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Rio de Janeiro, Praça Tiradentes, maio-junho de 2012

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OPAVIVARÁ!

Fala que eu te escuto

Ouvidoria na Praça Tiradentes. Diariamente. Procure as cadeiras de praia triplas!

poema um:

e coisas do espírito / como flores em orelhas / pousam.

poema dois:

findara aquele amor / por isso / por aquilo / por razões agora eté- reas.

poema três:

desfolhando o livro possível / em manhã comum / (jardins / dese- nhos de).

poema quatro:

onze brindes / ao bom ignorar.

poema cinco:

sopros para o acontecimento / acontecer / com sua tangível têm- pera.

poema seis:

dias límbicos / pelo rosto / em luxos de quietude.

poema sete:

prontos para investigarem / desde que / o aprendido / escapasse.

[Poemas Do livro: Clínica de Artista II: Seis Livros Treze Mil Vezes Treze Mil Vezes Treze Mil Ossos, de Roberto Corrêa dos Santos]

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FOLHETIM: A CARTA ABERTA POR ZÉ BENTO

e entendida por Zé Jorge

(ao meu amor)

Os dois leem o jornal que veio do banco da praça. Ele é de Maceió, mas vive no Recife. Zé Jorge, por volta de 30, marceneiro, mágico e desequilibrista. Bebe caipirinha, talvez fume – às vezes ou alguma

coisa. Esquina, numa noite passada. Poucas palavras suportariam a voltagem de sua aparência, o encantamento magnético de sua presença e o sur-controle incendiário de seus olhos. Ele é carioca, mas foi concebido em São Sebastião. Zé Bento, por volta de 30, carteiro, contador de histórias, abre trilhas em mata urbana. Cerveja e até que fuma. Esquina, numa noite passada. O corpo semi-grande em músculo carrega, debaixo do peito cabeludo, um coração ainda maior de vazio a se encher. Fome de mundo, fome de mundo. Chovia, e Zé Bento disse que venha, suba a ladeira e toque minha campainha. Abriu o tempo, e Zé Jorge disse que ia. O tempo esticou, fala mais, sorri pra mim, que tudo que mais quero é abocanhar você inteiro. De dentro de mim, em dentro de ti, mimar você nas quatro estações. É de se cuidar, de se olhar – se não vier logo, eu vou ao Recife. É de um querer maior que o controle, maior que o se entender. É de um maior além de qualquer ansiedade. Não sabendo os porquês, acredita-se demais. Nessa ligação, torço por uma entrega como a minha. Zé Jorge disse não saber, não saber, não saber. E, diante do interesse carinhoso de Zé Bento, deu 2 longos passos para trás

antes de dar 3 passos e meio pra frente. Se fossem 4, seriam 1. Zé Bento perguntou por mais. Zé Jorge disse não saber. Zé Bento, em seu trabalho, abriu uma carta. Mas apenas Zé Jorge entendeu que dizia quer mais.

1/

continua na próxima edição

Este projeto foi realizado com o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Cultura, através do edital do fundo de Apoio às Artes Visuais

PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO PÚBLICA

Edição nº 2

OPAVIVARÁ!

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Rio de Janeiro, Praça Tiradentes, maio-junho de 2012

