Você está na página 1de 35

CHEPTULIN, Alexander. A dialética materialista: leis e categorias da dialética. São Paulo: Alfa-Ômega, 1982.

RESUMO

Rodrigo Giraldi Cocco

O livro se dedica à análise das principais categorias e leis da dialética materialista.

Esta estuda as formas gerias do ser, os aspectos e laços gerais da realidade e as leis do reflexo da realidade na consciência dos homens. Estes estudos são indispensáveis ao homem para sua orientação na resolução de tarefas diversas, além disso, compondo um sistema de idéias sobre o mundo, ajuda a compreender a essência das formações materiais (por exemplo, a política de um Estado, etc.). As categorias dialéticas compõem: 1)as formas do reflexo da realidade (suas conexões etc.); 2) leis de funcionamento e desenvolvimento do conhecimento, alargando possibilidades criativas a partir do submetimento do pensamento e; 3) formas de interpretação filosófica. Vejamos agora, a natureza das categorias de modo amplo. Definir esta natureza remete ao problema entre o “particular” e o “geral” tanto na realidade objetiva quanto na consciência (a realidade objetiva reflete-se na consciência segundo o materialismo dialético!). Assim como se relaciona ao problema que “nasce com a Filosofia”: o da origem e existência das “essências ideais” e como elas se relacionam com as formações materiais, em outras palavras, trata-se do problema de quem vem primeiro: a

matéria ou a consciência? A história da Filosofia centrou-se por muito tempo nesta questão gerando discussões entre as diversas escolas filosóficas (materialistas vs. idealistas, etc.).

Já na Grécia antiga os pitagóricos tentaram solucionar este problema notando certa

semelhança entre as coisas e os números, atribuindo ao número o atributo de “essência universal das coisas”. Isto equivale a dizer que eles evidenciaram uma das propriedades universais das coisas: suas relações quantitativas, numéricas, alçando esta categoria (a “quantidade”) como a essência autônoma e ideal que existiria independente das coisas. (seu idealismo reside nisto, nesta independência das coisas, uma origem a priori). É Platão quem desenvolverá a doutrina pitagórica, atestando que a idéia é eterna e que as coisas são transitórias, que tudo que existe advém da “idéia”. Aristóteles vai criticar este apriorismo das categorias, destacando que elas não passam de noções gerais e não existem antes das coisas singulares! As categorias são o resultado do conhecimento das coisas e refletem as propriedades das coisas. Para ele, é necessário antes, conhecer as coisas singulares para se chegar ao conhecimento do geral. Fixado este geral, conceitos mais gerais são apreendidos a partir de maiores relações entre maior numero de formações materiais, chegando, por fim, ao estabelecimento das

categorias: os conceitos mais gerais de todos e que refletem as formas universais do ser. Assim, as categorias devem ser “lastreadas” pela matéria e pela forma, as quais, juntas, compõem a realidade objetiva. A teoria de Aristóteles (embora esteja correta ao afirmar que as categorias refletem a realidade), contudo, equivoca-se ao afirmar que as “formas” têm origem ideal autônoma, ou seja, uma parte da realidade objetiva possuiria uma natureza ideal segundo o filósofo.

Na idade média, as categorias assumem um matiz teológico, subordinadas à teologia as novas escolas retomam alguns pensamentos clássicos para justificá-la, como é o caso dos realistas (retomando o platonismo) e os nominalistas (que repudiavam a existência das categorias!). Por exemplo, Erigena (realista) dizia que as categorias eram criadas por Deus, o qual criara um mundo ideal a partir do qual as coisas se originam. A essência das coisas. As categorias para ele são criadoras e não criadas a partir da realidade. Roscelin (nominalista) apregoa que as coisas particulares vêm antes das categorias, mas afirma a inexistência do “geral” (propriedades comuns às diversas formações materiais). Tomás de Aquino tenta conciliar a perspectiva de Roscelin à de Erigena, dizendo haver duas “razões”, a humana e a divina. Assim, o “geral” tem uma existência ideal, mora na razão divina, modelando as coisas singulares. A essência (divina) se manifesta no “geral” e deste modo, categorias não são mais do que o reflexo das essências ideais divinas. Posteriormente, os materialistas da modernidade (Bacon, Hobbes, Locke, etc.) negaram, a concepção realista das essências ideais das categorias e para isso, retomaram Aristóteles, reiterando que as categorias são o reflexo das propriedades gerais das coisas. Immanuel Kant, posteriormente, enceta um diverso ponto de vista (subjetivismo), dizendo que as categorias não são o reflexo da realidade objetiva, mas que representam a atividade do pensamento apenas. De fato, um indivíduo (um homem) isoladamente, assimila categorias a priori – advindas de uma sociedade anterior – para poder pensar segundo sua época. Todavia, o sujeito do conhecimento é a sociedade como um todo e para esta, a categoria não pode existir a priori, ela é engendrada ao longo da história e do desenvolvimento social e da ciência como reflexo da realidade. Hegel irá, posteriormente, criticar o idealismo subjetivo de Kant, o qual dizia que as categorias provinham da consciência humana, do reflexo da realidade na consciência humana. Para Hegel (idealismo objetivo), as categorias provêm do desenvolvimento da “idéia absoluta”, a qual existe anterior e independentemente do mundo material. A ‘idéia absoluta’ se encarna nas formações materiais e (sem ter consciência de si) vai se desenvolvendo. As categorias em Hegel exprimem cada momento do desenvolvimento da idéia absoluta encarnada, em desenvolvimento dialético. Hegel supera Kant na medida em que desnuda o desenvolvimento das coisas e das categorias a partir da dialética, da resolução de contradições. No entanto, apregoa a dialética do autodesenvolvimento das categorias, ou seja, uma “dialética das categorias”, com suas subseqüentes transformações, mas que submete a “dialética das coisas”. Lembremos que para Hegel a origem das coisas está na idéia. Marx e Engels por sua vez, irão superar a concepção hegeliana da natureza das categorias.

Ora, tanto é fácil, escreveram Marx e Engels, partindo de frutos

reais, engendrarem a representação abstrata do “fruto” (a palavra “fruto), como é difícil, partindo da idéia abstrata de “fruto”,

Pode-se ver por isso, concluem Marx e

Engels, que enquanto a religião cristã conhece apenas uma encarnação de Deus, a filosofia especulativa tem tantas encarnações quantas são as coisas; é assim que ela possui, neste caso, em cada “fruto”, uma encarnação da substância do “fruto absoluto” (CHEPTULIN, P.12-13).

engendrar frutos reais (

).

Para Moore (filósofo burguês), existem objetivamente “essências ideais particulares” ou simplesmente aquilo que ele chama de “universais”, fora da consciência humana. Nós apenas tomamos consciência deles. Moore tenta justificar seu ponto de vista a partir do exemplo de três objetos diferentes que possuiriam todos eles uma mesma propriedade: “estar à mesma distância de um quarto objeto”. Esta propriedade (estar à mesma distância) seria um “universal”, uma “idéia geral” independente da consciência humana. Mas o fato de estarem “à mesma distância” não prova que sejam uma “essência ideal”, apenas prova que esta propriedade pertence às três coisas. É uma propriedade das coisas, o que não é sinônimo de “essência ideal independente delas”. Se o geral (como dizem os realistas) existe de forma autônoma às coisas, ele só pode existir idealmente e enganosamente, porque entre as coisas materiais ninguém viu nada que fosse geral existindo de modo independente das coisas. Para o nominalista Chase, só as coisas singulares existem na realidade objetiva, enquanto que conceitos gerais e categorias são palavras vazias uma vez que não há, no mundo objetivo, coisas às quais possam corresponder. De fato, Chase é verossímil nesta assertiva, todavia, os conceitos são deveras úteis ao homem e surgem associados a um ponto de referência concreto com finalidades científicas. Seria anti-científico dizer que “o geral” não existe, pois é precisamente o movimento que o conhecimento faz até o geral e a sua “essência” é que descortina uma série de fenômenos e formações materiais, dissecando- as. Em resumo:

Realistas: categorias existem independentemente da consciência humana como essências idéias;

Nominalistas: categorias são palavras vazias.

Kantistas: categorias provêm da atividade do pensamento (idealismo subjetivo) a priori;

Pré-marxistas (Aristóteles, Locke, materialistas franceses, etc.): categorias são imagens idéias que se formam no decorrer do desenvolvimento da consciência da realidade e refletem os aspectos das coisas;

ou

“idéia”

Hegel:

categorias

são

o

momento

graus

do

desenvolvimento

da

(idealismo objetivo);

Quanto ao problema da correlação das categorias da dialética, dizemos que se refere à existência de interação e interdependência entre as formações materiais. Consecutivamente, também os conceitos não podem estar isolados, devem também “passar um pelo outro se transformando em seu contrário”. Pois como disse Lênin (Ouevres, p23), “os conceitos humanos não são inamovíveis, mas, pelo contrário, eles movem-se perpetuamente, mudam-se uns nos outros, escoam-se um no outro, porque, sem isso, eles não refletem a vida existente”. Vejamos como isto se dá nas diversas escolas filosóficas. Em Aristóteles, a organização das categorias se dá sob a lógica formal, com a divisão das mesmas em grupos a partir de seus traços comuns. Kant também as agrupa, submetendo-as a cada “estágio do conhecimento” (Ex: ao estágio da percepção sensível estaria a categoria “espaço”). Hegel fará a correlação das categorias a partir do idealismo objetivo, ou seja, apresentando as categorias em seu desenvolvimento e a passagem dialética de umas às outras durante o desenvolvimento da “idéia” (idéia esta independente da matéria e do homem). O sistema hegeliano parte da categoria do “ser puro” (vacuidade pura, conteúdo impreciso) o qual muda de estado. Este ser puro age com o “nada” e torna-

se um “vir-a-ser”, um “vazio” e depois ganha conteúdo. Torna-se um “ser-aqui”. É o “vir-a-

ser” que transformaria o “nada” em um ser concreto. É visível a incrível artificialidade da correlação das categorias em Hegel, mas mesmo assim há certa racionalidade nelas, já que

a passagem de uma categoria a outra se dá pelo movimento e unidade dos contrários – o

“ser puro” e “o nada”. O “ser-aqui” já manifesta qualidade (categoria “alguma coisa”).

A categoria “alguma coisa” possui uma natureza contraditória, pois é a unidade dos contrários, isto é, entre o ser real (“ser aqui”) e seu potencial de se transformar em outras coisas (“ser para outro”). Este “alguma coisa” vai se modificando progressivamente (o “alguma coisa” original não se perde!) até o infinito. Com este esquema Hegel vai mostrar

o desenvolvimento da qualidade e posteriormente sua passagem à quantidade, ainda que em esquemas superficiais.

As relações fazem com que uma coisa se distinga de outras, tendo uma “qualidade”, aí esta coisa, a partir de sua qualidade específica transforma-se em “um”, a soma de vários “uns” semelhantes é o “geral”. Fazendo a abstração daquilo à que a coisa está ligada, ela torna-se “um” e enquanto “um”, ela não se distingue das demais, de nada e inclui em si tudo! (como a água de Thales ou o fogo de Heráclito). Este “um” não permanece em repouso, ele se diferencia a partir de si mesmo (repulsa a si mesmo): surge o “múltiplo” (unidade da repulsa e da atração). De fato, se tomarmos o exemplo do processo de conhecimento dos fenômenos e formações, o sujeito afasta um do outro objeto, aproximando-se mais de um que de outro, ao mesmo tempo em que evidencia os aspectos mais gerais que os unificam. Após a observação dos objetos faz-se a determinação qualitativa deles (parecendo que eles se afastam uns dos outros), quantificando objetos de qualidades semelhantes e posteriormente passando-se ao aspecto “qualidade”. Hegel atenta ainda para as essências contraditórias dentro da quantidade e da qualidade: por exemplo, a “repulsa e a atração” são próprias à qualidade e diferenciam os objetos em quantidade. Esta quantidade, em Hegel, também tem um desenvolvimento próprio, ela se transforma de uma quantidade “abstrata” em uma quantidade material dada.

O desenvolvimento da “qualidade” em quantidade conduz por sua vez à categoria de

“essência” (essência é, em Hegel, o que permanece entre as passagens de uma a outra categoria). Até aqui o desenvolvimento encontrava-se no plano do ser puro onde a

qualidade e a quantidade eram momentos deste ser

“essência”. O ser vive sob uma forma anulada dentro da essência, mas ele é uma das

contradições encerradas na essência, pois na realidade objetiva não há, não pode haver

identidade abstrata e pura, deve haver contradição

O qual agora se torna um momento da

Esta se manifesta primeiramente a

partir da diferença exterior, mais superficial e não essencial, depois se torna essencial, depois vira seu contrário e nisto Hegel está de acordo com Marx. Na história do conhecimento as categorias identidade, diferença e essência, aparecem muito antes: logo quando se evidencia alguma formação material, evidencia-se “identidade” e “diferença”. Os primeiros conceitos gerais provêm da tomada de consciência destas. Assim sendo, por mais que o pensamento de Hegel seja fundado no idealismo, ele é em parte verossímil, quando diz que tudo o que existe encerra em si mesmo uma contradição e de que a contradição é a origem do movimento, o impulso da vida, transformando uma formação material em outra. Esta contradição, no entanto, não é eterna, pois uma vez resolvida torna-se o “fundamento” (os contrários são destruídos enquanto existentes de forma autônoma e conservados como características do fundamento).

