RESUMO

DIREITOS HUMANOS E O DIREITO CONSTITUCIONAL INTERNACIONAL

FLÁVIA PIOVESAN

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Primeira Parte

A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1998 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Capítulo I INTRODUÇÃO A proposta deste estudo é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil. A Constituição de 1988 situa-se como marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Por isso, importa examinar se a Carta de 1988 contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e o impacto dessa reinserção na ordem jurídica brasileira. Buscar-se-á também analisar o modo pelo qual a Constituição brasileira incorpora os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado. Essa análise será complementada pelo estudo do impacto jurídico desses tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro, pois embora esses tratados sejam elaborados no sentido de importar em obrigações aos Estados que os ratificam, os seus beneficiários finais são os indivíduos que estão a jurisdição do Estado. A comunidade internacional atualmente tenta – por meio do uso de tratados – obrigar os Estados a melhorar a condição dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A investigação a respeito da incorporação dos tratados de direitos humanos pelo direito brasileiro conduzirá ao exame do sistema internacional de proteção dos direitos humanos, suas peculiaridades, limites e possibilidades. O ponto de partida será uma reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos, o que permitira compreender o discurso contemporâneo de direitos, a partir do processo de universalização dos direitos humanos, deflagrado no pós-guerra. Com isso perceber-se-á que em faze das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional passou a reconhecer que a proteção dos direitos humanos constitui questão de legitimo interesse e preocupação internacional: são criados parâmetros 2

globais de ação estatal, ao quais os Estados devem se conformar, no que diz respeito à promoção e proteção dos direitos humanos. Consolida-se o movimento do “Direito Internacional dos Direitos Humanos” que, nos dizeres de Thomas Buergenthal, tem humanizado o direito internacional contemporâneo e internacionalizado os direitos humanos, ao reconhecer que os seres humanos têm direitos protegidos pelo direito internacional e que a denegação desses direitos enseja a responsabilidade internacional dos Estados, independentemente da nacionalidade das vítimas de tais violações. Segundo Richard B. Bilder, o movimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e a responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar essa concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, em âmbito mundial. E muito embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais que lhes são inerentes há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que direitos humanos constituem objeto próprio de regulação internacional é bastante recente. Nesse contexto será também analisado o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos. Essa análise buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui ao individuo status de sujeito de direito internacional, conferindo-lhe diretamente direitos e obrigações no plano internacional. Nesse sentido, de objeto das relações internacionais, o individuo se converte em sujeito, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional – direitos tais que não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, mas passaram a ser “inerentes” ou “inalienáveis”, e, portanto, não poderiam ser reduzidos ou negados por qualquer motivo. O reconhecimento de que os seres humanos têm direitos no plano internacional implica a noção de que a negação desses mesmos direitos impõe, como resposta, a responsabilização internacional do Estado violador. Isto é, emerge a necessidade de delinear limites à noção tradicional de soberania estatal, introduzindo formas de responsabilização do Estado na arena internacional, quando as instituições nacionais se mostrarem omissas ou falhas na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados. Na ordem contemporânea se reforça, cada vez mais, esse complexo sistema de “concorrência institucional”, pelo qual a ausência ou insuficiência de respostas às violações de direitos humanos, no âmbito nacional, justifica o controle, a vigilância e o monitoramento desses direitos pela comunidade internacional. 3

Pode-se afirmar, então, que a noção tradicional de soberania vem sendo flexibilizada, pois se no exercício de sua soberania, os Estados aceitam as obrigações jurídicas decorrentes dos tratados de direitos humanos, passam então a se submeter à autoridade das instituições internacionais, no que se refere à tutela e fiscalização desses direitos em seu território. Por fim, a parte final deste trabalho será dedicada ao exame da posição do Estado do Brasil perante os tratados internacionais de direitos humanos. Este estudo será complementado pela analise do exercício da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, que será concentrado no estudo das ações internacionais perpetradas contra o Estado brasileiro, perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o enfoque do modo pelo qual a advocacia do direito Internacional dos Direitos Humanos é exercida no País, quais os atores sociais envolvidos e os direitos humanos violados1.

Capítulo II UM ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO

a) Delimitando o objeto de estudo: a Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos O objeto deste trabalho, como atenta sua introdução, é analisar o modo pela qual a Constituição brasileira de 1988 se relaciona com o aparato internacional de proteção dos direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídico que ela lhes atribui. É também objeto deste estudo averiguar o modo pelo qual o sistema internacional de proteção dos direitos humanos pode contribuir para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, nesse sentido, o próprio constitucionalismo de direito inaugurado pela Carta brasileira de 1988. Considerando ser a Constituição brasileira de 1988 o marco jurídico do processo de transição democrática, bem como da institucionalização de direitos humanos no País, este estudo buscar responder a três questões centrais:

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Sobre as violações de direitos humanos, Henry Steiner distingue-as em episódicas e sistemáticas. Episódicas ocorrem em sociedades que geralmente observam as normas de direitos humanos, mas que podem praticar desvios incidentais ou ocasionais e, se contínuos, desvios que afetam discretamente determinadas áreas ou grupos, não atingindo a vida social como um todo. As violações sistemáticas de direitos humanos têm um caráter radicalmente diferente. Elas refletem a ordem política e jurídica do Estado. Nessa circunstância, um poderoso regime internacional se torna essencial.

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sempre foram considerados matéria constitucional. Ao tratar da relação entre a Constituição brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos. que integram o Direito Internacional dos Direitos Humanos. Por sua vez. revela um conteúdo materialmente constitucional. o Direito Internacional dos Direitos Humanos. a fonte de tais direitos é de natureza internacional. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. Por esses motivos. no âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos. já que os direitos humanos. A interdisciplinaridade aponta para uma resultante: o chamado Direito Constitucional Internacional. deflagrado no Brasil a partir de 1985. já que se localiza justamente na interação entre o Direito Constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. Assim. mas sim ao estudo da relação entre a Constituição e os tratados internacionais de proteção de direitos humanos. como os tratados adotados pela ONU e pela OEA? 3) Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como os instrumentos internacionais podem fortalecer o regime de proteção de direitos nacionalmente previstos? b) Delimitando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional Este trabalho não se atém ao estudo da relação entre a Constituição e os tratados internacionais em geral. ramo do Direito no qual se verifica a fusão e a interação entre o direito constitucional e o direito internacional. não seria adequado classificar este trabalho como um estudo puramente de direito constitucional ou de direito internacional. o enfoque da investigação é interdisciplinar. já que seu objeto alcança 5 . objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do direito constitucional que disciplinam o Direito Internacional dos Direitos Humanos.1) Qual o impacto do processo de democratização. ao longo da experiência constitucional. que assume caráter especial quando esse dois campos do direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana. Contudo. ao concentrar seu objeto nos direitos da pessoa humana. sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização estimulou a ratificação de tratados internacionais de proteção dos direitos humanos? 2) Como a constituição brasileira de 1988 se relaciona com o direito internacional dos direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos.

o que permitirá o exame do modo pelo qual a Constituição de 1988 interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos e a análise do impacto jurídico desses instrumentos internacionais no direito brasileiro. instalado em 1964. em particular sobre a forma pela qual o aparato internacional pode servir como importante estratégia do reforço dos direitos constitucionais assegurados no âmbito do direito brasileiro. no âmbito jurídico. a Constituição de 1988 demarca.uma complexidade disciplinar que resulta neste campo inovador que é o direito constitucional internacional. Capítulo III A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL . 6 . Nesse contexto. Este estudo suscitará uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional de proteção dos direitos humanos – sua estrutura. a segunda parte do trabalho é dedicada ao exame da estrutura normativa do sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. o processo de democratização do Estado brasileiro. Por fim. O exame do aparato internacional de proteção dos direitos humanos introduzirá elementos fundamentais para que se desenvolva a análise acerca da posição do Estado brasileiro perante os tratados internacionais de direitos humanos. É através da compreensão deste estudo que será possível estabelecer a relação entre a Constituição de 1988 e os tratados internacionais de direitos humanos. c) justificativas para a opção metodológica Se a proposta deste livro é analisar a relação entre os dois temas – a Constituição brasileira de 1988 e o direito Internacional dos Direitos Humanos – opta-se preliminarmente por avaliar os avanços introduzidos pela Carta de 1988 no que se refere à institucionalização dos direitos e garantias fundamentais.A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS Este capítulo tem como finalidade avaliar o modo pelo qual a Constituição de 1988 disciplina a temática dos direitos e garantias fundamentais. Nesse sentido. instrumentos e mecanismos. ao consolidar a ruptura com o regime autoritário militar. Essa metodologia se justifica na medida em que a compreensão da sistemática internacional de proteção dos direitos humanos se impõe como requisito necessário para que se prossiga no estudo da relação entre a Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. nas conclusões será desenvolvida uma avaliação crítica sobre o direito Internacional dos Direitos Humanos e a redefinição da cidadania no Brasil.

essas transformações têm gerado um novo constitucionalismo. A Constituição de 1988 institucionaliza a instauração de um regime político democrático no Brasil. deflagrou-se o processo de democratização no Brasil. Vejamos. assim. bem como uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. É com a Constituição de 1988 que os direitos humanos ganham relevo extraordinário. a Constituição de outubro de 1988. introduz indiscutível avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e 7 garantias fundamentais .Assim. possibilitando um progresso significativo no reconhecimento de obrigações internacionais nesse âmbito. lenta e gradual. No caso brasileiro. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no País muda substancialmente a política brasileira de direitos humanos. Isto porque. o equacionamento dos direitos humanos no âmbito da ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que a questão dos direitos humanos se impusesse como tema fundamental na agenda internacional do País. bem como na proteção de setores vulneráveis da sociedade brasileira. situando-se a Carta de 1988 como o documento mais abrangente e pormenorizado sobre os direitos humanos jamais adotado no Brasil. permitiu a formação de um controle civil sobre as forças militares. Exigiu ainda a elaboração de um novo código. as relevantes transformações internas tiveram acentuada repercussão no plano internacional dos direitos humanos. Para que se compreenda o processo de internacionalização da proteção dos direitos humanos no Brasil. faz-se necessário se aproximar da Constituição de 1988. que culminou com a promulgação de uma nova ordem constitucional. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988 Após o longo período de vinte e um anos de regime militar ditatorial que perdurou de 1964 a 1985 no País. Essa transição democrática. que refizesse o pacto políticosocial. Como bem observa Antônio Augusto Cançado Trindade. para iniciar o estudo é necessário analisar o processo de democratização no Brasil como importante contexto no qual emerge a Carta de 1988. avaliando brevemente seu perfil e particularmente o universo dos direitos e garantias fundamentais que enuncia. Nesse contexto. Nascia.

a dignidade da pessoa humana é princípio que unifica e centraliza todo o sistema normativo. disciplinarem os direitos. como valores supremos de uma sociedade fraterna. ainda. radicado nos deveres dos súditos. assim. Nos artigos primeiro e terceiro. para.. seja no âmbito internacional. a preocupação que teve o legislador em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo de justiça social. o desenvolvimento. a segurança. de um Direito inspirado pela ótica do Estado. mas também os sociais. “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais. Nesse contexto. o Texto de 1988 inova ao alargar a dimensão dos direitos e garantias. Logo. transita-se a um Direito inspirado pela ótica da cidadania. a Constituição de 1988 projeta a construção de um Estado Democrático de Direito. radicado nos direitos dos Cidadãos. A nova topografia Constitucional inaugurada com a Carta de 1988 reflete uma mudança paradigmática. somente então. consagrando-se. a orientar tanto o Direito Internacional como o Direito interno. isto é. a igualdade e a justiça. a saber. pode-se afirmar que a Carta de 1988 elege o valor da dignidade humana como valor essencial que lhe dá unidade de sentido. Dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito brasileiro. há o encontro do princípio do Estado Democrático de Direito e dos direitos fundamentais. o bem-estar. assumindo especial prioridade. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. pluralista e sem preconceitos (. a Constituição consagra as três dimensões fundamentais do princípio do Estado de Direito. É importante ressaltar que as Constituições anteriores primeiramente tratavam do Estado. acolhendo-se assim. incluindo no catálogo de direitos fundamentais não apenas os direitos civis e políticos. Sustenta. São nos artigos supracitados que se encontram os fundamentos e os objetivos do Estado Democrático de Direito brasileiro. a liberdade.Desde o seu preâmbulo.)”. a juridicidade.. o princípio da indivisibilidade e 8 . considerando que toda Constituição há de ser compreendida como unidade e como sistema que privilegia determinados valores sociais. destacam-se a cidadania e dignidade da pessoa humana. É possível observar através da leitura do artigo terceiro da Constituição. a constitucionalidade e os direitos fundamentais. Assim. que é no princípio da dignidade da pessoa humana que a ordem jurídica encontra o próprio sentido. Ademais. seja no âmbito interno.

liberdades e garantias são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. liberdades e garantias fundamentais. Por fim. acrescenta além dos direitos individuais. Nesse sentido. acenando para a existência de novos sujeitos de direitos. econômicos e culturais (direitos de segunda dimensão). a Carta de 1988. que esse princípio realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. concedeu-lhes uma posição de destaque dentro do ordenamento jurídico brasileiro. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais 9 . Desta forma. por via direta da Constituição e não através da auctoritas interpositio do legislador. como também. os direitos e garantias fundamentais são dotados de especial força expansiva. No entender de Canotilho. isto é. vale dizer que cabe aos Poderes Públicos conferir eficácia máxima e imediata a todo e qualquer preceito definidor de direito e garantia fundamental. ao mesmo tempo em que consolida a extensão de titularidade de direito. Lembrando-se aqui. o sentido fundamental da aplicabilidade direta está em reafirmar que “os direitos. a Constituição de 1988 institui o princípio da aplicabilidade imediata dessas normas. Tal princípio intenta assegurar a força vinculante dos direitos e garantias de cunho fundamental. pelo qual o valor da liberdade se conjuga com o valor da igualdade. nos termos do artigo quinto parágrafo primeiro. os direitos coletivos e difusos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. não havendo como divorciar os direitos de liberdade dos direitos de igualdade. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico.interdependência dos direitos humanos. no intuito de reforçar a imperatividade das normas que traduzem direitos e garantias fundamentais. Ademais. chegando ao ponto de ampliar os valores trazidos pela própria Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. concluindo-se que a Constituição Federal de 1988 não só acolheu o ideal dos Direitos Humanos. ou seja. também consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. É neste contexto que há de ser feita a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. objetiva tornar tais direitos prerrogativas diretamente aplicáveis pelos Poderes Legislativo. mais do que isso. mas sim normas diretamente reguladoras de relações jurídico-materiais”. por meio da ampliação de direitos sociais. Executivo e Judiciário. Não são simples norma normarum mas norma normata. não são meras normas para a produção de outras normas. prevendo um regime jurídico específico endereçado a tais direitos. Sem contar que a Constituição de 1988.

5º. também de extrema relevância é o alcance da previsão do art. 4º da Constituição simboliza a reinserção do Brasil na arena internacional. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. está ao mesmo tempo reconhecendo a existência de limites e condicionamentos à noção de soberania estatal. III. destaque-se o princípio da prevalência dos direitos humanos. defesa da paz (inciso VI). ao determinar que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros decorrentes dos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. Dentre eles. Com efeito. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos. da autodeterminação dos povos. igualdade entre os Estados (inciso v). surge a necessidade de interpretar os antigos conceitos de soberania estatal e não-intervenção. Isto é. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. a soberania do Estado brasileiro fica submetida a regras jurídicas. repúdio ao terrorismo e ao racismo (inciso VIII). autodeterminação dos povos (inciso III). incisos II. pelos seguintes princípios: independência nacional (inciso I). a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação internacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. da Carta de 1988. nos termos do art. como princípio fundamental a reger o Estado nas relações internacionais. Capítulo IV 10 . prevalência dos direitos humanos (inciso II). O art. Esse dispositivo tece a interação entre a ordem jurídica interna e a ordem jurídica internacional dos direitos humanos. nãointervenção (inciso IV). fica determinado que o Brasil se rege. Vale dizer. e que compõem a tônica do constitucionalismo contemporâneo. 4º. solução pacífica dos conflitos (inciso VII). § 2º.A Carta de 1988 é a primeira Constituição brasileira a elencar o princípio da prevalência dos direitos humanos. cooperação entre os povos para o progresso da humanidade (inciso IX) e concessão de asilo político (inciso X). à luz de princípios inovadores da ordem constitucional. Estes são os novos valores incorporados pelo Texto de 1988. A Carta de 1988 introduziu inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. nas suas relações internacionais. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império no que se refere à independência nacional e à nãointervenção como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. por um lado. VIII e IX. A partir do momento em que o Brasil se propõe a fundamentar suas relações com base na prevalência dos direitos humanos. 4º do Texto. Para o estudo das relações entre a Constituição de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. nos termos do art. Se.

acessão. b) O processo de formação dos tratados internacionais Em geral. que são regulados pelo Direito Internacional. pelo qual cabe ao Estado conferir plena observância ao tratado de que é parte. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. Contudo.). o processo de formação dos tratados tem início com os atos de negociação. aos Estados que expressamente consentiram em sua adoção. que teve por finalidade servir como a Lei dos Tratados. o que pode contribuir para a adesão de maior número de Estados. assim. ao aceitá-los. comprometem-se a respeitá-los. na medida em que. (. Enfatize-se que os tratados são. limitou-se aos tratados celebrados entre os Estados. o princípio da boa-fé. A primeira regra a ser fixada é a de que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. ou seja. por excelência.”. ratificação. que são da competência do órgão do Poder 11 .A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS a) Breves considerações sobre os tratados internacionais Começa-se por afirmar que os tratados internacionais.. Acrescenta o art. os tratados permitem sejam formulados reservas. Consagra-se. 27 da Convenção: “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o nãocumprimento do tratado”. as reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. não envolvendo aqueles dos quais participam organizações internacionais. concluída em 1969. no livre exercício de sua soberania. Na definição de Louis Henkin: “O termo ‘tratado’ é geralmente usado para se referir aos acordos obrigatórios celebrados entre sujeitos de Direito Internacional. conclusão e assinatura do tratado. quando da assinatura. o Estado contraiu obrigações jurídicas no plano internacional. Como dispõe a Convenção de Viena: “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé”. quando de sua aplicação naquele Estado”. expressão de consenso. uma vez que Estados soberanos. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. Em geral. Nos termos da Convenção de Viena. adesão ou aprovação de um tratado.. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculantes (pacta sunt servanda) constituem a principal fonte de obrigação do direito internacional. A necessidade de disciplinar e regular o processo de formação dos tratados internacionais resultou na elaboração da Convenção de Viena.

e 84. não irradiando efeitos jurídicos vinculantes. que não se aperfeiçoa enquanto a vontade do Poder Executivo. tampouco previsão de prazo para que o Presidente da República ratifique o tratado. em seu art. 12 . convenções e atos internacionais. A ratificação significa a subseqüente confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado. manifestada pelo Presidente da República. traz uma sistemática lacunosa.Executivo. Consagra-se. Entre a assinatura e a ratificação. falha e imperfeita: não prevê. Após a assinatura do tratado pelo Poder Executivo. há o seu ato de ratificação pelo Poder Executivo. aprovado o tratado pelo Legislativo. assim. aprovado pelo Congresso Nacional e. Ao atribuir o poder de celebrar tratados ao Presidente. o aceite definitivo. acaba por contribuir para a afronta ao princípio da boa-fé vigente no direito internacional. não se somar à vontade do Congresso Nacional. Com efeito. sujeitos a referendo do Congresso Nacional. Por sua vez. acordos ou atos internacionais. Essa sistemática constitucional. Em seqüência. claramente ele estabelece a sistemática de ‘checks and balances’. por fim. Significa. mas apenas mediante o referendo do Legislativo. a Constituição de 1988. prevenindo o abuso desse poder. o Estado está sob a obrigação de obstar atos que violem os objetivos ou os propósitos do tratado. prazo para que o Presidente da República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado por ele assinado. A ratificação é ato jurídico que irradia necessariamente efeitos no plano internacional. o art. o poder de celebrar tratados – como é concebido e como de fato se opera – é uma autêntica expressão do constitucionalismo. Não há ainda previsão de prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado assinado. No Direito Internacional. ao estabelecer apenas esses dois dispositivos supracitados (os arts. Contudo. traduz o aceite precário e provisório. a ratificação se refere à subseqüente confirmação formal (após a assinatura) por um Estado. o segundo passo é a sua apreciação e aprovação pelo Poder Legislativo (Congresso Nacional). cabe observar que a Constituição brasileira de 1988. pelo qual o Estado se obriga pelo tratado no plano internacional. se aprovado pelo Congresso. de que está obrigado a cumprir o tratado. 49. VIII). por exemplo. determina que é da competência privativa do Presidente da República celebrar tratados. celebrado por representante do Poder Executivo. 49. pois. busca-se limitar e descentralizar o poder de celebrar tratados. Assim. 84. ratificado pelo Presidente da República. por si só. ao manter ampla discricionariedade aos Poderes Executivo e Legislativo no processo de formação dos tratados. passa o tratado a produzir efeitos jurídicos. I. VIII. da mesma Carta prevê ser da competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados. No caso brasileiro. a colaboração entre Executivo e Legislativo na conclusão de tratados internacionais. A assinatura do tratado. I.

