INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS

TEXTO 1 Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor? (Luís Vaz de Camões) TEXTO 2 VISTA CANSADA Otto Lara Resende Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou. Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Davalhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

opacos? E os atentos e limpos? f) Que relações podemos estabelecer entre o texto e esta afirmação da pesquisadora Jeanne Marie Gagnebin. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.” Contrapõe-se dois jeitos de ver o mundo: como se fosse pela última vez. Por quê? b) Esse texto apresenta predominantemente a linguagem figurada. aparentemente irreconciliáveis. também chamada de conotativa. edição de 23 de fevereiro de 1992 • (Responda no seu caderno) Sobre o texto 1: a) À primeira vista. de fato. Que trechos ilustram isso? e) No texto. ou pela primeira. Texto publicado no jornal “Folha de S. opacos. ao nascer. Há pai que nunca viu o próprio filho. estabelece-se uma diferença. suicidando-se. como seriam os olhos sujos. isso existe às pampas. refere-se possivelmente a Alberto Caeiro. os pobres que moram nos porões cujas janelas beiram a calçada.. ao referir aos olhos e ao olhar.Uma criança vê o que o adulto não vê. jornalista e romancista estadunidense. Na sua opinião. Cite exemplos. Que leituras são possíveis? d) Que título você daria ao poema. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que. / Reparasse que nascera deveras. e aos seguintes versos seus: “Sei ter o pasmo essencial/ Que tem uma criança se. Em que trecho do texto isso se evidencia? Que leitura você faz dessa contradição? d) Em alguns momentos. ninguém vê. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia... em que se diferenciam esses modos de ver? c) Assim como no poema de Camões. “a criança vê aquilo que o adulto não vê mais. E o texto de Otto Lara Resende? b) Esse texto refere-se a Ernest Hemingway (1899-1961). Além disso. ou as figuras menores na base das estátuas erigidas para os vencedores”? g) As pessoas ao seu redor veem o mundo desse modo. e à maneira como morreu./ Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo.. Marido que nunca viu a própria mulher. c) Troque idéias com seus colegas e seu professor sobre o poema. Na sua opinião. esse poema pode causar um certo estranhamento. heterônimo de Fernando Pessoa. sintetizando o seu conteúdo? Sobre o texto 2: a) O poema de Camões utiliza intensamente a linguagem figurada. gastos. Paulo”. com a vista cansada? . uma união de idéias contrárias. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. apresenta-se um paradoxo. utiliza-se ironia e de sarcasmo.

é nunca contentar-se de contente. o mesmo porteiro. é um andar solitário entre a gente. Há pai que nunca viu o próprio filho. se tão contrário a si é o mesmo Amor? (Luís Vaz de Camões) TEXTO 2 . é um cuidar que ganha em se perder. Lá estava sempre. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho. já não desperta curiosidade. lealdade. é servir a quem vence. .TEXTO 1 Amor é fogo que arde sem se ver. é ter com quem nos mata. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. sem ver. Gente. você não vê. Se eu morrer. É querer estar preso por vontade. pontualíssimo. cumprindo o rito. pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. é ferida que dói. Você sai todo dia. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. Olhar de despedida. Para ser notado. pela mesma porta. bichos. ninguém vê. Uma criança vê o que o adulto não vê. É um não querer mais que bem querer. Parece fácil. não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou. opacos. é um contentamento descontente. é dor que desatina sem doer. e não se sente. de fato. De tanto ver. o vencedor. o porteiro teve que morrer. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade. Mas há sempre o que ver.VISTA CANSADA Otto Lara Resende Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. mas não é. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. nunca o viu. Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. você não sabe. Em 32 anos. E vemos? Não. morre comigo um certo modo de ver. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia. disse o poeta. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa. Vê não-vendo. coisas. o que nos é familiar. de tanto ver. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Marido que nunca viu a própria mulher. a gente banaliza o olhar. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. por exemplo. não vemos. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. isso existe às pampas. O que nos cerca. de quem não crê que a vida continua. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. O diabo é que. Davalhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência.

“Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa. “É ferida que dói e não se sente”. c) Troque idéias com seus colegas e seu professor sobre o poema. aparentemente irreconciliáveis.” . sintetizando o seu conteúdo? .” b) Esse texto refere-se a Ernest Hemingway (1899-1961).. Que trechos ilustram isso? . ou as figuras menores na base das estátuas erigidas para os vencedores”? . opacos: os que não vêem mais as novidades do mundo.Texto publicado no jornal “Folha de S. pode ser também que ninguém desse por sua ausência. apresenta-se um paradoxo. refere-se possivelmente a Alberto Caeiro. etc. e) No texto. É como se ele quisesse definir o indefinível e explicar o inexplicável. Paulo”..Atentos e limpos: os olhos sensíveis..Também se utiliza da linguagem figurada: “Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. Em que trecho do texto isso se evidencia? Que leitura você faz dessa contradição? ./ Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo. Cite exemplos. c) Assim como no poema de Camões. É a ideia de ver não vendo. Sobre o texto 2: a) O poema de Camões utiliza intensamente a linguagem figurada.Neste poema. os pobres que moram nos porões cujas janelas beiram a calçada. Na sua opinião. são os olhos limpos das crianças que são capazes de ver a beleza do mundo e de sentir a miséria e a violência das gentes que sofrem. E o texto de Otto Lara Resende? .Pessoal. suicidando-se. f) Que relações podemos estabelecer entre o texto e esta afirmação da pesquisadora Jeanne Marie Gagnebin. utiliza-se ironia e de sarcasmo. cumprindo o rito. heterônimo de Fernando Pessoa.. Na sua opinião. Primeira vez: um olhar de novidade. que se encanta com as coisas que vê. Além disso. “Amor é fogo que arde sem se ver”. O que se torna rotineiro. . edição de 23 de fevereiro de 1992 Sobre o texto 1: a) À primeira vista. “a criança vê aquilo que o adulto não vê mais. / Reparasse que nascera deveras. opacos? E os atentos e limpos? .“Um dia o porteiro cometeu a descortesia de morrer. jornalista e romancista estadunidense. em que se diferenciam esses modos de ver? . ao nascer. d) Que título você daria ao poema.Última vez: um olhar de despedida. gastos.Sujos gastos. ou pela primeira. uma união de idéias contrárias. e aos seguintes versos seus: “Sei ter o pasmo essencial/ Que tem uma criança se. esse poema pode causar um certo estranhamento.“Vê não vendo”. e à maneira como morreu. também chamada de conotativa. estabelece-se uma diferença. ao referir aos olhos e ao olhar. inventando contrastes para caracterizar esse “mistério” que é o amor. . .Pessoal. b) Esse texto apresenta predominantemente a linguagem figurada. d) Em alguns momentos.Devido à junção de idéias contrárias.” Contrapõe-se dois jeitos de ver o mundo: como se fosse pela última vez. Que leituras são possíveis? . Por quê? . Camões procurou conceituar a natureza contraditória do amor.Em ambos os textos. como seriam os olhos sujos. não chama mais a atenção.

Pessoal. com a vista cansada? . .g) As pessoas ao seu redor veem o mundo desse modo.

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