Ainda para Hegel, a forma está ligada à essência e esta é idêntica à forma, embora se expresse como ‘informe’. A forma é ativa enquanto a matéria é passiva e quando se

transforma em “forma” constitui o conteúdo, o qual possui certa forma e certa matéria e é idêntico a ela. O fundamento adquire um conteúdo e uma forma (torna-se um “fundamento determinado”). Um aspecto de uma formação material torna-se fundamento quando ele passa a influir sobre outros aspectos da matéria, a considerar uma nova qualidade, etc. Outro aspecto destacável: o fundamento não pode originar este ou aquele ser sem que haja condições rigorosamente determinadas, Surge a categoria “condição”.

A idéia de Hegel é a de que a “condição”, ainda que necessária para a realização do

fundamento, não é a força motora que obriga o fundamento a originar o fundamentado, que esta força motora está contida no próprio fundamento e que este se desenvolve sob pressão

de contradições internas que lhe são próprias. Mas dizer que primeiro surge a “coisa pensada” e depois ela passa a existir no concreto, isso é o idealismo de Hegel.

A realidade em Hegel é a unidade entre essência e existência, sendo que primeiro a

realidade se manifesta como “possibilidade” (abstrata, não traz em si a razão de seu existir),

enquanto a unidade entre “possibilidade” e “realidade” gera a “necessidade” que por sua vez se manifesta em relações de substancialidade e acidentalidade.

O proceder é o seguinte: chega-se finalmente ao “conceito”, a verdade do ser e da

essência para Hegel, este atinge a objetividade e finalmente a idéia, unidade do objetivo e

do subjetivo, conceito e realidade. Manifesta-se a idéia absoluta, finda o desenvolvimento. Finalmente, a idéia absoluta, a partir da forma ideal, transforma-se no seu contrário e manifesta-se como natureza, rejeita-a e retorna ao elemento espiritual.

O passo adiante dado por Hegel não seria evoluído por outros filósofos posteriores

como Windelband, Gunther, Hartmann, Wundt ou Cohen entre outros, pois estes ignoram a dialética. O passo adiante só vira com o materialismo marxista.

O marxismo determina que no estudo de todo o objeto se comece pelo aspecto ou

relação dominante, isto é fato. Mas e quando há mais de uma relação que possa ser destacada? Vejamos como proceder. Em toda filosofia há a questão fundamental da relação entre o pensamento e o ser, está é a essência da filosofia e por isso, a análise deve começar pelas categorias “matéria”, “consciência” e “prática”, como categorias de partida. Lênin já destacava como mais importantes as categorias que davam conta das relações principais entre a “unidade dos contrários”. Deve-se ter em conta que as categorias são também produtos da consciência, enquanto atividade cognitiva dependente de fatores determinantes como a prática social a partir da qual a inteligência se desenvolve como determinação da transformação da natureza pela sociedade. Assim sendo, os possíveis pontos de partida são:

1. Questão fundamental da filosofia: relação entre matéria e consciência;

2. Lei da unidade e luta dos contrários;

3. A prática social.

As categorias refletindo as ligações e os aspectos universais do mundo exterior são também graus de desenvolvimento do conhecimento. Momentos que fixam a passagem do conhecimento de um estágio inferior a um superior. O próprio Lênin já apregoava que o aparecimento de uma nova categoria depende do desenvolvimento do conhecimento, penetrando este mais profundamente nos fenômenos e descortinando novos e recônditos aspectos, fazendo necessário o surgimento de novas categorias, as quais devem ser dispostas na ordem em que aparecem no processo do conhecimento.

Destaca-se, que a ordem na qual as categorias se formaram não se seguiu historicamente, muitas surgem ao mesmo tempo, no ato do conhecimento. Deste modo,

como é possível classificá-las para que exprimam o movimento do saber do inferior ao superior? Vejamos.

A premissa básica é que as categorias, cada uma delas, devem corresponder aos

graus do conhecimento, à ordem em que aparece no desenvolver da prática e do conhecimento. Deste modo, reproduzem-se em certa ordem as leis universais na consciência, do inferior ao superior: leis de desenvolvimento de todo o concreto que há no mundo. Assim, as categorias de partida (para a análise das categorias) devem ser as categorias correspondentes à prática e depois, devem ser analisadas sob a luz da relação entre matéria e consciência.

Matéria e Consciência

O conceito de matéria é diverso e perpassa as várias escolas filosóficas. Para

Berkeley e outros (idealismo subjetivo), ela é inexistente e o mundo reduz-se a um conjunto de sensações. Para idealistas objetivos como Hegel, a matéria existe fora da consciência e das sensações, mas está submetida à “idéia absoluta” que a engendra, assim como para Leibniz, a matéria é o recipiente das “mônadas” (átomos espirituais independentes da consciência). Kant admite a sua existência real e objetiva, mas nega a possibilidade de se conhecê-la. Entre os materialistas são diversas as concepções de matéria, mas todos eles concordam com a existência objetiva da matéria independente da consciência e do espírito. Filósofos chineses, indús e babilônicos da antiguidade, assim como gregos, já pensavam sobre a matéria como sendo o corpo concreto, o princípio primeiro de tudo, todavia, ficava a questão de como toda a diversidade do mundo surgiria de uma única substância e é aí que outros filósofos ampliaram as substâncias primordiais (Empédocles quatro substâncias, Demócrito o átomo, etc.).

O átomo de Demócrito foi o paradigma da matéria até início do século XX, mas

com a descoberta do elétron, da radiação etc. a ciência e suas concepções engessadas entram em crise, uma vez que anteriormente havia uma identificação consolidada entre a matéria e sua substância (o átomo primitivo). Com o elétron, essas afirmações são questionadas na medida em que se pensou a inexistência de massa no elétron, assim como se pensou seu atributo principal como sendo o movimento (logo, a matéria seria movimento). Os idealistas vão utilizar estes fatos para justificar suas teses contra o materialismo, mas Lênin o defenderá com acurácia em seu “Materialismo e empiriocriticismo”, dizendo que em verdade, a matéria não pode ser tão somente identificada com a substância, mas com a realidade objetiva independente da consciência de modo mais amplo. Outras idéias igualmente enganosas, consideram como matéria, apenas certas propriedades deste mundo como o espaço, o tempo e o movimento (Klotz, Gunther e Hopfner, etc.) e as propriedades da matéria como sendo existentes objetivamente apenas se postas em relação com a consciência. Pelo contrário, a existência objetiva, independente da consciência humana é suficiente para definir a matéria, até porque a consciência é finita e a matéria é eterna! Um aspecto importante desta discussão é que o que é aplicado ao todo não pode, igualmente, ser aplicado aos seus aspectos e relações, ou seja, aos aspectos e relações relativos à matéria, aplicamos o adjetivo de “material”.

Aspectos da matéria. Matéria e formação material

Uma formação material é uma parte da matéria e todas juntas constituem a matéria, são os elos de uma mesma matéria. “Diferentes formações materiais entram no conteúdo do conceito de matéria, existem fora da consciência, tem características espaciais, temporais, movem-se, tem aspectos, ligações necessárias, contingentes, singulares, gerais, possíveis e reais. Incluem causalidade, contradições. Têm um conteúdo próprio, uma forma, uma essência, etc.” (p.74). A formação material não é eterna, e sempre se transforma em outra, daí a impossibilidade de se aplicar o conceito de matéria diretamente às coisas particulares (ainda que este ponto de vista equivocado seja amplamente difundido). EM SUMA, O CONCEITO DE TODO NÃO PODE SER IDÊNTICO AO CONCEITO DE PARTE DESSE TODO. Ademais, não se pode reduzir a matéria a dois aspectos (substância e campo, próprios das características dos átomos), esta é uma definição muito rudimentar

Da substancialidade da matéria

Opor matéria e consciência é relativo (Lênin), já que a consciência é uma propriedade de uma formação material: o cérebro. A suposta substância da matéria possui algo de imutável e absoluto, mas o materialismo dialético não reconhece nada assim, pois a substância deve modificar-se continuamente, de certos estados qualitativos a outros. Em muitos casos, uma propriedade não se manifestará em uma formação material, mas o fará em outra. Assim, no materialismo dialético, a única substancialidade possível é a “impossibilidade de a matéria perder suas propriedades”, prova disso é que a matéria não pode existir fora de suas propriedades e relações.

O reflexo

Para o materialismo dialético a consciência não é uma propriedade universal da matéria, ela só existe em formas altamente organizadas em certo estágio do desenvolvimento, é a forma superior de reflexo. A consciência é uma das formas de reflexo própria a toda matéria (a sensação e outros fenômenos psíquicos têm sua base no mundo material, elas refletem uma forma superior da natureza). Outro fato importante é que a formação material não é passiva, mas ativa. Ela própria age sobre as formações materiais a ela ligadas modificando-as. Desta forma, “o reflexo está ligado não apenas à ação de uma formação material sobre outra, mas também à sua interação, em decorrência da qual cada formação material particular é, ao mesmo tempo, refletora e refletida. Ela reproduz sob uma forma específica as particularidades correspondentes destes objetos e desses fenômenos”. (p. 79). Todas as transformações surgidas em uma formação material, sob a ação de outras formações materiais, são resultado de uma ação bilateral, isto é, de uma interação. As particularidades dos corpos refletidos (os que agem) e dos refletores são (ambas) representadas nestas transformações. É por isso que não é todo o conteúdo das transformações (surgidas na formação material em decorrência da ação de outras formações materiais sobre ela) que representam o reflexo destas últimas, mas somente o que é isomorfo (semelhante) a esse ou àquele aspecto dos objetos que agem.

Não é todo o conteúdo das transformações que representam o reflexo da ação de certas formações materiais, mas só o que é semelhante a este ou àquele aspecto das formações que agem. Por isso, trata-se de uma interação (relação bilateral), uma vez que na realidade objetiva não há ações puras, orientadas unilateralmente, cada ação está ligada a uma reação. É assim que as formações materiais vão combinando semelhanças e diferenças. Lênin foi mal interpretado ao dizer que o refletido existe independetemente do reflexo. Na verdade, na interação, ambas as formações materiais são refletoras e refletidas (por reflexo, entender a parte que, no refletor, representa o refletido), assim, o reflexo não é idêntico à interação, é um resultado da interação, enquanto que esta produz influências recíprocas entre formações materiais que efetuam algumas mudanças em cada uma delas. O reflexo é então, apenas a propriedade de cada formação material de reproduzir certas particularidades de outras formações materiais que agem sobre elas. O reflexo também é uma representação ímpar das particularidades dos fatores agentes (p. 82). Já a modificação do objeto devido a interações (exteriores e interiores) não representa o “reflexo”, mas o “movimento”. Vale ressaltar que as propriedades do objeto refletor não são idênticas ao reflexo que ele efetiva de outros objetos, mas é igual à sua própria essência. O reflexo representa as mudanças que reproduzem particularidades dos objetos agentes. Modificações das formas de reflexo são observadas na passagem da matéria de um grau qualitativo de desenvolvimento a outro. Nos organismos vivos, por exemplo, dentre outras formações materiais, alguns tecidos e órgãos se especializaram em refletir (percepção, fixação da ação exterior, etc.): trata-se do sistema nervoso, mediador entre o organismo e o mundo exterior.

O

reflexo do mundo exterior é vital para os organismos e é mediado pelo sistema nervoso,

o

qual se complica no decorrer da evolução. A forma do reflexo varia conforme o

desenvolvimento do sistema nervoso. Em organismos superiores, por exemplo, a correlação com o meio torna-se mais evoluída do que a simples reação aos excitantes exteriores, ocorrem reflexos condicionados que vão se elaborando no processo da vida do indivíduo, em sua experiência pessoal. Todavia, lembremos que todo o psíquico está ligado ao fisiológico, só existe sob esta base, em outras palavras, como propriedade da matéria altamente organizada, a consciência é, ao mesmo tempo, o produto do trabalho humano, o resultado do

desenvolvimento social. Para que a consciência surja, devem existir necessidades materiais e foi precisamente isto que se sucedeu: a necessidade de trabalho conjunto, de comunicação entre os homens a propiciou. Assim sendo, podemos deduzir que algumas formações materiais, em decorrência de interações, produzem outras mais complexas, o que contraria Deus, ou a alma. Ademais, as imagens que constituem a consciência não carregam consigo as

propriedades da realidade (peso, espacialidade

elas apenas refletem a realidade sob as

bases da consciência e do cérebro humano. Há deste modo, duas realidades: a realidade objetiva que existe fora e independente da consciência e a realidade subjetiva, engendrada pela primeira, da qual é reflexo. A primeira realidade é material e a segunda, ideal. Assim, nem tudo o que existe é matéria. Vale destacar que a consciência não é a única fonte de reflexo: a matéria, igualmente, possui uma propriedade que corresponderia à sensação, a propriedade mesma do reflexo, mas que é diferente, uma vez que na consciência o reflexo é “consciente”.