Ao efetuar a incorporação.) Os direitos humanos articulados com o relevante papel das organizações internacionais fornecem um enquadramento razoável para o constitucionalismo global. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. portanto. mas no novo paradigma centrado: nas relações Estado/povo. responsabilização internacional do Estado violador. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. ao fim da extensa Declaração de Direitos por ela prevista. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. c) A hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos A Carta de 1988 consagra. das respectivas Constituições nacionais. na emergência de um direito internacional dos direitos humanos e na tendencial elevação da dignidade humana a pressuposto ineliminável de todos os constitucionalismos. § 2º). os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. considerando o processo de formação dos tratados e reiterando a concepção de que apresentam força jurídica obrigatória e vinculante. Ora. qual seja. Os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. como parâmetros axiológicos a orientar a compreensão do fenômeno constitucional. A Constituição assume expressamente o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. (. conseqüentemente. resta frisar que a violação de um tratado implica a violação de obrigações assumidas no âmbito internacional. de forma inédita.De todo modo. a Carta de 1988 está a incluir. a Carta atribui aos direitos internacionais uma natureza especial e diferenciada. 5º. É como se o Direito Internacional fosse transformado em parâmetro de validade das próprias Constituições nacionais (cujas normas passam a ser consideradas nulas se violadoras das normas do jus cogens internacional). no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. Ainda que esses direitos 13 . portanto. O descumprimento de tais deveres implica. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (art. a contrario sensu.. Por isso. ao prescrever que “os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais”.)”.. O constitucionalista José Joaquim Gomes Canotilho se orienta na mesma direção quando pondera: “(. o Poder Constituinte dos Estados e. O constitucionalismo global compreende não apenas o clássico paradigma das relações horizontais entre Estados. a natureza de norma constitucional. que os direitos e garantias expressos na Constituição “não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados.. está hoje cada vez mais vinculado a princípios e regras de direito internacional.. Essa conclusão advém ainda de interpretação sistemática e teleológica do Texto.

as normas e princípios da constituição. 5º. a cada norma constitucional é preciso conferir. § 2º. Quanto ao caráter aberto da cláusula constitucional constante do art. 5º. assim. os direitos constantes de tratados internacionais integram e complementam o catálogo de direitos constitucionalmente previstos. já que preenchem e complementam o catálogo de direitos fundamentais previsto pelo Texto Constitucional. Consoante o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. afirma Canotilho: “O programa normativo-constitucional não pode se reduzir. a Carta lhes confere o valor jurídico de norma constitucional. densificando a regra constitucional positivada no § 2º do art. b) o dos direitos expressos em tratados internacionais de que o Brasil seja parte. enumerados e claramente elencados. No dizer de Jorge Miranda. por fim. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. como o direito à identidade pessoal. ao ‘texto’ da Constituição. Os direitos internacionais integrariam. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. Ocorre que classificar os direitos individuais. uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição sugere o seguinte: a) o dos direitos expressos na Constituição. subentendidos nas regras de garantias. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori.não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. entre outros de difícil caracterização a priori”. a partir da Constituição de 1988. Assim. e. o chamado “bloco de constitucionalidade”. como formas de densificação ou revelação específicas de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. Nesse sentido. pois os direitos internacionais são expressos. caracterizada como cláusula constitucional aberta. alargando o ‘bloco da constitucionalidade’ a princípios não escritos. o dos direitos individuais implícitos. c) o dos direitos implícitos (subentendidos nas regras de garantias. ligada a 14 . como o são os decorrentes do regime e dos princípios constitucionais. 5º. é ele evidenciado por José Afonso da Silva ao afirmar que os direitos individuais podem ser classificados em três grupos: o dos direitos individuais expressos. o que justifica estender a esses direitos o regime constitucional conferido aos demais direitos e garantias fundamentais. mas provêm ou podem vir a prover do regime adotado. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição). explicitamente enunciados nos incisos do art. como o direito de resistência. o grupo dos direitos individuais decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. certos desdobramentos do direito à vida. mas sob a forma de tratados internacionais. de forma positivística. em profundidade. que “não são nem explícita nem implicitamente enumerados. Há que densificar. colocando numa mesma categoria os direitos decorrentes dos tratados internacionais e os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição não é correto.

b. 5º. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal”. Na lição de Konrad Hesse: “A interpretação constitucional está submetida aos princípios da ótima concretização da norma. Segundo Canotilho.todas as outras normas. de forma excelente. 102. Com efeito.) A interpretação adequada é aquela que consegue concretizar. enquanto os demais tratados internacionais têm força hierárquica infraconstitucional. no julgamento do HC 72. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos.. que não cabe atribuir. no exame da questão concernente à primazia das normas de direito internacional público sobre a legislação interna ou doméstica do Estado brasileiro. Está-se assim a conferir máxima efetividade aos princípios constitucionais. aplicável o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”.11. III. o sentido da proposição normativa dentro das condições reais dominantes numa determinada situação. “as causas decididas em única ou última instância. pois só assim não se desrespeita o princípio da boa-fé vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda). contudo. Essa concepção não apenas compromete o princípio da boa-fé. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção dos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma.. o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais “é hoje sobretudo invocado no âmbito dos direitos fundamentais – no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça mais eficácia aos direitos fundamentais”. o STF.131-RJ (22. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido que maior eficácia lhe dê. em especial ao princípio do art. o máximo de capacidade de regulamentação”. mas constitui afronta à Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. porém. da Constituição Federal de 19882. mediante recurso extraordinário. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o nãocumprimento de tratado. Há que enfatizar ainda que. e que tem como reflexo o art. especialmente quando se trata de norma instituidora de direitos e garantias fundamentais. portanto.1995). (. Sustenta-se que os tratados tradicionais têm hierarquia infraconstitucional. §2º. uma tendência da doutrina brasileira. por efeito do que prescreve 2 Tal artigo confere ao STF a competência para julgar. 15 . passou a acolher a concepção de que os tratados internacionais e as leis federais apresentavam a mesma hierarquia jurídica. ao enfrentar a questão concernente ao impacto do Pacto de São José Costa Rica no direito brasileiro. sendo. A nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser.” Todas as normas constitucionais são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma função útil no ordenamento. À luz do art. 27 da Convenção de Viena. em votação não unânime afirmou: “Parece-me irrecusável. supralegal.

em especial com o valor da dignidade humana – que é valor fundamente do sistema constitucional. Vejamos: Argumenta Hildebrando Accioly. (. defende posição diversa.. Pactos Internacionais aprovados pelas Nações Unidas) e todos esses princípios fazem hoje parte do jus cogens internacional. especialmente sobre as prescrições fundadas em texto constitucional. sob pena de essa interpretação inviabilizar. Esse tratamento jurídico diferenciado. e nas das prerrogativas dos Estados. Seguem dizendo que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. Este trabalho. como uma ‘supra-legalidade internacional’”. b). conferido pelo art. tem prevalecido no plano do direito comparado”. Tendo em vista que os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus cogens. de acordo. que constitui Direito imperativo para os Estados”. com a opinião da 16 .. bem como com sua racionalidade e principiologia. que conferir hierarquia constitucional aos tratados de direitos humanos. há outra no sentido de lhes conferir hierarquia supraconstitucional. reflete o sistema que. todas essas normas (Carta das Nações Unidas. parágrafo 2º. 5º. com manifesta ofensa à supremacia da Constituição – que expressamente autoriza a instituição da prisão civil por dívida em duas hipóteses extraordinárias (CF. LXVII) – o próprio exercício. Declaração Universal dos Direitos do Homem. Acredita-se. sem dúvida. de sua típica atividade político-jurídica consistente no desempenho da função de legislar. Lecionam André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros que “Para doutrina dominante. um inexistente grau hierárquico das convenções internacionais sobre o direito positivo interno vigente no Brasil. 102. da Carta Política. Ao lado da corrente que defende a natureza constitucional e outra que defende status paritário à lei federal dos tratados internacionais de direitos humanos. é razoável admitir a hierarquia especial e privilegiada dos tratados internacionais de direitos humanos em relação aos demais tratados internacionais. 5º. com a observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. além de traduzir um imperativo que decorre de nossa própria Constituição (art. art. Trata-se de interpretação que está em harmonia com os valores prestigiados pelo sistema jurídico de 1988. III.) A indiscutível supremacia da ordem constitucional brasileira sobre os tratado internacionais. com algumas poucas exceções. defendendo a natureza supraconstitucional dos direitos internacionais humanos: “É lícito sustentar-se. aliás. a consagração definitiva do jus cogens no topo da hierarquia das fontes do Direito internacional. distinguindo-se dos tratados internacionais comuns – os tratados de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano.o art. pelo Congresso Nacional. no entanto. ao revés. e outra defendendo a natureza supralegal. 5º. §2º. justifica-se na medida em que os tratados internacionais de direitos humanos apresentam um caráter especial. da Carta de 1988.

5º. direitos e garantias fundamentais o são. precisamente porque – alçados ao texto constitucional – se erigem em limitações positivas ou negativas ao conteúdo das leis futuras. em 17 . se é verdade que uma lei interna revoga outra ou outras anteriores. Se assim é. porque o Estado tem o dever de respeitar suas obrigações contratuais e não as pode revogar unilateralmente. No sentido de responder à polêmica doutrinária e jurisprudencial concernente à hierarquia dos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos.. no STF. de 8 de dezembro de 2004.) Realmente. dispondo: “Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. creio. c) a hierarquia infraconstitucional. comum. Em síntese. da Constituição. há quatro correntes acerca da hierarquia dos tratados de proteção dos direitos humanos. Ainda sem certezas suficientemente amadurecidas. não pode revogar. da linha desenvolvida no Brasil por Cançado Trindade e pela ilustrada Flávia Piovesan – a aceitar a outorga de força supralegal às convenções de direitos humanos. parificar às leis ordinárias os tratados a que alude o art. mas supralegal e d) a paridade hierárquica entre tratado e lei federal. na legislação interna. contrárias à primeira. que. que o direito internacional é superior ao Estado. leciona Marotta Rangel: “A superioridade do tratado em relação às normas do Direito Interno é consagrada pela jurisprudência internacional e tem por fundamento a noção de unidade e solidariedade do gênero humano e deflui normalmente de princípios jurídicos fundamentais. mas supralegal dos tratados de direitos humanos. a Emenda Constitucional n. tem supremacia sobre o direito interno. à primeira vista. merece menção o entendimento do Ministro Sepúlveda Pertence por ocasião do julgamento do RHC n. se necessário. por isto que deriva de um princípio superior à vontade dos Estados. mas parece incontestável que este constitui um limite jurídico ao dito poder. traduziu uma abertura significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos. em maio de 2000: “Na ordem interna. introduziu um §3º no art. assim como à recepção das anterior à Constituição. 45. tal como o pacta sunt servanda e o voluntas civitatis maximae est servanda. a complementem. (. seria esvaziar de muito do seu sentido útil a inovação. Quanto à corrente que defende a hierarquia infraconstitucional. Não se dirá que o poder do Estado seja uma delegação do direito internacional. especificando ou ampliando os direito e garantias dela constantes”. 5º §2º.785-RJ. que sustentam: a) a hierarquia supraconstitucional de tais tratados. Daí porque dizer-se que. com grande freqüência.. No mesmo sentido.maioria dos internacionalistas contemporâneos. tendo assim – aproximando-se. sem ferir a Constituição. os tratos ou convenções a ela incorporados formam um direito especial que a lei interna. de modo a dar aplicação direta às suas normas – até. o mesmo não se poderá dizer quando a lei anterior representa direito convencional transformado em direito interno. contra a lei ordinária – sempre que. malgrado os termos equívocos do seu enunciado. b) a hierarquia constitucional. 79.

cada Casa do Congresso Nacional. demandado pelo aludido parágrafo. 5º. serão equivalentes às emendas à Constituição”. De acordo com a opinião doutrinária tradicional. afirma Celso Lafer: “Com a vigência da Emenda Constitucional n. são normas material e formalmente constitucionais. compondo o bloco de constitucionalidade. uma lei interpretativa nada mais faz do que declarar o que pré-existe. 5º surgem duas categorias de tratados internacionais de proteção de direitos humanos: a) os materialmente constitucionais. e b) os 18 . 5º. pois não teriam obtido o quorum qualificado de três quintos. 5º. Desde logo há que se afastar o entendimento segundo o qual. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. Reitere-se que. por força dos §§ 2º e 3º do art. 5º da Constituição. com relação aos novos tratados de direitos humanos a serem ratificados. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. Se os tratados de direitos humanos ratificados anteriormente à Emenda n. O quorum qualificado está tão-somente a reforçar tal natureza. 45/2004. com o advento do § 3º do art. Vale dizer. Ademais. os tratados internacionais a que o Brasil venha a aderir. para serem recepcionados formalmente como normas constitucionais. ser interpretado à luz do sistema constitucional. “o novo parágrafo 3º do art. de 08 de dezembro de 2004. ao clarificar a lei existente”. independentemente de seu quorum de aprovação. ao adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. corrobora-se o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados anteriormente ao mencionado parágrafo. já que o último não revogou o primeiro. mas deve. em dois turnos. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. 5º. em face do § 3º do art. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. Contudo. 45. 5º”. devem obedecer ao iter previsto no novo parágrafo 3º do art. todos os tratados de direitos humanos já ratificados seriam recepcionados como norma constitucional. 5º. Uma vez mais. anteriormente à Emenda Constitucional n. independentemente do quorum de sua aprovação. 5º pode ser considerado como uma lei interpretativa destinada a encerrar as controvérsias jurisprudenciais e doutrinárias suscitadas pelo parágrafo 2º do art. por três quintos dos votos dos respectivos membros. da CF. No mesmo sentido. têm hierarquia constitucional. para converterem-se em normas também formalmente constitucionais deverão percorrer o procedimento demandado pelo § 3º. 45/2004. ou seja. ao revés. situando-se como normas material e formalmente constitucionais. serão normas materialmente constitucionais. por força do art. são materialmente constitucionais. por força do §2º do mesmo art. todos os tratados de direitos humanos. como realça Celso Lafer. Esse entendimento decorre de quatro argumentos: a) a interpretação sistemática da Constituição. §2º.

Entretanto. a partir do §3º do mesmo dispositivo. Isto é.ex: Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional de Direito Civis e Políticos. 60. Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial) não eximirá o Estado-parte das obrigações que lhe impõe os respectivos tratados internacionais. Convenção sobre os Direitos das Crianças. não apenas pela matéria que veiculam.material e formalmente constitucionais. não sendo eliminados via emenda constitucional. relativamente a qualquer ação ou omissão ocorrida antes da data em que a denúncia vier a produzir efeitos. A diferença entre esses tratados materialmente e formalmente constitucionais está na denúncia. os tratados material e formalmente constitucionais. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. por sua vez. por isso os direitos constantes nestes tratados. sem qualquer participação do Legislativo. como os direitos e garantias individuais consagrados na CF. Com efeito. no âmbito formal. assim. além de materialmente constitucionais. também são formalmente constitucionais. A denúncia é ato unilateral pelo qual o Estado se retira de um tratado. por força do §2º do art. Entretanto. acrescer a qualidade de formalmente constitucionais. no direito brasileiro. os Tratados Internacionais de Direitos Humanos estabelecem regras específicas concernentes à possibilidade de denúncia. uma natureza constitucional diferenciada. Para além de serem materialmente constitucionais. Convenção contra a Tortura. Seria mais coerente aplicar ao ato da denúncia o mesmo procedimento do ato de ratificação. para o ato de denúncia este também deveria ser o procedimento. Convenção Americana sobre Direitos Humanos. poderão. os tratados internacionais de Direitos Humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. equiparando-se às emendas à Constituição. § 4º. Frise-se: todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais. fruto da conjugação de vontades do Executivo e do Legislativo. constituem cláusula pétrea e não podem ser abolidos por emenda à Constituição. Os direitos internacionais apresentam. O ato da denúncia em muitos tratados (p. Os tratados internacionais de Direitos Humanos material e formalmente constitucionais não podem ser denunciados porque os direitos neles enunciados receberam assento no texto constitucional. para a ratificação é necessário um ato complexo. nos termos do art. mas pelo grau de 19 . 5º. Importante realçar a diversidade de regimes jurídicos que se aplica aos tratados apenas materialmente constitucionais e aos tratados que. Se admitindo a natureza constitucional de todos os Tratados de Direitos Humanos. embora sejam alcançados pela cláusula pétrea. não podem ser denunciados. a denúncia continua a constituir ato privativo do Executivo.

o artigo 5º. • Venezuela: Tratados Internacionais de Direitos Humanos têm hierarquia constitucional e prevalecem na ordem interna quando contenham normas mais favoráveis às estabelecidas na Constituição e são de aplicação imediata. permitindo que o Poder Executivo o denuncie. é subversivo aos princípios constitucionais”. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de Direitos Humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. No Brasil. para quem “aprovar tratado. nem aprovação. É como se o Estado renunciasse a prerrogativa de denunciar ao tratado. • Chile: consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos Tratados Internacionais por ele ratificados. concernente à maioria qualificada de três quintos dos votos dos membros. em duplo turno de votação. d) A incorporação dos tratados internacionais de Direitos Humanos. em virtude da constitucionalização formal do tratado no âmbito jurídico interno.legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. da CF ao estatuir que os direitos e garantias expressos não excluem outros decorrentes dos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. §2º. • Nicarágua: Sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes nos instrumentos internacionais de proteção de Direitos Humanos. por ela ratificados. e os Direitos Humanos constitucionalmente consagrados serão interpretados conforme os Tratados Internacionais de Direitos Humanos ratificados pelo país. • Guatemala: Tratados Internacionais de Direitos Humanos. sem consulta. conclui-se 20 . Neste sentido segue o magistério de Pontes de Miranda. Ora. O princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais é assegurado no §1º do artigo 5º. Veja-se como o direito comparado trata da interação entre os Tratados Internacionais de Direitos Humanos e a ordem jurídica interna: • Argentina: Tratados em geral: hierarquia infraconstitucional. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. os tratados internacionais de Direitos Humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. convenção ou acordo. • Colômbia: Tratados de Direitos Humanos prevalecem na ordem interna. mas supralegal. por sua vez. em cada casa do Congresso Nacional. • Peru: Sua Constituição consagra que os direitos constitucionalmente reconhecidos devem ser interpretados conforme a Declaração Universal de Direitos Humanos e com os Tratados de Direitos Humanos ratificados pelo Peru. Tratados de Direitos Humanos têm hierarquia constitucional. têm preeminência sobre o direito interno.

inclusive em relação aos tratados de direitos humanos. CF). sob pena de invalidação. segundo a doutrina majoritária o Brasil adota a teoria dualista (com duas ordens jurídicas diversas – a interna e a internacional). por exigir um ato normativo para tornar o ato obrigatório na ordem interna. voltado à outorga de vigência interna aos acordos internacionais. pela qual aquela só vigorará na ordem interna se e na medida em que cada norma internacional for transformada em direito interno. Este é o entendimento de Flávia Piovesan. para a referida autora. por assegurar a promulgação do tratado internamente. Com efeito. sem necessidade de edição de ato com força de lei. Para esse posicionamento existem duas ordens jurídicas distintas. uma única ordem jurídica. §1º. dependem de legislação que os implementem. possível a invocação imediata de tratados e convenções de Direitos Humanos. ao contrário. Até o momento esse é o entendimento da jurisprudência do STF. Esse sistema misto é chamado de cláusula geral de recepção semiplena. na incorporação dos tratados internacionais o Brasil adota um sistema misto: 1) Nos tratados internacionais de Direitos Humanos – há a incorporação automática (Art. 2) Aos demais tratados internacionais se aplica a sistemática da incorporação legislativa. Portanto. nos termos da Carta Constitucional. a qual tem exigido a expedição de um decreto como ato culminante no processo de incorporação dos tratados. 5º. portanto. garantir o princípio da publicidade e conferir executoriedade ao texto do tratado ratificado. então. através da qual o direito interno e o internacional compõe uma mesma unidade. a vincular e a obrigar no plano do direito positivo interno. nesse sentido Celso Bastos e Ives Gandra Martins. diversa do ato de ratificação. O princípio da aplicabilidade imediata identifica-se com a teoria monista. Estes tratados incorporam-se de imediato ao direito nacional em virtude do ato de ratificação. os tratados internacionais apresentam status infraconstitucional (mas supralegal) e aplicação não imediata (teoria dualista). para o Supremo e grande parte da doutrina. a aplicabilidade imediata dos tratados internacionais de Direitos Humanos. Entretanto. sustentando. Portanto. dos quais o Brasil seja signatário. A incorporação automática do direito internacional dos direitos humanos permite ao particular a invocação direta dos direitos e liberdades internacionalmente assegurados e proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. Dessa forma os tratados que não versem sobre Direitos Humanos não são incorporados de plano pelo direito nacional.que tais normas merecem aplicação imediata. Essa incorporação é feita em 04 etapas: 21 . que passa. a internacional e a interna.

embora não previstos no âmbito nacional. por meio de decreto legislativo (quorum de aprovação da maioria simples). com harmonia e consonância. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. 4) promulgação do tratado por decreto regulamentar do Presidente da República. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. irradiando efeitos e assegurando direitos direta e imediatamente exigíveis no ordenamento interno. Aqui há a incorporação ao direito interno. b) integrar. 3) troca (entre dois países) ou depósito (pacto multilateral) dos instrumentos de ratificação. que é a aprovação do tratado pelo Congresso Nacional. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. Vários são os casos em que direitos. Não obstante exista esse entendimento. 22 complementem ou ampliem as normas constitucionais. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. Nesse caso. passando a incorporar ao direito brasileiro. de modo a ajustá-lo. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. a Constituição Federal assegura a incorporação instantânea dos tratados internacionais de Direitos Humanos ratificados pelo Brasil. assim. 2) ratificação. mas também internacional. elas terão a função de reforçar a . encontram-se enumerados nesses tratados. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. Sendo assim. ou c) contrariar preceitos internos. As conseqüências do impacto jurídico da incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos no ordenamento jurídico brasileiro são: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno.1) celebração. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. que é a assinatura do tratado pelo Presidente da República. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional.

Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. É a escolha da norma mais favorável à vítima.imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. Porém. como primeira alternativa. em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a Constituição 23 . A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. respectivamente. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. Logo. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. Contudo. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favoráveis à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. na mesma base territorial. com outras. representativa da categoria profissional ou econômica. pode-se imaginar. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. O próprio art. nunca a restringir ou deliberar. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. titular do direito. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. em qualquer grau. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”.

contudo. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. Na primeira hipótese. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. ou seja. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. Observe-se que se a situação fosse inversa. conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. no Brasil. Por fim. aplicar-se-ia Constituição Federal. 7º da Convenção Americana. a dívida de créditos alimentícios. três hipóteses poderão ocorrer. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. qual seja. se a norma constitucional fosse mais benéfica que a norma internacional. Pela norma. acrescendo apenas uma exceção. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. ora reforçando sua imperatividade. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. ora adicionando novos direitos. Pois bem. é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel.com aplicação imediata. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas 24 . prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. Na segunda. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. Vale dizer. como na Convenção Americana. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. Enunciado semelhante é o do art. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. quanto à terceira hipótese. Em todas as três hipóteses. admite não apenas uma exceção. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. ou para proteger os direitos e liberdades alheias.

inciso LXVII. Essa posição começa a ser alterada. DJ 29. Assim ocorreu com o art. 1.12. em que se pode observar a abertura cada vez maior do Estado constitucional a ordens jurídicas supranacionais de proteção de direitos humanos. da relatoria do Ministro Xavier de Albuquerque (julgado em 1o.6. 5º. inexiste uma base legal para a prisão civil do depositário infiel. porém acima da legislação interna. seja ela anterior ou posterior ao ato de ratificação. haja vista o voto do Min.vêm aprimorar e fortalecer. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno.1977). acena para a insuficiência da tese da legalidade ordinária dos tratados e convenções internacionais já ratificados pelo Brasil. no que se refere à questão específica da prisão civil por dívida. não haveria de ser revisitada. estando abaixo da Constituição. Preconizada pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal desde o remoto julgamento do RE n° 80. assim como em relação ao art. desde a ratificação dos referidos tratados. Acredito que a própria mudança constitucional. há muito adotada por esta Corte. pois o caráter especial desses diplomas internacionais sobre direitos humanos lhes reserva lugar específico no ordenamento jurídico. é forçoso ponderar se. Portanto. restringe-se à hipótese clássica ou tradicional na qual o devedor recebe a guarda de 25 . É que o status normativo supralegal dos tratados internacionais de direitos humanos subscritos pelo Brasil torna inaplicável a legislação infraconstitucional com ele conflitante. referida tese encontra respaldo em um largo repertório de casos julgados após o advento da Constituição de 1988. pois o caráter especial desses diplomas internacionais sobre direitos humanos lhes reserva lugar especial. a tese da legalidade ordinária dos tratados internacionais. 652 do Novo Código Civil (Lei n° 10. decorrente do descumprimento de obrigações contratuais. a premente necessidade de se dar efetividade à proteção dos direitos humanos nos planos interno e internacional torna imperiosa uma mudança de posição quanto ao papel dos tratados internacionais sobre direitos na ordem jurídica nacional.287 do Código Civil de 1916 e com o Decreto-Lei n° 911/69. trazida pela EC nº 45/2004. no contexto atual. inexiste uma base legal para a prisão civil do depositário infiel.004/SE.1977. Considerando que as legislações mais avançadas em direitos humanos proíbem expressamente qualquer tipo de prisão civil. O meu entendimento é o de que. parte da doutrina tem entendido que o depósito de que trata a norma do art. excepcionando apenas o caso do alimentante inadimplente.343/SP: “O meu entendimento é o de que. O STF tinha entendimento consolidado de que os tratados internacionais tinham “status” de lei ordinária. Ademais. da Constituição. Gilmar Mendes RE 466. desde a ratificação dos referidos tratados.406/2002).

nos termos e na extensão acima especificados. o dever de efetiva proteção dos direitos humanos. deverá ser posto em liberdade imediatamente. portanto. mas apenas um "depósito por equiparação" ou "depósito atípico" que não legitimaria a incidência da norma constitucional que comina a prisão civil. Assim sendo. Após. de cujo teor deverá constar a parte dispositiva mencionada no parágrafo anterior. defiro o pedido de medida liminar. Francisco Rezek. art. constato. reparadora do estado de constrangimento ilegal causado pelas decisões das instâncias inferiores. de 22. Ante o exposto.137/SP . 660. não há dúvida de que a prisão civil do devedorfiduciante viola o princípio da reserva legal proporcional. Ademais. § 4º do CPP. em contextos internacionais e supranacionais. no contrato de alienação fiduciária não haveria um depósito no sentido estrito ou constitucional do termo. requisitem-se ao Juízo da 2ª Vara da Comarca de Biguaçu/SC informação com relação aos seguintes elementos: i) se ainda persiste a decretação da prisão civil do depositário. a existência dos requisitos autorizadores da concessão da liminar pleiteada. considerada a plausibilidade da tese do impetrante no caso concreto ora em apreço. incumbindo-se da obrigação contratual ou legal de restituí-lo quando o credor o requeira. e/ou ii) do inteiro teor do acórdão que eventualmente venha a ser proferido no referido habeas corpus. em favor do ora paciente. nos termos e para os fins a que se refere o art. Desta forma. creio ser o caso de deferir a medida liminar. mas compartilha com as demais entidades soberanas. 691 do STF).137/SC pelo Superior Tribunal de Justiça. nas quais seja patente o constrangimento ilegal alegado. abra-se vista à Procuradoria-Geral da República (RI/STF.determinado bem. Expeça-se salvo-conduto. Ressalvado melhor juízo quando da apreciação de mérito. como é o caso destes autos. ii) o inteiro teor da decisão que determinou a prisão civil do ora paciente (Processo no 007.000701-2). em ordem a assegurar ao paciente o direito de permanecer em liberdade até a apreciação do mérito do HC nº 77. Ante os fundamentos expostos. 26 .000701-2).01.1995. a concessão de medida cautelar em sede de habeas corpus somente é possível em hipóteses excepcionais. Acredito que a prisão civil do depositário infiel não mais se compatibiliza com os valores supremos assegurados pelo Estado Constitucional. Solicitem-se informações ao Superior Tribunal de Justiça acerca: i) da previsão de ocorrência do julgamento de mérito do HC no 77.11. Caso o paciente já se encontre preso em decorrência de eventual decisão proferida na origem (Autos no 007. que não está mais voltado apenas para si mesmo. Carlos Velloso e Sepúlveda Pertence no julgamento do HC n° 72. casos em que se possibilita o afastamento da Súmula n.01. ainda que essas tenham sido proferidas monocraticamente (não conhecimento da causa ou indeferimento de liminar. e iii) cópia dos principais documentos que ensejaram a decretação da prisão civil do paciente para fins de execução. Segundo jurisprudência firmada por este Supremo Tribunal Federal.131/RJ. sob a égide da Constituição de 1967/69. inconstitucionalidade que tem o condão de fulminar a norma em referência desde a sua concepção. Outro não foi o entendimento adotado pelos votos vencidos dos Ministros Marco Aurélio.

Moreira Alves. Ministro GILMAR MENDES Relator 1 HC n° 72.8. Brasília.2003. Enquanto reivindicações morais. doentes. Min. a Liga das Nações. Rel. em caso de guerra. Min.2000. DJ 20. Marco Aurélio.870/SP. Rel. 8 de março de 2007.8. A proteção humanitária se destina. RE n° 206. o que compõe um construído axiológico emancipatório. HC n° 77. DJ 18.1998. Min. os direitos humanos são fruto de um espaço simbólico de luta e ação social. prisioneiros) e a populações civis. 2.053/SP. no intuito de fixar limites à atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. Rel.10. No âmbito do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos.9.2003. DJ 1o.2001.131/RJ. Maurício Corrêa. Publique-se. 3.192). DJ 17. Min. Rel. Situam-se como primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos: 1. RHC n° 80. o Direito Humanitário. DJ 4. na busca por dignidade humana.2001.035/SC.5. Celso de Mello. Rel.480/DF. Na definição de Thomas Buergenthal. Min. mas um construído. DJ 5. ADI-MC n° 1. a militares postos fora de combate (feridos. 27 . Ao se referir a situações de extrema gravidade. náufragos. em constante processo de construção e reconstrução.” Segunda Parte O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Capítulo V PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS a) Primeiros precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito humanitário. HC n° 79. “o Direito Humanitário constitui o componente dos direitos humanos da lei da guerra (the human rights component of the law of war). Rel. devem ser eles entendidos como direitos históricos – adoção pelo livro da corrente da historicidade dos direitos humanos – na medida em que estes não são um dado.482/SP. É o direito que se aplica na hipótese de guerra. o Direito Humanitário ou o Direito Internacional da Guerra impõe a regulamentação jurídica do emprego da violência no âmbito internacional”. o Organização Internacional do Trabalho. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. Maurício Corrêa.9. uma intervenção humana. Min. Celso de Mello.

em decorrência da Segunda Guerra Mundial. E mais. Seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de direitos humanos da era Hitler e à crença de que parte dessas violações poderiam ser prevenidas se um efetivo sistema de proteção internacional de direitos humanos existisse”. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. Nesse diapasão. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política de seus membros. Criada após a Primeira Guerra Mundial. Por último. a verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em meados do século XX. pela sua própria natureza. marcado pela destruição e pela descartabilidade da pessoa humana. o indivíduo passa a ser sujeito de Direito Internacional. Os Estados-Partes comprometeram-se a assegurar um padrão justo e digno nas condições de trabalho. Este novo cenário evidencia que o alcance das obrigações internacionais a serem garantidas/implementadas coletivamente a partir de então. a Liga das Nações tinha como finalidade promover a cooperação. Por outras palavras. Segundo Thomas Buergenthal. buscava assegurar o convívio amistoso entre as nações.A Liga das Nações. resultou no extermínio de mais de onze milhões de pessoas. como resposta às atrocidades e aos horrores cometidos durante o nazismo que. veio a reforçar essa mesma concepção. também contribuiu para o processo de internacionalização dos direitos humanos a Organização Internacional do Trabalho. tendo início a consolidação não só da capacidade processual internacional dos indivíduos. Em síntese. “o moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é um fenômeno do pós-guerra. transcendem os interesses exclusivos dos Estados contratantes. b) A internacionalização dos direitos humanos – o pós-guerra Contudo. Não seria descipiendo afirmar que a processo de internacionalização dos direitos humanos foi conseqüência da maior violação de direitos que a história já testemunhou. paz e segurança internacional. Também criada com o fim da Primeira guerra Mundial. Logo. por sua vez. na medida em que se admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. mas também dos direitos humanos como matéria de legitimo interesse internacional. 28 . apontando para a necessidade de relativizar a soberania dos Estados. rompe-se ainda com a noção de soberania nacional absoluta. torna-se necessária a reconstrução dos direitos humanos como paradigma ético capaz de restaurar a lógica do razoável pós-totalitarismo. o processo de internacionalização aqui enfocado associa-se diretamente ao Holocausto.

social e cultural. veio a condenar os nazistas e proporcionou um verdadeiro salto no processo de internacionalização da proteção dos direitos humanos. A Carta das Nações Unidas tinha por objetivos a manutenção da paz e da segurança internacional. ou melhor. os mais decisivos passos para a internacionalização dos direitos humanos. sob o argumento de que os atos punidos pelo Tribunal de Nuremberg não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos. Serviu ainda o traumático pós-guerra para trazer-nos a certeza de que a proteção dos direitos humanos não deve se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. Os principais órgãos das Nações Unidas são: 3 Essa mudança de paradigma em face das práticas atentatórias aos direitos humanos teve como precedente o Tribunal de Nuremberg que em 1. Os Aliados criaram as Nações Unidas através de Carta assinada em 26 de junho de 1945.946. que faz possível a responsabilização do Estado no domínio internacional quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas na tarefa de proteger os direitos humanos. como legítima preocupação da comunidade internacional. a constituição de uma nova ordem econômica internacional e. A necessidade de uma ação internacional mais eficaz para a proteção dos direitos humanos impulsionou o processo de internacionalização desses direitos. garantir relacionamento amistoso entre os Estados. 3 O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos a serem protegidos inclusive pelo direito internacional. porque revela tema de legítimo interesse internacional. Sob esse prisma.945-1. com fulcro nos costumes internacionais – os quais possuem eficácia erga omnes –. o direito a ter direitos. a proteção ao meio ambiente. Digna de nota a enorme polêmica que surgiu com base na alegação de que a condenação dos responsáveis pelo Holocausto fundamentada nos costumes internacionais afrontaria o princípio da legalidade do Direito Penal. A partir daí estão lançados. adotada a terminologia de Hannah Arendt. c) A Carta das Nações Unidas de 1948 A Segunda Guerra Mundial foi um divisor de águas no que tange à proteção dos Direitos Humanos. cooperação internacional em âmbito econômico. a violação dos direitos humanos não pode ser concebida como questão doméstica do Estado. sobretudo. o direito a ser sujeito de direitos. 29 . portanto. culminando na criação da sistemática normativa de proteção internacional. o que configuraria uma violação ao princípio do juiz natural. Traduz-se em momento de expansão e internacionalização dos Direitos Humanos.A esta época o maior direito passa a ser. garantir um padrão internacional de saúde. e sim como problema de relevância internacional. carta esta ratificada pelo Brasil em 21 de setembro do mesmo ano. a proteção aos Direitos Humanos.

Comissão de Direitos Humanos: composta por 53 membros governamentais eleitos pelo Conselho Econômico e Social. dentre outros diplomas normativos veio definir o significado da expressão “Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais”. • Cabe à Assembléia Geral desenvolver estudos e fazer recomendações a respeito. que dependem de votos de 2/3 dos presentes votantes para aprovação. determinado pela Assembléia Geral. • Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer convenções e projetos de Convenções Internacionais para este fim – artigo 62 da Carta das Nações Unidas. sem ameaçar a soberania dos Estados nos quais promove tal intervenção. recomendações sobre instrumentos de proteção e prevenção à discriminação. culturais. de caráter humanitário.Cooperação Internacional para a solução de problemas econômicos. Carta das Nações Unidas – internacionalizou os Direitos Humanos – Tratado Multilateral. seguindo o disposto no artigo 13 da Carta. em cooperação com a própria Organização para atingir os propósitos previstos no artigo 55. Conceito – Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais Trata-se de conceito aberto. Alto Comissário para os Direitos Humanos: Resolução 48/141 de 20/12/93. Carta das Nações Unidas – artigo 1º . Coordena atividades do sistema das Nações Unidas de proteção aos Direitos Humanos. Propósito de promoção dos Direitos Humanos – artigos 55 e 56 da Carta das Nações Unidas. Submete ao Conselho questões sobre proteção das minorias. A adoção da International Bill of Human Rights. Conselho Econômico e Social. desenvolvem análises e votam questões sobre qualquer ponto integrante da Carta.Assembléia Geral: todos os integrantes das Nações Unidas dela fazem parte. A Organização tem por escopo – e o tem efetivado – compelir os Estados 30 . Corte Internacional de Justiça: Principal órgão jurídico das Nações Unidas. 13. Secretariado: Secretário Geral com mandato de 05 anos. O artigo 56 reafirma o dever de todos os membros das Nações Unidas de exercer ações conjuntas ou em separado. É composto por 05 membros permanentes e 10 não-permanentes com mandato de 02 anos. respeito aos Direitos Humanos e liberdades fundamentais sem qualquer distinção. 56 e 62. 55. Conselho de Segurança: Tem por escopo garantir a paz e segurança internacionais. Quem o adere reconhece os Direitos Humanos. A definição foi trazida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 – artigo 1º (3). que são objeto de preocupação internacional e não somente da jurisdição doméstica. Promove contatos diplomáticos para a prevenção e coerção de situações de violências maciças.

estabelecendo procedimentos para apreciar as alegações. primeiramente.). era denominada Declaração Internacional. pelo fato mesmo da proteção internacional que lhe é assegurada. até então. sobretudo de violações de maior gravidade. Tais são as características centrais da Declaração (. por sua amplitude. A existência de questionamento. rodapé n. 31 . na condição de sujeito direto do Direito das Gentes. Naturalmente. datada de 1789 e tinha ótica contratualista liberal e a Declaração de Direitos Americana. A Declaração estabelece duas categorias de direitos: 1) Direitos Civis e Políticos. Ao fazê-lo. Devem observar resoluções feitas pela ONU que exigem que os Estados cessem com as violações de modo a fortalecer a Comissão de Direitos Humanos da ONU e suas subsidiárias. 155 – 3ª edição: “Seja-me permitido. é cidadão de seu país. bem como aliar o valor da liberdade ao da igualdade. elaborada a partir de nossos debates no período de 1947 a 1948. resumir as características da Declaração. religiões e sexos. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 Aprovada em 10 de dezembro de 1948. tendo em vista que. raças. segurança e propriedade. de 1776. Compreende um conjunto de direitos e faculdades sem as quais um ser humano não pode desenvolver a sua personalidade física. Essa Declaração se caracteriza. graças à minha proposição. seja qual for o regime político dos territórios nos quais incide. a Assembléia Geral. criando consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. ao longo dos trabalhos. p. Sua segunda característica é a universalidade: é aplicável a todas as pessoas de todos os países.Membros a criar instituições com base na Carta das Nações Unidas para assegurar o cumprimento e observância dos direitos fundamentais pelo Estado. a comunidade internacional reconheceu que o indivíduo é membro direto da sociedade humana. Trata-se de conjugação entre o discurso liberal e social da cidadania. 2) Direitos Econômicos. proclamou a Declaração Universal. No final do século XVIII as principais Declarações representativas do momento histórico eram a Declaração de Direitos Francesa. mas também é cidadão do mundo. por 48 votos a zero e nenhuma abstenção. moral e intelectual. reserva ou mesmo votação contrária à Declaração a alçou ao patamar de Código ou Plataforma comum de ação.. Ao finalizar os trabalhos. Sociais e Culturais. conscientemente. 153. acrescidos do direito à resistência e opressão. Perspectiva histórica – Dicotomia entre liberdade e igualdade enquanto direitos. antes de concluir. que entendia que os Direitos Humanos eram apenas os atinentes a liberdade. Conceito de Reneé Cassin sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos (letra D..

pois combina o discurso liberal de cidadania com o discurso social. Sociais e Culturais (instrução e participação na vida da comunidade). também denominados direitos de fraternidade. também denominados Direitos de Fraternidade destinam-se a todo o gênero humano. sendo os chamados Direitos de Primeira Geração os civis e políticos. presunção de inocência e remédios constitucionais). visto que tais direitos passam a ser vistos como unidade interdependente e indivisível. de Segunda Geração os direitos sociais. 7. por sua vez. A contenção do poder do Estado gerou. liberdades civis (pensamento. Não há que se falar em direito à liberdade quando não assegurado o direito à igualdade. com supremacia dos Direitos Civis e Políticos e ausência de previsão de quaisquer direitos de ordem social. a idéia dos direitos fundamentais e da divisão de poderes. liberdade e fraternidade. Jack Donnely afirma que a Declaração de 1948 enuncia as seguintes categorias de direitos: 1. Daí o primado do valor da liberdade. inclusive. 2. 22 a 28). econômicos e culturais (art. Já os chamados Direitos Sociais foram introduzidos no Estado Social. Elaboração da Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado da URSS. 6. O Estado deveria respeitar os Direitos Fundamentais. pessoais. primaram por um discurso social de cidadania. tratando-se de direitos prestacionais do Estado. a Declaração de 1948 se traduz em manifesta inovação. 3. elencando direitos civis e políticos (artigos 3º a 21) e direitos sociais. Os direitos de Terceira Geração. econômica e cultural que dependesse de intervenção do Estado. francamente inspiradas no lema da Revolução Francesa: igualdade. A conjugação dos valores liberdade/igualdade marca a concepção contemporânea dos Direitos Humanos. Os Direitos Civis e políticos correspondem à fase inaugural do fenômeno da Constitucionalização no Ocidente. crença). judiciais (acesso à justiça. elencando inúmeros direitos econômicos. Aliada à Constituição de Weimar (1919) e à Constituição mexicana (1917). discurso social da cidadania. econômicos e culturais e os de Terceira Geração. Cenário pós-1ª guerra: Discurso liberal da cidadania. sociais e culturais. e tendo a igualdade como direito basilar. A não-atuação estatal significa liberdade. Diante de tal contexto. em 1917 – Passa-se ao primado da igualdade em que o Estado passa a ter deveres prestacionais. 4. Surgem então as chamadas gerações de direitos. Direitos Políticos. 32 .A figura da Constituição surge tendo o papel de garantia aos cidadãos contra o arbítrio do Estado Absolutista. a ser agente de processos transformadores dada a emergência dos direitos a prestação social. Econômicos (direito ao trabalho). fundado nas idéias de Montesquieu e Rousseau. Direitos de Subsistência (alimentação e padrão de vida adequado). 5.