LIBERA GERAL!!! Temos bom papo, sombra e água fresca! Musa maravilhosa da praça de alimentação,
LIBERA GERAL!!!
Temos bom papo, sombra e água fresca!
Musa maravilhosa da praça de alimentação, Marcela arrasa no fogão.
Surreal: sobre a realidade
Ou: manual de quem deseja se
manifestar no espaço público.
ao “Parques e Jardins”. Esses órgãos
emitem documentos conhecidos po-
pularmente como “Nada a opor”, mas
também nada a favor.
1) Prepare o paletó! Ele é importante
para te acompanhar no passeio pelos
corredores da máquina.
5) Ande com seu “Nada a opor” no
bolso, os guardas municipais ficam
muito satisfeitos.
9) O projeto de lei nº 931/2011, do
vereador Reimont, que dispõe sobre
a apresentação de artistas de rua nos
logradouros públicos do município
do Rio de Janeiro havia sido sumari-
amente vetado pelo Prefeito Eduardo
Paes, mas o veto já foi retirado e, em
breve, deve entrar em vigor.
2) Não pense que criando dispositivos
móveis você ficará livre de ter que
pedir autorizações de ocupação do es-
paço público. Até para fazer um pic-
nic é preciso avisar as autoridades.
6) Argumentos como efemeridade,
temporalidade da ação, interação, não
convencem na hora de ganhar uma
liberação diante do enorme problema
que existe se você resolve trabalhar
com comida. Se vender não pode, dar
3) A Secretaria de Ordem Pública
(Seop) manda no espaço público do
Rio de Janeiro. Mesmo que você tenha
um projeto vencedor de edital na área
da cultura, antes de sair fazendo o que
prometeu, você precisa ganhar um ca-
rimbo da Seop. Controle e coerção no
lugar de percepção e congregação.
pior ainda. Os moradores de rua são
sempre colocados na mesma classe
dos buracos e da sujeira.
é
10) Esqueça a ideia de realizar uma
ação artística em espaço público de
05 a 25 de junho de 2012 no Rio de
Janeiro. A cidade encontra-se sob
vigília, quase um estado de sítio, se-
gurança máxima por conta da Rio+20.
Os órgãos acima citados não estão
emitindo autorizações para essas da-
tas. Somos todos suspeitos.
7) Ser notícia na grande mídia é uma
ótima estratégia para ganhar a simpa-
tia dos órgãos competentes.
11) Por fim ocupem as ruas, as praças,
os morros, os parques, as praias. A ci-
dade é a nossa casa e nela deve viver
mais o corpo do que a máquina.
8) Ter sete mil amigos convidados
4) Além de visitar a Seop, você tam-
bém vai precisar conhecer o pessoal
da Subprefeitura da área que pretende
ocupar. Caso seja uma praça, vá ainda
para suas ações nas redes sociais ajuda
a
acelerar o processo de autorizações.

RECEITA DA SEMANA

É COZINHANDO QUE

A GENTE SE ENTENDE

UMA

BEBIDA

FEITA

COM

SALIVA

 

Para beber, as mulheres cui- davam de mascar a mandioca, esmagando-a com os molares e en- rolando-a com a língua no céu da boca. É como mascar tabaco, mas- tigando bem e com bastante saliva, cuspindo tudo num pote, até que esteja cheio. E eram só as virgens que tinham a honra, porque as outras estragariam tudo. A mesma coisa faziam com acaiá, pacoba, milho, ananás, batata-doce, jeni- papo, caju e outras qualidades. O resultado, dito cauim, é uma bebi-

da

nutritiva e inebriante, de gosto

ácido e muito semelhante ao soro

de

leite, que os portugueses não

podiam suportar pela lembrança

do

cuspe. Preferiam beber o vinho,

esquecidos das uvas pisadas com

os

pés.

Do livro:

 

A

Cozinha Brasileira - Pequena

introdução histórica, pitoresca e sentimental à gulosa Cozinha Bra- sileira Círculo do Livro S.A., Edições Claudia.

PROGRAMAÇÃO!!!

Segundas: 14/05, 21/05, 28/05, 04/06

DEAMBULAÇÕES

Quartas: 16/05, 23/05, 30/05 Sábados: 19/05, 26/05, 02/06

PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO, LAVANDERIA PÚBLICA, FONTE PÚBLICA, SALA DE ESTAR AO AR LIVRE

Sábado: 02/06

MÚSICA DA NUVEM - a partir

de

16h.

