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A Concepção de Metamodernidade Como Forma de Entendimento da Dinâmica das Poéticas de Vanguarda. Prof. Dr.

Jairo Nogueira Luna O termo metamodernidade não é de fato novo, nem também tem acepção única. Seu uso, porém, tem sido eventual, para não dizer casualístico. Algumas vezes tem sido usado no sentido de entender os metapoemas produzidos durante a vigência do Modernismo de 22, incluindo-se aí os manifestos oswaldianos. Foi eu, em 1986, quem primeiro utilizou o termo com um sentido mais estrito e com uma significação diferente do metapoema modernista. Escrevi variados textos com o propósito de sua definição, entre eles: “O que é Metamodernismo”, “De acervo à arsenal”, “Metamodernismo e Vanguardas Poéticas”, todos reunidos no meu livro “Participação e Forma: Algumas Reflexões sobre a função social da poesia”, Epsilon Volantis, 2001. O amigo, poeta, professor e teórico da literatura, Philadelpho Menezes trabalhou um pouco o conceito em seu livro “A Crise do Passado”, Experimento, 2001. O conceito que defende de Metamodernismo não é a de criação de alguma idéia de escola ou movimento literário, como o “ismo” pode deixar supor, mas sim uma estratégia de avaliação de leitura da produção poética contemporânea em uma visão prospectiva (“rockdriller” para parafrasear Pound) com relação à própria história da literatura, retomando aqui, num outro prisma uma imagem elliotiana. O contemporâneo é um conceito tão fugaz quanto impreciso, o contemporâneo é o presente inacessível, a rigor, e o passado mais próximo. A proximidade nos garante a impossibilidade da visão mais imparcial, mas é ledo engano supor que o distanciamento favoreça a visão coerente e livre de imparcialidades, tal visão, sabemos não existe. Desse modo o contemporâneo se modifica constantemente. Em 1992 era uma atitude contemporânea nas artes e na literatura criticar a verbosidade parnasiana, hoje isso não é. No século XVIII era contemporâneo falar mal dos excessos barrocos, hoje esse discurso não tem a mesma validade. Hoje é contemporâneo falar em Pós-modernismo, mas uma análise mais detalhada mostra incoerências nesse discurso, notadamente se pegarmos o ponto de vista neobarroco latino-americano de Lezama Lima, Irlemar Chiampi ou Haroldo de Campos. Neste âmbito a posição metamodernista é de constante avaliação do paradigma históricoartístico e literário em relação com o sintagma do discurso contemporâneo em busca de um eixo sincrônico, ou seja, descobrir as conexões ou links. Assim, um soneto de Cláudio Manuel da Costa tem mais a dizer sobre o conceito de brasilidade na literatura brasileira que vários poemas contemporâneos. Um poema de Gregório de Matos se ajusta coerentemente para releitura de poemas de Glauco Mattoso e Hilda Hilst. Descobrir as conexões é uma atitude que supera a diacronia periodizada das escolas literárias. Sousândrade tem tanto a se colocar ao lado de produções pós 1945 quanto tem o de se colocado como representante do romantismo do século XIX. Qorpo Santo é mais surrealista e, em certo sentido, autor de teatro do absurdo do que representante do teatro romântico. Assim, a primeira proposta do Metamodernismo é a superação dos limites da periodização literária em busca de sincronias que mostram as linhas de evolução e da criação literária através do tempo. A segunda proposta Metamoderna diz respeito direto a você que é poeta, pintor, ator, escultor, webdesigner, músico ou qualquer tipo de artista. Sua atitude criativa tem que 1

partir da necessidade de compreensão do seu espaço, da sua sociedade, cultura, de seu mundo e do que sua arte pode dizer a respeito de tudo isto. Neste prisma a arte que se faz no seu tempo não é apenas a arte do seu tempo, é um momento de uma linha que se movimente, se metamorfoseia constantemente. Lembro aqui, o conceito da física teórica de David Bohm, de Ordem Implícita e Explícita, que envolve o aparente e o real. O que vemos, num dado momento, é uma fração de uma estrutura mais coesa, que determina a forma, o conteúdo e mesmo as possibilidades de significação de um momento dado. Tomemos alguns poemas para exemplificar, começando com um poema de Oswald de Andrade, a “Biblioteca Nacional”:
biblioteca nacional A Criança Abandonada O Doutor Coppelius Vamos Com Ele Senhorita Primavera Código Civil Brasileiro A arte de ganhar no bicho O Orador Popular O Pólo em Chamas