),

As categorias como graus do desenvolvimento do conhecimento social e da prática

O conhecimento funciona a partir da prática e desenvolve-se da intuição viva ao

pensamento abstrato e deste à prática. Os aspectos e ligações universais conhecidas nas categorias são também graus da passagem do conhecimento inferior ao superior. Mas em que ordem surgem as categorias no âmbito do desenvolvimento do conhecimento? No momento em que o homem toma consciência do particular (objeto, processo, etc.) como sendo singular, passa a julgá-lo a partir de sua qualidade. Neste estágio de desenvolvimento do conhecimento as características quantitativas eram indiferenciadas. Só que depois, quando o homem passa de um objeto a vários, ele vai tomando consciência da quantidade. Posteriormente passa a considerá-las como interdependentes e transmutáveis uma à outra e depois, vê que a transformação de um aspecto é condicionada por outro (causa-efeito e necessidade). Feito este processo, vão se reunindo todas as relações em um todo único e a

reprodução desse todo na consciência representa o conhecimento da essência do objeto. Mas para definir a essência deve-se definir o aspecto determinante das relações (o fundamento) e seu desenvolvimento. Devem-se evidenciar as tendências contraditórias que condicionam a passagem do estado qualitativo a outro (forma-se as categorias: contradição, unidade e luta dos contrários), evidenciando-se a contradição própria ao fundamento.

Ordem de aparecimento das categorias no desenvolvimento científico

A lei do movimento de uma categoria a outra deve aparecer em qualquer domínio

do saber, vejamos alguns exemplos. O âmbar era uma pedra ornamental e com sua fricção, descobriu-se (na Antiguidade) a ligação existente entre a “faculdade do âmbar de atrair

corpos” e a “fricção”. Em seguida isso foi se generalizando para outros corpos e em

seguida, estabelece-se que a faculdade de uma substância de atrair por fricção outros corpos pertencia a todos os corpos maus condutores. No começo do séc. XVIII Gray descobriu essa propriedade em corpos bons condutores. Para elucidar mais apuradamente seus aspectos qualitativos, compararam-se os fenômenos elétricos com os fenômenos eletromagnéticos e deste modo, após consecutivas descobertas foram-se definindo as propriedades qualitativas da eletricidade (Gray, Gilbert, Guerick) até que a atenção dos pesquisadores se volta aos aspectos quantitativos (Coulomb, Ohn, Joule, Ampère etc.). Depois se tentaram correlacionar os aspectos qualitativos com os quantitativos, estabelecendo laços de causa e efeito e observando o que os condicionam. Os mais importantes desses laços necessários (imperiosos) tornaram-se leis Ex: o fato de a resistência do condutor depender da sua substância e comprimento (Ohm) foi tido por “lei” e posteriormente a isso, tencionou estabelecer uma interdependência ainda mais abrangente entre leis: uma teoria, reproduzindo na consciência a essência da eletricidade que culmina com o elétron! Já na Antiguidade, Thales, Anaxímenes e Anaximandro davam importância às categorias “ligação” e “movimento”, as quais tornaram necessário o estudo dos conceitos de espaço e tempo (para a existência e movimento das coisas é preciso um lugar). Aristóteles foi o primeiro a usá-lo como categoria: o espaço como o lugar ocupado pelas coisas, se relacionando ao limite entre um objeto e outro, enquanto o tempo era

medimos não somente o movimento pelo tempo, mas

característica do movimento. “

também o tempo pelo movimento, porque eles determinam-se reciprocamente; já que o tempo determina o movimento, do qual ele é o número, e o movimento, o tempo” (p. 134). Neste período a escola de Mileto elabora concepções a partir do particular, do singular (água, ar, etc.) que tornavam a forma do fenômeno concreta, ao contrário de Platão.

Aristóteles evidenciara a dialética do singular e do geral. Para Empédocles, a “qualidade” de algo é determinada pela proporção (quantidade) em que se agrupam os quatro elementos (água, ar, terra, f ou), tendo já um vislumbre da relação entre “qualidade” e “quantidade”. Isso foi aperfeiçoado por Aristóteles, encerrando uma etapa do movimento do conhecimento (correlação quantidade/qualidade). Posteriormente, Bacon iria desenvolver as categorias “causalidade”, “efeito”, “forma” e “necessidade”, ao apregoar que a causa das coisas está nos elementos, na própria matéria. A forma é inseparável da coisa (diferentemente de Aristóteles, que separava a matéria da forma pura, Deus). Spinoza salientaria o caráter geral da ligação da causa e do efeito como sendo ligação necessária e disse que a substância (imutável) é o fundamento. Essa premissa limitou seu entendimento com relação à diversidade do mundo, enquanto Hegel mostrou como a substância (o fundamento) desenvolve seu conteúdo e engendra a diversidade das formas do ser. Na qualidade de substância – de fundamento e de causa primeira de tudo – Hegel propõe a “idéia absoluta” que, graças a sua natureza contraditória, cria e fundamenta sua essência. Mas só Marx o faz com uma base materialista.

Categorias como graus do desenvolvimento da prática social

O conhecimento das formas universais do ser dá-se no decorrer da atividade prática,

no

processo da transformação orientada em direção a uma meta e à realidade. Na formação

de

uma categoria exprime-se não apenas o estágio do desenvolvimento do conhecimento,

mas também o estágio do desenvolvimento histórico da sociedade. Observando o mundo exterior, a natureza em interação e as transformações acarretadas por esta, o homem torna-se convicto de que suas ferramentas podem também interagir e transformar as coisas. As primeiras formas de obter fogo advieram da interação entre dois objetos. A influência da prática social sobre a formação de categorias é vista já em Heráclito quando ele compara o fogo ao ouro, dizendo que tal como o ouro (prática social) tudo pode ser trocado pelo fogo na natureza. As categorias então, não são apenas graus do desenvolvimento da consciência, mas também da pratica social, das relações entre eles e com a natureza.

O desenvolvimento das formas do pensamento no processo do movimento do conhecimento de uma categoria a outra

As formas de pensamento em desenvolvimento só serão estudadas a partir de Hegel.

O conceito é o resultado do desenvolvimento e correlação das formas de pensamento e

provém do raciocínio e do juízo. Para Hegel, o juízo é o isolamento e a confrontação de momentos do conceito. Segundo Hegel, o juízo deve representar a verdade, já que ele exprime a correspondência do conceito e da realidade, a qual só é atingida no ápice do desenvolvimento do juízo, que inicialmente engloba apenas o imediato, o “superficial” dos objetos. O esquema de Hegel sobre os juízos baseia-se na correlação do singular e do geral. Aqui, o juízo entra na esfera do conceito e continua a desenvolver-se. No processo desse desenvolvimento, o singular, por outro lado, eleva-se até o universal por meio do particular e o universal a partir do particular desce até o singular. Para Hegel, em suas formas

inferiores, o raciocínio engloba apenas correlações superficiais do singular, do particular e do universal; em suas formas superiores ele engloba as correlações internas ESSENCIAIS

E NECESSÁRIAS. Nesse movimento, passa-se dos momentos abstratos do singular, do

particular e do universal para os momentos concretos, essenciais. Do superficial vai-se ao essencial, necessário. O erro de Hegel neste ponto reside no seguinte fato: para ele o raciocínio vai do geral ao particular e deste ao singular. Mas este geral deve, antes, ser concebido, elaborado, indo-se do singular ao particular e deste ao universal! Destaca-se que todos estes tipos de juízo só fixam o mais superficial, mas o conhecimento não para por aí, ao se esforçar para penetrar no interior das coisas construímos hipóteses, supondo causas (juízo de possibilidade) que originam as propriedades: uma vez comprovada a causa relacionada ao efeito, a relação torna-se de necessidade (“x” é necessariamente "H"). Assim, passamos do conhecimento superficial à causa. Conclui-se, que os diferentes tipos de raciocínio também não são fixos, eles estão em movimento, em desenvolvimento. Assim, da intuição (aonde se formam conceitos concretos sensíveis, superficiais) passa-se a raciocínios de suposição, com vistas a se chegar à essência das coisas.

O particular, o movimento, a relação

Repouso relativo é um dos momentos do movimento da matéria. O movimento condiciona a modificação permanente da matéria, já o repouso, constitui na verdade, o movimento em estado de equilíbrio, a manutenção, ainda que momentânea da matéria transformada em um determinado estado. Assim, a corrente contínua do movimento parece descontínua, como um conjunto de diferentes sistemas de movimento. A formação material (uma coisa particular ou um estado particular) provém desses sistemas de movimento. Sendo eterno como a matéria, o movimento absoluto, assim como o repouso relativo, condicionam a existência eterna da matéria mediante as formações materiais particulares encerradas no espaço e no tempo. O particular é, portanto, uma forma universal da existência da matéria.

O conceito de movimento

Entre os primeiros filósofos gregos, o movimento desempenhou o papel de princípio inicial, a partir do qual se explicavam todos os fenômenos observados na realidade. A partir daí, depreenderam que todas as formas do ser, observadas no mundo, apareceram em decorrência de transformações do princípio primeiro. Na antiguidade grega, diversos filósofos já concebiam o movimento como categoria universal da matéria. Para Anaximandro, do apeiron desdobraram-se tudo o mais, já para Anaxímenes, o fizeram a partir do ar em seu movimento de transformação. Caberia a Heráclito conceber a universalidade do movimento, quando afirmara residir na morte do fogo o nascimento do ar, na morte do ar o nascimento da água, etc. Os pensadores de Mileto também concebiam assim o movimento. Destaca-se, que nos termos do desenvolvimento do conhecimento, o homem descobre o movimento já em seus estágios iniciais. Isto é factível, na medida em que é manifesta já entre os primeiros filósofos. Engels já destacava que “quando submetemos ao exame do pensamento à natureza ou à história humana, ou ainda nossa própria atividade mental, o que temos como primeiro resultado é o quadro de um entrelaçamento infinito de relações e de ações recíprocas (interações), no qual nada permanece como era, no lugar onde estava anteriormente e como

estava, mas em que tudo muda, modifica-se, vem a ser e perece

ingênua, porém fundamentalmente correta, de encarar o mundo, foi a maneira adotada pelos filósofos gregos da Antiguidade, e o primeiro a formulá-la de modo claro foi ”

Heráclito

Para os primeiros filósofos gregos, o movimento (processo de destruição de um e surgimento sob mesma base de outro), o conceito de movimento era guindado ao primeiro plano. Só mais tarde, os eleatas, ao contrário dos jônios, interessar-se-iam pela estabilidade, negando em absoluto o movimento. Para eles, tudo o que existe provinha de um todo imutável e homogêneo. Empédocles retoma o conceito de movimento, mas conserva a estabilidade. Para ele, terra, água, fogo e ar são imutáveis e o movimento não seria o surgimento de uma coisa e o desaparecimento de outra, mas o simples rearranjo dos

elementos que compõem as coisas, elemento que associam-se e desassociam-se. Esse conceito aparece também em Demócrito, com seus átomos. Destaca-se, que o movimento nestes casos é o simples deslocamento, a união e a desagregação. Aristóteles, posteriormente, desenvolveu a teoria do movimento e da correlação, retomando as idéias dos jônios e de Heráclito (movimento como o aparecimento de algo e a destruição de outro). Em verdade, Aristóteles se esforça para aprimorar estas concepções, tomando o movimento não apenas como “destruição” e “aparecimento, mas também como crescimento, diminuição e deslocamento dos corpos no espaço. Em Aristóteles havia 6 formas de movimento: geração, corrupção, crescimento, diminuição, alteração e modificação local, formando a categoria do movimento como unificadora a seus conceitos. Posteriormente emerge como dominante no materialismo, a forma mecanicista do movimento da matéria (séc. XVII e XVIII), com o movimento representando o mero deslocamento de corpos no espaço (Descartes, Holbach), não incluindo as transformações da matéria. Transformações no núcleo atômico, no organismo vivo, na sociedade, etc., não são simples deslocamentos (embora nestes processos também haja deslocamento de matéria). No materialismo dialético, o movimento aplicado à matéria é a modificação geral. Ele inclui todas as mudanças e processos que se produzem no universo, da simples mudança de lugar até o pensamento. O movimento é um atributo da matéria e está indissoluvelmente ligado a ela. A própria lei de correspondência da massa e da energia é testemunha do laço matéria-movimento. Contrariando essas concepções, certos filósofos e físicos burgueses reduzem a matéria ao movimento (ao qual a energia é determinante). A matéria constituindo assim, uma das formas da energia como já foi discutido. Contudo, a transformação de elétrons e de pósitrons em fótons – luz – não é a transformação da matéria em energia (movimento puro), mas a transformação de uma forma de matéria em outra.

Essa maneira primitiva e

(Engels, Anti-Duhring).

O movimento e o repouso

Para o materialismo dialético, o repouso não é a ausência de movimento. Muitos autores, inclusive, baseiam sua idéia de repouso no próprio Engels, distorcendo sua visão. Dizem estes que Engels (Anti-Duhring) reforça a existência do repouso absoluto, ao trazer exemplos de corpos celestes em “repouso” em relação a outros corpos. Todavia, omitem passagens esclarecedoras, nas quais o autor adverte se tratar de exemplos do repouso inerente ESPECIFICAMENTE ao movimento mecânico.