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Rio de Janeiro, Praça Tiradentes, maio-junho de 2012

CIDADE ATERRO = PAISAGEM SOBREPOSTA

manifesto do morro

descendo a ladeira

descendo a ladeira

por Ophelia Patricio Arrabal

Começando minha deambulação desde a Praça Tiradentes, sinto meus pés chafurdarem no man-

Em nossa peculiaridade carioca, do desmonte de morros e construção de aterros, constituímos várias camadas

Em nossa peculiaridade carioca, do desmonte de morros e construção de aterros, constituímos várias camadas de sedimentação física e de erosão social, paisagens sobrepostas, passados soterrados, dinâmicas

sociais inteiras caladas sob o estrondo das escavadeiras. Monteiro Lobato, figura reconhecida historicamente por sua aversão ao modernismo, escreveu, pouco antes do ataque final contra o Morro do Castelo: “Anacro- nismo vivo, D. João VI paredes-meias com Epitácio, século XVI entreaberto à curiosidade do século XX, sobrevivência fossilizada de eras para sempre perdidas,

um ancião de barbas brancas, de cócoras à beira-mar,

é

rememorando o muito que já lhe passou diante dos olhos. Mas triste. Percebe que virou negócio, que o ver- dadeiro tesouro oculto em suas entranhas não é a ima- gem de ouro maciço de Santo Inácio e sim o panamá

do arrasamento. E desconfia que seu fim está próximo. Os homens de hoje são negocistas sem alma. Querem dinheiro. Para obter poder, venderão tudo, venderiam até a alma se a tivessem. Como pode ele, pois, resistir

maré, se suas credenciais - velhice, beleza, pitoresco, historicidade - não são valores de cotação na bolsa?”

à

ção de concreto, edifícios, torres, como pilhas de moedas de ouro que se amontoam a partir do epi- centro da cidade no tabuleiro deste Banco Imobi- liário. A construção civil compra o poder público e faz, literalmente, o que quer em nome de interesses do mercado. E o que chamamos de mercado é um dispositivo formado por poucos, porém grandes, interesses que se impõe às pessoas de modo a de- terminar o que elas devem querer.

formado por poucos, porém grandes, interesses que se impõe às pessoas de modo a de- terminar
formado por poucos, porém grandes, interesses que se impõe às pessoas de modo a de- terminar

gue e flutuarem sobre lagoas, pântanos e charcos

de

um Rio que ainda corre. Havia, no centro da

cidade, pelo menos cinco lagoas perenes, entre pântanos, alagadiços, canais, mangues e rest- ingas; eram Sentinela, Santo Antônio, Pavuna, Desterro e Boqueirão. Todas aterradas no século XVIII. Seguindo minha deriva trans-temporal, subo o morro de Santo Antônio, onde hoje er- guem-se torres imponentes e soturnas. Dinheiro

projetado na sombra indecorosa que cada uma

dessas novas construções espalha à sua volta.

A

sombra fálica do dinheiro acumulado. Sigo

nadando pelas lagoas do Centro com os olhos

fixos no Morro do Castelo, genealogia perdida

do

Rio. Passando o Desterro por debaixo do Ar-

cos da Lapa, deságuo no Boqueirão e aporto no

Passeio Público, primeira área de lazer pública

da

América Latina. A história do Passeio se in-

sere na história carioca como momento crucial de transformações que passariam a nortear os planos urbanísticos da cidade. O parque foi con- struído sobre o aterro da Lagoa do Bo- queirão, última lagoa aterrada no centro da ci- dade; e a terra deste aterro foi retirada do Morro das Mangueiras, primeiro morro a ser demolido no Rio de Janeiro. É a engenharia tomando a topografia natural como material plástico para

transformação física do terreno urbano. O responsável pelo projeto do Passeio foi Mestre Valentim, que, tomado pela emoção de ver seu antigo Rio se transformar em novo, lá escul- piu duas pirâmides de granito com medalhões onde se lê: “A Saudade do Rio” e “Ao Amor do Público”. Sinto saudade desse Rio que não vivi, nessa cidade porto de idas e vindas, despedidas e reencontros. Sinto o amor de uma cidade feita

para o passeio público, para o estar público, para

curioso pensar essa relação afetiva de Monteiro Lo-

bato com o Castelo e como os dois se colocavam como pedra no meio do caminho do modernismo, e como as bases do modernismo brasileiro culminaram na sema- na de 1922, mesmo ano do desmonte do morro.