Não é, ao meu modo de ver, um poema modernista tão somente, é também um poema visual. O que se vê, literalmente aí é um monte de livros, de títulos e assuntos variados formando uma pilha de livros, e se girarmos o poema em 90 graus, vemos uma secção duma estante de livros. As implicações críticas a respeito de leitura no Brasil e da situação de nossas bibliotecas é resultado direto dessa visualidade no poema modernista de Oswald. João Cabral de Melo Neto em “Num Monumento à Aspirina”, nos mostra as implicações de nossa visão (“ela reenfoca....o borroso”) contemporânea com o modo de ver barroco (“Convergem: a aparência e os efeitos”): Claramente: o mais prático dos sóis, o sol de um comprimido de aspirina: de emprego fácil, portátil e barato, compacto de sol na lápide sucinta. Principalmente porque, sol artificial, que nada limita a funcionar de dia, que a noite não expulsa, cada noite, sol imune às leis de meteorologia, a toda hora em que se necessita dele levanta e vem (sempre num claro dia): acende, para secar a aniagem da alma, quará-la, em linhos de um meio-dia. *

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Convergem: a aparência e os efeitos da lente do comprimido de aspirina: o acabamento esmerado desse cristal, polido a esmeril e repolido a lima, prefigura o clima onde ele faz viver e o cartesiano de tudo nesse clima. De outro lado, porque lente interna, de uso interno, por detrás da retina, não serve exclusivamente para o olho a lente, ou o comprimido de aspirina: ela reenfoca, para o corpo inteiro, o borroso de ao redor, e o reafina. Guillaume Apollinaire, famoso nas vanguardas poéticas pelos seus caligrammes, escreve o poema “Viva a França”, retrato no sentido mais literal do termo do arco do triunfo, ligando aqui a capacidade da fotografia com as palavras, num processo de ajustamento entre desejo de modernidade e os recursos tecnológicos: VIVA A FRANÇA! ELE DORME NO SEU PEQUENO LEITO DE SOL DADO MEU POETA R E S S U S C I T A D O Ezra Pound, nos seus “Cantares” (“The Cantos”), XCIII, por exemplo, constrói uma escritura poética entre hieroglifos egípcios, ideogramas orientais, alfabeto grego, recriando a linguagem poética para um status acima da cultura limitada do espaço-tempo, num amálgama sincrônico da poesia através dos tempos e das escritas. Neste aspecto é fundamental o repertório do artista estar atualizado e em constante ampliação e de forma a compor com o repertório do leitor uma área de intersecção comunicante que abra possibilidades de reinterpretação crítica em ambos os repertórios. A metamodernidade se funda também no âmbito da busca das conexões em sentido das trocas simbólicas. E ao tratarmos dessa questão, convém lembrar que nem todo símbolo é verbalizado ou pode ser verbalizado completamente sem perdas no seu processo de tradução intersemiótica: símbolos visuais, símbolos imagéticos, símbolos sonoros, entre outros constituem um amplo espectro de possibilidades comunicativas das quais o estudo cinético, o estudo psicanalítico e o estudo estrutural podem dar contribuições interessantes. Neste processo de trocas simbólicas, a literatura pode encerrar conexões com símbolos de natureza não verbalizada, cujo leitura só é possível se nos colocamos na posição crítica de abrir as possibilidades ao entendimento do processo comunicacional em seu nível mais amplo. Quando Fernando Pessoa estrutura as partes de seu “Mensagem” em acordo com as partes do brasão de armas de Portugal está trabalhando neste aspecto, assim como Osman Lins e seu “Avalovara” e a relação entre o quadrado mágico e a espiral para roteiro de 3

