade”. a partir do fundamento. como fundamentado. a eletricidade encontrada no âmbar era o fundamento dos fenômenos elétricos (identidade total entre fundamento e fundamentado). da unidade e “luta” dos contrários. Exemplo de certa modificação da essência é a passagem do capitalismo pré-monopolista para o imperialismo. etc. Para que seja possível extrair. isto é. A LEI DA UNIDADE E DA LUTA DOS CONTRÁRIOS (p. eleva a temperatura do objeto. por exemplo: a eletricidade desprende centelhas. O fundamento é aquilo sobre o que se apóia um dado domínio do ser (e então o fundamento é a razão de ser). pois parte do conteúdo do fundamentado advém de circunstancias externas.. outros fundamentos foram sendo encontrados no mesmo fundamentado (o fenômeno elétrico. Um exemplo prático para se entender o movimento do conhecimento. ou seja. o que cria condições para o sujeito conhecedor do objeto. uma teoria ou conjunto de conhecimentos. É como dizer que. há diferenças. mais aprofundado (fundamento completo). o fundamento é igual ao fundamentado. é o que é determinante no interior da essência. escolher arbitrariamente uns e ignorar outros. 1 29 . O resultado disso é que o fundamentado possui grande quantidade de fundamentos reais opostos entre si. contudo. aquilo que é expresso pelo fundamentado já seria suficiente para a descrição dos aspectos determinantes. o interior do todo estudado. mas com o passar do tempo. ao lado dos aspectos exteriores e cambiantes. que vai do fundamento formal. os aspectos e ligações necessários da essência do objeto. é o momento mais profundo de sua essência. o fundamentado é a “força elétrica”. Embora haja identidade entre o fundamento e o fundamentado.. como já fora dito por Hegel. É a partir do fundamento real que podemos explicar e destacar o fundamentado. é necessário compreender o surgimento e o desenvolvimento do fundamento. até chegar ao fundamento completo é o desenvolvimento do conhecimento a respeito dos fenômenos elétricos. O FUNDAMENTO E O FUNDAMENTADO Por fundamento1 deve ser entendida a relação determinante. É por isso que o fundamento formal está ligado aos graus iniciais do desenvolvimento do conhecimento.fenômeno. enquanto o fundamentado é aquilo que foi determinado. há certo tautologismo.). passando assim a um novo fundamento. possui outros fundamentos que às vezes não são decorrentes desse. tal como da própria formação material. capaz de explicar todo o conteúdo do fundamentado. decorrente. 286). atravessa alguns corpos e outros não. nos leva à necessidade de reunir todos os fundamentos e as propriedades que eles condicionam em um todo único e explicá-los a partir de um princípio único. pois a representatividade conceitual do fundamento formal é fraca. Em termos formais. Isto. ao fundamento real. Na Antiguidade. decompõe os líquidos e gases. quando ainda não se tem a noção exata de que há uma cadeia de causalidades no desenvolvimento da matéria da qual aparece o fundamento real.

no que se refere a tendências de desenvolvimento da matéria e não quaisquer aspectos. que a lógica formal nega toda esta construção categorial pautada na realidade concreta.Mas o que representa esta contradição? Ora. etc. O pólo Norte e o pólo Sul são igualmente pólos. Vale destacar ainda. na media em que os metafísicos negam a existência da contradição.. este estado de luta permanente não reflete uma destruição mútua dos contrários. Daí que sua idéia de “contradição” deve respeitar esta lógica pré-concebida. com a passagem do objeto a um novo estado qualitativo. contradição entre aspectos (Ex: o singular tem a tendência de não se repetir no curso do desenvolvimento. esta é que baliza a construção de suas categorias e não a realidade concreta. mas posteriormente foi se agudizando com o advento do trabalho assalariado e as relações patrão-funcionário (diferença essencial no âmbito do modo de produção capitalista entre o proprietário dos meios de produção e o trabalhador). mas é um erro dizer que toda diferença é uma contradição. que formam uma única espécie. Marx já dizia que estes contrários constituem uma mesma essência. pois o que é decisivo para eles é a lei da lógica formal. Com o desenvolvimento da produção capitalista essa contradição acentua-se e deflagra-se o embate burguesia-proletariado. etc. Este movimento é visível no curso do desenvolvimento da produção.). sua essência é idêntica e o mesmo acontece com o sexo feminino e o masculino. aspectos diferentes de uma única e mesma essência. a contradição possui graus de desenvolvimento. A contradição representa a interação dos aspectos e das tendências contrárias. onde. a forma só existe se houver conteúdo... Entretanto. Quando os contrários atingem um grau elevado de equivalência.. e ainda mais 30 . Vale ainda destacar que a diferença só será contraditória. Do mesmo modo. Os