É

na sema- na de 1922, mesmo ano do desmonte do morro. É Não cabe aqui tecer

Não cabe aqui tecer uma crítica romântica, sau- dosista e negativa ao modernismo e muito menos às transformações que a modernidade trouxe para a geo- grafia carioca. Cidade é a magnífica invenção humana

que sempre se fez a partir de lutas sociais, na tensão de forças que se harmonizam e se desafinam, se somam

se destroem mutuamente num constante sobrepor de

camadas de espaço, tempo e humanidade. O que ten- tarei colocar aqui é uma breve explanação histórica que busca expor a continuidade de políticas públicas praticadas na cidade do Rio de Janeiro, que, no decor- rer dos séculos, se repetem e avançam sob os discursos da disciplina, da ordem, da higiene e da modernização, se mostrando gentrificadoras dos territórios centrais da cidade. A partir desta cartografia histórica, podemos observar melhor a evolução e exacerbação das dife- renças sociais na conformação da urbe . A concentração de capital devora os espaços promovendo a concentra-

e

Ao se imporem deste modo, propondo mu- danças urbanísticas em escala macro e soluções arquitetônicas e logísticas como o suficiente para resolver todos os problemas da cidade, Mercado e Estado, em parceria, passam a tangenciar as questões sociais e humanas colocando seu foco e seus esforços na direção dos interesses empresar- iais como caminho mais objetivo para a valori- zação do terreno urbano. O processo de revitali- zação da zona portuária é, como em todo o centro da cidade, um processo de desabitação. O Centro como um lugar para grandes empreendimentos e conglomerados institucionais e não para os seus habitantes e passantes. Estas transformações, cer- tas vezes necessárias, não podem ser vistas como a resolução dos problemas: devem ser uma van- guarda que avança reestruturando a cidade em sua dimensão física, enquanto uma retaguarda fluida vem permear e criar possibilidades e soluções sus- tentáveis para a vida de quem mora, circula e tra- balha naqueles lugares. Assim se dá também nas UPPs, projeto padrão de correção de conduta social que apenas prevê a interrupção da violência civil da bala, através da ação militar do fuzil. Não se curam feridas sociais profundas com artilharia pesada, coletes à prova de bala e um batalhão de elite su- postamente incorruptível e cruel. Do mesmo modo, não podemos esperar que uma cidade possa ofere- cer cidadania e urbanidade aos seus moradores com concreto armado, asfalto e vidro espelhado.

Agora, na cidade, vemos imagens promisso- ras de grandes obras e acontecimentos urbanís- ticos. A zona portuária, incluindo Praça Mauá, Gamboa, Morro da Conceição, Santo Cristo, Providência e Caju, é onde hoje se concentra a nova promessa de revolução revitalizadora do Cen- tro da Cidade. Há maravilhas em todas as placas

as

praças, parques e praias, uma cidade que

inspira o lazer lúdico, a céu aberto, o banho de sol, de mar. Penso, assim, numa política dos afe- tos que nos aproxime de uma escala mais hu- mana e menos olímpica.

 
 
 

SOLIDÃO DE SÃO PAULO

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AO AMOR DO PÚBLICO!

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Rio de Janeiro, Praça Tiradentes, maio-junho de 2012

WILSON: O REI DO DISCO

de jogador de futebol a especialista em música

Wilson Gomes da Silva trabalha há trinta anos com vinis antigos e há cinco marca ponto em frente ao sobrado 48 da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Saiu da Bahia ainda garoto para tentar a vida como jogador de futebol em São Paulo. Chegou à base do Santos e foi reserva do célebre Juary, o craque da primeira geração pós Pelé, dos Meninos da Vila. Fanático por futebol, pouco entendia de música. Mesmo as- sim resolveu comprar seus primeiros discos e montar uma equipe de som com os amigos Da- nilton e Ednaldo, a WDN. O Soundsystem dos amigos, com uma vitrolinha e caixas leves, saía pelas noites de São Paulo tocando o pouco que tinha sem conseguir rivalizar com o pessoal que já duelava com vinis raros há muito mais tempo. Mas, seguindo a máxima do Barão de Coubertin, que trazia da vida de desportista, Wilson diz: “O importante era estar na rua e competir com os feras”.