Em verdade, o repouso é o movimento em equilíbrio, em estabilidade, e não a ausência de movimento. O sistema solar, por exemplo, é um sistema em repouso, não porque está “parado”, mas porque mantém certa estabilidade. Mas o sistema de movimento estável não esgota todo o movimento da coisa. Paralelamente ao movimento em equilíbrio de uma formação material, há transformações contínuas, seja no quadro desse sistema, como nas relações com outros sistemas de movimento estáveis. Em interação, dois ou mais átomos (enquanto sistemas estáveis que são), perdem ou ganham elétrons, formando um sistema de movimento estável novo e mais complexo. Estas transformações, ao atingirem certo nível, arruínam o sistema estável, perturbando-o, fazendo surgir novos, embora no início, as transformações (provenientes da interação) não afetem sua estabilidade.

O movimento e o desenvolvimento

Diante desses processos, a questão que se coloca é: qual é a tendência de todas essas transformações, qual é o sentido do movimento e o que aparece no lugar das formações materiais destruídas que desapareceram? Para a teoria do movimento circular, todas as transformações observadas no mundo transpõem os mesmos estágios, voltando à posição de partida (descrevem um círculo). A idéia de movimento circular foi expressa pelos pitagóricos que consideravam que todos os 760.000 anos, tudo no mundo, volta ao seu estado inicial, repetindo os já transpostos. Em outra teoria, as transformações não se dão de forma circular, mas tendem à destruição, à morte, a ir ao encontro do menos perfeito. O materialismo dialético reconhece tanto o movimento em círculo como o movimento regressivo, mas entende o movimento progressivo como sendo o dominante, conduzindo à passagem do inferior ao superior, do simples ao complexo, ou seja, ao desenvolvimento. Exemplo disso é a própria história humana, relatando a passagem de uma sociedade mais primitiva ao regime escravagista, deste ao feudal e do capitalista ao socialista, passando a formas mais perfeitas de vida social. Ademais, pode ocorrer que, para que haja desenvolvimento (movimento do inferior ao superior) sejam necessários movimentos circulares e regressivos no quadro do sistema de desenvolvimento. Mas não se trata de momentos sumamente necessários para o desenvolvimento. Engels define a dialética como a ciência das leis gerais do movimento e do desenvolvimento da matéria, da sociedade e do pensamento, diferenciando o conceito de movimento do de desenvolvimento. De fato, o desenvolvimento remete ao movimento do inferior para o superior, mas há o movimento circular e o regressivo. É preciso dizer que nem todos os movimentos circulares e mudanças regressivas compõem o processo geral de desenvolvimento, pois podem ser elos de um processo geral de degradação. Assim, um movimento circular ou mudança regressiva, pode ser uma “parte” (elos no processo mais amplo de desenvolvimento), mas como “todo”, o movimento circular e regressivo não são desenvolvimento. O movimento circular, sendo uma parte de um todo mais geral, manifesta-se ele próprio como sendo possuidor de suas próprias partes. Deste modo, enquanto os metafísicos reduzem toda mudança, inclusive o desenvolvimento, a uma única forma de movimento: o simples deslocamento dos corpos no espaço, autores como Kalsine, Fourman e Molodsov, dizem ser, toda mudança, inclusive o simples deslocamento dos corpos, um desenvolvimento.

A idéia é equivocada, pois dialético não é o que vê o desenvolvimento onde ele não

existe, mas sim o que representa a realidade em toda sua diversidade, sem confundir progresso e regressão, aquele que vê na massa das mudanças o que intervém no desenvolvimento – o movimento progressivo, apesar dos aparentes retornos para traz termina por aparecer (p.171).

A especificidade do desenvolvimento é constituída não pela integridade, o caráter

lógico ou a espontaneidade das mudanças das formações materiais, mas pelo caráter progressivo das mudanças, pela passagem do inferior ao superior, do menos perfeito ao mais perfeito. Esse é o caráter que os clássicos do marxismo tomaram como desenvolvimento. Mas, afirmando que toda mudança não é desenvolvimento e que, ao lado do desenvolvimento observamos movimentos circulares e mudanças regressivas, não estaremos pondo em dúvida a universalidade do desenvolvimento? Não. O desenvolvimento é uma propriedade universal da matéria, trata-se, contudo, de uma capacidade que só aparece em condições adequadas. (p.174). Onde essas condições reúnem-se há NECESSARIAMENTE, mudança do inferior ao superior. Vale ressaltar ainda, que formações materiais que participam do movimento circular ou sofrem mudanças regressivas não perdem a capacidade de passar do inferior ao superior.

A RELAÇÃO

As diferentes formações materiais, sendo sistemas de movimento estáveis, não coexistem de modo justaposto, mas agem umas sobre as outras, provocando mudanças mútuas e encontrando-se, assim, em correlação e interdependência determinadas. Nesse sentido, o conceito de “relação” é mais abrangente que o de “ligação”. A relação não engloba apenas a simples ligação entre fenômenos, mas também seu isolamento, sua separação e relativa autonomia que pode assumir. A ligação é uma relação entre dois fenômenos quando a modificação de um supõe certa transformação do outro. Exemplo: o movimento do corpo está organicamente ligado à sua massa, pois que a modificação do primeiro acarreta necessariamente modificação na segunda. O isolamento (separação) é uma relação entre os fenômenos da realidade feita de tal forma que as mudanças de um deles não afetam os outros fenômenos, não acarretam mudanças nesses últimos. Fenômenos como a natureza biológica do homem e a luta de classes, as jazidas de carvão e de ferro, etc., não estão ligados entre si, portanto, a modificação de um não modifica o outro. Contudo, é necessário dizer que nem tudo está totalmente correlacionado, mas também não está totalmente isolado. O fato é que em certos casos, a correlação está em primeiro plano, enquanto em outros é o isolamento que está. No mundo, todos os fenômenos estão ao mesmo tempo, ligados e isolados, ou seja, estão ligados sob certas relações e isolados sob outras. O núcleo atômico, por exemplo, está organicamente ligado à camada eletrônica, embora esteja, ao mesmo tempo, separado dela (isolado). Nesse núcleo produzem-se modificações que acarretam modificações na camada eletrônica e outras que não afetam a camada. A formação material está indissoluvelmente ligada ao meio, mas ao mesmo tempo separada (um organismo, por exemplo). Eis a unidade da ligação e da separação. As idéias de separação, isolamento e correlação dos fenômenos remontam ao nascimento da filosofia. Nas teorias dos primeiros filósofos gregos, a correlação era compreendida como a passagem dos fenômenos uns nos outros. Mas logo depois,

Empédocles e Anaxágoras vislumbraram a correlação como sendo junções e disjunções “mecânicas” de elementos invariáveis. Somente Aristóteles, posteriormente, superaria esse ponto de vista limitado, dizendo que a correlação é a interdependência das coisas. Ele foi o primeiro filosofo a guindar ao patamar de categoria o conceito de relação, dando a ele um caráter geral e necessário. Kant voltaria a utilizar a categoria relação desenvolvendo-a, destacando que a ligação e a separação são dois aspectos que estão em qualquer relação. Ex: O lobo é um animal, está, portanto, de certa forma ligado aos animais, posto que É um animal, mas também É um lobo. Está ligado ao geral “animais”, mas também separado de todos os outros animais, ao ligar-se ao particular “lobo”. Vale lembrar que em Kant, todas as categorias, sem exceção, advém do subjetivo. Do mesmo modo, Hegel afirmava que tudo estava em relação, mas sob suas premissas idealistas. Os metafísicos (séc. XV e XVI) postulavam por seu turno, a idéia de isolamento absoluto e negavam a correlação. Nesse momento da história, deixou-se de lado o estudo do mundo em seu conjunto para o estudo das partes, dos objetos particulares e suas propriedades. Distinguiam-se os objetos uns dos outros e dissecavam-nos em partes sem conceber seus laços (Bacon, Locke, etc.).

Espaço e tempo

A matéria, que possui um movimento absoluto e um repouso relativo, existe não só sob a forma de massa totalmente homogênea, mas divide-se em um conjunto de formações materiais particulares. Cada formação material particular, enquanto parte do mundo material, possui certa extensão e está em correlação, de uma maneira ou de outra, com outros objetos e formações materiais particulares que a rodeiam. A extensão das formações materiais particulares e a relação entre cada uma delas com as outras formações materiais que a rodeiam constitui o espaço. A duração da existência das formações materiais e a relação de cada uma delas com as formações anteriores e posteriores é o tempo. Os idealistas negam a existência do tempo e do espaço, alguns deles apregoam inclusive, a inexistência do espaço e do tempo fora de nossas sensações. O tempo para Berkeley, por exemplo, é nada fora da sucessão de idéias no espírito. Para Kant, o espaço não é uma propriedade das coisas e nem existe em si mesmo. É subjetivo. Já para o materialismo dialético, o espaço e o tempo são propriedades fundamentais da matéria. O universo escreve Lênin, é apenas matéria em movimento e essa matéria em movimento só pode mover-se no espaço e no tempo. Assim, o espaço e o tempo são propriedades fundamentais da matéria, estão, portanto, organicamente e necessariamente ligados à matéria. Muitos filósofos acreditavam que embora existissem objetivamente, espaço e tempo poderiam existir independentemente da matéria, tal como um recipiente. Tais opiniões são expostas por Archytas de Tarente, Demócrito, Aristóteles e modernamente Newton, com sua teoria do espaço absoluto, um dos pilares da mecânica newtoniana. Trata-se de um espaço imóvel, eterno e imutável, com as coisas particulares movendo-se NO espaço. Pensadores como Giordano Bruno, Spinoza, Locke e alguns materialistas pré-marxistas, tentaram ligar organicamente o espaço à matéria, mas somente o materialismo dialético superaria as concepções metafísicas.

Para o materialismo, o espaço, não está só organicamente ligado à matéria, mas também depende igualmente da matéria e não é o mesmo para todos os corpos, o espaço também muda de uma forma de existência a outra. (pág. 184). Exemplo disso são os gases com atração molecular menor e os líquidos, com atração maior, conformando relações espaciais diferentes. A teoria da relatividade contribuiu para a ancoragem do espaço às formações materiais, atestando que as características espaciais dependem da divisão e do movimento das massas em atração, dependem, portanto, da densidade da matéria e de suas forças de atração (campos de gravidade).

O tempo, assim como o espaço, está organicamente ligado à matéria, depende dessa

ou daquela forma de sua existência. Ex: pela teoria da relatividade, o decorrer do tempo,

seu ritmo, depende da densidade da substância desse ou daquele sistema e das forças de atração que agem entre os corpos dados: quanto mais a densidade da substância é elevada, tanto mais lentamente corre o tempo. Destaca-se, que a dependência do espaço e do tempo

com relação à matéria

A determinação do espaço e do tempo pelas formas concretas de

existência da matéria decorre do fato de que o espaço e o tempo estão ligados ao movimento. Mesmo ao movimento mecânico. Exemplo disso é que a distância percorrida por um corpo em movimento uniforme é

determinada pelo produto do tempo, pela velocidade. A distância é a medida do espaço; a velocidade, a medida do movimento. Assim, o espaço é, aqui, determinado pelo movimento e pelo tempo.

Se o espaço e o tempo estão ligados ao movimento, e se o movimento é um atributo

da matéria, o tempo e o espaço estão, no entanto, organicamente ligados à matéria, dependem das formas de seu movimento.

A característica do espaço é a de ser tridimensional. A representação das três

dimensões do espaço é dada por três linhas perpendiculares uma a outra, passando por um único e mesmo ponto no espaço. Uma delas vai da esquerda para a direita, a outra de cima

para baixo e a terceira da frente para trás. Esses três eixos são totalmente suficientes para que possamos, deslocando-nos paralelamente a eles, atingir qualquer que seja o corpo e localizá-lo no espaço. Filósofos idealistas como Zelner, propalarão a idéia de 4 dimensões, justificando tal fato pela idéia de que tal como (supostos) seres de 2 dimensões não podem conceber uma terceira, também estes não podem adentrar a 4. A quarta dimensão justifica a idéia de Deus,

A discussão de quarta dimensão da física nada tema ver

tal como eventos sobrenaturais com isso

O SINGULAR, O PARTICULAR E O GERAL

Em primeiro lugar, devemos destacar que são as propriedades e ligações que são próprias apenas a uma formação material dada e que não existem em outras formações materiais que constituem o singular. Trata-se de uma forma particular do movimento da

matéria. Assim, em cada formação material, ao lado do singular (do que não se repete), há o que se repete (o geral). Assim, o singular e o geral não existem de maneira independente, mas somente por meio de formações materiais particulares (do particular), é por isso que cada formação material representa a unidade do singular e do geral.