contrários são. começando com uma diferença não-essencial e que passa a ser essencial. portanto. Os autores que defendem esta idéia equivocam-se. Neste contexto a luta então se agudiza e se resolve quando os contrários “passam um pelo outro”.). mas somente em ligação com o geral. diferenças entre frações de classe capitalistas. independentemente do geral. etc. Há diferenças essenciais e internas que não são contraditórias e diferenças não-essenciais e externas que engendram contradições (Ex: diferenças entre os órgãos dos sentidos. representando uma unidade de contrários (Ex: o singular não existe em si mesmo. significa que o equilíbrio de forças em ação é grande. inicialmente a produção se dava nos ateliers com os mestres artesãos e seus aprendizes (diferença não-essencial entre aprendizes e mestres). Essa luta assume um caráter absoluto. tal como é absoluto o movimento da matéria. eles limitam para eles próprios a resolução da origem do movimento da matéria recorrendo a Deus. já o geral se repete. exortando sua inexistência. Vale destacar que as contradições nascem das diferenças. estes existem juntos e interpenetram-se. pelo contrário. Ademais. A revolução socialista e a permuta de posições de poder entre burguesia e proletariado.). Essa interação condiciona sempre. pois há uma infinitude de aspectos e coisas diferentes no universo que não entram em contradição e que podem inclusive complementar-se em ligações harmônicas. representa aspectos cujo sentido da sua transformação é oposto um em relação ao outro e cuja interação supõe “luta”. não a realidade. o caráter relativo da unidade dos contrários corresponde ao repouso também relativo da matéria. Assim sendo. possuindo muitas características em comum: “.

contudo. corresponde ao movimento do abstrato ao concreto. deduz-se. que as novas formações materiais passam a ter um conteúdo mais rico.. Por exemplo. informe e quase nula de conteúdo – abstrata – caminhava em direção de sua concretude. A antagônica é aquela mediante a qual há destruição de um dos pólos. não se trata da simples destruição de um estado qualitativo. Assim sendo. que são aspectos contrários da sociedade. Outra classificação das contradições diferencia contradição antagônica de contradição não-antagônica. estando a importância da contradição externa. a produção desenvolve-se necessariamente e os homens aperfeiçoam-se no decorrer de seu desenvolvimento (p. eliminando um estado qualitativo e fazendo surgir um novo. em verdade está se passando é a negação do antigo estado qualitativo. Na contradição antagônica há agudização da contradição e transformação do sistema.. condiciona uma mudança incessante neles mesmos e nos domínios correspondentes da vida social. 31 . Com efeito. como entre consumo e produção em um país capitalista (contradições internas) e entre formações materiais diferentes. os homens aperfeiçoam-se e suas necessidades modificam-se (. sendo a negação dialética. pois acarretam na “automovimentação” do objeto no curso do desenvolvimento. levando à resolução da contradição. reforça o sistema. a interação da produção e do consumo. Esse movimento do inferior para o superior. A NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO Na medida em que os contrários mudam-se um no outro. enquanto a não-antagônica.). como entre a URSS e um país capitalista (contradições externas). Para satisfazer essas necessidades. o que.). diretamente relacionada à sua maior ou menor correspondência com aquela (com a contradição interna). As contradições internas são mais decisivas. condiciona seu desenvolvimento. A negação dialética é uma conseqüência da evolução e da resolução das contradições próprias à formação material negada.302) 2 Há.. a negação é um momento necessário do desenvolvimento. quando ela se realiza entre os contrários. além de não levar à destruição de um dos pólos. pela produção de bens. duas formas nas quais se efetua as interações das tendências contrárias: em uma única e mesma formação material.fortemente. ao mesmo tempo. do que. Trata-se da idéia aristotélica na qual a matéria inicial. aquela que é ligada ao movimento do inferior ao superior.. as mudanças constantes nos aspectos ou entre os corpos em interação (. do indeterminado ao determinado. pois tudo o que havia de positivo no estado qualitativo negado é transplantado para o estado qualitativo novo. na medida em que sua resolução não engendra uma transformação radical de uma dada formação material (Ex: resolução de uma contradição entre forças produtivas e relações de produção no capitalismo leva ao aperfeiçoamento do mesmo). de um conteúdo menos rico para um mais rico. 2 Tudo isto mostra que a luta dos contrários condiciona necessariamente mudanças correspondentes nos aspectos em interação da formação material e naqueles que lhes estão ligados e.