Deve servir como um norte aos países integrantes das Nações Unidas. constituindo. O não cumprimento de uma acarreta o total esvaziamento da outra. bem como pela força jurídica da Declaração. Trata-se ainda de interpretação autorizada da expressão “Direitos Humanos” prevista no artigo 1º (3) e 55 da Carta das Nações e compele os Estados a assumirem o compromisso de assegurar a tais direitos respeito universal e efetivo. por sua vez.Cumpre ressaltar que uma geração de direitos não substitui outra. parte de três pressupostos: 1. que deverão. referências constantes à Declaração feitas por resoluções das Nações Unidas à obrigação legal de todos os Estados observarem suas proposições. suas proposições devem se aplicar a todos os Estados. possuindo. Justiça social e liberdade apresentam-se aqui como premissas intimamente ligadas. decisões proferidas por cortes nacionais que se referem à Declaração como fonte de Direito. conciliação e fortalecimento. Por todo o exposto. Tal concepção foi reafirmada no artigo 5º da Convenção de Viena. A Declaração de Teerã de 1968 foi endossada pela Assembléia Geral da ONU como importante reafirmação aos direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos. e não somente aos signatários da Declaração. que em verdade se traduzem em uma unidade indivisível de direitos que visa idéia de expansão. se inter-relacionam necessariamente entre si. Por isso é que ao invés de geração melhor se afigura a expressão “dimensão”. A Declaração não é um tratado. Enquanto Direito Costumeiro Internacional. em que diferentes direitos estão necessariamente ligados e são interdependentes. força vinculante. que considera tais direitos invioláveis e inalienáveis. razão pela qual forçosamente se conclui pela eficácia obrigatória e vinculante. 33 . a Declaração de 1948 demarca a Teoria Contemporânea dos Direitos Humanos (direitos humanos universais e admissão de diversas gerações de direitos de forma concomitante). Há quem defenda que a Declaração integra o Direito Costumeiro Internacional e/ou os Princípios Gerais do Direito. por isso. Não existe uma sucessão geracional de Direitos Humanos. de 1993. promover o respeito e observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. e são indivisíveis e interdependentes”. 3. Tal corrente. qualquer que seja o tipo a que pertencem. mas foi admitida pela Assembléia Geral como resolução (sem força de lei). Estabelece a Resolução 32/130 da Assembléia Geral das Nações Unidas que “todos os direitos humanos. assim. adotada ainda pela autora Flávia Piovesan. Os Direitos Humanos constituem complexo integral. obrigação dos membros da comunidade internacional observá-los e protegê-los. único e indivisível. 2. a incorporação pelas constituições nacionais de previsões da Declaração Universal de Direitos Humanos. tendo por escopo promover o reconhecimento universal dos Direitos Humanos e liberdades fundamentais.

estabelece em seu artigo 5º: “Todos os direitos humanos são universais. consolidando parâmetro de proteção para os mesmos. Para Antônio Cassesse. Tem profundo impacto nas ordens jurídicas nacionais que absorvem suas proposições em suas constituições e a tem por base legal para proferir decisões judiciais. Isto é. Qualquer afronta ao “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. Estimula ainda a criação de medidas de proteção e de resoluções versando sobre o assunto pelas Nações Unidas. A Declaração de Viena. há o primado do individualismo. Embora particularidades 34 .A Declaração certamente constitui um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX. indivisíveis. Assim sendo. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos demarcada pela Declaração sofreu e sofre. Daí a adoção de expressões como “todas as pessoas” (ex: “todas as pessoas têm direito à vida” – art. cada cultura possui seu próprio discurso acerca dos direitos fundamentais. se impondo como código de atuação e conduta para os Estados integrantes da comunidade internacional. na ótica universalista. interdependentes e interrelacionados. entretanto. caberia mencionar a adoção da prática da clitorectomia e da mutilação feminina por muitas sociedades da cultura não ocidental. 2º da Declaração) e “ninguém” (ex: “ninguém poderá ser submetido à tortura”). ainda que em nome da cultura. fortes resistências dos aspectos do movimento do relativismo cultural. o ponto de partida é a coletividade e o indivíduo é percebido como parte integrante da sociedade. Como ilustração. importará em violação a direitos humanos. uma vez que buscam assegurar a proteção universal dos direitos e liberdades fundamentais. a Declaração possui ainda o poder de “deslegitimar” Estados que sistematicamente violem suas disposições. Diversamente. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. Os instrumentos internacionais de direitos humanos são claramente universalistas. nenhuma concessão é feita às “peculiaridades culturais” quando houver risco de violação aos direitos fundamentais. ainda que a prerrogativa de exercer a própria cultura seja um direito fundamental. Debate entre universalistas e os relativistas culturais retoma o velho dilema sobre o alcance das normas de direitos humanos. adotada em 25 de junho de 1993. Tem como maior significado o reconhecimento dos Direitos Humanos pelos Estados. Para os relativistas. Na ótica relativista há o primado do coletivismo. em pé de igualdade e com a mesma ênfase. justa e eqüitativa. fazendo com que os mesmos percam aprovação pela comunidade mundial. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade.

é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. p. interculturalidade e racionalidade de resistência. No mesmo sentido. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. O autor defende a necessidade de superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. em defesa de uma concepção multicultural de direitos humanos. transcendendo o âmbito estritamente doméstico. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. Para Antônio Augusto Cançado Trindade: “compreendeu-se finalmente que a universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. econômicos e culturais”. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos” (in A proteção Internacional dos direitos humanos no novo século e as perspectivas brasileiras. assim como diversos contextos históricos. a chamada “international accountability”. v.nacionais e regionais devam ser levadas em consideração. culturais e religiosos. um universalismo de ponto de chegada e não de ponto de partida. p. sejam quais forem seus sistemas políticos. Acredita-se que a abertura do diálogo entre as culturas. Capítulo VI A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS a) Introdução No capítulo anterior. haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas como pressuposto para um diálogo intercultural. Joaquín Herrera Flores sustenta um universalismo de confluência. Revista Lua Nova. Ao universal há que se chegar depois (e não antes) de um processo conflitivo. discursivo de diálogo. 7). como ser pleno de dignidade e direitos. a compor o multiculturalismo emancipatório (in Uma concepção multicultural de direitos humanos. 112). o que implicou o reexame do valor da soberania absoluta do Estado. ou seja. 39. também. alcançado por um universalismo de confluência. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção internacional dos direitos humanos. a visão de Boaventura de Sousa Santos. com respeito à diversidade e com base no reconhecimento do outro. (in Direitos Humanos. examinou-se o modo como os direitos humanos se converteram em tema de legítimo interesse internacional. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. inspirada no diálogo entre as culturas. 35 . 173) Destaca-se. mas são incompletas. p. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”.

A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. A partir da elaboração desses Pactos. Esse processo de “juridicização” culminou na elaboração de dois tratados internacionais distintos: Pacto Internacional dos Direito Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. tortura. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. que fosse juridicamente obrigatório e vinculante no âmbito do Direito Internacional. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. no sentido de enfatizar a unidade dos direitos neles previstos. como genocídio. ao lado do que já delineava o sistema regional. violação dos direitos das crianças. discriminação racial. a Declaração Universal. interamericano e africano. sob a influência dos paises ocidentais.Insta relembrar que a Carta da ONU de 1945. etc. instaurou-se larga discussão sobre qual seria a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e a observância universal dos direitos nela previstos. em 1951. a Assembléia Geral. no sentido de permitir sejam superadas suas omissões e deficiências. o sistema global de proteção desses direitos. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois pactos internacionais. 36 . em seu artigo 55 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais. À luz desse raciocínio. em 1976. O sistema global foi ampliado com o advento de diversos tratados multilaterais de direitos humanos. Sociais e Culturais. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridiciada” sob a forma de tratado internacional. se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. Sociais e Culturais entraram em vigor apenas dez anos depois. em si mesma. que conjugava as duas categorias de direitos. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados em 1966 pela Assembléia Geral das Nações Unidas. tendo em vista que somente nesta data alcançaram o número de ratificações necessário para tanto. “International Bill of Rights”. discriminação contra as mulheres. determinou fossem elaborados dois pactos em separado. mas simultâneos. Contudo. não apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. assim. nos âmbitos europeu. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Atente-se que o Direito Internacional dos Direitos Humanos situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. sob um enfoque estritamente legalista (não compartilhado por este trabalho). Contudo. haja vista ter a força de uma declaração (e não de um Tratado). No início de suas atividades (de 1949 a 1951).

proibição da propaganda de guerra. segundo a qual os Estados-partes. Os principais direitos e liberdades cobertos pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos são: vida. ainda. O Brasil. Os direitos previstos no Pacto. direito de votar e tomar parte no Governo. Há. consciência. proibição de tortura e tratamento cruel. liberdade. ao ratificarem o Pacto. direito à liberdade de pensamento. entre outros. adotado em 15 de dezembro de 1989. nacionalidade. Outrossim. e devem ser encaminhados em um ano a 37 .Para os países ocidentais. estabelece direitos inderrogáveis: vida. e demandavam realização progressiva. direito ao nome e à nacionalidade. proibição de escravidão e servidão. e que entrou em vigor em 11 de julho de 1991. proteção dos direitos das minorias. Esses relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. ainda NÃO o ratificou. instituída pelo Segundo Protocolo ao Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. direito de ser reconhecido como pessoa. Em maio de 2006. As obrigações são tanto de natureza negativa (ex: não torturar) como positiva (ex: prover um sistema legal capaz de responder às violações de direitos). não ser escravizado. etc. direito de não ser preso por descumprimento contratual. direito a reunião pacífica. No tocante ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos. mas não na Declaração Universal são: direito de não ser preso em razão de descumprimento contratual. passam a ter a obrigação de encaminhar relatórios sobre as medidas legislativas. O Pacto desenvolve uma sistemática de monitoramento e implementação dos direitos (“special enforcement machinery”). instituído pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. a fim de ver implementados os direitos enunciados. O Pacto dos Direitos Civis e Políticos proclama o dever de cada Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações de direitos civis e políticos. segurança pessoal. O Pacto admite a derrogação temporária de alguns direitos. religião. com maior detalhamento (basta comparar os artigos 10 e 11 da Declaração com os artigos 14 e 15 do Pacto). desde que haja estado de emergência. administrativas e judiciárias adotadas. era necessária a elaboração de dois pactos distintos porque os direitos civis e políticos eram auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata e os direitos sociais. contudo. o pacto não só incorpora inúmeros dispositivos da Declaração. contava com 57 Estadospartes. liberdade de pensamento. a vedação contra a pena de morte. direito à autodeterminação. como ainda estende o elenco desses direitos. O Pacto dos Direitos Civis e Políticos permite ainda limitações em relação a determinados direitos. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública (ex: art 21 e 22). não ser sujeito a prisão arbitrária. não ser submetido a tortura. econômicos e culturais eram programáticos.

adotado em 16 de dezembro de 1966. Assim a importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. as comunicações interestatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos (denunciador e denunciado) reconhecerem e aceitarem a competência do Comitê para recebê-las e examiná-las. As petições só podem ser propostas contra Estados partes no pacto que tenham ratificado o protocolo. Ao Comitê cabe examinar e estudar relatórios. ao invés da nacionalidade. Contudo.contar da ratificação do Pacto e sempre que solicitado pelo Comitê. o Comitê de Direitos Humanos concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. Até maio de 2006. O Pacto também estabelece a sistemática das comunicações interestatais (“inter-state communications”). O Comitê de Direitos Humanos é integrado por 18 membros nacionais dos Estados-partes e por eles eleitos. já que só assim o Estado terá reconhecido a competência do Comitê para tanto. instituídos pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Esta nova sistemática permite que indivíduos apresentem petições denunciando violações de direitos enunciados no Pacto. 46 haviam feito essa declaração. dos 156 Estados-partes do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. 38 . nos termos do artigo 41. Como esclarece Antônio Augusto Cançado Trindade: “o vinculo exigido. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações interestatais. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou a violação dos direitos humanos que denuncia”. Cabe observar que recentemente. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos O Protocolo Facultativo. que aleguem ser vítimas de violação de direitos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. que traz significativos avanços ao âmbito internacional. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. segundo a qual um Estado-parte pode alegar que outro está violando direitos humanos enunciados no Pacto. a serem apreciadas pelo Comitê de Direitos Humanos. principalmente no âmbito da internacional accountability. Trata-se do mecanismo das petições individuais. Em se tratando de cláusula facultativa. vem acionar a essa sistemática um importante mecanismo. A petição ou comunicação individual só será permitida se o Estado membro tiver ratificado tanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos como o Protocolo Facultativo. tecendo comentários e observações gerais a respeito.

Embora não exista sanção no âmbito jurídico. pelo voto da maioria dos membros presentes. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que falharam em prover um remédio eficaz à vítima. Contudo. a partir de 1990. ainda é grande a resistência de muitos estados em consentir que indivíduos tenham poder de encaminhar petições individuais. bem como medidas que tenham sido eventualmente adotadas. tal decisão não tem força obrigatória ou vinculante. Tal como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e 39 . assumindo independência na arena internacional para acusá-los da inobservância de determinado direito. ou inexistir no Direito interno o devido processo legal. O comitê de direitos humanos. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. considerando todas as informações colhidas. Por fim. proferirá uma decisão. Assim. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Todavia. embora esforços sejam empenhados no sentido de alcançar votação unânime. o Estado dispõe do prazo de 06 meses para submeter ao Comitê explicações e esclarecimentos sobre o caso. adotou novas medidas para fiscalizar e monitorar os Estados signatários. O Comitê assim. em prazo não superior a 180 dias. ou ainda se não se assegurar à vítima o acesso aos recursos de jurisdição interna. que clamam que nenhum remédio apropriado foi tomado. Satisfeitos tais requisitos de admissibilidade e recebida a comunicação pelo Comitê. Ao decidir o Comitê não apenas declara a violação alegada a direito previsto no pacto como também pode determinar que o Estado repare a violação cometida.A petição individual deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade previsto no artigo 5º do Protocolo. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. Outro requisito de admissibilidade é a comprovação de que a mesma questão não está sendo questionada em nenhum outra instancia internacional. como o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostrarem injustificadamente prolongada. que podendo comunicar-se diretamente com os governos e com as vítimas. o Comitê criou a figura do Special Rapporteur for the Follow-up of views . como também apontará os Estados que satisfarão a decisão do Comitê. Sociais e Culturais. a condenação do Estado pode trazer conseqüências no plano político e moral ao Estado violador. com essas novas medidas o Comitê agora solicita ao Estado – membro informações sobre as ações adotadas em relação ao caso. poderá recomendar ações necessárias em respeito as vítimas. Os esclarecimentos são então encaminhados para o autor da comunicação que poderá enviar informações adicionais.

que confere aplicabilidade imediata aos direitos nele enunciados. mediante protocolo adicional. A implementação progressiva reflete o reconhecimento de que a realização integral e completa desses direitos. o Pacto dos Direitos Econômicos. Esse pacto criou obrigações legais aos Estados-partes.. O Comitê de Direitos Econômicos. Diversamente do Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Sociais e Culturais enuncia um extenso catálogo de direitos. “ e não mais a fórmula usada no Pacto dos Direitos Civis e Políticos “todos têm direito a. mediante a sistemática international accountability. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes assegurar. ensejando a responsabilização internacional em caso de violação dos direitos que enuncia. 40 . ao menos. Além disso. Os direitos sociais são endereçados aos Estados e o Pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a.. o direito a formar e a associar-se a sindicatos.”. expandindo o elenco dos direitos previstos na Declaração Universal. o direito à saúde e o direito à participação na vida cultural da comunidade. o direito à moradia. está superada a concepção de que os direitos sociais.. A natureza da obrigação é significativamente distinta da obrigação requerida no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.. A sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla inclui o mecanismo de relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes. o direito à previdência social. que deve adotar medidas econômicas e técnicas. até o máximo de recursos disponíveis. ao incluir o direito ao trabalho e à justa remuneração. em geral.vinculantes. isoladamente e por meio da assistência e cooperação internacionais. não se faz possível em curto período de tempo. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. o minimum core obligation relativamente a cada direito enunciado no Pacto. o direito à educação. econômicos e culturais não são direitos legais. embora a Convenção de Viena tenha recomendado a incorporação do direito de petição a esse Pacto. o núcleo essencial mínimo. Os direitos sociais apresentam realização progressiva. Sociais e Culturais não estabelece o mecanismo de comunicação interestatal e tampouco permite a sistemática das comunicações individuais. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. sociais e culturais decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social ou redução de políticas públicas voltadas à garantia de tais direitos. Os direitos econômicos. condicionados à atuação do Estado. sociais e culturais são autênticos e verdadeiros direitos fundamentais e a obrigação de implementar esses direitos deve ser compreendida à luz do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. o direito a um nível de vida adequado.

econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. Os direitos fundamentais – sejam civis e políticos. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. É. Além disso. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção.) Direitos sociais. o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committe on Economic.A idéia de proteção a esses direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta.. Com o advento da International Bill of Rights. dentre outras.. assim como em suas resoluções em disputas privadas. por fim. em parte. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. a violação dos direitos sociais. de condições econômicas. Quanto ao debate sobre a acionabilidade dos direitos sociais. a comunidade internacional continua a tolerar freqüentes violações aos direitos sociais. essa insatisfação criará grandes e renovadas escalas de movimentos de pessoas. econômicos e culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. com todas as suas tragédias e problemas. marco do processo de proteção internacional dos direito humanos. portanto. No entanto. miséria e negligência. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. democracia. algumas sobre direitos novos. se perpetradas em relação aos direitos civis e políticos. compartilha-se da visão de que “a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais parece ignorar a sua histórica e contínua intervenção nesta área. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. mas também quando interpretam legislações de Direito econômico. aprofundando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. trabalhista e ambientalista. econômicos e culturais que. econômicos e culturais. Fica. Social and Cultural Rights: “Com efeito. denominados ’refugiados econômicos’. sociais e culturais. (. Em geral. A globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. estabilidade e paz não podem conviver com condições de pobreza crônica. provocariam imediato repúdio internacional. incluindo fluxos adicionais de refugiados e migrantes. A elaboração dessas 41 . econômicos e culturais é resultado tanto da ausência de forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. sejam sociais. nas quais todos nós vivemos.

esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. correspondente ao ideal de justiça social e distributiva. se uma primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. aos idosos. Para Nancy Fraser. as entidades de classe. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. etc. a diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. em face de sua própria vulnerabilidade. As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. igualdade orientada pelo critério sócio-econômico. resultou um complexo sistema internacional de proteção. às vítimas de tortura e de discriminação racial. simultaneamente. mas ao indivíduo “especificado”. Esta concepção trata da redistribuição e do reconhecimento como 42 . etnia e demais critérios. que merecem tutela especial. Ou seja. redistribuição e reconhecimento de identidades. a justiça exige. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. às mulheres. orientada pelos critérios gênero. ou seja. Na visão de Bobbio. Na esfera internacional. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. posteriormente. orientação sexual. alargando o conceito de sujeito de direitos. entre outros. percebe-se. refletindo o próprio temor da diferença (que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição). buscam responder a uma específica violação de direito. conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. o sujeito é visto em sua abstração. idade. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. Destacam-se. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. mas também aumentou a titularidade de direitos. as organizações sindicais. propondo o desenvolvimento de uma concepção bidimensional da justiça. b) a igualdade material. etnia. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. raça. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. c) igualdade material. incluindo os indivíduos. O processo de internacionalização dos direitos humanos. mas sim para promoção de direitos. considerando categorizações relativas ao gênero. que ao seu tempo foi crucial para a abolição de privilégios. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). idade. assim. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. raça. fundamentalmente.inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”.

assegurando a efetiva igualdade. a discriminação significa toda distinção. progressivamente. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. cabe também ao Comitê receber e considerar as comunicações interestaduais e as petições individuais. Essas Convenções mencionadas apresentam. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. Sem reduzir uma à outra. Ao ratificar esta convenção. com 173 Estados-partes. eliminar a discriminação racial. O combate à discriminação racial é medida fundamental para que se 43 . Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. abarca ambas em um marco mais amplo. ao abordar o tema afirmou que “temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. dentre outros. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. Convenção sobre os Direitos das Crianças. em igualdade de condições. Convenção contra a Tortura. o Estado assume a obrigação internacional de. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados. a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial apresentou como marco histórico o ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. A Convenção contava. Boaventura de Sousa Santos. alimente ou reproduza as desigualdades”. Desde o seu preâmbulo. se se tratar da hipótese. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Pela Convenção. exclusão.perspectivas e dimensões distintas da justiça. em regra. Em geral. em julho de 2007. compete ao Comitê a apreciação dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial Adotada pela ONU em 21 de dezembro de 1965.