A correlação do singular e do geral no particular (na formação material) manifesta-

se como correlação de aspectos únicos em seu gênero (singular) e aspectos que se repetem

nesse ou naquele grupo de outras formações materiais (gerais). Vale destacar, que o que é singular pode se tornar geral, e este, singular. Contudo, quando se pensa na correlação do

particular e do geral, isto é, do todo (do particular enquanto todo) e da parte (do aspecto geral enquanto parte que compõe a formação material), temos que todo o particular (formação material) entra de modo incompleto no geral, já que possui também aspectos singulares, únicos. Isto equivale a dizer que nenhuma formação material pode “diluir-se plenamente no geral”. Mas, em condições adequadas, determinada formação material pode se transformar em outra. Assim, cada particular (cada formação material) possui, em potencial, propriedades de outras formações materiais (nas quais pode se transformar). Esse potencial

é um dos aspectos gerais. Que nos permite ver o geral no particular.

O geral e o particular

Se analisarmos o “singular” e o “geral” de um objeto, o que evidenciaremos são as propriedades e ligações únicas a esse objeto e as que se repetem em outros (geral). Mas se o que se quer é evidenciar é a semelhança e a diferença entre objetos, devemos confrontar o geral ao particular e não o geral ao singular que está num objeto dado. O singular apresenta-se sempre como particular, pois, sendo próprio apenas a uma formação material dada, ele a distingue de qualquer outra formação material. Assim, um fenômeno único, tal como a instauração do poder dos Sovietes, pela primeira vez na URSS, representará sempre o particular para a URSS e marcará a diferença entre ela e qualquer outro país. O singular pode desempenhar seu papel de caracterizar o singular de uma formação material. Mas quando ele encarna o geral, isto é, quando os aspectos singulares, em verdade, alinham em semelhança os objetos, as formações materiais, ele as une. O singular pode então representar aspectos gerais (o geral), mas, quando as distingue das outras, desempenha o papel de particular.

“O fato, por exemplo, de que a ditadura do proletariado na Bulgária existe sob a forma de democracia popular constitui o geral se compararmos esse país com a Polônia, com a RDA ou mesmo com a Hungria; e, ao mesmo tempo, se compararmos a Bulgária com a URSS, esse mesmo fato tornar-se-á o particular, o regime da democracia popular distinguindo então a Bulgária da URSS, onde a ditadura do proletariado afirma-se sob a forma de República dos Sovietes” (p. 197).

Para desempenhar a função de particular, o geral deve poder distinguir as formações materiais umas das outras, mas não é todo geral que é capaz de fazê-lo, pois há propriedades e ligações comuns (causa, conteúdo, forma, etc.) a todas as formações materiais que não podem distinguí-las umas das outras. Abarcando todas as formações

materiais, o geral não pode assumir o papel de “particularizador”, não pode distinguí-las. É por isso que cada formação material representa a unidade do geral e do particular, isto é, a unidade do que a identifica a outras formações materiais, assim como a unidade do que

a distingue.

A Correlação do Geral e do Particular no Momento do Movimento da Matéria do Inferior para o Superior (p. 199).

A forma superior do movimento da matéria encerra em si a forma inferior, ainda

que anulada. Há, portanto, traços gerais a ambos os movimentos. Contudo, são traços comuns diferentes daqueles que existem em formações materiais que estão na mesma etapa de desenvolvimento, pois são traços refletidos nas categorias através da

especificidade das novas características adquiridas pelas novas formas superiores de movimento.

A molécula contém átomos, portanto, essas duas formações possuem traços comuns.

Ambos possuem partículas elementares, as mesmas decerto (elétrons, ânions, etc.). O fato é

que no átomo as interações ocorrem no próprio átomo, enquanto que na molécula ela ocorre indiretamente, “refletida” mediante a interação entre os átomos. Do inferior ao superior guardam-se características, mas estas são reflexos. Manifestam-se diferentemente a posteriori. (No caso do caminho percorrido de um átomo até um organismo, ou seja, mais complexo do que a molécula) a manifestação “refletida” deste traço será mais modificada ainda.

É por isso que é difícil, a partir desses traços gerais apenas, exprimir a essência das formações materiais, porque esses traços se modificam e só se mantém modificadamente, de forma anulada, nas formações materiais superiores. Exprimem, portanto, apenas a existência da continuidade de uma formação material a outra. Esses traços deixam de lado o que foi ganho pela formação material na sua evolução, o diferencial adquirido em seu desenvolvimento.

Já a correlação entre o geral e o particular nas formações materiais que pertencem a

um único e mesmo estágio do desenvolvimento apresenta um aspecto algo diferente, com o geral constituindo a essência, isto é, o que foi adquirido no desenvolvimento. Deste modo, o geral (os traços gerais que aqui discutimos) que existe em formações materiais em estágios de desenvolvimento diferentes, não demonstra a essência dessas formações, a comparação entre elas não deve se dar mediante esse geral, mas através de suas particularidades (Ex: não se compara o Estado capitalista com o Estado socialista por seus aspectos gerais, mas sim pelos aspectos particulares adquiridos ao longo do desenvolvimento).

A QUALIDADE E A QUANTIDADE

Conceitos de Qualidade e Quantidade.

O que distingue uma coisa de outra ou mostra sua semelhança é uma propriedade.

Há diversas propriedades que podem representar aspectos qualitativos ou quantitativos.

Tanto a categoria qualidade como quantidade, reflete a semelhança (geral) e a diferença (particular e singular). Embora defendida por muitos autores, a definição de qualidade como determinismo interno da coisa não coloca em evidência o conteúdo da categoria considerada, não a distingue devidamente. O determinismo interno de uma coisa deve compreender suas qualidades, assim como seus aspectos quantitativos, isto é, suas características de modo abrangente. Contudo, a idéia de determinismo interno não é capaz de distinguir a categoria de qualidade da de essência e de conteúdo, uma vez que estas duas últimas também refletem o determinismo interno da coisa. Igualmente, não consegue definir a qualidade, pois a qualidade não é apenas aquilo que distingue uma coisa de outra, mas algo que assemelha

uma coisa com outra, ou seja, representa tanto o singular (que não se repete) como o geral (o que se repete). Assim, tanto qualidade quanto quantidade refletem tanto a semelhança quanto a diferença nas formações materiais. Cabe à categoria de particular e de singular, refletir a diferença nas coisas e não a de quantidade, do mesmo modo que o reflexo da semelhança é conteúdo da categoria do geral e não da quantidade. Também não é exato definir qualidade como propriedade fundamental, propriedades essenciais, pois nem a qualidade, nem a quantidade podem ser unicamente atreladas à essência ou ao fenômeno, respectivamente. Mais exato é definir a qualidade como o conjunto das propriedades que indicam o que uma coisa dada representa e a quantidade como o conjunto das propriedades que exprimem suas dimensões, sua grandeza. Daí que a qualidade e a quantidade sejam próprias, mais detidamente, às coisas. Apesar disso, mesmo algumas propriedades de uma coisa (processos pelos quais a coisa passa), podem ter qualidade e quantidade, vide o caso da água: uma de suas propriedades é dissolver o sal. A dissolução e o que ela representa, representam uma qualidade. A quantidade de sal que a água pode dissolver representa sua quantidade. Uma pergunta recorrente entre os pensadores soviéticos indaga se uma coisa possui uma ou várias qualidades. Decerto, se a qualidade de uma coisa é um conjunto de propriedades, a resposta seria: uma só qualidade. Contudo, a coisa não pode, em todas as condições, manifestar todas as suas propriedades, pelo contrário, em certas condições e relações que estabelece, a coisa representa isso ou aquilo. O fato é que, devido às diferentes relações que a coisa estabelece, ela manifestará apenas algumas de suas propriedades, e mais, essas propriedades podem não ter nada a ver com sua qualidade particular e fundamental. Isso, todavia, não impede que esta coisa seja considerada a partir da qualidade dessas propriedades não-essenciais. As mudanças qualitativas aparecem apenas no momento em que as mudanças quantitativas saem dos limites de uma medida dada. Ao sair do limite da medida, não se comportam caoticamente, ao contrário, mostram-se “ligadas”, em interdependência processual, deflagrando em uma nova medida. É o caso do gelo quando atinge 0 grau:

inicia a passagem para a água. A passagem de um estado qualitativo a outro, que é também a passagem de uma medida a outra foi categorizada por Hegel como o “nó” de uma “linha nodal de transformação”. Portanto, a matéria se desenvolve pelo desatamento ininterrupto de “nós” e criação de outros, pelo resultado de certas mudanças quantitativas que levam a mudanças qualitativas. A qualidade nova, decorrente das mudanças quantitativas, não é passiva com

relação a esses aspectos quantitativos que a determinaram

dupla”, na qual essa qualidade nova influencia também os aspectos quantitativos que a

Trata-se de uma “via de mão

determinaram. Ex: uma interação peculiar das moléculas que caracterizam o estado gasoso da água (a nova qualidade “gasosa” da água) condiciona o volume da água (aspecto quantitativo).

A afirmação de que a qualidade precede logicamente a quantidade é correta. No conhecimento, o homem foi historicamente do conhecimento da qualidade à colocação em evidência, à tomada de consciência da quantidade. Mas isso não quer dizer que as mudanças qualitativas não são conseqüência de mudanças quantitativas. No conhecimento, somos, às vezes, obrigados a ir em sentido contrário ao da realidade. Aristóteles já havia revelado esse fenômeno indicando que o primeiro, na realidade, é o último no conhecimento e vice-versa, o primeiro no conhecimento é o último na realidade. (pág. 215).

Na realidade objetiva o processo se dá das mudanças quantitativas às mudanças qualitativas (da causa ao efeito), enquanto no conhecimento, vamos da análise da qualidade

à quantidade das formações materiais (do efeito à causa), esta “inversão” não quer dizer

que haja uma disjunção entre o conhecimento e a realidade objetiva, mas justifica a existência de leis que são próprias apenas ao conhecimento, para a apreensão e investigação da realidade. Não obstante, o desenvolvimento do conhecimento segue as mesmas leis do desenvolvimento do mundo objetivo.

Salto. Tipos de saltos

Mudanças qualitativas são, habitualmente, lentas e progressivas, dissimuladas e contínuas; as mudanças qualitativas, ao contrário, são bruscas, evidentes, constituindo uma ruptura, sendo denominadas de saltos. O salto é o processo de passagem de uma coisa de um estado qualitativo a outro mediante uma ruptura de continuidade. Há dois tipos de saltos: o de ruptura e do de acumulação gradual de elementos da nova qualidade e enfraquecimento da antiga. O salto-ruptura se dá brutalmente e afeta toda a qualidade em seu conjunto, seus aspectos e ligações (Ex: revolução armada, etc.). O salto mediante acumulação gradual é mais lento, com a transformação da qualidade se dando aos poucos.

A mudança da qualidade fundamental e não-fundamental da coisa produz-se sob a

forma de saltos, mas o salto que faz mudar a qualidade fundamental transtorna a essência

da formação material (forma revolucionária de salto), gerando uma nova essência, já o salto não-fundamental determina mudanças apenas no quadro de sua essência, isto é, sem transformá-la (forma evolucionista de salto).

A passagem direta de uma formação sócio-econômica a outra é um exemplo de

revolução, a passagem do capitalismo pré-monopolista ao capitalismo monopolista exemplifica a evolução. Revolução e evolução distinguem-se não pela forma como se dá a

mudança, mas pela profundidade da transformação, pela destruição radical da essência que

a revolução proporciona. Embora os conceitos de evolução e revolução sejam universais, adquirem especificidade em cada domínio da realidade objetiva: na natureza a revolução é um salto que destrói o antigo fundamento qualitativo (essência), na sociedade, a revolução será a passagem que engendra formações (formações econômicas e sociais) mais perfeitas

(complexas). Neste sentido, a contra-revolução representa a passagem de uma formação mais perfeita a uma menos perfeita.

A evolução, aplicada à sociedade, representa a mudança qualitativa no quadro da

essência da formação social, trata-se do reformismo. Com relação a isso, nos diz Lênin que:

A ciência histórica nos diz que o que distingue uma mudança reformista de uma mudança não-reformista em um regime político dado é, em geral, que, no primeiro caso, o poder permanece nas

mãos da antiga classe dominante, e que, no segundo caso, o poder

Seria

absolutamente falso pensar que, para lutar diretamente em favor da

revolução socialista, possamos ou devamos abandonar a luta pelas reformas. Não é isso absolutamente. Nós não podemos saber em quanto tempo alcançaremos o sucesso e em que momento condições objetivas permitirão o acontecimento dessa revolução. É preciso que sustentemos qualquer melhoria, toda melhoria real da situação econômica e política das massas. (Lênin apud Cheptulin p. 221)

passa das mãos desta classe para uma nova (

).

O cientista e o planejador que intervém sobre a matéria, devem escolher a melhor

forma de salto, correspondente às condições concretas dadas na realidade objetiva, devendo ter em conta que estas condições concretas mudam independentemente da vontade humana, podendo ser contingentes do ponto de vista da capacidade humana de apreender a realidade.