reuniam-se de modo mecânico as “partes” que foram estudadas refletidas nos conceitos simples. a negação é proveniente de fatores externos. o que engendra a vida. A categoria de vir-a-ser já possui um certo conteúdo. na consciência. o método preconizava a compreensão dos fenômenos partindo do concreto sensível ao abstrato. embora ainda pouco importante. já é um ser determinado. mas um aspecto que seja decisivo no todo estudado. ele influi sobre todos os outros aspectos de uma formação material dada. devemos. passo a passo. limitação que foi transcendida por Marx. para isso. ou seja. o conjunto de seus aspectos e ligações necessários que lhe são próprios. o qual apresentara a idéia da existência do “ser puro” (abstrato) que. A lei da negação da negação A negação da negação é uma lei da dialética na qual o desenvolvimento da formação material parece reproduzir. Além disso. elaborando e aplicando em sua própria obra um verdadeiro método para o sujeito conhecedor. mas pelo abstrato. reproduzimos. a essência não é uma totalidade mecânica formada por simples justaposição de partes. Dessa maneira. a partir daí. passando.Mas segundo Aristóteles. o movimento. o que conduzia à elaboração de conceitos extremamente simplórios que refletiam algumas propriedades apenas. o processo do desenvolvimento da formação material estudada e. idéia que foi superada posteriormente por Hegel. vai caminhando em direção à concretude. O vir-a-ser leva ao aparecimento de “ser aqui” que. Assim.317). não se aplicando à matéria. Depois de ter distinguido o aspecto decisivo principal. trata-se de uma unidade dialética em correlação necessária e natural. etc. Apesar de estarem de acordo com os preceitos marxistas do movimento do abstrato ao concreto. já possui uma qualidade (p. devido a suas contradições internas. Depois. de sua essência. Destarte. pelos conceitos que refletem os aspectos ou relações gerais ou universais os mais simples. como ponto de partida. isto é. tomá-lo em seu desenvolvimento. ao mesmo tempo. Exemplo disso são os economistas do século XVII que sempre partiam do concreto (população) para. em seu processo de conhecimento do objeto. elaborar noções simples como “trabalho”. partir do abstrato ao concreto. com o intuito de chegar à essência do todo. as idéias de Hegel entram em desacordo na medida em que se atêm ao mundo das idéias. de acordo com a dialética da teoria do conhecimento. O “nada” e o “ser puro” constituem a unidade. condicionando nela as mudanças correspondentes. um certo concreto. separados de suas outras ligações. a pesquisa deve ser começada não pelo concreto. estágios já transpostos do 32 . ao contrário do ser puro. de acordo com esse princípio de pesquisa. não se deve tomar qualquer aspecto para balizar a analise. antes. Entretanto. este sim. “divisão do trabalho”. graças ao que o “ser puro” entra em seu vir a ser ou desempenha o papel de vir-a-ser. ainda que sob novas bases. no curso desse desenvolvimento. isto é. como elo inicial. que determine todos os seus outros aspectos. Antes de Marx. observar como ele surgiu. tendo estabelecido o “ser puro” como princípio primeiro. quais os estágios transpostos e de que maneira. isolavam-se aspectos e propriedades de um fenômeno em si mesmos. isto é. por várias outras categorias filosóficas. Hegel o declara desprovido de qualquer conteúdo determinado e equivalente ao “nada”.