A empreitada de Wilson pela noite paulistana fez com que se tornasse, em dois anos, um grande conhecedor de música de todos os gêneros e prin- cipalmente de vinis raros que buscava como ouro num garimpo. Quando a equipe se desfez, outro camarada o chamou pra abrir uma pequena lo- jinha de discos em Osasco. Já com um bom acervo, passou a conhecer os grandes Disk Jock- eys de São Paulo e de todo o Brasil como Hércu- les, Tony Heats, Bigboy, Bosco e Serjão. Daí foi evoluindo e pé na estrada. Ganhando o mundo já vivia só da venda dos discos, chegando a abrir uma banca de vinis próxima ao viaduto do Chá. No início dos anos 2000, com a forte entrada de novas mídias no mercado, Wilson resolveu trocar todo o seu acervo por CDs e se quebrou. “O vinil tem outra qualidade de som, tem capas lindas, tem durabilidade, o CD você copia e faz em casa, ninguém dá valor”, diz o vendedor de discos.

Assim foi se arriscar em 2002 no Rio de Ja- neiro. Chegou à cidade com uma mão na frente e outra atrás, sem ter onde dormir nem o que comer

frente e outra atrás, sem ter onde dormir nem o que comer Wilson e parte do

Wilson e parte do seu enorme acervo.

Foi aí que sua vida deu outra guinada. Nesse caminho de garimpeiro dos vinis, pegou um ônibus errado e ao invés de ir para Petrópolis,v foi parar em Piabetá. Com apenas R$36 no bolso e a barriga ron- cando, teve uma visão de um grande achado, sonhou com um disco famoso.

O vinil tem outra quali- dade de som, tem capas lindas, tem durabilidade, o CD você copia e faz em casa, ninguém dá valor.

A antevisão se confirmou e, mexendo na segunda fileira de discos de uma loja perdida, achou um exemplar original do disco Geração Bendita, da ban- da Spectrum, de Nova Friburgo. O disco, feito para

ser a trilha sonora do primeiro filme hippie bra- sileiro, que acabou sendo lançado com o nome de “É isso aí, Bicho”, dirigido por Carlos Bini, acabou virando uma raridade. Mas essa é outra história. O fato é que Wilson conseguiu comprar o clássico esquecido por poucos reais e vendê-lo para um colecionador que pagou R$5.000,00 pela peça. O disco foi vendido pela internet por um amigo, Ricardo, que ficou com metade da bolada. Com essa grana Wilson reestruturou todo o seu acervo que hoje conta com mais de 10 mil vinis guardados numa sala do centro da cidade.

Wilson, o Rei do Disco, traz seus vinis todos os dias para as calçadas da Praça Tiradentes. Ali na frente do sobrado 48, onde morou Bidu Sayão, o pesquisador e comerciante chegou antes da refor- ma do sobrado que hoje é a sede do Centro Cari- oca de Design e do Studio X. Wilson é uma per- sonalidade notória da Praça, cumprimentado por todos que passam, respeitado pela guarda munici- pal, segue vendendo raridades, como o Tim Maia Racional I ou vinis de Vitor Assis Brasil, além de discos de toda a parte do mundo. Sua presença, seu conhecimento sobre música, seu mostruário improvisado de discos faz a Tiradentes reviver, de uma nova forma, seus áureos tempos de epicentro da cultura. Wilson mantém viva uma importante fatia da economia informal que deveria ser tratada com mais cuidado pelo poder público. O DJ diz que ouve e é especialista em todos os gêneros, mas gosta mesmo de música brega, ouvindo muito Odair José, Amado Baptista e Zé Roberto. No fi- nal da entrevista, uma cliente achou um vinil de Chiquinha Gonzaga, a artista que tanto agitou a Praça Tiradentes, e é nossa musa. Salve Wilson,

salve Chiquinha, salve a música na Praça!