Por essas razões a Convenção prevê em seu art. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. Assim. cabendo a este examinar as petições individuais. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. 44 . A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. as ações afirmativas objetivam transformar a igualdade formal em igualdade material e substantiva. que é. significa a inclusão social. entre outros. tal como a decisão do Comitê de Direitos Humanos. à luz dessas informações. 1º. contudo. A decisão do Comitê. Para que seja admitida a petição individual. o direito ao voto. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. buscando remediar um passado discriminatório. No tocante ao seu sistema de monitoramento. além do combate à própria discriminação. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. formula a sua opinião. A igualdade. o direito à segurança e à proteção contra a violência. para assegurar a igualdade. buscada na Convenção. mister. No combate à discriminação. Enquanto políticas compensatórias adotadas para aliviar e remediar as condições resultantes de um passado discriminatório. assegurando a diversidade e pluralidade social. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. Contudo. Ou seja.garanta o pleno exercício dos direitos civis e políticos. é destituída de força jurídica obrigatória ou vinculante. objetivam acelerar o processo de igualdade. Podemos destacar entre os direitos consagrados pela Convenção o direito à igualdade perante a lei. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. §4º a possibilidade de discriminação positiva. econômicos e culturais. o direito a tratamento equânime perante os Tribunais e perante os órgãos administradores da justiça. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. é publicada no relatório anual do Comitê. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. como também dos direitos sociais. não basta a legislação repressiva. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. também conhecidas como ações afirmativas. a igualdade e a exclusão pairam sob o binômio inclusão-exclusão. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. fazendo recomendações às partes. além da habilitação do Comitê. por sua vez.

Trata do princípio da igualdade seja como obrigação vinculante. esta Convenção contava com 185 Estados-partes). social. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. com base na igualdade do homem e da mulher.g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Tendo como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. cultural e civil ou em qualquer outro campo”. Ao ratificar esta convenção. no dizer de Andrew Byrnes: “a Convenção reflete a 45 . Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. cultural ou mesmo legal. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados (até julho de 2007. Isto reforça o quanto a implementação dos direitos humanos das mulheres está condicionada à dicotomia entre os espaços público e privado. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importantes medidas a serem adotadas pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. independentemente de seu estado civil. seja como objetivo. progressivamente. o Estado assume o compromisso de. exercício pela mulher. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. Isto é. Discriminação contra mulher significa “toda distinção. esta Convenção foi aprovada pelas Nações Unidas em 1979. que em muitas sociedades confina a mulher ao espaço exclusivamente doméstico da casa e da família. Desse modo. gozo. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade entre homens e mulheres na família. ambos em 1975. econômico. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. assegurando a efetiva igualdade. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade.

O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. embora a violência seja uma grave discriminação. mediante a elaboração de um Protocolo Facultativo à Convenção. adicionalmente. A Declaração estabelece. que define a violência contra a mulher como um padrão de violência específico. baseado no gênero. senão vejamos: 46 . ainda. desumanos ou degradantes. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. bem como para realizar investigações in loco. Flavia Piovesan sugere a introdução de um mecanismo de petição individual. que permitiria a um Estado-parte denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. na medida em que tal mecanismo constitui o mais eficiente sistema de monitoramento dos direitos humanos internacionalmente anunciados.visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. Em 1993. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. que causa morte. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. ao enfatizarem que os direitos da mulher são partes inalienável. A proteção internacional das mulheres foi reforçada com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). Apenas em 1999. mas também alcança o domínio privado. foi adotada a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. h) Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis. não invocando qualquer costume. integral e indivisível dos direitos humanos universais. concluindo-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. Quanto aos mecanismos de monitoramento. Importa observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. O artigo 1º da Convenção em análise expõe a definição da tortura. Uma segunda proposta seria a introdução de um mecanismo de comunicação interestatal. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades”. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes.

tal como um delito inafiançável. ao passo que a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura é de 09 de dezembro de 1985. por ele respondendo mandante. para configuração de é do agente/responsável tortura com o Estado. No que diz respeito ao histórico das normas. quais sejam. Desumanos ou Degradantes (ONU) data de 28 de setembro de 1984. intimidação ou coação e qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). de intimidar ou coagir ela ou uma terceira pessoa. quando tal dor ou sofrimento é imposto por um funcionário público ou por outra pessoa atuando no exercício de funções públicas. 9. A Constituição Federal de 1988 foi a primeira Carta Magna brasileira a consagrar a tortura como crime. aplicação de castigo. No Brasil. Vejamos então um quadro comparativo entre a lei brasileira e a Convenção da ONU sobre a tortura: Lei nº 9455/97 só se refere a discriminação racial e religiosa não requer a vinculação pela do Convenção da ONU menciona discriminação qualquer natureza a vinculação agente/Estado requisito crime. sendo que essa norma brasileira só conjuga dois dos elementos essenciais para caracterização do crime. até então punida como forma de lesão corporal ou constrangimento ilegal. quais sejam: a) b) inflição deliberada de dor ou sofrimentos físicos mentais. O Brasil ratificou a Convenção da ONU em 28 de setembro de 1989 e a Convenção Interamericana em 20 de julho de 1989. Coube a Lei n. extraem-se três elementos essenciais para caracterização do delito de tortura.455 de 1997 a tipificação autônoma e específica do crime de tortura. insuscetível de graça ou anistia.“designa qualquer ato pelo qual uma violenta dor ou sofrimento. Cabe tecer a distinção entre as regras brasileiras e da Convenção da ONU no que se refere à tortura. ou ainda por instigação dele ou com o seu consentimento ou aquiescência”. a inflição de dor e a finalidade do ato. de puní-la por um ato que ela ou uma terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido. direta ou indiretamente. finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. Da concepção acima transcrita. executor e os que se omitiram quando podiam evitá-lo. é infligido intencionalmente a uma pessoa. esse nexo configura um aumento de pena 47 . c) vinculação do agente ou responsável. a Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis. com o Estado. disposto em artigo 5º. inciso XLIII. físico ou mental. ou por qualquer razão baseada em discriminação de qualquer espécie. com o fim de se obter dela ou de uma terceira pessoa informações ou confissão.

O tratado em comento prevê a publicidade das decisões. inciso I da lei) Em relação a essas distinções. 2 – relatórios dos Estados-partes. tal como por orientação sexual. nos termos do artigo 2º. de protetor de direito passa a ter agentes violadores dos mesmos. de forma a habilitar esse órgão a receber as petições. . a restrição imposta pela lei brasileira é descabida. As decisões do Comitê contra a tortura baseiam-se em todas as informações coletadas do caso e. as quais.jurisdição universal: porque o Estado-parte onde se encontra o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite. haja vista o elevado número de denúncias envolvendo outras espécies de discriminação. de maneira que nenhuma “circunstância excepcional (.) ou qualquer outra emergência pública poderá ser invocada como justificativa para a tortura”. 3 – comunicação interestatais. concluindo-se pela existência de violação ao direito consagrado pela Convenção..(artigo. Vale frisar que a maioria das convenções internacionais somente conta com a técnica do relatório para fiscalização dos direitos protegidos. Flávia Piovesan explicita que. 48 . Atinente à jurisdição contra a tortura.. aponta as seguintes características: . no tocante ao fator discriminatório. A Convenção estipula ainda a impossibilidade de derrogação da proibição contra a tortura. embora não sejam legalmente vinculantes e obrigatórias. Com relação aos requisitos do delito. 2. o documento internacional estabelece três mecanismos: 1 – comunicação ou petição individual. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. parágrafo 4º. auxiliam no exercício dos direitos humanos reconhecidos internacionalmente.jurisdição compulsória: porque obriga o Estado-parte a punir os torturadores. o Comitê solicitará ao Estado violador informações sobre as ações adotadas para satisfazer o cumprimento da sua decisão. Quanto ao Sistema de Monitoramento dos direitos consagrados pela Convenção. independentemente do território onde a violação tenha ocorrido ou da nacionalidade do agente e da vítima. Para o encaminhamento das comunicações ao Comitê exige-se que o Estado-parte emita uma declaração. na medida em que a tortura elevada a crime de ordem internacional justifica-se quando sua prática revela a perversidade do Estado que. entende ser mais adequada a concepção trazida pela Convenção. do contrário o Comitê não as admitirá.

Em relação à exploração econômica e sexual das crianças. A Declaração de Viena incentiva a promoção da cooperação e da solidariedade internacionais. políticos. o mencionado instrumento é extraordinariamente abrangente em escopo. em 25 de maio de 2000 foram adotados dois Protocolos Facultativos à Convenção. como ensinam Henry Steiner e Philip Alston. Nos termos do artigo 1º do documento. como medida mínima. a maioridade seja alcançada antes”.Destaca-se uma peculiaridade do Comitê contra a tortura: o poder de iniciar investigação própria quando recebem informações compostas de fortes indicadores da prática sistemática da tortura em certo Estado-parte. cuja finalidade é estabelecer um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. até 2001). a Convenção acolhe a concepção de desenvolvimento integral da criança. assim como à participação destas em conflitos armados. abarcando todas as áreas tradicionalmente definidas no campo de direitos humanos (civis. com o objetivo de fortalecer o rol de medidas protetivas no tocante à violações sobre as quais discorrem. 2º Protocolo: estabelece que os Estados-partes devem tomar todas as medidas possíveis para assegurar que os membros das forças armadas (artigo 1º) ou de qualquer 49 . Destarte. econômicos. a criminalização dessas condutas (artigo 3º). constitui o tratado internacional de proteção de direitos humanos com maior número de ratificações (191 Estados-partes. Seus principais aspectos são: 1º Protocolo: impõe aos Estados-partes a obrigação de proibirem a venda das crianças. sociais e culturais). Ao ratificarem a Convenção. em conformidade com a lei aplicável à criança. a não ser que. reconhecendo-a como sujeito de direito que exige proteção especial e absoluta prioridade. Em julho de 2002 adotou-se um Protocolo Adicional à Convenção contra a tortura. adotando tal noção. Exige-se ainda que promovam. com vistas a apoiar a implementação dessa Convenção. a prostituição e a pornografia infantis. No que toca aos direitos assegurados pela Convenção. o artigo 227 da Constituição Federal de 1988. i) Convenção sobre os Direitos da Criança Adotada em 1989 e vigente desde 1990. No Brasil. considera-se criança “todo ser humano com menos de dezoito anos de idade. os Estadospartes se comprometem a proteger a criança de todas as formas de discriminação e a assegurar-lhe assistência apropriada. a fim de erradicar a prática da tortura no mundo. bem como defende a estipulação dos direitos da criança como prioridade em todas as atividades das Nações Unidas na área dos direitos humanos.

c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial.haja vista a ausência de tal característica nos comitês internacionais -. é importante destacar que nenhum dos dois protocolos encontra-se em vigor. étnico. O artigo 2º do citado tratado define como crime de genocídio “qualquer dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir. Ademais. Por fim. eis que ainda não alcançaram o número mínimo de 10 Estados-partes. b) causar lesão grave à integridade de física ou mental de membros do grupo. 50 . O Brasil ratificou a Convenção sobre os direitos da Criança em 25 de setembro de 1990. sejam elas governantes. assevera que se punem as pessoas que tiverem cometido. e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”. assim como a adoção do mecanismo de petição individual por todos os instrumentos internacionais correlacionados. já os protocolos facultativos em 24 de janeiro de 2004. o Tribunal Penal Internacional. A Convenção para Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio consubstancia o primeiro tratado internacional de proteção dos direitos humanos aprovado no âmbito da ONU.grupo armado (extensão imposta no artigo 4º). no todo ou em parte. enfatiza que somente em 1998 o sistema global passou a contemplar um órgão jurisdicional penal competente para julgar os mais graves crimes que atentem contra a ordem internacional. Flávia Piovesan elabora uma ressalva em relação a esse tema e destaca que o aprimoramento desse sistema de fiscalização e controle dos direitos impõe não apenas a criação de órgãos jurisdicionais para proteção dos direitos humanos . adotado em 09 de dezembro de 1948. d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo. Entretanto. racial ou religioso. como tal: a) matar membros do grupo. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. não participem diretamente das disputas. não introduzindo a sistemática de petições e comunicações interestatais. No que tange ao Sistema de Monitoramento. que contem com menos de 18 anos de idade. Os protocolos facultativos não inovaram em termos de mecanismo de fiscalização. conta-se apenas com o exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes ao Comitê sobre os Direitos da Criança. Quanto ao Sistema de Monitoramento dos direitos assegurados pela Convenção. um grupo nacional. j) Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. conforme determinam seus textos legais. funcionários ou particulares (artigo 4º). revela que a Convenção não estabeleceu mecanismos próprios de controle e fiscalização.

Sobre o tema. impuser concretamente sobre as ordens nacionais. obrigações por eles contraídas internacionalmente. Acerca de tal aspecto. Tóquio. contra os Estados e em defesa dos cidadãos. Noberto Bobbio classifica em três categorias as atividades internacionais na área de direitos humanos: a) b) c) atividades de promoção. tendo a comunidade internacional uma responsabilidade subsidiária. quando então passou a contar com a exigência mínima de 60 (sessenta) ratificações. • Precedentes históricos: Tribunais de Nuremberg. Kosovo. A razão disso é que. em face dos genocídios que a marcaram. • O Estatuto de Roma: aprovado em 17 de julho de 1998. tais como os conflitos da Bósnia. jurisdição tem caráter complementar e adicional. é fácil concluir que.Constata-se que a Convenção já previa a criação de uma Corte Penal Internacional. ou seja. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e controle dos direitos humanos. como se verifica em seu artigo 6º. até a aprovação do Estatuto do Tribunal Internacional Criminal Permanente. assim como evita punições diferenciadas aos indivíduos pelos Estados. O Brasil ratificou o referido tratado em 20 de junho de 2002. dada a gravidade do delito e a sua relevância internacional. 51 . entrou em vigor em 01 de julho de 2002. Significa que com relação ao julgamento de violações aos direitos humanos. correspondendo ao conjunto de ações destinadas à atividades de controle. Graefrath destaca que a criação de uma Corte Internacional Criminal é o único meio de garantir uma jurisdição imparcial e objetiva. • Características: o TPI atua à luz do princípio da complementaridade. sendo aquelas que cobram dos Estados a observância das atividades de garantia. sua Tribunais ad hoc da Bósnia e de Ruanda. Timor Leste e outros. a responsabilidade primária ainda é do Estado. Ruanda. bem como os recentes A importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os direitos humanos foi revigorada na década de 1990. as instâncias nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. Portanto. É uma instituição permanente. independente e vinculada ao sistema das Nações Unidas. não dispondo do aparato da garantia. revelando que a preocupação nesse sentido remonta a 1948. criadas somente quando uma jurisdição internacional se introdução e ao aperfeiçoamento da disciplina dos direitos humanos pelos Estados.

requisitos de admissibilidade para o exercício: constantes do artigo 17 do Tratado. Secretaria . reconhecendo expressamente a jurisdição internacional.Quanto à pena (artigo 77). diversas da exposta pela autora). . c) d) • Promotoria – órgão autônomo.qualquer pessoa está sujeita ao Estatuto. 13 a 15 do Estatuto). é composto pelos Presidência – responsável pela administração do Tribunal. . a máxima cominada é de 30 anos.inicia-se mediante denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança. tampouco a qualidade funcional importará em redução de pena (art. 27). Competência para julgamento: nos termos do artigo 5º do Estatuto. Câmara de Primeira Instância seguintes órgãos (artigo 34): e Câmara de Apelação – sic (cuidado! O dispositivo em tela explicita o termo “seção” e traz outras nomenclaturas. competente para receber denúncias sobre crime. deve ocorrer na íntegra. sem distinção baseada em cargo oficial. apresentada à Promotoria. . • a) b) Composição: integrado por 18 juízes. Tribunal julgar os seguintes crimes: a) O crime de genocídio. dos quais se destaca a indisposição (tal como a demora injustificada ou a falta de independência ou imparcialidade no julgamento) e a incapacidade do Estado-parte proceder a investigação e o julgamento do crime.seu exercício encontra-se condicionado à adesão do Estado ao Tratado. nos termos do artigo 120 do diploma. quando justificada pela extrema gravidade do delito e pelas circunstâncias pessoais do condenado. podendo esta iniciar de ofício (arts. com mandato de 9 anos. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal.encarregada de aspectos não judiciais. . admitindo a prisão perpétua excepcionalmente. k) Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias 52 . c) Crimes de guerra. Câmaras – divididas em Câmara de Questão Preliminar. compete ao examiná-las. b) Crimes contra a humanidade. d) O crime de agressão (ainda não tipificado) • Exercício da jurisdição internacional: .• Objetivo: equacionar a garantia do direito à justiça e o fim da impunidade para os crimes internacionais de maior gravidade. sendo que a ratificação não comporta reservas.

consagram-se. imparcialidade e reconhecida competência no domínio abrangido pela Convenção. No tocante aos filhos dos trabalhadores migrantes.706 (LIII) alertou para os problemas do transporte ilegal de trabalhadores para países europeus e de exploração de trabalhadores de paises africanos em condições similares a escravidão e trabalho forçado.Adotada pela Resolução nº 45/158 da Assembléia Geral da ONU. direito à assistência das autoridades diplomáticas de seu Estado. de 18 de dezembro de 1990. nos termos do artigo 92. acesso à . fixando parâmetros protetivos mínimos a serem aplicados pelos Estados-partes. l) Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência 53 ao registro de nascimento. de acordo com o previsto no artigo 73. a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias entrou em vigor em 1º de julho de 2003. A Convenção estimula ações para prevenir e eliminar os movimentos clandestinos e o tráfico de trabalhadores migrantes. os seguintes direitos: ao nome. entre outros. direito a não ser constrangido a realizar trabalho forçado. Essa problemática já havia sido objeto de Convenções da OIT. sob a perspectiva dos direitos humanos e enfoca a problemática da imigração. quando o Conselho Econômico e Social. independentemente do status migratório. a Assembléia Geral condenou a discriminação contra trabalhadores estrangeiros. e ao mesmo tempo. proteger seus direitos. direito à liberdade de expressão. sobretudo a situação de vulnerabilidade em que freqüentemente se encontram. educação. através da Resolução nº 1. composto por 12 experts de alta autoridade moral. nos termos de seu artigo 97. nacionalidade. a primeira preocupação expressa foi em 1972. No mesmo ano. No âmbito da ONU. Os Estados-partes devem elaborar relatórios periodicamente. Os direitos previstos na Convenção não podem ser objeto de renúncia. direito à vida privada e familiar. A Convenção sobre os Direitos dos Trabalhadores Migrantes foi adotada em 1990. considerando-se. direito de não ser submetido a tortura e nem a penas e tratamentos cruéis e desumanos. contemplando as medidas adotadas para a implementação da Convenção. destacam-se: direito à vida. É instituído um Comitê para Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias. através da Resolução nº 2. O princípio da não discriminação é um princípio fundamental da Convenção.920 (XXVII). Dentre os direitos previstos na Convenção em comento. direito a um tratamento não menos favorável.

g) igualdade entre homens e mulheres. em que emergem os direitos à inclusão social. § 4º. Deficiência e pobreza são termos inter-relacionados. f) acessibilidade. bem como a necessidade de eliminar obstáculos e barreiras superáveis. b) não discriminação. reconhecendo que todas as pessoas devem ter a oportunidade de alcançar de forma plena o seu potencial. As pessoas mais pobres têm uma chance significativa de adquirir uma deficiência ao longo de suas vidas. Em seu artigo 5º. O conceito de discriminação com base em deficiência envolve toda distinção. é instituído. em 13 de dezembro de 2006. d) uma quarta fase orientada pelo paradigma dos direitos humanos. foi adotada pela ONU a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. as pessoas com deficiência passam a ser concebidas como verdadeiros sujeitos titulares de direitos. no artigo 34 da Convenção. A Convenção contempla as vertentes repressivas (proibição da discriminação) e promocional (promoção da igualdade). nos termos da Resolução da Assembléia Geral nº 61/106. h) respeito ao desenvolvimento das crianças com deficiência e respeito aos direitos destas crianças de preservar sua identidade. que tenham por efeito ou objetivo impedir ou obstar o exercício pleno dos direitos.Organismos internacionais estimam haver no mundo aproximadamente 650 milhões de pessoas com deficiências. expressamente enuncia a possibilidade dos Estados adotarem medidas especiais necessárias. e) igualdade de oportunidades. b) uma fase marcada pela invisibilidade das pessoas com deficiência. A história da construção dos direitos humanos das pessoas com deficiência compreende quatro fases: a) uma fase de intolerância em relação às pessoas com deficiência. É sob esta inspiração que. apontando o dever do Estado de adotar adaptações ou modificações apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o exercício dos direitos humanos em igualdade de condições com as demais. A Convenção introduz o conceito de “reasonable accomodation”. autonomia individual para fazer suas próprias escolhas. d) respeito às diferenças. o que corresponde a 10 % da população mundial. A inovação está no reconhecimento explícito de que o meio ambiente econômico e social pode ser causa ou fator de agravamento da deficiência. sendo um relevante instrumento para a alteração da percepção da deficiência. No tocante ao monitoramento dos direitos. c) uma terceira fase orientada por uma ótica assistencialista. sendo que a deficiência pode resultar em pobreza. integrado por 12 54 . Incorpora uma mudança de perspectiva. c) efetiva participação e inclusão social. um Comitê para os Direitos das Pessoas com Deficiência. De “objeto” de políticas assistencialistas e tratamentos médicos. exclusão ou restrições baseadas na deficiência. Oito são os princípios inspiradores da Convenção: a) respeito à dignidade.