O próprio Lênin viu-se obrigado a mudar suas considerações devido a forças

conjunturais. Inicialmente, Lênin apregoava em suas teses, a impossibilidade de passagem ao socialismo por via pacífica, mas após fevereiro de 1917 na Rússia, a dualidade de poder , na qual vira-se frágil a burguesia russa, ele passa a aceitar a idéia de passagem pacífica do proletariado ao poder (também havia se modificado a composição dos sovietes, excluindo os mencheviques e os S. R.s de direita). Mas com o passar do tempo, os mencheviques tornaram-se meros valetes da burguesia, a dualidade de poder termina e todo o poder vai para a burguesia. Nestas condições, só a revolução armada resolveria. Posteriormente, as teses sobre a revolução armada passariam por revisões durante os Congressos do PCUS, já que as condições socioeconômicas sob o capitalismo mudaram.

A CAUSA E O EFEITO (p.224)

A evolução dos conceitos de causalidade na filosofia pré-marxista.

Para os pré-marxistas, a idéia de causa ainda não se distinguia do apeiron e consecutivamente, assume a forma de água (Thales), ar (Anaxímenes) e de fogo (Heráclito), etc. Em Platão, a causa seria o fator de gênese das coisas particulares, com cada coisa particular aparecendo devido à interação do não-ser (matéria) com o limite (categoria platônica que expressa a limitação matemática). Aristóteles por seu turno, agrupa esses fatores em 4 tipos de causa: 1. a material; 2. a formal; 3. a produtiva ; e 4. a finalista. O exemplo dado por Aristóteles é o da construção de uma casa, na qual o material de construção é a causa, o plano o elemento formal, o

elemento produtivo o trabalho do arquiteto e a causa finalista o objetivo alcançado.

Utilizando a teoria do Estagirita, a filosofia da Idade média encontrou sustentabilidade para a criação divina do mundo.

A concepção metafísica de que cada fenômeno que desempenha o papel de causa e

efeito tem, por sua vez, sua causa em outros fenômenos foi recusada por Hegel, o qual propôs uma solução dialética, na qual causa e efeito estão em interação. Uma interação

dialética, neste caso.

“Na concepção hegeliana, a causa, sendo uma substância ativa, age sobre a substância passiva e acarreta nessa certas mudanças que produzem nela um efeito. A substância passiva exerce uma ação de retorno e anula, dessa maneira, a ação da substância ativa e, assim, de substância passiva ela transforma-se em substância ativa e começa a interferir em relação à primeira substância ativa como alguma coisa de inicial, isto é, como causa” (p. 228).

É mediante a interação que a causa e o efeito assim “passam um pelo outro” e

mudam de lugar. Assim, para se conhecer um fenômeno, o conhecimento de sua interação é

basilar, posto que ao desvendá-la, desvendamos a causa, o efeito e a natureza dos dois fenômenos e elementos que interagem.

A concepção marxista da causalidade

A definição pré-marxista da causalidade, ao concebê-la como fenômeno (causa como fenômeno) que condiciona outro (efeito) é insuficiente, pois reduz a causa do fenômeno unicamente a acontecimentos externos (o fenômeno expressa o externo, à superfície da formação material). O materialismo dialético não nega a ação exterior (de corpos sobre outros corpos) e sua capacidade transformadora (de transformar fenômenos submetidos à ação), mas aprofunda tais idéias, destacando a capacidade de cada fenômeno em conter em seu imo a causalidade. Assim, reduzir os laços de causa e efeito às ligações exteriores é reluzi-los às ligações dos aspectos e propriedades exteriores. Em verdade, o laço de causa e efeito não se reduz ao domínio dos fenômenos, mas igualmente, aos aspectos internos e necessários, à essência, bem como à correlação do interno com o externo, da essência com o fenômeno. Assim:

“Parece-nos mais correto definir a causa como a interação de dois ou mais corpos, ou ainda, como a interação de elementos ou

aspectos de um mesmo corpo acarretando certas mudanças nos corpos, elementos ou aspectos, agindo uns sobre os outros e o efeito como as mudanças surgidas nos corpos, elementos e aspectos agindo uns sobre os outros, em decorrência de sua interação. Foi precisamente assim que os fundadores do materialismo dialético e,

em particular, Engels, definiram a causa: '( A ação recíproca é a verdadeira causa finalis das coisas. ' p. 231.

)

A interação conduz assim à transformação dos corpos ou aspectos em interação, assim como ao aparecimento de novos fenômenos e à passagem de um estado qualitativo a outro. Por exemplo, a interação das classes antagônicas condiciona o aparecimento do Estado, a mudança do sistema social e de estado e a passagem da sociedade de uma formação sócio-econômica a uma outra. Do mesmo modo, a causa da incandescência do filamento de uma lâmpada não é a corrente elétrica em si, mas a interação da corrente elétrica com a substância da qual é feito o filamento. Mesmo os partidários do materialismo mecanicista, que apresentam a idéia de causa como ação mecânica de um corpo sobre outro, foram obrigados, quando da elaboração de sua teoria da causalidade, a levar em conta a retroação do segundo corpo sobre o primeiro. O efeito nada mais é do que a mudança surgida a partir da interação.

Causalidade e Necessidade

Mesmo os fenômenos contingentes têm causas que os produzem, mas a ligação desses fenômenos (efeitos) com as causas que os engendraram não são contingentes. Há uma interação necessária entre causa e efeito, seja em fenômenos contingentes (que podem ou não vir a existir), ou em fenômenos necessários (cuja existência é imperiosa). A destruição das sementes pelo granizo é reconhecida como contingente porque o granizo em determinada época do ano é o resultado do acaso. Mas uma vez ocorrido, a interação do gelo com os organismos vegetais (causa) condiciona NECESSARIAMENTE a destruição destes organismos. Isto quer dizer que os fenômenos podem ou não entrar em interação (contingente), mas ao entrarem, a interação ganha caráter necessário. No entanto, físicos como Mário Bunge persistiram na idéia de que o laço de causa e efeito é contingente, baseando-se na experiência da difração de elétrons através da dupla fenda*, a qual demonstra que o laço de causa (elétrons idênticos em movimento) e o efeito (impacto no écran) não é necessário, pois as mesma causa e as mesmas condições, neste caso especial, acarretam efeitos diversos (os elétrons impactam o écran em pontos diferentes, não seguem, portanto uma trajetória balística Contudo, para o materialismo dialético, Bunge está incorreto em sua dedução. O fato de os elétrons terminarem em pontos diversos do écran não exclui o caráter necessário do laço de causa e efeito: embora os elétrons estejam em interação com um mesmo objeto (o diafragma com as fendas), essas interações não são idênticas, o que dá a entender que ocorrem mudanças na trajetória, uma vez que cada elétron não está em interação nem com o mesmo objeto, nem com o mesmo meio na escala atômica. Daí as causas e os efeitos não corresponderem a princípio. Mas o laço de causa (interação do elétron com o ambiente) e efeito (queda em um ponto do écran) é necessário.

“ O materialismo dialético não entende por causa o objeto, a coisa, mas a interação dos objetos, das coisas ou dos elementos e dos aspectos que formam o objeto, a coisa; e, por efeito, as mudanças surgidas nos corpos, nos elementos e nos aspectos em interações. Uma mesma interação, em condições apropriadas, não acarreta mudanças diferentes, mas apenas idênticas”.

Assim, há em cada objeto, a potencialidade para uma gama de efeitos diversos, mas isso não significa que todos esses efeitos advirão de uma mesma causa. Há várias causas, que deflagram em grande quantidade de efeitos. Isso não exclui o caráter necessário do laço interacional de causa e efeito. Mas, se todo fenômeno está ligado a uma causa genitora, não estamos colocando em dúvida o contingente? É com base nesse argumento que o materialismo metafísico (positivismo, etc.) nega a existência do acaso. Contudo, os fenômenos, os corpos, não são a própria causa, não podem ser. O corpo não é a interação. Ademais, o reconhecimento da interação entre causa e efeito como necessária (necessariamente engendra um efeito, uma mudança), não conduz à negação da contingência, pois os elementos, as coisas, podem ou não entrar em interação. Eis seu caráter contingente.

O NECESSÁRIO E O CONTINGENTE

Os conceitos de Necessidade e de Contingência

Na filosofia antiga, há várias definições diferentes das categorias de necessário e de contingente, mas a idéia segundo a qual a necessidade existe apenas como possibilidade é falsa, pois os aspectos e as ligações necessárias existem não somente na possibilidade, mas igualmente na realidade. A presença de oito prótons no núcleo atômico do oxigênio e de um próton no átomo de hidrogênio é inevitável, necessária não só para os átomos que surgirão, mas para aqueles que existem. Alguns filósofos confundem a categoria de contingência com a de possibilidade. Quanto à contingência, já dissemos ser algo que pode vir a ser ou não, que passa a existir ou não. A possibilidade, em verdade, expressa aquilo que acontecerá uma vez satisfeitas as pré-condições de sua existência. O que liga a possibilidade à realidade são estas pré-condições, as quais, reunidas, necessariamente darão realidade ao que era apenas possibilidade. É mediante estes princípios da dialética materialista que o homem, ao longo de sua história pôde organizar a produção, congregando certos fatores com um objetivo futuro, isto é, planejar. Alguns autores identificam as categorias de “necessidade” e de “contingente” às categorias de geral e de singular. O geral, determinado por leis internas (essência) é necessário, mas não é todo geral que é necessário (Ex: o sal em várias gotas d’água como geral), ele pode ser contingente (pode existir em determinadas gotas, mas não noutras). Do mesmo modo que o geral não é idêntico ao necessário, o contingente também não é idêntico ao singular. O singular é único, o contingente pode se repetir e é condicionado por circunstâncias exteriores. Enquanto isso, o singular pode ser o efeito da interação de aspectos internos da formação material, com mudança qualitativa única (tornando assim algo singular, único), ao menos durante certo tempo. A causa do aparecimento do necessário está nele mesmo, a do contingente está em eventos exteriores. Assim, necessário e contingente estão ligados à causalidade e expressam o grau seguinte do aprofundamento humano do conhecimento da realidade.

A crítica das concepções idealistas e metafísicas da correlação da necessidade e da contingência. (p.246)

O problema da necessidade e da contingência foi objeto de estudos ao longo de toda

a história da Filosofia, ao longo da qual, diversas soluções foram apresentadas. Idealistas subjetivos como Santayana, negaram a existência da necessidade, como sendo apenas “um complô” de contingências. Também para Wittgenstein, apenas as contingências existem e para Walter Theimer, as contingências agem na história e excluem o determinismo, assim como a necessidade. Para Theimer, tudo depende das vontades subjetivas das pessoas. Outros autores negam a existência da categoria necessidade na natureza, outros criaram concepções idealistas da necessidade, com a necessidade sendo apenas um postulado, um

ponto de partida, mas que na verdade nada teria a ver com a realidade. Por tais concepções,

o homem não poderia explicar nenhum fenômeno real Contrariamente aos idealistas, os materialistas reconhecem a existência objetiva da necessidade e consideram-na como uma das propriedades fundamentais da natureza, mas divergem entre si com relação à existência objetiva da contingência. Materialistas pré- marxistas como Demócrito, Spinoza e Holbach, negavam totalmente a existência objetiva da contingência. Spinoza dizia que os homens chamavam de contingente aquilo que não dominavam. Para negar a contingência, recorria-se ao princípio da causalidade (causa e efeito), atribuindo a tudo uma causa necessariamente ligada a um efeito, assim não haveria fenômenos contingentes, pois todo fenômeno estaria ligado a sua causa. Esta ligação necessária (entre causa e efeito) é factível, mas isso não quer dizer que as causas sejam necessárias. As causas, igualmente, podem ser contingentes.

A interação das formações materiais ou de seus elementos, de seus aspectos, pode tanto ser contingente, isto é, devido a um concurso de circunstâncias, quanto necessária, em razão de sua natureza específica. Por exemplo, na sociedade capitalista, o fato de que o operário venda ao empregador sua força de trabalho e de que este seja explorado pelo último não é nem contingente, nem devido a um concurso de circunstâncias exteriores, é necessário: isso é necessariamente condicionado pelo modo de produção dominante na sociedade capitalista e pela situação econômica do proletariado e da burguesia, que é determinada por esse modo de produção, isto é, pela própria natureza dos aspectos em interação; e o fato de que o operário trabalhe justamente para esse capitalista e justamente com esses operários, e não com outros, é um fenômeno contingente.

A necessidade e a contingência não existem de forma separada, mas pertencem ao

mesmo fenômeno, podendo ter aspectos e ligações internas que determinam sua natureza (necessário) e outras que são externas e que ligam a formação material ao mundo exterior contingentemente. Mas o necessário e o contingente estão ligados e tem relação. A necessidade cria seu caminho por meio de uma massa de desvios contingentes que, exprimindo-a como uma tendência, introduzem no processo o fenômeno concreto, e uma grande quantidade de novos elementos que não decorrem da necessidade, mas que são condicionados por circunstâncias exteriores. É bem verdade, contudo, que devemos nos orientar pelas propriedades e ligações necessárias, mas como o necessário se manifesta mediante muitos desvios contingentes, é preciso estudar o contingente e por meio dele

apreender as tendências necessárias. A contingência é uma forma de manifestação da necessidade, mas também um complemento a ela, pois entra em interação com outras formações materiais, provêm de outras formações. No desenvolvimento da formação material, o contingente torna-se necessário e o necessário contingente, sendo tal fato visível na própria sociedade: no comunismo primitivo, tudo o que era produzido era consumido na comunidade, sendo a troca um fenômeno eventual e contingente. Mas com o desenvolvimento das forças produtivas e a geração do excedente, a permuta de produtos acentuou-se e as trocas tornaram-se necessárias.