Salve Wilson, salve Chiquinha, salve a música na Praça! Clientes garimpam seus vinis. Contato para encomendas:
Salve Wilson, salve Chiquinha, salve a música na Praça! Clientes garimpam seus vinis. Contato para encomendas:

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Contato para encomendas: 21 7506-6295

Rio de Janeiro, Praça Tiradentes, maio-junho de 2012

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de sinalização da prefeitura, mas o que se vê é o mesmo projeto de desabitar o Centro e transportar a problemática à frente. Antes, o entorno era mais próximo, e a derrubada dos cortiços gerou as fave- las desta região: as primeiras da cidade. Hoje, a retirada dos moradores destas áreas funda os bair- ros maravilhas felizes do além-periferia. Nesta marcha progressista e civilizatória, a remoção da pobreza seria parte de um “trabalho sujo” necessário para se atingir as metas projetadas. Um processo que se repete continuamente em nosso território e que vem de muito antes de Pereira Pas- sos; desde a chegada dos portugueses, no século XVI, expulsando os índios da Guanabara, assim como na chegada da Corte Real, em 1808, toman- do os i-móveis da cidade para si, com o método sumário de carimbar nas portas PR - que signifi- cava “Príncipe Regente”, mas que logo caiu no entendimento do povo como “Ponha-se na Rua” ou “Prédio Roubado”. Hoje, a Secretaria Munici- pal de Habitação recorre a métodos semelhantes para marcar os imóveis que devem ser banidos do mapa da cidade.

marcar os imóveis que devem ser banidos do mapa da cidade. Em meio aos vultos urbanísticos

Em meio aos vultos urbanísticos trazidos pelos ventos dos megaeventos, a cidade se rein- venta e sempre se agiganta sob demandas, muitas vezes alheias à maioria da população, e sempre sob o ritmo da urgência, da necessidade, da força maior, do estado de sítio; que impõe com violên- cia transformações profundas na vida das pessoas e das dinâmicas sociais da cidade. Remoções, demolições, aterros e arrasamentos são as cic- atrizes que herdamos para inventar o espetáculo da Cidade Maravilhosa. E, muito antes disso, nos tempos precários, quando o Rio de Janeiro era internacionalmente conhecido como cidade da morte, colônia escravista portuguesa, totalmente desprovida de políticas de saneamento, higiene e saúde, o povo carioca se via como figuração de grandes espetáculos demolidores reformistas modernizantes.

Nos primeiros anos do século XX, o grande bota-abaixo da administração Pereira Passos, lan- çou o bordão “O Rio civiliza-se”, sob o qual de- flagrou-se uma agressiva campanha de releitura do espaço urbano, estruturada sobre quatro bases: es- quecer a sociedade tradicional, rasurar as marcas do popular, retirar a população de baixa renda do entro e recombinar atributos das grandes metró- polis. Agora, o século XXI apresenta seu novo Plano Diretor tecnológico, restaurando políticas do passado como um déjà vu de volta para o fu- turo. Os bota-abaixo dos prefeitos de ontem e de hoje e as transformações que se engendram nesses

processos guardam um inequívoco ingrediente militarista pela coerção com que migram vastos continentes humanos. É preciso reinventar as for- mas de se ocupar o espaço da cidade, uma ocu- pação que seja mais do corpo e menos da máquina.

uma ocu- pação que seja mais do corpo e menos da máquina. Os processos de reurbanização

Os processos de reurbanização do Centro, desde Pereira Passos, vêm extraindo o caráter habitacional e aplicando o caráter comercial e em- presarial à região. O bairro se torna um lugar de funcionários e não mais de moradores. Em muitos

casos, estas transformações estão atreladas às jus- tificativas dos grandes eventos. A grande emprei- tada que levou a cabo o projeto de demolição do Morro do Castelo foi a Exposição Internacional de comemoração do centenário da Independên- cia em 1922. Um megaevento que transformou

a cidade propondo profundas mudanças, que,

surpreendentemente, em poucos anos, perdeu seus maiores ícones, como a Porta Monumental

da Avenida Rio Branco, o Palácio das Festas, o

Theatro Cassino Beira Mar e o Palácio Monroe; todos demolidos para dar espaço a outras novas transformações urbanísticas redentoras ainda mais modernas.