no curso da negação dialética. Entretanto. daí a necessidade de novas categorias. quando for criada no país uma tal situação que “a base” não possa mais viver como anteriormente e a “cúpula” não possa mais governar à maneira antiga.) a transformação da possibilidade da revolução socialista nos países capitalistas em realidade. como um momento da realidade e seu movimento. uma vez que tal evento advém de 33 . do conteúdo positivo daquele que foi negado. realizando-se.. já que o que a define é a negação do aspecto.342). comunismo primitivo-socialismo (4 negações). nas negações seguintes (não necessariamente na segunda). o real do possível. mas em uma outra qualidade. Assim sendo é absolutamente natural que o desenvolvimento não possa seguir uma linha diretamente ascendente. não pode dar-se em qualquer momento. O que deve ser destacado é que o estado real é diferente do possível. A possibilidade. Hegel. quando a miséria agravar-se e a atividade das massas ganhar uma maior intensidade (. mas também a existência de uma dialética na qual uma transforma-se na outra. Na primeira negação o fenômeno transforma-se em seu contrário. demonstrou o condicionamento da primeira pela segunda. em traços gerais e sobre uma nova base – mais elevada – os graus já transpostos. no novo. As reais são condicionadas por aspectos e ligações necessárias. A POSSIBILIDADE E A REALIDADE Ao conhecermos a essência e o movimento de uma formação material. Exemplo: grão-planta-grão (2 negações). mas sob as forma de potencial da matéria. em que cada volta dê a impressão de repetir a precedente. transforma-se em realidade e é por isso que podemos definir a realidade como uma possibilidade já realizada e a possibilidade como realidade potencial. as novas formações materiais repetem periodicamente. Assim. um conjunto de fatores... a partir dos escritos de Leibniz sobre a existência de uma correlação entre a realidade e a possibilidade. mas sobre uma base mais elevada. constitui ele mesmo uma negação e não duas. Na concepção dialética e materialista da possibilidade e da realidade. mas dê-se segundo uma espiral.desenvolvimento.) (pág. distinguindo então. Assim. mas com manutenção. o que não impede a negação dialética. ou seja. no processo de desenvolvimento. Devemos destacar ainda. Por exemplo: (. repete o inicial sob nova base. mas seus estados possíveis. a coisa pode não se transformar em seu contrário. mas apenas em condições determinadas. Mas a possibilidade só se transforma em realidade em condições determinadas. destruição e criação. a possibilidade existe. o novo fenômeno. a realidade é o que existe realmente e a possibilidade é o que pode produzir-se quando a condições são propícias. o que é decorrente da transformação do fenômeno em seu contrário mais de uma vez.. Cada negação é. das quais. passamos a conhecer não apenas seus estados reais. os quais surgirão necessariamente em certas condições. a existência de possibilidades reais e possibilidades formais. O movimento unívoco destruição-criação. transformando-se em seu contrário. pode ser exemplo a revolução socialista nos países capitalistas. ao mesmo tempo.

como reflexo que são da realidade. com vistas a refletir o movimento da matéria em direção ao desenvolvimento. Já as possibilidades formais. Esta última é definida pela possibilidade presente de reunir as condições concretas da realização. muito mais importante para a atividade prática dos homens é a possibilidade real.aspectos e relações necessárias da própria sociedade capitalista. Assim. Possibilidade irreversível – Ex: a transformação química do carvão em energia. não é possível reunir estas condições. O próprio Marx não delineou nenhuma seqüência de categorias em quadros a partir das quais apreenderíamos seu método. quando se agudizam suas contradições. ou seja. Esta distinção é importante para a atividade prática do homem. Possibilidade reversível – Ex: o movimento mecânico dos corpos. como é o caso da transformação do operário em capitalista. Mas mesmo as possibilidades reais distinguem-se entre si segundo as relações que estabelecem com as condições para sua realização. Contudo. Não há leis e relações necessárias que determinem tal fato. bem como seu correlato movimento no pensamento e na história da ciência e da filosofia. no momento presente. Possibilidade excludente – sua realização implica no desaparecimento de outra. ao tornar mais acuradas as lentes pelas quais o pesquisador entende a realidade. na realidade objetiva. 34 . Possibilidade de fenômeno – não modifica a essência (Ex: aumento de salários no quadro do capitalismo por força de pressão operária é uma possibilidade) Possibilidade de essência – acarreta modificação na essência da formação material (Ex: possibilidade de revolução em país capitalista) Finalmente. dependem de contingências. entre possibilidades abstratas e concretas. devemos ter em conta que o quadro do movimento de categorias que foi formulado e exposto neste texto. não é um quadro acabado. possibilitando distinguir e realizar a planificação concreta e a planificação a longo prazo. podem contribuir sobremaneira para com o sucesso do trabalho científico. a apreensão e reflexão sobre este quadro de categorias e seu movimento. já a abstrata é uma possibilidade para a qual. Existem ainda outras formas de possibilidade: • • • • • • Possibilidade coexistente – sua realização não implica no desaparecimento de outra.

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