A LEI

A lei representa uma ligação necessária geral, uma ligação própria a vários fenômenos, sendo aquilo que se manifesta necessariamente, nas condições apropriadas, muito embora nem todas as ligações necessárias sejam leis. A lei existirá até que tenha se dissipado o movimento da matéria ou do pensamento do qual faz parte. As leis, em geral, manifestam-se como ligações, relações, mas a forma de manifestação varia, pois há leis que atuam somente em cada formação material (leis dinâmicas) podendo prever o surgimento de fenômenos e seus estados futuros, já outras atuam na massa dos fenômenos (leis estatísticas), como por exemplo, as leis da mecânica quântica, da qual não podemos definir o movimento de cada partícula, nem prever o desfecho de seu movimento, a não ser mediante probabilidades. Vale destacar que uma mesma lei pode ser geral ou particular, dependendo das condições, tal como as próprias categorias de geral e de particular o são, mas, para além destas, há também as chamadas leis universais, isto é, aquelas que sob quaisquer relações ou circunstâncias são gerais, próprias a quaisquer domínios da realidade, em relação elas,

todas as outras são particulares. As leis universais são estudadas pela filosofia, enquanto as particulares o são pelas ciências particulares. Leis gerais podem se manifestar pelas particulares quando ambas são concernentes às mesmas relações, mas há leis gerais e particulares que concernem a ligações diferentes, agindo então uma ao lado da outra e não mediante a outra. Pelo fato de que, quando da passagem da matéria de um estágio de desenvolvimento a outro, relações e ligações novas aparecem nas novas formações materiais, ao lado das antigas leis que agiam nas formações materiais dos estágios inferiores de desenvolvimento, leis específicas novas também entram em jogo, com o nascimento de novas ligações e relações específicas. As novas leis são específicas em relação às antigas leis, que passaram para as novas formações materiais graças à sobrevivência de antigas relações e ligações, agindo apenas nas novas formações materiais (grau superior do desenvolvimento), enquanto que as antigas leis, que são mais gerais, agem também nas formações materiais de todos os estágios inferiores de desenvolvimento. As novas leis não podem ser uma forma

Estas são as premissas da relação entre as leis gerais e

de manifestação das antigas

especificas nas ciências particulares, mas e quanto à correlação entre as leis da dialética e as leis das ciências particulares?

As leis da dialética são universais e só se manifestam por meio de outras leis que são particulares em relação a elas, exemplo disso é a lei dialética da passagem da qualidade para a quantidade, que só pode agir por meio de fenômenos concretos. Contudo,

o conhecimento desta ou daquela lei da dialética é insuficiente para orientar esse ou aquele processo concreto, sendo necessário conhecer as leis específicas, particulares que regem o dado processo. Não obstante, as leis da dialética só se manifestem mediante leis específicas no concreto, elas possuem um conteúdo concreto: tudo aquilo que se repete, exatamente nas leis e processos particulares de que tratamos, é o conteúdo das leis da dialética.

O CONTEÚDO E A FORMA

Para definir o conteúdo, devemos transcender a idéia de que se trata de simples conjunto de elementos e aspectos desprovidos de vitalidade que constituem uma coisa, sendo que trata-se de algo processual, com aspectos e elementos em interação constante. Esse movimento permanente, instável, é o conteúdo, representando sempre o individual, incluindo em si o geral e o singular, representando assim, a unidade do necessário e do contingente, enquanto que a essência é o que permanece na coisa, o que é estável, representando o geral na coisa. A essência é o necessário na coisa. No objeto, tanto o fundamental quanto o não-fundamental possuem um conteúdo e uma forma, sendo que nos objetos não há nada que não se relacione ao conteúdo e a sua forma, do mesmo modo que tanto no interior como no exterior da coisa há conteúdo e forma. O interior é o necessário na coisa e se manifesta por desvios contingentes, refletindo-se na categoria de “essência”, enquanto estes próprios desvios contingentes, isto é, o contingente, reflete-se na categoria de “fenômeno”. A especificidade da categoria de “conteúdo” é a de refletir o conjunto de processos da coisa. No conteúdo de uma formação material, entram assim, processos que se dão no seu interior, mas também aqueles que este estabelece com o exterior, já que nada está em perfeito isolamento no mundo. Específico da categoria “forma” é refletir o laço entre os elementos, trata-se da estrutura do conteúdo e, portanto, remete tanto à essência quanto ao fenômeno. Toda forma está organicamente ligada ao conteúdo, dependem, portanto, um do outro, sendo o papel determinante dado pelo conteúdo, ou seja, o conteúdo determina a forma e mudanças no conteúdo, acarretam mudanças nas formas, mas a forma não é passiva, ela reage sobre o conteúdo, intensificando seu desenvolvimento ou refreando-o. A forma também é um sistema relativamente estável de ligações de elementos do conteúdo, ligando-se, portanto, ao repouso relativo, o que significa que ela permanece estável por um tempo relativamente maior. De início, as mudanças do conteúdo (mais constantes e contínuas) não ameaçam a forma, antes, dão-se no quadro da mesma, mas posteriormente, há um ponto em que a forma começa a entravar o desenvolvimento do conteúdo. É o momento no qual a forma deixa de corresponder ao conteúdo e o conteúdo novo destrói a antiga forma, gerando uma nova. Passa-se a outro nível qualitativo pela destruição da antiga forma, que corresponde à transformação qualitativa radical do conteúdo. Trata-se, assim, de uma nova forma e um novo conteúdo que se manifesta na formação material.

PARTE E TODO, ELEMENTO E ESTRUTURA

As leis da correlação das partes isoladas com o todo refletem-se nas categorias de “parte” e de “todo”, já as leis da correlação das partes entre elas mesmas, refletem-se nas categorias de “elemento” e “estrutura”. A parte é o objeto (processo, fenômeno, relação) que entra na composição de um outro objeto (processo, fenômeno, relação) e que se manifesta na qualidade de momento de seu conteúdo. O todo representa o objeto (processo, fenômeno), possuindo propriedades que não se reduzem às propriedades das partes que o constituem. Cada formação material representa um todo constituído de partes bem definidas, sendo o desmembramento da formação material em partes uma condição necessária de sua existência enquanto todo, possuindo uma natureza e uma essência próprias, enquanto que a correlação de suas partes com o todo é uma condição necessária de sua existência enquanto partes, tendo uma essência especifica. Teve-se ter em conta que sem estrutura não há todo, uma vez que esta designa a forma da união e da correlação dos elementos do todo. O conceito de elemento designa os componentes do todo que se encontram entre eles em uma certa correlação e interdependência. A correlação desses ou daqueles objetos, que forma o todo e torna-se sua estrutura, transforma simultaneamente em partes do todo e em elementos da estrutura correspondente. Entretanto, os conceitos de elemento e de parte não são idênticos. Um objeto torna-se elemento somente depois de sua entrada em uma ligação correspondente que forma um todo. O mesmo se dá com a parte. Mas onde está a diferença entre o elemento e a parte? Os elementos manifestam seu conteúdo específico na relação com a estrutura, sistemas de ligações que entre eles se estabelecem, mas os elementos distinguem-se, não se confundem com essas ligações. Já o conteúdo das partes manifesta-se não nas relações que elas estabelecem entre si, mas na relação delas com o todo. O conceito de parte é, portanto, mais extenso do que o conceito de elemento. As partes do todo não são somente os elementos que se encontram em uma certa correlação, mas as próprias correlações entre os elementos, isto é, a estrutura. A estrutura é a concretização da categoria de forma, mas não exprime apenas a correlação, as leis da correlação do conteúdo e da forma, mas também as leis da correlação dos elementos do conteúdo entre eles.

A ESSÊNCIA E O FENÔMENO

A essência está no interior da coisa, mas o aspecto interior da coisa não é só a

essência, é também a causa, a necessidade e a lei, fatos que tornam necessária uma melhor qualificação da essência, para diferenciá-la destas outras categorias. A essência contém não apenas os aspectos fundamentais (categoria de fundamento), mas também os não- fundamentais, enquanto que o fenômeno é definido como o aspecto exterior, mutável, do objeto, no máximo exprimindo sua essência, (mas não coincidindo com ela) e podendo, inclusive deformá-la. A essência se manifesta mediante as interações do objeto em questão com outros objetos. Estes outros, por sua vez, influenciarão o primeiro com modificações em seu conteúdo.

Já o fenômeno, nunca pode ser como a essência, pois os fenômenos nunca nos

fornecem o conhecimento verdadeiro da essência, ademais, o fenômeno representa aspectos exteriores e que mudam constantemente, enquanto que a essência representa aquilo que é estável. Estável sim, imutável não. Mas a essência também faz parte do conteúdo do

fenômeno, ao lado dos aspectos exteriores e cambiantes. Exemplo de certa modificação da essência é a passagem do capitalismo pré-monopolista para o imperialismo.

O FUNDAMENTO E O FUNDAMENTADO

Por fundamento 1 deve ser entendida a relação determinante, o interior do todo estudado, é o momento mais profundo de sua essência. Em termos formais, o fundamento é igual ao fundamentado, é o que é determinante no interior da essência, enquanto o fundamentado é aquilo que foi determinado. É como dizer que, na qualidade de fundamento dos fenômenos elétricos, o fundamentado é a “força elétrica”, ou seja, há certo tautologismo, pois a representatividade conceitual do fundamento formal é fraca, aquilo que é expresso pelo fundamentado já seria suficiente para a descrição dos aspectos determinantes, como já fora dito por Hegel. É por isso que o fundamento formal está ligado aos graus iniciais do desenvolvimento do conhecimento, isto é, quando ainda não se tem a noção exata de que há uma cadeia de causalidades no desenvolvimento da matéria da qual aparece o fundamento real. É a partir do fundamento real que podemos explicar e destacar o fundamentado. Embora haja identidade entre o fundamento e o fundamentado, há diferenças, pois parte do conteúdo do fundamentado advém de circunstancias externas. O resultado disso é que o fundamentado possui grande quantidade de fundamentos reais opostos entre si, o que cria condições para o sujeito conhecedor do objeto, escolher arbitrariamente uns e ignorar outros. Isto, contudo, nos leva à necessidade de reunir todos os fundamentos e as propriedades que eles condicionam em um todo único e explicá-los a partir de um princípio único, passando assim a um novo fundamento, mais aprofundado (fundamento completo), capaz de explicar todo o conteúdo do fundamentado. Um exemplo prático para se entender o movimento do conhecimento, que vai do fundamento formal, ao fundamento real, até chegar ao fundamento completo é o desenvolvimento do conhecimento a respeito dos fenômenos elétricos Na Antiguidade, a eletricidade encontrada no âmbar era o fundamento dos fenômenos elétricos (identidade total entre fundamento e fundamentado), mas com o passar do tempo, outros fundamentos foram sendo encontrados no mesmo fundamentado (o fenômeno elétrico, como fundamentado, decorrente, a princípio do fundamento único “eletricidade”, possui outros fundamentos que às vezes não são decorrentes desse, por exemplo: a eletricidade desprende centelhas, eleva a temperatura do objeto, decompõe os líquidos e gases, atravessa alguns corpos e outros não, etc.).

A LEI DA UNIDADE E DA LUTA DOS CONTRÁRIOS (p. 286).

Para que seja possível extrair, a partir do fundamento, os aspectos e ligações necessários da essência do objeto, é necessário compreender o surgimento e o desenvolvimento do fundamento, tal como da própria formação material, o qual advém da contradição, da unidade e “luta” dos contrários.

1 O fundamento é aquilo sobre o que se apóia um dado domínio do ser (e então o fundamento é a razão de ser), uma teoria ou conjunto de conhecimentos.

Mas o que representa esta contradição? Ora, representa aspectos cujo sentido da sua transformação é oposto um em relação ao outro e cuja interação supõe “luta”, contradição entre aspectos (Ex: o singular tem a tendência de não se repetir no curso do desenvolvimento, já o geral se repete, etc.). Entretanto, este estado de luta permanente não reflete uma destruição mútua dos

contrários, pelo contrário, estes existem juntos e interpenetram-se, representando uma unidade de contrários (Ex: o singular não existe em si mesmo, independentemente do geral, mas somente em ligação com o geral; a forma só existe se houver conteúdo, etc.). Marx já dizia que estes contrários constituem uma mesma essência, possuindo

O pólo Norte e o pólo Sul são igualmente pólos, sua

essência é idêntica e o mesmo acontece com o sexo feminino e o masculino, que formam uma única espécie. Os contrários são, portanto, aspectos diferentes de uma única e mesma essência. Quando os contrários atingem um grau elevado de equivalência, significa que o equilíbrio de forças em ação é grande. Neste contexto a luta então se agudiza e se resolve quando os contrários “passam um pelo outro”, com a passagem do objeto a um novo estado qualitativo. Essa luta assume um caráter absoluto, tal como é absoluto o movimento da matéria. Do mesmo modo, o caráter relativo da unidade dos contrários corresponde ao repouso também relativo da matéria.