com a prévia anuência do Estado-parte (artigo 6 do protocolo). por exemplo. em último caso. Social e a Comissão de Direitos Humanos. Ela abrange. Cumpre assinalar. doravante. iniciar o estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. o equilíbrio de gênero e a participação de experts com deficiência. como a Assembléia Geral. No âmbito do sistema global. antes de iniciar o estudo da Comissão de Direitos Humanos. em ações conflitantes no tocante aos Estados. a Comissão de Direitos Humanos. Somente a partir do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. ainda. como. o sistema global passou a contemplar um órgão jurisdicional internacional penal competente para julgar os mais graves crimes que atentem contra a ordem internacional. m) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos A proteção internacional não se restringe aos mecanismos convencionais explicitados neste capítulo.experts. mecanismos não convencionais. Os Estados-partes devem elaborar relatórios periodicamente. inexiste uma Corte Internacional dos Direitos Humanos. Tratar-se-á aqui especificamente da Comissão de Direitos Humanos. Deve-se observar a representação geográfica eqüitativa. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. entre outros. o Conselho Econômico. em Roma. Havendo graves e sistemáticas violações dos direitos. Cabe. O Brasil obteve 55 . em 17 de junho de 1998. de acordo com o previsto no artigo 35 da Convenção. um órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. geralmente focalizam-se em uma gama diversificada de temas. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. isto é. os órgãos políticos. primeiramente. Porém. o Comitê poderá realizar investigações in locco. decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. a representação dos distintos sistemas jurídicos. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. insta diferenciar os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. isto é. Em contraste. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se.

que seria responsável por considerar todas as comunicações encaminhadas por indivíduos. a comunicação devia ser endereçada por indivíduos ou organização não-governamental. devia haver fundamentos razoáveis para acreditar que a comunicação revelava um padrão consistente de violações sistemáticas a direitos humanos. em 1967. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. O Procedimento 1235. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência. c) apontar um especialista 56 . Preenchido esses requisitos e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. e. devia descrever os fatos e os direitos que foram violados. concentrou-se nos parâmetros mínimos para a proteção desses direitos. seguem-se basicamente dois procedimentos. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. grupos de indivíduos ou organizações não-governamentais. a comunicação não devia ser anônima. b) manter a situação sob análise.mandatos sucessivos de 1978 a 1998. Essa resolução autorizou a Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos a indicar um grupo de trabalho. o 1235 e o 1503. esta podia adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. Nos primeiros 20 anos de sua existência. criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social em 6 de junho de 1967. com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. não devia ter motivações manifestamente políticas e os remédios existentes no âmbito nacional deviam ter sido exauridos ou deviam ter-se mostrado ineficientes. sendo novamente eleito em 2000. entre outras medidas. autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. No que concerne ao Procedimento 1503 foi criado pela Resolução nº 1503 do Conselho Econômico e Social em 27 de maio de 1970. denominada Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos. composto por no máximo cinco membros. A Comissão foi criada em 1946. com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. a Comissão assumiu uma segunda função. Os requisitos de admissibilidade eram os seguintes: o objeto da comunicação não podia ser inconsistente com os princípios da Carta das Nações Unidas. que consiste na apreciação de casos específicos de violações a direitos humanos. A análise dos casos pode ensejar. Essa autorização servia de base tanto para a realização de um debate público anual quanto para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão.

No que tange a execuções arbitrárias. as medidas urgentes são. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. referente às execuções sumárias e arbitrárias. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. pobreza extrema. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. referente à tortura. Por fim. em 2004. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. Fundamentalmente. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. referente ao direito à alimentação. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podiam envolver a indicação. para que seja efetivada a proteção buscada. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos (exemplo: detenção arbitrária. em 2003. etc) A título ilustrativo. cabendo destaque a visita: em 1996. A segunda crítica se atinha ao fato de que a Comissão se restringia quase completamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. pela Comissão de Direitos Humanos. o Brasil recebeu a visita de relatores temáticos. da relatora referente à violência contra a mulher. direito à educação. desaparecimento forçado. direito à alimentação. referente ao direito ao desenvolvimento. direitos humanos e liberdades fundamentais de pessoas nativas. referente à venda de crianças e à prostituição infantil. Insta ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. de um relator especial com mandato para países específicos. ou e) cancelar o estudo da situação sob a Resolução nº 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução nº 1235. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas.independente. em 2004. referente à independência de juízes e advogados. portanto. referente ao direito à moradia e em 2004. violência contra a mulher. excepcionado apenas quanto à divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. existir ou não em construir precedentes normativos. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. a terceira crítica enfatizava que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. três críticas eram apresentadas à Resolução nº 1503. possuindo. em mecanismos convencionais e não convencionais que apresentam características consideravelmente diversas. em 2003. o relator especial transmite a apelação aos governos. 57 . em 2002. execuções sumárias. combate ao terrorismo. em 2000. por vezes. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. A primeira se atinha ao caráter confidencial do procedimento. xenofobia.

Reiteram-se. por fim. pág 84). europeu e africano de proteção aos direitos humanos. o respeito aos direitos humanos tem se tornado um aspecto crucial de legitimidade governamental. distintos destinatários. à língua. M. por vezes. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. às tradições. verificou-se que os instrumentos internacionais formam um complexo conjunto de regras. pelo sistema interamericano. Capítulo VII A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. existindo. seja quanto aos mecanismos de monitoramento.Ainda que consideradas as limitações vigentes no sistema global de proteção. 58 . Human rights: na agenda for the next century. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. a) Introdução No capítulo anterior. parece uma importante estratégia a ser utilizada e potencializada pelos indivíduos titulares de direitos internacionais. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. pág 435). integrado. o consenso político se torna mais facilitado. o que oferece vantagens”. que apresentam. Rhona K. Ao apontar as vantagens do sistema regional. assim. (in Textbook on international human rights. Shimth destaca que. sob o risco de uma condenação pública internacional. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior integram o sistema global de proteção. atualmente. Consolida-se. nº 26. as palavras de Diane F. ainda. Orentlicher: “Cada vez mais. Muitas regiões são ainda homogêneas. com respeito à cultura. Ao lado do sistema global. in Louis Henkin e John Lawrence Hargrove. que buscam internacionalizar os direitos humanos no plano regional. tanto no âmbito doméstico como no internacional” (in Adressing Gross human rights abuses: punishment and victim compensation. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. América e África. que por sua vez representam os Estados participantes da comunidade internacional. seja com relação aos textos convencionais. tendo em vista foram produzidos no âmbito das Nações Unidas. O sistema internacional de proteção dos direitos humanos pode apresentar diferentes âmbitos de aplicação. a possibilidade de submeter o Estado ao monitoramento e controle da comunidade internacional. particularmente na Europa. surgem os sistemas regionais.

o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global.garantindo os mesmo direitos – são no sentido de ampliar e fortalecer a proteção” (in Antonio Augusto 59 . tendo em vista que. para demonstrar que a tendência e o propósito da coexistência de distintos instrumentos jurídicos . adicionando novos direitos. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto melhor proteja a vítima. aperfeiçoando outros. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte Européia de Direitos Humanos. para obter maior coordenação entre tais instrumentos em dimensão tanto vertical (tratados e instrumentos de Direito interno) quanto vertical (dois ou mais tratados). foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. enquanto o instrumento regional deve ir além. Ambos são úteis e complementares. Diante desse universo de instrumentos internacionais. em terceiro lugar.. leciona Antônio Augusto Cançado Trindade: “O critério de primazia da norma mais favorável às pessoas protegidas. Nesse sentido. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. mas sim complementares. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. Quanto à conveniência dos sistemas global e o regional. eventualmente. Contribui em segundo lugar. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. No sistema europeu.Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. contribui em primeiro lugar para reduzir ou minimizar consideravelmente as pretensas possibilidades de “conflitos” entre instrumentos legais em seus aspectos normativos. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores.. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. Por fim. em 1950. O que importa é o grau de eficácia da proteção. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. pelo contrário. consagrado expressamente em tantos tratados de direitos humanos. Contribui.

todos os Estados membros da OEA. São requisitos de admissibilidade da comunicação: 1) prévio esgotamento dos recursos internos (salvo injustificada demora processual. constituem o aparato de monitoramento estabelecido pela Convenção Americana. a Assembléia Geral da OEA adotou o Protocolo de San Salvador (1988) concernente aos direitos sociais. É também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduo ou grupo de indivíduos. Abrange apenas os Estados membros da Organização dos Estados Americanos (OEA). A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. econômicos e culturais. Posteriormente. pág 52-53) b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos A Convenção Americana de Direitos Humanos é o instrumento de maior importância no sistema regional interamericano. É conhecida como Pacto de San José da Costa Rica (1969). mediante medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. legitimadora. a plena realização desses direitos. progressivamente. ou no caso de a legislação doméstica não prover o devido processo legal). que contenham denúncia de violação de direito consagrado pela Convenção. crítica. em relação aos direitos nela consagrados.Cançado Trindade. juntamente com a Corte Interamericana. A Comissão tem funções: conciliadora. ainda. cultural ou econômico. A interação entre o direito internacional e o direito interno na proteção dos direitos humanos. A contraditório. promotora e protetora. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Alcança. sendo que o Brasil aderiu em 1992. 60 tramitação das reclamações segue duas etapas: admissibilidade e . por Estado que dela seja parte. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. ou ainda entidade não governamental. A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança todos os Estados-partes da Convenção Americana. limita-se a determinar aos Estados que alcancem. 2) inexistência de litispendência internacional. assessora. entrou em vigor em 1978.

a competência da Corte quanto à aplicação da Convenção. salvo decisão fundada na maioria absoluta dos membros da Comissão. a Comissão poderá emitir opinião e conclusão. eleitos a título pessoal pelos Estados partes da Convenção. e toda vez que resulte necessário. de acordo com as informações disponíveis (p. em casos de extrema gravidade e urgência. em matéria ainda não submetida à apreciação da Corte. a Comissão poderá. A Comissão faz recomendações e fixa um prazo para a adoção das medidas. em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Vencido o prazo. apresentando fatos e conclusões pertinentes ao caso e. por maioria absoluta de votos. O mecanismo das comunicações interestatais é também cláusula facultativa. não sendo prevista a legitimação do indivíduo. o caso pode ser solucionado ou encaminhado à Corte Interamericana de Direitos Humanos. desde que o Estado-parte reconheça. recomendações ao Estado-parte. É a justicialização do sistema interamericano. para evitar dano irreparável à pessoa. Qualquer membro da OEA – parte ou não da Convenção – pode solicitar o parecer da Corte no plano consultivo. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos É o órgão jurisdicional do sistema regional. Em casos de gravidade e urgência. É necessário que ambos os Estados tenham feito declaração expressa reconhecendo a competência da Comissão para tanto. composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. por iniciativa própria ou petição da parte. submeterá o caso à Corte Interamericana. ex. vida da vítima encontrar-se em perigo real ou iminente). Durante o período de 03 meses. eventualmente. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. mediante declaração expressa. a Comissão redigirá um relatório. Apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. A 61 . que tem o prazo de 03 meses para cumpri-las. Se nesse prazo o caso não for solucionado e nem submetido à Corte. decidirá se as medidas foram adotadas e se publicará o informe no relatório anual. Tem competência consultiva e contenciosa.Se não é alcançada solução amistosa. O encaminhamento à Corte se faz de forma direta e automática. Se a Comissão considerar que o Estado em questão não cumpriu as recomendações do informe.

Acolhendo a comunicação encaminhada pela Comissão Interamericana. condenado o Estado de Honduras a pagar uma justa compensação nos termos do art. Outros pareceres: Costa Rica violava Convenção ao exigir diploma universitário e filiação ao Conselho Profissional dos Jornalistas – restringe a liberdade de expressão e direito de todos de receber informações. Destaca-se o parecer da Corte acerca da impossibilidade da adoção da pena de morte na Guatemala: “A Convenção impõe uma proibição absoluta quanto à extensão da pena de morte a crimes adicionais. o controle da convencionalidade das leis. destaca-se o famoso caso “Velásquez Rodriguez”. a Corte tem jurisdição para examinar casos que envolvam denúncia de que um Estado parte violou direito protegido pela Convenção. assim. sobre desaparecimento forçado de indivíduo no Estado de Honduras. O Brasil reconheceu a competência contenciosa (jurisdicional) da Corte em 1998. que entendeu inexistirem provas de que o Estado de Honduras seria o responsável pelo desaparecimento dos indivíduos. No plano contencioso. • O caso Goldinez – similar ao caso Velásquez. Se reconhecer que efetivamente houve violação. ambos envolvendo desaparecimentos no Estado de Honduras. a Corte condenou Honduras ao pagamento de indenização aos familiares do desaparecido (Angel Manfredo Velásquez Rodriguez). 62 . cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. efetuando. dois outros julgamentos foram proferidos pela Corte Interamericana. seria privação arbitrária do direito à vida (pedido de consulta do México em casos de presos mexicanos condenados à morte nos EUA). 63 da Convenção. ainda que uma reserva a esta relevante previsão da Convenção tenha entrado em vigor ao tempo da ratificação”. Após o caso Velásquez Rodriguez. determinará medidas necessárias à restauração do direito violado. A decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. A decisão que fixa uma compensação à vítima valerá como título executivo. HC é garantia insuscetível de ser suspensa. Se o preso foi condenado à morte.Corte ainda pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face dos instrumentos internacionais. onde a Corte proferiu decisão similar. ainda em situações de emergência. conforme os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. viola o devido processo legal a ausência de notificação a um preso estrangeiro sobre seu direito de assistência consular. No plano da jurisdição contenciosa. podendo condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. • O caso Fairen Garbi e Solis Corrales – foi julgado improcedente pela Corte.

No caso “A Última Tentação de Cristo”. pode adotar medidas provisórias que lhe pareçam pertinentes. nos assuntos que estiverem conhecendo. 63 da Convenção. o Estado peruano foi condenado a harmonizar sua legislação interna. em virtude da impunidade relativa à morte de cinco 63 . No caso Lori Berenson Mejía. a Corte. decorrentes da violação aos direitos de liberdade de pensamento e expressão. o Peru foi condenado a reabrir investigações judiciais sobre os fatos em questão. Cabe também menção ao caso Villagran Morales. relativos ao massacre de Barrios Altos de forma a derrogar as leis de anistias mencionadas. etc. No caso do Presídio Urso Branco em face do Brasil. à luz dos parâmetros protetivos internacionais. concernente ao assassinato de sete civis pela polícia do Estado. Com essa decisão a Corte consolidou o entendimento de que leis de anistia são incompatíveis com a Convenção Americana. ainda. à reparação integral e adequada dos danos materiais e morais sofridos pelos familiares das vítimas. Também no sentido de condenar o Estado a modificar sua legislação interna à luz dos parâmetros protetivos internacionais. em que este Estado foi condenado pela Corte.. a Corte ordenou medidas provisórias para evitar novas mortes de internos do Presídio Urso Branco. que estabelece que em casos de extrema gravidade e urgência. que foi implementada por este Estado. onde Corte determinou a Trinidad e Tobago que modificasse a legislação doméstica que impunha obrigatoriamente a pena de morte a qualquer pessoa condenada por homicídio. em Porto VelhoRO. bem como ao cumprimento de obrigação de fazer concernente à instalação de posto médico e reabertura de escola na região dos saramacas.A Comissão Interamericana encaminhou à Corte um caso contencioso contra o Estado de Suriname (caso Aloeboetoe). contra a Guatemala. A Corte demandou do Chile a reforma de sua legislação doméstica. a prestar reparação civil. merece destaque o caso Hilaire. de forma a abolir a censura prévia. No caso Barrios Altos em virtude da promulgação e aplicação de lei de anistia. Constantine e Benjamin. providenciar atenção médica adequada à vítima. bem como de liberdade de consciência e religião. por afrontarem direitos inderrogáveis reconhecidos pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos. e quando necessário para evitar danos irreparáveis a pessoas.. compreendendo a adoção de nova lei e a reforma da Constituição. O Estado do Suriname assumiu tal responsabilidade e ao final foi condenado pela Corte ao pagamento de justa e apropriada indenização aos familiares das vítimas. a Corte condenou o Chile em virtude de censura prévia à exibição cinematográfica do referido filme. Referido massacre envolve a denúncia de execução de 15 pessoas por agentes policiais O Peru foi condenado. que foi condenada a 20 anos de privação de liberdade por colaboração ao terrorismo. onde ao menos 37 internos foram brutalmente assassinados entre 1º de janeiro a 5 de junho de 2002. Essa decisão da corte fundamenta-se no art.

meninos de rua. a reforma do ordenamento jurídico interno visando a maior proteção aos direitos da criança e adolescente. Este estudo se concentrará no período de 64 . o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. que assassinou civis indefesos. bem como a pagar indenização por danos morais. O objetivo deste capítulo é avaliar a posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. a reintegrá-los. Outro caso que merece menção é o caso Damião Ximenes Lopes contra o Brasil. envolvendo a morte. Destaque-se ainda o caso Baena Ricardo e outros contra o Estado do Panamá. embora recente a jurisprudência da Corte. aquiescência e colaboração com grupos paramilitares pertencentes à Autodefesa Unida da Colômbia (AUC). resta concluir que. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. brutalmente torturados e assassinados por dois policiais nacionais da Guatemala. pois neste caso houve violação de direitos civis e políticos. Considerando a atuação da Comissão e da Corte Interamericana nesses casos destacados. envolvendo a demissão sumária de 270 trabalhadores. Dentre as medidas determinadas pela Corte estão: pagamento de indenização aos familiares das vítimas. em virtude de uma lei que determinava a demissão em massa de aludidos funcionários públicos que haviam participado de uma manifestação trabalhista. No final o Estado do Panamá foi condenado a pagar o salário dos 270 trabalhadores. após três dias de internação em Hospital Psiquiátrico. No caso do Massacre de Ituango contra a Colômbia a Corte Interamericana condenou o Estado da Colômbia por omissão. Terceira Parte O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Capítulo VIII O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. Foi o primeiro caso sobre saúde mental a ser decidido pela Corte. de pessoa com deficiência mental.

b) a Convenção contra a Tortura e outros tratamentos Cruéis. h) o Protocolo à Convenção Americana referente à Abolição da Pena de Morte. em 27 de novembro de 1995. em 15 de agosto de 2001. n) o Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis. Desumanos ou Degradantes. da convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a Mulher. c) a Convenção sobre os Direitos da Criança. em 20 de julho de 1989. em 11 de janeiro de 2007. A partir da Carta de 1988 importantes tratados internacionais de direitos humanos foram ratificados pelo Brasil. em 1º de fevereiro de 1984. e) o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos.democratização. Sociais e Culturais. de 27 de janeiro de 2004. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos O marco inicial do processo de incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo Direito brasileiro foi a ratificação. d) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. desenvolvimento e direitos humanos. de 21 de agosto de 1996: j) a Convenção Interamericana para Eliminação de todas as formas de Discriminação contra Pessoa Portadora de Deficiência. em 25 de setembro de 1992. Ao longo do processo de democratização. em 28 de setembro de 1989. em 20 de junho de 2002. de 24 de janeiro de 1992. deflagrado no Brasil a partir de 1985 e que adota como marco jurídico referencial a Constituição Federal de 1988. i) o Protocolo à convenção americana referente aos Direitos Econômicos. Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador). em 13 de agosto de 1996. k) o Estatuto de Roma. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. Desumanos ou Degradantes. f) a Convenção Americana de Direitos Humanos. em 28 de junho de 2002: m) o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança sobre o envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. E a afirmação dos direitos humanos como tema global vem acenar para a relação de interdependência existente entre democracia. 65 . aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo País às obrigações internacionais assumidas. o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. que cria o Tribunal Penal Internacional. O novo quadro criado com o fim da Guerra Fria possibilitou a afirmação dos direitos humanos como tema global. l) o Protocolo Facultativo à Convenção Sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. de 24 de setembro de 1990. g) a Convenção Interamericana para Prevenir. em 24 de janeiro de 1992. Dentre eles destaque-se: a) a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura.

um núcleo de direitos básicos e inderrogáveis. Isto porque além dos direitos constitucionalmente previstos no âmbito nacional. O Programa de Ação de Viena orienta os Estados a formular tais reservas da forma mais precisa e estrita possível. por exemplo. de modo a não adotar reservas incompatíveis com o objeto e propósito do tratado em questão e a reconsiderar regularmente tais reservas com vistas a eliminá-las. 66 . a obrigação de manter e desenvolver o Estado Democrático de Direito e de proteger mesmo em situações de emergência. Sugere-se que o Estado Brasileiro reveja essa posição.A reinserção do Brasil na sistemática de proteção internacional dos direitos humanos vem redimensionar o próprio alcance do termo cidadania. de modo a acolher a sistemática de monitoramento internacional. Não bastando a eliminação de reservas. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. a questão será submetida à arbitragem. o Brasil declarou não estar vinculado ao disposto no artigo 29 (1) da Convenção. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. por ocasião da adesão aos três tratados gerais de proteção dos direitos humanos – a Convenção Americana e os dois Pactos de Direitos Humanos das Nações Unidas – o Estado brasileiro passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. Deste modo. os indivíduos passam a ser titulares de direitos internacionais. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. Trata-se de posição incoerente. especialmente em 1992. segundo o qual. a qual contém dispositivo semelhante (artigo 22). pois tal declaração de ressalva não foi feita na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. O Brasil assume. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas e procedimentos facultativos e outras medidas. qualquer dos Estados poderá encaminhar a controvérsia à Corte Internacional de Justiça. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. se não for solucionada mediante solução amigável. e se ainda assim não se alcançar um acordo. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. mediante o reconhecimento da competência da Corte Internacional de Justiça. perante a comunidade internacional.