leitura na ordenação de seus capítulos. Esses são exemplos explícitos, mas existem outros, muitos outros, cujas relações são implícitas e cabe ao crítico descobrir, como por exemplo as analogias entre as batalhas descritas em Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano e o jogo de xadrez, conforme demonstramos em trabalho apresentado na SBPC de 2005, 57.ª reunião, e mais recentemente em nossa tese de pós-doutoramento quando demonstramos as analogias entre o conjunto de relações do sociograma composto com as citações de nomes de contemporâneos na poesia lírica de Gonçalves de Magalhães e Manuel de Araújo PortoAlegre no âmbito da política imperial e a estrutura do brasão do império. A postura metamoderna implica necessariamente em constante reavaliação dos cânones literários e artísticos e a revisão de obras, deixando de lado, ou deixando de considerar como primeiro aspecto o sucesso ou o fracasso do autor em termos de recepção crítica. Não considero, porém, que o estudo da estética da recepção não seja válido, pelo contrário, o é extremamente, na medida em que busca observar a partir da recepção crítica e de leitura quais as relações simbólicas e culturais que determinaram o modo como tal recepção se deu, descobrindo assim as contradições e as afirmações implícitas neste processo de leitura. Por fim, a metamodernidade se engaja na luta sócio-cultural e ideológica, no sentido de que o artista deve se colocar efetivamente não em termos de partido ou ideologia, mas em termos de valores humanísticos e dialéticos. As ideologias se modificam de acordo com contextos de época, presas de situações contraditórias. Já sabia Marcuse que toda revolução nasce traída, vide Eros e Civilização, por exemplo. Ao artista engajado no sentido metamoderno, a arte se realiza neste aspecto através da discussão entre o discurso explícito e os símbolos implícitos, superando slogans, lemas, propostas datadas e contextualizadas em momentos definidos. O sentido humano está além... Além inclusive de aspectos religiosos, em termos de Metamodernidade, a crença do artista não deve ser seu norte poético, mas antes ou apenas um elemento no plano das possibilidades simbólicas. Poucos poemas podem ser mais engajados do que “Ao Poder Público” do parnasiano Raimundo Correia: Ao Poder Público Tu que és da direção das massas investido, tu que vingas o crime e que o povo defendes, e executas a lei penal, e do bandido no topo de uma forca, o cadáver suspendes; Tu que tens o canhão, a tropa, a artilharia, tu mesmo és quem fuzila a inerme poupulaça; incurso está também no código e devia pra ti também se erguer uma fôrca na praça ................................................................ Deste modo artista, crítico teórico, homem político, espírito religioso, bem com toda e qualquer possibilidade de dimensão ideológica do homem se configuram no artista metamoderno como elementos constitutivos de um arcabouço para fins de ressignificação. O poema é produto do trabalho criativo do artista com a linguagem, sal criação será tanto mais significativa na medida em que conhecer e souber ultrapassar os limites ideológicos 4

sustentados pelas condições de espaço e tempo, vendo e revelando a ordem implícita em seu momento holográfico num universo – que como é o da arte – de múltiplas dimensões.

REFERÊNCIAS: ANDRADE, Oswald de. Poesia Reunida. Civilização Brasileira, 1980. APOLLINAIRE, Guillaume. Álcoois e Outros Poemas. Trad. Daniel Fresnot. São Paulo, Martin Claret, 2005. LUNA, Jayro. Participação & Forma. São Paulo, Epsilon Volantis, 2001. ________. Bagg’Ave. São Paulo, Edição do Autor, 1984. ________. Ópium. São Paulo, Edição do Autor, 1985. ________. Metamorphoses n’Ovídio. São Paulo, Edição do Autor, 1986. MENEZES, Philadelpho. A Crise do Passado: Modernidade, Vanguarda, Metamodernidade. São Paulo, Experimento, 1994. NETO, João Cabral de Melo. Antologia Poética. São Paulo, José Olympio, 1984. POUND, Ezra. Os Cantos. Trad. José Lino Grunewald. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.

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