Vale destacar que as contradições nascem das diferenças, mas é um erro dizer que toda diferença é uma contradição, pois há uma infinitude de aspectos e coisas diferentes no universo que não entram em contradição e que podem inclusive complementar-se em ligações harmônicas. Há diferenças essenciais e internas que não são contraditórias e diferenças não-essenciais e externas que engendram contradições (Ex: diferenças entre os órgãos dos sentidos; diferenças entre frações de classe capitalistas, etc.). Vale ainda destacar que a diferença só será contraditória, no que se refere a tendências de desenvolvimento da matéria e não quaisquer aspectos. Ademais, a contradição possui graus de desenvolvimento, começando com uma diferença não-essencial e que passa a ser essencial. Este movimento é visível no curso do desenvolvimento da produção, onde, inicialmente a produção se dava nos ateliers com os mestres artesãos e seus aprendizes (diferença não-essencial entre aprendizes e mestres), mas posteriormente foi se agudizando com o advento do trabalho assalariado e as relações patrão-funcionário (diferença essencial no âmbito do modo de produção capitalista entre o proprietário dos meios de produção e o trabalhador). Com o desenvolvimento da produção

capitalista essa contradição acentua-se e deflagra-se o embate burguesia-proletariado

A

muitas características em comum: “

revolução socialista e a permuta de posições de poder entre burguesia e proletariado. Vale destacar ainda, que a lógica formal nega toda esta construção categorial pautada na realidade concreta, exortando sua inexistência. Os autores que defendem esta idéia equivocam-se, pois o que é decisivo para eles é a lei da lógica formal, esta é que baliza a construção de suas categorias e não a realidade concreta. Daí que sua idéia de “contradição” deve respeitar esta lógica pré-concebida, não a realidade. Assim sendo, na media em que os metafísicos negam a existência da contradição, eles limitam para eles próprios a resolução da origem do movimento da matéria recorrendo a Deus.

A contradição representa a interação dos aspectos e das tendências contrárias. Essa interação condiciona sempre, e ainda mais

fortemente, quando ela se realiza entre os contrários, as mudanças

Por

exemplo, a interação da produção e do consumo, que são aspectos contrários da sociedade, condiciona uma mudança incessante neles

mesmos e nos domínios correspondentes da vida social. Com efeito, pela produção de bens, os homens aperfeiçoam-se e suas

necessidades modificam-se (

a produção desenvolve-se necessariamente e os homens aperfeiçoam-se no decorrer de seu desenvolvimento (p.302) 2

Para satisfazer essas necessidades,

constantes nos aspectos ou entre os corpos em interação (

).

).

Há, contudo, duas formas nas quais se efetua as interações das tendências contrárias: em uma única e mesma formação material, como entre consumo e produção em

um país capitalista (contradições internas) e entre formações materiais diferentes, como entre a URSS e um país capitalista (contradições externas).

As contradições internas são mais decisivas, pois acarretam na “automovimentação”

do objeto no curso do desenvolvimento, estando a importância da contradição externa, diretamente relacionada à sua maior ou menor correspondência com aquela (com a contradição interna). Outra classificação das contradições diferencia contradição antagônica de contradição não-antagônica. A antagônica é aquela mediante a qual há destruição de um dos pólos, enquanto a não-antagônica, além de não levar à destruição de um dos pólos, reforça o sistema, na medida em que sua resolução não engendra uma transformação radical de uma dada formação material (Ex: resolução de uma contradição entre forças produtivas e relações de produção no capitalismo leva ao aperfeiçoamento do mesmo). Na contradição antagônica há agudização da contradição e transformação do sistema.

A NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

Na medida em que os contrários mudam-se um no outro, levando à resolução da

contradição, eliminando um estado qualitativo e fazendo surgir um novo, o que, em verdade está se passando é a negação do antigo estado qualitativo. Assim sendo, a negação é um momento necessário do desenvolvimento, sendo a negação dialética, aquela que é ligada ao movimento do inferior ao superior.

A negação dialética é uma conseqüência da evolução e da resolução das

contradições próprias à formação material negada, não se trata da simples destruição de um estado qualitativo, pois tudo o que havia de positivo no estado qualitativo negado é transplantado para o estado qualitativo novo, do que, deduz-se, que as novas formações materiais passam a ter um conteúdo mais rico. Esse movimento do inferior para o superior, de um conteúdo menos rico para um mais rico, corresponde ao movimento do abstrato ao concreto. Trata-se da idéia aristotélica na qual a matéria inicial, informe e quase nula de conteúdo – abstrata – caminhava em direção de sua concretude, do indeterminado ao determinado.

2 Tudo isto mostra que a luta dos contrários condiciona necessariamente mudanças correspondentes nos aspectos em interação da formação material e naqueles que lhes estão ligados e, ao mesmo tempo, condiciona seu desenvolvimento.

Mas segundo Aristóteles, a negação é proveniente de fatores externos, idéia que foi superada posteriormente por Hegel, o qual apresentara a idéia da existência do “ser puro” (abstrato) que, devido a suas contradições internas, vai caminhando em direção à concretude, passando, para isso, por várias outras categorias filosóficas.

Assim, tendo estabelecido o “ser puro” como princípio primeiro, Hegel o declara desprovido de qualquer conteúdo determinado e equivalente ao “nada”. O “nada” e o “ser puro” constituem a unidade, o que engendra a vida, o movimento, graças ao que o “ser puro” entra em seu vir a ser ou desempenha o papel de vir-a-ser. A categoria de vir-a-ser já possui um certo conteúdo, um certo concreto, embora ainda pouco importante. O vir-a-ser leva ao aparecimento de “ser aqui” que, ao contrário do ser puro, já é um ser determinado, isto é, já possui uma qualidade (p.317).

Apesar de estarem de acordo com os preceitos marxistas do movimento do abstrato ao concreto, as idéias de Hegel entram em desacordo na medida em que se atêm ao mundo das idéias, não se aplicando à matéria, limitação que foi transcendida por Marx, este sim, elaborando e aplicando em sua própria obra um verdadeiro método para o sujeito conhecedor, em seu processo de conhecimento do objeto, partir do abstrato ao concreto. Antes de Marx, o método preconizava a compreensão dos fenômenos partindo do concreto sensível ao abstrato, ou seja, isolavam-se aspectos e propriedades de um fenômeno em si mesmos, separados de suas outras ligações, o que conduzia à elaboração de conceitos extremamente simplórios que refletiam algumas propriedades apenas. Exemplo disso são os economistas do século XVII que sempre partiam do concreto (população) para, a partir daí, elaborar noções simples como “trabalho”, “divisão do trabalho”, etc. Depois, reuniam-se de modo mecânico as “partes” que foram estudadas refletidas nos conceitos simples, com o intuito de chegar à essência do todo. Entretanto, a essência não é uma totalidade mecânica formada por simples justaposição de partes, antes, trata-se de uma unidade dialética em correlação necessária e natural. Destarte, de acordo com a dialética da teoria do conhecimento, a pesquisa deve ser começada não pelo concreto, mas pelo abstrato, pelos conceitos que refletem os aspectos ou relações gerais ou universais os mais simples. Além disso, como elo inicial, como ponto de partida, não se deve tomar qualquer aspecto para balizar a analise, mas um aspecto que seja decisivo no todo estudado, que determine todos os seus outros aspectos. Depois de ter distinguido o aspecto decisivo principal, devemos, de acordo com esse princípio de pesquisa, tomá-lo em seu desenvolvimento, isto é, observar como ele surgiu, quais os estágios transpostos e de que maneira, no curso desse desenvolvimento, ele influi sobre todos os outros aspectos de uma formação material dada, condicionando nela as mudanças correspondentes. Dessa maneira, reproduzimos, passo a passo, na consciência, o processo do desenvolvimento da formação material estudada e, ao mesmo tempo, o conjunto de seus aspectos e ligações necessários que lhe são próprios, isto é, de sua essência.

A lei da negação da negação

A negação da negação é uma lei da dialética na qual o desenvolvimento da formação material parece reproduzir, ainda que sob novas bases, estágios já transpostos do

desenvolvimento, o que é decorrente da transformação do fenômeno em seu contrário mais de uma vez. Na primeira negação o fenômeno transforma-se em seu contrário, nas negações seguintes (não necessariamente na segunda), o novo fenômeno, transformando-se em seu contrário, repete o inicial sob nova base. Exemplo: grão-planta-grão (2 negações), comunismo primitivo-socialismo (4 negações). Entretanto, no curso da negação dialética, a coisa pode não se transformar em seu contrário, mas em uma outra qualidade, o que não impede a negação dialética, já que o que a define é a negação do aspecto, mas com manutenção, no novo, do conteúdo positivo daquele que foi negado. Cada negação é, ao mesmo tempo, destruição e criação. O movimento unívoco destruição-criação, constitui ele mesmo uma negação e não duas. Assim, no processo de desenvolvimento, as novas formações materiais repetem periodicamente, em traços gerais e sobre uma nova base – mais elevada – os graus já transpostos. Assim sendo é absolutamente natural que o desenvolvimento não possa seguir uma linha diretamente ascendente, mas dê-se segundo uma espiral, em que cada volta dê a impressão de repetir a precedente, mas sobre uma base mais elevada.

A POSSIBILIDADE E A REALIDADE

Ao conhecermos a essência e o movimento de uma formação material, passamos a conhecer não apenas seus estados reais, mas seus estados possíveis, os quais surgirão necessariamente em certas condições. O que deve ser destacado é que o estado real é diferente do possível, daí a necessidade de novas categorias, distinguindo então, o real do possível. Hegel, a partir dos escritos de Leibniz sobre a existência de uma correlação entre a realidade e a possibilidade, demonstrou o condicionamento da primeira pela segunda, mas também a existência de uma dialética na qual uma transforma-se na outra. Na concepção dialética e materialista da possibilidade e da realidade, a realidade é o que existe realmente e a possibilidade é o que pode produzir-se quando a condições são propícias. Assim, a possibilidade existe, mas sob as forma de potencial da matéria, como um momento da realidade e seu movimento. A possibilidade, realizando-se, transforma-se em realidade e é por isso que podemos definir a realidade como uma possibilidade já realizada e a possibilidade como realidade potencial. Mas a possibilidade só se transforma em realidade em condições determinadas, um conjunto de fatores. Por exemplo:

a transformação da possibilidade da revolução socialista nos

países capitalistas em realidade, não pode dar-se em qualquer momento, mas apenas em condições determinadas, ou seja, quando

for criada no país uma tal situação que “a base” não possa mais viver como anteriormente e a “cúpula” não possa mais governar à maneira antiga, quando a miséria agravar-se e a atividade das

massas ganhar uma maior intensidade (

) (

) (pág.342).

Devemos destacar ainda, a existência de possibilidades reais e possibilidades formais. As reais são condicionadas por aspectos e ligações necessárias, das quais, pode ser exemplo a revolução socialista nos países capitalistas, uma vez que tal evento advém de

aspectos e relações necessárias da própria sociedade capitalista, quando se agudizam suas contradições. Já as possibilidades formais, dependem de contingências, como é o caso da transformação do operário em capitalista. Não há leis e relações necessárias que determinem tal fato. Assim, muito mais importante para a atividade prática dos homens é a possibilidade real. Mas mesmo as possibilidades reais distinguem-se entre si segundo as relações que estabelecem com as condições para sua realização, ou seja, entre possibilidades abstratas e concretas. Esta última é definida pela possibilidade presente de reunir as condições concretas da realização, já a abstrata é uma possibilidade para a qual, no momento presente, não é possível reunir estas condições. Esta distinção é importante para a atividade prática do homem, possibilitando distinguir e realizar a planificação concreta e a planificação a longo prazo. Existem ainda outras formas de possibilidade:

Possibilidade coexistente – sua realização não implica no desaparecimento de outra.

Possibilidade excludente – sua realização implica no desaparecimento de outra.

Possibilidade reversível – Ex: o movimento mecânico dos corpos.

Possibilidade irreversível – Ex: a transformação química do carvão em energia.

Possibilidade de fenômeno – não modifica a essência (Ex: aumento de salários no quadro do capitalismo por força de pressão operária é uma possibilidade)

Possibilidade de essência – acarreta modificação na essência da formação material (Ex: possibilidade de revolução em país capitalista)

Finalmente, devemos ter em conta que o quadro do movimento de categorias que foi formulado e exposto neste texto, com vistas a refletir o movimento da matéria em direção ao desenvolvimento, na realidade objetiva, bem como seu correlato movimento no pensamento e na história da ciência e da filosofia, não é um quadro acabado. O próprio Marx não delineou nenhuma seqüência de categorias em quadros a partir das quais apreenderíamos seu método. Contudo, a apreensão e reflexão sobre este quadro de categorias e seu movimento, como reflexo que são da realidade, podem contribuir sobremaneira para com o sucesso do trabalho científico, ao tornar mais acuradas as lentes pelas quais o pesquisador entende a realidade.