Aqui tudo parece

Que era ainda construção

E já é ruína

Após a Exposição, a demolição do Morro do

Castelo prosseguiria lentamente até o final da dé- cada, deixando como marca uma extensa espla- nada, que permaneceria por muitos anos inteira- mente desocupada. O morro, por fim, desapareceu

da paisagem carioca, deixando como único resquí-

cio físico uma pequena ladeira que se inicia no Largo da Misericórdia, interrompida por um bar- ranco transformado em estacionamento. Além de abrir espaço para o progresso em linha reta, por sua topografia atrapalhar a esplanada moderna, o assassinato do Morro do Castelo tentava elimi- nar uma série de práticas sociais que andavam em desacordo com projeto moderno, disciplinar

e higienista, como cortiços, roças, terreiros, pros-

tíbulos, cartomantes, bruxas e tatuadores. Copa do Mundo e Olimpíadas são, agora, as bolas da vez. Com a força do capital expeculativo, o apelo ao orgulho nacional e a vontade de se expor e desfilar para o mundo, justifica-se o estado de sítio instau- rado pelas obras, quando as máquinas entram em ação

quase sem nenhum questionamento. Foi assim em 1922. É assim em 2012.

Vivemos no messianismo das grandes corporações.

Os super heróis playboys empresários pregam que só

o grande capital dos mega conglomerados, criados à

base de doutrina de choque, pode salvar a humanidade! Os surtos de transformações urbanísticas, violentas, impositivas surgem como uma grande brincadeira de quem olha de cima uma cidade de bloquinhos de ma- deira que imitam tijolos. Uma cidade simulacro, um SimCity em escala real. Hoje, planejamentos são fei- tos com imagens de satélite e “manchas urbanas”, com um olhar que não caminha no plano da cidade e olha tudo como um deus maiúsculo, distante e impiedoso.

A cidade como maquete, sem pensar nunca em quem

a habita. Assim, se dá a gentrificação: desprezando a vida urbana e edificando cidades que impressionam e oprimem as pessoas, criando grades, cancelas, barrei- ras, estrias de interdição, buracos profundos e torres al- tíssimas de especialização que não se intercomunicam.

tíssimas de especialização que não se intercomunicam. A estética da concentração de capital contamina a cidade.
tíssimas de especialização que não se intercomunicam. A estética da concentração de capital contamina a cidade.

A estética da concentração de capital contamina a cidade. Os tempos não favorecem a modéstia. O di- nheiro acumulado faz do espaço urbano o espelho de onde contempla a si mesmo. Quem não quiser sucum- bir, que cresça e apareça. Que se exiba, também, e que seja eficiente e lucrativo. Não aumenta a beleza, e sim

a visibilidade, que é um eufemismo para ostentação.

A delicadeza está em baixa. Neste baile, atua-lizado a

cada dia na vitrine-rua da cidade, as luzes se voltam para o monumental, e nós, moradores-platéia, deve- mos nos manter calados e comportados durante o es- petáculo. Para que o dinheiro se exiba, para que grite na cara da gente pelas ruas da cidade, é preciso que se escondam as pessoas. Os pobres se escondem por sua inadequação à estética do Plano Diretor, os ricos se escondem da cobiça e da miséria que produzem. Somos habitantes clandestinos de uma cidade escan- dalosa. Restam os pedestres, em sua humilde visibilidade, para nos lembrar de que as cidades foram feitas para

as pessoas.

em sua humilde visibilidade, para nos lembrar de que as cidades foram feitas para as pessoas.

oparrabal@gmail.com

EXPEDIENTE OPAVIVARÁ! AO VIVO!

Diretora Editorial OPHELIA PATRICIO ARRABAL

Redação: opavivara@gmail.com Classificados: 21 9733-9267

Editor-Chefe OPAVIVARÁ! E BERNARDO MOSQUEIRA

Design PAULINHA HUPE