em seu § 90 recomenda que os Estados-partes aceitem todos os procedimentos facultativos. o Estado brasileiro finalmente a reconheceu. de modo a possibilitar a fiscalização efetiva. é cabível o ajuizamento de ação de perdas e danos contra a pessoa de direito público. Dos 24 países que ratificaram a Convenção. o qual é previsto no Estatuto de Roma (julho de 1998). p. desumanos e degradantes) e. Configurada a omissão. o Brasil não elaborou qualquer reserva. No âmbito do sistema global das Nações Unidas. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direito enunciado no Pacto. deve elaborar a declaração de que trata o artigo 45 da Convenção Americana. Outrossim. o fracasso do Estado em adotar tal legislação resultará em sua responsabilização. através do Decreto Legislativo nº 89. O Brasil já aceitou o procedimento facultativo nos seguintes: Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. Em 2002. o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Tortura. em 1948. Novamente. O Estado brasileiro deve enviar relatórios aos órgãos competentes internacionais. relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.. 550). de 03 de dezembro de 1998. ainda. cláusula facultativa das petições individuais (artigo 22 da Convenção sobre a Tortura e outros tratamentos e penas cruéis.O Brasil interpreta os artigos 43 e 48 da Convenção Americana de Direitos Humanos. exigia-se uma postura coerente do Brasil. ou seja. o Programa de Ação de Viena de 1993. Esclarece-se que em outras Convenções e Pactos. ao menos que adote outros meios para satisfazer a obrigação. cabe ao estado brasileiro reavaliar sua posição. decorrente de um tratado. no âmbito regional. Na lição de Louis Henkin: “se um Estado incorrer em uma obrigação. Assim. Quanto à competência jurisdicional da Corte Interamericana de Direitos Humanos. que tratam do sistema de visitas e inspeções in loco. Ressalta-se que a criação da Corte foi sugerida pela delegação do Brasil. 67 . habilitando a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestaduais. cláusula facultativa das petições individuais (artigo 14 da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação racial). no sentido de reconhecer a competência jurisdicional da Corte. como sendo “não automáticos”.. O Tribunal Penal Internacional constitui extraordinário avanço para a realização da justiça e o fim da impunidade relativamente aos crimes mais graves contra a ordem internacional. o Brasil é o único a fazer essa declaração interpretativa. que requeira legislação. responsável pela omissão" (in International law: cases and materials. dependendo do expresso consentimento do Estado brasileiro. O Brasil ratificou a competência do Tribunal Penal Internacional. e. faz-se necessário que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo.

a reavaliação quanto a procedimentos facultativos. Devido a esse recente reconhecimento. A lacuna foi preenchida em 1997. A primeira sentença condenatória contra o Brasil foi proferida em 04 de julho de 2006.455/97. bem como a adoção de medidas que assegurem eficácia aos direitos constantes nos instrumentos internacionais de proteção. 68 . tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos.Pode-se citar dois exemplos acerca da omissão legislativa do Estado brasileiro: Primeiramente. com a edição da Lei nº 9. o que já era previsto no artigo 223 ECA). sem demora. há a urgência de incorporar relevantes tratados internacionais ainda pendentes de ratificação. até setembro de 2006 apenas cinco casos haviam sido encaminhados à Corte Interamericana contra o Estado brasileiro. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira.340/06). quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. a falta. Capítulo IX A ADVOCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE O SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS a) Introdução O objetivo desse capítulo é analisar de que modo a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercida no Brasil. em virtude de maus tratos em clínica psiquiátrica no Ceará. quando então foi adotada a Lei Maria da Penha (Lei 11. O Brasil reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana em dezembro de 1998. até 1997. todas as medidas apontadas são essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (“Convenção de Belém do Pará”). que prevê o crime de tortura. É emergencial a revisão de reservas e declarações restritivas. Outrossim. o Brasil assumiu o dever de. analisar-se-ão casos de violação de direitos humanos submetidos à apreciação do sistema interamericano. elaborar a necessária legislação interna acerca do tema. Contudo. no caso Damião Ximenes Lopes. No artigo 7º da Convenção Interamericana para Prevenir. Outro exemplo referia-se à inexistência de normatividade específica em relação ao combate da violência contra a mulher. Diante desse quadro. sendo que dois casos são contenciosos e três envolvem medidas provisórias. o Brasil apenas elaborou a legislação específica em 2006. de tipificação do crime de tortura no ordenamento jurídico brasileiro (salvo se o crime fosse praticado contra criança e adolescente. Para isso.

a responsabilidade pelas violações de direitos humanos é sempre da União. Cria-se. havia 64 casos contra o Brasil pendentes de apreciação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 69 . a União não é responsável em âmbito nacional. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. Destarte. a qual foi introduzida pela EC 45/04.b) Federalização das violações de direitos humanos As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmica integrada do sistema de proteção dos direitos humanos. ao mesmo tempo em que a detém a responsabilidade internacional. De acordo com o Direito Internacional. quando a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esses mesmos direitos. pois de um lado encoraja a firme atuação do Estado. para os Estados cujas instituições responderem de forma eficaz as violações. Com a federalização. a separação de poderes (Executivo. pela qual internacionalmente está convocada a responder. pelo Programa Nacional de Direitos Humanos. apenas 02 casos apontam a responsabilidade direta da União: um dele se atém a trabalho escravo – caso José Pereira e outro à morte da indígena Macuxi em uma delegacia de Roraima. a responsabilidade primária no tocante aos direitos humanos é dos Estados. Até 2004. enquanto a responsabilidade subsidiária passa a ser da União. aumenta-se a responsabilidade das instâncias federais para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. processar e punir a violação. mas já era prevista desde 1996. Assim sendo. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República. a federalização não terá incidência maior – tão somente encorajará a importância da eficácia dessas respostas. em qualquer fase do inquérito ou processo. requerer ao STJ o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. sob o risco de deslocamento de competências e por outro. Entende-se que a EC 45/04 poderia ter previsto outros legitimados para o incidente de deslocamento. Paradoxalmente. já que não dispõe de competência de investigar. pela qual os atos internos do estado estão sujeitos à supervisão dos órgãos internacionais de proteção. o Conselho de Defesa da Pessoa Humana. assim. como. Legislativo ou Judiciário) no âmbito nacional não afeta a forma de responsabilização do Estado. um sistema de combate à impunidade. por exemplo. Desses 64. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. Diante desse quadro é que se insere a federalização das violações a direitos humanos.

Levou-se ao conhecimento da Comissão a violação aos direitos à vida. intelectuais e estudantes que. Desaparecimento de mais de vinte integrantes da guerrilha na década de 70. Caso 1684 – composto por 03 comunicações enviadas à Comissão em 1970. A terceira comunicação alegava existência de pelo menos 12. dez envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. Adicionou que o Governo se recusou a adotar as medidas recomendadas. ainda que admitidos pela Comissão Interamericana. segurança.Passa-se. liberdade. ademais. apresentavam reação e resistência ao regime repressivo de 1964-1985.000 presos políticos no país. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. Em 1997 foi submetido à Comissão o caso “guerrilha do Araguaia”. Quanto aos oito outros casos. desconhecendo-se os motivos dessa opção. Desde 1982 familiares buscam informações sobre desaparecimento das vítimas. trabalhadores. o Brasil não era signatário da Convenção Americana. deveriam ser punidos pelo Estado brasileiro. esta optou por não publicar em seu relatório anual as conclusões e recomendações. em razão da violação de direitos humanos. à análise de ações internacionais impetradas contra o Estado do Brasil perante a Comissão Interamericana. no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abusos foram praticados por militares ou autoridades policiais que. Como na época (1970-1974). que foram privadas de sua liberdade”. Dos 78 casos examinados neste tópico. de alguma forma. todas essas ações se fundamentaram na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (exceto o caso da “guerrilha do Araguaia”. encaminhado à Comissão em 1997). 1) Casos de detenção arbitrária. 2) Casos de violação dos direitos dos povos indígenas 70 . se comprovadamente responsáveis. As denúncias foram feitas por indivíduos ou grupos de indivíduos e não por organização não governamental. A Comissão publicou em seu relatório anual a recomendação ao Brasil. tortura e assassinato cometido durante o regime autoritário militar. reiterando que “as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção que no Brasil há sérios casos de tortura. devido processo legal e proteção contra denúncia arbitrária. As vítimas das violações perpetradas eram lideranças da Igreja Católica.

com pagamento de indenização à vítima e compromisso do Estado brasileiro adotar medidas para prevenção. b) procedesse à demarcação do Parque Yanomami. combate e erradicação do trabalho escravo. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. chacina de 16 índios Yanomamis em 1993. sob assessoria de pessoal de competência científica. Segundo a denúncia. Além do Caso 7615. ainda. por ocasião da tentativa de fuga do regime de trabalho escravo. liberdade. 71 . Survival International. O relatório final condenou o Brasil pela violação dos direitos à vida. Caso 11289 – tentativa de assassinato do trabalhador rural José Pereira. liberdade. a fim de que os responsáveis sejam punidos. em razão da omissão do Governo brasileiro. A Comissão recomendou ao Governo brasileiro que: a) adotasse medidas de proteção à vida e saúde dos Yanomamis. presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria (Pará). em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. Caso 11287 – assassinato de João Canuto. preservação da saúde e bem-estar. Recomendou. American Anthropological Association. caracterizando o esgotamento dos recursos internos. Em 1999. segurança. o território Yanomami foi invadido por garimpeiros. Houve solução amistosa. d) informasse à Comissão sobre medidas adotadas em cumprimento às recomendações. médica e antropológica. 13 envolvem situações de violência rural. caracteriza-se violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: direito à vida. em Haximu. proteção médica e integração social dos Yanomamis. o Executivo do Pará promulgou decreto estabelecendo pensão mensal especial em favor da viúva do líder rural assassinado. integridade física e à justiça e recomendou seja conferida mais celeridade no processo criminal relativo ao caso. Os 13 casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais internacionais e nacionais. o que resultou graves confrontos implicando violação dos direitos humanos daquele povo indígena. c) conduzisse programas de educação. O caso 7615 se destaca por ser o primeiro submetido por organização não governamental de âmbito internacional contra o Brasil (Indian Law Resource Center. A Comissão declarou que “há prova suficiente para concluir que. dentre outras). residência e ao movimento.Caso 7615 – comunidade Yanomami em 1980. segurança. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos examinados. submeteu-se à Comissão o Caso 11745. Investigação policial durou oito anos e até o momento não havia indiciamento. indenização aos familiares da vítima.

111 detentos foram massacrados por policiais na Casa de Detenção de São Paulo. ainda. O relatório deste caso recomendou ao Brasil. Caso 11556 – com larga repercussão nacional e internacional. Em todos os casos. propôs-se a cumprir as recomendações e foi aprovada a Lei 9. denominado “Corumbiara” em virtude de conflito agrário na fazenda Santa Elina (em Rondônia). que implica o assassinato.Caso 11820 – envolve o assassinato de dezenove integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra em 1996. O caso. Todos os casos foram submetidos à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. ou mesmo a inexistência de qualquer resposta em face da falta de punição dos responsáveis pelas violações. As vítimas haviam interrompido trecho de uma rodovia no Pará quando foram desalojadas de forma violenta por policiais militares. 4) Casos de violência policial Dos 78 casos examinados. Caso “Parque São Lucas” – em 1989. condenou o Estado brasileiro por violação dos direitos previstos na Convenção Americana. dentre elas o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL). 34 são de situações de violência policial a partir de 1982. ao aceitar a solução amistosa. Caso “Carandiru” – em 1992. A Comissão. em 1996. Dez pessoas ligadas ao MST foram mortas por policiais militares e mais de cem ficaram feridas. os peticionários denunciaram o abuso e violência policial. na qual foram lançados gases lacrimogêneos.299. dentre outras medidas. que apresentou amplo impacto nacional e internacional. O governo brasileiro. o que resultou na morte de dezenove pessoas. no 42º Distrito Policial de São Paulo. da Lei 9. Denunciam. de vítimas inocentes. a transferência para a Justiça comum do julgamento de crimes cometidos por policiais militares. As pressões internacionais decorrentes dos casos submetidos à Comissão Interamericana contribuíram para a adoção. ineficiência de resposta do Estado brasileiro. 50 detentos foram encarcerados em uma cela de 1 m x 3 m. ficou conhecido como o “massacre do Eldorado de Carajás”. no relatório final de mérito. resultando na morte por asfixia de 18 detentos.299 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares (antes era competência da Justiça Militar). 72 . sem justificativa.

Caso 1193. 19 e 25 da Convenção Americana.Caso 12328: denúncia de tortura e maus-tratos sofridos por adolescentes internos da Fedem do complexo do Tatuapé. Com relação ao pedido formulado pelos peticionários. do direito da criança à proteção especial e do direito à proteção judicial. especialmente em virtude da violação ao ECA quanto à separação dos adolescentes por critérios de idade. previstos nos arts. bem como seja determinado o pagamento de indenização aos familiares das vítimas.A denúncia indica que ao menos 84 dos prisioneiros mortos estavam aguardando julgamento. o que caracteriza o fato como o mais sério massacre em prisão da história brasileira.Caso 11702: solicita medidas cautelares para a proteção dos direitos à vida e à integridade física de adolescentes internos em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. O Caso Carandiru foi o que maior atenção recebeu da Comunidade Internacional. O Caso 12008 também merece menção. . especialmente na imprensa. Quanto à indenização aos familiares das vítimas. os responsáveis são agentes policiais que teriam cometido o ato criminoso como vingança. Segundos os peticionários. em São Paulo. Denunciou a morte de 21 pessoas na Favela de Vigário Geral no Rio de Janeiro em 1993. sendo solicitada à Comissão que seja declarada a violação pelo Estado brasileiro do direito à vida. A Comissão Interamericana solicitou medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos os adolescentes. acerca da desativação do Complexo do Carandiru. Também é requerido que seja recomendada ao Governo brasileiro a adoção das medidas necessárias para que os responsáveis sejam investigados. com intensa repercussão. compleição física e gravidade da infração. denominado “Candelária”: oito crianças e adolescentes foram encontrados mortos nos arredores da igreja da Candelária. em julho de 1993. Os peticionários apontam irregularidades nos estabelecimentos. no Rio de Janeiro. tendo em vista a proporção e o alcance da violação de direitos internacionalmente assegurados. a Procuradoria de Assistência Jurídica propôs 59 ações indenizatórias. vítimas de espancamentos. . com a implosão do complexo em 2003. processados e punidos. 5) Casos de violação dos direitos de criança e adolescentes Os casos que merecem destaque são: . em razão da morte de quatro policiais nas imediações da favela. A petição alega que os responsáveis pelas mortes são policiais militares. foi acolhido. maus-tratos e violência sexual por parte de funcionários dos estabelecimentos. 73 . 4. sendo-lhes aplicáveis as sanções correspondentes.

pelo Estado. culminando na extração de órgãos genitais das vítimas. marcado pela violência e abuso sexual. obteve a concessão de HC. dos deveres assumidos em face da ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos e da Convenção Interamericana para Prevenir. morta em 10/03/1984. em face da impunidade. . a Comissão Interamericana condenou o Estado brasileiro por negligência e omissão em relação à violência doméstica. motivou. a licença foi negada duas vezes. nos arredores de João Pessoa.Caso 12051: Maria da Penha Maia Fernandes. o que levou o caso à Comissão Interamericana. É a primeira vez que um caso de violência doméstica leva à condenação de um país. 74 . a estudante foi estrangulada em sua casa pelo ex-namorado. punir e erradicar a violência contra a mulher. Crianças e adolescentes têm sido vítimas de assassinato. 6) Casos de violência contra a mulher Os casos apresentados têm como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. o principal acusado é um deputado estadual. Em virtude da então imunidade parlamentar só poderia ser processado criminalmente com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. em 1998. que foi posteriormente afastada pelo TJ. no âmbito do sistema interamericano de proteção aos direitos humanos. no Estado do Maranhão. ratificada pelo Brasil em 26/11/1995. entre 9 e 14 anos. Trata-se do primeiro caso contra o Estado brasileiro que se baseia em dispositivos da Convenção Interamericana para prevenir. Desde a concessão do HC. . No período de 1991 a 2000. De acordo com o inquérito policial. foi agredida por seu então companheiro. Contudo. dezenove meninos. . Condenado a quinze anos de reclusão pelo Tribunal do Júri de Santos. a apresentação do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. o acusado encontra-se foragido. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. A decisão fundamentou-se na violação.Caso 12263: assassinato da estudante Márcia Barbosa de Souza. valendo-se de sucessivos recursos contra a decisão do Tribunal do Júri. A impunidade e a inefetividade do sistema judicial diante da violência doméstica contra as mulheres no Brasil. no Estado da Paraíba. em 18/06/1998. após 15 anos o réu permanece em liberdade.. foram vítimas dessa grave violação. em Santos. estudante de Arquitetura. Apesar de condenado. As tentativas de homicídio e agressões acabaram por provocar várias lesões além de uma paraplegia irreversível na vítima. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (convenção do Belém do Pará). Em 2001.Casos 12426 e 12427: referem-se ao caso dos “meninos emasculados do Maranhão”.Caso 11996: Márcia Cristina Rigo Leopoldi. Segundo a denúncia.

entendeu por encaminhar o caso à Corte. 8) Casos de violência contra defensores de direitos humanos Defensores de direitos humanos: são todos os indivíduos. em face de decisão definitiva proferida pelo STF. O advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial na região e também atuava como assistente do MP nos processos que examinavam a possível existência de grupo de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Norte. que negou direito à licença maternidade à mãe adotiva. e o período concernente ao processo de transição democrática. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime repressivo militar vigente no período de 1964 a 1985.Caso 12378: denúncia de discriminação contra mães adotivas e seus respectivos filhos. .. 75 . tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos.Caso 12001: único caso a envolver denúncia de discriminação racial. 9) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Brasil Para a análise do quadro das ações internacionais (sobre os casos admitidos pela Comissão Interamericana contra o Estado brasileiro). A Comissão Interamericana. As mudanças políticas ocorridas no Brasil a partir de 1985. no Estado do Rio Grande do Norte. implicaram em mudanças relativas à própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. . advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal.Caso 12058: destaca-se o assassinato do defensor de direitos humanos Gilson Nogueira Carvalho. em 20 de outubro de 1996. por grupo de extermínio. deflagrado a partir de 1985.Caso 12397: denúncia de ameaça de morte recebida por histórico defensor de direitos humanos no Estado de SP. 7) Caso de discriminação racial . grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidos. O caso refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. em nota de 19/01/2005.

que não consegue ser controlada pelo aparelho estatal. a partir do processo da democratização iniciado em 1985. 1 violação aos direitos da população indígena. Se no primeiro período. 34 envolvem violência policial. e. 13 revelam violência rural. deve-se primeiramente analisar os atores sociais envolvidos. no segundo 50% dos casos denunciaram violência policial. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. que passou a contar com novos atores a partir da criação de inúmeras entidades não governamentais. Indaga-se: quem são os proponentes dessas ações internacionais submetidas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. É notável perceber que a partir da democratização. A distinção entre as práticas verificadas no regime militar e no processo de democratização está no fato de que. constata-se que. Se.Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. 90% dos casos denunciaram violência do regime militar. a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. observa-se que durante o regime militar. Essas ações internacionais denunciam a violação de qual categoria de direitos? Qual a natureza dos direitos violados? Considerando o primeiro período. por vezes. Estes dados. Já no processo de democratização. de 1964 a 1985. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. a sistemática violência 76 . o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. nove se referem a casos de detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. relativo ao processo de democratização. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. pela atuação conjunta dessas entidades. relativo ao regime militar. dos 68 casos apreciados. Já no segundo período. por sua vez a reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. 5 referem-se à violação de direitos da criança e adolescente. de âmbito nacional ou internacional. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. Já no segundo período. por si sós. dos dez casos apreciados. Esses dados demonstram que o processo de democratização no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. 3 envolvem violência contra a mulher. no primeiro caso. o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. 1 à discriminação racial e 6 violência contra defensores de direitos humanos. por um lado. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas.

não se verifica a punição dos responsáveis. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e contra lideranças rurais. advogados. A insuficiência. seja durante o período ditatorial. a inexistência de resposta por parte do Estado brasileiro é fator que. seja durante o período de democratização. a partir da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Estado brasileiro. sem qualquer liderança destacada. professores universitários. mas pessoas pobres. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. em 87% dos casos examinados. destaca-se que casos submetidos à Comissão Interamericana têm apresentado relevante impacto no que tange à mudança de legislação e de políticas públicas de direitos humanos. Importante assinalar que 97% dos casos que integram o período da democratização foram submetidos à Comissão a partir de 1992. auxiliares de escritório. vendedores. refletem violência cometida em face de grupos socialmente vulneráveis. Nesse sentido. constata-se que os demais 34 casos restantes. mecânicos ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. ou mesmo. economistas e outros profissionais. Todos os casos submetidos ao conhecimento da Comissão Interamericana. não são mais dos setores da classe média. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política.policial apresenta-se como resultado não mais de uma ação. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. a população negra. as mulheres. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. mas de uma omissão do Estado ao não ser capaz de deter os abusos perpetrados por seus agentes. Como caracterizar as vítimas dessas violações de direitos? Quanto às vítimas dessas violações. ajudantes de obras. mas pelo critério econômico. concernentes ao período de democratização. como os povos indígenas. Quanto ao impacto da litigância internacional no âmbito brasileiro. relativo ao processo de democratização. as crianças e os adolescentes. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. as vítimas. Não mais pelo critério político. ou seja. sociais ou culturais. se no primeiro período. configura requisito do prévio esgotamento dos recursos internos e enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. em geral integrantes da classe média brasileira. todos. denunciaram violação de direitos civis e/ou políticos. via de regra. Tal como no regime militar. Ao lado dos 34 casos de violência policial. cabe menção a seis avanços: 77 . Se no período de autoritarismo militar. A título ilustrativo. no segundo período. com o qual se conjuga um componente sóciopolítico. estudantes. líderes de trabalhadores.

e culminou na adoção da Lei n. relativo ao assassinato da estudante por deputado estadual foi essencial para a adoção da EC 35/2001 que restringe o alcance da imunidade parlamentar no Brasil. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao Estado violador. b) o caso 12263. que determinou a transferência da Justiça Militar para Justiça Comum do julgamento de crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. que negou o direito à licença gestante à mãe adotiva. considerando a experiência brasileira. e f) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. em face da decisão definitiva do STF. Enfim. surge como significado fator para a proteção dos direitos humanos. com o intenso envolvimento das organizações não governamentais. que estendeu o direito à licença maternidade às mães de filhos adotivos. nesse sentido. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. conferindo suporte ou estímulo para reformas internas. que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.340/2006. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. os instrumentos internacionais constituem poderosos mecanismos 78 . especialmente os que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. culminou na condenação do Brasil por violência doméstica sofrida pela vítima. c) o caso 12378. 11. Esse fator é positivo na medida em que os Estados são convocados a responder com mais seriedade aos casos de violação de direitos. e) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. pode-se afirmar que. resultou na condenação do Brasil por violência doméstica sofrida pela vítima.421/2002.a) os casos de violência policial. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas a respeito de sua prática. no que se refere aos direitos humanos. Ademais. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. nacionais e internacionais. de Maria Penha de Maia Fernandes. Os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. A ação internacional e as pressões internacionais podem contribuir para transformar uma prática governamental específica.299/96. A experiência brasileira revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. d) o caso 12051. e. envolvendo a denúncia de discriminação contra mães adotivas e seus respectivos filhos. culminou com a aprovação da lei 10.

O sistema nacional de proteção interage e se completa com a sistemática internacional. O controle internacional é acionável quando o Estado se mostra falho ou omisso. Por exemplo. São argumentos para a democratização do acesso às Cortes internacionais: 1) Implementação dos direitos humanos deve ser realizado de modo geral. O movimento de internacionalização dos direitos humanos contribui para a democratização dos sujeitos de direito internacional. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. que a ação internacional é sempre uma ação suplementar. contudo. Os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. de âmbito global e regional. Capítulo X ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Nestas considerações finais. A partir do pós-guerra. constituindo garantia adicional de proteção dos direitos humanos. com legitimação ao acionamento direto de mecanismos internacionais (petições ou comunicações aos órgãos internacionais). 2) Fortalecimento da implementação do sistema internacional dos direitos humanos. não atribui ao indivíduo ou entidades não governamentais legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. em caso de violação a direitos fundamentais. Ao acolher o aparato internacional de proteção. 3) Os indivíduos e grupos 79 . como também de âmbito geral e específico. controle e fiscalização internacional. e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. a fim de proporcionar a maior efetividade possível na tutela e promoção de direitos fundamentais. Todavia. surgiu o Direito Internacional dos Direitos Humanos como paradigma e referencial ético a orientar a ordem internacional contemporânea.para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. da Convenção Americana. ainda se faz necessário democratizar determinados instrumentos e instituições internacionais para permitir maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. o Estado passa a aceitar o monitoramento. Ressalte-se. o art. examina-se a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos. 61. Os processos de universalização e internacionalização dos Direitos Humanos levaram à formação de um sistema normativo internacional de proteção de direitos humanos. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. inserindo os indivíduos e as organizações não governamentais.

a dignidade da pessoa humana. atribuiu aos direitos humanos internacionais hierarquia de norma constitucional. Com a Carta democrática de 1988. 5. incluindo-os no elenco dos direitos constitucionais garantidos. como marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no País. exigindo nova interpretação de princípios tradicionais. compondo o bloco de constitucionalidade. o aparato internacional permite o aperfeiçoamento do próprio regime democrático. isto é. §1. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. 5º. Enfatize-se que a Constituição Brasileira de 1988. À luz desse regime. os tratados de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. os quais se sujeitam à sistemática da incorporação legislativa e detêm status hierárquico infraconstitucional. os tratados de direitos humanos são incorporados automaticamente pelo direito brasileiro e passam a apresentar hierarquia de norma constitucional. inovando a ordem jurídica brasileira. A Carta de 1988 acolhe. §2º. diversamente dos tratados tradicionais. um sistema misto. desse modo. independentemente do quorum de sua aprovação. que objetivam assegurar uma relação de equilíbrio e reciprocidade entre Estados pactuantes – priorizam a busca em assegurar a proteção da pessoa humana. até mesmo contra o próprio Estado pactuante. vêm a constituir os princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. Nesta hipótese. Com esse raciocínio se conjuga o princípio das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. O texto democrático ainda rompe com as Constituições anteriores ao estabelecer um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (EC/45). como a soberania nacional e a não-intervenção. que apresentam aplicabilidade imediata. §2 e §3. Por força do art. da Constituição Federal de 1988. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. todos os tratados de direitos humanos. Esse sistema misto se fundamenta na natureza especial dos tratados internacionais de direitos humanos que – distintamente dos tratados tradicionais. passam a integrar formalmente o Texto Constitucional.são aqueles diretamente afetados. devendo os mesmo ter acesso às Cortes e os Estados são relutantes em submeter casos por razões políticas. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. Em síntese: A Constituição de 1988. ineditamente consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. que combina regimes jurídicos diferenciados – um aplicável aos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos e outro aplicável aos tratados tradicionais. No caso Brasileiro. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível 80 . bem como os direitos e garantias fundamentais. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico brasileiro. são materialmente constitucionais. por força do art.

nacional e internacionalmente assegurados. que demarcam um catálogo claro. a abertura da Constituição à normação internacional resultou na ampliação do bloco de constitucionalidade. os direitos internacionais dos Direitos Humanos – por força do princípio da norma mais favorável à vítima. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo a amplo dos direitos humanos. oficiais diplomáticos devem tomar medidas para remediar a situação. o Direito Internacional dos Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. sendo a publicidade um importante fator para a implementação dos direitos humanos.– o princípio vem a consolidar o alcance interpretativo que se propõe relativamente aos parágrafos do art. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. por vezes. embora decorrentes de fonte internacional. Capítulo XI SÍNTESE 81 . Seja em face da sistemática de monitoramento internacional que proporciona. jamais a restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. veiculam matéria e conteúdo de inegável natureza constitucional. A sistemática internacional de accountabilty vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em visa que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. Ainda que não bastando para tanto a menção aos dispositivos dos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. Também. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. 5º do Texto. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos. decorrentes do regime ou dos princípios adotados pela Constituição. Admitir o contrário traduziria o equivoco de consentir na existência de duas categorias diversas de direitos fundamentais – uma de status constitucional e outra de status ordinário. Há que ser também afastada a frágil argumentação de que os direitos internacionais integrariam o universo impreciso e indefinido dos direitos implícitos. permitindo. precisão e definido de direitos. que passou a incorporar preceitos enunciados de direitos fundamentais que. Diante da publicidade de casos de violações de direitos humanos e de pressões internacionais. seja em face do extenso universo de direitos que assegura. Quando o Governo torna-se ciente de problema e do possível risco de constrangimento. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos – apenas vêm a aprimorar e fortalecer. Ademais.

1. A Constituição brasileira de 1988 simboliza o marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. 2. O valor da dignidade humana impõe-se como núcleo básico e informador do ordenamento jurídico brasileiro, como critério e parâmetro de valoração a orientar a interpretação e compreensão do sistema constitucional instaurado em 1988. Os direitos e garantias fundamentais passam a ser dotados de uma especial força expansiva, servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico nacional. 3. O equacionamento dos direitos humanos no âmbito da ordem jurídica interna permitiu que tais direitos se convertessem em tema fundamental na agenda internacional do País. Essa mudança tem gerado um novo constitucionalismo. 4. A CF-88 reproduz tanto a antiga preocupação referente à independência nacional e à não intervenção como, também, inova ao realçar uma orientação internacionalista jamais vista na história brasileira. Essa orientação se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos, do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. 5. A CF-88 ineditamente consagra o primado do respeito aos direitos humanos, como paradigma propugnado para a ordem internacional. Assim sendo, a soberania do Estado brasileiro fica submetida às regras jurídicas, tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. 6. Os direitos humanos surgem para o constituinte como tema global. 7. Ineditamente, a CF-88 prevê que os direitos e garantias expressos no Texto não excluem outros decorrentes de princípios ou Tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte (art 5º, § 2º CF). Assim sendo, a CF atribui natureza de norma constitucional aos tratados internacionais de direitos humanos. 8. Todos os tratados de direitos humanos, independentemente do quorum de aprovação são materialmente constitucionais. Se aprovados com quorum qualificado (art 5º, § 3º, introduzido pela EC 45/04), serão também formalmente constitucionais, sendo equiparados às emendas à Constituição. 9. Em favor dessa constitucionalização, normas constitucionais referentes aos direitos humanos. 10. De acordo com o artigo 5º, § 2º CF, há 03 grupos de direitos fundamentais: a) direitos expressos na CF, b) direitos expressos em tratados internacionais de que o Brasil seja parte, c) direitos implícitos. 11. Enquanto os demais tratados internacionais têm força hierárquica infraconstitucional (art 102, III, b, CF), os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos têm força constitucional, por apresentarem caráter especial e por não buscarem apenas o equilíbrio e reciprocidade entre os Estados-partes. 82 há a natureza materialmente constitucional dos direitos fundamentais, como ainda o princípio da máxima efetividade das

12. Os direitos constantes nos tratados internacionais de direitos humanos, assim como os demais direitos e garantias individuais consagrados na Constituição constituem cláusulas pétreas, e não podem ser abolidos nem por Emenda à Constituição (artigo 60, § 4º CF). Todavia, os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis denúncia por parte do Estado signatário. Propõe-se a necessidade de prévia autorização do Legislativo, assim como ocorre na Ratificação. 13. Os tratados internacionais de direitos humanos formal e materialmente constitucionais não são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário, devido ao grau de legitimidade popular e ao dificultoso processo de aprovação (maioria de 3/5 dos votos dos membros em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos de votação). 14. A CF-88 situa-se num contexto em que diversas Constituições latino americanas recentes buscam dispensar tratamento especial e diferenciado aos preceitos de direitos humanos. 15. Quanto à incorporação dos tratados de direitos humanos no Direito brasileiro, aplica-se o princípio da aplicabilidade imediata das normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais (art 5º, § 1º CF), havendo, pois, incorporação automática desses tratados, sem a necessidade de ato jurídico complexo. Com o ato de ratificação, a regra passa a vigorar de imediato. Isso não ocorre com os tratados tradicionais, para os quais se aplica a regrada incorporação legislativa. 16. Considerando-se a hierarquia dos direitos humanos, três hipóteses podem ocorrer. O direito enunciado nos tratados poderá: a) reproduzir direito assegurado pela Constituição; b) integrar o universo de direitos constitucionalmente previstos; c) contrariar preceito constitucional. Neste último caso, prevalecerá a norma mais favorável ao ser humano. 17. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário, a Liga das Nações Unidas e a Organização Internacional do Trabalho. Esses institutos registram o fim de uma época em que o direito Internacional era, salvo raras exceções, confinado a regular relações entre Estados, no âmbito estritamente governamental. Rompem, também, com a noção de soberania absoluta, pois admitem intervenções no plano nacional, em prol da proteção dos direitos humanos. 18. Contudo, a efetiva consolidação do Direito Internacional dos direitos humanos surgiu em meados do Século XX, em decorrência da II Guerra Mundial. Seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de direitos humanos da Era Hitler. 19. O Tribunal de Nuremberg (1945-1946) significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos, pois consolida a idéia de limitação da soberania nacional e reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo Direito Internacional. 83

20. A Carta das Nações Unidas de 1945 consolida, de forma decisiva, o movimento de internacionalização dos direitos humanos. Definitivamente, a relação entre um Estado e seus nacionais passa a constituir uma problemática internacional. 21. A Declaração Universal dos direitos humanos, em 1948, define com precisão o elenco de “direitos humanos e liberdades fundamentais”. 22. Concebida como a interpretação autorizada dos artigos 1º (3) e 55 da Carta da ONU, a declaração de 1948 estabelece duas categorias de direitos: direitos civis e políticos e direitos econômicos, sociais e culturais. Combina ineditamente o discurso liberal e o discurso social da cidadania, conjugando o valor da liberdade ao valor da igualdade. Os direitos humanos passam a ser concebidos como unidade interdependente e indivisível. A Declaração, além da indivisibilidade, endossa ainda a universalidade desses direitos. 23. A declaração Universal de 1948, ainda que não assuma a forma de tratado internacional, apresenta força jurídica obrigatória e vinculante, na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante dos artigos 1º (3) e 55 da Carta das Nações Unidas. Outrossim, ao logo de mais de cinqüenta anos de sua adoção, transformou-se em direito costumeiro internacional e princípio geral de Direito Internacional. 24. A concepção universal dos direitos humanos sofreu e sofre resistências dos adeptos do relativismo cultural. Para os relativistas, cada cultura possui seu próprio discurso acerca dos direitos fundamentais, de acordo com as peculiaridades culturais e históricas de cada sociedade. Em contrapartida, a corrente universalista, acolhida pela Declaração de Viena de 1993, consagra que todos os direitos humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados. Compartilha-se de um “universalismo de confluência”, ou seja, um universalismo de ponto de chegada e não de ponto de partida, observando-se, ainda, um “mínimo ético irredutível”. 25. Sob o enfoque estritamente legalista, a Declaração Universal não apresenta força jurídica obrigatória e vinculante, já que assume a forma de declaração e não de tratado. Por isso, houve o processo de “juridicização” da Declaração, concluído com a elaboração de 02 Pactos: Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Formou-se, assim, a Carta Internacional dos Direitos Humanos (International Bill of Rights). 26. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura o sistema normativo global de proteção desses direitos, ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. Assim sendo, faz-se possível a responsabilização do Estado no domínio internacional quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas. A sistemática internacional é, portanto, sempre adicional e subsidiária. 27. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais não apenas incorporam os direitos originariamente previstos na Declaração Universal de 1948 como os estendem e ampliam. 84

Os direitos previstos no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos possuem aplicabilidade imediata, sendo que os previstos no Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais têm aplicação “progressiva”, pois estão condicionados à atuação do Estado. Para esse estudo, esses últimos também são direitos acionáveis, já que a idéia de não-acionabilidade dos direitos sociais é meramente ideológica e não científica. 28. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresenta um peculiar mecanismo que envolve a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática opcional das comunicações interestatais. O protocolo Facultativo prevê, ainda, o mecanismo das petições individuais a serem encaminhadas pelos indivíduos e examinadas pelo Comitê de Direitos Humanos. Como requisito de admissibilidade dessas petições, tem-se: esgotamento prévio dos recursos internos e comprovação de que a questão não está sendo examinada por outra instancia internacional. Já o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais apresenta apenas o mecanismo de relatórios encaminhados pelos Estados-partes acerca das medidas que estão sendo adotadas. Encontra-se em processo de elaboração um Protocolo Facultativo que prevê o mecanismo de petições individuais. 29. O sistema global de proteção dos direitos humanos tem sido ampliado com o advento de tratados multilaterais de direitos humanos, pertinentes a violações específicas, como o genocídio, tortura, discriminação contra a mulher, etc. Assim, forma-se a coexistência de sistema geral e sistema especial, os quais são complementares. 30. Constata-se que, no sistema normativo global de proteção, até o advento do estatuto do Tribunal Penal Internacional, em 1998, não era previsto um órgão jurisdicional com competência para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. Com exceção dessa jurisdição de natureza estritamente penal, no âmbito global a sistemática de monitoramento internacional continua a se restringir ao mecanismo dos relatórios. Impõe-se a necessidade da instituição de um Tribunal Internacional de Direitos Humanos, que tenha o poder de proferir decisões com força jurídica vinculante e obrigatória aos Estados perpetradores de violações. Faz-se também necessária a adoção do mecanismo de petição individual por todos os tratados internacionais de direitos humanos 31. A possibilidade de submeter o Estado-parte ao monitoramento e controle da comunidade internacional, sob o risco de constrangimento (embarrassment), em face de uma condenação política e moral é importante estratégia a ser utilizada pelos indivíduos titulares de direitos internacionais. 32. Ao lado do sistema normativo global, surge o sistema normativo regional de proteção, que busca internacionalizar os direitos humanos no plano regional, especialmente na Europa, América e África. Esses sistemas não são dicotômicos, mas complementares. Cabe ao indivíduo a escolha do aparato mais favorável. 85

da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. solicitar informações dos governos quanto às medidas adotadas. 35. aceitando expressamente a legitimidade das instâncias internacionais quanto ao cumprimento conferido pelo País às obrigações internacionalmente assumidas concernentes aos direitos humanos. mas determinando que os estados alcancem progressivamente a plena realização desses direitos. O instrumento de maior importância do sistema regional interamericano é a Convenção Americana de Direitos Humanos. limitada aos Estados-partes que reconheçam expressamente tal jurisdição. por vezes. A Convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos humanos. Para que o Brasil se alinhe efetivamente à sistemática internacional de proteção dos direitos humanos. sob a égide da CF-88. Atente-se que apenas os Estados-partes e a Comissão Interamericana podem submeter um caso à Corte Interamericana. Para tanto. é emergencial uma mudança de atitude política. cultural ou econômico. processo deflagrado com o fim da Guerra Fria. de modo a 86 . A competência da Corte é. Desde então. 37. em 1º de fevereiro de 1984. O Brasil aderiu a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. O marco inicial do processo de incorporação de tratados internacionais de direitos humanos pelo Direito brasileiro foi a ratificação. é órgão jurisdicional do sistema regional interamericano que apresenta competência consultiva e contenciosa. submeter relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). A Corte pode determinar a adoção de medidas necessárias à restauração do direito. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. desumanos e degradantes (2007) 38. sendo que o último foi o Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e outros Tratamento ou penas cruéis. A Corte Interamericana possui jurisdição para examinar casos que envolvam a denúncia de que um Estado-parte violou direito protegido pela Convenção. 36. Quanto à Corte Interamericana. examinar comunicações que contenham denúncias. preparar estudos e relatórios. integrantes do sistema global e regional. tendo sua decisão força jurídica vinculante e obrigatória. A principal função da Comissão é promover a observância e proteção dos direitos humanos na América.33. não estando prevista a legitimação do indivíduo. A reinserção do Estado brasileiro ocorre em um contexto em que o processo de democratização no Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. cabe à Comissão: fazer recomendações aos governos. 34. diversos instrumentos internacionais foram incorporados ao Direito brasileiro. não enunciando de forma específica qualquer direito social. o qual é integrado pela Comissão Interamericana de direitos humanos e pela Corte Interamericana. a qual assegura um catálogo de direitos civis e políticos.

Assim sendo. oferecendo o risco de constrangimento (embarrassment) político e moral do Estado violador. É preciso também reavaliar a postura quanto aos procedimentos facultativos. 41. supervisão e monitoramento do modo pelo qual o Brasil garante os direitos humanos internacionalmente assegurados. 87 . potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. O aparato internacional permite intensificar as respostas jurídicas diante de casos de violação de direitos humanos. A advocacia dos tratados de direitos humanos oferece relevantes estratégias de ação. O Direito Internacional dos Direitos Humanos instaura um processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. 39. 40.não se recusar a aceitar procedimentos que permitam acionar de forma direta e eficaz a international accountability. na medida em que passa a incluir direitos previstos no plano nacional e também os direitos internacionalmente enunciados. há relevantes tratados pendentes de ratificação. aceitando mecanismos de petição individual e comunicação interestatal. A advocacia dos instrumentos internacionais permite a tutela. Outrossim. A ação internacional auxilia na publicidade das violações de direitos humanos. o qual se vê alargado. ocorre o aperfeiçoamento do próprio regime democrático.

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